Tentativa de ingresso de mulheres em idade adulta no ensino superior: dificuldades, desafios e resistências
Discente: Cícera Lílian Alves Lopes; Orientador: João Batista de Menezes Bittencourt.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS SOCIAIS
Cícera Lílian Alves Lopes
TENTATIVA DE INGRESSO DE MULHERES EM IDADE ADULTA NO ENSINO
SUPERIOR: DIFICULDADES, DESAFIOS E RESISTÊNCIAS.
Maceió
2016
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS SOCIAIS
Cícera Lílian Alves Lopes
Monografia apresentada ao curso de Ciências
Sociais da Universidade Federal de Alagoas,
como requisito para a conclusão do curso de
Licenciatura em Ciências Sociais.
Orientador: Professor Dr. João Batista de
Menezes Bittencourt
Maceió
2016
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
CURSODE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS SOCIAIS
Cícera Lílian Alves Lopes
TENTATIVA DE INGRESSO DE MULHERES EM IDADE ADULTA NO ENSINO
SUPERIOR: DIFICULDADES, DESAFIOS E RESISTÊNCIAS.
Monografia apresentada ao curso de Ciências
Sociais da Universidade Federal de Alagoas,
como requisito para a conclusão do curso de
Licenciatura em Ciências Sociais.
Aprovada em 13 de janeiro de 2016.
________________________________________________________
Prof. Dr. João Batista de Menezes Bittencourt (Orientador)
________________________________________________________
Prof. Dr. Amaro Braga Xavier
________________________________________________________
Profª. Dra. Marina Melo
Maceió
2016
DEDICATÓRIA
Dedico esta monografia a minha mãe que sempre acreditou em meu potencial.
Também ao meu noivo, Laercio Bezerra, que esteve comigo, incentivando-me a nunca desistir
dos meus sonhos. Venho homenagear a minha avó, Dona Heliene, senhora semianalfabeta que
comemora a realização de ver a primeira neta formada em uma universidade federal. Por fim,
agradeço aos meus colegas de classe por todo auxílio a mim dedicado durante a graduação.
AGRADECIMENTOS
Primeiramente, bendigo a Deus por tamanha benção.
Agradeço aos meus professores, ofereço especial gratidão, ao meu orientador João
Bittencourt, por me ter transmitido conhecimentos científicos e cívicos que tanto contribuíram
para o meu crescimento humano e profissional.
A todos os membros do Instituto de Ciências Sociais. Igualmente agradeço a CAPES
pelo financiamento das pesquisas que realizei. À Universidade Federal de Alagoas venho
agradecer pelo auxílio concedido às viagens para apresentação de trabalho em congressos e
seminários.
Não poderia esquecer-me de agradecer a toda equipe que compôs o PIBID
(Programa Institucional de Bolsa a Iniciação Docente) e ao Conexões dos Saberes, os quais
foram fundamentais para o meu desenvolvimento acadêmico. Trabalhando em equipe, eu
aprendi na prática, todo o conteúdo acerca do processo de socialização. Notei a importância
do estudo da Sociologia para a compreensão das relações sociais. No exercício do trabalho em
grupo, alguns colegas se transformaram em amigos íntimos, aos quais desejo permanecer
unida.
E, principalmente, as entrevistadas que aqui denominei com nome de flores, as
agradeço pela abertura no diálogo, disponibilidade de horário e sensibilidade na exposição dos
fatos, com bom grado contribuíram para o estudo.
Epígrafe
Maria, Maria
É um dom, uma certa magia,
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta
Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta.
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida.
(Maria, Maria - Fernando Brant e Milton Nascimento)
RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo analisar as mulheres com mais de quarenta anos,
que estudam para o ENEM, no curso gratuito Conexões dos Saberes, que integra o programa
de extensão realizado pelos alunos dos cursos de licenciatura da UFAL (Universidade Federal
de Alagoas), oferecido ao público de baixa renda. Busca-se compreender as motivações que
as levaram ao afastamento da instituição de ensino por longos anos e entender a influência da
dominação masculina nas histórias de imposições de prioridades próprias do papel social da
mulher. As mulheres estudadas relatam as motivações que as levaram a priorizar as atividades
domésticas, em detrimento da dedicação aos estudos. Autores como Pierre Bourdieu (1996),
Nobert Elias (1994) e Anthony Giddens (1993) nos ajuda a pensar a dominação masculina na
contemporaneidade, como se estrutura as relações de poder no interior da instituição familiar,
os padrões estipulados na interação entre os indivíduos e a sociedade e as consequências da
desigualdade de gênero.
Palavras-chave: Mulher, desigualdade de gênero, ensino superior.
RÉSUMÉ
Cette étude vise à analyser les femmes de plus de quarante ans,dont l'étude pour l'ENEM dans
les cours libre Connexions de la connaissance, qui intègre le programme l'extension réalisée
par les étudiants des cours d'enseignement de l'UFAL (Université fédérale d’Alagoas), qui est
offert au public de la mauvaise situation financière. Ces évaluations visent à comprendre les
motivations qui ont conduit ces femmes à l'éloignement de l'établissement d'enseignement
depuis de nombreuses années et de comprendre l'influence de la domination masculine dans
les histoires des impositions de propres priorités du rôle social de femme. Les femmes
étudiées ont rapporté les motivations qui les ont conduit à prioriser les activités domestique,
au lieu de dévouement aux études. Des auteurs tels que Pierre Bourdieu (1996), Norbert Elias
(1994) et Anthony Giddens (1993) nous aide à réfléchir sur la domination masculine à
l'époque contemporaines, sur la façon comment les relations de pouvoir relations sont
structurée au sein de l'institution familiale, sur les normes stipulées dans l'interaction entre les
individus et la société, et les conséquences de l'inégalité des sexes.
Mots-clés: femmes, l'inégalité des sexes, l'enseignement supérieur.
SUMÁRIO
Introdução ................................................................................................................................. 10
Capítulo I .................................................................................................................................. 12
Refletindo sobre a identidade de gênero ............................................................................... 12
1. 1 Mulheres da contemporaneidade .................................................................................... 15
1. 2 Mudanças na balança dos gêneros .................................................................................. 18
Capítulo II ................................................................................................................................. 21
As mulheres na educação brasileira ...................................................................................... 21
2. 1 Estatísticas educacionais em Alagoas............................................................................ 25
Capítulo III ............................................................................................................................... 31
Trajetórias de Marias ............................................................................................................ 31
3. 1 Relatos da relação de poder entre os gêneros ................................................................ 32
3. 2 Transformações, continuidades e os desafios da educação feminina............................44
3. 3 Conclusão....................................................................................................................... 47
Referência ................................................................................................................................. 52
10
Introdução
Através da pesquisa da realidade vivenciada por mulheres em idade adulta que visam
ingressar no ensino superior na cidade de Maceió, serão refletidos os desafios enfrentados
pelo gênero feminino. Visa-se compreender quais são os principais obstáculos existentes para
formação no ensino superior entre as mulheres de idade adulta. Para tanto, será averiguado o
nível de influência masculina nas decisões do campo educacional entre as mulheres casadas,
além de se observar a influenciado fator econômico como possível empecilho para a
continuidade dos estudos, se tratando de mulheres de baixa renda, entre outras causas e
motivações que repercute na interrupção da trajetória escolar.
Ao longo deste trabalho, serão levantados aspectos teóricos que debatem a
discriminação sofrida pelas mulheres das seguintes formas: autores que debatem questões de
gênero, o cenário da educação feminina e o relato das mulheres que confrontaram a estrutura
da dominação, a fim de responder à seguinte perguntam: “Quais são as dificuldades e
possibilidades encontradas entre as mulheres adultas que querem ingressar no ensino
superior?”.
Sobre a técnica de coleta de dados utilizada na metodologia qualitativa, foi escolhida a
entrevista em profundidade, seguindo roteiro semiestruturado. A técnica tem como vantagem
proporcionar a inclusão de questões no decorrer da entrevista. A investigação seguirá os
critérios de fiabilidade através da coerência entre os objetivos da investigação e os dados
recolhidos.
Na pesquisa qualitativa será aprofundada a análise da complexidade do problema
social na hierarquia de gêneros, lançando luz sobre as ocultações envolvidas no emaranhado
dos pensamentos, visando encontrar as causas que levam a ideia de masculinidade se
transformar em empecilho para a continuidade dos estudos das mulheres após o casamento.
Depois de expor as problemáticas das entrevistadas, o conhecimento da realidade social será
feito o cruzamento entre as teorias e a empiria.
Por meio do método da entrevista em profundidade, foi entrevistado um grupo de
mulheres que faz parte de um programa de extensão, na Universidade Federal de Alagoas,
programa intitulado “Conexões dos Saberes” oferecido ao público vindo de escolas públicas e
pertencentes às camadas populares. A técnica adotada tem como intuito estabelecer
11
parâmetros através de casos singulares que estabelecem articulações com a realidade coletiva,
ou seja, por meio da coleta de amostras micros, abrangemos os fenômenos sociais. A memória
das entrevistadas relatam as experiências vivenciadas dentro de uma problemática social. A
interpretação dos processos recolhidos nas investigações é realizada pelo pesquisador que
deve organizar os dados sistematizando, a fim de utilizar o material no aprofundamento das
explicações e reflexões acerca das possíveis soluções. Este trabalho exige o rigor teórico e
metodológico na elaboração do estudo por meio da interpretação dos dados recolhidos
empiricamente.
A pesquisa exibe os desafios enfrentados por um grupo multiplamente estigmatizado.
Em primeiro lugar, por se tratar de mulheres; em segundo, pela faixa etária, mulheres em
idade superior a média de estudantes; em terceiro, por serem negras e, por último, por serem
de baixa renda. Apesar dos aspectos que as coagem, essas mulheres elaboraram estratégias de
resistência para burlar a dominação, em um processo de negociação simbólica.
12
Capítulo I
Refletindo sobre a identidade de gênero
Como afirma Scott (1989), as palavras são carregadas de sentido histórico contido na
imaginação, o sentido gramatical das palavras simultaneamente expõe significações. As
palavras utilizam um sistema de definição que distinguem os sentidos após acordos sociais
para distinguir e agrupar as categorias de percepção. Ao estudar o simbolismo sexual, a autora
descobre que o primeiro uso do termo gênero foi feito por feministas americanas que
desejavam se distanciar da distinção por sexo levando em consideração unicamente os
aspectos biológicos. Nesse período, as feministas pretendiam pensar no gênero de forma
relacional e analítica, assim, o gênero feminino seria compreendido em comparação ao gênero
masculino, nunca de modo isolado. Para pensar o gênero oprimido seria necessário antes
analisar o gênero opressor. No sentido semântico da linguagem, a palavra “gênero” representa
a classificação que distingue as espécies humanas, animais, literárias, musicais, entre outros
tipos.
Gênero: categoria que indica por meio de desinências uma divisão dos
nomes baseada em critérios tais como sexo e associações psicológicas.
Há gêneros masculino, feminino e neutro. (Dicionário Aurélio
Buarque de Holanda).
Já o gênero como categoria de análise realizada por feministas tentou caracterizar a
mulher escrevendo uma nova história da humanidade. “O gênero era um termo proposto por
aquelas que defendiam que a pesquisa sobre mulheres transformaria fundamentalmente os
paradigmas no seio de cada disciplina.” (SCOTT, 1998). Com isso, pesquisadoras feministas
acreditavam que ao alargar a importância da mulher na história, conduziriam a redefinição da
noção tradicional. Essa reformulação se daria por meio do destaque da atuação política e
pública das mulheres ao longo da história, a fim de reescrever a história da humanidade,
visando reconhecer a importância feminina nos grandes acontecimentos, em contraposição ao
protagonismo dos homens em cena.
O gênero parece integrar-se na terminologia científica das ciências
sociais e, por consequência, dissociar-se da política – (pretensamente
escandalosa) – do feminismo. Neste uso, o termo gênero não implica
necessariamente na tomada de posição sobre a desigualdade ou o
poder, nem mesmo designa a parte lesada (e até agora invisível).
Enquanto o termo “história das mulheres” revela a sua posição política
ao afirmar (contrariamente às práticas habituais), que as mulheres são
sujeitos históricos legítimos, o “gênero” inclui as mulheres sem as
13
nomear, e parece assim não se constituir em uma ameaça crítica.
(SCOTT, 1989, P. 06)
O gênero tem como finalidade classificar os indivíduos em categorias de percepção.
O termo é igualmente usado para nomear as relações entre os sexos rejeitando as designações
biológicas, ou seja, indica a construção social da identidade que envolve a ideia de papel
social dos homens e papel social das mulheres. “O gênero é, segundo essa definição, uma
categoria social imposta sobre um corpo sexuado.” (SCOTT, 1989).
A partir do gênero, a cultura designa o papel social dos sujeitos juntamente com as
características comportamentais. A construção simbólica da diferenciação de conduta entre
homens e mulheres é transmitida hereditariamente no processo educacional, compartilhada e
interiorizada, até ser naturalizada a classificação que não se esgota nos fatores fisiológicos.
Ao longo da história o gênero atravessou modificações ideológicas, a ótica de percepção
sobre as atribuições de cada gênero está constantemente recebendo novas roupagens.
As ideologias devem a sua estrutura e as funções mais específicas às
condições sociais da sua circulação, quer dizer, às funções que elas
cumprem, em primeiro lugar para os especialistas em concorrência
pelo monopólio da competência considerada (religiosa, artística, etc.)
e em segundo lugar e por acréscimo para os não-especialistas. Ter
presente que as ideologias são sempre duplamente determinadas, que
elas devem as suas características não só aos interesses das classes ou
das facções de classes que elas exprimem (função sóciodiceia), mas
também aos interesses específicos daqueles que as produzem e à
lógica específica do campo de produção (...). (BOURDIEU, 2004, p.
13)
A sociedade constrói as hierarquias sociais baseadas nas simbologias existentes na
estrutura social. A desigualdade de gênero é frequentemente naturalizada conforme são
estabelecidas ideologias que manipulam o real a favor de interesses de um grupo. As
ideologias são formas de manifestação do poder simbólico. O poder simbólico é constituído
após conflitos de grupos antagônicos que colidem na interpretação do real.
Na cultura vigente, com traços tradicionais, compete ao papel social da mulher prestar
assistência ao homem, semelhante à atenção concedida aos filhos, funções vistas como
fundamentais no matrimônio. Essas práticas expõem a mentalidade que é derivada de uma
tradição, na qual as próprias mulheres reproduzem significações reconhecidamente machistas.
Mesmo no século XXI temos naturalizado a imagem da mulher como auxiliar e servidora do
homem.
14
A tarefa doméstica ainda é entendida como parte das obrigações da mulher,
independente do fato delas trabalharem do mesmo modo que o seu parceiro. A opção por
jornadas duplas tem como intuito a busca por autonomia. Em contrapartida, a mulher que
decidir trabalhar ou estudar dificilmente se verá livre de cumprir as obrigações
desempenhadas pelas típicas secretárias do lar. Ainda que haja apoio do parceiro pela
profissionalização, isso não a isenta da tarefa de cuidar da casa e dos filhos, tampouco
significa a redistribuição de tarefas de forma mais igualitária. São raros os casos, em que após
a mulher ser inserida no mercado de trabalho há a redistribuição de tarefas domésticas.
Conforme será notado no terceiro capítulo, em que as entrevistadas relatam as dificuldades
em adaptar a dupla jornada.
No que se refere às expectativas comportamentais atribuídas às mulheres, vê-se que,
em cada sociedade, variam de acordo com o papel social que a mulher ocupa e com a ideia do
gênero feminino criada no imaginário coletivo de cada cultura. Ou seja, o papel da mulher e
suas características comportamentais sofrem mutações a partir do contexto social, político,
religioso e histórico, variando segundo a compreensão local da figura criada sobre a
feminilidade. Cada sociedade determina os deveres e direitos da mulher, além disso, dita no
que toca aos gostos e hábitos de cada gênero.
A religião católica é predominante no país. Os valores conservadores defendidos pela
igreja são, por vezes, utilizados como ferramenta de legitimação da dominação masculina,
dessa maneira, a distribuição de poder entre os gêneros, na estrutura familiar, acontece de
modo desigual. As crianças são ensinadas a reproduzirem o modelo tradicional, em que o
homem aparece como figura central. Pode-se observar a distribuição de lugares na mesa,
geralmente o homem ocupa a ponta simbolizando a liderança da família. Desde a instituição
familiar até as outras instâncias da sociedade se reflete a desigualdade de gênero.
Vemos rotineiramente que a mulher ao alcançar significativos recursos econômicos
contrata uma faxineira para realizar as obrigações conferidas àquela, como uma forma de
compensação pela ausência no lar. Do mesmo modo, o salário da mulher também é usado
para contratação de babá.
São raros os casos, encontrados na sociedade, no qual a mulher atua no mercado de
trabalho, mantém as finanças da casa e o homem desempenha as tarefas domésticas. Onde
aconteceu essa estrutura irregular, entendendo regularidade no sentido da repetição frequente,
na direção contrária às normas padrões, o homem acaba se tornando motivo de gozação. Na
15
tentativa de evitar exposições da chamada inversão de papeis, a família oculta a profissão
atípica. A revelação pode ocasionar prejuízos na socialização dos filhos com as demais
crianças e adolescentes, a não aceitação dentro do próprio contexto familiar e difamação da
imagem de masculinidade. É comum o sentimento de vergonha e medo de expor a figura do
homem como dono de casa, seja essa situação permanente ou temporária. Geralmente essa
substituição é provocada pelo fenômeno do desemprego.
1. 1 Mulheres da contemporaneidade
A idade na qual as mulheres têm se casado na contemporaneidade está sendo, cada
vez mais, na fase adulta e após se formarem. A prioridade dedicada para formação
profissional em detrimento da união matrimonial, que é adiada, pode representar o quanto as
mulheres têm ansiado por autonomia. Recusam-se a repetir as escolhas familiares da geração
anterior. Negam-se a viver tal qual a figura da mãe submissa. “Antigamente, deixar a casa
significava para todas, com exceção de uma pequena proporção de mulheres, casar-se.”
(GIDDENS, 1993, p. 63). As mulheres de décadas anteriores, quase sempre, foram inseridas
na sociedade por intermédio da ligação com seu parceiro, o casamento representava o ritual de
passagem à vida adulta. O marido vem a ser, neste cenário, o receptor do suporte afetivo que
foi transferido do pai. Já para o homem, a esposa dará continuidade às tarefas cuidadosas que
sua mãe exercia.
O casamento mantém o seu sentido de realização pessoal para parte das mulheres
modernas, mas com um diferencial, mesmo entre as casadas o padrão de casamento
tradicional não mais as atraem. A autonomia da mulher se desenvolveu significativamente e
as jovens se distanciam da figura de sua mãe, ou seja, o comportamento tradicional no qual as
mulheres se dedicavam exclusivamente às tarefas domésticas tem sido reformulado. Na
modernidade, embora as mulheres ainda desejem se casar, não necessariamente se restringem
tão somente as atividades domésticas, semelhante ao modelo histórico materno da própria
família de origem, na qual simboliza uma domesticidade confinada.
Para este grupo, trabalhar e ser remunerada já faz parte do cotidiano nos centros
urbanos, mas ainda com tímidas pretensões de crescimento profissional. Enfrenta a dura
16
desvalorização do trabalho feminino e percorre árduos caminhos até o reconhecimento de
suas competências, isso quando alcançado.
É no conjunto de confrontos e de alterações no interior da família, trabalho e
casamento, que encontramos o movimento pioneiro de mudanças na identidade dentro do jogo
simbólico. Os adolescentes são reorganizadores das dinâmicas sociais em seus processos de
redefinição, neste caso, sobre os sentidos embutidos no vínculo emocional do casal e sua
manutenção no dia-a-dia. Não mais é o casamento que os mantém unidos, mas a relação
estabelecida entre ambos que fixa a continuidade da interação íntima. Conforme define
Giddens (1993) ao desenvolver o conceito de relacionamento puro, que vem a ser o modo de
convívio baseado no laço a partir do que cada envolvido tem a oferecer e a ganhar na relação,
o relacionamento se mantém somente enquanto ambas as partes estão satisfeitas a ponto de
permanecerem unidas. Essa revolução do comportamento revela a ruptura dos padrões
comportamentais, a partir de então a relação tem base na satisfação recíproca, são as ações de
afabilidade que garantirão a durabilidade do relacionamento.
Anthony Giddens, na mesma obra, também trata da democratização do
relacionamento, na modernidade. Benefício este conquistado pelas mulheres na esfera da
intimidade e expandido à esfera pública. O conceito de democracia aqui empregado diz
respeito ao sentido de vínculos assegurados na liberdade e na igualdade, no qual os sujeitos
possam desenvolver potencialidades e serem respeitados em seu processo de aprendizagem.
Além disso, as decisões devem ser discutidas conjuntamente, a fim de negociar as
possibilidades visando sempre o bem comum. No equilíbrio dos poderes entre os envolvidos
que tem interesses antagônicos, deve haver a aceitação da opinião após a escuta; aliados,
ambos se fortalecem para atingirem os objetivos firmados conjuntamente.
Na obra de Dias (2013) a liberdade é descrita como premissa dos direitos humanos, o
princípio da autonomia trata da autodeterminação dos sujeitos para deliberar e atuar. Somente
se justifica a limitação da autonomia quando o indivíduo põe em perigo a liberdade dos
demais. A liberdade desmedida não se caracteriza em autonomia, a ausência de limites já se
aproximaria da libertinagem. A autonomia entre iguais deve garantir o direito de escolha,
limitando o exercício abusivo da liberdade de um cidadão que possa colocar em risco a
autonomia dos demais. Ser livre é ser autor da própria história, gozando de sua independência
baseada no princípio de igualdade e liberdade.
17
Sendo assim, entende-se que a relação matrimonial envolve política no que tange as
relações de distribuição de poder em forma de governo, que pode, na prática, se aproximar
dos princípios democráticos ou se assemelhar a um governo tirano. A relação do casal
consiste em relação social, envolve negociações de poder, mas deve, sobretudo, respeitar os
princípios de igualdade e de liberdade, conforme consta nos direitos humanos.
Como defendeu Simmel “A plena liberdade de cada um só pode se dar em uma total
igualdade com a liberdade do outro.” (SIMMEL, 2006, p. 94). Segundo o autor os indivíduos
tem interesse visceral de impor a própria vontade em detrimento dos demais indivíduos.
Ocorre que cada sujeito impõe a sua própria concepção de realidade fazendo com que as
tensões estejam intrínsecas aos processos de interação.
Os relatos empíricos, presentes na pesquisa, comprovam a lógica binária, a qual as
relações matrimoniais envolvem aspectos de amor e conflito. Tal ambivalência nos indica que
o vínculo afetivo atravessa processos de afeto e complementação mútua, paradoxalmente,
desenvolve reações de força no interior do conjunto de pressões. Nenhuma relação social é
totalmente harmônica, uma vez que as interações são dinâmicas, atravessam constantes
mutações.
A ideia de gênero feminino e masculino é construída com base no processo de
negociação conflituosa. Os papeis de cada gênero são ponderados dentro do padrão
comportamental criado a partir da identidade sexual, dessa forma, cada indivíduo controla a
sua conduta de acordo com o seu gênero. As normas de conduta vão desde o vestuário
passando por todos os aspectos da aparência até as ações, de forma que as tomadas de
posições são organizadas de modo tolerável socialmente. Aqueles que se negarem a seguir o
modelo do gênero serão constantemente questionados pela sociedade.
Na modernidade as relações conjugais vêm se democratizando à medida que as
mulheres estão conquistando sua participação no planejamento do lar, combatendo as
violências emocionais e opressivas. Os direitos são componentes primordiais para legitimação
das habilitações das mulheres, junto com os deveres, delimitam a estrutura normativa que tem
como objetivo manter a ordem; ocorre que os direitos e deveres estão em constantes
mudanças, exige reflexão contínua para reelaboração que reflitam as mudanças contextuais ao
longo do tempo.
18
Dualismo de gênero caracteriza as mulheres como seres emocionais, enquanto os
homens são vistos como seres mais racionais; desta forma, a razão e a emoção são colocadas
uma em oposição à outra. Por outro lado, a razão e a emoção estão intimamente ligadas,
podemos analisar racionalmente a emoção assim como também se pode verificar a emoção
contida na racionalidade. Avaliar estes aspectos nos induz compreender o comportamento
político existente no interior das relações conjugais, nas quais o homem é visto como superior
em razão da sua capacidade racional e a mulher subjugada em consequência da sua
emotividade.
1. 2 Mudanças na balança dos gêneros
As mulheres aqui estudadas estão inseridas em uma sociedade onde existe forte
coerção da dominação masculina, mas elas possuem alto grau de dissociação conforme
priorizam o “eu” e se distanciam dos padrões sociais do “nós”, caminham além do formalismo
desafiando a ordem invisível e remodelando a estrutura social em seu processo dinâmico. São
comumente enquadradas no conceito de anomia moral, em razão da incompatibilidade de suas
funções com o habitus do grupo do qual faz parte. São rotuladas como indivíduos desviantes,
outsiders, pois não se enquadram no padrão normativo, fogem da regularidade ligadas as
imposições sociais.
Com base no construtivismo social, Bourdieu (2002) escreveu a respeito da dominação
masculina. Abordou a naturalização da dominação masculina na sociedade, fruto de um
processo histórico reproduzido por gerações, passível de mudança gradativa realizada na
história de rompimento com os princípios tradicionais enraizados nas estruturas patriarcais
que exercem violência simbólica através das instituições interligadas, são elas a família, a
religião e escola.
De acordo com Bourdieu (2002) a dominação masculina situou o gênero masculino
em um patamar superior ao feminino, subjugando e limitando a atuação feminina, designa as
mulheres tarefas de auxílio ao homem, sempre em posição de desvantagem e delimitando a
liberdade. A posição de inferioridade feminina reduziu sua área de atuação ao espaço
doméstico, enquanto ao homem foi reservado o espaço público. Os direitos das mulheres
foram expressivamente reduzidos; oprimidas pela tutela dos maridos, não usufruíam de
19
autonomia. O autor defende a mobilização que caminhe para a orientação das mulheres,
potencializando nelas a capacidade de agentes construtoras da história, neutralizando assim o
conservadorismo; esse processo se daria por reformas jurídicas. As lutas se dariam de casa até
as fábricas com interesses específicos de se impor diante dos privilégios masculinos tidos
como naturais.
Também os homens foram submetidos à divisão social do trabalho sem consulta
prévia, sem eles estarem em comum acordo. As estruturas estavam definidas antes que
homens e mulheres tivessem nascidos, precedem os tempos mais remotos. A dominação
masculina não foi uma decisão acordada entre os homens, na verdade, foi construída de modo
coletivo, negociada, permitida e aderida nos hábitos. A dominação foi formada no interior da
sociedade, do mesmo modo que ocorre com o desenvolvimento dos costumes, não de maneira
deliberativa.
Capital simbólico, conceito desenvolvido por Bourdieu (2004), colabora na
compreensão da divisão de categorias hierárquicas presentes na estrutura social cognitiva. O
conceito trata da ordem hierarquizada pelo status, prestígio social, que estabelece níveis de
diferenciação reconhecidos nas práticas das atividades e relações sociais. Ou seja, o nível de
capital simbólico determinará as relações de poder e de dominação como, por exemplo, no
âmbito do gênero.
Transformações nas estruturas sociais podem ocorrer quando acontece a reformulação
das ideias pelo poder simbólico, para tanto, é preciso que se modifiquem as formas de
pensamento e, só então, ocorrerão as mudanças nas práticas. A redistribuição de poder, dessa
vez de forma mais igualitária, será possível quando o conhecimento de uma nova forma de
pensar provoque questionamentos sobre a estrutura hierarquizada, assim se reivindicará os
direitos dos grupos dominados buscando superar as concepções discriminatórias até então
naturalizadas. Ocorre que a classificação e hierarquia dos grupos tocam nos aspectos
políticos, a conquista pelo direito à igualdade se dá em meio ao antagonismo das classes,
agentes localizados em pontos menos favorecidos no espaço social devem reivindicar os
direitos básicos, como o acesso à educação de qualidade, dos quais a classe privilegiada
usufrui.
Dias (2013) afirma que “O poder sempre implica em relação, é a capacidade de
decisão sobre o outro. O poder constitui uma relação social.”. Para que o homem exerça poder
20
sobre a mulher é preciso existir a permissão, o conformismo, a obediência ou relação de
dependência que determine a conduta dela. Quando a mulher não mais se deixar ser
dominada, o homem deixará de coagi-la ou persuadi-la, pois o poder somente é legítimo
quando aceito; afinal, constitui uma relação entre os envolvidos. Conforme aumenta a
resistência da dominada, logo diminui a força da ordem do dominante.
Que o poder não é algo que se adquire, arrebate ou compartilhe, algo
que se guarde ou deixe escapar; o poder se exerce a partir de números
pontos e em meio a relações desiguais e móveis; que as relações de
poder não se encontram em posição de exterioridade com respeito a
outros tipos de relações (processos econômicos, relações de
conhecimentos, relações sexuais), mas lhe são imanentes; são os
efeitos imediato das partilhas, desigualdades e desequilíbrio que se
produzem nas mesmas e, reciprocamente, são as condições internas
destas diferenciações.”. (FOUCAULT, 1999, p.89)
Foucault trata como a repressão na família conjugal se articula pela correlação entre
poder e desejo. Entende-se poder como algo que se exerce no jogo de afrontamento, consiste
no domínio que constitui a estrutura complexa formada por estratégias de dominação, se
reproduz a todo instante em cada relação social. O poder é o efeito da desigualdade.
As manifestações de resistências das mulheres, conforme mostra os relatos das
interlocutoras, que mesmo com forte pressão para abandonarem os estudos, seguem com seus
objetivos, não seriam viáveis em tempos anteriores no qual a autonomia da mulher era
significativamente ainda mais reduzida. A postura das mulheres foi recriada, também a
conduta feminina oscilou do mesmo modo em que o autoritarismo dos homens foi reduzido.
A sociedade, gradativamente, tem aberto espaço para as mulheres após a luta de movimentos
em busca de direitos iguais aos gêneros.
21
Capítulo II
As mulheres na educação brasileira
Indagando acerca da educação no tocante a relação de gênero se procura observar as
nuances da mudança nos dados educacionais das mulheres em comparação com os homens, a
fim de analisar as transformações na função da mulher na sociedade, com ênfase em Alagoas.
No Brasil, em 1960, as mulheres representavam minoria numérica nas instituições de
ensino. A consequência dessa herança é o alto índice de mulheres analfabetas. Atualmente,
esse quadro vem sendo revertido, o número de jovens do sexo feminino tem aumentado se
comparado com os do sexo masculino. Vejamos as possíveis causas da desigualdade
educacional.
Média dos anos de estudo da população de 10 anos ou mais, por sexo. (Fonte: PNAD
2009, baseado em Rosemberg&Madsen, 2011)
A dedicação das mulheres à escola é reflexo da cobrança diferenciada sofrida pelo
sexo feminino. Geralmente, as meninas são ensinadas, com mais rigor, a seguirem as regras
de etiqueta, devem ter bom comportamento, ser mais quietas e obedientes do que os meninos.
Assim sendo, com as transformações da modernidade que ampliaram as instituições escolares
e abriu espaços para parte das mulheres, teve como resultado o aumento da longevidade
escolar feminina, logo, as mulheres alcançaram posição de destaque no desempenho escolar.
Consequentemente, o bom resultado durante o ensino médio repercutiu na conquista de um
número maior de vagas pelo público feminino nas universidades.
22
As meninas são educadas com mais rigidez do que os meninos, estes últimos possuem
uma formação mais permissiva. Geneticamente não existem fatores biológicos que
determinam o comportamento da mulher semelhante ao modelo poético da literatura que
destaca a mansidão de um espírito passivo e doce, mas é a cultura e seus paradigmas que
condicionam as ações e os impulsos de cada gênero.
Desde a infância as meninas das camadas pauperizadas, na cultura brasileira, ajudam a
mãe na execução dos afazeres da casa e nos cuidados com os irmãos mais novos. Essa tarefa
não é considerada trabalho infantil, muito embora, demanda tempo e compromete a
disposição das crianças, podendo acarretar em atraso escolar causado pela repetência dessas
meninas que dispõem de pouco tempo para os estudos em casa.
Por outro lado, a rigidez educacional coage a mulher a se enquadrar em um
determinado perfil idealizado de obediência e submissão que podem ter efeitos positivos, os
índices educacionais atuais comprovam o crescimento das jovens que concluíram o ensino
médio, chegando a ultrapassar o número dos jovens, conforme exibe os dados da pesquisa.
Marília Carvalho (2003) debate a cultura infantil, na qual o menino estudioso sofre
bullying na escola ao ser comparado com o comportamento feminino e o mau desempenho
nas atividades escolares é considerado, pelas crianças, como característica que comprova a
masculinidade. Essa cultura, segundo a autora, é estimulada inclusive pela ausência de
professores do sexo masculino. Sem referencial masculino os meninos, na escola, seguem o
perfil da masculinidade hegemônica, conceito formulado por Rewyn Connell no livro
Masculinities no qual aborda a temática do modelo de hierarquia social entre os sexos.
Connell (2005) afirma que a construção do gênero se dá nas escolas, onde se estabelece as
primeiras relações de poder entre os gêneros. A autora citada acima defende que no ambiente
escolar os meninos tendem a intimidar as garotas, os meninos adquirirem comportamento
autoritário frente à necessidade de autoafirmarem a sua masculinidade. Outro autor,
Messerschmidt (1993), utilizou o conceito de hegemonia masculina para teorização da relação
entre a masculinidade e os crimes violentos cometidos, em sua maioria, por homens.
Abordagem mais frutífera é ver o gênero como um sistema de relações sociais.
Masculinidades são os padrões de prática social associado à posição de homens no conjunto
das relações de gênero. Diferença corporal não é um determinante fixo de padrões de gênero,
é, na verdade, um ponto de referência em práticas de gênero.
23
Para Connell (2013) a masculinidade diz respeito à posição dominante dos homens na
hierarquia do gênero e os padrões de práticas que homens e mulheres aderem a partir da
posição hierárquica do gênero. O desafio da educação está em reconfigurar a imagem que os
homens, ainda meninos, criam a respeito das mulheres e as expectativas de condutas
atribuídas a elas, bem como refletir acerca da autoimagem masculina, para então, se abrir a
discussão sobre o respeito à diferença e à democratização nos gêneros.
Os valores conservadores criados sobre a ideia de masculinidade atribuem ao homem
a responsabilidade pelas finanças da família, assim, estes são vistos pela ótica mercantil como
os mais adequados para assumirem cargos de liderança. No imaginário coletivo ainda
permanece a ideia de que cabe ao homem prover o alimento da família, como será detalhado
nas entrevistas realizadas. Na modernidade, em função das exigências de conhecimentos
específicos para contratação no mercado de trabalho, o homem possui prioridade para dar
continuidade aos estudos. Já a mulher, no cumprimento de sua função doméstica, a
continuidade nos estudos se torna atividade dispensável na prática de sua função no lar. Nessa
estrutura de pensamento, o homem deve proporcionar recursos elementares à mulher para sua
subsistência, o material fundamental é fornecido para mulher pelo homem em troca do serviço
prestado pela esposa à família. Esse contrato fictício é formulado a tal ponto de se
constitucionalizar a profissão de dona de casa, conforme a lei 8.212 de 24 de julho de 1991,
assegurando para essas profissionais benefícios como, por exemplo, o direito à aposentadoria,
favorecendo as mulheres que dedicaram anos de sua vida no serviço doméstico. A prática na
prestação de serviço a família foi regulamentada, garantindo direitos às donas de casa, tal qual
é concedido aos trabalhadores formais.
A ideia do lugar de chefe de família ser ocupado por um homem não é um dado
natural e/ou fenômeno repetido em todas as sociedades, pelo contrário, a construção é cultural
e social, variando no lugar e no tempo. Ainda nas sociedades atuais há a predominância da
visão patriarcal demonstradas desde os aspectos políticos até os ideais das religiões atuais
com maior número de fieis. Entre os principais grupos religiosos está o cristianismo,
islamismo e hinduísmo. Todos citados defendem a posição de dominação do homem sobre as
mulheres.
O conceito de campo, desenvolvido por Bourdieu (1996), nos ajuda a lançar luz nessa
realidade social. Entendendo campos como universos que contém leis e interesses específicos,
onde os agentes estabelecem concorrência nas disputas internas, conhecem os alvos e
24
elaboram estratégias para ganhar o jogo utilizando instrumentos propícios no interior do
espaço social. Pode-se perceber que os agentes disputam por uma posição de destaque dentro
do campo em que estão inseridos. O interesse pelo jogo pode ocorrer em razão de imposição
social ou quando o sentido do jogo é aderido pelos agentes. O sentido do jogo que acontece
nos campos somente é compartilhado pelos agentes que fazem parte daquele jogo, assim
sendo, para aqueles que não estão inseridos naquele campo as regras do jogo não fazem
sentido.
A mulher brasileira, ao longo da história, vem construindo a ampliação do seu espaço
dentro do campo social. A função atribuída a essa atravessou transformações positiva, mas a
desigualdade de gênero ainda gera a colocação da mulher em posição inferior nos jogos
simbólicos e sociais. A profissionalização, por sua vez, é representada como um trabalho
extra, cabendo ainda à mulher as tarefas tradicionais. Por isso, muitas atrasam seus sonhos de
carreira para cumprirem os padrões impostos pelo casamento.
No capítulo seguinte, será retratada a realidade de algumas mulheres que
desempenham jornadas duplas de trabalho, no lar e no trabalho. O machismo tem apresentado
obstáculos para inserção da mulher no mercado de trabalho, limitando o sexo feminino às
tarefas domésticas e às atividades ligadas a maternidade. A continuidade no estudo, para as
mulheres pertencentes às classes baixas, é um desafio superior quando a renda familiar não
viabiliza a contratação de faxineira ou empregada doméstica e não permite a aquisição de
aparelhos eletrônicos como, por exemplo, máquina de lavar, cafeteira, sanduicheira que
poderiam auxiliar no trabalho doméstico. Isso potencializa a consumação da energia física e
do tempo destas mulheres, chegando, em alguns casos, a debilitação, provocando a
interrupção dos estudos ou o mau desempenho escolar. Relativizar os papéis sociais de cada
gênero nos leva a refletir sobre a liberdade da mulher em exercer as tarefas que melhor lhe a
prover, bem como o homem e a sua autonomia em escolher o papel que irá desempenhar na
sociedade, rompendo com a obrigatoriedade de assumir um posto no mercado de trabalho,
conforme os paradigmas os coagem.
Cunha (2007) afirma que o espaço social é ambiente de constantes lutas entre os
grupos, onde são construídas estruturas simbólicas tendo como base a diferenciação que dá
origem à hierarquização da sociedade. A hegemonia de uma cultura significa a conquista de
uma luta dentro do espaço social. As disputas atuais entre os gêneros, no campo, nos mostram
as lutas femininas por melhorias na posição dentro do espaço social.
25
2. 1 Estatísticas educacionais em Alagoas
Alagoas apresenta média de anos de estudos por pessoas abaixo da média nacional,
bem como a região nordeste que alcançou quase o dobro da média nacional em relação à taxa
de analfabetismo, 16,9% em oposição aos 8,6% nacional. Sendo a maioria dos analfabetos
maiores de vinte e cinco anos.
Média de anos de estudo das pessoas de 15 anos ou mais de idade, por situação do
domicílio e sexo, total e ocupadas na semana de referência, segundo as Grandes
Regiões,
Unidades da Federação e Regiões Metropolitanas - 2008
Grandes Regiões,
Unidades da Federação e
Regiões Metropolitanas
Brasil
Alagoas
Média de anos de estudo das pessoas de 15 anos ou mais
de idade,
por situação do domicílio e sexo
Urbana
Total
Total
Homens
Mulheres
7,9
7,8
8,0
6,4
6,2
6,6
O estado de Alagoas apresenta o pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do
país. Dados da renda, educação e saúde dos municípios do estado alagoano indicam que a
colaboração das políticas públicas para o desenvolvimento humano não combatem
devidamente a pobreza, a violência e o analfabetismo.
IDHM
Posição Nome
(2010)
27 º
Alagoas 0.631
IDHM
IDHM Renda Longevidade
(2010)
(2010)
0.641
0.755
IDHM
Educação
(2010)
0.520
De acordo com as faixas de desenvolvimento humano, em 2010, Maceió é o único
município do estado que tem alto IDHM. Treze municípios apresentaram médio índice de
desenvolvimento humano municipal, oitenta e seis municípios foram categorizados com
IDHM baixo e os municípios de Olivença e Inhapi têm IDHM muito baixo.
Historicamente, o acesso à escola foi mais restrito às mulheres do que aos homens.
Diferenças de oportunidades entre meninos e meninas se iniciam já na infância. A colocação
26
de inferioridade marginaliza as mulheres induzindo-as a ocuparem lugares na sociedade de
menor prestígio econômico e social. Mas esse quadro tem se transformado. Os dados sobre a
escolaridade, no Estado de Alagoas, com ênfase na análise do gênero apresenta o crescimento
na longevidade escolar das meninas.
A partir dos dados de Alagoas pode-se notar o crescimento no número de mulheres
ingressando no ensino superior. Conforme é exibido na tabela, cresce o número de mulheres
com o diploma de curso superior; flexibilizou-se as relações de educação. Entretanto, mesmo
elas estando mais qualificadas há diferenças salariais entre os gêneros.
Madalozzo, Martins e Shiratori (2010) abordam a discrepância no fluxo de
participação da mulher no mercado de trabalho, segundo os autores “Em 2002, a participação
das mulheres no mercado de trabalho já atingia os 50%, segundo dados do IBGE. Ao mesmo
tempo, a diferença de salários entre homens e mulheres, conforme esperado, diminuiu
drasticamente.”. O mesmo estudo ainda mostra que a carga de trabalho doméstico dos homens
é significativamente menor do que as horas trabalhadas, em serviços domésticos, pelas
mulheres. As justificativas apontadas, ainda no mesmo levantamento, para a diferença salarial
foi que a produtividade masculina é maior. A conclusão do estudo exibe que a produtividade
citada não tem relação com as habilidades naturais, na verdade, está relacionada com o papel
social do gênero, pois as mulheres além de exercerem suas funções no mercado de trabalho,
também desempenham tarefas de auxílio aos seus cônjuges como no cozimento da
alimentação e limpeza das roupas, ou seja, o número total de horas de descanso das mulheres
é reduzido, em comparação com o descanso dos homens.
Observa-se, na tabela a baixo, a transformação cultural, própria do dinamismo
cultural. O aumento do número de trabalhadoras pode ser resultado da necessidade de
recursos econômicos que leva as mulheres a buscarem um emprego. Também a cultura
27
capitalista influencia ao gerar novas necessidades. Mas, certamente, são as mudanças culturais
e valorativas, juntamente com o processo de expansão da educação no Brasil e em Alagoas,
da qual as mulheres têm conquistado espaço, que elevou o número das mulheres ocupadas em
atividades trabalhistas.
A tabela mostra a proporção de pessoas de vinte e cinco anos ou mais de idade,
ocupadas, por nível de instrução superior incompleto e superior completo, a fim de apresentar
de modo comparativo a população economicamente ativa por gênero.
A PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar), em 2011, comprova que a
renda da mulher ainda é inferior a dos homens. Apesar das mulheres numericamente mais
qualificadas, os homens permanecem assumindo os cargos administrativos e as mulheres
continuam ocupando os trabalhos domésticos. Esse dado repercute na diferença de renda entre
os gêneros, como se pode analisar na tabela a baixo.
28
Pessoas de 10 anos ou mais de idade, por Grandes Regiões,
segundo o sexo e as classes de rendimento mensal – 2011
Sexo e
classes de rendimento mensal
Pessoas de 10 anos ou mais de idade
Grandes Regiões
Brasil
Norte Nordeste Sudeste
Números absolutos (1 000 pessoas)
Homens (1)
80 340 6 631 21 708 34 214
Até 1 salário mínimo
15 522 1 659
7 310 4 076
Mais de1 a 2 salários mínimos
19 889 1 594
4 330 9 051
Mais de2 a 3 salários mínimos
9 802
546
1 176 5 333
Mais de3 a 5 salários mínimos
6 422
344
771 3 444
Mais de5 a 10 salários mínimos
4 300
232
514 2 273
Mais de 10 a 20 salários mínimos
1 557
68
203
828
Mais de 20 salários mínimos
614
26
79
328
Sem rendimento (2)
19 759 1 976
6 758 7 463
Mulheres (1)
86 646 6 713 23 767 37 282
Até 1 salário mínimo
23 925 2 097
9 762 7 745
Mais de1 a 2 salários mínimos
17 582
991
3 341 8 623
Mais de2 a 3 salários mínimos
5 309
253
718 2 920
Mais de3 a 5 salários mínimos
3 499
190
507 1 839
Mais de5 a 10 salários mínimos
2 510
134
359 1 329
Mais de 10 a 20 salários mínimos
744
30
111
395
Mais de 20 salários mínimos
204
12
25
109
Sem rendimento (2)
31 091 2 900
8 585 13 221
Sul
CentroOeste
11 756
1 566
3 211
1 894
1 342
866
281
95
2 295
12 499
2 741
3 257
1 028
674
441
114
27
4 062
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios 2011.
No sistema de pesquisas por amostras domiciliares é exibido a situação
socioeconômica por gênero, dividido por regiões e no Brasil. Pode-se ver que o maior grupo
de mulheres brasileiras recebe até um salário mínimo, enquanto os homens apresentam maior
número no grupo de pessoas que recebe de dois a três salários mínimos. O grupo da
população que tem renda acima de vinte salários mínimos é formado por homens em sua
maioria.
Na região Nordeste, tanto o conjunto de homens quanto o conjunto de mulheres
possuem número predominante no grupo que recebe até um salário mínimo, embora quando
se compara a renda dos homens à das mulheres nota-se que a mulher nordestina tem maior
número no grupo que recebe até um salário mínimo, em relação ao homem. E os homens, se
comparado às mulheres, tem maior número no grupo que recebe entre dois e três salários
mínimos. Ou seja, a população mais expressiva do nordeste recebe remuneração de um salário
6 031
912
1 703
853
521
416
177
86
1 268
6 386
1 580
1 369
390
289
247
93
32
2 323
29
mínimo, na comparação entre homens e mulheres, os homens nordestinos são mais bem
remunerados.
Mudar as relações sociais, isto é, o modo como os indivíduos se relacionam entre si e
na relação com o grupo, é o mesmo que alterar as formas de organizações sociais, nesse ponto
encontramos a importância da sociologia como ciência. Quando se altera o modo como os
indivíduos se relacionam, se transforma também os conteúdos da vida como a cultura, a
política, a economia e as normas. Todo fenômeno social não tem seu fundamento em uma
área restrita, mas é gerado a partir de um sentido que carrega o contexto histórico, cultural,
político, econômico e social. Ora, os fenômenos sociais não são somente sociais, há sempre
um conteúdo de outra natureza, histórica, política, filosófica, moral, entre outros, produzido
nas relações sociais.
Como se poderá identificar nas narrativas, a maternidade é apontada como uma das
causas para a interrupção dos estudos, como consequência, diminui o nível de adequação da
idade em relação à escolaridade. Ainda assim, o nível de adequação do grupo de mulheres que
tem determinada faixa etária e frequenta a escola no nível de ensino adequado é superior ao
índice do grupo de homens.
O preconceito manifestado pelo “bullying” pode causar a sensação de deslocamento
conforme há distorção da autoimagem já bastante fragilizada. Estudar em idade superior
àquela considerada normal é uma dificuldade da colisão com o padrão social e cultural. Ter
idade superior à normal, entendendo normal como o que é habitual, pode gerar baixa
autoestima e sentimento de culpa, em razão da cobrança externa.
30
Estudos do IBGE constatam que cada vez mais as mulheres estão sendo mãe após os
trinta anos, de 2000 para 2010 caiu a proporção de brasileiras com filho em todas as faixas
etárias jovens e aumentou a escolarização delas.
Como defendido pelo autor francês Pierre Bourdieu (1996), o conceito de capital
cultural é definido como princípio de diferenciação que articulam as posições de dominação
em uma hierarquia, dentro do espaço social. Maria Cunha (2007) ao discorrer sobre o
conceito de capital cultural de Bourdieu trata da relação de dominação intelectual estabelecida
entre os diferentes grupos. As práticas distintas legitimam a dominação; assim, o exercício do
poder de um grupo sobre outro é naturalizado em razão da posse de um tipo de conhecimento.
As mulheres foram submetidas às imposições de significados vindas do poder
simbólico presente em estruturas que influenciaram a sua atuação no mercado de trabalho.
Refiro-me ao que Bourdieu (2004) descrevia como a construção da realidade em uma
determinada ordem dotada de sentidos. Este conceito abrange a produção de significados. Os
símbolos são construções históricas, culturais e sociais, podem ser usados como instrumentos
de interferência política.
Os símbolos são os instrumentos por excelência da integração social:
enquanto instrumento de conhecimento e de comunicação, eles tornam
possível o consensus acerca do sentido do mundo social que contribui
fundamentalmente para a reprodução da ordem social: a integração
lógica é a condição da integração moral. (BOURDIEU, 2004 P. 10)
É assim que as ideias determinam a realidade social. Através do poder simbólico se
realizam influências objetivando a dominação. A cultura vem a ser uma ferramenta de
legitimação da dominação, isso ocorre por meio do uso do poder simbólico. O real é
naturalizado conforme é aceito como ideologias utilizadas a favor de interesses de uma classe
social ou de um grupo.
Entende-se, que apesar dos números exporem a qualificação da mulher superior à
qualificação do homem, as construções simbólicas culturais ainda posicionam o homem como
o mais adequado para assumir postos de maior remuneração. A posição da mulher no mercado
de trabalho, sua dominação e subordinação não estão fundadas na escolaridade, mas no
sentido cultural histórico que ao longo da história posiciona a mulher em funções de baixo
prestígio social.
31
Capítulo III
Trajetórias de Marias
Este capítulo tem como objetivo apresentar as narrativas das mulheres que são
interlocutoras das pesquisas. As entrevistas foram parcialmente estruturadas. A entrevistadora
apenas norteou a conversação com a elaboração de perguntas centrais que exploraram os
aspectos mais relevantes da pesquisa. Como limitação eu enfrentei a recusa de mulheres em
relatarem seus desafios, por consequência, o trabalho se concentrou nas entrevistas de três
interlocutoras.
Esta pesquisa descritiva estudou o fato por meio do registro, da interpretação dos
fenômenos, da frequência dos acontecimentos e os fatores que interferem. Tem o intuito de
analisar a intensidade em que ocorre o fenômeno, para então, sistematizar as variáveis pelas
quais a dominação masculina ocorre na cultura alagoana. Para tanto, buscou-se identificar os
processos de legitimação, a reciprocidade das relações e os seus efeitos.
Realizou-se a seleção de uma amostra do subgrupo da população alagoana, trata-se do
estrato da classe baixa. A ênfase dos estudos está voltada para o sexo feminino, com idade
delimitada de superior aos quarenta anos.
Segundo a teoria do construtivismo social, a fenomenologia é a corrente que investiga
a intencionalidade dos atos, privilegia a percepção do sujeito, entendendo que uma única
teoria científica não é capaz de explicar toda a realidade social, pois são múltiplas as
explicações coerentes que se pode cruzar para se aproximar do entendimento tridimensional
da realidade. Nessa linha sociológica, o estudo do comportamento é focado na subjetividade
do significado e das intenções que penetram os fenômenos.
A análise das entrevistas também teve influência do método compreensivo,
desenvolvido por Weber (1995), em que o estudo pretende extrair o sentido das ações e das
relações sociais. Os fenômenos sociais são subjetivos, criados com base nos valores e
sentidos. Cabe ao pesquisador interpretar e explicar os significados humanos em relação às
intenções contidas nas condutas humanas e os sentidos crenças juntamente com os seus
efeitos no comportamento dos sujeitos.
32
3. 1 Relatos da relação de poder entre os gêneros
A primeira entrevistada é católica, tem quarenta e sete anos e é ministra da eucaristia
na Igreja católica Menino Jesus de Praga, bairro do Farol. Dona Margarida, nome fictício, tem
origem em uma família pobre, nenhum de seus nove irmãos terminaram os estudos da
educação básica no tempo adequado. Nunca foi incentivada por sua família a estudar. Sua
mãe lhe empregou na profissão de doméstica quando ela ainda tinha dezessete anos. Nascida
em Murici, filha de pais analfabetos, interrompeu os estudos por causa da pobreza em que
vivia, filha mais velha, com sete irmãos, não teve como estudar porque seu pai era assalariado
sua mãe foi dona de casa e até o material escolar não podiam comprar. Foi a sua antiga patroa
que a incentivou a concluir a educação básica. Aos trinta e cinco anos, concluiu seus estudos
no colégio Moreira e Silva, localizado no CEPA (Centro de Estudos e Pesquisas Aplicadas).
Quando questionada sobre as motivações que a impulsionava a ânsia da aprovação no ENEM,
Margarida responde “Quero entrar na faculdade para ampliar o meu conhecimento, além de
ser um ideal pessoal, será a realização de um sonho.”.
Os padrões de cada sociedade, segundo Elias (1994), somente podem ser explicados e
analisados dentro do contexto particular das regularidades em que se formulou. O autor ao
estudar o comportamento coletivo trata dos valores que compõe as relações sociais, os
sentidos intrínsecos à interação em grupo que gera influências recíprocas estabelecidas pelas
interligações, pois a sociedade é semelhante a uma rede onde todos estão em constante
conexão, influenciando mutuamente as ações e escolhas. A partir do estudo da realidade
social será possível entender os sentidos das ações pesquisadas em seu contexto.
Desde a modernidade, os indivíduos atravessam processo contínuo de desintegração
social e ultrapassam, embora estejam classificados em grupos. De acordo com Elias (1994) a
vida social não é fixa, ao contrário, está em constante alteração. Ao longo da história a
sociedade atravessou mudanças nas formas de percepção dos indivíduos sobre eles mesmos e
sobre o coletivo. Até a Idade Média o equilíbrio entre a identidade-eu e a identidade-nós
atravessou notável mudança. A partir do Renascimento a balança passou a pender cada vez
mais para identidade-eu, a ponto de na atualidade, as pessoas pensarem no eu desprovido de
nós. A identidade-nós não deixou de existir, apenas está mais ocultada pela valorização da
identidade-eu. Houve a superposição da identidade-eu em detrimento da identidade-nós, as
modificações ocorridas nos indivíduos, de diferentes épocas, são reflexos das diferentes
33
concepções de sociedade, manifesta também as diversas formas como o indivíduo pensa
acerca de si mesmo.
Margarida é uma mulher que teme ser afastada de tudo que acredita ser santo. Em seu
imaginário, a desobediência tem relação com tentação de espíritos malignos, por isso, uma
serva de Deus deve ser uma mulher boa para o seu esposo e estar à disposição do seu esposo
conforme defende a fé. Tais crenças baseadas na moral cristã ditam deveres específicos para o
gênero feminino, às quais a ideologia do gênero faz ferozes críticas. Não é objetivo desse
trabalho se deter de modo longo nesse assunto. O cerne desse tópico é debater os valores
sociais e a influência dos conceitos religiosos na conduta feminina. Para a religião, as normas
não têm como intuito único a salvação das almas, mas também tem a função de preservar o
sistema de organização social.
A submissão da mulher ao homem tem também raízes religiosas. Como podemos
observar neste trecho extraído da Bíblia “permaneçam as mulheres em silêncio nas igrejas,
pois não lhes é permitido falar; antes permaneçam em submissão, como diz a lei.” (1
Coríntios 14:34). Para se estudar a bíblia é necessária a compreensão do contexto histórico e
cultural do período a fim de que a interpretação tenha o sentido atribuído em cada tempo e
lugar, por isso pode-se ver, atualmente, que alguns líderes religiosos destacam o fato da
mulher não ser inferior ao homem, colocando em posição igual ambos os sexos. Mas, por
outro lado, existem grupos de radicais religiosos que usam de passagens bíblicas para
justificar a desigualdade entre os gêneros e ludibriam as mulheres conforme as persuadem,
condicionam os pensamentos, os comportamentos, diminuindo os espaços de atuação dessas
mulheres, seja no âmbito familiar ou em relação aos negócios.
A religião submete seus fieis a leis que polarizam a santidade da profanação,
condenando as ações compreendidas como impuras, o próprio sentido da palavra Santo, em
latim “Sacer”, diz respeito à separação, distinção. Conforme escreve Douglas (1976) para
além da distinção entre o que é sagrado está o tabu e a penalidade, o pudor intrínseco no tabu
está enraizado no medo da penalidade, por isso há interdição na conduta da mulher submissa
pois teme o julgamento e o castigo dos homens e de Deus.
Essas normas se desenvolvem na consciência coletiva, como defendido por
Durkheim (1974), o fenômeno é geral quando é comum à maioria dos indivíduos, como é
geral logo é coletivo. Para Durkheim os fenômenos sociais são originados na coletividade e
não em cada de suas partes isoladamente, sendo assim, o consenso torna a sociedade
34
integrada, coesa na medida em que mantém a ordem moral vigente. As instituições como o
Estado, a religião e a família são guardiãs da tradição e do controle moral.
A senhora relatou o controle do horário realizado pelo marido. Ela afirmou que
muitas vezes saiu correndo do cursinho para não chegar tarde em casa; caso contrário, seriam
geradas discussões em seu lar. Apesar de o marido ter estabilidade financeira, os dois nunca
saíram para almoçar ou tiveram qualquer outro tipo de lazer. A rotina de Dona Margarida é
cozinhar e limpar a casa. Atualmente retornou à sala de aula, tem o objetivo de ser aprovada
no vestibular da UFAL (Universidade Federal de Alagoas) ou na UNCISAL (Universidade
Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas) no curso de Fisioterapia.
Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor
porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a
cabeça da Igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo. Mas, assim
como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam
em tudo a seus maridos. (Efésios 5, 22:24)
Ela relatou que seu esposo não tem muito conhecimento dos textos bíblicos, mas
Efésios 5, 22:24 seu esposo conhece e sempre cita o trecho para justificar a dominação e
intimidar a senhora religiosa a cumprir os ensinamentos da lei divina. Para uma senhora é de
suma importância seguir as normas da tradição religiosa, por isso, as mulheres adeptas a
religião se esforçam para combater tudo que for entendido como impuro e maculado, sentem
repúdio a todo elemento de profanação e desobediência a Deus; logo, ser obediente ao marido
representa obediência aos mandamentos de Deus.
A passagem bíblica já foi utilizada visando denunciar um comportamento de afronta
da mulher irada. O marido alegou para mesma que é contra a lei de Deus contrariá-lo. Entre
as renúncias feitas pela senhora entrevistada está a ausência nas festas de aniversário de
familiares e amigos, além das festividades de fim de ano e festas típicas da região que
ocorrem no mês de Junho. Todos os anos, Dona Margarida janta a sós com seu esposo em
cada comemoração de novo ano, carnaval, dia das mães, entre outros feriados. Ela
confidenciou que é muito raro sair de casa para passear ou fazer visitas, mas sua mãe e irmãos
vêm visitá-la com mais frequência. A sua inscrição no cursinho foi aceita pelo seu esposo,
mas com restrição no horário de chegada em casa. Como o cursinho somente é lecionado no
período noturno situações de atraso do ônibus ou qualquer imprevisto que prejudique o tempo
de retorno para casa provoca discussões após longo interrogatório do marido.
35
Houve um relacionamento extraconjugal, há alguns anos, entre o marido de Dona
Margarida e uma colega de trabalho. Aquela começou a desconfiar, mas permaneceu em
silêncio fingindo acreditar em mentiras. Ela não tinha para onde ir. O tempo foi passando e
familiares informados do fato, exigiram dela uma reação. Dona Margarida pediu explicações
ao seu marido e ele se defendeu com a expressão “Eu sou guerreiro”. Segundo o mesmo,
homem que é realmente homem tem as suas necessidades. Na visão dele, faz parte da
masculinidade manter relação com várias mulheres. Dona Margarida admite que não tem
controle sobre o seu marido na mesma medida que ele tem sobre ela, diz a entrevistada “Não
existe mais relação entre o meu marido e ela (companheira de trabalho), não tenho como
provar que eles terminaram porque não estou com ele vinte e quatro horas por dia, mas eu
tenho que confiar nele.”.
Weber (2001) retrata o espírito capitalista não no aspecto econômico, mas na cultura
moral da conduta virtuosa. Assim, o dinheiro não é a finalidade última, a racionalização do
tempo não visa o acúmulo de riquezas, ao contrário, a salvação está no desprendimento dos
elementos materiais. A finalidade é, na verdade, a salvação dos eleitos é alcançada através da
disciplina, obediência aos valores e retidão na conduta moral dos predestinados. A
legitimidade de uma ordem é justificada por valores e sentidos subjetivos que orientam a
conduta dos indivíduos, uma vez que a ação social tem uma finalidade, uma motivação com
meios e fins determinados. Por isso, todas as ações são dotadas de sentidos culturais para os
fieis, estabelecem significações que orientam a conduta dos indivíduos.
Essa primeira entrevistada recusou a gravação da entrevista, em razão disso, a escrita
da narrativa teve como fundamento recurso limitado. De antemão, um dado curioso durante a
pesquisa de campo: nenhum das entrevistadas permitiu que a entrevista fosse realizada em sua
residência. Todas sugeriram a biblioteca da universidade ou alguma sala de um dos blocos.
Certamente, sentiam vergonha do recinto humilde, pois uma delas citou que a casa passava
por reformas e não estava em bom estado para receber visitas. Também seria constrangedor,
para elas, falarem sobre as relações matrimoniais próximas de seus respectivos maridos, a
sensação de insegurança poderia prejudicar o trabalho. Uma das entrevistadas, Rosa, disse que
se sentiria mais à vontade em outro ambiente, afinal, o seu esposo é aposentado e passa o dia
em casa. Observou-se, então, que mesmo na ausência do parceiro a presença de um filho ou
qualquer familiar também poderia gerar desconforto por parte delas, pois o tema tratado
abrange a exposição de sentimentos, quase sempre, ocultados no cotidiano.
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A segunda mulher tem como codinome Rosa, senhora desinibida e sorridente,
moradora do bairro do Tabuleiro, em Alagoas, e estudante do curso Pré-Enem “Conexões dos
Saberes”. Tem quarenta e seis anos e está pela primeira vez estudando para passar na prova de
vestibular. A entrevistada é de origem humilde, filha de pais separados, durante a infância,
sazonalmente mudava de tutela, ora morava com o pai, ora com a mãe, ora com os avós
maternos. Em razão das seguidas mudanças de localidade, seus estudos foram frequentemente
interrompidos. A mudança de ambiente familiar também era provocada por problemas de
relacionamento com o padrasto, o mesmo dizia que ir à escola não era futuro para ninguém.
Homem da roça, afirmava que aprender a escrever teria como consequência somente a escrita
de cartas para os namorados. Na casa de sua mãe, ela era responsabilizada pelos cuidados para
com seus treze irmãos, uma vez que era a filha mais velha. Iniciou no processo educacional
com quatorze anos e aos dezenove anos de idade estudava em uma turma na qual seus colegas
tinham em média dez anos de idade. Conta ela “Eu tinha até vergonha de estudar no meio das
crianças.”.
Logo que conheceu seu futuro esposo, casou-se e interrompeu os estudos por longo
período. Casar-se parecia ser a solução para finalmente ter morada fixa. Após ter os três
filhos, imaginou que finalmente concluiria a educação básica. No entanto, seu parceiro se
opôs, justificando que os filhos precisavam da mãe presente. Com o passar do tempo, Rosa
percebeu que essa não era a única razão da oposição aos seus estudos. Ela afirma: “Para ele, a
mulher era somente pra ficar dentro de casa tomando de conta dele e dos filhos.” Ainda com
resistência por parte do marido, Rosa insistiu em seguir os estudos, fazia a pé o percurso até a
escola, cerca de trinta minutos de caminhada, no período da noite. Aos quarenta e três anos de
idade, concluiu o ensino médio por meio do EJA (Educação de Jovens e Adultos).
Incentivada pela filha, Rosa resolveu inscrever-se no cursinho. Para conseguir a vaga,
passou por seleção através de uma prova em que fora aprovada. Sua filha tem dezenove anos
e cursa pedagogia, a jovem trabalha e dá à sua mãe o vale transporte que recebe do trabalho.
Os créditos da carteirinha servem de transporte para que diariamente Rosa participe das aulas.
Para seu próprio transporte, a menina utiliza o dinheiro do seu salário mínimo para colocar
crédito em sua carteirinha estudantil. Apesar do apoio da filha Rosa lamenta “Faz três anos
que eu não frequento uma escola, muita coisa eu já esqueci.”.
A entrevistada disse que é somente por causa do incentivo psicológico e apoio
financeiro de sua filha que foi possível a sua continuidade nos estudos. Caso houvesse a total
37
dependência do marido, seria inviável. Rosa pretende concorrer à vaga de assistente social,
também foi sua filha que escolheu o curso, entendendo que é o mais adequado de acordo com
as aptidões da mãe. Rosa desejava cursar Nutrição, mas por ser um curso mais concorrido e
também pelo conteúdo parecer mais difícil, desistiu da área.
Constatou-se que dificilmente os membros do grupo pesquisado alcançam os cursos
mais concorridos, tendo o conhecimento da dimensão do desafio, nem sempre ousa sequer
tentar, opta por cursos que aparecem como segunda opção em sua preferência vocacional,
desde que o curso seja menos concorrido, restando-lhe apenas disputar as vagas que exigem
as menores pontuações na prova. Assim, abre mão de exercer profissões de alto prestígio
social e desiste daquelas com as quais se identifica para cursar o ensino superior de acordo
com suas possibilidades.
O ciúme é um dos motivos que leva o marido da Rosa a não querer a esposa estudando
e/ou trabalhando. Ela contou o quanto ele tem questionado a saída dela de casa mais cedo essa
semana (período em que se iniciaram as entrevistas). A desconfiança descabida já levou a
brigas conjugais, que embora nunca tenha havido violência física, a violência verbal atingiu
grande proporção. Segundo Elias (1994) a vida social dos seres humanos não é nada
harmoniosa, ao contrário, é repleta de contradições e tensões; segue em constante movimento
que oscila entre os períodos de guerra e de paz.
Quando seu esposo saía para se divertir e voltava bêbado, Rosa imaginava que
provavelmente ele se envolvia com outras mulheres. Pensando em se divorciar, recebia o
seguinte conselho de seu pai: “Minha filha, não falta nada dentro de casa, ele é um bom pai,
então deixa pra lá. Você está sofrendo à toa”. Nessa frase, fica claro que um bom dono de
casa é aquele provedor da alimentação familiar, a infidelidade se torna aspecto secundário. O
termo “dono de casa”, nessa frase, exibe bem o modelo da estrutura patriarcal.
Apesar do marido da Rosa ser aposentado e consequentemente ficar o dia todo em
casa, não facilita na disposição de tempo da Rosa aos estudos, pois ele ocupa seu tempo livre.
Ao ser questionada sobre qual tarefa doméstica seu esposo realizava, respondeu que ele
comprava pão.
Por menos de um mês Rosa trabalhou fora. Acordava às cinco da manhã para deixar
a comida pronta, durante a noite já adiantava algumas tarefas da casa. O desgaste físico a fez
emagrecer e não sobrava tempo para estudar. Cansada, deixou o trabalho.
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Antes de nascermos já se encontram estabelecidas as escolhas ideais que cada sujeito
deverá fazer de acordo com o grupo que ele faz parte, variando de acordo com a cultura da
sociedade na qual ele está inserido. Qualquer mudança de rumo no caminho que foi
previamente traçado resulta em marginalização. Romper com o tempo imposto socialmente e
as expectativas depositadas em cada etapa da vida exige esforços redobrados na busca por
suprir os níveis entendidos como atrasados do ponto de vista da regularidade.
No cursinho, Rosa se sentiu intimidada por ser a mais velha da turma. Refletiu e não
se deixou abalar pela diferença, estava convencida da importância de estudar independente
das dificuldades enfrentadas, além disso, sente-se bem quando estuda. Com o passar do
tempo, adequou-se aos jovens, tal como se relaciona com seus filhos adolescentes. A
diferença de faixa etária pode dificultar o processo de socialização com os demais colegas de
turma. A convivência dentro do cursinho pré-ENEM demonstrava a segregação, divisão
baseada na idade dos alunos. A interação acontecia com mais intensidade entre alunas de
idade aproximada.
Os vizinhos e familiares ao receberem a notícia de retorno aos estudos da
entrevistada, dirigiram a Rosa palavras de esperança e de coragem. Em contrapartida, sua mãe
disse para tomar cuidado porque pessoas que estudam muito se tornam malucas. Seu marido
expressou através do ditado “Cavalo velho não acerta o passo.” a sua descrença nas chances
de Rosa entrar na universidade.
Diversas problemáticas podem aqui serem observadas. A ausência de capital cultural
é fator relevante, podendo gerar dificuldade de acesso ao ensino. A ausência de recursos
financeiros para custear os gastos elementares para a permanência no curso é apontado como
barreira significativa frente às mulheres que não tem renda e dependem de seus respectivos
esposos para o transporte, livros, xérox, entre outras despesas casuais. Como a renda do
esposo de Rosa é superior a dois salários mínimos e seus filhos já são maiores de idade, a
entrevistada não se enquadra no perfil socioeconômico que necessita do amparo do governo
através de projetos como o “Bolsa Família”. Caso Rosa recebesse o auxílio do governo, citado
anteriormente, usufruiria de maior autonomia, podendo assim, investir parte do auxílio nos
custos referentes aos estudos, explicou ela.
De uma geração para outra notamos diferenças também, os números revelam o
aumento do público feminino. Mas a mudança que favorece as gerações atuais não pode levar
ao esquecimento das problemáticas que ainda repercute na geração anterior. As mulheres
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adultas que atravessaram o período em que a educação não abrangia a maioria da população
nem mesmo na educação infantil, podem ainda reverterem o quadro e se engajarem nas
instituições de ensino.
No final da entrevista, disse ela: “Se eu não passar, porque sei que é muito
complicado, eu sei que não vou perder nada, eu já aprendi muita coisa aqui. Eu vou lutar até
conseguir. Meu sonho é cada dia aprender mais. Para mim o que eu sei é muito pouco, quero
aprender mais.”
Conforme nos mostra Bourdieu (2002), o homem é produto da própria ordem contida
na dominação masculina, pois é ele também classificado no sistema de diferenciação dos
sexos e cobrado para estar posicionado em um nível superior dentro dos habitus e do espaço.
Nesse esquema de percepção de categorias cognitivas, o homem e a mulher estão em oposição
a partir da divisão do trabalho que estabelece a ordem social, dessa forma, se entrelaça o
pensamento e a ação prática expostas nas disposições dos agentes no interior do espaço social,
tem como efeito simbólico a legitimação do discurso da divisão sexualizante que constrói a
realidade com base nos princípios de hierarquia de gênero.
A ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica que
tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça: é a
divisão social do trabalho, distribuição bastante estrita das atividades
atribuídas a cada um dos dois sexos, de seu local, seu momento, seus
instrumentos; é a estrutura do espaço, opondo o lugar de assembleia
ou de mercado, reservados aos homens, e a casa, reservada às
mulheres; (...). (BOURDIEU, 2012, p. 18)
A divisão do trabalho não depende da vontade do gênero masculino, como também
não é formulada de acordo com a vontade do gênero feminino, ambos os gêneros estão
submetidos às regras que já existiam antes deles nascerem, a ordem social já existia e separa
as funções de cada gênero.
Os habitus ditam as ações consideradas inapropriadas para cada gênero, ou seja, tanto
o gênero feminino quanto o masculino são carregados de expectativas comportamentais, estilo
de vida e costumes próprios da classificação. “O espaço social é a realidade primeira e última
já que comanda até as representações que os agentes sociais podem ter dele.” (BOURDIEU,
p. 27). Os sujeitos sempre estão permeados de simbologias que foram adotadas a partir das
relações sociais e seus movimentos práticos e dinâmicos que definem a produção do real.
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O habitus é esse princípio gerador e unificador que retraduz as
características intrínsecas e relacionais de uma posição em um estilo
de vida unívoco, isto é, em um conjunto unívoco de escolha de
pessoas, de bens, de práticas. (BOURDIEU, 1996, p. 22)
Habitus dos homens são definidos socialmente superiores em relação aos habitus
femininos, isso reflete como, por exemplo, na diferença salarial. A jornada de trabalho da
mulher é dupla, pois devem cuidar dos serviços domésticos, dos filhos e do trabalho.
Se a persistência da responsabilidade das mulheres pelos cuidados com a
casa e a família é um dos fatores determinante da posição secundária
ocupada por ela no mercado de trabalho, a maternidade é, sem dúvida, o
que mais interfere no trabalho feminino quando os filhos são pequenos.
A responsabilidade pela guarda, cuidado e educação dos filhos na família
limita a saída da mulher para o trabalho remunerado, sobretudo se os
rendimentos obtidos forem insuficientes para cobrir custos com formas
remuneradas de cuidado infantil. (ROCHA, 2000, p. 19)
O mais alarmante é quando a mãe delega às filhas, ainda crianças, a tarefa de cuidar
dos irmãos menores, dessa maneira, as meninas são responsabilizadas como fossem mães
adotivas de seus irmãos mais novos e não vivem adequadamente o período da infância,
prejudica também os estudos das jovens. Creches públicas poderia solucionar, devidamente,
essa problemática. Com a carência de creches diminui o número de mães economicamente
ativas.
Já a terceira entrevistada, de codinome Jasmim, é uma mulher negra, cabelos
encaracolados e de riso solto. Tem quarenta anos de idade, trabalha como diarista, não tem
religião, filha de pais semianalfabetos que são naturais de Chã Preta, cidade do interior de
Alagoas com mais de sete mil habitantes, localizada a cento e dois quilômetros da capital,
Maceió. Lembra-se da educação rígida que recebeu, sobretudo, de seu pai.
Jasmim interrompeu os estudos na sétima série, atual sexto ano, em virtude da
necessidade de contribuir com a renda familiar, visto que faz parte de uma família baixa renda
que tem onze membros, o casal e seus nove filhos. Ela conta como a ausência de recursos
dificultou a socialização na escola. Por não ter roupas e sapatos semelhantes a sua turma,
Jasmim se sentia inferior, além disso, o uniforme escolar era revezado, de modo que a farda
usada pela irmã no período da manhã era a mesma que seria usada por Jasmim no período da
tarde, pois seus pais não dispunham de recursos financeiros para aquisição de uniformes
escolares para todos os filhos. Tal situação a levou a se negar ir à escola. Foi então que
conseguiu um emprego como empregada doméstica e parou de estudar. O dinheiro do
41
primeiro trabalho que Jasmim recebera contribuiu para a compra do enxoval de seu irmão
caçula.
Posteriormente, veio a gravidez na adolescência. Segundo seus pais, uma mulher não
deveria estudar após a gravidez. A função dela, após a primeira gestação, seria cuidar
prioritariamente do filho, por isso, Jasmim se viu impossibilitada de voltar à escola.
A maternidade na adolescência pode acarretar no adiamento dos projetos na carreira,
além do que, o casamento pode ser usado como mecanismo de ascensão social ou meio de
subsistência. Significa igualmente a antecipação da vida adulta, de modo que, as expectativas
que seriam satisfeitas na adolescência, como a dedicação aos estudos, poderá ser adiada ou
totalmente encerrada.
Somente aos vinte e dois anos de idade, ela se matriculou novamente na escola,
contra a vontade de seus pais e de seu esposo. Os avós do bebê se negavam a ficar com a
criança durante o horário noturno, período em que Jasmim concluía o ensino fundamental e
médio, na modalidade de educação de jovens e adultos. A condição para ir à escola era: caso
sua filha estivesse acordada, Jasmim deveria levar a criança à escola, visto que a
responsabilidade pela menor era da mãe e não da avó; somente se a menina dormisse, esta
ficaria em casa e Jasmim poderia ir ao colégio. A entrevistada conta que a recusa da avó aos
cuidados com a neta se dava motivada por dois fatores: incentivar Jasmim a cumprir
rigorosamente sua função enquanto mãe e puni-la pela vergonha causada à família, em razão
do escândalo ocorrido após a gestação indesejada pela mãe solteira.
A entrevistada disse “Tenho uma irmã que ainda mora com os meus pais, ela trabalha
os dois horários e faz faculdade de noite, minha mãe a critica dizendo que minha irmã não
tem tempo para nada, mesmo ela sendo solteira e tendo filho, mas minha mãe quer que ela
fique em casa a ajudando. Para minha mãe a minha irmã não tem idade para estudar, deve
trabalhar fora ou ficar em casa ajudando nos afazeres domésticos.”.
Jasmim se casou e teve mais dois filhos, mais uma vez o processo de ensino e
aprendizagem foi prejudicado, em razão da gravidez. Seu esposo não admitia que Jasmim
trabalhasse, ainda assim, ela se manteve no emprego porque o salário mínimo recebido com o
trabalho de seu marido não garantia a satisfação das necessidades familiares. O marido de
Jasmim espelhava nela as características de sua sogra, a mãe de Jasmim que se dedicava
unicamente às tarefas do lar, na tentativa de reproduzir o modelo histórico tradicional.
42
Ela conta que “Eu nunca quis me casar, passei quatorze anos casada e hoje estou
separada. Separei-me porque eu não aceito muita coisa dentro de um relacionamento, traição é
uma delas. Além do mais, eu não nasci para ser regulada por um homem, não suporto ter
alguém me dizendo o que eu tenho que fazer, a menos que seja os meus pais.”
No tocante a dominação que é a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem,
Weber (2001) afirma que está relacionada a um costume enquanto hábitos do comportamento
baseados na tradição, ou lei jurídica, ou carisma. Nesse trabalho a dominação tradicional
melhor se enquadra, pois se remete a poder patriarcal.
A dominação patriarcal (do pai de família, do chefe da parentela ou do
soberano) não é senão o tipo mais puro da dominação tradicional. Toda
sorte de chefe que assume a autoridade legítima com um êxito que
deriva simplesmente do hábito inveterado pertence à mesma categoria,
ainda que não apresente uma caracterização tão clara. (WEBER, 2001,
p. 353)
Na posição da mulher em seu trabalho doméstico percebe-se o resultado da
reprodução do domínio das relações tradicionais. Empregadas domésticas têm baixo status
social, bem como baixa remuneração, destarte, a dominação patriarcal tem como efeito a
dominação econômica.
Com persistência, sofrendo críticas dos pais e do cônjuge e após diversas
interrupções, Jasmim concluiu o ensino médio aos trinta e um anos de idade. Ela afirma que
nunca quis se casar. A razão da recusa pelo casamento é a não admissão da situação de
submissão na qual a mulher frequentemente é vítima. O desejo, o pensamento e a atitude de
uma mulher, segundo ela, não devem dobrar-se para agradar ao homem. A recusa, a afronta e
a resistência estipuladas pela mulher são julgadas por seus pais e o ex-cônjuge como atos
desviantes.
De acordo com Giddens (1993), as sociedades modernas não estruturam o casamento
do mesmo modo que as sociedades anteriores, as mulheres adotaram alta consciência
reflexiva em termos do “eu”, enquanto anteriormente a figura do “nós” embasava suas
atitudes. A individualidade reflete as transformações sociais, isso porque, houve a libertação
da ideia de comportamento apropriado. A valorização do “eu” como forma de consciência
gerou a fuga do velho modo de se relacionar, hoje visto como arcaico.
43
Um novo estilo de vida do gênero feminino ganha relevância na sociedade, dessa
vez, com menor controle masculino. As divorciadas, mães solteiras e solteiras convictas
gradativamente saem do casulo no qual os estigmas as mantinham presas. A autoimagem da
mulher começa a se deslocar para ênfase no potencial individual, gerando satisfação pessoal
enquanto mulher; nesse sentido, nota-se um maior grau de independência feminina nas áreas
econômica, psicológica e social.
Faz nove anos que Jasmim está longe da escola. Somente agora, após o crescimento
dos filhos, Jasmim se vê possibilitada em investir no seu sonho que foi paralisado há anos.
Seu maior sonho é conquistar o diploma de graduação em Medicina, para então, investir na
educação de seus filhos e netos.
As irmãs de Jasmim, que não engravidaram durante a adolescência, concluíram o
ensino médio no tempo regular e foram incentivadas pela mãe. A maternidade consiste no
marco da mudança do papel social da mulher, segundo a cultura familiar de Jasmim.
Seguindo essa visão, o direito aos estudos é concedido às mulheres apenas antes da primeira
gravidez, logo, a função da mulher após a primeira gestação é de casar-se e cumprir,
exclusivamente, os afazeres domésticos.
Atualmente, Jasmim ainda sofre difamações dos pais por persistir nos estudos, além
de ser divorciada e mãe solteira. Na opinião deles, Jasmim não é uma boa dona de casa, não
exerceu bem as funções atribuídas ao seu gênero. O termo gênero está diretamente associado
à ideia de identidade social que se é criada pelo indivíduo de acordo com a genital, papel
social e aspectos psicológicos, dessa maneira, diz respeito a elementos que estão além das
determinações biológicas.
Como o ENEM possibilita a escolha de mais de um curso, Jasmim já têm as três
opções: Medicina, Educação Física e Dança. Cogitando a possibilidade de não atingir a
pontuação necessário para estes cursos pretendidos, no próximo ano, já planeja tentar
novamente, dessa vez, com mais determinação.
A diarista tem três filhos, além da remuneração pelo trabalho recebe também pensão
dos dois pais das crianças. Conta ainda com a ajuda do governo através do benefício do
“Bolsa família”. Em relação a educação dos filhos Jasmim diz “Minha filha engravidou nova
também, mesmo assim eu a incentivei a estudar, eu fiquei com o menino dela enquanto ela
estava na escola. Minha mãe me criticou por isso. Só que a minha filha casou e teve mais dois
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filhos foi, então, que ela parou os estudos. Agora, o esposo dela terminou os estudos. Hoje eu
vejo que a gente sem estudo não chega à lugar nenhum.”.
Suas patroas reprovam a atitude de retomar os estudos, afirmam ser em vão e que na
idade atual ela não deveria pensar mais em faculdade. Maria fala não ligar para as críticas
porque ela não se sente velha. Foi o incentivo de um dos irmãos que a levou a se inscrever no
curso pré-ENEM. Os irmãos se uniram de modo que um apoia o outro para a conclusão dos
estudos. Esta geração, que já é fruto da modernidade, reconhece a importância da educação
escolar como estratégia de crescimento econômico, cultural e social.
A respeito das perspectivas após o ingresso no ensino superior, Jasmim se mostra
otimista, acredita na melhora da qualidade de vida de toda a sua família, alcançando a
próxima geração, principalmente, depois da conclusão da graduação. Quando questionada
sobre o porquê da insistência em estudar, Jasmim com ar esperançoso responde que sempre
teve o sonho de cursar medicina. Diz ela: “Esse sonho não morreu e eu vou conseguir. Nunca
pensei em desistir, um dia eu vou ser médica!”.
Esse conjunto de fatores contrários ao sucesso educacional não inviabiliza a
conquista, mas sem dúvida se apresenta como obstáculo para o desenvolvimento das
atividades. Como aspectos positivos, encontramos a determinação de mulheres experientes,
comprometidas com seus ideais, com a certeza de que não há mais tempo a perder. O olhar
lançado à educação é de seriedade. Com base em toda experiência acumulada, são formuladas
novas metas na tentativa de superar as frustrações passadas.
3. 2 Transformações, continuidades e os desafios na educação feminina
Nenhumas das entrevistadas atingiram nota suficiente para aprovação. Das alunas do
cursinho Pré-ENEM Conexões dos Saberes, acima de quarenta anos, apenas uma foi
aprovada, na segunda chamada, para o curso de Geografia.
O insucesso mostra que o longo período afastado de instituições de ensino não são
recuperados de modo rápido. O estado não desenvolveu meios de acesso ao ensino superior
para aqueles que foram privados do processo de ensino e aprendizagem durante o período da
adolescência.
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Integrar e garantir o direito de acesso à educação superior aos indivíduos que foram
desintegrados da educação, por não terem oportunidades, é tarefa que exige projetos políticos
de apoio educacional, como forma de compensar os anos de privação à escola. Pois, conforme
foi relatado, o público alvo aqui pesquisado tem como naturalidade as cidades do interior de
Alagoas, onde as escolas além de terem situações precárias também se localizam em regiões
distantes da residência.
Há uma relação direta entre o resultado escolar e a classe de origem
em todos os níveis de ensino, sobretudo no universitário, e a
transformação do sistema escolar está intimamente ligado à
transformação da estrutura das relações de classe. (ROSENDO, 2009,
p. 17)
Um aspecto marcante presente em todas as entrevistadas é a ausência de capital
cultural, como definido pelo conceito desenvolvido por Bourdieu, nenhuma das entrevistadas
tem como origem uma família letrada, ao contrário, são filhas de pais analfabetos ou
semianalfabetos. Elas encontram na escola a estrutura de reprodução social, a qual mantém os
agentes localizados no mesmo espaço social. Não se trata aqui da relação determinante, mas
aborda a seleção que a universidade faz para escolher os mais aptos, mais prontos, de acordo
com o mérito individual. As cotas têm contribuído para incluir os alunos que não tiveram as
mesmas oportunidades que os candidatos pertencentes à classe média. Ainda assim, a
estrutura política, a desigualdade de gênero, a desigualdade social são maiores do que os
programas de inclusão desenvolvidos nas universidades, a relação escolar ainda obedece às
regras da relação entre as classes.
O ENEM atesta o conhecimento dos candidatos que possuem cultura letrada, que
receberam a melhor formação e, geralmente, são membros das camadas economicamente
favorecidas. Os candidatos que ao longo da sua história foram menos favorecidos tendem a,
após a reprovação no exame, desqualificar o seu conhecimento, sua cultura e se autocondenar.
Diferente das famílias economicamente mais favorecidas, que têm o privilégio de investir na
educação escolar dos seus filhos e assim elaborar estratégias para manter os privilégios e
poderes.
Essas famílias são dotadas de um senso prático dentro do sistema de
preferências dentro dos princípios de visão e divisão (gostos) o
habitus é essa espécie de senso prático do que se deve fazer em dada
situação - O que chamamos no esporte, o senso do jogo, arte de
antecipar o futuro do jogo inscrito, em esboço, no estado atual do
jogo. Para dar um exemplo no âmbito da educação, o senso do jogo
46
torna-se cada vez mais necessário na medida em que escolher um
estabelecimento de renome é apostar com investimentos em um
sucesso escolar a fim de lucros futuros. (BOURDIEU, 1996, p. 42).
A escola reproduz as desigualdades sociais e a elite utiliza dessa instituição de ensino
para transformar o capital econômico em capital cultural, simbólico e social. A hierarquia
existente na sociedade é reproduzida dentro do sistema de ensino, onde é cobrado do aluno
conhecimentos que vão além do que é lecionado dentro da escola.
Em seu bem sucedido quadro teórico, Bourdieu busca explicar as
desigualdades escolares argumentando que, a maior influência do
capital cultural, em detrimento do econômico se justifica porque a
escola não é neutra e exige dos alunos comportamentos que são
comuns às famílias culturalmente mais privilegiadas. Para uma
parcela dos alunos, a escola é vista como uma extensão do próprio lar,
o que só vem a facilitar a aprendizagem. Para as desprivilegiadas
culturalmente, coloca-se um mundo completamente estranho, cheio de
códigos que elas não conseguem decifrar, o que vai dificultar a
aprendizagem. (BARBOSA, 2012, p. 7)
Em minha experiência como professora de Sociologia do cursinho pré-ENEM, pude
notar a dificuldade de compreensão do conteúdo sofrida pelo público adulto, homens e
mulheres, em razão da ausência de capital cultural. A falta de domínio das ferramentas
digitais também dificultou a aprendizagem, uma vez que parte do material disponibilizado
para o estudo se encontrava em grupos, nas redes sociais. O professor, como um importante
contribuinte para construção do saber, deve estar atento às necessidades específicas do
público que atende, buscando decodificar os códigos ininteligíveis para seus alunos, na função
de facilitador do processo de aprendizagem. Cabe ao docente falar de forma clara e
aproximada da realidade do público que interage, buscando soluções para problemáticas que
se apresentam como obstáculos no ensino e indicar caminhos alternativos frente às limitações
do grupo.
Ao professor, cabe conhecer e refletir a respeito da realidade de diferentes grupos
sociais para então elaborar, junto à coordenação, instrumentos de adequação do sistema de
ensino aos alunos, reivindicando políticas públicas que assistam a educação de jovens e
adultos. No que toca as atividades desempenhadas dentro da sala de aula, o trabalho do
docente é de responder positivamente na inclusão de alunos pertencentes às categorias
minoritárias. Frente à necessidade de compensação das deficiências, faz-se urgente a
adaptação de uma pedagogia que atenda aos requisitos de respeito às particularidades por
meio da flexibilidade na dinâmica em sala de aula.
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3. 3 Conclusão
A Sociologia é capaz de destrinchar e analisar os mecanismos de organização
simbólica conforme desenvolve um conhecimento capaz de lançar luz nas práticas sociais
como também na subjetividade, clareando características que são ocultados, quando
despercebidas se esvaem sem a devida reflexão.
Em relação ao ingresso de mulheres no ensino superior, de modo algum coloco aqui
como impossível. O trabalho mostrou que as estruturas do ensino não permitem o acesso as
vagas das universidades por parte das minorias menos favorecidas, em questão. Ainda que
enfrentando a desigualdade social somada a desigualdade de gênero, as entrevistadas seguem
no ideal de alcançarem o direito à educação superior do mesmo modo que os cidadãos
pertencentes à classe dominante e privilegiada. Ocorre que o que distingue os grupos não é
unicamente a força de vontade e o mérito, mas são as oportunidades.
Para que milhares de mulheres adultas pleiteiem uma vaga nas universidades e
conquistem seu espaço com êxito é preciso ações de política pública desde o EJA (Educação
de Jovens e Adultos), também é realizável a elaboração de estratégias de inclusão, de modo
preventivo, durante a fase da adolescência. Ações de inclusão da população adulta deve ser
uma forma de ressarcir o descaso para com a educação pública, à cerca de trinta anos atrás,
período entre a infância e a adolescência do grupo aqui pesquisado. Sobretudo, é preciso
investir na educação pública de modo que todos tenham subsídios para pleitear uma vaga no
curso superior de maneira igualitária.
Observou-se também que já na fase infantil se formula a polarização entre os
gêneros, por vezes, os meninos visando se autoafirmarem diferentes das meninas, adotam
posturas transgressivas e antiescolar, a fim de seguirem o modelo de masculinidade que
naturaliza a agressividade quando vinda de um homem, por isso, o menino que tem bom
comportamento é caçoado sendo chamado de “mariquinha”. Quando se formar a consciência
sobre a masculinidade baseada na passividade, ainda na infância, as mulheres serão mais
livres e possivelmente encontrarão uma sociedade mais aberta para a atuação feminina.
Encontra-se na sociedade, elevado número de mulheres adultas que se ocupam de
tarefas domésticas sobre o domínio masculino e longe das universidades. Os exemplos citados
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podem servir de inspiração para aquelas que, já sem esperança, abandonaram os estudos no
ato de desistência dos sonhos, conformadas com o modelo patriarcal não desenvolveram sua
capacidade cognitiva, tão pouco exercitaram suas aptidões. Ocorrendo a atrofia do
conhecimento não por mera opção individual, mas provocada em razão da falta de acesso,
implicações no casamento e por causa do conjunto de ideologias machistas.
Dominação e subordinação, concorrência, imitação, divisão do trabalho,
formação de partidos, representação, simultaneidade da união interna e
da coesão perante o mundo externo e outras formas semelhantes se
encontram tanto em sociedades de Estado como em comunidades
religiosas, em um grupo de conspiradores como na camaradagem
econômica, em uma escola artística como em uma família. (SIMMEL,
2006, p. 34)
Como podemos observar, os indivíduos e os grupos competem constantemente entre
si, seja entre os indivíduos, seja entre os grupos. As relações de dominação estão presentes em
todas as esferas da sociedade. A mulher enquanto grupo de gênero é subjugada não somente
na família, mas no mercado de trabalho, na religião e até nos partidos políticos. Pois a forma
de organização familiar repercute em toda estrutura social. Apesar de na modernidade as
mulheres terem aumentado o seu poder, seja na relação conjugal, seja na esfera pública, ainda
estão longe da igualdade de gênero.
A dominação masculina somente ocorre quando há a permissividade das mulheres. O
consentimento ou a resistência constroem o real por veredas contrárias, mas a mulher
consente ou resiste de acordo com a consciência formulada que varia conforme o contexto
cultural, político, histórico e religioso. Mas acima de tudo, o conhecimento que a mulher
possui influencia na escolha, na postura, pois o entendimento do real reflete na prática. Por
isso a conscientização do problema social leva o ser humano à tomada de consciência, o
desenvolvimento do senso crítico e a transformação.
De fato, conforme se vê nos relatos das entrevistadas, as tarefas domésticas, a
gravidez na adolescência e o pouco recurso financeiro se apresentam como empecilhos graves
para a continuidade nos estudos das mulheres em idade adulta. Tem-se conseguido driblar a
influência masculina, embora exerça poder de coerção significativo, elaboraram-se diversas
estratégias de resistência para se chegar ao objetivo feminino de maior autonomia.
Também se pode observar nas entrevistas que o ingresso de mulheres em idade
adulta tem sido cada vez mais plausível, em razão do momento de independência dos filhos
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que ocorre durante esse período. Quando os filhos atingem a maior idade, diminui-se o grau
de responsabilidade dos pais, logo, nessa fase a mãe se vê com menor grau de afazeres no
interior do lar, pois os cuidados maternos são reduzidos significativamente. Ouvi com
frequência frases como “Meus filhos já cresceram, agora posso voltar aos estudos.”. É nesse
período que aumentam as chances da mulher pensar mais no “eu”, já que a família enquanto o
“nós” já está resoluta.
Na modernidade, os centros urbanos valorizam a escolaridade para o mercado de
trabalho, esse fato motiva as mulheres a se inscreverem no vestibular. Além disso, para as
mulheres aqui estudadas a conquista do ingresso na universidade não significa apenas
ascensão social, representa também o desenvolvimento das habilidades intelectuais que
contribuem nas relações sociais, à medida que ocorre a acumulação do conhecimento. A
confiança em si mesmo faz a diferença no momento de interagir com indivíduos de diferentes
classes sociais, além disso, a entrada no universo acadêmico proporciona ampliação do
círculo de amigos e aumenta o nível de autonomia em relação ao marido. O conhecimento
científico modifica as perspectivas a respeito do mundo e nutre os sujeitos de capacidade para
avançar em diferentes esferas da vida. Por isso, as entrevistadas valorizam o conhecimento,
pois têm esperança na mudança da trajetória a partir do alcance do conhecimento científico.
A possibilidade das mulheres alcançarem postos importantes na sociedade através dos
estudos não é sempre bem vista pelos homens, tal conquista feminina gera nos homens a
insegurança. A dependência feminina foi por longos anos fator determinante para casamentos
duradouros. Insatisfeitas e sem perspectivas de mudança, as mulheres se mantinham na
posição de dominadas por falta de alternativas. No período moderno, houve o aumento da
independência das mulheres, movimento que provocou o aumento de famílias em formatos
distintos, pais separados, mães solteiras e famílias com filhos de segunda união. Assustados
com a independência feminina, os homens têm construído obstáculos na tentativa de manter a
dominação e o matrimônio com base no formato tradicional.
Na contemporaneidade, as mulheres têm a opção de manterem o casamento quando
respeitada em sua dignidade, tendo a possibilidade de traçar novos caminhos sempre que
forem violentados os seus direitos; a separação não carrega a coerção social de anos atrás,
cujas mulheres eram denominadas, de modo pejorativo, de desquitadas. Não é mais a renda do
marido que motiva a permanência da união entre os casais, mas é o respeito mútuo, fruto dos
laços firmados que consolida a durabilidade do casamento. Quando o homem não tem a
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confiança na solidez desses laços afetivos se amedronta diante das asas que a mulher abre, seu
voo parece a levar para longe dele. Por outro lado, a mulher quando se conclui o ensino
superior aumenta a chance de remuneração alta pelo trabalho especializado, aumentando,
consequentemente, a renda familiar. Dessa forma, o estilo de vida de toda a família terá
melhorias significativas, também o estudo dos filhos poderá ser investido em grau maior.
Esses aspectos positivos contribuirão para a qualidade do relacionamento que por vezes é
afetada em razão das dificuldades financeiras.
A escolarização das mulheres casadas não é uma ameaça ao casamento, a busca pela
qualificação profissional pode ser uma estratégia de fuga de uma situação de desrespeito e
violência. Não é o destaque da mulher no mercado de trabalho que levará ao fim o
matrimônio, mas é a resistência à dominação, à insubordinação na relação, a exposição de
uma nova forma de pensamento, a luta pelo direito à educação, é o conjunto desses fatores
que busca combater as desigualdades que desemboca no rompimento das estruturas das
relações amorosas.
Adentrar no campo privado, no lar, nos assuntos íntimos das entrevistadas, desperta a
reflexão sobre a repetição desses casos particulares na maioria das famílias alagoanas. Tratase de sentidos ocultados em situações cotidianas que são agora abertas à exposição.
Transforma-se em conhecimento sociológico sobre a negociação, a resistência e a dominação
enfrentada no lar, na escola, na igreja e em toda órbita das relações sociais. São mulheres
subjugadas que contam como romperam barreiras culturais e tradicionais para buscarem sua
realização profissional e pessoal. Esse novo movimento é reflexo das conquistas femininas
que mudaram o papel social da mulher. Atualmente, o gênero feminino segue desbravando
sua localização na esfera pública e reposicionando seu lugar no espaço social. Estando a
sociedade em constante movimento, o gênero masculino se agarra ao que lhe resta de
possibilidades para impedir a perda do domínio do gênero feminino; para tanto, os homens
impõem barreiras verbais e atitudinais a fim de que as conquistas visadas pelas parceiras não
sejam alcançadas.
Por fim, entende-se que a dominação masculina é apontada em todas as entrevistas
como uma das principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres em idade adulta que
desejam ingressar no ensino superior. Outro fator comentado em todos os casos é o longo
tempo distante da escola que tem como consequência o esquecimento do conteúdo aprendido
na adolescência, a falta de prática de exercício mental em relação aos estudos. Em
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contrapartida, o facilitador dos estudos para essas mulheres, durante esse período, é o fato de
que os filhos não necessitam de cuidados demasiados como na infância. Com os filhos
crescidos, a mulher tem mais tempo disponível para dedicar-se às atividades paralelas aos
cuidados com o lar, embora ainda ela se mantenha como principal responsável pelos afazeres
domésticos.
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