Um olhar antropológico sobre o pastoril: “recordar é viver”. Maceió, Alagoas
Discente: Ione Louro Caciano Santos; Orientadora: Cláudia Mura.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTUTUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS/ICS
CIÊNCIAS SOCIAIS - LICENCIATURA
IONE LOURO CACIANO SANTOS
UM OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE O PASTORIL “RECORDAR É VIVER”
MACEIÓ, ALAGOAS.
MACEIÓ-AL
2015
1
IONE LOURO CACIANO SANTOS
UM OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE O PASTORIL “RECORDAR É VIVER”
MACEIÓ, ALAGOAS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado
ao Instituto de Ciências Sociais da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito parcial para a obtenção do grau de
licenciado em Ciências Sociais.
Orientadora: Profª. Drª. Claudia Mura
MACEIÓ-AL
2015
2
IONE LOURO CACIANO SANTOS
UM OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE O PASTORIL “RECORDAR É VIVER”
MACEIÓ, ALAGOAS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado
ao Instituto de Ciências Sociais da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito parcial para a obtenção do grau de
licenciado em Ciências Sociais.
Aprovada em:___/___/___
Banca examinadora
_______________________________________________
Profª.Drª Claudia Mura
Universidade Federal de Alagoas (orientadora)
_______________________________________________
Prof. Dr. Siloé Soares de Amorim
Universidade Federal de Alagoas
_______________________________________________
Prof.ª Msc. Jordânia de Araújo Souza
Universidade Federal de Alagoas
3
Dedico este trabalho à família, parentes e
amigos e aos educadores de Ciências
Sociais.
4
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus meu Pai, meu Amigo, meu Tudo.
Aos professores curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de
Alagoas pela dedicação a profissão, me dando a oportunidade de aprender com eles.
À querida professora Doutora Claudia Mura pela paciência e dedicação em me
orientar neste trabalho. Muito obrigada!
Agradeço ao professor Doutor Siloé Amorim e à professora Mestre Jordânia de Araújo
Souza por aceitar fazer parte da banca.
Agradeço ao meu pai Cicero (em memória) que sempre me apoiou.
Agradeço a minha mãe que desde o início do curso me deu ânimo para prosseguir,
Muito obrigada!!
Ao meu marido Fernando, pelo apoio incondicional. Muito obrigada!
Ao meu filho Fernando Filho, por compreender quando precisei me ausentar para me
dedicar aos meus estudos. Muito obrigada!
Agradeço aos meus amigos e familiares que me ajudaram direta e indiretamente na
realização desse sonho. Muito obrigada!
E por fim um agradecimento muito especial ao Grupo de Pastoril ! ”Recordar é viver”.
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RESUMO
Este estudo apresenta algumas observações de cunho antropológico sobre o grupo pastoril “Recordar é
Viver”, localizado no município de Maceió, Alagoas. Diversamente de outros pastoris da cidade, este
grupo tem uma organização heterogênea em termos da idade dos participantes, sendo um fator que me
chamou a atenção e que precisei compreender como uma de suas especificidades. No decorrer do
trabalho apresenta-se o processo de formação do grupo, dando ênfase à ação e interpretação dos atores
sociais e seus conhecimentos sobre o pastoril. Mostra também o contexto de vivência e o caminho
percorrido pelos meus interlocutores para a construção e moldagem do grupo. A pesquisa é de
natureza qualitativa exploratória e se desenvolveu através de pesquisa bibliográfica e de campo. A
pesquisa de campo permitiu-me aproximar dos protagonistas que dão vida ao pastoril neste contexto
específico e compreender que a formação e moldagem do grupo se deu a partir da atuação de algumas
mulheres da comunidade que começaram a articular seus saberes sobre o pastoril e transmiti-los aos
mais jovens que participam do grupo. Os saberes articulados e socializados pelos mais idosos do
grupo, somados aos esforços dessas mulheres fizeram com que o grupo surgisse, acentua o
entendimento de que eventos da “cultura popular” nascem da junção de pessoas da comunidade e de
conhecimentos elaborados em seu contexto específico e desse modo o grupo de Pastoril “Recordar é
Viver” passou a se constituir como um grupo cultural.
PALAVRAS-CHAVES: Cultura popular. Grupo Recordar é Viver. Pastoril.
6
ABSTRACT
This study presents some anthropological observations on the pastoral group "Remembering is living",
located in the city of Maceió, Alagoas. Unlike other pastoral town, this group has a heterogeneous
organization in terms of the age of the participants, a factor that caught my attention and I had to
understand how one of its specificities. While work presents the group's formation process,
emphasizing the action and interpretation of social actors and their knowledge of the pastoral. It also
shows the living context and the path taken by my interlocutors for building and molding the group.
The research is exploratory qualitative and developed through literature and field research. The field
research allowed me to approach the actors who give life to pastoral current context and understand
that training and molding the group took from the performance of some local women who began to
articulate their knowledge about the pastoral and transmitted them to younger people who participate
in the group. Articulated knowledge and socialized by older group, added to the efforts of these
women caused the arise group, stresses the understanding that events of "popular culture" born of the
community of people join and elaborate knowledge in their specific context and thereby Pastoral
group Remembering is living began to establish itself as a cultural group.
KEYWORDS: Popular culture. Remember group is living. Pastoral.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 08
CAPITULO I – ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O CONCEITO DE CULTURA E
DE CULTURA POPULAR.................................................................................................... 11
1.1 O CONCEITO DE CULTURA: ALGUMAS ABORDAGENS........................................ 11
1.2 ABORDAGENS E ALGUMAS DESCUSSÕES SOBRE O CONCEITO DE CULTURA
E DE CULTURA POPULAR .................................................................................................. 14
1.3 AMPLIANDO A VISÃO ACERCA DO FOLCLORE ..................................................... 18
CAPITULO II - A LITERATURA SOBRE O PASTORIL ............................................... 21
2.1 OS FOLGUEDOS .............................................................................................................. 21
2.2 SIGNIFICADOS ATRIBUÍDOS AO PASTORIL NA LITERATURA ........................... 25
CAPÍTULO III – O PASTORIL “RECORDAR É VIVER” ............................................. 32
3.1 CONTEXTO E ATORES SOCIAIS .................................................................................. 32
3.2 PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO GRUPO ............................................................... 36
3.3DESCRIÇÃO DAS APRESENTAÇÕES DO GRUPO ...................................................... 44
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 55
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 58
8
INTRODUÇÃO
Segundo a ASFOPAL (2015)1 o Estado de Alagoas, situado no nordeste brasileiro,
possui a maior diversificação em folguedos. São vinte e nove folguedos e danças, dos quais
quatorze folguedos natalinos, dois folguedos de festas religiosas, oito folguedos carnavalescos
(sendo quatro com estrutura simples), três danças e dois torés.
Como estudante da Universidade Federal de Alagoas, do Curso de Ciências Sociais, a
partir de estudos realizados na área da antropologia, passei a me interessar pelos folguedos e
em particular pelo pastoril. A escolha desse objeto de pesquisa se deve à observação e à
constatação de que o pastoril em Maceió é o “folguedo” mais encontrado na cidade e as
apresentações ocorrem geralmente em época natalina ou festas nas igrejas. No decorrer da
pesquisa, fui compreendendo que esta expressão cultural tão presente em Alagoas e, em
especial, em Maceió, mostrava algumas peculiaridades nos diversos grupos que as
realizavam.
A opção pela pesquisa junto ao grupo pastoril “Recordar é Viver”, localizado no bairro
do Tabuleiro dos Martins no conjunto Salvador Lyra, em Maceió, Alagoas, foi se construindo
a partir da observação que este não mostrava uma padronização dos participantes como nos
outros grupos. A padronização se refere à participação de membros da mesma idade. Esse
grupo me chamou a atenção, pois eu já havia observado que outros grupos de pastoris eram
formados por pessoas da mesma idade: ou adolescentes, ou crianças, ou idosos. O grupo
“Recordar é Viver” tem uma composição heterogênea e as pessoas mais velhas tem
fundamental importância na transmissão dos conhecimentos sobre o pastoril.
Para a compreensão dessa falta de padronização que havia observado no grupo e,
portanto, de sua especificidade, foi necessário escolher um caminho de pesquisa que me
permitisse analisar o processo de construção do grupo e o contexto no qual está inserido. Foi
necessário, então, realizar uma pesquisa de campo que pudesse me aproximar dos seus
principais protagonistas e promotores e compreender as intenções, os anseios e as formas de
construir a convergência de valores atribuídos ao pastoril. Ao invés de abordar o pastoril
apenas como expressão cultural cristalizada e definida pelos membros de um grupo, fiz a
escolha de analisar o processo de formação deste último, adaptando uma perspectiva gerativa
que me permitisse compreender como, em um determinado contexto, específicos atores
1
Associação dos Folguedos Populares de Alagoas – ASFOPAL. Disponível em: http://asfopal.blogspot.com.br/
p/folguedos.html. Acesso em: 13 de jul. de 2015.
9
sociais elaboram os fluxos culturais que resultam na peculiar heterogeneidade da composição
do grupo e na construção do pastoril como expressão cultural fruto desse grupo. Nesse
sentido, dei ênfase à ação e interpretação dos atores sociais e seus conhecimentos sobre o
pastoril.
Assim, como objetivo geral tem-se: mostrar o contexto da vivência do pastoril
“Recordar é viver”, o caminho percorrido pelos meus interlocutores na construção e
moldagem do grupo. Os objetivos específicos se concentram em destacar e analisar o contexto
que possibilita tal construção, assim como as elaborações que seus principais membros fazem
do pastoril.
Considero necessário explicitar que a pesquisa é de natureza qualitativa exploratória e,
nesse sentido, tem limitações tanto na coleta de dados, quanto na análise dos mesmos. A
pesquisa de campo foi realizada através de questionários e entrevistas, bem como da
observação das apresentações do grupo, para análise de resultados posteriores e conclusões.
Os primeiros contatos para a pesquisa ocorreram por telefone com as coordenadoras
do grupo, me identificando, e verificando a possibilidade de uma visita para explicar os
objetivos da minha pesquisa. As entrevistas se iniciaram no mês de maio de 2014 e se
encerraram em outubro do mesmo ano. Foram realizadas junto às coordenadoras do grupo,
assim como a alguns participantes do pastoril, que aceitaram expor suas experiências e
envolvimentos no grupo. Apesar de que, a pesquisa se desenvolveu no decorrer de cinco
meses, o tempo compartilhado com meus interlocutores em campo foi bem menor. De fato,
realizei 10 visitas ao grupo. Por minha satisfação, não encontrei nunca nenhuma resistência
por parte dos membros do grupo e as visitas e entrevistas fluíram sem problemas.
Para poder compreender o universo social que dá vida à expressão cultural do pastoril
em foco neste trabalho, precisei escolher alguns autores que me ajudassem na interpretação
dos dados. Mas essa escolha tornou-se possível após a compreensão da complexidade de
alguns conceitos, especialmente a noção de “cultura” e também de “cultura popular”. A
complexidade se refere às diversas abordagens de autores que se deram o trabalho de repensar
esses conceitos e problematizar seus usos nas análises das expressões culturais. Para o
propósito de mostrar a escolha teórica que orientou a análise dos dados, temos tomado em
consideração alguns autores como, por exemplo, Cuche (1999), Laraia (2006), Hannerz
(1997) e Barth (2000). As proposições de Hannerz (1997), cujo conteúdo me ajudou na
interpretação dos dados, se tornando minha principal referência junto ao Barth (2000), gira em
torno da discussão da moldagem de padrões culturais encontrados em diversos grupos e/ou
sociedade, ressaltando a necessidade de se pensar em fluxos culturais que perpassam diversas
10
fronteiras e como eles são elaborados em específicos contextos. Com base nas ideias de
Hannerz (1997) e outros autores, observou-se que os folguedos como o pastoril, com o
decorrer dos anos, incorporaram mudanças culturais e os adicionaram às festas, inventando
novas coreografias e vestimentas. Mas, o aspecto que é mais importante ressaltar na
elaboração deste autor e que é complementar às elaborações de Barth (2000) é a importância
atribuída à análise da organização social dos fluxos culturais, isto é como valores, ideias e
conceitos são distribuídos em um determinado grupo. Assim, ao observar a heterogeneidade
da composição do grupo, precisei compreender se existiam divisões de saberes e uma
hierarquização dos mesmos que pudessem resultar em uma especifica organização que
impulsionasse as pessoas à participação. Nesses termos, a descrição e análise da expressão
cultural do pastoril e de suas apresentações públicas, é uma importante contribuição para a
compreensão das formas de socialização que se tornam o motor da vida social.
Como será explicitado no primeiro capítulo deste trabalho, outro autor que se tornou
uma importante referência para a análise dos dados, é Carlo Ginzburg (2006). Diversamente
de outros autores que tratam as expressões da “cultura popular” como resultados de um
universo cultural separado de outros, Ginzburg propõe a ideia da “circularidade” dos aspectos
culturais entre universos sociais em permanente contato, contrastando a ideia da nítida
separação entre uma cultura hegemônica e outra subalterna.
Esses autores, aqui brevemente mencionados e cujas propostas interpretativas serão
mais bem explicitadas no primeiro capítulo, foram importantes para realizar uma análise dos
dados coletados durante a pesquisa de campo. Esta, embora breve em sua duração, foi
importante para contribuir ao conhecimento do pastoril na sua peculiaridade, enquanto
expressão do grupo focado e, portanto, vinculada a atores sociais concretos que usam seus
conhecimentos e os elaboram no contexto da sua vivência.
O trabalho estrutura-se em três capítulos. No Capítulo I, como já tenho explicitado,
apresentam-se as diversas elaborações dos conceitos e definições de “cultura” e “cultura
popular” de alguns autores que me permitiram refletir sobre o universo de pesquisa focado,
bem como expor minha posição com relação à escolha da abordagem.
O Capítulo II apresenta a discussão teórica acerca dos folguedos, além de uma revisão
da literatura sobre o pastoril, a partir de diversos autores que se dedicaram a esta expressão
cultural.
O Capítulo III apresenta as observações feitas durante a pesquisa de campo, a
descrição das apresentações do grupo, o contexto dos atores sociais que estão envolvidos no
grupo e o caminho percorrido pelos meus interlocutores na construção e moldagem do grupo.
11
CAPÍTULO I – ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O CONCEITO DE
CULTURA E DE CULTURA POPULAR
Antes de iniciar a discussão propriamente dita acerca do pastoril, é indispensável
abordar alguns conceitos que cercam o tema. Portanto, este capítulo pretende abordar algumas
reflexões sobre o conceito de “cultura” e “cultura popular” a partir da visão de alguns autores.
Cuche (1999) e Laraia (2006) nos permitem compreender que o conceito de “cultura”
teve diferentes apropriações e interpretações nas ciências sociais. Contudo, não é minha
intenção fazer uma revisão geral dos usos do conceito, mas apresentar algumas contribuições
para esse debate, visando ainda explicitar a escolha do paradigma teórico que orienta a análise
do caso em foco.
1.1 O CONCEITO DE CULTURA: ALGUMAS ABORDAGENS
Uma das primeiras definições do conceito de cultura foi formulada no século XIX pelo
antropólogo britânico Edward B. Tylor, que considerava a cultura como “todo aquele
complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os
outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade” (TYLOR,
apud LARAIA, p. 2006). Entretanto, a partir dessa primeira definição muitos novos estudos e
novas formulações foram surgindo. Em um universo mais amplo, com outros autores
aportando contribuições teóricas, pode-se perceber explicações de variadas formas sobre o
que é “cultura” e a antropologia tem um papel relevante na interpretação desse fenômeno
social.
Este autor recém mencionado, da vertente evolucionista, pensava a sociedade como
um fenômeno natural, diversamente de Geertz (1973) que define a cultura como um
fenômeno social e expressa o conceito nos seguintes termos:
Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias
de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias
e sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis,
mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. (1973, p. 15)
A cultura segundo Geertz (1973) é um sistema simbólico e a tarefa da antropologia
seria tornar os símbolos inteligíveis dentro de seu contexto e sociedade.
12
Dentre outros autores Hannerz (1997) traz o conceito de “cultura”, e, discutindo o
fenômeno da globalização se valeu de definições e de palavras chaves que se reportam à
“cultura”, sendo elas “fluxos, fronteiras, híbridos”, de modo que explica como cada sociedade
consegue encontrar novos padrões culturais, indicando que existem formas de adquirir novos
elementos culturais. Na sua pesquisa Hannerz (1997, p. 12) também traz a interpretação de
Barth (1984:80-82) sobre “cultura” em termos processuais. Afirma, então, Barth (1984 apud
HANNERZ, 1997, p. 12) que a cultura é algo que as pessoas, “herdam, usam, transformam,
adicionam e transmitem”. Desse modo, ao se estudar um grupo que se dedica à preservação
de certos costumes, como folguedos, no caso desse estudo, o pastoril, é importante considerar
que Hannerz (1997) traz uma importante contribuição para a compreensão do fenômeno,
especialmente quando ele traz como referência para sua abordagem sobre “cultura” as
palavras “fluxos, fronteiras, híbridos”, pois ao tratar de um grupo misto de pastoril, essa
dinâmica serve como referência para compreender como o folguedo surgiu, evoluiu, e, se
transformou através dos saberes antigos e de novos saberes introjetados no grupo.
Hannerz (1997) ao discutir sobre “cultura”, dando ênfase a explicação sobre fronteiras,
demonstra que estas de modo frequente marcam a reelaboração cultural de um grupo.
Explicando de um modo mais simples, um costume, por exemplo, pode ser transformado, ou
ainda adquirir elementos culturais de um grupo vizinho. Sinalizando ainda o autor para o
fluxo (mobilidade, troca) e o hibridismo, subtende-se que certos aspectos culturais estão
sujeitos a transformações e mistura. Os elementos culturais de outros grupos sociais, logo,
perpassam as fronteiras entre grupos e percebe-se que alguns fluxos se sobressaem sobre
outros.
Hannerz (1997) reforça a ideia da fronteira e do hibridismo, apontando para uma
realidade mais concreta, para a compreensão da formação de elementos culturais. Para o autor
a fronteira é lugar de aprendizado, que pode garantir a sobrevivência. Já ao se referir ao
hibridismo, tomando como referência outras palavras que trazem a ideia de mistura, Hannerz
(1987:1986 apud HANNERZ 1997, p. 28) trazendo como exemplo, as culturas crioulas,
demonstra que a vitalidade e criatividade dessas culturas têm origem na dinâmica da mistura
(hibridismo).
E, transportando as ideias de Hannerz (1997), dando ênfase ao grupo de Pastoril
“Recordar é Viver”, foco principal desse estudo, pode-se afirmar que para entender a
dinâmica do grupo, as definições de fluxos contribuem bastante, porque as pessoas interagem
e vão reformulando seus conhecimentos.
13
Mais abordagens para o entendimento de cultura se dão a partir da análise da “cultura”
das sociedades complexas, onde convive o “tradicional” com o “moderno”, descrito por Barth
(2000) que ao estudar a cultura das sociedades complexas, traz a atenção para a variedade de
culturas dentro de uma sociedade, e uma nova forma de conceituar o termo “cultura”. O
referido autor fala que existem diversas formas de enxergar o termo “cultura”. Ao
problematizar o uso do conceito de cultura Barth expõe sua crítica à visão desta como algo
compartilhado homogeneamente dentro de um grupo social. Diversamente, o autor defende a
ideia que a cultura é distribuída na sociedade e essa distribuição segue os princípios de
organização de um grupo social. Assim, as pessoas não teriam acesso a todo conhecimento
que circula na sociedade, mas apenas àqueles que sua posição de gênero, idade, classe,
identidade étnica, entre outros princípios lhe permitem acesso.
Logo, com seus estudos feitos em Bali, propõe também uma forma diferente de
estudar as “culturas”, verificando que uma sociedade pode possuir diversas formas de usar e
transmitir o conhecimento.
Barth (2000) coloca em evidência os diferentes papeis do guru e do iniciador no
tocante ao gerenciamento do conhecimento em dois contextos etnográficos. Todavia, no
contexto da minha pesquisa, sem tirar a importância do iniciador no processo cultural, o guru
se destaca, uma vez que ele por ser um cosmopolita, assimila costumes de diversos locais e
conhecimentos que os transmite a seus discípulos, estes por sua vez podem incorporar seus
aprendizados no seu dia-a-dia e isso passará de geração para geração, por meio da família ou
de outros grupos que, possivelmente, farão a mesma coisa. Porém não há de desconsiderar o
papel do iniciador, também analisado por Barth (2000). Este, o sabedor de segredos da
“cultura” local, o protetor, preserva o que aprendeu sobre seus costumes, mas não ensina
verbalmente o conhecimento, apenas o oferece no momento em que o aprendiz está sendo
preparado para receber tal conhecimento, através de performances carregadas de mistérios,
estimulando uma experiência emotiva no aprendizado e a sensação de alcance do
conhecimento mediante uma comunicação com as entidades, percebendo assim sua maior
importância, valorizando e incorporando. O autor afirma:
O guru alcança sua realização como tal ao reproduzir o conhecimento,
enquanto o iniciador ao protegê-lo. [...] O guru deve oferecê-lo
continuamente; deve explicar instruir, saber e exemplificar; com isso,
contribui para incutir nas mentes de seus pupilos e de seu público, elementos
de uma tradição bastante prolífica. Já o iniciador guarda tesouros secretos até
o dia do clímax em que deve criar uma performance, um drama que ocasiona a
transformação dos noviços (BARTH, 2000, p. 146).
14
Barth (2000, p. 127) faz entender como as construções culturais podem acontecer.
Porém, reportando-nos novamente Hannerz (1997, p. 15) assim como acontece com o
iniciador de Barth (2000), no fluxo também há obstáculos nas trocas culturais, o que chama de
“limites”, explica o autor que isso tem a ver com descontinuidade e obstáculos. Com base
nisso, é importante entender que a distribuição de aprendizados de um modo geral ou parcial,
é limitado ao grupo.
Logo, ao me reportar ao Pastoril “Recordar é Viver”, preciso destacar a importância
dessas contribuições ao se observar na transmissão do conhecimento não ocorre apenas por
pessoas que conviveram no local desde o nascimento, mas que trouxeram consigo uma carga
de conhecimento de outros locais - e de sua família e comunidade, passando para os outros
componentes do grupo, considerando, então, como guru, descrito por Barth (2000), este
incorpora novos costumes ao grupo, e no caso do pastoril houve a incorporação de novas
coreografias, novas vestimentas, inovando conforme foi se mantendo o grupo. Assim como o
próprio grupo se caracteriza como iniciador, ao se apresentar para o público, preservando o
folguedo pastoril.
1.2 ABORDAGENS E ALGUMAS DISCUSSÕES SOBRE O CONCEITO DE
CULTURA POPULAR
Como descrito no item anterior, a definição de “cultura” envolve vários fenômenos e
elementos para ser construída, por isso não é fácil sua definição, principalmente em
decorrência das diversas trocas que há entre os povos do mundo, os micro padrões que
moldam a “cultura” e outras características. Desse modo a discussão será enriquecida,
trazendo o conhecimento sobre “cultura popular”.
Rocha (2009) em um artigo publicado sobre “cultura popular”, argumenta sobre o
“folclore” e o patrimônio desde o ponto de vista sociológico. De acordo com o autor, definir
“cultura popular” não é tão fácil, por isso ele chama de um conceito totêmico. O autor afirma:
A cultura popular, tem merecido a atenção dos intelectuais ocidentais desde o
fim do século XVIII, momento em que a Europa viveu inúmeras e profundas
transformações em todos os níveis da vida social. Desde então, a divisão
cultural entre o erudito e o popular se estendeu aos outros níveis da realidade
social. Por exemplo, entre o rural e o urbano, o oral e o escrito, o tradicional e
o moderno [...] (ROCHA, 2009, p. 219).
Logo, frente às mudanças ocorridas na sociedade, alguns intelectuais consideraram a
“cultura popular” ameaçada, e passaram a se interessar pela sua defesa, e em concorrência a
15
movimentos intelectuais, como a “cultura” erudita, enxergou a produção artística popular,
como música, danças etc., como um sistema cultural de preservação do povo. Para o autor, o
“folclore” faria uma ponte com a “cultura popular”. Diz então:
[...] embora implícito, o elemento que parece sustentar a distinção entre
folclore e a cultura popular consiste no desenvolvimento da sociedade urbana,
culturalmente marcada por visões do mundo e estilos de vida modernos. Neste
momento sem perder de vista a convivência de manifestações folclóricas e da
indústria cultural no espaço urbano, o conceito de cultura popular será
profundamente marcado pelas experiências artísticas e percepções políticas
desenvolvidas na cidade, é o que observam, por exemplo, Magnani (1982)e
Carvalho (1992). (ROCHA, 2009, p. 224).
Abreu e Soihet (2003, p. 83) trazem uma ideia similar à de Rocha (2009), quando
afirmam:
Cultura popular é um dos conceitos mais controvertidos que conheço. Existe
sem dúvida desde o final do século XVIII, foi utilizado com objetivos e
contextos muito variados, quase sempre envolvidos em juízo de valor,
idealizações, homogeneizações e disputas teóricas e políticas.
Portanto, devido às dimensões que a “cultura popular” atinge e o próprio juízo de
valor que cerca a “cultura popular”, parece ser difícil encontrar um conceito único. Os autores
ora citados ainda acrescentam que, para muitos interessados na área, o conceito de “cultura
popular”é um dos mais controvertidos que já conheceram e seria um conceito em crise.
Explicam ainda que isso ocorre por ter seus limites para expressar uma determinada realidade
cultural e justificam que isso acontece devido o avanço da globalização.
Entretanto, cabe citar também a dúvida de Abreu e Soihet (2003) para essa dificuldade
na definição, ou seja, a “cultura popular” é algo que vem do povo, então por que a dificuldade
na definição? Uma das respostas que me parece interessante mencionar e a de Rocha (2009, p.
220), uma vez que ele traz a informação de que a “cultura popular”, não é só campo de
interesse de uma única ciência ou um campo de estudo, então, isso pode explicar tal
dificuldade em haver um conceito universal.
Rocha (2009, p. 220) ao se reportar ao conceito de “cultura popular”, traz a discussão
sobre a sua importância do pensar no desenvolvimento futuro de uma arqueologia da “cultura
popular” no Brasil, sendo focado no sentido restrito do termo. Nas palavras de Rocha (2009,
p. 220) “o conceito constitui um “objeto” privilegiado capaz de promover um exercício
fecundo e epistemológico sobre o campo discursivo das ciências”. Portanto, o conceito pode
16
servir de reflexão como discussão para que as ciências que se interessem em abordar a
“cultura popular”, possam pensar e questionar suas origens.
Domingues (2011) também fez referência à “cultura popular”, relacionando o estudo à
construção de conceitos. Em seu artigo, o autor, preocupa-se em fazer a diferenciação da
“cultura erudita”, ligada a elite, assim como delimita o conceito de “cultura”, dando ênfase
também a “cultura popular negra” 2 . Domingues (2011, p. 402) ressalta a separação entre
“cultura popular” e erudita, indicando quando surgiu tal separação: “A separação desses dois
polos foi uma invenção dos intelectuais europeus, na segunda metade do século XVIII.” De
acordo com Domingues (2011) isso ocorreu com base no conceito de “folclore”, e foi a partir
dele que houve a demarcação da fronteira das manifestações do povo e da classe alta (elite),
considerando que o saber do povo era bastante difundido. Mas Ortiz (1985 apud
CATENACCI, 2001) indica que nem sempre as fronteiras foram bem delimitadas, pois até
meados do século XVII, havia a participação dos nobres nas crenças religiosas e outros
eventos culturais das classes populares. Mas tal delimitação, conforme aponta Ortiz (1985
apud CATENACCI, 2001, p. 29) era marcada em relação à elite, no sentido de que o povo
não participava do meio cultural das elites. Tal delimitação teria se acentuando com o tempo e
tal processo é descrito da seguinte forma:
Pouco a pouco começa a ocorrer o distanciamento entre a cultura de elite e a
cultura popular, intensificando o processo de repressão da primeira sobre a
última. Os motivos que contribuem para isso na Europa são, principalmente,
de ordem política. A implementação de uma política de submissão das almas
com base na doutrina oficial definida pela Teologia, feita por parte da Igreja –
tanto católica como protestante – e o processo de centralização do Estado, ou
seja, instituição de uma administração unificada dos impostos, da segurança e
da língua, podem ser identificados como os principais fatores que levaram à
separação entre as duas culturas apontadas acima.
Catenacci (2001, p. 28) também explica que a “cultura popular” era traduzida a partir
do termo “folclore”. Para a autora aqui citada, o termo “folclore”, trazia consigo a
identificação da sabedoria tradicional e sua preservação se dava a partir da transmissão oral
entre os camponeses.
Entende-se que a sabedoria popular faz parte das tradições, da “cultura” de um povo e
o “folclore” é uma parte dessa sabedoria. Completando essa ideia do conceito de “folclore”
ser usado como “cultura popular”, Domingues (2011, p. 402) explica como essa ideia mudou,
2
Experiências e tradições próprias das populações negras, as quais se traduzem no seu estilo, seu corpo, sua
expressividade, sua musicalidade, sua oralidade e na sua rica produção de contra narrativas. (DOMINGUES,
2011, p.415).
17
uma vez que no decorrer do século XX, ocorreram vários estudos que tratavam sobre as
manifestações populares sobreviventes, fato que fez reforçar essa concepção de que o
“folclore” é uma parte da sabedoria popular, diz: “Batizou-se, então, a categoria cultura
popular no lugar da restritiva noção de folclore”.
Como se pode perceber, os conceitos aqui abordados mostram as diferentes posturas
teóricas dos autores e as contribuições dos mesmos para a problemática de seu uso. Mas
parece-me que as ponderações de Burke (2005, p. 45) sobre a necessidade de abandonar o uso
desses termos, podem ser úteis para sair do impasse. Este autor afirma que “é que sem eles é
impossível descrever as interações entre o erudito e o popular. Talvez a melhor política seja
empregar os dois termos sem tornar muito rígida a oposição binária, colocando tanto o erudito
como o popular em uma estrutura mais ampla” (BURKE, 2005, p. 42).
Na introdução do livro “O queijo e os vermes” de Carlos Ginzburg (2006, p. 18)
encontramos também reflexões importantes que merecem ser consideradas para a análise das
manifestações consideradas pertencente à “cultura popular”. O referido autor afirma que
existiria uma espécie de ambiguidade no conceito de “cultura popular”:
Às classes subalternas das sociedades pré-industriais é atribuída ora uma
passiva adequação aos subprodutos culturais distribuídos com generosidade
pelas classes dominantes (Mandrou3), ora uma tácita proposta de valores, ao
menos em parte autónomos em relação à cultura dessas classes (Bolléme4), ora
um estranhamento absoluto que se coloca até mesmo para além, ou melhor,
para aquém da cultura (Foucault). É bem mais frutífera a hipótese formulada
por Bakhtin de uma influência recíproca entre a cultura das classes subalternas
e a cultura dominante.
Tal consideração é acompanhada pela proposta de se evitar análises estanques que
reiteram a visão de universos culturais separados, nos termos da existência de uma cultura
hegemônica e uma cultura subalterna. Por isso o autor propõe a noção de “circularidade”,
entendendo a possibilidade de que elementos culturais são elaborados por grupos sociais
distintos, reconhecendo a capacidade dos atores sociais das classes subalternas de incorporar e
reelaborar influências e pressões vindas das classes hegemônicas. Por isso que a leitura de
Ginzburg (2006) me remete ao pastoril “Recordar é Viver”, quando na observação percebi
3
O historiador francês, Robert Mandrou, morreu aos 63 anos. Doutor em Letras e discípulo do filósofo
LucienSave, Mandrou era especialista em história das mentalidades, foi diretor de estudos na Escola de Altos
Estudos em Ciências Sociais, Professor de História Moderna na Universidade de Paris desde 1969 e vicepresidente da universidade, foi também secretário da revista Annals, publicou quinze livros, entre os
quais Introdução à moderna França e Europa absolutista, a razão e a lógica do Estado, publicado em 1977.
4
Historiadora francesa, dedicou vários anos de pesquisa ao exame do acervo da littérature de colportage
(literatura popular em livretes, muito semelhante à nossa sob certos aspectos) – a conhecida Bibliothèque Bleue
de Troyes.
18
que há uma troca de informação sobre as suas práticas, não especificando a quais grupos
sociais pertencem cada componente, mas interessando, apenas, as trocas de conhecimentos
sobre o pastoril entre eles.
Estas considerações são importantes para a compreensão do universo de pesquisa
escolhido e se aproximam às elaborações teóricas de Hannerz e Barth. Estes últimos autores
problematizaram os conceitos aqui focados, visando desconstruir as abordagens essencialistas
dos fenômenos culturais e propondo ferramentas de análise pertinentes ao nosso estudo,
quando descrevem acerca das várias abordagens sobre cultura, e outras formas de entendê-la e
defini-la.
1.3 AMPLIANDO A VISÃO ACERCA DO FOLCLORE
Embora o termo “folclore” tenha sido mencionado no item anterior deste estudo, na
expectativa de elucidar a expressão “cultura popular”, o termo merece ser analisado com
maiores detalhes.
Como descrito, o termo “folclore” teve sua criação no século XIX. Sobre isso descreve
Catenacci (2001, p. 28), “O termo folklore – folk (povo), lore (saber) – foi criado pelo
arqueólogo inglês Willian John Thoms em 22 de agosto de 1846 e adotado com poucas
adaptações por grande parte das línguas europeias, chegando ao Brasil com a grafia pouco
alterada: “folclore”. Diz Domingues (2011, p. 402):
No século XIX, o povo – não os setores marginalizados das cidades, e sim os
habitantes das zonas rurais – foi idealizado, com sua produção cultural tendo
sido retratada como “pura”, “natural” e “resíduo” do passado. Essa
idealização serviu de base para a elaboração do mito fundador de várias
nações, bem como desencadeou o início de muitas pesquisas folclóricas
que se empenharam em descobrir uma cultura “primitiva”.
Asseveram Rocha (2009) e Catenacci (2001, p. 30) que no Brasil, Silvio Romero,
iniciou os estudos sobre folclore, sendo considerado o pai dos estudos folclóricos brasileiros.
Catenacci (2001) ao analisar as ideias de Silvio Romero, notou a necessidade que havia entre
os intelectuais da época em salvar o que pertencia ao passado do “folclore” brasileiro, mas,
paradoxalmente, havia o desejo também de esquecê-lo. Aponta Catenacci (2001) que a
“colonização, exploração, escravidão e mestiçagem [...]”, foi um meio de conflito para Silvio
Romero estudar a identidade nacional, por isso passou a registrá-la a partir de contos, poesias
e cantos tradicionais. Segundo Catenacci (2001, p. 30):
19
O objetivo de Silvio Romero nos seus estudos sobre essas manifestações
populares foi indicar o ‘corpo das tradições’ formado pela relação entre três
raças – branca negra e indígena –, apontar os elementos culturais específicos
de cada uma delas e até que ponto esses elementos já estariam fundidos.
Assim, Romero investiga quais seriam os agentes transformadores – o mestiço
– e os agentes criadores da nossa cultura – as três raças, sendo a branca o
principal agente criador5.
Logo, ao tratar do tema, usando a divisão temporal, do ponto de vista de Rocha (2009)
a partir dos anos 20, momento do modernismo brasileiro, os estudos de Mário de Andrade e
Amadeu Amaral se destacaram pelo interesse em ter o “folclore” como objeto de estudo.
Segundo descrito por Florestan Fernandes (1958)6 a produção folclórica de Mário de Andrade
possui uma qualidade etnográfica e científica, se comparada às obras de outros folcloristas da
época. Entretanto, é importante trazer a discussão que, conforme diz Catenacci (2001), os
folcloristas citados, indicavam que saber sobre a origem e as características de manifestações
folclóricas era o meio mais eficiente para a afirmação da identidade nacional. Conforme o
autor ora citado seria preciso estar em contato com o povo, com aqueles que não produziam a
cultura erudita, o que ele chama de “classes subalterna, indicando, inclusive, que as
manifestações populares encontravam-se, principalmente, no meio rural. Contudo, havia a
preocupação de que, com o processo de modernização, as manifestações do “folclore”
brasileiro estariam ameaçadas.
Domingues (2011) citando Burke et al (1989) também traz essa afirmação que as
pesquisas folclóricas realizadas pelos intelectuais, se dedicaram em descobrir uma “cultura”
“primitiva”. Acrescenta que nas pesquisas indicava-se que: “[...] manifestações folclóricas,
herdadas do mundo rural, estavam condenadas à morte, devido ao seu crescente contato com
influências “deletérias” dos centros urbanos” (BURKE et al apud DOMINGUES 201, p.
402).
Há de ressaltar, que Florestan Fernandes, conforme salienta Rocha (2009, p. 222)
defende que o “folclore” é: “menos uma ciência à parte, que um método de pesquisa”, com
isso criticava as pesquisas folclóricas que se fundamentavam no caráter colecionador, acrítico
e descritivo. Isso o incomodava, pois percebia os estudos folclóricos como uma atividade
5
Considerado o pai dos estudos sobre folclore o autor foi citado, porém este não será base para desenvolver esta
pesquisa, tendo em vista que a mesma ultrapassa os limites desencadeados na teoria do mesmo. Nesta pesquisa,
outros autores mais recentes são as principais referências para a compreensão do estudo e conclusões.
6
Florestan Fernandes (1920-1995) foi político e sociólogo brasileiro, considerado fundador da sociologia crítica
no Brasil. Ao longo de sua vida, publicou mais de 50 livros e centenas de artigos. (Disponível em: http://www.ebiografias.net/florestan_fernandes/, acesso em: 15 de março de 2015).
20
intelectual romântica, exótica e tradicional, e tal fato persistiu no estudo do “folclore” por
muito tempo, no discurso crítico da sociologia e da antropologia.
Rocha (2009) também informa que nas décadas de 40 e 50 o “folclore” tinha destaque
na discussão acadêmica. Os estudos de Vilhena (1997) também destacam que, nas duas
décadas citadas, o “folclore” foi considerado como um tema importante no cenário cultural
brasileiro, de importância política na produção da “cultura brasileira”. Tal importância é
refletida a partir de eventos ocorridos, como Rocha (2009) descreve, como a formação de
movimentos que visavam valorizar o “folclore”, por exemplo, a atuação da Comissão em
Defesa do “folclore” Brasileiro, além da Campanha de Defesa do “folclore” Brasileiro. Nos
anos 50, quando se afirmava a ideia desenvolvimentista, a distinção entre “folclore” e “cultura
popular” começou a se estabelecer, sendo destacada por Renato Ortiz (1985) a importância da
atuação do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) para que houvesse tal distinção.
Nas palavras de Oliveira (1992, apud ROCHA, 2009, p. 223): “folclore” passa a ser
tradição; “cultura popular”, transformação [...]”. Como explica Rocha (2009) o “folclore” na
ideologia desenvolvimentista adquiriu uma conotação negativa, por ser associado à ideia de
“tradição”. Portanto, se antes era percebido como necessário para a construção da nação,
tornou-se neste período a marca de atraso cultural.
Ao trazer aqui algumas reflexões sobre o conceito de cultura e de cultura popular, a
intenção é demonstrar a importância dos saberes populares para a preservação de certos
costumes, danças e outros fenômenos, como os folguedos pastoril, tratado neste estudo,
verificando que havia uma preocupação com a tradição e a produção de cultura.
21
CAPITULO II - A LITERATURA SOBRE O PASTORIL
Este capítulo traz algumas contribuições para a compreensão das dinâmicas culturais e
sociais que perpassam os folguedos, apresentando alguns autores que se dedicaram ao estudo
do pastoril.
2.1 OS FOLGUEDOS
Segundo Boieiras & Cattani (2006, p. 8) a História do Brasil é rica em histórias de
“crenças”, “superstições”, “rituais” e “devocionismo”. Logo, a necessidade de se expressar e a
forma como isso é feito varia de grupo para grupo, amalgamando suas influências e
transformando-se por si só, em uma referência. Dizem Boieiras e Cattani (2006, p. 9): “a
maioria das comemorações populares no Brasil segue o modelo europeu dos festejos trazidos
pelo catolicismo, misturadas ao misticismo dos índios, às crenças milenares e aos costumes de
cada região[...]”. Entretanto, apontam os mesmos autores, que as manifestações folclóricas no
Brasil dividem-se em cultos e folguedos. Neste caso, para os autores citados, quando dizem
que as manifestações folclóricas estão atreladas a cultos diferentes, afirmam também que estes
se relacionam, “às divindades, santos, milagres, bênçãos, oferendas, louvores” (2006, p. 9).
Já os folguedos, conforme os autores Boieiras e Cattani (2006, p. 10) são:
“brincadeiras, jogos, danças, representações com coreografias. Todos se apresentam em
ciclos, natalino, junino, e carnavalesco, e também nas festas em homenagem ao Divino, ao
Boi, Santos, Orixás e padroeiros locais”.
Neves (2013) em um trabalho que aborda os folguedos populares, descreve sua
incontestável importância para a constituição de uma “nacionalidade” e justifica tal afirmação
pelo fato de os folguedos abrangerem muitos saberes coletivos compartilhados pelo povo e
que neles se identificam como comunidade.
Cada integrante de um grupo social também se identifica individualmente,
como participante importante no grupo e detentor de um saber. Se folguedos
são importantes para a constituição de qualquer nacionalidade – por serem
lugares em que diversos constituintes de uma cultura são vivenciados: música,
canto, danças, linguagem, lendas, religião – no caso do Brasil essa relevância
pode ser considerada fundamental pela formação híbrida de nosso povo
(NEVES, 2013, p. 5).
22
A afirmação de Neves (2013) reitera a visão de que a cultura é homogeneamente
compartilhada, diversamente do que Hannerz (1997) e Barth (2000) que defendem a ideia que
a cultura é distribuída. O tipo de distribuição de valores sobre os diversos conhecimentos se
torna a base organizacional do grupo.
Como se verá, a maioria dos autores cujas linhas principais de análise dos folguedos
estamos aqui reportando, também se valiam de abordagens que reiteram a ideia de elementos
culturais compartilhados por uma sociedade, povo ou outras unidades sociais. Para esses
autores “cultura” e “sociedade” teriam suas fronteiras correspondentes, ideia essa criticada
por Barth e Hannerz.
No entanto, apesar da ideia da existência de uma “cultura” estanque que muitos
defendem, há de se destacar as contribuições de alguns autores que apontam para as mudanças
no pastoril.
Cascudo (2000, p. 67) aponta que: “... pastoril é cantos ou louvações que, em outras
épocas, eram entoados, diante do presépio, nas noites de Natal, e mais especialmente na
véspera, para aguardar a celebração da Missa do Galo”. Com o tempo, segundo este autor,
houve a mudança dos pastoris para os autos. São pequenas peças de sentido apologético, cujo
enredo é próprio, e são divididos em episódios com o nome de “jornadas”, sendo tal
denominação utilizada no Nordeste do Brasil. Em Maceió, o pastoril é um dos folguedos mais
conhecidos e geralmente se apresenta em festas relacionadas ao calendário religioso católico.
É apontado por alguns pesquisadores como um dos principais folguedos do Estado de
Alagoas até a atualidade (ASFOPAL, 2015).
Rocha (1984), ao aprofundar o tema, aborda o “folguedo popular” do ponto de vista de
Abguar Bastos 7 , posto que ele o considera enquanto um “fato folclórico dialogal” 8 , de
participação coletiva que com indumentária própria desenvolve um enredo ou auto e uma
trama simbólica.
Podemos considerar também a definição de “folguedo” de Boieiras e Cattani (2006, p.
8):
Os folguedos são brincadeiras, sortes, jogos, representações coreografadas.
Todos se apresentam em ciclos – natalino, junino e carnavalesco – e também
festas em homenagem ao Divino, ao Boi e aos Santos Padroeiros Locais.
Sejam estas manifestações de cunho religioso, como a Páscoa nas cidades
históricas, por meio das procissões, que reúnem pregadores e fiéis; ou por
sacro profanas como as Congadas e as festas juninas.
7
Paraense, Abguar B. Damasceno Bastos, nasceu em 1902. Foi promotor público, bancário, jornalista e político.
Romancista, poeta, sociólogo, historiador. (Disponível em: http://www.ube.org.br/biografias-detalhe.asp?ID=
1326. Acesso em: 18 de março de 2015).
8
Que apresenta diálogos entre os componentes do grupo e a plateia.
23
Os últimos autores citados acrescentam que esses folguedos se constituem em um
imenso repertório de celebrações e rituais realizados nas ruas, configurando-se em
“espetáculo teatral de rua, poesia, fala improvisadas, máscaras, sátiras, personagens humanos
e animais fantásticos”.
Cascudo (1992 apud VIEIRA 2012, p. 11) considera o termo “folguedo” da seguinte
forma: “todo fato folclórico, dramático, coletivo e com estruturação, priorizando ora o
elemento dramático – a exemplo do nascimento de Cristo no Pastoril, na Lapinha, e no
Reisado, a luta contra o infiel encontrada nos folguedos como a Chegança, Cavalhadas [...]”.
Já Rocha (1984) nos oferece uma explicação dessas definições nos seguintes termos:
Trama Dramático, no sentido de ser representação teatral e apresentar
elementos espetaculares, formados por cortejo, sua organização, danças e
cantorias. Coletivo, por ter aceitação coletiva e espontânea de uma
comunidade. Com estruturação. Porque possui reunião de participantes,
ensaios periódicos e uma certa estratificação (ROCHA, 1984, p. 24).
Sobre os folguedos, Vieira afirma:
Os folguedos e danças populares guardam em sim o sagrado e o profano,
características da festa apresentando particularidades singulares pela pureza e
singularidade, pois, mesmo quando eventualmente adotam certos modelos
coreográficos, estranhos ao seu meio, conseguem absorver essas influências
exteriores, mantendo sua integridade cultural, imprimindo suas próprias
características e respeitando a realidade local. (2012, p. 15)
Retornando a Rocha (1984, p. 24-25) observa-se que ele se vale de Américo Pellegrini
Filho para definir folguedos folclóricos, o autor diz: “É uma forma folclórica com estrutura,
personagens e às vezes, enredo (o que o povo chama de embaixada), incluindo comumente
danças ou coreografias reduzidas. [...]”. Para Pellegrini, citado por Rocha (1984) o “folguedo”
folclórico geralmente é integrado por pessoas mais ou menos constantes, as quais mantêm um
tema central tradicional, e por isso, implica em uma participação fechada e ensaios coletivos.
Há de se considerar, conforme observado em Hannerz (1997), quando trata sobre os
fluxos culturais em um estudo no qual traz a reflexão sobre a noção de “cultura” e o mundo
cada vez mais interligado, portanto, havendo uma mistura cultural, deve-se considerar que
muitos folguedos com o decorrer dos anos foram incorporando mudanças culturais e os
adicionando às festas, inventando novas coreografias e vestimentas. Segundo Hannerz (1997,
p. 12): “Um aspecto fundamental dos fluxos é que eles têm direções. No caso dos fluxos de
24
culturas, é certo que o que se ganha num lugar não necessariamente se perde na origem. Mas
há uma reorganização da cultura no espaço”. Isso significa que o que é importante
compreender são as elaborações contextuais dos fluxos e menos sua origem.
Diversamente, conforme afirma Silva (2009) em cada localidade haverá a
predominância de uma determinada característica cultural e essa não será única, uma vez que
tais características possuem vestígios de outros povos e é isso que mais pode ser dito como
“cultura”. Nesses termos, a autora nos fala de vestígios de outros povos, mas não de como
esses elementos são ressignificados em um determinado contexto.
Os folguedos fazem parte da “cultura popular” e do “folclore” brasileiro. Embora
ocorram em quase todo território brasileiro é no Nordeste que se fazem mais presentes
(ASFOPAL, 2015). Alagoas é apontada como o estado brasileiro com a maior diversidade de
folguedos.
Segundo os estudiosos do folclore, possuímos quatorze folguedos natalinos,
dois folguedos de festas religiosas, oito folguedos carnavalescos, sendo quatro
com estrutura simples, três danças e dois torés, totalizando vinte e nove
folguedos e danças alagoanas (ASFOPAL, 2015).
Brandão (1973, p. 37) fala sobre os folguedos populares de Alagoas, trazendo a
discussão sobre a riqueza do patrimônio cultural do folk de Alagoas, dando ênfase aos autos e
folguedos. Apesar de o autor questionar de modo geral a existência de fato, a riqueza de folk
no período contemporâneo, contudo, aponta que há uma supremacia dos folguedos em
Alagoas sobre outros estados do Brasil, principalmente no Nordeste, indicando que isso
parece um milagre. Contudo, em algumas cidades e estados nordestinos como, Fortaleza,
Pernambuco, Alagoas, nas camadas mais baixas da cidade e na zona rural a vivência com o
folk continua, recebendo novas contribuições.
Brandão (1953, p. 11) afirma:
A época das “Festas”, isto é, período que vai da Véspera de Natal até o dia de
Reis é, em Alagoas, a época por excelência dos folguedos populares.
“Pastoris” e “Presépios”, “Cheganças” e “Fandangos”, “Reisados” e
“Guerreiros”, “Caboclinhos” e “Quilombos”, “Baianas” e “Taiêras”, ensaiados
as vêzes com mêses de antecedência, surgem a profusão das festas em Maceió,
Fernão Velho9[...] para a diversão das mais diversas camadas sociais.
Brandão (1953, p. 38) supõe que a decantada riqueza do “folclore” alagoano tem sua
base no fato da sua maior pesquisa e divulgação nos últimos tempos, citando, dentre outros
9
Fernão Velho é uns dos bairros mais antigos de Maceió.
25
pesquisadores, Diegues Junior, como uma das figuras importantes da sociologia e da
antropologia do “folclore” Brasileiro.
Outro ponto descrito por Brandão (1973, p. 39) é que a cultura de folk em Alagoas não
é inteiramente diversa daquelas dos outros estados do Nordeste. Nesse sentido, diz o autor:
Na lição de Gilberto Freyre sabemos que “o complexo total de cultura não se
deixa limitar por fronteiras nacionais políticas ou de tribos. Sendo as
uniformidades de cultura mais importantes que as divergências também
impostas por motivos étnicos, geográficos e políticos, criam zonas ou áreas de
cultura independentes daqueles limites e fronteiras. Assim a cultura deve ser
distinguida da área natural ou geográfica e da área ecológica e da política e
administrativa. E o complexo trans-regional deve ser distinguido dos
complexos regionais de cultura”.
Brandão (1973, p. 40) diz que na região sul de Pernambuco encontra-se os Pastoris de
baixa extração10, descrevendo suas características: “com “velhos” fantasiados de palhaços de
circo, a dizer pilhérias e graças inconvenientes”.
2.2 SIGNIFICADOS ATRIBUIDOS AO PASTORIL NA LITERATURA
O pastoril, conforme indica o Departamento de Artesanato e Turismo do Ceará (1978)
é um dos folguedos mais populares do nordeste e, em Alagoas, um dos mais conhecidos,
sendo sua dinâmica explicada por alguns pesquisadores, que se dedicaram ao estudo da
“cultura popular” e do “folclore”.
A palavra pastoril encontra-se registrada no Aurélio (1973, p. 1944) como, “um
folguedo popular dramático que se representa em um tablado ao ar livre”. Mas há uma
reflexão na obra de Théo Brandão (1973, p. 139), apresentando uma visão diferenciada e mais
ampla. Além disso, coloca em destaque Alagoas, quando afirma:
Pastoril é o mais conhecido e difundido folguedo popular de Alagoas. É uma
fragmentação de Presépio, sem os textos declamados e sem os diálogos. É
constituído apenas por jornadas soltas, canções e danças religiosas ou
profanas, de épocas e estilos variados.
Theo Brandão (1973) diz que, assim como os Presépios tem sua origem de autos
portugueses antigos, este guarda a estrutura dos Noéis de Provença11.Théo Brandão (1973),
em sua obra Folguedos Natalinos, no capítulo dedicado especificamente ao pastoril, afirma
10
11
Pastoris mais antigos.
Noéis ou autos de Natal, ainda hoje representados no Sul da França (Provença) (ROCHA,2004).
26
que esta expressão cultural seria a segunda forma de auto da Natividade 12 existente em
Alagoas, sendo o mais popular e conhecido. Para o autor, em Alagoas, a versão do pastoril
diferencia-se da versão pernambucana. Elucida da seguinte forma: “[...] apesar das
deturpações, da inclusão de músicas e textos profanos, nunca chegou, mesmo o pastoril de
rua, à licenciosidade, à chalança, à modéstia dos trajes, gestos e costumes que caracterizam o
pastoril popular do vizinho Estado”. (BRANDÃO, 1973, p. 141). O autor, portanto, considera
o pastoril alagoano diferente do praticado no estado de Pernambuco. A visão do autor em
referência ao pastoril de Alagoas, se torna ainda mais clara no seguinte trecho:
Fragmentação dos Presépios ou pastoril Dramático, com supressão de textos
declamado e diálogos, acréscimos de fragmentos de Bailes Pastoris e canções
entreatos, e danças religiosas ou profanas de épocas e estilos variados,
diferencia-se da versão pernambucana do auto (BRANDÃO, 1973, p. 141).
Dessa forma, mostra como se manifesta o pastoril em terras alagoanas, trazendo a
observação de não ser tão “popular”, apesar de ser o “folguedo” mais conhecido do nordeste e
de Alagoas. Brandão (1973) descreve ainda algumas características do pastoril alagoano, a
saber:
Encenado em casas de famílias, teatrinhos, auditórios de colégios ou
palanques especiais, armados nas festas de ruas ou praças, acompanhado de
orquestras variadas desde os violões e sanfonas até os conjuntos de sopro e
percussão, compõe-se o pastoril de um grupo de 12 a mais meninotas, meninas
ou mocinhas, dividido em dois cordões: o azul e o encarnado, cores que
ostentam nas vestes (faixas, aventais, saias , blusas ou boleros) que levam à
cabeça chapéus de palhinha, ou filó, ou ainda toucados ou diademas, e que
tocam pandeiros especiais de lata com cabo e sem tampo.
Para Brandão (1973) diante da dinâmica que o pastoril alagoano possui em relação,
mais uma vez, ao estado de Pernambuco, já que essa é sua referência13entretanto, nota-se que
mesmo não considerando o pastoril alagoano tão “popular”, a sua transformação permitiu que
no auto, houvesse a introdução de partes, que não havia ligação com o pastoril original.
Segundo o autor ora citado, houve a introdução de canções, danças, monólogos, diálogo de
época e da moda, que são interpretados pelas pastoras visando os aplausos, e agradecimentos
aos seus partidários. Brandão (1973) embora fale sobre a “descaracterização” do pastoril,
considerando haver uma hipertrofia dos números profanos, segundo ele foi o partidarismo que
12
13
Cenas do nascimento de Cristo.
Brandão (1973) não se aprofunda ao tratar sobre o pastoril de Pernambuco.
27
ajudou na revivescência do folguedo em Alagoas e Pernambuco. Explica Brandão (1973, p.
1446):
Tem sido esse partidarismo dos cordões, apesar dos tumultos, alterações,
brigas e disputas que ocasiona um fator de preferência do pastoril por todas as
classes sociais é uma das causas de sua extraordinária persistência e difusão
no Estado. Sob sua influência se vêm criando nos Pastoris práticas hoje
tradicionais como os Leilões de Cravos e Rosas em que se apregoa um cravo e
uma rosa.
Aponta o autor, ora citado, que outro fato que permitiu a efervescência do pastoril
alagoano, induzido pelo partidarismo 14 , foi a invasão dos pastoris nas rádios emissoras,
inicialmente em Maceió, seguindo com Recife e outras capitais nordestinas, e, conforme
completa Brandão (1973, p. 147): “invasão que por sua vez determinou uma revivescência do
“folguedo” naqueles Estados onde já estava a desaparecer.”
Pedro Teixeira de Vasconcelos, amante do “folclore”, em sua obra Andanças pelo
Folclore (1998), socializa o conhecimento construído durante seu percurso de vida. Em sua
obra traz reflexões sobre o “folclore”, e dentre seus subtemas encontra-se Lembranças de
Natal, onde relata as passagens do folguedo pastoril no município de Chã Preta, Alagoas.
Figura 1. Mapa de Alagoas, destacando o Município de Chã Preta.
Fonte: http://www-geografia.blogspot.com.br; http://www.cidades.ibge.gov.br
Vasconcelos (1998, p. 63) não apresenta nenhuma argumentação acerca das mudanças
que houveram no pastoril, descreve seu encanto pelo folguedo em sua cidade, que o
acompanhou desde a infância, demonstrando a importância enquanto preservação e
continuidade do folguedo e preservação da cultura popular local. Já Brandão (1973) nos
oferece a descrição do folguedo pastoril, tratando sobre a formação do grupo, as jornadas, as
14
Divisão do cordão azul e encarnado, e a plateia torce por um dos cordões.
28
vestes, as características e evolução do folguedo em Alagoas, de modo mais processual. Os
dois modos de descrever o pastoril ajuda a compreender a formação e a continuidade do
Pastoril “Recordar é Viver”, foco deste estudo. Um de seus registros de Vasconcelos (1998)
são os trechos dos cantos das pastoras:
“Salve o natal de Jesus,
O divino Redentor!
Salve essa data de luz
E de amor!”
[...]
“Vamos, companheiras,
Vamos a Belém,
Ver Jesus nascido
Para o nosso bem”
[...]
“Despertai, serranas
Do sono em que estais!
Vinde ver nascido
O Rei dos mortais!
[...]
Conforme indicado no fragmento do canto, citado por Vasconcelos (1998, p. 63) foi
desse modo que em Chã Preta as pastorinhas cantavam anunciando ao público o aniversário
do Menino Deus, indicando que dessa mesma forma os pastores levaram a notícia do
nascimento de Jesus, no dia 24 de dezembro, com todo simbolismo que o “folguedo” oferece.
Além desse trecho citado, Vasconcelos (1998) também descreve como eram as
vestimentas das pastoras e outros momentos da apresentação, como a emoção dos partidários
dos cordões azul e encarnado expressadas com as palmas, fato que dá vida às pastorinhas.
Dulce Martins Lamas (1978) também se dedicou a descrever o “folguedo” Pastoril em
sua obra Pastoras, pastoris, presépios e lapinhas, como autos motivados pelo nascimento de
Deus-Menino. A autora apresenta a origem do “folguedo”, adotando uma visão religiosa, com
fundamento em trechos da bíblia citando, por exemplo, Abraão no Velho Testamento e o
pastoreio feito por ele e seus sucessores, relatando as parábolas dos evangelhos. Apresenta
também a temática referente ao pastor, pastoreio, etc. Diz que o Cristo é simbolizado na
figura do Bom Pastor. Desse modo os temas bucólicos, ocuparam lugar muito especial na
literatura, quer em cantigas e romances, ou representações teatrais.
29
Lamas (1978, p. 22) fala sobre o teatro litúrgico do século XIII, onde o Auto dos Reis
Magos se apresentava como obra dramática, e que nessa mesma época havia apresentação
com pastores e sibilas15. Diz:
É no “Auto de los Reys Magos” encontrado na Biblioteca de Toledo
(Espanha). Faziam também na mesma época, apresentações de peças com
pastores e sibilas. [...] Cañete dá informações completas sobre a roupa dos
pastores e faz menção às danças que incorporavam a essas representações.
Prossegue sua descrição dando ênfase às celebrações pastoris e delimita sua dinâmica
em duas localidades do Rio de Janeiro, apresentando a diferenciação entre uma e outra a partir
da descrição das músicas e outros indicativos. Lamas (1978, p. 171), ao apreciar a música e os
textos poéticos sobre a diversidade das celebrações natalinas, aponta com base nas
elaborações de Silvio Romero (1954) e Melo Morais Filho (1946)16, que as letras das músicas
encontradas em Bailes Pastoris não são populares (segundo Romero), e Morais Filho indica
que há uma anônima colaboração de poesia, ressaltando haver uma atmosfera popular.
Portanto, teríamos aqui opiniões diversas.
Lamas (1978, p. 172) declara que nas Festas de Natividade, em inúmeros textos
poético-musicais das Pastorinhas, os Pastoris pesquisados e apresentados em seu livro, com
uma análise comparativa, foram ao longo do tempo sofrendo transformações e adaptações,
mas também conservados alguns traços de originalidade. Para a autora, não se pode tomar
uma posição ortodoxa com relação às manifestações artísticas dos grupos sociais, pois, na
maior parte das vezes, a “cultura” se recria, se reelabora se apropria e até mesmo, improvisa.
José Maria Tenório Rocha (1984) também contribui para a compreensão do Pastoril
em seu livro Folguedos e Danças de Alagoas (Sistematização e Classificação), a partir de
uma síntese geral de todas as manifestações cantadas, dançadas e representadas pelo diversos
grupos em Alagoas.
Rocha (1984) traz em sua obra um reestudo dos trabalhos de Théo Brandão e de José
Aloísio Vilela, acrescentando também descrições de suas autorias sobre os Folguedos
Natalinos, entre outros. Ao reportar rapidamente ao Pastoril, o autor, apenas, ressalta muito
resumidamente o conceito e sua origem, reiterando a informação que o Pastoril nasceu nos
autos portugueses antigos e ressalta que a estrutura seria ainda a mesma do Noéis de
15
Sibilas são um grupo de personagens da mitologia greco-romana.
O autor se refere à obra de Silvio Romero Cantos populares do Brasil, Ed. José Olýmpio, Rio, 1954. Tomo I,
pag. 301. A citação de Melo Moraes Filho é extraída da obra Festa de Tradições Populares no Brasil. 3º ed.
Briguiet, Rio, 1946, pag. 61.
16
30
Provença, na França. Descreve as personagens; “Mestra, contra-mestra, Pastor, Diana e as
Pastorinhas”.
E assim, como outros autores, apresenta a vestimenta utilizada nas apresentações:
VESTIMENTA- As pastoras se dividem em dois cordões trajando-se de azul
e encarnado. Usam saias, blusas, aventais, faixas, levando na cabeça chapéus
de palinha ou filó ou ainda toucados ou diademas, acompanhando-se de
pandeiros especiais feitos de lata, com cabo e sem tempo, ornados de fitas
com a cor dos cordões (ROCHA, 1984, p. 91).
Além de fazer referência às vestimentas, Rocha (1984, p.92) também traz informações
sobre os episódios ocorridos na encenação do pastoril. Segundo ele, as jornadas que
constituem o pastoril não têm uma sequência lógica, excetuando a da “boa noite” que é feita
no início da apresentação e o da “despedida” que finaliza a apresentação. Sobre as jornadas
diz: “Geralmente referem-se a sucessos do nascimento da Epifania, se bem que a introdução
dos números profanos tenha sido excessiva”. O autor descreve ainda a música das jornadas:
Boa Noite; Anunciando o nascimento do Menino Jesus; jornadas que exaltam a beleza dos
cordões.
Em algumas descrições Rocha (1984) ratifica a afirmação de Théo Brandão (1973)
sobre as mudanças que houveram no pastoril. Isso pode ser observado no seguinte trecho:
O partidarismo entre os cordões causa disputas e até brigas. Dessa preferência
nasceu o leilão do cravo e da rosa. Outro elemento interessante é a chamada
das pastoras em cena, que vêm para receber as ofertas de dinheiro. Elas vêm
ao palco, dançando ao som de ritmos populares, geralmente o frevo. Algumas
vezes cantam músicas de sucesso aprendidas no rádio ou em revistas de
samba. Em alguns pastoris intercalam-se partes dos Presépios como a da
Cigana, da Borboleta, do Caçador, do Diabo seduzindo a Pastora, a Estrela, a
prisão da Contra-mestra a mandado da mestra. Ainda, a parte do Velho Pastor,
da Florista, da Lavadeira, da Camponesa, além de outras. Nessa parte vestemse a caráter (ROCHA, 1984, p. 92).
Como nota-se na citação de Rocha (1984), o pastoril pode incorporar personagens e
novos atos, uma vez que ocorre uma disputa entre os cordões azul e encarnado. Tais
adaptações, conforme afirma Brandão (1973), contribuíram para a manutenção do “folguedo”
natalino no Brasil e, especialmente no Nordeste.
31
Ainda em Rocha (1984, p. 93) é citado um trecho da despedida das pastoras, além de
descrever que o acompanhamento é feito por um conjunto de sopro e percussão, violões e
sanfonas, e isso ocorre em quase todos os municípios alagoanos.
Os autores citados auxiliam na compreensão, através das definições elencadas sobre as
influências de outras fluxos culturais para a formação do pastoril, sua dinâmica, sua
reorganização e elaborações. Compreendendo o que é um folguedo popular e o porquê tanta
ênfase aos folguedos populares em Alagoas, passa-se também a compreender essa resistência
do pastoril, que se reelabora, mas preserva muitos traços comuns de outros pastoris, como o
estudado aqui no Pastoril “Recordar é Viver”.
32
CAPÍTULO III – O PASTORIL “RECORDAR É VIVER”
Este capítulo mostra o Pastoril “Recordar é Viver”, no processo de formação do grupo,
assim como os aspectos sociais e culturais que marcam sua composição. Como argumentei
anteriormente, a “cultura” não é pura, nem estática, portanto, os fluxos culturais -conforme
indica Hannerz (1997) - são articulados e significados no contexto local e sua elaboração
depende da realidade vivenciada pelos atores sociais.
Pode-se dizer que existem alguns motivos que proporcionam a manutenção de grupos
socioculturais, um deles, pode ser o de manter a tradição local, ou ainda trazê-los como modo
de preencher uma lacuna deixada com relação ao lazer para a comunidade. Quando me refiro
a uma tradição local, estou me referindo ao fato que o pastoril pode ser abordado como uma
expressão cultural que torna pública essa tradição, isto é os valores e princípios que as pessoas
querem fazer vigorar.
Contudo, esclarecer a importância de um bem imaterial vai muito além da observação
da formação de grupos para preencher o tempo ocioso da comunidade. A formação de um
grupo e a convivência de seus membros contribui para a manutenção do patrimônio cultural,
que pelo próprio sentido do termo, é de todos.
Mesmo com a globalização, citada por Abreu e Soihet (2003) e Rocha (2009) que
tratam da padronização cultural, há processos sociais e agentes envolvidos que demostram
garantir a criatividade local de um grupo.
Na seguinte descrição do grupo de pastoril “Recordar é viver”, pretendo mostrar o
caminho percorrido pelos meus interlocutores na construção e moldagem do grupo, destacar e
analisar o contexto que possibilitou tal construção, bem como os significados que seus
principais membros atribuem ao pastoril.
3.1 O CONTEXTO E OS ATORES SOCIAIS
O grupo de Pastoril “Recordar é Viver”, localiza-se no bairro do Tabuleiro dos
Martins mais especificamente no Conjunto Salvador Lyra, em Maceió-AL.
O Tabuleiro dos Martins, onde se encontra o conjunto Salvador Lyra, foi criado há
mais de trinta anos, situa-se na Região Oeste da Cidade de Maceió, e é considerado um dos
mais populosos da capital, estando hoje com uma média de 220 mil habitantes, segundo dados
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas - IBGE (2010). É um bairro populoso, e, em
33
sua estrutura, assim como ocorre em outros bairros de Maceió, não possui muitas áreas de
lazer para a população. Sobre o conjunto Salvador Lyra, indica Santos (2013, s. p.).
Sua implantação data de 1976 através de financiamentos de programas
governamentais. [...] O conjunto Salvador Lyra foi construído no bairro
Tabuleiro do Martins como resultado da expansão urbana da cidade de
Maceió. Foram implantadas 30 quadras com 818 lotes em uma área de
327.440 m, cada lote com 200 m. Apesar da construção do conjunto datar de
1976 a maior parte dos moradores começa a residir a partir da década de
1980. Isso se deve há uma tendência nacional do processo de urbanização
com imenso fluxo de migrantes das áreas rurais para as urbanas.
Ressalta, ainda, Santos (2013) que o conjunto Salvador Lyra foi o primeiro construído
no Tabuleiro dos Martins. Logo, os residentes em sua grande parte advêm de regiões
interioranas, caracterizando o intenso fluxo migratório rural – urbano da década de 1970. A
medida que o número de residentes, na época, começou a aumentar na cidade de Maceió,
aumentou também sua área periférica.
Figura 2. Localização do Conjunto Salvador Lyra – Tabuleiro, Maceió - Al.
Fonte: Site Vitruvius. http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.157/4848.
O grupo Pastoril “Recordar é Viver”, se iniciou em 28 de fevereiro de 1998. Portanto,
há dezessete anos. Foi fundado por Ana Ferreira, moradora do conjunto residencial Salvador
Lyra, uma das principais interlocutoras durante o trabalho de campo. O grupo possui 23
componentes, mas nas apresentações só ficam 18 personagens. Segundo as afirmações de Ana
Ferreira, a motivação que a impulsionou a constituir o grupo era a vontade de formá-lo para a
34
comunidade, com o objetivo de “preservar a tradição”, a “cultura” e proporcionar a interação
social de seus membros.
A ideia de constituir o grupo era incentivar a recreação, entretanto, com o
conhecimento dos mais velhos viu-se a importância de levar em conta também a preservação
da cultura, através do “folguedo” e organização do grupo.
Para participar do grupo, não há faixa etária definida, sendo grupo de pastoril misto.
Entretanto, a indicação é que a inserção comece aos sete anos até o momento em que ainda
houver disposição para a dança.
O grupo foi se formando aos poucos, pois os participantes souberam do pastoril
através da igreja de São Paulo Apóstolo e de comentários na própria comunidade.
No dia 23 de setembro de 2014, fui observar um ensaio do grupo, no Espaço Cultural
da Melhor Idade Locutor Marreco, localizado no conjunto Salvador Lyra, na rua Luzinete
Fragoso, quadra 19, número 15. O espaço Locutor Marreco desenvolve várias atividades de
lazer e recreação para a comunidade, apoia a comunidade, desenvolve atividades culturais e
outros projetos, sendo ainda local de ensaio do Pastoril “Recordar é Viver”, assim como de
outros folguedos.
Após minha conversa com a coordenadora, Dona Ana, realizei entrevistas com os
participantes do grupo, com o intuito de compreender como eles souberam e como se
envolveram no pastoril. Os participantes responderam das seguintes formas:
-A gente participava da reunião de convivência na associação, [...]
conheceram no grupo da melhor idade. [...] (Gleide, pastora do grupo,
23/09/2014).
-Eu fui na igreja [...] (Nilda, pastora, 23/09/2014).
-A gente frequentava a associação da melhor idade, fiquei sabendo, e uma foi
chamando a outra (Tereza Costa, pastora, 23/09/2014).
-Eu soube na própria comunidade (Ângela, pastora, 23/09/2014).
Como se observa na fala de alguns participantes do pastoril, a chegada de pessoas ao
grupo, ocorreu a partir do conhecimento de outras pessoas que frequentavam outros grupos,
como o grupo da igreja e o grupo da associação de idosos, mas chegaram também pessoas que
ficaram sabendo na sua própria residência por meio de amigos ou vizinhos e foram
convidados para conhecer e participar. Como previamente mencionei, parecia um meio de
recreação para a população, pois se buscava, primeiramente, preencher o tempo ocioso dos
35
moradores, e satisfazer um sonho de criança da coordenadora dona Ana Ferreira. Mas, com o
tempo foi se tornando uma atividade mais envolvente e séria.
Junto aos participantes, explorou-se o que os levou a participar do grupo e obtive as
seguintes respostas:
- Eu tinha paixão de entrar no pastoril, aí quando ela falou que tinha um
pastoril eu queria entra (Gleide, pastora do grupo, 23/09/2014).
-Quando eu era pequena, eu adorava o pastoril, mas meu pai era crente, e não
deixava dançar pastoril, depois da melhor idade que eu comecei a participar,
eu adoro e amo dançar (Nilda, pastora, 23/09/2014).
-Eu já dancei pastoril, meu pai era dançarino, eu dançava e era personagem
borboleta, parei porque cresci, casei aí passou, quando eu conheci a melhor
idade, voltei a dançar (Tereza Costa, pastora, 23/09/2014).
-Eu dançava em São José da Laje, era a minha mãe que fazia aí eu aprendi
com ela, depois vim morar em Maceió, dancei lá no Bom Parto, cheguei aqui
conheci, me apaixonei e estou aqui até hoje (Ângela, Pastora, 23/09/2014).
-Eu nunca dancei, ela fez uma seleção, me encantei e disse meu lugar é aqui,
eu vou dançar (Anunciada, Pastora, 23/09/2014).
-O meu já é hereditário, meus pais já ensaiavam pastoril, era ciranda, eu com
cinco anos comecei a dançar pastoril, e nisso fui crescendo sempre adorando a
dança, na maior idade eu trabalhava, não tinha tempo, foi quando eu cheguei
na melhor idade, depois que me aposentei que frequentei a melhor idade e as
danças, me realizei, adoro dançar, foi dança é comigo mesmo [...]. (Edna,
pastora, 23/09/2014).
As falas das participantes retratam bem a paixão delas pelo pastoril, cada uma com seu
motivo particular para se sentir envolvidas na participação. Algumas já se sentiam parte dessa
tradição desde criança, notando-se assim a transmissão cultural que o pastoril tem dentro
desse universo social. A maioria das entrevistadas demonstra já haver a tradição do folguedo
dentro de sua família, passando de uma geração para a próxima, entretanto, uma das
participantes sem ter o contato, como as outras com o folguedo, ao tomar conhecimento do
pastoril “Recordar é Viver”, se interessou pela dança e passou a fazer parte do grupo.
Conforme indicação de alguns membros do grupo, os participantes possuem atividades
variadas. Existem pessoas aposentadas, crianças e adolescentes que estudam, donas de casa,
filhos de pessoas que participam e filhos de amigos. As crianças e adolescentes estudam em
colégio no próprio bairro. Já as participantes que são aposentadas, ajudam na criação dos
netos, e algumas se dedicam as atividades do lar e criação dos filhos. Quanto à sociabilidade,
possuem atividades junto à comunidade, viajam, participam de conferências de idosos no
36
Centro de Convenções, passeios, e estão sempre engajadas em um grupo de convivência da
comunidade. Além disso, participam na organização da festa da padroeira e isso faz com que
interajam com outros membros, adquirindo novas experiências juntos a outras pessoas da
comunidade.
3.2 O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO GRUPO
No dia 12 de maio de 2014 fiz o primeiro contato telefônico com o grupo de pastoril
“Recordar é Viver”, me identifiquei e perguntei sobre a possibilidade de realizar entrevistas
com seus membros do grupo, bem como com as coordenadoras.
Dona Lucineide, professora de coreografia e coordenadora do grupo de pastoril, se
prontificou a conceder essa entrevista que foi marcada para o dia 14 de maio de 2014 às
15h00 horas, em frente à igreja católica São Paulo Apóstolo, localizada no conjunto
residencial Salvador Lyra.
Fui ao encontro de Dona Lucineide e, ao me receber, ela foi muito receptiva.
Caminhamos até a sua residência onde nos acomodamos em sua sala de estar. Ela me
perguntou sobre quem tinha falado do grupo e respondi que uma das minhas amigas de nome
Fátima do curso de Ciências Sociais havia feito alguns comentários sobre o grupo, pois já
havia visto a apresentação, então fiquei interessada em conhecê-lo melhor, logo fui a busca da
localização do pastoril e da responsável. Nessa ocasião, explicitei junto a D. Lucineide
também que a pesquisa que iria realizar visava construir meu Trabalho de Conclusão de
Curso. Expliquei-lhe ainda que tinha interesse em pesquisar sobre “cultura popular” e que o
Pastoril “Recordar é Viver” havia chamado a minha atenção. Imediatamente ela se levantou,
foi até a estante e trouxe recortes de jornais e CDS de autoria do grupo. Apreciei o que ela
tinha nas mãos e marcamos uma nova data para iniciarmos a entrevista, pois não havia mais
tempo naquele momento, visto que ela tinha um encontro marcado com um representante de
produtos naturais. A seguir os recortes de jornais e CDS de autoria do grupo de pastoril
“Recordar
é Viver”.
Figura 3. Capa
dos cds. Pastoril “Recordar é Viver”.
Figura 4. Reportagem do Jornal
Fonte: Dona Lucineide. Coord. do “Recordar é Viver”. Fonte: Dona Lucineide. Coord. do “Recordar é Viver”.
Fonte: Dona Lucineide. Coord. do “Recordar é Viver”.
Fonte: Dona Lucineide. Coord. do “Recordar é Viver”.
37
Figura 5. Reportagem
Fonte: Dona Lucineide. Coord. do “Recordar é Viver”.
O novo encontro foi marcado no dia 23 de maio de 2014, no Espaço Cultural da
Melhor Idade, do conjunto residencial Salvador Lyra em Maceió, onde haveria a possibilidade
de assistir um ensaio do grupo. Quando marcamos ela sugeriu-me ainda que eu me
encontrasse com outra coordenadora do grupo chamada Ana Ferreira.
Lucineide Medeiros, professora de coreografia e coordenadora do grupo, relatou ter
sido convidada por Ana Ferreira para ensaiar um pastoril na Igreja do conjunto Salvador Lyra.
Quando eu cheguei ao espaço cultural, local onde foi marcado o encontro, já havia começado
o ensaio do grupo. Então, sentei e assisti junto a Dona Lucineide.
Ao término do ensaio, Dona Lucineide me apresentou os componentes do pastoril,
informando sobre o motivo da minha presença no local. Todos quiseram saber o que eu fazia
lá no meio deles, pois minha presença causou curiosidade. Eu informei que era estudante da
Universidade Federal de Alagoas-UFAL, do curso de Ciências Sociais, e que ali estava para
realizar uma pesquisa e por isso queria assistir a apresentação do grupo e fazer a entrevista
com as coordenadoras. Acrescentei que fariam parte da pesquisa e que a entrevista com eles
seria em uma nova data. Disse ainda que a entrevista era parte do meu Trabalho de Conclusão
de Curso e que as informações deles seriam muito importantes também para deixar um
registro escrito da memória do grupo. A reação foi de satisfação em fazer parte da pesquisa.
Terminadas as apresentações, os componentes do grupo se retiraram e ficamos só eu e
dona Lucineide. Iniciei a entrevista com ela que versou sobre o início do grupo e suas
dificuldades. De acordo com Lucineide, ela ensaiava com o grupo da igreja São Paulo
Apóstolo, no Salvador Lyra, mas só podiam participar as pessoas que frequentavam à missa e
outros grupos da igreja, portanto, pessoas da comunidade que não tinham esse hábito eram
excluídas, mas nem todas as pessoas que iam a igreja queriam participar, e por isso faltavam
meninas para o grupo. Lucineide disse: “só podia participar quem frequentava a missa e,
então, faltou menina” (23 de maio de 2014). Esse fato, do ponto de vista da entrevistada,
38
ameaçava a continuidade do grupo de pastoril. Diante dessa condição, uma vez que nem todos
frequentavam a missa, não desanimou e ajudou a formar um novo grupo de pastoril na
comunidade, o “Recordar é viver”, com pessoas de variadas idades e gênero. Segundo a
interlocutora, os mais velhos se encarregavam de ensinar e repassar as próprias experiências
sobre pastoril para o grupo recém-formado.
Acrescentou que, inicialmente, não havia um local certo para ensaiar, pois o pastoril
não tinha sede própria e os ensaios eram improvisados em vários locais. Mas com a
construção do “Espaço Cultural da Melhor Idade” adquiriu uma sede própria. Também falou
da composição do grupo “Recordar é Viver” com os seus cordões completos e os destaques.
Conforme as palavras da coordenadora Lucineide, os destaques são:
A composição atual do grupo é, mestra Edna; contramestra, Ana Alves, Diana
Lucineide Medeiros; borboleta Raíssa; Florista, Zezé Fernandes; cigana
Galyce; anjo, Raul e pastor, Antonio. E cinco pastoras de cada lado, Angela
Anunciada, Gleyde, Fátima, Cicera Araujo, Salete Virtuoso, Nilda, Fátima e
Tereza Costa (23/05/2014).
Dona Lucineide, informou que na organização da dança existem o cordão azul e o
encarnado, assim como em outros pastoris. Edna é a mestra do cordão encarnado. Ela
coordena o cordão encarnado exaltando a questão do partidarismo, fica a frente da fila,
atraindo mais atenção, se movimentando com dança, falando, cantando e as vezes batendo
pandeiro.
A contramestra, Ana Alves, coordena o seu cordão azul, com o mesmo objetivo de
atrair a atenção e a torcida, num mesmo processo da mestra. Já a Lucineide Medeiros,
representa a Diana. É a guia do grupo e fica no meio dos dois cordões por não ter partido. A
sua roupa possui cores tanto azul como encarnado (há uma divisão no meio do vestido das
cores), comandando a organização da dança no palco, somente ela usa um apito para chamar
atenção do público e dos componentes do grupo, puxando as jornadas das apresentações,
inicialmente com “Boa noite a todos”. A Diana também canta e faz os mesmos movimentos
dos outros componentes do grupo – para frente e para trás, para esquerda e para a direita em
movimento ritmado pela música, também balança as mãos juntas para os lados.
Já as pastoras ficam cinco de cada lado e em fila, acompanham o movimento de cada
mestra do seu partido– azul ou encarnado –seus movimentos são ritmados pela jornada,
exaltando o público e estimulando também o partidarismo através das músicas e danças. Na
organização da fila, há uma hierarquia, sendo 1ª. ,2º, 3ª, 4ª. e 5ª. pastora do cordão encarnado,
39
assim como acontece no cordão azul, isso possibilita ao público chamar a pastora que escolher
para a cena.
A borboleta, também componente do pastoril, tem uma movimentação na dança,
passeio pelos cordões batendo suas asas e cantando. A cigana se apresenta no centro do grupo,
acompanhando as jornadas cantando e dançando. O anjo exalta o evento cantando,
acompanha também o movimento das jornadas, canta e dança, assim como o pastor e a
florista. O pastor usa uma bengala.
O nome do grupo “Recordar é Viver”, conforme indicou Lucineide Medeiros, foi
escolhido por apresentar o caráter do grupo, uma vez que as pessoas mais adultas e idosas
podem recordar, ao mesmo tempo que os mais jovens podem viver o que não conheceram. O
grupo, como indicou dona Lucineide é misto, logo não comporta só pessoas idosas como é de
costume observar em muitos pastoris e de imaginação da maioria das pessoas. O objetivo do
grupo não é agregar apenas os conhecedores do pastoril ou os que já dançaram, mas todos que
tiverem interesse, não importando a idade. Essa configuração é importante porque a partir do
momento em que os mais velhos passam seus conhecimentos para os mais novos, a
possibilidade do pastoril permanecer vivo em Alagoas se torna muito maior. O nome do
grupo traz dois sentidos, ou seja, o de reviver o pastoril dos mais velhos e o sentido de sua
permanência através da experiência passada aos mais jovens. Neste sentido, pode-se reportar
a Barth (2000), uma vez que neste caso, o conhecimento acumulado do pastoril pelos mais
velhos, é passado para a outra geração, e essa possui a liberdade de fazer novas combinações
voluntárias ou não. Isso é o que se encontra também nas argumentações de Hannerz (1997) e
que ele chama de “combinações inovadoras”.
Ao término da entrevista, a mesma sugeriu que eu entrasse em contato com dona Ana,
que também era coordenadora do grupo. Na ocasião fui convidada para conheça-la em sua
casa, através de uma responsável do Espaço Cultural da Melhor Idade Locutor Marreco17, a
dona Leu, que a conhecia e morava próxima a dona Ana. Disse: “Eu moro próximo, quer ir
conhecê-la agora?”, imediatamente eu aceitei, então segui com dona Leu para a casa de dona
Ana.
Ao chegar à casa de dona Ana, dona Leu me apresentou e se despediu, deixando-me
conversando com ela. Ana Ferreira tem 75 anos, cresceu na Paraíba, e é a contramestra do
grupo. Falei das minhas intenções de pesquisa e deixei o próximo encontro marcado.
17
Jorge Lamenha Lins (o Marreco), foi locutor da antiga Rádio Progresso, foi também vereador de Maceió no
ano de 1964.
40
O encontro seguinte com dona Ana ocorreu no dia 07 junho de 2014, no Ponto de
Cultura Face a Face.
O Ponto de Cultura Face a Face fica em um prédio na Rua Manoel Mendes nº112,
quadra 15 Conjunto José Maria de Melo - Tabuleiro dos Martins – Maceió – AL. Oferece
atividades para jovens da comunidade e pessoas da terceira idade e é voltado ao incentivo e
manutenção da “cultura popular”, apoiando as manifestações culturais já existentes. O local
também é usado para guardar as vestimentas e equipamentos do grupo Pastoril “Recordar é
Viver” e, além disso, serve de apoio para confeccionar as roupas do grupo.
Dona Ana ficou feliz ao saber do meu interesse sobre seu grupo. Na conversa ela
relatou ser a fundadora e perguntei como surgiu a ideia de formar esse pastoril. Dona Ana
disse que desde criança queria participar, mas que na infância não teve oportunidade de
dançar, e esse é um dos motivos pelo qual ajudou a formar o grupo.
Relatou que teve interesse de formar esse grupo também através das conversas com as
amigas, pensando em como fazer algo para animar a comunidade. Nessas conversas descobriu
que algumas delas já tinham participado de pastoris durante a juventude. Dona Ana nunca
tinha dançado, porém, tinha muita vontade de dançar desde jovem, pois na Paraíba ela já
havia visto o pastoril por lá. Perguntei a Dona Ana porque ela veio morar em Alagoas e ela
me respondeu que parte de sua família já morava aqui. Seu marido era trabalhador rural e, em
busca de melhorar sua vida, fugindo das dificuldades que a seca proporcionava, conseguiu um
emprego em Maceió e veio trabalhar. Em um primeiro momento, em 1965, ele veio sozinho e
mais tarde foi buscar a família: dona Ana e seus filhos. Ela ficou em Maceió e não voltou
mais para a sua cidade natal.
Reportando-se ao surgimento do grupo, Ana Ferreira considerou:
O Pastoril surgiu a partir de conversas, rodas de conversas, tudo divertimento.
Começou como uma brincadeira, e a necessidade de envolver o bairro que não
tinha muito o que fazer, e hoje está aí. [...] A população apoiou, e teve também
o apoio e ajuda do Ponto de Cultura do bairro, que ajudou nas vestimentas.
Como a gente em conversa ficava por aí na calçada, conversando numa
rodinha, aquelas mulheres do grupinho ficavam dizendo que aqui é muito
morto, não tinha nenhum divertimento, ai foi que tudo começou e uns ensaios
de brinquedo, brincando, e foi levando a sério, gostando da brincadeira, e até
hoje graças a Deus tá indo em frente (Ana Ferreira, 07 junho de 2014).
Dona Ana Ferreira ressaltou, “Formamos um grupo misto, com crianças, jovens,
adultos e idosos. Nosso objetivo é reunir todo mundo em prol da “cultura popular”.
41
Dona Ana Ferreira ao tratar sobre o surgimento do grupo indicou que foi criado em 28
de fevereiro de 1998, considerou também que para coordena-lo havia uma composição
simples de pessoas que se predispusessem a colaborar com a formação e manutenção do
grupo de pastoril. Dessa forma só havia três pessoas na coordenação, sendo: a tesoureira
Maria José Ferreira dos Santos, na época dona de casa, e já se desligou do grupo e depois
faleceu; a coordenadora cultural Ana Alves Ferreira, na época também era dona de casa e; a
coordenadora financeira Maria Lucineide, na época trabalhava na caixa em uma casa lotérica.
Portanto, eram todas pessoas da comunidade. Atualmente são apenas duas coordenadoras,
Ana Alves Ferreira e Maria Lucineide, e continuam com as mesmas atividades dentro do
grupo, portanto há dezessete anos.
Dona Ana ressaltou que as reuniões da coordenação do pastoril são semanais e
ocorrem nos dias do ensaio, às terças-feiras, ou de acordo com a necessidade. Nas reuniões do
grupo conforme indicação de dona Ana, discute-se sobre dúvidas, esclarecimentos,
apresentações, vestuários, adereços, atualizações pertinentes ao pastoril. Afirmou que todos
participam do debate, expressam suas opiniões e realizam críticas, quando houver.
Ao perguntar sobre a eleição para a coordenação do grupo, Ana Ferreira disse que não
é renovada, pois continuam as mesmas pessoas fundadoras do pastoril, e não possuem
remuneração, portanto, são voluntárias. Conforme descrito, não há uma renovação da equipe,
pois há consenso entre a equipe e o grupo não possui fins lucrativos. O grupo é formado para
reforçar a participação popular no pastoril através dos atores sociais do bairro, tais atores não
manifestam vontade em promover uma mudança na coordenação. Não houve nenhum relato
sobre manifestações contrárias dos componentes do grupo de pastoril “Recordar é viver”,
sobre a permanência das mesmas pessoas na coordenação.
De acordo com Ana Ferreira, na formação do grupo não houve uma pesquisa de
modelo acadêmico sobre o pastoril, mas sim consultaram os saberes locais das pessoas mais
velhas, tudo ocorreu a partir da experiência de cada um e das próprias recordações de criança.
Entretanto, houve a expectativa de ampliar o conhecimento sobre o pastoril. Acerca disso,
Ana Ferreira relatou o seguinte,
Tive vontade e assistir algumas reuniões na Secretaria de Cultura, mas eu só
frequentei essas reuniões após o Pastoril já estar formado. Mas as reuniões não
acrescentaram nada ao grupo. Então fomos absorvendo os conhecimentos da
experiência de cada um da comunidade envolvida (Ana Ferreira, 07 junho de
2014).
42
O trecho de entrevista acima citado, nos leva a refletir sobre a importância dada neste
contexto à experiência dos atores sociais e à memória que eles cultivam. É necessário tomar
em consideração que há atores sociais protagonistas no processo de reelaboração cultural do
Pastoril “Recordar é Viver”, sendo necessário compreender em que repousa o prestigio deles
e a legitimidade dessa reelaboração.
Hoje dona Ana reside com a sua filha Maria Gilvaneide de Souza, que tive o prazer de
conhecer. Ela é conhecida como Neide Souza e está comprometida na ajuda da equipe de
pastoril, pois acumulou diversas experiências com vários grupos. Ela é psicóloga e ajuda a
resolver algumas situações imprevistas, caso ocorram, dentro do grupo.
Ela também é
envolvida com projetos sociais e é coordenadora técnica do IMI- Instituto da Melhor Idade.
Neide Souza:
No início, o grupo se deparou com algumas dificuldades, mas eu Neide Souza
comecei a dar algumas orientações ao grupo, por ter uma experiência com
movimentos sociais e o fato da minha profissão psicologia, contribuindo para
trabalhar os conflitos18 que surgiam. (Neide Souza, 07 Junho de 2014).
Para a manutenção do pastoril, Ana Ferreira, ainda na entrevista do dia 07 de junho de
2014, ressaltou a questão de preservar a “cultura”, considerando, do seu ponto de vista, o
motivo principal da construção do pastoril. Ela afirmou que havia “garra, vontade de mostrar
ao jovem para eles dar valor e ter vontade de manter a “cultura” do estado viva. Além de
mostrar para esse jovem essa coisa tão linda, tão bela que são os folguedos”.
Dona Ana Ferreira, afirmou que, geralmente, o grupo se apresenta completo, mas
quando se pede só uma demonstração só vão à mestra, contramestra e Diana. Comentou,
ainda, a satisfação que tem em saber sobre a grande contribuição que o Pastoril “Recordar é
Viver” deu para outros pastoris, principalmente após a divulgação de seus CDs.
Dona Ana disse que o pastoril é apresentado com músicos19 e instrumentos, mas com a
dificuldade financeira, nem sempre isso é possível. Devido a essas dificuldades surgiu a ideia
de gravar um CD para facilitar as apresentações. Ressaltou, “O CD surgiu da necessidade,
porque em Maceió é muito difícil músico, então buscamos fazer o CD, para podermos ensaiar
e se apresentar. Mas o tradicional é o músico e os instrumentos musicais, como banjo,
trombone e surdo”.
18
Os conflitos que Neide de Souza se referiu, se tratavam de pequenas discordâncias, já que as componentes
mais antigas eram de pastoris de lugares diferentes.
19
Os músicos referidos são pessoas que tem conhecimento do manuseio dos instrumentos para acompanhamento
das jornadas, ou seja, tocam os instrumentos.
43
Sobre a confecção do CD, disse dona Ana que foi uma conquista em parceria com o
SESC-Alagoas, Mercadinho Líder e SESI –Alagoas, O primeiro CD foi lançado em 2001,
constando dezessete jornadas20 foi produzido em Fortaleza, pela gravadora CD MAIS.
Já o segundo CD, conforme relatou dona Ana, foi composto de dezoito jornadas, mas
ela não recordou a data da confecção do CD.
Entretanto, mesmo com o apoio dado no primeiro CD, ainda houve a necessidade do
grupo colaborar na sua confecção. Para isso, buscava recursos através de venda de
churrasquinho e refrigerantes em festas e fazendo bonecas de pano caracterizadas de pastoras
para ajudar na arrecadação de dinheiro. Disse dona Ana que foi um processo difícil, que
requeria muito empenho, porém, conseguiu o objetivo e o grupo se manteve. Completou que a
recompensa pela gravação do CD, foi saber que o Pastoril “Recordar é Viver”, vem ajudando
a manter essa cultura popular viva dentro do estado de Alagoas, porque foram criados e
restaurados ao todo 35 pastoris a partir da divulgação do CD. Entretanto, não pude verificar se
essa informação tem fundamentos, ou seja, não há um levantamento dessas informações ou
estudos sobre os efeitos da divulgação do CD. Dona Ana Ferreira informou que essa notícia
do sucesso de criação dos pastoris, foi trazida por um dos componentes do grupo “Recordar é
Viver”.
Dona Ana relatou que as pessoas buscam o ano todo, as apresentações do Pastoril
“Recordar é Viver”, por isso o grupo se apresenta em todas as épocas do ano. Segundo ela,
antigamente o pastoril se apresentava apenas no final do ano.
Explicou ainda que houve algumas mudanças no pastoril:
Não foram muitas, nas roupas alguns detalhes, mantendo sempre as cores do
Pastoril. Na parte da ornamentação da cabeça, muda os enfeites das tiaras, do
chapéu, só para fazer a diferença, para estar sempre inovando um pouco (Ana
Ferreira, 07 de junho de 2014).
Dona Ana além de coordenar, é estilista do grupo, confeccionando as roupas e
adereços.
Perto do fim da entrevista, Dona Ana me levou para mostrar as vestimentas do grupo,
algumas fotos de roupas anteriores. Eu agradeci, e disse que a partir dali eu iria entrevistar
alguns componentes do grupo e depois observar as apresentações do Pastoril “Recordar é
20
1. Boa noite a todos; 2. Meu São José; 3. Boas Festas; 4. A borboleta; 5. Cruzeiro do Sul;6.Minhas
Companheiras; 7. Os três reis magos; 8. Oh, vinde, vinde; 9. .A florista; 10. Autora de hoje; 11. Despertai
serranas; 12. Infante; 13. Partidárias serranas; 14. Formalizar; 15. Ana Nana; 16. Vem cá ompanheira; 17. Adeus
meu senhor. Foram as músicas indicadas por dona Ana (CD PASTORIL RECORDAR É VIVER).
44
Viver”. A expressão ao mostrar as vestimentas anteriores, através das fotos, foi de muito
orgulho, pelo simbolismo que representam como lembrança do percurso do grupo.
Nota-se com a entrevista que a receptividade, acolhimento e liderança de Dona Ana,
junto à comunidade e ao grupo, fazem com que as pessoas queiram dançar pastoril. O
processo de chegada dos componentes é espontâneo, a divulgação ocorre tanto por meio das
pessoas que fazem parte do grupo, assim como nas apresentações, onde surge a curiosidade
sobre o grupo e como participar. Outra forma de agregação de pessoas ao grupo ocorre na
própria família dos participantes, que levam os filhos para a apresentação ou outros
familiares.
De acordo com Ana Ferreira, é muito comum os filhos de quem participa, querer
também participar, até por influência dos pais. Para Dona Ana, não há uma regra definida
para ingressar no grupo, a não ser cumprir o compromisso assumido nos ensaios e nas
apresentações. Os componentes são todos do próprio bairro, mas não se exclui a possibilidade
de vir pessoas de outros locais.
Pode-se dizer que as coordenadoras têm um renomado prestigio no bairro por serem
mulheres que se destacam pela reputação moral adquirida no esforço de se dedicarem
ativamente à manutenção do grupo, sem poupar esforços para conseguir recursos e garantindo
a agregação de vários membros do bairro. O fato de o grupo não ter fins lucrativos merece
também atenção. As ações das coordenadoras e de quem se mobilizar para a garantia da
manutenção do grupo são percebidas como atos desinteressados e generosos. A generosidade,
importante valor neste contexto, é constantemente mostrada pelas coordenadoras que
expressam através das próprias ações o interesse no bem-estar da comunidade, acrescendo
assim o próprio prestígio.
3.3 DESCRIÇÃO DAS APRESENTAÇÕES DO GRUPO
Dia 24 de outubro de 2014, ocorreu a apresentação do Pastoril “Recordar é Viver”, na
igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no conjunto Cleto Marques Luz, na Colina dos
Eucaliptos. Era por volta das 19 horas, quando começamos a nos encontrar na Praça São
Paulo Apóstolo, no conjunto Salvador Lyra, o local marcado para a concentração de todos que
estavam convocados para dançar, pois o padre tinha locado um micro-ônibus nessa noite.
Inicialmente houve um imprevisto, pois o micro-ônibus teve um problema e não pôde
ir, mas logo o padre da comunidade mandou o carro dele para nos levar. Foram necessárias
várias idas e vindas, mas o importante é que chagamos todos no horário marcado para a
45
apresentação. A igreja estava em festa, durante a semana inteira, pois se comemorava a
padroeira da igreja, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, havendo um grande número de
pessoas. Eu aguardava ansiosa o início da apresentação, pois a observação era de suma
importância para o desenvolvimento de minha pesquisa. O início da apresentação demorou
um pouco, aguardando o término da missa. Ao aguardar, percebi a ansiedade das pessoas para
ver a apresentação do pastoril. Aos poucos os componentes do grupo começaram a se
organizar. Alguns deles já chegaram com seus trajes típicos, e outros deixaram para se vestir
no local. Aos poucos o grupo foi sendo formado para a apresentação, pois o pastoril organiza
seus personagens da seguinte forma: Dois cordões de pastoras com cores diferentes, de cor
encarnado com sua mestra e em seguida cinco pastoras. Do outro lado o cordão azul com sua
contramestra e demais pastoras. No centro haviam as seguintes personagens: Diana21, que
comanda a organização da dança no palco; o anjo; a florista; a borboleta; o São José; a cigana
e; o pastor. Todos posicionados iniciaram a apresentação. O público ficou atento a cada passo,
conforme ouviam as jornadas.
Foto 1. Posicionamento para a foto
Fonte: Ione Louro. 24/10/2014
21
A Diana era a coordenadora do grupo, Sra. Lucineide Medeiros.
46
Foto 2. Posicionamento para a segunda foto
Fonte: Ione Louro. 24/10/2014
As fotos 1 e 2, apresentam o grupo de Pastoril “Recordar é Viver”, que ao chegar no
local da apresentação, a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, se posicionou na área de
eventos,diante do público para a foto, como costuma fazer nas apresentações. Na foto 1 da
esquerda para a direita tem-se o anjo, a cigana, as pastoras do cordão vermelho, o pastor, a
Diana, as pastoras do cordão azul e a borboleta. Ao fundo da foto, observa-se a ornamentação
para a festa com a imagem da Nossa Senhora do Pérpetuo Socorro.
Foto 3. Apresentação.
Fonte: :Ione Louro.. 24/10/2014
47
Foto 4. Apresentação
.
Fonte:Ione Louro. 24/10/2014
As fotos 3 e 4 descrevem o grupo no início da apresentação com a dança, saudando ao
público, com a Jornada Boa Noite a Todos. A Diana coordenando o grupo e saudando ao
público. Na dança de modo ritmado, os componentes vão para frente e para trás, para os
lados, usam passos coordenados, e chamam atenção do público. Neste caso foi usado o CD do
grupo com as músicas de pastoril, e os componentes acompanhavam cantando.
Foto 5. Posicionamento final da apresentação.
Fonte: Ione Louro. 24/10/2014
48
A foto 5 representa os momentos finais da apresentação, em que o grupo continua
posicionado em fila com movimentos mais lentos, finalizando a apresentação. Do lado
esquerdo o cordão encarnado, no direito o cordão azul, e no centro os demais personagens do
Pastoril “Recordar é Viver”. A jornada de encerramento é a despedida “Adeus meu senhor”.
Foto 6. Público atento.
Fonte: Ione Louro. 24/10/2014
A foto 6 monstra o público atento para a apresentação. As crianças estão sentadas no
chão, local onde está posicionado o grupo de pastoril, e os mais velhos em cadeiras ou em pé.
Algumas senhoras tiravam fotos e gravavam a apresentação como recordação. O público era
dividido entre pessoas que possuem algum trabalho na igreja e pessoas da comunidade que
frequentam as missas e outros eventos. As crianças estavam muito atentas à apresentação. Em
alguns momentos o público cantava e batia palmas, torcendo para o cordão azul ou encarnado.
Uma observação relevante foi a integração entre os participantes do grupo de pastoril.
Notou-se, portanto, a importância do trabalho em equipe para a orquestração de cada passo
executado.
O grupo no palco se apresenta nas festas com muito entusiasmo, pois notam que
agradando ao público, essas festas são a forma de obter ajuda para o “Pastoril Recordar é
Viver” 22. A ajuda vem através das doações feitas aos cordões no momento das apresentações,
e demais ajudas vêm através de convites para as apresentações em locais como igrejas,
palanques, festas em praças públicas, etc.
22
Senti-me privilegiada de ver a comemoração do grupo, após a apresentação, porque durante a apresentação o
público pediu várias vezes para elas continuarem a dança e isso para o pastoril é muito gratificante,
demonstrando também o valor das danças folclóricas, mesmo no espaço urbano.
49
Estavam na festa no dia da apresentação: o padre, Edmilson Soares da Silva; as
organizadoras da igreja, representantes da comunidade; as coordenadoras do pastoril e a
coordenadora de eventos da igreja, senhora Cristine Jerônimo e demais membros. Estes, antes
de começar a apresentação se reuniram, pois cada um tem uma função definida, para que a
apresentação ocorresse sem nenhum problema.
O convite para a apresentação ocorreu por meio da senhora Maria Anunciada que faz
parte do pastoril “Recordar é Viver” e também do grupo da oração Legião de Maria. Os
participantes do grupo de pastoril são pessoas do mesmo bairro, e como se observa, a senhora
Maria Anunciada, também participa das atividades da igreja. Nota-se uma relação de amizade,
mesmo sendo um tipo de grupo com partidarismo, o que os alegra, é a importância do grupo
como um todo.
A segunda apresentação do grupo que observei, ocorreu na Sociedade Maria
Auxiliadora dos Cristãos, no dia 20 de dezembro de 2014, às 15h00. A paróquia fica
localizada no Centro da Cidade de Maceió, rua Pontes de Miranda, número 152.
O convite foi feito pelo músico Romildo Manoel da Silva, que conhecia o Pastoril
“Recordar é Viver” e também participava da Sociedade Maria Auxiliadora dos Cristãos23. O
músico Romildo também participou da gravação do primeiro e do segundo CD do “Recordar
é Viver”, como instrumentista, além de participar de algumas apresentações do grupo de
pastoril quando solicitado.
A apresentação foi realizada no salão da igreja, para isso as cadeiras foram afastadas e
arrumadas nas laterais e a comunidade foi acomodada para assistir a apresentação. Um
diferencial dessa apresentação em relação à outra, foi à presença dos músicos, Romildo
Manoel Silva, toca trombone; José Gomes da Silva, surdo e Sr. Sinal, toca diversos
instrumentos.
A minha ação diante da apresentação foi observar de pé, circulando para poder fazer
os registros fotográficos, sendo indagada por um ou outro membro da igreja pelo fato de estar
fotografando o evento. Após ter satisfeito a curiosidade de todos, tendo explicitado que estava
realizando um trabalho de pesquisa para a Universidade, continuei fotografando a
apresentação e tudo que estava envolvido na festa. Ao utilizar a fotografia como meio de
registro busquei observar o olhar dos participantes do grupo, e ao mesmo tempo dar ênfase a
expectativa da comunidade que assistia a apresentação.
23
A instituição não tem uma rotina como na Igreja Católica, mas é uma instituição caritativa, que possui
associados.
50
Fiz registros fotográficos do local da apresentação; do grupo dançando e da
comunidade que frequentava a igreja. Percebi idades variadas, entretanto, constatei a presença
de pessoas idosas, dentre elas uma senhora a qual tive a curiosidade de perguntar a sua idade,
sendo indicado que possuía 81 anos. Seu nome é Antônia Maria, moradora do bairro do Poço,
e que há anos é frequentadora da igreja e de suas festas. Perguntei como ela chegava lá devido
a idade, e ela indicou que seu filho a deixava e depois ia buscá-la. Perguntei se já havia visto a
apresentação do pastoril daquela forma com os músicos, ela indicou que em outros locais,
mas que na igreja era a primeira vez e que achou que ficou melhor.
Nessa apresentação houve uma torcida marcante para os cordões durante a
apresentação. O participante de cada cordão buscava envolver o público, através da música e
da dança em uma disputa. Alguns torciam pelo cordão azul e outros pelo encarnado. Com
relação às pastoras, elas cantavam e dançavam em fila, mudando os movimentos e passos,
chamando atenção. A manifestação do público ocorria a partir de aplausos para o grupo e
quando terminavam as jornadas as pastoras permaneciam em fila e o público chamava a
pastora de sua preferência em cena e lhe oferecia uma quantia em dinheiro. Ela agradecia a
contribuição, guardava o dinheiro dentro o vestido e apresentava novamente alguns passos da
dança. Tal registro foi também feito em fotos.
Foto 7. Músicos
Fonte: Ione Louro.20/12/2014.
A foto 7 apresenta o momento em que os músicos começaram a acompanhar as
jornadas com os insturmentos. Os instumentos são pandeiro, trombone e o surdo. O trombone
51
acompanha o canto, o surdo e o pandeiro marcam o ritmo. Os músicos estão junto ao público,
sentados.
Figura 8. Músicos
Fonte: Ione Louro. 20/12/2014
Os músicos estão no momento da apresentação tocando seus instrumentos.
Observando da esquerda para a direita encontra-se os senhores: Romildo Manuel da Silva, no
trombone; José Gomes, tocando surdo; e Sinal, tocando pandeiro.
Foto 9. Pastoras dançando
Fonte: Ione Louro.20/12/2014
52
Momento da apresentação da primeira jornada, se apresentando para o público na
Sociedade Auxiliadora dos Cristãos. As pastoras cantam e dançam buscando a atenção do
público para a torcida ao cordão encarnado ou azul.
Foto 10.Pastoras dançando
Fonte: Ione Louro.20/12/2014.
A pastoras em fila, na mesma situação da foto 8.
Foto 11. Pastora chamada em cena.
Fonte: Ione Louro.20/12/214
53
Na foto 11 a senhora pediu para chamar a pastora do cordão azul em cena, para fazerlhe a doação em dinheiro. Esse momento acontece ao final da jornada, onde as pastoras
continuam em fila, aguardando serem chamadas pelo público. Como nota-se na foto, a
senhora ajuda a pastora do cordão azul a guardar o dinheiro dentro do vestido, na parte
superior. As pastoras do outro cordão observam e o público bate palmas e sorrir.
Foto 12 – Pastora dançando agradecendo .
Fonte: Ione Louro.20/12/2014
A foto 12 registra que após o recebimento do dinheiro pela pastora do cordão a zul, ela
dança ao som dos instumentos e jornada de agradecimento. As outras pastoras continuam
paradas e sorridentes, o público que torce pelo cordão azul acompanha a jornada com palmas.
Naquele dia no final da apresentação fizeram a soma e quem ganhou mais dinheiro, foi
o cordão encarnado. O dinheiro doado no final ficou com a coordenadora do grupo, e sua
finalidade era de ajudar na manutenção e compra de vestimentas e outras necessidades do
grupo, conforme indicado por dona Ana.
Dona Ana estava muito empolgada, pois ela gosta muito da apresentação com os
músicos e perguntei onde ela busca tanta força para dançar. Ela disse: “Eu estou
envelhecendo, sei que estou diminuindo o meu ritmo, mas mesmo assim a vontade de dançar
o pastoril não passa”. Perguntei para Dona Ana qual a diferença entre a apresentação com CD
e a apresentação com os músicos e ela respondeu ressaltando que a presença do músico é
importante para o pastoril, uma vez que isso “é o tradicional” e, sempre segundo a minha
54
interlocutora, ajuda a dar o sentido próprio da festa. Contudo, é algo difícil devido ao alto
custo da apresentação com músico.
Abordei uma senhora que observava o pastoril, com mais ou menos quarenta e cinco
anos, cujo nome é Maria das Graças. Constatei que ela havia dado dinheiro para uma pastora
do cordão encarnado e lhe perguntei o porquê ela escolheu esse cordão. Respondeu-me que já
torcia por ele há muito tempo e que no passado ia assistir as apresentações com sua mãe, que
a influenciou a torcer pela cor. Segundo ela, o dinheiro é dado pelo fato da tradição da dança
levar a isso, e a disputa de quem vence que normalmente acontece pela soma do dinheiro,
disse: “Quero que o cordão encarnado vença, minha mãe me disse, quando eu ainda era
criança que, para que ganhasse o cordão encarnado, eu tinha que dar algum dinheiro”.
Após a apresentação foi servido bolo e refrigerantes para toda a comunidade, e para os
integrantes do pastoril e os músicos. Neste momento havia conversas entre os membros do
pastoril e a comunidade empolgada, que às vezes chegava a tocar no figurino das pastoras.Ao
final da refeição o Pastoril agradeceu, e com o microonibus locado, retornou ao bairro de
Salvador Lira.
Eu agradeci as coordenadoras e ao grupo por ter me permitido participar do evento, e
pela grande contribuição que trouxe à minha pesquisa, que me permitiu fazer registros sobre o
Grupo de Pastoril “Recordar é Viver”, as mesmas também expressaram satisfação pelo meu
interesse.
Mostrar o pastoril na comunidade é uma contribuição para manter essa cultura viva. E
ao se apresentar não só demonstra uma dança, mas também um aprendizado que se dá no
movimento da dança , nos cantos das jornadas. Observar o pastoril é compreender quer ao se
apresentar há um esforço em incentivar a comunidade a valorizar a cultura popular.
55
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo, conforme descrito inicialmente, trouxe algumas observações de cunho
antropológico sobre o grupo de Pastoril “Recordar é Viver”.
Os dois primeiros capítulos deste estudo apresentaram a diversidade de interpretações
que cercam a noção de cultura e as diversas abordagens sobre ela, ressaltando, especialmente,
autores como Hannerz (1997) este que apresentou reflexões, dando ênfase para tal
entendimento a circularidade dos fluxos culturais e suas reelaborações contextuais. Além
deste autor, outros como Théo Brandão (1973) também contribuiu para a compreensão,
trazendo descrição sobre novas contribuições que o Pastoril alagoano recebeu, ressaltando a
importância do partidarismo na revivescência do folguedo em Alagoas.
Algo que não pode deixar de ser ressaltado, é a importância da compreensão da obra
de Lamas (1978) para a elaboração do estudo junto ao Pastoril “Recordar é Viver”, quando
ela faz compreender que a cultura se recria, se reelabora, se apropria e até mesmo, improvisa.
Barth (2000) também contribuiu para a o compreensão da dinâmica da geração do pastoril
quando ele traz a descrição sobre o guru e o iniciador, trazendo a minha interpretação que no
grupo de pastoril “Recordar é Viver”, existem figuras que se podem associar ao papel dos
gurus. Essas pessoas são os fundadores do grupo.
O capitulo três trouxe as observações da pesquisa junto ao grupo de Pastoril “Recordar
é Viver”, descrevendo os passos para a constituição do grupo, notando-se a partir da
observação, a importância dos atores sociais na constituição do pastoril.
Um fato importante dentro do grupo é a sua constituição, uma vez que específica
apenas a idade mínima de sete anos para entrar no grupo, mas para permanecer no grupo, o
requisito é que possua condições para dançar. Por isso, participam pessoas mais velhas e
outras mais novas. Foi observada também a interação que há, não só nos ensaios e
apresentações, mas também, conforme entrevista, que o grupo é conduzido de forma que
todos possam dar suas opiniões, no momento da realização das reuniões. Há também de
ressaltar que não há rotatividade na coordenação do grupo, ficando nas mãos das
idealizadoras e fundadoras do pastoril “Recordar é Viver”, que acolhe quem chega,
solicitando apenas a responsabilidade com o compromisso firmado de participação.
Na entrevista feita junto aos participantes do grupo, notou-se que a informação junto à
comunidade sobre a constituição do grupo, ocorreu por vários meios, principalmente, por
pessoas que já frequentavam outros grupos da comunidade, como o da igreja.
56
Ao descrever sobre as apresentações do grupo, nota-se que os ambientes para
apresentação não se atém apenas aos limites da comunidade, entretanto, percebe-se que as
apresentações não ocorrem, apenas, em espaços religiosos, e não se reservam a apresentações
em épocas natalinas, se estendendo por todo o ano, dado esse descrito no estudo.
Compreendo ao estudar o grupo e com auxílio do estudo bibliográfico, que a criação
do Pastoril “Recordar é Viver” foi intencional. Entretanto, para a geração do grupo, os saberes
locais dos mais experientes foram essenciais, pois como descrito, algumas pessoas já tinham o
conhecimento sobre o folguedo pastoril há muito tempo, e, embora sendo citado por uma das
coordenadoras que não houve uma pesquisa, ela existiu, mesmo que não tenha ocorrido nos
moldes acadêmicos. Tais saberes se articularam de modo que passaram a ser parte de um
grupo que acentuou o entendimento de que eventos da cultura popular nascem da junção de
pessoas da comunidade, de conhecimentos que nem todos têm e que passam a ser valorizados.
As pessoas mais idosas que detêm esses conhecimentos ganham prestigio ao transmiti-los aos
mais jovens, os quais são impulsionados a participar do grupo através das chances de obter
prestigio que a própria hierarquia de valores atribuída aos membros oferece.
Como proposto no estudo, quando analisei o processo de formação do grupo,
descrevendo isso por todo o capítulo três, estando expressa tanto minha interpretação das falas
dos entrevistados, assim como na descrição fidedigna das respostas dos participantes mais
velhos do grupo, principalmente, ressaltando o seu conhecimento do folguedo desde a
infância, pois não foi apenas a vontade de um ou dois idealizadores que fez com que o grupo
surgisse, mas, principalmente, o conhecimento das pessoas que se interessaram em participar,
compartilhando, acrescentando e trocando lembranças sobre o pastoril. Pois na fala de alguns
entrevistados, nota-se que já havia conhecimento sobre o pastoril, descrevendo até que já era
de costume da sua família participar de grupo de pastoril, pois o seu pai já dançava, este,
assim como outros participantes já trazia essa tradição em participar do folguedo pastoril
desde criança.
Embora a descrição do surgimento do grupo traga indícios de que apareceu como meio
de realização de sonho pessoal e para preencher o espaço ocioso da comunidade, com as
entrevistas, o que se nota é que o pastoril “Recordar é Viver” surgiu a partir de mulheres da
comunidade que sentavam na calçada para conversar, e nesses diálogos também falavam
sobre o pastoril, compartilhando e transmitindo os seus saberes, e, no momento oportuno
começaram a buscar meios para a formação do grupo. Essa dinâmica também fez com que
tivessem um olhar para o futuro, para a preservação do folguedo pastoril, chegando até a
confeccionar os CDs com as jornadas e desse modo deixando esse registro e contribuindo
57
para que, possivelmente, as jornadas não sejam esquecidas por outras gerações, assim como o
próprio folguedo.
Desse modo os saberes articulados fizeram com que o grupo surgisse, acentuando o
entendimento de que eventos da “cultura popular” nascem da junção de pessoas da
comunidade e de conhecimentos elaborados em seu contexto específico.
Nota-se então que com a junção de saberes e vontades da comunidade e
coordenadoras, o grupo passou a se constituiu como um grupo cultural deixando de ser apenas
uma forma de lazer, estendendo seus limites para fora do bairro, e, apesar das dificuldades
encontradas, buscaram meios para que o grupo de pastoril não acabasse.
Há de se ressaltar que pela natureza da pesquisa que, como explicitei foi exploratória,
não pude aprofundar vários aspectos que mereceriam uma atenção maior como, por exemplo,
os aspectos mais vinculados às performances das apresentações, aos aspectos religiosos
envolvidos, a específica sociabilidade do contexto, entre outros.
Este estudo trata-se de minha contribuição aos que se dedicam a explorar o universo
da cultura popular, e, pelo seu dinamismo, futuramente poderei me dedicar ao estudo do tema.
58
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