Sociabilidade e cotidiano na feira livre: alguns apontamentos sobre o sábado em Murici/AL
Discente: Williams Machado da Silva; Orientador: Gilson José Rodrigues Júnior.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS - UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS - ICS
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
WILLIAMS MACHADO DA SILVA
SOCIABILIDADE E COTIDIANO NA FEIRA LIVRE: ALGUNS APONTAMENTOS
SOBRE O SÁBADO EM MURICI/AL
Maceió
2015
WILLIAMS MACHADO DA SILVA
SOCIABILIDADE E COTIDIANO NA FEIRA LIVRE: ALGUNS APONTAMENTOS
SOBRE O SÁBADO EM MURICI/AL
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado ao Instituto de Ciências
Sociais da Universidade Federal de
Alagoas como requisito parcial para
a obtenção do grau de Licenciatura
em Ciências Sociais.
Orientador: Prof. Ms. Gilson José
Rodrigues Junior.
Maceió
2015
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecário Responsável: Valter dos Santos Andrade
S586s
Silva, Williams Machado da.
Sociabilidade e cotidiano na feira livre: alguns apontamentos sobre o
sábado em Murici/AL / Williams Machado da Silva. – Maceió, 2015.
68f. : il.
Orientador: Gilson José Rodrigues Junior.
Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso em Ciências Sociais) –
Universidade Federal de Alagoas. Instituto de Ciências Sociais. Maceió,
2015.
Bibliografia: f. 66-68.
1. Feira livre – Murici, AL. 2. Feira livre – Aspectos sociais. 3. Espaço
urbano. 4. Sociologia urbana. 5. Antropologia urbana. I. Título.
CDU: 316.334.56
WILLIAMS MACHADO DA SILVA
SOCIABILIDADE E COTIDIANO NA FEIRA LIVRE: ALGUNS APONTAMENTOS
SOBRE O SÁBADO EM MURICI/AL
Monografia
submetida
ao
corpo
docente do Instituto de Ciências
Sociais da Universidade Federal de
Alagoas como exigência parcial para
obtenção de título de Licenciado em
Ciências Sociais e aprovada em ___
de ___ de _____.
BANCA EXAMINADORA
_____________________________________
Prof. Ms. Gilson José Rodrigues Junior (Orientador)
_____________________________________
Profª. Drª. Fernanda Rechenberg
_____________________________________
Prof. Dr. João Batista de Menezes Bittencourt
À minha mãe e ao meu pai, fontes
de sabedoria, perseverança e afeto.
À tia Josi, guerreira convicta e
exemplar.
AGRADECIMENTOS
De forma indispensável, inicialmente, não posso deixar de agradecer à
Claudionor Gomes, Wanderson Gomes e Willander Nascimento, companheiros de
percurso durante a graduação e amigos para toda a vida. Sem suas importantes
contribuições, este trabalho não teria por onde se iniciar. À Lívia Barbosa, pelos
substanciais aconselhamentos durante o processo final de construção deste
material.
Sou grato à meu orientador, Gilson José Rodrigues Junior, pelo inestimável
aporte acadêmico e pessoal e, sobretudo, pela paciência durante todo o tempo de
elaboração da pesquisa, desde a seleção do material bibliográfico de apoio, até às
investidas à campo. Sem isso, sem a atenção dada por este profissional, este
trabalho seria inviável.
Agradeço ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de
Alagoas, ao corpo docente que integra este departamento e que foi essencial em
minha construção intelectual durante o período da graduação. De igual forma, sou
agradecido aos membros da banca examinadora, Profª Fernanda Rechenberg e
Profº João Bittencourt, pela disponibilidade e atenção fornecida ao trabalho.
Por fim, agradeço imensamente aos atores que compõem a feira livre de
Murici/AL e que, de alguma maneira, foram responsáveis — numa união de respeito
e bom grado — pelo fornecimento de informações preciosas quanto ao
funcionamento desta manifestação urbana. À Isis Oliveira, feirante em Murici/AL,
colega de infância e que acabara por se tornar uma espécie de informante durante o
exercício de campo, me indicando sujeitos com grandes e ricas histórias de vidas e
pessoas que irei levar comigo para sempre. Aos componentes da Secretaria de
Indústria, Comércio e Turismo da Prefeitura Municipal de Murici que, ao fornecer
dados precisos a respeito dos processos de construção do espaço da feira local, me
possibilitaram imergir ainda mais naquele universo.
"O caminhar de uma análise inscreve seus
passos, regulares ou ziguezagueantes, em
cima de um terreno habitado há muito
tempo. Somente algumas dessas presenças
me são conhecidas. Muitas, sem dúvida
mais determinantes, continuam implícitas —
postulados ou dados estratificados nesta
paisagem que é memória e palimpsesto".
(Michel de Certeau)
RESUMO
O presente trabalho busca desenvolver uma análise a respeito das manifestações
no formato de códigos de sociabilidade na feira livre da cidade de Murici, município
pertencente à Zona da Mata do Estado de Alagoas. Neste percurso, se procura
igualmente compreender o evento enquanto um fenômeno que prioriza — no
caminhar espontâneo destas sociabilidades — expressões de proximidade, em
contraste com pontos de comércio fixos e baseados em lógicas de funcionamento
impessoais. Se destaca também a construção histórica dos atores e da própria feira
livre, bem como as estratégias e os usos cotidianos que se estabelecem neste lugar
construído. De igual maneira, tomam relevo discussões em torno do espaço urbano
em Murici, os tipos de comunicação existentes ali e suas formas de regulações.
Deste modo, se constrói um diálogo que engloba, igualmente, as relações de
consumidores e feirantes consigo mesmos e com a urbanidade, interações seguidas
de perto por instituições oficiais, como a Prefeitura Municipal de Murici, aspecto que,
em alguma medida, também ganha importância no trabalho. Para tentar apreender
esta realidade possível, se utilizou o recurso da etnografia, sendo embasada pelos
métodos de entrevistas semi-estruturadas e pela observação participante,
substanciais para acessar visões sobre evento muriciense.
Palavras-chave: Feira livre. Espaço urbano. Comunicação. Proximidade. Murici.
ABSTRACT
This study aims to develop an analysis about the demonstrations in sociabilities
codes formed on the open market of the city of Murici / AL, Brazil. This research also
seeks to understand the event as a phenomenon that prioritizes the proximity
expressions, in contrast to another fixed points of trade in Murici, characterized by
impersonal forms of sociability. It also highlights the historical constructions of the
actors and the free market, as well how the strategies and everyday uses that are
established. Also gains importance discussions about the urban space in Murici, also
about the types of comunnication existing there and its regulation forms.Thus, it
builds a dialogue that encompasses the relationships of consumers and merchants
with themselves and the urbanity, interactions followed closely by official institutions
such as the Murici‘s City Hall, an important aspect in this work. To try to grasp this
reality as possible, we used ethnography, being grounded by the methods of semistructured interviews and by participant observation, key to access the views of the
muriciense event.
Keywords: Free market. Urban space. Comunnication. Proximity. Murici.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Linhas amarelas que delimitam o espaço de cada banca de feirante em
Murici. Fonte: de autoria do pesquisador ................................................................. 26
Figura 2 – Avenida Manoel Fernandes, uma das antigas ruas que abrigavam a feira
livre de Murici até 2010. Fonte: de autoria do pesquisador ..................................... 30
Figura 3 – Feira livre de Murici-AL, Rua João Ferreira Lopes. Fonte: de autoria do
pesquisador .............................................................................................................. 41
Figura 4 – Rua João Ferreira Lopes em dia da semana em que não há feira livre em
Murici. Fonte: de autoria do pesquisador ................................................................. 42
Figura 5 – Mulheres comprando na feira livre de Murici. Fonte: de autoria do
pesquisador .............................................................................................................. 45
Figura 6 – Produtos pirateados na feira livre de Murici. Fonte: de autoria do
pesquisador .............................................................................................................. 48
Figura 7 – Comprovante de pagamento de imposto cedido por um dos feirantes
................................................................................................................................... 54
Figura 8 – Informações obtidas a partir de entrevista com Jamerson Pereira, agente
de desenvolvimento locado na Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo de
Murici. Fonte: de autoria do pesquisador ................................................................. 61
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 10
2 FEIRA LIVRE, ESPAÇO URBANO E COMUNICAÇÃO ...................................... 13
2.1 Dinâmicas sócio históricas e definições de feira livre ................................. 13
2.2 Lógicas do espaço urbano, a comunicação na cidade e na feira livre em
Murici ....................................................................................................................... 19
2.3 A experiência com o campo, a experiência com a cidade de Murici e o Ser
Afetado .................................................................................................................... 28
3 SOCIABILIDADE E COTIDIANO: A FEIRA LIVRE EM MURICI ......................... 34
3. 1 Aspectos históricos da feira livre de Murici ................................................. 35
3. 2 Feirantes e consumidores e a relação com o novo espaço ........................ 39
3.3 Mulheres que compram, dominação masculina e resistência criativa ....... 44
3.4 Produtos pirateados e o Desvio ...................................................................... 46
3.5 O campo e o "andar" pela feira livre ............................................................... 48
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 64
REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 66
10
1 INTRODUÇÃO
A feira livre ocupa um lugar singular no meio urbano. Ela pode se referir, a
partir de diversos autores que a trabalham em distintas áreas do conhecimento, a
uma ampla rede de negociações num determinado espaço, no qual circulam
milhares de pessoas diariamente. Em Alagoas, estado em constante crescimento de
consumo1, a feira aparenta ganhar um significado ainda mais fundamental. A maior
parte deste aumento do consumo em Alagoas relaciona-se aos sujeitos
pertencentes aos chamados grupos de baixa renda2, onde a feira livre — levando
em consideração seus preços — acaba se tornando principal fonte de
abastecimento, adquirindo acepção de um espaço de compra e venda diferenciado
frente aos grandes centros comerciais e redes de supermercados. Estes centros,
conhecidos por regras de funcionamento rígidas, baseadas na higiene e na ordem,
por sua vez, se caracterizam pela pouca possibilidade de negociar os preços de
seus produtos com seus consumidores, diferentemente do que ocorre na feira livre.
Assim, mesmo com o avanço deste frenético ritmo de consumo, abastecido,
sobretudo, pelo aumento do salário mínimo nos últimos anos 3, supõe-se que as
feiras livres em Alagoas ainda não souberam assimilar as mudanças típicas do
processo padronizador.
Entretanto, abrindo um breve diálogo com essas pesquisas econômicas, é
fundamental observar que o caráter ―despadronizado‖ das feiras livres permite uma
série de gradações, que recriam as relações de compra e venda, de organização
empregalista, de composição do espaço e da própria socialização entre os atores
1
Segundo Cícero Péricles de Carvalho, "em todos estes anos, tal como o Nordeste, Alagoas obteve
taxas positivas de crescimento na sua economia. Esse fato permitiu que, por um lado, o número de
trabalhadores formais alcançasse 470 mil assalariados com carteira assinada (mais 155 mil
contratados que em 2003); por outro, neste mesmo intervalo de tempo, a renda média dos alagoanos
empregados cresceu mais de 100%. Esse cenário de crescimento com distribuição de renda tem
impulsionado o consumo regional" (CARVALHO, 2012, p. 4).
2
De acordo com pareceres de pesquisas econômicas realizadas pela DESENVOLVE (Agência de
Fomento de Alagoas) em parceria com a Universidade Federal de Alagoas — como o Perfil
Socioeconômico das Feiras Livres de Maceió (2012) — a feira livre, enquanto mecanismo econômico
formado por microempreendedores individuais, atende substancialmente ao público considerado de
"baixa renda" (segmentos C e D), responsável por 70% dos domicílios e 50% do consumo total. Até
2020, o consumo do alagoano deve dobrar, seguindo o ritmo de taxas positivas do setor comercial e
de serviços que, desde 2004, vem numa crescente.
3
Segundo Carvalho (2012), um dos motivos que podem explicar o aumento do consumo em Alagoas
está relacionado à remuneração de cerca de um milhão de alagoanos que possuem contrato formal
de trabalho ou recebem previdência, bem como aqueles que estão situados na economia informal e
os 420 mil assistidos pelo programa Bolsa Família do Governo Federal.
11
inseridos ali. Apesar de não constituir, em muitos casos, um universo formal de
empregos e cargos, a feira livre possibilita mecanismos e relações que criam
funções (ELIAS, 1994) específicas no bojo da divisão do trabalho. Como abordarei
nas seções adiante, são funções muito mais desempenhadas de acordo com uma
lógica familiar, com um modelo de subsistência (ao passo que existem produtores
que vendem seu próprio produto, sem necessitar de intermediários, como no caso
dos supermercados), e que não seguem uma direção pré-determinada e impessoal
(SIMMEL, 2013) de negócios. Assim, a desordem passa a adquirir definição de
ordem mediante os complexos signos que se encaixam à dinâmica do ambiente.
Neste trabalho, tendo como foco o campo da feira livre da cidade de Murici,
interior de Alagoas — que atualmente é realizada aos sábados e que comporta
aproximadamente 650 feirantes fixos 4 — busco trabalhar alguns dos aspectos
citados anteriormente, tal como o espaço e sua organização, mas, principalmente, a
relação dos atores sociais com o ambiente, com as instituições e com as outras
pessoas. Tento explorar, igualmente, as histórias individuais que desembocam em
situações cotidianas, bem como as condições comunicativas que são usualmente
encontradas em sujeitos, em transações, em visualizações sobre o evento. Para
tanto, como maneira de obter acesso às informações e discussão das mesmas, foi
utilizado o método de observação participante, a abordagem etnográfica como
metodologia principal e a entrevista semiestruturada com alguns sujeitos —
comerciantes e consumidores — procurando destacar as táticas de sociabilidade
existentes ali.
A questão que busca ser respondida no presente trabalho é: quais as
relações existentes entre sujeitos e espaço construído na feira livre de Murici?
Dentro desta problemática, outras questões constitutivas serão discutidas: o que,
dentro de um ambiente considerado fundamentalmente comercial, se sobressai em
termos de práticas de sociabilidade? Como as pessoas enxergam a feira livre e qual
importância que elas a conferem?
Este trabalho, composto por duas seções principais, pretende observar como
podem ser identificadas as expressões relacionadas à feira livre orientado pelo
seguinte esquema: na segunda seção, se discute as definições de feira livre, as
atribuições relacionadas à cidade, bem como suas formas de comunicação, entre
4
Dados obtidos a partir de entrevista com um agente municipal de desenvolvimento, ligado à
Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo da Prefeitura Municipal de Murici, no ano de 2014.
12
espaço e as pessoas, estabelecendo sempre uma ligação com Murici e sua feira
livre. Nesta mesma unidade, tento expor brevemente minha relação com a cidade e
com o próprio evento. Na terceira seção, entro devidamente no campo de estudo
aqui pretendido, no sentido de demonstrar a feira livre de Murici não somente
enquanto ambiente de negócios, mas que igualmente se dedica ao sentido das
relações microssociais.
A feira livre como foco de investigação científica, apesar de, acredita-se,
possuir importante papel na formação de agrupados e no desenvolvimento de
centros urbanos, ainda não constitui um movimento destacável em comparação com
os grandes temas das Ciências Sociais. Procurarei, assim, oferecer uma discussão
sobre a feira muriciense, buscando contribuir para o entendimento científico desta
manifestação.
13
2 FEIRA LIVRE, ESPAÇO URBANO E COMUNICAÇÃO
2.1 Dinâmicas sócio históricas e definições de feira livre
A feira livre compõe um espaço no meio urbano caracterizado pela troca
comercial e valorativa. É um ambiente de sons, de movimentos, de cores, de
diversidade e de comunicação — visual, interpelativa, vocal, simbólica — que
explora identificações e que está no limite da proximidade, dos laços afetivamente
construídos, da reserva, da intimidade, da individualidade (SIMMEL, 1973). A
ambiguidade existente na relação entre os universos íntimo e estranho,
evidenciados na feira, acabam por se constituir enquanto seus principais fatores
formadores, que a caracterizam como tal. A variedade de sujeitos históricos
frequentadores deste ambiente permite, inevitavelmente, um trabalho que discuta os
encontros pertinentes a ele. Portanto, não mais fincado na ideia da exclusividade
comercial, como cansam de realizar os trabalhos técnicos sobre espaço ou as
pesquisas econômicas, busca-se aqui conduzir pela forma de analisar criticamente o
evento supostamente econômico a partir de sua condição em termos de interações
humanas, ou seja, as relações sociais que ajudam a estruturar o mercado da feira
livre. Dessa forma, de acordo com Edilma Pinto Coutinho et al (2006), entende-se
que a feira livre se configura como uma forma antiga de comércio, muitas vezes
observada como uma maneira ultrapassada de negociar, tendo em vista o
desenvolvimento das grandes redes de supermercados nos últimos 50 anos, como
aponta Leny Sato (2007) em seus trabalhos.
No interior de sua formação, a feira livre, ademais, adquire a acepção de
ambiente de encontros, tomando aqui os termos de Giovanna Araújo (2012). De
acordo com esta autora, a feira é também um lugar, além de comercial, adequado à
sociabilidade e ao parentesco, organizando uma rede de papéis sociais e
transmitindo, através do aprendizado da manufatura tradicional — como o
tratamento de carnes, produção de frutos e legumes, e produtos artesanais,
geralmente nas zonas rurais dos municípios — seus ensinamentos, numa espécie
de cultura do trabalho (THOMPSON, 1998) transmitida geracionalmente.
É difícil ainda, no entanto, obter informações mais ou menos definidas a
respeito de como tal força comercial eclodiu e se dinamizou mediante o percurso
histórico. Todavia, através da bibliografia acessada, a história da feira livre,
14
comumente, confunde-se com a própria história das populações. É assim
importante, neste trabalho, apresentar linhas mais gerais sobre a historicidade da
feira livre na tentativa de estabelecer, em certa medida, conexões com o evento
realizado em Murici-AL.
Na Europa, a interligação mais delimitada entre comércio e vida social se
apresenta inicialmente na Idade Média sob o modelo de festividades religiosas, que
tiveram função essencial na modulação das cidades. Como aponta Sato (2007), as
maiores feiras da Idade Média eram sediadas em dias de comemoração eclesial,
argumentando também que o ambiente destas feiras se opunha à disciplina do
trabalho, sendo caracterizada pelo ócio e por sistemas de lazer, aspectos fundantes
destas solenidades. De acordo com a autora, no período medieval, os comerciantes
europeus — que não conseguiam negociar seus produtos nos mercados tradicionais
das cidades —, cambiavam o excedente de produção nas ruas, proporcionando uma
então nova forma de comércio baseada na prática voluntária de troca, que acabara
por ser consolidada enquanto padrão comercial com o passar dos anos. Acredita-se
— com base na discussão dos diversos autores que fundamentam o presente
trabalho — que esta excedência de produção tenha sido o maior incentivo para a
criação destes eventos de rua, e que o ―excesso de uns‖ e a ―necessidade de
outros‖ permitiram a possibilidade de intercambio, de forma inicial pela relação entre
pares de grupos específicos participantes do comércio local — ou nos dizeres de
Georg Simmel (2013), no formato de comunidades de vida5 —, sem ainda carecer
de um lugar especial para efetivar estas transações.
As possibilidades de explicações próprias a respeito de uma origem da feira
livre estão relacionadas ao medievo pelo argumento de que ali começaram a surgir
expressões que caracterizariam um comércio definido pelo ritual da troca,
diferentemente de estágios de desenvolvimento humanos anteriores (ELIAS, 1994),
como o Feudalismo, assinalado pelo sistema de trabalho fundamentado na ordem
servil. Isto é, havia neste contexto, exemplarmente, intenção de autoconsumo da
matéria produzida no feudo, sem propriamente determinar que seus bens de
primeira necessidade, neste caso alimentos, fossem cambiados com outros
agrupamentos.
5
Simmel (2013) define a comunidade de vida como uma corporação medieval que engloba o homem
por inteiro, levando em conta sua personalidade — em seu sentido religioso, político, social, etc. — e
não enquanto mera associação de indivíduos.
15
O desenvolvimento do comércio na Europa foi acompanhado pelas investidas
de expansão territorial dos países europeus em relação a outros diversos
continentes. Com a expansão marítima e comercial da Europa, a maneira de
comercializar anteriormente mencionada chegou às colônias através da própria
necessidade de troca nas rotas comerciais, contribuindo para a formação de
mercados locais. É neste sentido que Araújo (2012) — baseada num conjunto de
historiadores — aponta para os primeiros momentos de feiras livres, na Europa
medieval e na América colonial, como importantes centros de relações comerciais
que fortaleceram os respectivos mercados locais em seu sentido econômico. No
entanto, àquela época, a substancialidade deste evento aparentemente material
movimentava também laços imateriais concebidos a partir de lógicas de
sociabilidade, entrelaçando códigos culturais e modificando hábitos, sendo endereço
de uma variável quantidade distintiva de atores. A autora descreve da seguinte
maneira:
Historicamente, as feiras adquiriram uma importância muito grande, que
ultrapassa seu papel comercial e as transforma, em muitas sociedades,
num entreposto de trocas culturais e de aprendizado, onde pessoas de
várias localidades se congregam para estabelecer laços de sociabilidade.
No medievo, as feiras da Europa tinham como objetivo a venda de produtos
para abastecer e alimentar a população local. Porém, naquela altura as
feiras já se constituíam como espaços de sociabilidade, como lugares de
encontros e de reuniões de mercadores de várias regiões (ARAÚJO, 2012,
p. 50-51).
Tal mosaico de sociabilidade, segundo Araújo (2012), promoveu uma série de
representações que se modificaram com o passar dos séculos e adquiriram novas
estratégias e limites de apropriação do espaço citadino, criando rituais e
comportamentos específicos. A feira, para muitos frequentadores, colocando aqui
como demonstração, surge também como área de lazer 6 — termo já bastante
discutido por José Guilherme Cantor Magnani (2003). Este espaço urbano, mesmo
6
Magnani (2003) define as áreas de lazer enquanto espaços citadinos específicos construídos
socialmente para que os sujeitos ou grupos possam usufruir de seus tempos livres. Este último
aspecto, por sua vez, conforme o autor, além de se configurar como fator de manutenção e
reprodução da força de trabalho, se torna essencial na medida em que se pode compreender como
determinados grupos urbanos, como no exemplo de comunidades periféricas que não possuem
acesso aos modelos "desenvolvidos" da indústria do lazer, definem seus esquemas de
preenchimento do tempo livre. Neste contexto, os modos de vida e a tradição ganham importância,
gerando bailes, festas de comunidade, circos, solenidades de casamento, solenidades religiosas, etc.
Assim, a dinâmica do lazer, para Magnani, está relacionada ao revigoramento de regras de
reconhecimento e lealdade, aspectos substanciais para a formação de redes de sociabilidade.
16
diante de suas características de afastamento e considerado um ambiente do
estranho (CAIAFA, 2002), está disposto sobre uma gama de intenções que o afasta
de seu significado original. Janice Caiafa utiliza como norte para seus trabalhos 7,
dentro do campo da antropologia urbana, a noção de estranhamento pertinente à
própria ―natureza‖ da cidade. Nesta direção, as pessoas não conhecem a si
mesmas, não se situam no mesmo conjunto de valores, estão presentes no campo
da imprevisibilidade e a comunicação entre os agentes é sempre forçada por alguma
necessidade específica. Utilizando enquanto linha de análise fundamental os
códigos de interação em espaços onde os níveis de tecnologia predominam —
linhas de metrô no Rio Janeiro e a frota de ônibus em São Paulo — Caiafa (2002)
tenta localizar como se definem as relações da fala e os signos comunicativos frente
as descontinuidades da metrópole.
Dito isto, considera-se aqui que a feira livre, enquanto representante direta de
um suposto discurso da proximidade, é um dos espaços evidentes de manifestação
de certas redes de sociabilidades no mundo citadino. No caso de cidades do interior
— em um tipo de estrutura que se diferencia da metrópole estudada por Caiafa — as
pessoas se locomovem toda semana, advindas de outros centros urbanos e das
zonas rurais dos municípios para participarem das feiras livres, no papel de feirante
ou de consumidor. Para uns, refletindo uma rede histórica de construção individual,
acaba por se desenvolver como um meio de subsistência, de sustento, de
complementação da renda familiar, enquanto, para outros, passa a significar um
―ponto de encontro‖. Em múltiplas ocasiões, para os diversos grupos, ambas as
intenções se tornam válidas8. Esta pluralidade de sujeitos permite uma modificação
curta, mas importante, do cenário urbano das cidades, que altera cotidianos e
estabelece uma nova ramificação de valores que se identificam com o espaço, com
as pessoas e a política que constroem o evento.
De acordo com Francisco Fransualdo de Azevedo e Thiago Augusto Nogueira
de Queiroz (2013), não é possível precisar uma data que esteja associada à
realização da primeira feira livre no Brasil. Existem, entretanto, de acordo com esses
autores, registros de regimentos do período colonial de D. João III, em 1548, e de D.
Afonso IV, em 1677, que tentavam organizar reuniões no formato de feira para que
os portugueses pudessem trocar produtos com os nativos. Ademais, um registro
7
8
2002, 2003, 2008 e 2011.
Baseado nas experiências de pesquisa no campo em Murici/AL, em 2014 e 2015.
17
oficial datado de 1732, numa região que hoje pertence ao estado da Bahia, dá conta
de uma primeira feira organizada nestas terras. Outras feiras com ocorrência nos
séculos XVIII e XIX em diversas localizações do Nordeste do país, incluindo a região
que hoje é o Estado de Alagoas, emergem num território onde a predominância de
produtos comercializados é dependente da estrutura social e econômica então
crescente. A atividade pecuarista e o cultivo de cana-de-açúcar ganham vasto
espaço neste cenário inicial da feira livre no Brasil e se estabilizam no século
seguinte: em Murici – destaque espacial desta pesquisa - representadas pelos
grandes proprietários de terras e pelos associados da Usina São Simeão Açúcar e
Álcool LTDA, esta última tendo crucial papel no crescimento demográfico da feira,
visto que os trabalhadores empregados por esta empresa adquiriam produtos
vendidos no evento de domingo9. Alguns entrevistados na pesquisa em Murici,
identificados como feirantes mais antigos, chegam a se queixar do fechamento da
usina por motivo de prejuízos financeiros nos anos posteriores a 1996, data de sua
derradeira moagem, um fato histórico que remonta a realidade do produtor rural
daquela cidade e de outros municípios próximos.
Segundo Minnaert (2008), a definição comum do termo ―feira livre‖ refere-se à
facilidade de encontrar produtos num mesmo espaço – sobretudo utensílios pouco
encontrados em centros de venda formalizados, como frutas, legumes, materiais de
alumínio, artigos de palha; artigos da culinária regional, como bolo de milho, pé de
moleque, rapadura, etc. De acordo com a autora, a palavra "feira" é originária do
latim feria, que significa ―dia de festa‖. Em português, há uma transformação no
significado do termo, aludindo a ―lugar público que reúne pessoas com intenção
mercantil‖. No entanto, Minnaert adverte para discussões teóricas, sobretudo no
campo da Antropologia, que tentam não perceber a feira livre enquanto este cenário
exclusivamente comercial. No Brasil, em específico, a feira livre se apresentou não
unicamente enquanto um espaço para se negociar. O evento adquire, conforme a
autora, formas que refletem o meio social e os atores envolvidos, seus gostos, as
relações de poder intrínsecas, seus processos rituais e comportamentos cotidianos.
Nesse mesmo caminho, Coutinho et al (2006) destaca a ideia de não
limitação da feira livre como espaço essencialmente de intercâmbio econômico: é
um ambiente também de encontros e de lazer, onde a prática de compra e venda,
9
Até o final do ano de 2013, a feira livre de Murici era realizada aos domingos, antes dia tradicional
de funcionamento desde o início do século XX, de acordo com Xerri (2001).
18
muitas vezes, não só se estabelece objetivamente – no modelo de impessoalidade
contido no universo monetário da cidade proposto por Simmel – mas é também
traçada por laços de confiabilidade e de aproximação, que exploram o ambiente da
personalidade (SIMMEL, 2013). É percebido que na feira as pessoas se divertem,
trocam informações, se articulam politicamente e, muitas delas, apenas se deslocam
para aquele lugar com essa intenção, e não para exercer a atividade comercial. Este
aspecto, de acordo com Coutinho et al (Idem), ganha ainda mais evidência em
cidades do interior, sobretudo no Nordeste, onde a feira livre compõe fundamental
elemento da força produtiva urbana, promovendo o desenvolvimento sociocultural,
facilitando o escoamento da produção familiar, explorando a economia local a partir
de preços reduzidos e impulsionando hábitos culturais ao valorizar atividades
artesanais de determinada região.
Por fim, conforme Sato (2007), a feira livre organiza-se a partir da tentativa de
relações sociais e suas primordiais características são: mesclar o mundo do trabalho
com o universo de representações familiares e de intimidade; ativar mecanismos
que agem em concordância com categorias de cooperação e competição, onde a
lógica do "quem vende mais" ou "quem compra o mais bonito" é sempre amenizada
pelas dinâmicas da afetividade.
Este panorama não muito se diferencia em Murici, município da Zona da Mata
alagoana, cortado pelo Rio Mundaú, historicamente dominado pela economia
açucareira e que tem na feira livre da cidade o ponto maior de abastecimento
alimentício. Murici é destaque quando se pensa a agricultura familiar 10 e região
frutífera quando se trata da pecuária bovina. A feira livre, neste contexto, possui um
papel importante como meio pelo qual se distribuiu e ainda se distribui a carga
produtiva do município.
Dessa forma, o tema da presente pesquisa é a feira livre que ocorre
semanalmente em Murici, seu caráter econômico que está envolto pela correlação
com a dinâmica da produção formalizada — que aparece representada pelos
negócios em formato de mercadinhos, armarinhos, quitandas, etc. Todavia, pretendo
trabalhar, especialmente, a humanização do trabalho (CAIAFA, 2011) que define a
feira não somente enquanto âmbito comercial, mas também enquanto lugar que
abre caminho para a proximidade. O modelo de organização proposto pela
10
Informações obtidas a partir da Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo de Murici.
19
Prefeitura Municipal através de agentes fiscalizadores que a representam e a
manipulação do espaço a partir da localização dos feirantes, bem como seus
códigos de regulação, também ganham relevo. De igual forma, se tornando
importante esclarecer as transformações ocorridas pela relocação da feira nos
últimos anos, evidencia-se brevemente a modificação do espaço que foi aplicada a
partir de 2010 devido às inundações que atingiram o Estado de Alagoas e a cidade
de Murici.
2.2 Lógicas do espaço urbano, a comunicação na cidade e na feira livre em Murici
Neste tópico serão abordadas algumas considerações sobre a cidade e suas
formas de comunicações dos sujeitos entre si e com o espaço construído.
Igualmente, se dará atenção aos modos de instauração de uma típica
impessoalidade contida no meio urbano e também de seus espaços onde a
pessoalidade ganha destaque. São fatores relevantes quando nos debruçamos
sobre o espaço de singularidade de interação que é a feira livre. Se destacarão
pesquisas e reflexões que têm na cidade um campo de afastamento e de parcial
aproximação, sugerindo um forte dualismo em seus limites. Tal discussão será
fundamental para que toquemos no assunto relacionado à feira livre da cidade de
Murici mais adiante.
A cidade, enquanto organização da vida social, é o âmbito do afastamento, do
imprevisto, do descontrole, da impessoalidade, em detrimento à lógica atribuída aos
territórios rurais e às cidades de menor porte. Essa diferenciação está inserida nos
indivíduos, que possuem uma estrutura de personalidade (ELIAS, 1994) construída
histórica e institucionalmente e também está baseada nos jogos dos afetos. A
impessoalidade na cidade é descrita por Simmel (2013) como tendo bases fortes
sustentadas pela economia monetária. Para o autor, no contexto da modernidade, o
dinheiro 11 adquire uma dupla característica, positiva e negativa. É, num primeiro
11
O dinheiro, que é compreendido como valor de troca universal, ao adentrar nas relações entre as
pessoas, de acordo com Simmel (2013), destituiu — ou tirou de foco — as relações pessoais
promovidas pela vida em comunidade. A liberdade individual possibilitada pelo dinheiro tornou a vida
humana mais veloz, mais dinâmica. No entanto, essa mesma velocidade passou a ser encontrada
também nos contatos humanos, na medida que transformou os encontros mais superficiais, mais
breves e objetivos. E é aqui que se fundamenta o surgimento da economia monetária, da cultura
moderna: é, ao mesmo tempo, a preservação da liberdade individual e também da impessoalidade
nas relações da vida, com outros sujeitos e com as coisas.
20
momento, o fator libertador humano, que desprende o indivíduo da dependência de
outros indivíduos específicos, por ser concebido enquanto um elemento de troca
universal, compreendido em todas as partes, o que possibilita a independência nas
movimentações econômicas.
Por outro lado, de acordo com Simmel (2013), essa mesma característica
universal, a independência de relações comerciais específicas, transforma o contato
humano em um contato comercial, que é a base da impessoalidade na cidade. Esse
último aspecto determina a uniformidade das relações. O dinheiro, como sendo esse
meio de troca universal, desconsidera as especificidades e constrói um sistema de
nivelação. Assim, o autor define o dinheiro enquanto a força maior para tragédia da
cultura moderna, onde a espécie, a cédula, submete o valor qualitativo do homem à
dinâmica estrutural quantitativa:
(...) a economia monetária possibilitou inúmeras associações que
demandavam de seus membros apenas colaborações em dinheiro, ou
estavam direcionadas para um mero interesse monetário. Desse modo, por
um lado, possibilita-se a objetividade pura nas atividades da associação, o
seu caráter puramente técnico, o seu desembaraço de tendências pessoais;
por outro lado, liberta o sujeito de laços restritivos, dado que agora ele está
ligado ao todo não mais como pessoa por inteiro, mas principalmente por
meio de doação e recebimento de dinheiro (SIMMEL, 2013, p. 332)
Na mesma direção, Janice Caiafa (2002) argumenta que a cidade é o espaço
construído do estranho, do desconhecido, do impessoal. Para a autora, quando o
indivíduo se aventura em meio ao ambiente urbano está sujeito a experimentar a
descontinuidade, a diferença, ao passo que dificilmente torna-se localizável para o
outro, é visto como "mais um" na urbanidade, diferente do que ocorre no universo
familiar da residência ao qual está habituado. Este mundo do não sabido, do
desconhecido, do "nivelado" é o que caracteriza as cidades e possui seus próprios
códigos comunicativos, mais fechados em si mesmos, protegendo subjetividades
individuais. Nas cidades, se constrói um ritmo nas exterioridades que acaba por
afetar, para bem ou para mal, a subjetividade do sujeito. Os indivíduos se afetam
com os transeuntes, com o que está de passagem e com o próprio espaço
construído.
As condições para o cenário acima descrito se apresentam parcialmente
diferentes, porém, quando tentamos abordar a feira livre de Murici neste ambiente
21
de impessoalidade, como se este evento se inscrevesse num universo alternativo
para uma visão estática do afastamento no meio urbano. Assim, observar a feira
neste sentido é enxergar um leque variável de possibilidades que envolvem as
dinâmicas da sociabilidade. O feirante, exemplarmente, muitas vezes não aborda
questões primordialmente relacionadas ao seu ofício profissional (característica
muito presente nos grandes centros) e a detalhes de sua produção, impessoais. O
vendedor, intencionando interagir com o cliente — adentrando em sua intimidade e
se localizando nos hábitos de seu interlocutor —, busca sempre proporcionar
situações que promovam os processos de fidelidade12. A identificação construída
com o cliente a fim de obter o lucro — não de maneira intencional, mas como uma
própria característica da pessoalidade existente na feira — ocorre com alguma
frequência, elaborando discursos e relações sociais. Logo, se constrói uma rede
educativa informal, construída a partir das diversas formas de representações que a
vida estranha (CAIAFA, 2002), com os seus imperativos monetários — tão
frequentemente destacados por Simmel (2013) —, ainda não conseguiu dissolver
por completo. Assim, a feira livre se inscreve enquanto um tipo de comunidade, em
que os sujeitos interagem face a face e edificam, cuidadosamente, códigos de
comportamento em relação a eles mesmos e em relação ao lugar praticado
(CERTEAU, 2012) da cidade.
O metrô13 do Rio de Janeiro, servindo aqui para ilustrar a urbanidade e suas
dinâmicas, intercala-se com a tecnologia. De acordo com Caiafa (2011), o
passageiro entra em contato constantemente com equipamentos técnicos, em todo o
lugar. É uma inter-relação do humano com a máquina, promovendo uma
sociabilidade específica e reconfigurando as relações das pessoas com o metrô. As
relações observadas na feira livre de Murici, por outro lado, seguem uma lógica de
funcionamento distinta. A quase inexistência de tecnologia naquele espaço força as
pessoas ao diálogo, à conversação, ao toque, aspectos que constroem a própria
feira e seu histórico de relacionamentos. Logo, estes comportamentos discursivos —
pois, tratam-se de argumentos que detém de um sentido — se transformam numa
inquietante busca pela interação. Caiafa (2011) afirma que no Brasil existe uma
busca incessante pela "humanização" do trabalho — e talvez aqui a feira livre sirva
12
Condições observadas em diversas situações no campo de pesquisa em Murici.
Objeto de estudo de Caiafa (2011) na tentativa de descrever os tipos singulares de sociabilidades
desenvolvidas naquele espaço e pesquisa fundamental para compreender os processos de relações
citadinas.
13
22
como um exemplo destacável. Em outros países, na Europa e na América do Norte,
as máquinas de autoatendimento são vistas mais frequentemente. As cabines de
fotografia, citadas pela pesquisadora, destituem a ação humana, enquanto por aqui
há todo um processo includente da participação de pessoas.
Esta participação "humanizada" no meio urbano, neste sentido, inclui
comumente uma dinâmica de conversação e pode instaurar, desta forma, trocas
igualitárias ou hierarquizadas no processo de comunicação, como aponta Caiafa
(2003). Entre feirantes e consumidores da feira livre de Murici esta condição se torna
clara na medida em que há uma relação de sujeição do feirante ao produto por ele
comercializado. Neste caso, o produto precisa estar apresentável, bonito, e cabe ao
consumidor, ao mesmo tempo, definir se o adquire e legitima a condição de bom
vendedor do feirante. Há, neste contexto, uma hierarquização mais clara do que
noutra situação típica da cidade, como nas interações concebidas no ônibus de uma
metrópole — um dos temas de estudo da autora —, em que os encontros entre
desconhecidos, possuintes de distintos mundos, são mais facilmente localizáveis e
não detém de um plano específico de comportamento, nem são tão definidos os
papéis a exercer. Afinal, "estar entre estranhos é livrar-se em algum grau de sua
identidade ou sua definição‖ e, nos contextos em que a heterogeneidade é
imponente ―há uma desinserção provisória e uma complicação maior para se definir
alguém‖ (CAIAFA, 2003, p. 175).
Na urbanidade, há também um constante jogo de estratégias pessoais de
comunicação — entre estes sujeitos que desconhecem o mundo de outrem —, que,
acima de tudo, são criadoras e criativas (CERTEAU, 2012), e que são condicionadas
pelas diversas situações encontradas nos casos urbanos. Na feira livre, por
exemplo, é sempre visível o feirante competindo com seus companheiros de ofício.
Numa situação repentina, ao avistar o cliente com intenção de compra se dirigindo a
outra banca, certo comerciante passa a atraí-lo criativamente através dos
tradicionais chamamentos em forma de gritos, ao mesmo tempo negociando os
preços previstos, muitas vezes diminuindo-os. Todavia, esta não se trata uma típica
situação de competição comercial moldada pelos tipos urbano-industriais de
comércio. Além de uma competição na qual ―vende quem tiver o melhor produto‖, a
comunicação que exprime a proximidade e a fidelidade são também abordáveis.
Isso pode ser representado através destes mesmos chamamentos: ―vem, moça, que
o preço tá bom‖ ou o mais comum ―ta fresquinho, vem prá cá que tá melhor‖; além
23
do ―tá na promoção, e ainda dou um desconto pra senhora‖. São tipos de
comunicação que, mesmo num ambiente urbano, garantem a venda e definem um
sentido, uma direção, além de proporcionar um caminho para a intimidade que
permitirá que o cliente classifique como a sua banca preferencial futuramente 14.
Entretanto, Caiafa (2003) afirma que há também riscos neste processo
comunicativo da urbanidade. Sobretudo, quando se tratam de abordagens violentas,
a comunicação tende a revelar o desconhecido, próprio do contexto citadino.
Conforme a autora, nos ônibus coletivos — seu campo de análise — isso pode ser
claramente representado pelas situações propriamente violentas, atribuídas aos
assaltos e às discussões acaloradas. Na feira livre de Murici, todavia, estas
condições violentas da vida urbana podem se relacionar aos comportamentos mais
lúdicos presentes no espaço, como a paquera e o fuxico. Por muitas vezes, algum
feirante mais ousado investe galanteios na moça bonita que passa por ali. No
entanto, isto, em diversos momentos, também pode ser rechaçado, através de uma
negação às cantadas ou simplesmente a partir de um olhar pouco amigável. Isso
revela, igualmente, pontos de reserva num espaço de maior sociabilidade, bem
como uma sujeição ao risco de recusa comunicativa.
Nem todo comportamento acaba por ser recepcionado de bom grado na feira
livre. Mesmo diante do risco, no entanto, também há sempre comunicação,
conversa, sobre coisas boas e ruins. Todavia, diferentemente de outros espaços da
cidade, não há uma dificuldade muito clara sobre os procedimentos utilizados para
―se iniciar uma conversa‖ ou ―se encerrar uma conversa‖. Tudo acaba por se tornar
mais fluído, menos esquemático. Durante a atividade campo, diversos exemplos
foram vivenciados. Um cliente chega numa banca já reclamando do preço alto dos
cereais, afirmando que procurará noutras bancas um melhor produto por um preço
adequado, ao passo que é frequentemente convencido pelo vendedor — que
geralmente diminui o preço — a ficar. Ou no caso consumidor que vai embora, sem
mesmo se despedir, apresentando uma condição de que não estaria investida ali
uma relação de fidelidade de compra.
A conversa na feira em Murici é o tempo em que se está presente ali, isto é,
durante o evento que logo terá fim e será ―desmontado‖ temporariamente. Os
encontros acabam por ser transitórios — levando em consideração o tempo de
14
Situações observadas no campo de pesquisa em Murici.
24
duração da feira —, mas não últimos, ao passo que se pode acontecer novas das
mesmas interações na semana seguinte, noutro dia de ocorrência da feira livre.
Em geral, os níveis de comunicação na feira livre, como se pôde observar em
Murici, não são restritos a duas ou três pessoas. Por estar sendo proporcionada num
lugar aberto, a conversa tende a abranger a participação de sujeitos de maneira
ilimitada. Em alguns casos presenciados no campo, diversas pessoas tomam a
frente de uma compra individual, dando os famosos ―pitacos‖, dicas que, em grande
maioria, não são dispensadas. Em várias ocasiões, os feirantes discutem a vida
íntima, as situações sexuais e contam, no entorno, com a participação de um
verdadeiro auditório (CAIAFA, 2003). Assim, a vida cotidiana é frequentemente o
foco das conversas, que estão em constante abertura para quem queira participar,
sem maiores problemas. Eu mesmo, enquanto pesquisador, já fui conduzido a um
destes tipos comunicativos na feira livre de Murici, num assunto que não chegava,
inicialmente, a ser interessante para a pesquisa em si, mas que, enquanto
participante deste auditório, estava sendo interpelado, condicionado a dar opiniões
ou criticar alguma ação. Essas conversas com estranhos — pessoas alheias à sua
rede familiar ou de conhecidos —, construída por situações mais ou menos inéditas,
segundo Caiafa (2003), está sustentada pela elaboração de mais um conjunto de
invenções, que permitem deixar cada vez mais o discurso criativo. São, portanto,
―táticas‖ (CERTEAU, 2012) proporcionadas pela experiência de outrem no campo de
relações da cidade, onde experimentamos mundos possíveis próximos da realidade
através da linguagem.
De fato, as modalidades de comunicação no meio urbano possuem amplas
dimensões. De acordo com Caiafa (2003), quando usuários de transporte público,
exemplarmente, dividem um mesmo espaço dentro do veículo, onde são estranhos
uns aos outros, também compartilham um tipo específico de comunicação e
sociabilidade, possivelmente latente, com expressões que usam o corpo,
promovendo uma experiência tipicamente urbana. Em relação ao caso da feira
muriciense, isto ocorre de uma forma menos "tímida", levando em conta o tamanho
da cidade e os graus de proximidade entre seus moradores. Os sujeitos, em certa
medida, se conhecem previamente — o que não implica dizer que não há ação da
imprevisibilidade urbana. Todavia, estabelecem entre si um tipo singular de
comunicação. Em geral, quando pensamos na ocasionalidade de encontros de
consumidores na feira livre, o assunto do cotidiano não é esquecido: as pessoas
25
costumam falar de suas vidas, despejando problemas ou situações cômodas umas
nas outras. Nestes encontros, usualmente, não se fala sobre as coisas da feira. Os
produtos são discutidos com os feirantes, que possuem o conhecimento adequado a
respeito. O esquema consumidor/consumidor não se distancia da conversa sobre a
vida cotidiana, sobre as pautas da vida íntima.
Outro argumento pertinente de Caiafa (2008) é que no ambiente urbano
sempre há uma relação comunicativa com o espaço construído. No ônibus, tema da
pesquisadora, ―experimentamos fortemente o espaço construído porque o
ocupamos, ali entramos, e todos os nossos sentidos tendem a ser mobilizados‖
(CAIAFA, 2008, p. 2). Na feira livre de Murici isso pode ser interpretado através da
visão do consumidor. Ao adentrar no universo da feira, seus olhos se transformam
numa atenta ferramenta seletiva da condição visual dos produtos. Os próprios
feirantes reconhecem isso quando, ao preparar suas bancas de frutas, por exemplo,
escolhem aquelas aparentemente mais frescas, mais bonitas. É uma tática de
chamamento, que constrói o espaço, mesmo que seja somente o seu. Igualmente, a
audição ganha um importante papel, pois os gritos e a familiaridade contida nas
falas específicas dos feirantes propagandeiam sua produção e o cliente precisa
estar desperto. O espaço construído promove a necessidade de contato, de
comunicação, pois ―ocupar o espaço construído das cidades é experimentar de
alguma forma sua força enunciativa‖ (CAIAFA, 2008, p. 2). Em todo e qualquer
momento na feira livre há este caráter interpelativo, que conduz ações, ao passo que
manifesta também todo um aparato simbólico: a intimidade, a desconfiança — que
pode ser representada pelo simples fato de não se acreditar na lábia 15 do vendedor
e na condição ideal de seus produtos —, a fidelidade do consumidor em relação ao
feirante, construída a partir de um jogo de intimidade rara em outros universos
sociais urbanos, etc.
A comunicação com o mundo urbano proposto por Caiafa (2008) também é
estabelecida com a rua e suas dimensões, com o asfalto e com as casas. A autora
explora entendimentos sobre processos de regulações, que são representadas pelas
orientações impostas ao indivíduo em seu campo de atuação, chamando a atenção
para a característica ―expressiva‖ de espaços específicos, de seus aspectos
comunicativos. Na feira livre de Murici, tomando como foco, podemos citar as faixas
15
Gíria muito presente no espaço da feira e especialmente relacionada aos feirantes.
26
amarelas (figura 1) que delimitam os lugares de cada feirante na extensão da Rua
João Ferreira Lopes — em maior ou menor grau dependendo do tamanho da
banca/barraca — impondo-lhes um limite de espaço e dizendo-lhes: ―daqui você não
passa‖16.
Figura 1: Linhas amarelas que delimitam o espaço de cada banca de
feirante em Murici
Fonte: de autoria do pesquisador
Esse sistema sinalizador, conforme Caiafa (2008), é denominado mídia
locativa analógica, contraponto da mídia locativa digital, esta instalada em lugares
cujo nível tecnológico é maior. Os indivíduos são interpelados por estas situações e
conduzidos a se portarem de acordo com determinado caminho, legitimando o
espaço exigente17 em que estão envolvidos e inseridos. Esse processo de regulação
representado pelas faixas amarelas é assistido pelos grupos de fiscalização
disponibilizados pela Prefeitura Municipal de Murici, a qual os feirantes, em certa
medida, temem. ―Podem nos multar se passarmos da linha‖, diz João Fernandes,
feirante em Murici há 11 anos.
A exigência do espaço, neste sentido, está indissociada da ação reguladora
municipal, responsável pelos procedimentos de ordenamento da feira livre, caso de
16
Dizeres de um dos feirantes, que ressaltou a limitação do espaço.
Termo utilizado por Caiafa (2008) para justificar o teor regulador dos espaços de sociabilidade no
sistema de metrô do Rio de Janeiro.
17
27
dimensão de poder ressaltada pela vigilância. Supostamente um ―bem coletivo" para
os participantes da feira, esta vigilância por muitas vezes oprime simbolicamente,
limitando certos comportamentos e compondo outros novos. É a organização urbana
proposta pela prefeitura que orienta os feirantes onde devem ficar e, como
consequência, indica aos consumidores os caminhos da feira que devem trilhar,
mesmo que — é preciso ressaltar — este arquétipo não seja frequentemente
obedecido. Em resumo, a instituição administrativa máxima da cidade impõe regras,
estipulando a dinâmica de circulação e, ao mesmo tempo, tentando impedi-la em
determinados trechos através de representações gráficas de comunicação — as
faixas amarelas — espalhadas pelo espaço.
Desta maneira, a alternativa mais próxima — mas, não única — para burlar
esta ―linha do limite‖ para estes feirantes é através da exposição, interagindo com o
cliente a partir das diversas formas de chamamento, da comunicação pessoal do
modo mais explícito. De toda forma, este tipo de repressão dos sentidos parece não
ser percebida nem pelos feirantes, pouco menos pelos consumidores. Parece estar
tão profundamente inserido em suas estruturas que essas imposições aparentam
não possuir muita importância e não se apresentam como uma grande dificuldade
para o funcionamento pleno do evento.
Os espaços de maior comunicação na feira livre de Murici, além disso, são
variantes de acordo com o fluxo de transeuntes presentes em cada esfera. Por
exemplo, há muito mais burburinhos, diálogos, conversações e chamamentos
feirantes na parte em que se comercializam produtos de primeira necessidade
(como frutas, carnes e peixes) que se concentra na região central da Rua João
Ferreira Lopes, fluxo parcialmente explicado pela insuficiente rede de quitandas
existentes na cidade, o que faz aumentar a procura por estes artigos, foco de venda
maior deste equipamento de serviço18.
Assim, é possível afirmar que no conjunto de interações que traduzem a
cidade existem, ao menos, dois modelos de comunicação específicos que podem
ser verificados em diversos planos de sociabilidade, tanto em ocasiões consideradas
―mais simples‖, onde os níveis da linguagem se estabelecem mais ampla e
abertamente — como é o caso das feiras livres —, bem como nos tipos menos
18
Caiafa (2008) aponta para o equipamento de serviço enquanto um dispositivo urbano que fornece
algum tipo de serviço coletivo.
28
expostos, onde a linguagem se estabelece mais corporalmente, como no caso da
comunicação nos transportes urbanos das metrópoles.
2.3 A experiência com o campo, a experiência com a cidade de Murici e o Ser
Afetado
Nasci em Murici. Cresci sendo acompanhado por um fenômeno que chamava
atenção, que modificava, em alguma medida, a rotina das pessoas. A feira livre da
cidade sempre me foi muito presente, afinal, morei a maior parte da vida no espaço
em que a mesma acontecia, na rua e no município. Sempre me foi curioso o modo
como aquilo tudo era construído, as várias pessoas que chegavam rapidamente de
diversas partes da cidade e, no caso dos feirantes, de diversas partes do Estado de
Alagoas, e o modo como todo esse esquema era também rapidamente dissolvido
em pouquíssimas horas. Sempre me pareceu interessante as muitas maneiras de se
organizar um espaço tão múltiplo. Também bastante me foi intrigante, neste
percurso de vida, as formas de dividir o espaço da produção. Parecia tudo muito
bem pensado, todos organizando cada unidade de venda por tipo de produto e,
muitas vezes, cada banca/barraca construindo um verdadeiro mosaico de cores.
Outra curiosidade era como o movimento das ruas era temporariamente
alterado durante o período de funcionamento da feira livre de Murici. Lembro que,
este último aspecto, me deixava incomodado, uma vez que era difícil sair de casa
para encontrar os amigos num domingo — até 2013, a feira livre em Murici ocorria
neste dia da semana — sem atravessar um verdadeiro mar de gente. O cheiro
provocado pelos restos de pescados — na antiga localização, a parte baixa da
cidade, mais precisamente a Avenida Manoel Fernandes, na qual residi até 2010 —
era outra queixa pessoal. Meus pais, nesta época, por volta do ano de 2000 ou
2001, estavam diretamente conectados a todo este ambiente da feira. Minha mãe,
Maria, exercia a atividade da compra todo dia em que o evento tinha ocorrência e,
de acordo com ela própria, "se perdesse o dia da feira, não tinha o que comer
durante o restante da semana". Parecia ser necessário seu envolvimento com o
evento, necessário para o bem-estar da família, uma vez que pouco se encontrava,
sobretudo àquela época, os produtos e alimentos fornecidos pela feira de Murici em
outros pontos de comércio fixos da cidade. Ela mesma chegou a afirmar — numa
conversa casual ao saber de minha intenção de pesquisar a feira de Murici:
29
Ir pra feira é um hábito de comprar que a pessoa se acostuma e quer ir
sempre. Estou até sentindo falta de ir pra feira, pois não estou indo por
causa do trabalho. Pena que nunca mais eu pude ir porque gosto de
comprar linha, tecido, essas besteirinhas lá. Não frequento a feira hoje
porque trabalho aos sábados e domingo. Mas eu gosto mesmo é de ir pra
feira. A feira é uma tradição. Se acabar a feira, acaba Murici. A cidade não
vive sem a feira. Costumo comprar verduras, frutas, ervas, temperos. Esse
tipo de produto não se encontra nos supermercados daqui com a mesma
qualidade. A feira também sempre é mais barato e você acha de tudo.
Gosto também de comprar roupa. Tudo que você precisar tem na feira.
Nos dias de feira, minha mãe estava sempre com pressa. Os afazeres
domésticos do turno da manhã eram essenciais para que seu dia fosse produtivo.
Então, logo às sete da manhã, se dirigia para a feira, pois, além de o horário atender
a uma ordem de funcionamento ideal de sua rotina pessoal no domingo, era propício
para encontrar produtos frescos. "Vou nessa hora por causa do clima (por estar mais
arejado) e da qualidade do produto. Quando vai ficando tarde, as coisas começam a
ficar com uma 'cara' ruim", afirma com uma segurança no olhar, experiência de
quem participa e convive com a feira livre de Murici há mais de 30 anos. Tal
convivência, ademais, pode se sustentar, em diversos casos observados no trabalho
de campo desta pesquisa, como uma espécie de tradição referente ao consumo,
passada de pais para filhos. Antes de minha mãe, minha avó já participava do
evento e passou a influenciar sua filha desde cedo, levando-a a esses encontros
semanais, processo que, aparentemente, foi perdendo força com o passar dos anos.
Supõe-se aqui — baseado em entrevistas discutidas com o campo — que em
épocas anteriores os laços familiares eram mais estreitos, sustentados justamente
por essa lógica tradicional, e que os papéis (econômicos, de divisão do trabalho na
casa, etc.) que estruturavam o "lar" eram ordenadamente posicionados no ambiente
familiar.
Particularmente, como representante do grupo mais afastado da feira livre
enquanto lugar de encontro, nem sempre frequentei o evento. O contato quase
sempre se limitava ao ato comercial, quando era especialmente necessário adquirir
alguma coisa proveniente da feira. Meu pai, Dermeval, ao contrário, sempre possuiu
certa ligação com os feirantes próximos à nossa residência. Por um lado, essa
relação constantemente permitiu o "preço camarada" em suas compras, tendo como
retribuição, por exemplo, o café, o churrasquinho ou a água potável levados todo dia
de feira para aqueles que vendiam artigos no evento. Por outro, se construiu
30
também uma rede de proximidade no percurso dessas ligações. Por diversas vezes,
presenciando de perto essas relações, ouvi de meu pai o "fulano não veio hoje? Por
quê?" quando algum feirante, por um motivo ou outro, faltava ao evento em
determinada semana. Quando esses feirantes, ainda pela madrugada, chegavam
nos caminhões fretados para transportar suas respectivas mercadorias advindos de
outros municípios, meu pai também oferecia auxílio, geralmente com um sorriso no
rosto e sendo recebido com brincadeiras. É importante ressaltar que, nestes casos,
a participação na feira promoveu o surgimento dessas relações mais íntimas, que
exploram as personalidades, apesar de considerar aqui que a feira livre não constitui
universo único para que interações deste tipo ocorram na urbanidade. Esses tipos
de situações, porém, podem ser melhor trabalhadas em pesquisas futuras.
Figura 2: Avenida Manoel Fernandes, uma das antigas ruas que abrigavam
a feira livre de Murici até 2010
Fonte: de autoria do pesquisador
Com relação à pesquisa aqui em desenvolvimento, as visitas a campo não
obedeciam rotas pré-estabelecidas do espaço, sempre segui o fluxo de pessoas,
que me levavam às mais distintas situações. Mediante às movimentações que tive
31
neste lugar praticado19 (CERTEAU, 2012), inevitavelmente me tornei vulnerável as
práticas de proximidade com o ambiente. Neste espaço, encontrei pessoas,
conhecidos da minha vida na cidade de Murici e com os quais, muitas vezes,
durante o trajeto, mantinha alguma breve conversação sobre diversos temas, onde,
comumente, levantavam questionamentos sobre "meu bloco de notas", utilizado para
construir o diário de campo. Estes rápidos encontros colocaram um complexo
problema ético, entre o que seria supostamente apropriado para desenvolver uma
pesquisa baseada em modelos e metodologias de afastamento do campo
pesquisado e a própria estrutura individual do pesquisador, nascido e criado na
cidade de Murici. No entanto, esta abordagem aparentemente "perigosa" de
investigação passou a gerar, em minha atividade de pesquisa, uma ampla
possibilidade de estranhamento dos códigos de comportamento que, na vida
cotidiana, passam despercebidos.
Assim, se constrói um novo olhar sobre a realidade, múltiplo, que antes, no
estágio pré-campo, seria impensável. É neste caminho que Magnani (2003) admite a
ideia do encontrar o inesperado no campo de pesquisa. O pesquisador geralmente
vai carregado de referenciais teóricos e referenciais pessoais para o campo e, por
diversas vezes, é surpreendido. Foi assim numa pesquisa sua em 1997 – onde, se
utilizando e, ao mesmo tempo, confrontando Roberto DaMatta e sua teoria da casa
versus rua, desvendou uma nova categoria, o pedaço20 - e de um ex-aluno seu, que,
ao investigar um botequim esperava encontrar depoimentos que afirmassem que o
ambiente era tido enquanto área de lazer, mas que acabou encontrando a resposta
higiene mental, um espaço de transição entre o universo do trabalho e o universo da
casa. Era evidente a diferença existente entre os sentidos de lazer encontrados.
Lazer para eles era fazer outras coisas, geralmente no fim-de-semana. Isso foi um
caminho a seguir. Logo, ―o espaço fora de casa não é homogêneo, permite
gradações, apropriações seletivas‖ (MAGNANI, 2003, pg. 89) e isso tudo pode estar
presente na abordagem afetiva do campo.
19
Michel De Certeau (2012) define o lugar praticado como aquilo que é imóvel e que apenas se
modifica ou "se movimenta" a partir das dinâmicas de usos simbólicos dos atores presentes em
determinado espaço.
20
Magnani (2003) define o pedaço como um espaço público situado entre o universo doméstico e
universo da rua. Este espaço, na visão do autor, está relacionado a determinados lugares urbanos
onde se desenvolvem sociabilidades básicas. Todavia, estas sociabilidades são mais amplas que os
tipos visualizados na vida doméstica e mais densas que aquelas encontradas no modelos de relações
impessoais das cidades. Neste caminho, existem inúmeros pedaços referentes aos mais variados
contextos e grupos.
32
Desta forma, tomando como princípio minha vida enquanto indivíduo e
pesquisador, no momento da investigação científica: seria possível, de fato, separar
o lado afetivo, de proximidade com o objeto, da questão metodológica?
O artigo "Ser Afetado", da etnóloga francesa Jeanne Favret-Saada (2005),
coloca em questão esta posição do pesquisador diante da investigação
antropológica. A autora discute, a partir de um levantamento bibliográfico que
tematiza a feitiçaria e, de igual maneira, tendo enquanto base sua pesquisa na
localidade francesa do Bocage, as possibilidades de interações afetivas com o
objeto e seus interlocutores. A pesquisadora exibe uma destacável crítica a
importantes etnólogos anglo-saxões e franceses do século XX, procurando expor a
unilateralidade empírica que estes se utilizaram para dar conta do problema da
feitiçaria, sobretudo nos casos africanos. Favret-Saada afirma que esses
pesquisadores negavam, no decorrer de suas obras, a existência de uma prática
semelhante a da feitiçaria na Europa rural, discursos que surgiam na tentativa de
não submeter-se a ideia de que, num continente ―civilizado‖, ainda havia algo tão
―primitivo‖, evitando, assim, contato direto e afetação com a feitiçaria. A afetação,
todavia, para a autora, aparece enquanto metodologia de pesquisa, único possível
para entender as lógicas rituais e comportamentais do processo etnográfico.
Favret-Saada refere-se também a questão da comunicação diante da
aventura de campo. Quando tomada para si a estratégia da afetação como modo de
investigar, quando o pesquisador se deixa ser afetado pelo objeto, a comunicação
ordinária, voluntária e intencional torna-se insuficiente e não se constitui enquanto
forma de obter informação sobre a experiência humana, subjetiva e não verbal. O
pesquisador, assim, aceitando ser afetado por todo o universo pesquisado é
reconhecido pela rede de intervenções nativas como parte do processo,
apropriando-se ainda mais de suas acepções. Isso não significaria, porém, que o
pesquisador se identificaria com o objeto e/ou sua carga simbólica, mas, ao
contrário, se aproximaria ao máximo de sua representação.
Logo, na ocasião da feira em Murici, tornou-se quase natural o entrelaço dos
valores do pesquisador, de minha vivência de vida e dos aspectos científicos da
pesquisa. Ora, é possível tomar ao pé da letra o afastamento pesquisador-objeto tão
postulado por alguns teóricos clássicos das Ciências Sociais? Acredito que não. Em
alguma medida, o pesquisador sempre se identificará com algo. A questão deve se
33
concentrar nos instrumentos metodológicos que utilizará para obter resultados mais
consistentes.
34
3 SOCIABILIDADE E COTIDIANO: A FEIRA LIVRE EM MURICI
Após a familiarização com os termos respeitantes à feira livre e à urbanidade,
expostos brevemente na segunda seção deste trabalho, bem como as condições de
afetação, tentarei, a partir da construção desta última parcela de contribuição
pesquisadora, elaborar um encontro entre a discussão teórica proposta aqui e dados
discutidos no campo de pesquisa (não obstante, já tendo sido apresentado, em
alguma medida, alguns aspectos desta discussão na seção anterior). Para tanto, se
fez essencial a pesquisa in loco, com base na observação participante, buscando,
especialmente, através dos processos de entrevista, abordar alguns relatos
individuais que pudessem iluminar diversas lógicas de funcionamento da vivência
cotidiana.
Neste caminho, Guita Grin Debert (1986) atribui ao tipo qualitativo de
entrevistas a responsabilidade pela familiaridade do pesquisador em relação a um
determinado contexto. Logo, essencialmente, o relato pode aproximar o observador
do observado, contrastando com outros métodos. Por isso, ―nossa tarefa enquanto
analistas é entender esses relatos e depois apresentar um quadro minimamente
coerente (...)‖ (DEBERT, 1986, p. 150). De acordo com a antropóloga, assim, a
representatividade do relato não está situada na importância do cargo ou na
representação social do indivíduo, por exemplo, mas está contida na riqueza de
detalhes que podem fazer com que o entrevistador, em certa medida, possa
vivenciar o evento histórico, consequentemente, sob determinada ótica, contestando
os documentos oficiais.
Não se pode aqui, todavia, restringir a análise processual da feira livre de
Murici ao relato. Há condições que exigem, como em qualquer outra pesquisa, as
fontes históricas locais – neste caso, como se pôde comprovar, em níveis
escassos21 – e a organização do espaço imposta pela prefeitura da cidade de Murici.
Conquanto, historicamente, não houve preocupação por parte das instituições
oficiais
em
organizar
um
documento
próprio,
que
iluminasse
tanto
os
acontecimentos relativos à feira livre quanto a outros eventos históricos importantes
ligados ao desenvolvimento sociocultural, político e econômico na cidade
21
As obras "Dois Séculos de História", escrita por Jimmy Xerri, originalmente publicada em 2001, e
"Major Barros da Pedra Branca", escrita por Joaldo Cavalcante (2006) figuram entre os poucos
documentos que retratam a história muriciense e seus personagens dos séculos XIX e XX.
35
muriciense. Assim, diante de tal insuficiência documental, o relato ganha respaldo,
sendo o trabalho de campo essencial.
Nesta seção, abordarei alguns aspectos destes relatos vocalizados pelo
campo, dando foco às sociabilidades encontradas, a ludicidade e as articulações
inerentes a ele. Aqui trabalharei a experiência mais de perto com os interlocutores,
as surpresas, as desconfianças e as ações institucionais.
3.1 Aspectos históricos da feira livre de Murici
A feira livre da cidade de Murici, município localizado a 44 km 22 da capital
alagoana, Maceió, tornou-se, com o passar das décadas, espaço essencial na vida
da população nativa e de localidades circunvizinhas. Fonte de abastecimento
alimentício, vestuário e de outros subgêneros, a feira se configura enquanto vasto
ambiente de interações face a face, carregadas de jogos de valores. Ali, se reúnem
diversos grupos, múltiplos indivíduos, de diferentes lugares do Estado, sejam eles
compradores ou feirantes. No entanto, o cotidiano, as relações que interpretamos
mais simples — mas, não tão simples — de sociabilidade é o que sobressai numa
investigação sobre este ambiente de diversificação. É dali, a partir da abordagem
qualitativa do campo de estudo, que se pode obter relatos que nem o próprio
informante tinha como substancial, escavando memórias e desenvolvendo causos
pouco convenientes em outros ambientes urbanos.
A história da cidade, em vários momentos, se confunde com a história de seu
comércio. Na realidade, não existe um dado propriamente oficial sobre sua
formação, sendo esta muito especulativa. Porém, o que mais ganha o apreço
popular e é reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é
a hipótese de que, por volta do ano de 1810, Frei Domingos fundou Muricy23. De
acordo com estes posicionamentos, o monge havia plantado um Muricizeiro24 no
espaço onde se desenvolveu a cidade. A utilidade posterior da planta passou a de
dar assistência aos viajantes que trafegavam pelas rotas próximas ao rio Mundaú 25 e
22
Fonte: Diagnóstico do Município de Murici. 2005.
―Muricy dos primeiros anos de sua história alude àquele município desmembrado de União dos
Palmares e criado em 1892. O Murici depois de 1962 é aquele que foi dividido para gerar os outros
dois municípios, de Messias e Branquinha‖ (XERRI, 2001, p. 5)
24
De
nome
científico
Byrsonima
Crassifólia.
Fonte:
EMBRAPA
Rondônia.
http://www.cpafro.embrapa.br/media/arquivos/publicacoes/folder_murici.pdf.
25
O rio Mundaú tem nascente em Garunhuns, cidade pernambucana, e corta, em seu decorrer,
23
36
que paravam no local para descansar à sombra da árvore. Estes transeuntes
aproveitavam e negociavam seus produtos junto a outros viajantes que ali se
estabeleciam, formando, logo depois, um lugar fixo de transição, incentivando a
formação de um pequeno povoado nos anos seguintes. Isto implica dizer que a
origem do povoado — que se tornaria município — pode ter se estabelecido a partir
de uma forma de comércio espontânea.
O modo como se apresentou tal relação de trocas, como nos mostra o artigo
de Anna Erika Ferreira Lima e José Levi Furtado Sampaio (2009), foi bem comum no
decorrer da história. Baseados em Karl Marx e Luis de Sousa — que exprimem suas
teorizações sustentadas pela ideia da excedência de produção para definir as feiras
livres, sendo a segunda resultado direto da primeira —, os autores afirmam que o
processo de câmbio se daria a partir da lógica da necessidade — e do que sobrava
— de outro grupo/lugar, trocas realizadas inicialmente em forma de outras
mercadorias e, após, no formato do dinheiro. As interações comerciais da feira, além
disso, proporcionaram uma relação de interdependência entre cidade e campo a
partir de dois eventos que beneficiavam vários agrupados: 1) possibilidade de
abastecimento para as áreas urbanas que careciam de alguns condimentos
advindos do campo; 2) vender o excedente da produção rural e adquirir
equipamento técnico para gerar mais produção.
Ainda segundo Lima e Sampaio (idem), a feira livre no Brasil se desenhou a
partir de uma estrutura cultural de tradição ibérica, instaurada de acordo com o
projeto colonizador português. Assim, as maneiras de organizá-la são repercussões
das práticas comerciais medievais europeias e, possivelmente, estão arraigadas em
sua composição.
Retornando ao nosso problema, de acordo com Jimmy Xerri (2001), ex-Padre
da Paróquia de Nossa Senhora da Graça — instituição que abrangia os municípios
de Murici, Messias e Branquinha —, em sua obra "Dois Séculos de História", que
reúne relatos sobre a história da cidade, até o ano de 1921 os meios de articulação
entre a urbanidade (ainda ancorada na nomenclatura ―sede do município‖) e as
localidades rurais mais distantes eram precárias. Havia espécies de jangadeiros,
que transportavam feirantes sobre o rio Mundaú, estabelecendo tal serviço sob o
preço de 400 réis por travessia, ida e volta, garantindo, assim, o sustento de suas
vários municípios do estado de Alagoas. Fonte: APAC (Agência Pernambucana de Águas e Clima).
37
famílias e o desenvolvimento gradativo da região. Este esboço de negócio foi
rapidamente dificultado pela construção de uma ponte de cimento armado 26, durante
o governo de José Fernandes de Barros Lima 27 (governador de Alagoas entre 1918
e 1924). Vale ressaltar que a construção da ponte fora um momento de grande
entusiasmo para a cidade — como nos mostra Joaldo Cavalcante (2006) a respeito
de vários eventos que eram tidos como comunitários em Murici, nos exemplos de
casamentos, festividades religiosas, etc. —, sendo comemorado por todos, uma vez
que o benefício atingiria à coletividade e a atividade comercial a qual estavam
ligados.
Conforme Xerri (2001), este fato remonta os primeiros momentos de uma feira
mais organizada, já que a influência institucional do governo se tornou mais presente
em vários setores da cidade de Murici. Até então, havia tipos breves de comércio,
desagregados. A ação do governo viria estabilizar a atividade, característica
semelhante vista em outros grupos nas décadas conseguintes. A feira,
acompanhada de maneira mais próxima pelos órgãos oficiais, exprimia a ideia que
Mascarenhas discute: ―surge como símbolo de ordem, higiene e progresso. A rua
como espetáculo organizado (...) cada feirante devidamente enquadrado com sua
numeração e seu lugar precisamente demarcado, os horários de início e termino
vigiados‖ (MASCARENHAS, 2008, p. 82 apud VASCONCELOS, 2010, p. 12).
Conquanto, as feiras livres não puderam acompanhar as pretensões do progresso
tão exaustivamente buscado por outras camadas sociais, como já assinalado em
trabalhos econômicos vistos no princípio deste texto.
Ainda de acordo com Xerri (2001), baseando-se em relatos provenientes das
literaturas disponíveis para pesquisa, tanto em formato de artigos, revistas e
manuscritos quanto na bibliografia especializada, a primeira feira a ser realizada na
cidade ocorreu em 1854, mas com um resultado pouco produtivo. O eclesiástico
descreve muito detalhadamente como aconteciam estes encontros, destacando
também a inter-relação ainda inicial com centros comerciais mais distantes, como o
de Branquinha, antiga vila pertencente a Murici, mas que conseguiu emancipação
política no ano de 1962. Xerri afirma que:
26
Material resultado da junção entre concreto simples e barras de aço. Um dos mais importantes
elementos da construção civil do século XX.
27
Integrante, em 1912, da Liga dos Republicanos Combatentes — movimento político que agia contra
representantes de culturas afro-brasileiras em Alagoas.
38
Em 1922, o comércio na cidade de Murici foi descrito como ‗pequeno,
porém animado‘. Neste ano havia sete casas comerciais em Murici, e a
casa comercial Francisco Morato, em Branquinha, que vendia ‗molhados,
ferragens, e outros gêneros‘. A primeira feira em Murici foi criada em agosto
de 1854, mas ficou sem efeito. Segundo a tradição oral, a primeira feira de
Murici era montada no Cajueiro – parte mais antiga da cidade -, quando
este lugar ainda era um povoado com casa de palha. Em 1888, estava
funcionando uma feira aos sábados, criada pela segunda vez em julho de
1857. Antigamente, a feira de Murici começava às 5 horas de manhã e, às
vezes, ia até às 17 horas. Houve uma época em que a feira era organizada
em frente à igreja Santa Teresa. Ainda hoje a feira é o termômetro do bemestar ou decadência das cidades do interior. Nos últimos anos, a feira de
Murici diminuiu. A feira de Branquinha é mencionada num jornal de Maceió
em 1919. Em 1888, os produtos na feira de Murici incluíam ‗carne verde e
seca, farinha de mandioca, peixe salgado, sururu, cocos do reino, batatas,
esteiras de Peri-peri e muitos outros objetos‘. Não se sabe quando e porque
o dia da feira mudou para o domingo. O governador Costa Rego tinha a
ideia de transferir as feiras no seu estado para o sábado. No dia 13 de
novembro de 1925, a sociedade de Agricultura Alagoana reuniu-se em
Murici. Votaram unanimemente contra o governador, contra o povo, em
favor do interesse próprio. Um dos sócios – Dr. Brandão Vilela – disse que
‗os sentimentos religiosos (a feira era organizada no domingo, Dia do
Senhor) poderiam forçá-lo a discordar da maioria dos seus consócios‘. Mas,
no final, votou contra a sua consciência. (XERRI, 2001, p. 103).
As características da feira de Murici neste período, em certa medida, se
assemelham às solenidades mercantis das décadas posteriores: baseava-se num
padrão de comércio ligado à agricultura e a pecuária de subsistência, sem muita
influência dos grandes produtores rurais, se utilizando de uma dimensão mais
localista de feirantes. Dificilmente, comerciantes de outras cidades já atingidas pelo
processo de emancipação política (mais precisamente, União dos Palmares e São
José da Laje) a frequentavam. Os possíveis motivos imediatos para isso, sobretudo,
estavam relacionados a: a) dificuldade técnica de locomoção, impossibilitando o
movimento dos produtos destes feirantes externos; b) o tamanho geográfico do
município até então, que englobava a vila de Branquinha e o distrito de Messias
(anteriormente chamado de Floriano), ainda não emancipados, não atribuindo tanta
concorrência. É admissível que este mesmo esquema de organização tenha atuado
sobre outras feiras, pertencentes a outros municípios do estado alagoano.
Supõe-se, com base nas entrevistas deste trabalho, que superada a
dificuldade do transporte de mercadorias, começam a se organizar caravanas de
automóveis, que movimentavam cargas e pessoas, fazendo crescer a feira. Na
década de 1990, a feira organizada na localidade que englobava a Avenida Manoel
Fernandes, a Rua do Comércio e a Travessa Floriano Peixoto, alcançaria um de
seus pontos altos. Um mar de gente, muitos produtos, carros por todas as partes.
39
Vendiam-se frutas, legumes, carnes, peixes, cenário que não se modificou
expressivamente com o passar dos anos. Porém, não se limitado a venda de
alimentos, a partir de então também se comercializava roupas, artigos de plásticos,
etc., o que já construía todo um ideário, "uma tradição", como relata um dos
entrevistados, de como seria uma feira apropriada. Todavia, em alguns momentos
deste percurso, havia um sucateamento devido a diferentes adversidades, e a feira
perdia força.
Em meados do ano de 2010, uma inundação de dimensões catastróficas
atingiu municípios dos estados nordestinos de Pernambuco e Alagoas, provocando
caos e destruição em cidades interioranas num dos eventos naturais mais
significativos das últimas décadas, afetando cerca de 270 mil pessoas28. Murici,
localizada na Zona da Mata alagoana, pertencendo à bacia do rio Mundaú,
apresentou-se enquanto uma das regiões mais atingidas pelas enchentes, que
deixaram vítimas fatais e centenas de desabrigados e desalojados. A parte baixa da
cidade, onde se localizava a feira livre até aquele momento, foi o ponto atingido. O
evento teve de ser transferido de local, modificando entendimentos de feirantes
sobre o mesmo, alterando a relação mercadoria e produtor (quando o mercado de
carne e o matadouro da cidade ficam inativos e os açougueiros são obrigados a
manipular seu produto em plena rua, por exemplo) e despertando certa hostilidade
de parte dos novos vizinhos quanto a seu funcionamento que, de acordo com alguns
deles, é pouco acompanhado com maior rigor pela prefeitura municipal.
3.2 Feirantes e consumidores e a relação com o novo espaço
Após os eventos naturais evidenciados em 2010, a feira livre de Murici foi
bastante modificada. A começar pelo local de sua realização — alteração
diretamente resultante da inundação — saindo da parte baixa para a parte alta da
cidade, até a mudança de dia. O evento, até 2013, ocorria tradicionalmente aos
domingos. Com a instauração, ainda que inicial, do projeto de padronização imposto
pela prefeitura municipal, o dia foi alterado para o sábado. Assim, já inserida neste
modelo, a realização da feira livre se inicia pontualmente às sextas-feiras, quando as
28
Fonte:
http://noticias.uol.com.br/especiais/enchentes-no-nordeste/ultimasnoticias/2010/07/10/alagoas-apresenta-relatorio-oficial-de-enchentes-e-reduz-numero-de-mortos-de37-para-27.jhtm.
40
bancas são postas em seus lugares definidos pela prefeitura da cidade. Pessoas
contratadas pela mesma prefeitura são quem instalam as bancas em seus locais
delimitados, profissionais que geralmente recebem pouco para um trabalho braçal
pesado e exigente. É também na sexta-feira que feirantes de cidades vizinhas
começam a chegar e a se instalarem nestas bancas. Comumente, desembarcam de
outras feiras, como é o caso do senhor Arlindo Manuel da Silva, vendedor de
relógios de União dos Palmares e que pratica este circuito comercial. Pela
quantidade de produtos que possui, o comerciante viaja num automóvel de pequeno
porte. Outros, vendedores de consumíveis, utilizam caminhões, onde os donos
cobram certa taxa para transportar os produtos de vários feirantes. Há também
profissionais que chegam na noite de sexta e na madrugada de sábado, como é o
caso do senhor Gerson Luis da Silva, nativo de União dos Palmares, residente em
Maceió e que também participa da feira livre de Messias, que igualmente acontece
aos sábados e toma quase todo o dia. Como se pode perceber, dá-se sempre um
jeito para participar do evento, seja por necessidade — para complementar o salário
de outra ocupação — ou por "tradição", como colocam diversos feirantes
entrevistados.
Em Murici, a feira começa a chamar a atenção do público a partir das cinco ou
seis horas da manhã, finalizando o ―comércio grande‖ 29 por volta do meio-dia,
quando os feirantes iniciam o processo de reembalagem, destinando outras feiras ou
mesmo voltar para casa. A partir deste horário, os montadores voltam a atuar,
desarmando a bancas. São seguidos de perto pelos garis da prefeitura, que
esperam os espaços serem liberados. Por volta das quatorze horas, passam a
chegar os caminhões de lixo e os garis enfileiram seus carros de mão cheios de
restos para depositá-los. Por volta das dezessete horas, tudo está mais ou menos
organizado, mas a rua apenas ficará completamente limpa e voltará a normalidade
durante a semana, quando nova atuação dos garis ocorrerá.
A feira livre de Murici está atualmente centralizada na Rua João Ferreira
Lopes, por motivo de sua extensão30. Nesta mesma rua estão também endereçados
o Hospital Geral Dagoberto Uchoa Lopes de Omena, um dos Postos de Saúde da
cidade, a Biblioteca SESI Murici e a Escola Municipal Pedro Tenório Raposo, e
29
Termo utilizado por um dos feirantes para definir as primeiras horas de funcionamento da feira livre,
que atraem mais consumidores.
30
De acordo com a secretaria de Indústria, Comércio e Turismo de Murici.
41
localizada em uma de suas ramificações, a Avenida Presidente Getúlio Vargas. Essa
região dentro da cidade é a que mais aglomera pessoas nos finais de semana, onde
se apresenta tomada por veículos de todos os portes, fenômeno que rompe
totalmente com o esquema mais ou menos tranquilo que está associado a Murici
durante o restante da semana e torna singular e reconhecível o "dia de feira".
Figura 3: Feira livre de Murici-AL, Rua João Ferreira Lopes
Fonte: de autoria do pesquisador
A transferência da feira da parte baixa para a parte alta da cidade provocou
uma nova ordem de pensamento sobre ela, sobretudo com relação aos
compradores. Mesmo após aproximados seis anos, certos consumidores ainda
insistem em recusar a nova localização, com destaque para os sujeitos que já
moravam na Rua João Ferreira Lopes antes de relocação da feira livre. Em conversa
com dona Docarmo Anacleto, residente ali desde 2002, confirmo algo que já era
suspeitoso: alguns estabelecidos se incomodam muito com a feira naquela
vizinhança. Para uma senhora de oitenta anos, mesmo que impossibilitada pela
idade de participar do ritual da feira, o fim de semana se torna um desafio, para
dormir, para relaxar e tentar esquecer-se dos vários problemas de saúde que
apresenta. O incômodo tem início na montagem das bancas durante a madrugada
de sexta, atrapalhando o sono de alguns moradores entrevistados. O mal cheiro
42
durante e após o evento também surge como algo indesejado na visão de dona
Docarmo: moscas começam a juntar-se nas casas, tornando o almoço de Sábado
difícil, por exemplo. Outro fator é a inquietação sonora proporcionada pelos
vendedores de discos, que se instalam em frente à casa da senhora. ―Hoje eu quero
sair daqui. Esta rua era tranquila. Hoje, não dá‖, afirma, quase num tom de
desespero. Como supramencionado, porém, dona Docarmo não mais frequenta a
feira de domingo. Ela, pois, não participa do ritual da compra. Portanto, seria
necessário dialogar com alguém que o fizesse e que, do mesmo modo, residisse no
local. Maria José, sua filha, contrariando expectativas pré-campo — imaginava-se
que havia um posicionamento positivo quanto à localização da feira e a facilidade de
acesso a compra —, também concorda a respeito do incômodo e defende que a
feira deveria deixar o local, voltar para a parte baixa, onde há mais espaço inabitado
devido às enchentes de 2010: ―é preciso que mude. Preferia quando era lá embaixo.
É muito ‗frevo‘ ―.
Figura 4: Rua João Ferreira Lopes em dia da semana em que não há feira livre em
Murici
Fonte: de autoria do pesquisador
Norbert Elias (2000) trabalha a ideia de desigualdade do equilíbrio de poder
num bairro da cidade de nome fictício de Winston Parva, na Inglaterra. Ali, de acordo
com o autor, havia um embate gigantesco partindo de zonas habitacionais em que
existiam moradores antigos (representados pelo que se chama de estabelecidos) e
43
os moradores recém-chegados (representados pelo que define como outsiders). O
sentido da ideia de superioridade colocada naquele lugar fazia com que os outsiders
— caracterizados por operários das fábricas locais — fossem oprimidos pelos
estabelecidos, indivíduos socialmente estáveis, que viviam na cidade há mais
tempo. Não havia, em nenhum sentido, diferenciações plenas que permitissem
algum tipo de opressão à primeira vista, apenas o fato de alguns moradores
residirem a mais tempo no local.
Neste caminho, não existiam diferenças étnicas, nos níveis de acesso à
formação educacional, na profissão ou nos sistemas de mobilidade social. A oferta
social era a mesma. O rebaixamento destas pessoas se dava pelo simples fato de
serem novas no local, sendo negados pelos antigos quanto a qualquer tipo de
contato social (com exceção do profissional), relação que gerou uma configuração
de estigmatização dos membros inseridos nos grupos outsiders, onde a coesão dos
grupos estabelecidos facilitava a exclusão destes. O preconceito que Elias (2000)
discute não se fixa de maneira individual, mas sim social, isto é, o elemento chave
que proporciona o desequilíbrio, a desigualdade, é a instabilidade das forças entre
agrupamentos distintos. O poder desigual, proporcionado pela estrutura tradicional
construída pelos estabelecidos — determina o estigma, que só pode ser instaurado
através da coesão, gerando também a exclusão do grupo outsider. Tal poder ainda
fornece liberdade suficiente para se criar um retrato de si próprio, onde se forma um
tipo ideal do mesmo grupo, engrandecendo-o neste caso em particular,
possibilitando maneiras de "reprimir" o outsider. Percebendo que seu poder está
sendo abalado, o estabelecido age, uma vez que o grupo outsider não partilha de
seus valores.
Algo que pode complementar essa definição é a ideia de William Foote Whyte
(2005), em sua análise sobre relações de desigualdade em Connersville, Estados
Unidos, onde aponta tal condição de afastamento enquanto divergência de
informações: um grupo desconheceria em parte a condição social e cultural do outro,
gerando atritos. A insuficiência de comunicação entre todos promove o que autor
designa enquanto um processo discriminador presente naquele lugar.
No caso da feira muriciense, algumas pessoas não parecem amistosas
quanto a nova localização por um motivo essencial: são estabelecidos a mais tempo
no local do que os feirantes, que apenas surgiram ali no ano de 2010. Antes havia
representações e vivências dos moradores da rua sobre o sábado — como a
44
tranquilidade, o sossego — que foram desfeitas com a chegada da feira. O espaço
foi remontado e a rotina da população alterada abruptamente. Os feirantes, em certa
medida, são outsiders. Porém, a estigmatização não se estabelece sob uma ótica
cultural e econômica, mas, possivelmente, a partir de uma percepção de estrutura,
de espaço e das relações socialmente construídas com ele. Os feirantes, por sua
vez, em muitos casos, desconhecem as opiniões da população local sobre suas
estadas, pois não há uma comunicação aberta entre as partes a esse respeito. Tudo
é muito exposto pelos cantos.
3.3 Mulheres que compram, dominação masculina e resistência criativa
Tornou-se visível, mediante às visitas a campo, a predominância de
consumidores, representados pelo ato tradicional da compra, baseada em mulheres.
De fato, a maior parcela de compradores presentes na feira livre de Murici é
representada por mães e donas de casa. Trata-se de uma atividade doméstica no
qual o homem não estaria ―apto‖ para tal. A consumidora Maria Madalena confirma o
enunciado. Ela é incisiva em dizer, quando questionada a respeito do marido
efetuando as compras:
―Horrível. Não compra nada que preste. Não pode chegar na feira e comprar
a primeira coisa que vê. Tem que andar, tem que escolher. Mas, ele tem
melhorado. Tem hora que compra umas coisas boas, tem hora que não
compra nada que preste‖.
O que dona Maria Madalena responde com entusiasmo pode se relacionar à
representação de um forte traço de dominação simbólica.
45
Figura 5: Mulheres comprando na feira livre de Murici
Fonte: de autoria do pesquisador
Pierre
Bourdieu
(2007)
discute
que
a
dominação
masculina
age
inconscientemente e de maneira sutil no indivíduo, sendo naturalizada nas relações
sociais, se justificando através das diferenças biológicas entre homens e mulheres, e
que é devidamente reconhecida pelos grupos dominados. A internalização dos
códigos de subordinação está, logo, associada à dinâmica de algumas instituições
sociais que trazem consigo a lógica masculina de dominação. A família constrói um
referencial de divisão sexual do trabalho, onde as mulheres se tornam
naturalizadamente responsáveis pelos afazeres da casa. A igreja e o Estado
reforçam as lógicas de incorporação dos valores patriarcais, limitando o espaço
feminino. A educação promove uma espécie de ―destino‖ das capacidades
intelectuais dos gêneros, promovendo uma hierarquização profissional. Todos esses
aspectos e determinações vão, aos poucos, construindo um habitus, que é por sua
vez, inconsciente. Logo, o nível de prestígio e poder alcançados pelo indivíduo e/ou
grupo é resultado da composição e estratégias de sobrevivência dos mesmos ao
adquirir e assimilar os diversos tipos de capitais no decorrer de seu trajeto de
construção histórica. A ação unificada deste conjunto na vida social determina
46
modos de ser, pensar e agir no mundo, disposições, práticas e discursos
socialmente incorporados, formando uma rede de disposições incorporadas, o
habitus.
Entretanto, de acordo com Michel de Certeau (2012), essa relação de poder
pode ser vista de uma maneira alternativa e criativa pelo dominado, neste caso, a
mulher que compra na feira livre em Murici. Através dos usos cotidianos que se faz
diante do jogo da dominação ao qual está impelido. Ou seja, é possível articular
maneiras, táticas e estratégias de sobrevivência mediante a dominação, se
apropriando da relação subordinadora, insurgindo silenciosamente, ao mesmo
tempo em que legitima a ordem dominadora, num processo que o autor define como
estratégias subreptícias.
Neste caminho, Maria Madalena, ao mesmo tempo em que reconhece
inconscientemente
as
representações
da
dominação
masculina,
negocia
criativamente com a estrutura e com os agentes dominadores inseridos nela. A
consumidora, dominada e relutante, se apropria dos códigos culturais e os
transformam a seu modo, ressignificando o espaço, os comportamentos e sua
própria vida. Isso é refletido por seu próprio discurso de que "o homem não sabe
comprar". Isto é, a mulher possui um conhecimento prático da compra, do que é
melhor para o consumo, invertendo neste universo e em dada medida, a ordem de
dominação. Logo, os entendimentos da mulher consumidora da feira no momento de
negociar acabam por se tornar predominantes, inestimáveis e inquestionáveis,
levando em consideração um conjunto de signos que são pessoais.
3.4 Produtos pirateados e o Desvio
A feira de Murici, quando tratamos aqui dos produtos não consumíveis –
celulares, roupas, materiais plásticos, CDs, DVDs, etc. –, é composta por um grande
número de mercadorias pirateadas. Longe do convívio legal e não reconhecido pelos
órgãos oficiais, este espaço da feira parece constituir uma espécie de desvio, um
tipo de comportamento que não segue uma composição de regras que é legítima.
No entanto, neste caso, diante do espaço que tomamos para discussão e
considerando os fluxos hegemônicos que podem ser destacados, o que seria
legítimo?
47
Howard Becker (2008) define os outsiders enquanto grupos que infringem
regras impostas, normas que apresentam aquilo que se deve seguir ou não,
julgando atitudes como erradas ou certas diante do contexto social. De acordo com
o sociólogo, todos os grupos, variando em relação às circunstâncias, estipulam
regras e tentam impô-las. O sujeito que infringe tais normas é criminalizado no
convívio ―comum‖, sendo considerado por todos aqueles pertencentes ao grupo, e
que de alguma forma seguem os padrões impingidos, um transgressor. Porém,
como é possível caracterizar o que seria errado ou certo num grupo social? De onde
surge esta ordem? Becker concentra seus esforços na questão do direcionamento
das representações. O indivíduo pode não ter o mesmo pensamento sobre a
situação pela qual está passando. Para ele, da mesma maneira que um membro de
um grupo pode ser vítima da estigmatização, pode também estigmatizar, isto é:
(...) pode não aceitar a regra pela qual está sendo julgada e pode não
encarar aqueles que a julgam competentes ou legitimamente autorizados a
fazê-lo. Por conseguinte, emerge um segundo significado do termo: aquele
que infringe a regra pode pensar que seus juízes são outsiders (BECKER,
2008, p. 15)
Um aspecto interessante a este respeito é observado na feira livre em Murici.
A compra e venda de artigos pirateados é tida como normal, como comum. A grande
maioria das pessoas que frequentam aquele espaço está mais ou menos exposta a
eles. No entanto — como observada alguma ocorrência em campo — quando uma
pessoa confessa comprar produtos originais, é logo tachado. Por muitas vezes, o
indivíduo em dada situação é alvo de questionamentos do gênero "ah, mas é
verdade que tu compra CD original?", seguido pelo "ah, mas tu é besta demais. Eu
compro aqui na banca, pago barato e tenho o mesmo produto que tu". Como nos
aponta Becker, há uma inversão do papel de estigmatizador, que só deve possuir
significado se associado a um contexto social.
Estas regras, carregadas de valores culturais, podem ser impostas tanto na
maneira formal/oficial — representada pela lei — tanto por condições informais,
estabelecidas a partir de uma construção histórica da tradição. Para que se possa
entender o que é desviante, no sentido do indivíduo que não compartilha de práticas
de dada sociedade, é necessário afastar-se dos valores de grupo, pois diversos
grupos consideram diversas atividades como sendo desviantes. Primordialmente
para Becker, o que se torna importante é que a vida em sociedade permite a
48
existência desses diversos grupos, cada qual com seu conjunto de valores e regras,
e mesmo que cada um deles não tenha a intenção de transgredi-las, acaba por fazer
por motivo de sua normalidade própria.
Figura 6: Produtos pirateados na feira livre de Murici
Fonte: de autoria do pesquisador
Na feira livre de Murici, quando abordamos os produtos pirateados, a
normalidade é determinada pelo contexto espacial e social do qual compartilha. Os
indivíduos que constroem evento, em convívio, tendem a consagrar o desvio, na
medida em que também o consomem. O consumo, por outro lado, pode ser
atribuído à baixa renda de seu público ou ao fato de não ser hábito comum adquirir
produtos legalizados. Logo, a prática deixa de ser algo transgressor e passa para o
universo da legitimidade, quando reconhecido por este mesmo público.
3.5 O campo e o “andar” pela feira livre
A instalação de uma feira livre numa pequena cidade do interior de Alagoas
denota algumas modificações no cenário do espaço urbano. Por um lado, aos
sábados, quando o evento tem maior evidência, as ruas que formam o perímetro da
feira são tomadas pelas bancas, barracas, vendedores ambulantes, etc., tornando
49
difícil qualquer tipo de locomoção (de automóveis ou passantes) semanalmente
típica daquele lugar. Por outro, a dinâmica do município se transforma brevemente,
onde o ritmo de movimentação torna-se frenético. São pessoas com pressa de
chegar logo, são veículos que vêm da zona rural em busca de produtos, são os
supermercados abarrotados por estes consumidores, associado a um barulho pouco
evidenciado em outros dias da semana. Neste caminho, é possível considerar a feira
livre definida também como um grande espaço de atração de pessoas e negócios.
O sábado — como presenciado nas visitas a campo — é a oportunidade para
vender aquela aparelhagem de balança antiga que não estava sendo utilizada ou o
moedor de cana-de-açúcar que não mais possui sentido comercial, assim como uma
diversidade de outros produtos. Foram observados diversos momentos em que
artigos como estes estavam postos nas portas das casas próximas à feira livre, bem
como foram avistados igualmente em seu percurso. A cidade acaba por se
transformar numa vitrine, em alguns pontos, onde qualquer coisa pode ser
negociada motivada pela necessidade de outrem, relação em que também o
mercado local se beneficia, ao passo que lhe é permitido um grande número de
vendas, sobretudo quando se destaca a população da zona rural que vai à cidade,
em muitos casos, uma só vez na semana.
Os finais de semana em Murici são alterados diretamente pela realização da
feira. Mais além, o sábado já se encontra habituado pelos usuários como o ―dia de
feira‖. É o dia do barulho, da inquietação, do cheiro, do ―sair de casa‖, dos sabores,
da exploração mais atenta dos sentidos contida numa rede de interações que
permitem níveis altos de aproximação sem tantas formalidades. Logo, a alteração,
além de material, é subjetiva. Da mesma forma, é o dia da curiosidade, do
―perguntar ao outro‖, o dia da ―confusão ordenada‖, termos bastantes utilizados por
alguns entrevistados nesta pesquisa. Corpos se misturam e se perdem ao mesmo
tempo num ambiente onde os processos de atenção precisam ser redobrados, pois,
caso não, o cliente pode perder o melhor produto ou, no caso do feirante, a
fidelidade do freguês. Para muitos, como no exemplo daqueles que vêm de regiões
mais afastadas do município, acaba por se tornar a oportunidade única na semana
para comprar a carne, os legumes, as frutas, os temperos, as roupas, trocar
utensílios já sem serventia para si, comprar animais, etc. Para outros, a feira se
configura como um espaço de diversão, uma área de lazer (MAGNANI, 2003) para
passar o tempo, sem qualquer contrato com a lógica do consumo no formato do
50
dinheiro (SIMMEL, 2013), mas que se apresenta como uma maneira de consumir
culturalmente o espaço de encontro, de pessoas conhecidas no cotidiano da cidade
ou não. Dona Maria Madalena, uma das entrevistadas sobre o tema, é categórica:
Há mais de 30 anos que eu frequento a feira livre da cidade. Frequentava a
feira com a minha mãe. Antigamente era melhor. Era maior a feira. Eu
gostava de andar na feira para ver as coisas. Às vezes, a pessoa nem quer
comprar nada, mas era bom andar, sair de casa, ver o povo se
apresentando na rua. Minha avó tinha um ponto de lanche onde eu, minha
mãe e meus irmãos a gente trabalhava. A gente vivia praticamente da feira.
Era uma época feliz.
Este aspecto, em alguma medida, pode indicar para uma suposta
proximidade típica dos atores da feira livre, que expõem as estruturas de
personalidade de seus indivíduos e torna a relação entre eles mais pessoal, em
detrimento de uma lógica monetária dos grandes centros urbanos, na qual a
indiferença permite uma "proteção" da individualidade pessoal (SIMMEL, 2013).
Os diversos níveis do trabalho na feira livre é algo também notável. Em uma
das andanças pesquisadoras pela cidade de Murici no dia de sábado é sempre
perceptível a presença dos carregadores, por exemplo, que auxiliam os
consumidores na locomoção de suas compras. São em grande maioria, menores de
idade31, que cobram a quantia máxima de R$6,00 para conduzir os artigos
adquiridos dos consumidores para qualquer parte da cidade. Após concluído o
serviço, ainda voltam para a feira, na intenção de conseguir mais trabalho e um bom
dinheiro para si. Muitos deles já ajudam na renda familiar. Eles estão sempre com
pressa, circulando, procurando novos clientes. Um outro exemplo, em diversos
pontos da feira, se trata dos muitos feirantes encontrados no espaço que são nativos
e possuem negócios locais. Pode-se citar os vendedores de frango, que recolocam
seus produtos num espaço que não os abatedores, estes abertos ao público durante
a semana. São perceptíveis também os mototaxistas da cidade. Com o passar dos
anos, essa categoria, que antes se limitava a uma pequena associação de
31
É importante ressaltar — até onde se observou na pesquisa de campo — que não há
acompanhamento de órgãos oficiais para a questão dos menores de idade enquanto trabalhadores
braçais na feira livre de Murici. Supõe-se que há um enraizamento da tradição tão amplo desta
função profissional na dinâmica do evento — tanto na figura da prefeitura municipal, nos feirantes e
nos consumidores — que não é aberto um espaço devido para se discutir a questão. Da mesma
forma, é preciso levar em consideração a necessidade destes trabalhadores em exercer o cargo
(conhecido popularmente como "carrego") para complementar a renda da família ou, em alguns
casos, como fonte de dinheiro extra.
51
motoqueiros informalizados, ganhou bastante espaço profissional entre as pessoas
que consomem da feira. A intenção destes últimos em utilizar os serviços
automotivos seria a melhor capacidade e velocidade de locomoção por um preço
bastante acessível, de acordo com relatos fornecidos pelo campo. Isto não implica
dizer que os carregadores foram abandonados, uma vez que integram uma forte
tendência tradicional de serviços.
Neste contexto, em todo o percurso da feira livre de Murici, é perceptível nas
falas e nos gritos dos feirantes a especial pessoalidade entre eles. De fato, parecem
se conhecer bem, condição representada por uma simples brincadeira que aos olhos
do pesquisador não possuem sentido, até mesmo nas discussões sobre os produtos
que vendem. O primeiro caso, podemos interpretar a partir do que Elias (2000) diz a
respeito da lógica da rede de relações, da interdependência entre as partes, da
figuração. A partir do momento em que escuto algo, em que vejo uma situação, em
que apreendo uma conversa, mas não identifico um significado, um sentido, isso se
relativiza à interdependência entre dois grupos aos quais não estou totalmente
integrado, o que acaba por se tornar estranho para o pesquisador.
A feira, mesmo com a intervenção de organização por parte da prefeitura
municipal — que pretendia com a transferência do domingo para o sábado promover
um esvaziamento de feirantes externos — ainda comporta feirantes de outras
cidades em grande escala. É aberta uma conversa com um deles, Sebastião, mais
conhecido por seus companheiros de profissão como ―Basto‖ — talvez o feirante que
me rendeu maiores informações e que garantiu maior proximidade. Porém,
Sebastião não está ali trocando informações propriamente sobre a feira. O único
aspecto que chama a atenção sobre esta é o seu relato relacionado ao dia ruim de
vendas atribuído àquele sábado e que teria que vender o excedente da produção em
outra cidade da qual também participa do evento comercial — a saber, União dos
Palmares, cidade vizinha à Murici e sua terra natal — e que acontece quatro vezes
semanalmente. Sebastião fala aos montes e a preferência é não o interromper, a fim
de aproveitar aquele momento de tantos contos e resgatar alguma coisa. Ele relata o
momento difícil pelo qual passa a cidade onde reside, momento social e econômico,
envolvendo denúncias de corrupção política e breves movimentações populares
contra seu prefeito, o que, de acordo com ele, afetaria a feira daquele lugar
diretamente. Afirma que as pessoas não podiam comprar alimentos com os
altíssimos preços impostos pelos supermercados. De acordo com ele, uma situação
52
revoltante que mobilizou a população contra o prefeito acusado de lavagem de
dinheiro. Logo, começa a falar de seu filho, que também era feirante, mas que havia
se afastado da feira para dedicar-se aos estudos. De acordo com Sebastião, seu
filho participara de uma operação da Polícia Civil de Alagoas que apreendera uma
série de documentos do prefeito supramencionado. Ele havia se formado em direito,
estudado, diferente de seu pai, que não tinha muito aprendizado da escola formal.
No entanto, todo o apoio fornecido para a formação acadêmica do filho de Sebastião
saiu do ―suor da feira‖, do "trabalho duro". Em um tom de fala orgulhoso, ele destaca
sua atuação na feira livre:
Comecei a vender farinha com 13 anos. Hoje tenho 58. Faz as contas aí.
Comecei com meu pai. Depois, passei para os meus filhos, mas depois eles
quiseram deixar porque se melavam demais. Aí eles foram estudar, fazer
faculdade. Hoje, o mais velho é policial. Mas antes tava aqui comigo. Eu
gosto de participar da feira sim. Até porque não dá tanto dinheiro.
Antigamente, dava dinheiro vender farinha. Hoje, os mais jovens não
gostam. Acho que feira é coisa de velho mesmo, de quem gosta da
dificuldade. Antigamente dava mais dinheiro por causa das usinas que
ficavam perto do município, né? Essas usinas chamavam gente.
Trabalhador vinha de todo lugar. Com o fechamento das usinas, o pessoal
se espalhou. Eu vendia a R$7,00 o quilograma da farinha. Hoje, vendo a
R$4,00 justamente porque não tem a quem a vender. Eu sou aposentado,
ganho mais de R$2,000,00 por mês. Com esse dinheiro comecei a ajeitar o
sítio que minha esposa herdou do pai e que garante o nosso sustento. Por
isso, eu digo que gosto do que faço, como falei neste instante, e não deixo
essa ocupação por nada. Às vezes, até brigo com a minha família, porque
eles querem que eu deixe. Me oferecem até dinheiro, mas não vou deixar
por nada. Me criei aqui. É uma vida aqui dentro, seu moço.
Esta conversa reflete bem o nível de pessoalidade presente na feira livre que
se propõe parcialmente neste trabalho. Sem nunca ter visto o entrevistador,
Sebastião relatou suas derrotas e vitórias na vida, de maneira espontânea, quase
não fornecendo espaço para questionamentos, caso bastante comum naquele
ambiente. Igualmente, este relato, assim como evidenciado em outras entrevistas,
denota que o caráter tradicional da feira livre — quando tratamos o costume e a
monocultura passados de pai para filho — se inscreve no mundo da cultura do
trabalho, mesmo que, como aponta E. P. Thompson (1998) e Denys Cuche (2002), a
cultura não esteja sujeita inteiramente à lógica da tradição. A feira livre, ademais,
nas figuras de alguns usuários, pode ser definida enquanto um estilo de vida, uma
vez que perpassa todos os momentos de suas trajetórias e constrói formas de
perceber e reinterpretar o mundo a sua volta.
53
Andando mais um pouco pela feira de Murici, encontro outro feirante, um
amigo que conheço desde muito cedo, desde a infância. O final da rua João Ferreira
Lopes era o seu lugar, semanalmente o mesmo lugar, o seu espaço delimitado pelas
linhas amarelas da prefeitura, as regulações (CAIAFA, 2008).
Depois de algumas várias visitas à feira livre, Isis Oliveira tornou-se uma
espécie de ―assistente―, onde sempre me apontava os sujeitos ―conversadores‖ do
local, "os mais antigos" e que poderiam ter informações preciosas a respeito do
funcionamento da feira livre de Murici, assim como me falava seus causos, como no
dia em que ocorreu o homicídio32 em outubro de 2013 e sua reação perante ao
medo e ao desespero das pessoas. Isis, num primeiro momento, logo me vê
perambulando pelo interior da feira e grita tentando chamar minha atenção,
questionando o que estava fazendo. Respondo à sua dúvida afirmando que aquilo
fazia parte de uma pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso para a
Universidade Federal de Alagoas, cuja temática norteava a feira da cidade. Ele me
pergunta o que quero saber. Percebendo a disposição de Isis, começo a fazer
algumas indagações, mesmo sem saber muito como proceder, uma vez que este
momento se tratava de uma das primeiras idas a campo.
Embasado pelos escritos de Minnaert (2008) sobre a feira livre do Japão, em
Salvador-BA, busco estabelecer uma espécie de comparação entre os polos,
tentando encontrar alguns aspectos comuns. Minnaert fala sobre a estigmatização
verificada
entre
os
vários
grupos
presentes
naquele
lugar,
destacando
especialmente a forma como fiscais e agentes municipais observam os feirantes, e
vice-versa. Na feira do Japão, feirantes e fiscais convivem numa condição
conflitante, uma vez que os primeiros se sentem invisíveis pela ação estatal, mas
quando são vistos, sempre são acompanhados pela punição e pela regulação. Ao
mesmo tempo, os agentes municipais menosprezam a existência dos feirantes,
dirigindo-lhes adjetivos como ―pobres‖, ―sujos‖, ―bagunceiros‖. Por outro lado, o
próprio feirante associa a feira e a si mesmo à pobreza. Isso, conforme Minnaert,
está muito relacionado à marginalização, quando o sujeito não encontra apoio no
Estado de direito. O sentimento de exclusão gera o estigma de si próprio. Por este
motivo, feirantes caracterizam a feira como ―coisa de pobre‖, numa clara
desigualdade na ordem do poder. Automaticamente, questionei-me: será que existe
32
Fonte: http://www.alagoas24horas.com.br/500479/apos-triplo-homicidio-tiroteio-em-murici-deixaum-morto-e-dois-feridos/
54
essa mesma lógica de ataque na feira livre de Murici? Aparentemente, o peso da
marginalização relacionado ao Japão não é o mesmo relativo à feira do interior do
Estado de Alagoas. Fornecerei maior sentido adiante.
Isis afirma que há dois tipos de fiscais em Murici — surpreendendo minhas
expectativas, pois acreditava existir apenas um — que circulam dentro do ambiente
da feira e que passam pelas bancas uma vez ao dia, num determinado horário,
geralmente por volta das nove horas da manhã, recolhendo o imposto no valor de
R$2,00 cobrado pela prefeitura municipal, através da Secretaria de Finanças, tributo
exigido pelo espaço público cedido aos feirantes.
Figura 7: Comprovante de pagamento de imposto cedido por um dos feirantes
Neste esquema, um grupo de agentes municipais fica responsável pelo
policiamento — Isis afirma que antes este cargo era desempenhado pela Guarda
Municipal de Murici —, e o outro grupo se resigna a arrecadação da quantia e
fiscalização da qualidade dos produtos e nível higiênico das bancas. O mais
pertinente nesta relação é que os agentes que integram o corpo policial não são
nativos de Murici. Eles pertencem, de acordo com alguns feirantes, a outros corpos
policiais de cidades circunvizinhas. E, ademais, suas permanências e atuação nas
feiras municipais são rotativas, ou seja, um mesmo agente não pode ―destacar‖
55
numa mesma feira dois ou três dias consecutivos, o que dificulta o ―facilitar‖ — "o
jeitinho", "o arrumadinho", de acordo com relatos — no momento fiscalizador. Essa
ordem quebra, em certa medida, com a lógica da pessoalidade intrínseca da feira. O
―estranho‖ ganha novamente evidência por alguns instantes.
Segundo Minnaert (2008), além de um espaço onde é possível negociar
serviços e produtos com base nas regras do trabalho informal, a feira livre também
significa interação, um lugar de conversa e encontro, e as cidades interioranas,
como já explicitado no princípio deste trabalho, consagram-se enquanto unidades
propícias para maior estreitamento dessas relações, uma vez que sugerem altos
níveis de comunidade, onde a lógica de funcionamento permite que seja mais
consistente e mais interligada (ELIAS, 2000). A presença do agente policial outsider
— que geralmente não compartilha desse ideário local, desse estilo de vida —
modifica visões e comportamentos naquele espaço. Por outro lado, os agentes
imbuídos da cobrança do imposto são residentes na própria cidade, geralmente
conhecidos dos feirantes. Isso remonta a ideia de confiabilidade, tanto dos atores da
feira livre quanto da prefeitura municipal. Isto é, quando se trata do dinheiro
recolhido, é mais confiável destinar o cargo a pessoas da cidade que podem
transferir mais facilmente a quantia arrecadada à Divisão de Tributos da Secretaria
de Finanças, ao passo que indivíduos conhecidos pelos feirantes tendem a ter
―melhor trato‖ na relação com os mesmos. Isis reconhece que a existência da
categoria policial no espaço da feira é para ―intimidar‖, para pressionar o pagamento,
para que a ―ordem‖ se estabeleça. Minnaert lembra da função policial na feira do
Japão:
Na feira do Japão, as ações de fiscalização são realizadas pelos Agentes
de Fiscalização do Meio-Ambiente e Serviços Públicos, da Secretaria
Municipal de Serviços Públicos (SESP), o rapa, como são conhecidos. Para
os feirantes do Japão, o rapa representa o Estado, o poder dominante que
sufoca, oprime, regula, protege e impõe seus símbolos. Sua ação
desencadeia sentimentos que vão da revolta ao conforto (MINNAERT,
2008, p. 137)
O desconforto identificado nos discursos dos entrevistados em Murici —
apesar de não possuir a mesma significação e representação do desconforto gerado
nos feirantes do Japão e em outras feiras — revela também constrangimento. Isis
relata o caso de um ambulante, dono de um carrinho de salgados, que foi impedido
56
publicamente de comercializar seus produtos naquele espaço. O motivo dado pelos
agentes de fiscalização seria de que ele ―era irregular‖, ―não era dali‖ e que deveria
se adequar a ordem. Porém, as conversas que circulam nos burburinhos da feira é
de que o ambulante foi retirado simplesmente porque seu carrinho propagava muita
fumaça, incomodando consumidores. Após se adequar a norma do espaço
transformado, ele poderia retornar. A desordem, tão fundamentalmente atribuída a
feira livre, é combatida — de maneira breve, pouco abrasiva e muitas vezes
despercebida — pelas normas impostas pela prefeitura municipal, provocando certa
apreensão com a chegada dos fiscais. O processo de padronização, discutido
adiante, poderá, contudo, transformar mais abruptamente essa realidade.
Com as enchentes do ano de 2010, que afetaram boa parte do Estado
alagoano, a feira apropriou-se de um novo espaço. Antes acontecia aos domingos,
na parte baixa da cidade, num perímetro mais amplo, que abrangia a Avenida
Manoel Fernandes, a Rua do Comércio, a Rua Floriano Peixoto e a Travessa
Gastão Tenório. Contudo, após os eventos climáticos daquele ano, os conhecidos
―mercado de farinha‖ e ―mercado de carne‖, partes fundamentais até então do
esquema da feira, foram danificados. Enquanto a lama remanescente da inundação
ainda cobria a parte baixa de Murici, a feira livre passou a ser realizada onde é hoje,
no bairro do Campo Grande, especialmente na Rua João Ferreira Lopes, num
primeiro momento de maneira provisória. À época, neste mesmo período de
calamidade, relatos apontam o quão chocante foi para a população consumidora da
feira perceber que o gado, cuja carne iria diretamente para suas mesas, estava
sendo morto e tratado em plena via pública, por motivo de o matadouro da cidade
também ter sido destruído pela enxurrada. Atualmente, a situação é menos
assustadora. As carnes são vendidas na própria banca, que é feita de madeira, fato
que, ainda assim, preocupa alguns consumidores. Conversando com um deles, me
relata que até mesmo ratos se proliferam onde são guardadas essas unidades
comerciais.
É importante observar que grande parte dos feirantes entende como positiva
a modificação espacial da feira. Para estes, se ganhou maior visibilidade e a ela foi
proporcionada ampla abertura a outros grupos etários que não possuíam
possibilidades de locomoção para a antiga localização, longe da parte central da
cidade. Grande parcela destes feirantes exerce a função desde muito cedo, numa
relação tradicional, processo onde se transmite códigos, formas de comportamento.
57
É o caso do próprio Isis Oliveira, que acompanha seu pai desde os oito anos de
idade. Mesmo crescendo e adentrando em uma universidade pública, não deixou de
participar da feira. Este é um ciclo que vem tomando forma nos últimos anos: a feira
livre não é mais lugar somente para pessoas que supostamente não teriam
instrumentalização educacional suficiente para ocupar cargos do circuito superior,
como afirma Sato (2007)33. Mas, assim, os dois universos do trabalho, tanto o
circuito supramencionado quanto o circuito inferior estão agora entrelaçados.
A condição da venda dos produtos é bastante variante na feira livre de Murici.
A relação de fidelidade possui uma constância considerável. Os vendedores
atribuem à qualidade do produto a possibilidade de determinado consumidor
estabelecer essa conexão, mas também considera a maneira como o vende
substancial. Os gestos, a forma como aborda, o ―precinho camarada‖ são atributos
de venda para conseguir "a amizade" do passeante, a aproximação. Logo, em
muitas ocasiões no sábado, o consumidor sempre procura primeiro o feirante de sua
confiança e, quando este por algum motivo não está presente, sente falta, pergunta
aos outros por aquele, traduzindo um vínculo. Entretanto, esta não é uma regra
geral. Há também feirantes que não percebem na relação de venda uma fidelidade.
João Fernandes, vendedor de frutas e legumes, afirma que a feira é uma ―tradição‖,
que as ―pessoas frequentam a feira porque gostam‖, porém aponta que não existem
tipos de exclusividade de venda, mas sim a procura pelo preço mais acessível:
Os clientes são bons, mas não tem nenhuma fidelidade. O cliente compra
na banca que for mais ―bonita‖, com os produtos de mais qualidade.
Fidelidade depende de muita coisa, e também da forma como o produto
está sendo vendido. Mas acho que é isso que eu lhe disse, moço. O cliente
escolhe o melhor produto. Pra mim, não existe isso de fidelidade.
Seu Sebastião, com quem já conversei anteriormente neste trabalho, no
entanto, tem uma visão um pouco diferente:
33
Sato (2007), se utilizando de Milton Santos, afirma que existem dois tipos de atividade econômica
nas metrópoles, mas que podem, em menor grau, nos fornecer um norte e ilustrar sobre a lógica
comercial do interior: o circuito superior, que se interliga às formas de comércio "modernas",
caracterizada pelo uso de tecnologia e técnicas mais especializadas, visando a acumulação de
capital e orientado por uma dinâmica econômica externa, tendo seus produtos direcionados às
classes média e alta; o circuito inferior, por sua vez, caracteriza-se por direcionar suas forças à
população e economia locais, utiliza técnicas de tratamento não avançadas e a intenção econômica
dirige-se às camadas populares, visando a sobrevivência. ―Por ser hegemônico, o 'circuito superior'
da economia orienta as regras para o funcionamento do ―circuito inferior‖ também, o que pode ser
sentido como uma convivência tensa‖ (SATO, 2007, p. 96).
58
Rapaz, eu sempre me perguntei por quê as pessoas vêm pra feira, sabe?
Eu acredito que seja pelo preço das coisas, que quase sempre são
produzidas aqui pelo cara da terra, pelo plantador. Não tem imposto nem
nada. O cliente paga o que é. E também o plantador sabe o que fazer com o
produto. Ele cuida bem, o que dá qualidade. Acho que é isso: preço e
qualidade. Algumas pessoas também vêm porque tem fidelidade com algum
vendedor, vem pela amizade. Muitas vezes, quando alguém não vem, fica
estranho.
Entretanto, apesar de Seu Sebastião destacar esta "amizade" presente em
alguns tipos de relações de compra, ele também explicita o conflito existente quando
o consumidor em questão rompe com dadas regras contidas neste vínculo de
fidelidade. Ele afirma:
A gente tem uma fidelidade a partir da qualidade do produto que a gente
vende. Se a qualidade ―tiver‖ ruim, eu entendo se não comprar. Mas, tem
cliente que compra ―fiado‖. Isso é ruim. Pior é aquele que compra fiado
comigo e compra à vista com os outros. Pior gente. Você trabalha pra trazer
um produto bom e a pessoa faz um negócio desse. É desrespeito.
Outro aspecto interessante evidenciado neste movimento pela cidade de
Murici
e
sua
feira
foi
o
encontro
com
entendimentos
quanto
à
formalização/padronização proposta pela prefeitura municipal. A este respeito, há
certa resistência por parte de alguns feirantes quanto a instauração do processo.
Não unicamente como forma de driblar o sistema produtivo padrão e fugir das
limitações impostas por ele, como destaca Minnaert, no caso da feira baiana do
Japão. Em Murici, existem motivos bem mais específicos. Muitos desconfiam das
intenções de certo político da cidade, responsável direto pela organização daquele
espaço e que, no passado, havia tido uma péssima administração, prejudicando
muita gente, de acordo com alguns relatos. A desconfiança é propagada pela fofoca,
que deprecia e aumenta a eficácia da condição deste político em relação aos
feirantes. Elias observou em Winston Parva a mesma lógica em que os burburinhos,
conversas entre pessoas que integram uma mesma camada social, acabam por
modelar entendimentos sobre coisas e sujeitos.
A feira livre de Murici também aparece no ambiente urbano como pertencente
ao campo de trabalho informalizado. Este setor possui algumas desvantagens, pois
59
integra um ramo produtivo que detém de variação de rendimentos, ausência de
cobertura no que diz respeito ao assistencialismo social, ausência do amparo legal,
etc. Todavia, as vantagens se sustentam na ideia de a ocupação não exigir
credenciais educacionais, de estipular para o feirante um horário de ofício flexível,
de não atender a uma disciplina do trabalho, apesar de encontrar sustentação em
formas mais ou menos difíceis de exercer a profissão, e ser um amplo universo de
agregação de pessoas que teriam ocasionalmente dificuldades em encontrar
empregos no setor formalizado. Entretanto, Renato Antônio, comerciante de frutas e
legumes há 21 anos em Murici, é incisivo ao definir o período como ―um tempo de
experiência feirante" e de prática que, de acordo com ele, é irreversível. O vendedor
afirma que não deixaria a feira por nada. É dali que sai seu sustento e é considerado
por ele um emprego fixo, que sempre gera renda. Este feirante estabelece uma
comparação entre a feira livre, livre da padronização, e profissões formalizadas,
apontando para estas como ―temporárias‖. Diz Renato:
Tem um rapaz aí amigo meu que deixou a feira por um tempo e foi trabalhar
na usina Lajinha pensando que poderia ganhar mais dinheiro. A usina
fechou e ele ficou desempregado. Voltou pra feira e disse que nunca mais
sai daqui.
A Prefeitura Municipal de Murici, de acordo com informações recolhidas junto
à sua secretaria de Indústria, Comércio e Turismo, no entanto, trabalha num projeto
de padronização dos profissionais da feira livre, a ter início ainda em 2015, de
acordo com o agente de desenvolvimento Jamerson Pereira, o que poderia vir a
modificar a realidade do evento. O projeto implicaria na construção de barracas
padronizadas, uniformização dos feirantes, higienização do espaço, formalização
profissional, etc. Jamerson afirma34:
A partir de Janeiro de 2015 a etapa de licitação para a construção dos
galpões comerciais – sendo três: um de farinha, um de carne e um de frutas
e legumes – e a organização de um espaço que reunirá cerca de 650
feirantes em barracas padronizadas estará concluída. A previsão é que a
partir de fevereiro (do mesmo ano) as obras se iniciem. É possível que no
fim do ano estará tudo pronto e funcionará no novo Conjunto Pedro Tenório
Raposo, num espaço ao lado do futuro Instituto Federal de Alagoas (IFAL),
que também está em construção. A prefeitura cobra o imposto de
funcionamento, aos sábados, pela ocupação do espaço público. Mas, com a
padronização, o feirante local, devidamente cadastrado na prefeitura, estará
34
Entrevista cedida em Dezembro de 2014.
60
isento dessa cobrança, o que é permitido por ser um local fixo. A
necessidade de organizar a feira livre surgiu de uma demanda de qualidade.
Havia uma desorganização muito grande, associada a uma falta de higiene
grande. Esta realidade até agora ainda vigora. A padronização viria para
acabar com isso. Visitamos a cidade de Arapiraca, já padronizada e pioneira
quando se trata deste assunto. Fomos até lá, com outras secretarias de
outros municípios, para ver como funciona e tentar aplicar aqui. Na
realidade, já no ano de 2004 se pensava na padronização, mas foi em 2010,
após a enchente, que isso ficou mais emergencial e o recurso junto ao
governo do Estado foi aceito.
Nesse caminho, há duas visões distintas por parte dos feirantes a respeito do
processo de padronização da feira livre em Murici, de acordo com material discutido
em entrevistas: primeiramente, alguns dos comerciantes se demonstraram
contrários, ao passo que, segundo estes, o processo limitaria o evento, reduzindo os
níveis de liberdade vivenciados e evidenciados ali, como a padronização de
uniformes e tipos de unidades de vendas (bancas, barracas, etc.), bem como a
proibição de alguns itens, como as bebidas alcoólicas. Assim, os comportamentos
lúdicos, que encontram na feira livre um espaço de lazer, seriam gradativamente
reprimidos, de acordo com essas visões. Por outro lado, há aqueles que entendem o
processo de padronização como uma transformação do espaço, sobretudo quando
se referem aos problemas da higiene e aos recorrentes casos de violência. Marcelo
da Silva, vendedor de frutas residente em União dos Palmares e feirante desde os 7
anos de idade, por exemplo, assume a insuficiência quanto a segurança no local.
Seguindo alguns de seus companheiros de profissão, o feirante afirma:
Sempre tem uns pipocos (tiros) aqui, principalmente de madrugada. Já
mataram dois nos últimos meses. Isso é ruim porque você trabalha com
medo, não tem tranquilidade. Imagine ter todo esse serviço durante a
semana e você não pode nem tirar um cochilo em paz no caminhão. É
tenso.
Marcelo, no entanto, ressalta que com a movimentação da guarda municipal
há alguns meses ali, o ambiente passou a ser mais seguro, porém sempre
acontecendo um ato de violência ―aqui ou ali‖, onde ―a pessoa tem que estar sempre
atento‖, complementando com a lembrança da morte ocorrida em pleno ―mar de
gente‖ em outubro de 2013, fato bastante comentado em Murici. A Secretaria de
Indústria, Comércio e Turismo, por sua vez, afirma que semanalmente é enviada
uma solicitação formalizada a Polícia Militar de Murici para que se efetue a
61
segurança no local. Em parte, é papel da PM, não somente da prefeitura. Por outro
lado, a prefeitura também disponibiliza a guarda civil todo sábado, já que se trata do
espaço público municipal.
Jamerson Pereira, em um momento em que o tema da entrevista cercava
produtores e os vendedores, afirma que não há possibilidade de analisar e organizar
a feira livre da cidade de Murici de maneira isolada. É sempre possível estabelecer
conexões com outras feiras populares pertencentes a municípios circunvizinhos,
uma vez que a maioria dos feirantes estabelecidos na cidade são externos, como
demonstra o gráfico abaixo, com base em informações obtidas junto a Secretaria:
Figura 8: Informações obtidas a partir de entrevista com Jamerson Pereira, agente de
desenvolvimento locado na Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo de Murici
Discriminação dos feirantes existentes na
feira livre de Murici
15%
Feirantes locais
Feirantes externos (naturais ou
residentes em outras cidades)
85%
Fonte: de autoria do pesquisador
Dos 650 feirantes contabilizados pela prefeitura, apenas 15% reside em
Murici. A padronização da feira livre - desenvolvida pela parceria entre a Secretaria
de Indústria, Comércio e Turismo, o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e
Pequenas Empresas) e a associação dos feirantes de Murici 35 — viria também na
intenção de motivar a preferência pelas camadas que compõe esse grupo, tratando,
sobretudo, dos pontos relacionados à regulamentação do espaço e o sociativismo,
35
Associação que, até a construção deste trabalho, ainda se encontrava em formação.
62
como aponta Jamerson. Entretanto, tal projeto, no decorrer de sua construção, ainda
não considerou o impacto simbólico que sua aplicação poderia causar. Ele pode se
defrontar, no caminho, com o que Elias define como efeito de trava:
Ao estudar os processos de desenvolvimento social, defrontamo-nos
repetidamente com uma constelação em que a dinâmica dos processos
sociais não planejados tende a ultrapassar determinado estágio em direção
a outro, que pode ser superior ou inferior, enquanto as pessoas afetadas
por essa mudança se agarram ao estágio anterior em sua estrutura de
personalidade, em seu habitus social. Depende inteiramente da força
relativa da mudança social e do arraigamento — e portanto da resistência
— do habitus social saber se e com que rapidez a dinâmica do processo
social não planejado acarretará uma reestruturação mais ou menos radical
desse habitus, ou se a feição social dos indivíduos logrará êxito em se opor
à dinâmica social, quer tornando-a mais lenta, quer bloqueando-a por
completo (ELIAS, 1994, p. 172).
Esta possibilidade de os membros de determinada organização grupal
imporem uma barreira — construída a partir do habitus social — no decorrer da
mobilidade social e no bojo deste desenvolvimento humano é um aspecto comum
frente aos processos integradores. Na feira muriciense, mesmo em se tratando de
universo menos complexo do que aqueles analisados por Elias — a saber, das
dinâmicas de desenvolvimento social de unidades mais tradicionais para unidades
nacionais e supranacionais — o conceito pode ser relativamente aplicado. Para
alguns de seus membros, a feira livre compõe o habitus social, a construção da
história individual e coletiva, a
identidade-nós e que está perfeitamente
correlacionada com a identidade individual.
Neste sentido, é preciso ter cautela quando se sugere um processo,
teoricamente, impactante no sistema de funcionamento da feira livre de Murici. Este
tipo de modificação pode atender brevemente aos regulamentos municipais (e de
muitos consumidores) e esquecer das lógicas de trato, de construção dos feirantes.
Não interpretando aqui que a limitação quanto à higiene, por exemplo, seja algo
positivo, porém perceber a questão do movimento histórico que moldara esses
grupos e que construíram estratégias de comportamento é essencial.
Os tratos higiênicos, por exemplo, efetivados por parte dos feirantes em
Murici, em convergência com o que diz Márcio Nicory Costa Souza (2012), podem
ser definidos como estratégias e invenções (CERTEAU, 2012) que não respondem
às normas sanitárias municipais, mas sim ao próprio código pessoal do mercado.
Muitos destes feirantes, além disso, aceitam a própria ideia particular de higiene,
63
menos rígida, mas que atende perfeitamente ao seu universo. Um exemplo em
Murici são os isolamentos de diversas barracas de carnes, que deixam somente a
parte frontal às vistas do consumidor. No entanto, tal ordenamento não garante a
higiene total, mas representa uma preocupação, um estado de transmitir ao
consumidor a qualidade e o bom tratamento do produto. O esforço para sempre
deixar a banca ―mais bonita‖ é destacável. Mesmo num ambiente onde se percebe
um ―caos‖, as tentativas de organização criativa do espaço são também visíveis,
desde o vendedor de cereais, que está frequentemente mexendo a farinha ou feijão
com a ―cuia‖ para que os novos e também os "fiéis" clientes percebam ―a brancura‖
ou ―a limpeza‖ – palavras de Seu Bel, feirante em Murici – até os comerciantes de
carnes, que tentam a todo custo retirar as moscas que atentam contra sua
mercadoria, cuidado traduzido, igualmente, pelas folhas de papel que cobrem a
superfície que hospedam as carnes. Neste mesmo caminho, os feirantes de frutas e
legumes possuem um tratamento particular quanto a aparência dos produtos da
feira. É naquela parte da feira, a parte destes vendedores, que há mais trato, mais
―formas artísticas‖ de manusear e classificar os artigos, como ordem por cor ou
tamanho, a partir de um esquema individual.
De acordo com Souza (2012), a pureza/impureza é relativa também à
expectativa de encontrá-la em determinados espaços. A partir de meios de
comunicação visuais e de conhecimentos promotores da expectativa, se espera
encontrar a sujeira na feira. O impacto causado pela sujeira no indivíduo, mesmo
que inexperiente naquele ambiente, se torna raro, o que se alterna quando tratamos
de centros comerciais padronizados, como é o caso dos hipermercados. Ali, quando
identificada a impureza, logo surge um funcionário para sanar a sujeira, devolvendo
o ritmo intolerante aos constrangimentos distintivos. A intolerância e a repugnância,
ademais, está interrelacionada à expectativa gerada pela lógica do lugar,
impregnado por um conjunto de sentidos relevantes a seu contexto.
Quando os feirantes manipulam os alimentos da forma ―não oficial‖, que não
atende à visão de outrem, está sujeito a sofrer punições. Estão fora da ordem
estabelecida pela lógica dominadora e precisam ser vigiados. No entanto, estes
comerciantes também possuem estratégias performáticas para driblar este controle
e para consolidar seu entendimento das coisas.
64
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os objetivos que tentei buscar inicialmente nesta pesquisa giravam em torno
dos tipos de relações existentes entre sujeitos e espaço construído na feira livre de
Murici. No mesmo sentido, se procurava compreender que condições de
sociabilidade poderiam ser encontradas no evento — aparentemente comercial —,
ao passo que estas questões estariam sustentadas pelos entendimentos de
consumidores e vendedores sobre a feira.
Considerando tais questionamentos, a feira livre se apresenta como um
equipamento de serviço (CAIAFA, 2008) substancial para a cidade de Murici. Fonte
tradicional de abastecimento, o evento fornece assistência a população consumidora
da cidade e oportunidades aos feirantes locais e estrangeiros. No entanto, se
configura enquanto um espaço também de trocas de informações e de lazer
(MAGNANI, 2003), que geralmente é destinado aos indivíduos advindos de
comunidades mais afastadas e, em certo sentido, pode ser relacionado à alguns
sujeitos pertencentes à área urbana do município.
Diversos feirantes consideram a feira um estilo de vida, uma vez que se
apropriam dela de alguma forma e estão estreitamente ligados de maneira histórica
àquela atividade comercial e ao próprio universo de relações. A partir deste aspecto,
se construiu uma rede de comportamentos, de entendimentos profissionais e de
apego ao ofício, apesar de — em múltiplos casos observados — este não constituir
uma fonte ampla de renda individual. Outros sujeitos interpretam a feira como único
sustento da família. Neste contexto, a feira de Murici tem uma relação histórica com
seu povo. Isso remonta uma série de interações que existiram no passado e se
reinventam diariamente.
No conjunto dessas relações, na condição de estar presente neste lugar
construído (CERTEAU, 2012), se edificam redes de proximidade, que podem se
apresentar de uma maneira comunicativa mais branda ou com base numa recusa de
comunicação, como nos mostra Caiafa (2003; 2008) a respeito das formas que
estruturam o espaço enunciativo e expressivo da urbanidade. Da mesma maneira,
se pôde identificar tipos de relações entre sujeitos e a organização reguladora do
espaço proposta pela Prefeitura Municipal de Murici, as compreensões a respeito
65
das exigências contidas nesta ordenação e as modificações quanto a modelos de
comportamento dos indivíduos diante disto.
Portanto, por mais que a feira livre de Murici esteja inserida de forma prática
no universo comercial e econômico da cidade, a análise de seu funcionamento
enquanto fenômeno urbano necessita estar colocada no conjunto estrutural em que
estas interações face a face ocorrem. Logo, não se pode aniquilar as lógicas dessas
interações a partir de uma abordagem sobre "negócios", apesar de também este tipo
de atividade estar igualmente presente no ambiente. É arbitrário, contudo, observar
o evento apenas sob a medida numérica, desconsiderando as trajetórias de vida
específicas, as dinâmicas do espaço e a relação desses fatores com o grupo de
regras institucionais, que alteram percepções e entendimentos com certa frequência.
A feira livre de Murici, para seus integrantes, compõe — além de um meio que
parcialmente estrutura a dinâmica financeira e ressignifica a disciplina do trabalho —
um modo de viver, onde as estratégias de sobrevivência no ambiente determinam a
direção das relações.
Esta pesquisa em Murici pretendeu dar o pontapé inicial para que outras
iniciativas no mesmo caminho surjam futuramente, priorizando as pessoas e os
relatos que elas produzem historicamente e que edificam a feira livre. Um primeiro
passo, mesmo que ingênuo, interessado nas regras funcionais dos fenômenos
tocantes ao município muriciense e a essas categorias pouco estudadas.
66
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