Memória dos festejos de padroeiros: uma apresentação sobre folguedos de Boca da Mata-AL
Discente: Edjamir da Silva; Orientador: Silóe Soares de Amorim.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS-UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS- ICS
CIÊNCIAS SOCIAIS LICENCIATURA
EDJAMIR DA SILVA
MEMÓRIA DOS FESTEJOS DE PADROEIROS:
UMA APRESENTAÇÃO SOBRE FOLGUEDOS DE
BOCA DA MATA- AL
MACEIÓ- AL
2015
EDJAMIR DA SILVA
MEMÓRIA DOS FESTEJOS DE PADROEIROS:
UMA APRESENTAÇÃO SOBRE OS FOLGUEDOS
DE BOCA DA MATA- AL
Trabalho de conclusão de curso apresentado ao
Instituto de Ciências Sociais da Universidade
Federal de Alagoas, como requisito parcial para a
obtenção do grau de Licenciado em Ciências
Sociais.
Orientador: Prof. Dr. Siloé Soares Amorim.
MACEIÓ- AL
2015
EDJAMIR DA SILVA
MEMÓRIA DOS FESTEJOS DE PADROEIROS:
UMA APRESENTAÇÃO SOBRE OS FOLGUEDOS
DE BOCA DA MATA- AL
Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Instituto de Ciências
Sociais da Universidade Federal de Alagoas, como requisito parcial para a obtenção
do grau de Licenciado em Ciências Sociais.
______________________________________
Orientador: Prof. Dr. Siloé Soares Amorim.
Banca Examinadora:
__________________________________________________
Prof. Dr. Siloé Soares Amorim - UFAL
__________________________________________________
Profª. Ms. Sandriana de Melo Silva - EJA
__________________________________________________
Profª. Drª. Sílvia Aguiar Carneiro Martins- UFAL
MACEIÓ
2015
A minha guerreira e batalhadora mãe, que
sempre me apoiou, me deu forças para
prosseguir meus estudos, ela que foi a
base, me incentivando desde pequeno aos
estudos.
A ti minha dedicação.
Agradecimentos
Agradeço primeiramente a Deus Onipotente, que sempre esteve comigo
em todos momentos e por ter me concedido a graça de realizar este sonho.
Ao cursinho comunitário Girassol, desenvolvido pelo Instituto Girassol de
Desenvolvimento Social-IGDS, por ter confiado em mim e me presentear com uma
bolsa.
Agradeço as minhas duas mães Aparecida Maria da Silva mulher guerreira
e muito amável e Josefa da Silva Santos outra mulher guerreira, esforçada e
batalhadora, ambas sempre estiveram ao meu lado, me apoiando e dando forças para
superar todos os obstáculos.
A meus tios, Cícero Márcio, Adeildo Márcio, Maria Damiana da Silva,
Francisca Maria, Silvestre João Lima, bem como meu tio pai Gilberto Argemiro pelo
apoio. Aos meus primos irmãos Ednaldo da Silva, Edvaldo da Silva, Alex- Sandra da
Silva, Edvânia da Silva, Sandra Félix Aguiar e Josefa da Silva e por sempre
acreditarem em mim. Aos meus outros primos, Rosinete Lima, Rejane Maria Lima,
Rosilene Lima, Francisco José Lima e Ronaldo Lima que sempre se orgulharam de
mim por ter conseguido ingressar em uma universidade federal e desde que ingressei
ficaram na torcida, para que sempre me saísse bem.
A meus companheiros de turmas que sempre estiveram juntos comigo em
todos os momentos, em especial Cristiane Freitas, Ione Loro, Maria Cícera da Silva,
Janderson Teixeira carnaúba e Maria Luciana Costa.
Ao meu amigo João Paixão dos Santos Neto que sempre me deu forças e
apoio em todos os momentos que precisei. Aos meus amigos Claudevan Carvalho,
Marcelo Oliveira, Tarcísio Rodrigues, Lidiane Oliveira, Kelle Cristina Rodrigues e
Priscila Paixão que sempre torceram para que conseguisse alcançar meus objetivos.
Aos entrevistados que se disponibilizaram a ajudar em todos momentos
que foram precisos.
Meu muito obrigado!
Ó terra rica que tem rios e bicas, serras e muito mais
Seu verde é lindo, espelho das matas dos canaviais (bis)
És também rica em dom de pintar, desenhar,
De esculpir, de tocar de escrever e cantar
E aprender a compor letras lindas e ao povo mostrar (bis)
Tudo isso aqui você vê, Boca da Mata te amo de mais
Mora em meu coração, hoje eu sei não te esqueço jamais. (bis)
(Ismael Santos)
RESUMO
O estudo trata da memória dos festejos de padroeiros em Boca da Mata- AL.
Tendo como base o pressuposto que os festejos representam um elemento cultural.
O trabalho está organizado em dois capítulos. Inicialmente uma descrição referente
ao princípio do estudo, descrevendo como se deu as primeiras práticas do trabalho
de campo. Continuando, segue uma apresentação sobre a cidade de Boca da Mata.
Em seguida uma apresentação dos folguedos que existiram neste lugar, sendo os
seguintes: as Baianas, o coco de roda, o Pastoril, o Guerreiro, a Lapinha, o Reisado
e a Taieira. Posteriormente, um debate sobre memória coletiva por meios dos autores
que abordam sobre a temática proposta. Para o ponto culminante do estudo os
folguedos como uma construção da memória dos “mais velhos”. A pesquisa foi
mediada por entrevistas orais de ex-brincantes de folguedos dos locais citados
realizados durante o trabalho de conclusão de curso. De forma sistemática este
representa um marco local que tem papel crucial na construção da identidade social
de seus habitantes.
Palavras-chave: folguedos, povo, memória e cultura popular.
ABSTRACT
This study about the memory of the patron’s celebrations in Boca da Mata- Alagoas.
The basis of study is the assumptions that such. Celebrations represent a cultural
element. This works is organized in two chapters initially a description about the city
Boca da Mata. Then, a presentation about folklore celbrations that used to happen in
such place. They were: the Baianas, Coco de Roda, Pastoril, Gueereiro, Lapinha,
Reisado and Taieira. Subsequently a debate about colltective memory by the authors
that approached such topic. To the culminating point of the study, the folklore
celebrations as a construction of the memory of the elderly. The research was
mediatted by oral interviews former folklore celebrations practitia ners form the
mentioned locations, done, during the course concluision paper. In a sistematic was it
represents local landmark that has a crucial role is the constuction of the social identity
of the locais.
Key- words: Folklore, Celebrations, People, Memory na Popular Culture.
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ............................................................................................................................. 10
INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 11
1. COMO TUDO COMEÇOU: A CAMINHO DO TRABALHO DE CAMPO, BREVE
APRESENTAÇÃO DA CIDADE. ..................................................................................................... 13
1.1 Boca da Mata .............................................................................................................................. 19
1.2 Os folguedos............................................................................................................................... 21
1.3 Guerreiro ...................................................................................................................................... 22
1.4 Pastoril ......................................................................................................................................... 23
1.5 O Contexto Histórico do Coco de Roda .............................................................................. 25
1.6 Baianas ......................................................................................................................................... 28
1.7 Lapinha ......................................................................................................................................... 28
1.8 Reisado......................................................................................................................................... 28
1.9 Taieira ........................................................................................................................................... 29
2. MEMÓRIA E FOLGUEDOS ......................................................................................................... 30
2.1 Memória e Folguedo: O debate .............................................................................................. 30
2.2 Compreensão sobre folguedos ............................................................................................. 31
2.3 A festa ontem e hoje ................................................................................................................. 32
3. OS FOLGUEDOS EM BOCA DA MATA, UMA TRADIÇÃO NA MEMÓRIA DOS “MAIS
VELHOS”. ........................................................................................................................................... 35
3.1 Boca da Mata .............................................................................................................................. 36
3.2 Distrito Peri-Peri......................................................................................................................... 38
3.3 Povoado Ouro Branco .............................................................................................................. 41
3.4 Fazenda Bento Moreira ............................................................................................................ 46
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................................... 50
5. BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................................. 52
10
APRESENTAÇÃO
Devido minha participação no contexto do presente trabalho, inserido em
um folguedo, fez-se necessário a construção de uma breve apresentação, relatando
sobre minha passagem em alguns grupos.
Desde minha infância fui apaixonado pelo mundo da dança e assim cresci
com esse gosto. Tudo que envolvia dança queria estar envolvido. Na escola no ensino
fundamental I e II e ensino médio participei de apresentações em datas
comemorativas como: dia das mães, dia dos pais, festa junina etc.
Dentro da comunidade participei de grupos de quadrilhas juninas matuta
como componente por três anos. Um ano após este grupo acabou, porém com a
iniciativa dos jovens foi dado início ao resgate de um grupo de coco de roda, que a
anos não estava ativo.
Neste participei por três anos também, aqui fui responsável pelo grupo,
marcando ensaios, resolvendo questões administrativas, elaborando ofícios
entregando na secretaria de educação para liberação do espaço do pátio da escola
para realizar os ensaios. Além disso, buscava fundos para confecção de figurino
juntamente com o grupo. Devido a necessidade de trabalho tive que morar em outra
cidade, com isso tiver que sair do grupo. Posteriormente o coco de roda acabou.
Em um determinado dia juntamente com um amigo resolvemos criar um
novo grupo de quadrilha junina, sendo esta de caráter estilizada. Neste grupo, fui
coreógrafo desde 2012 até os dias atuais. Mas este cargo não deixava não me
restringia a ficar apenas com essa responsabilidade, assim faço parte da direção do
grupo, para criar tema, construir repertório, pensar no figurino, inscrever o grupo em
concurso, bem como também nas questões administrativas.
Atualmente sou educador social de dança em uma Organização Não
Governamental chamada Instituto Girassol de Desenvolvimento Social- IGDS e
professor de Sociologia em escola da rede particular de ensino da cidade que resido.
11
INTRODUÇÃO
O presente trabalho consiste em um estudo sobre a memória dos festejos
de padroeiros que são celebrados nesta cidade tais como: a festa de Santa Rita de
Cássia, Santa Luzia, São Sebastião do Jequiá da Praia e Nossa Senhora Imaculada
Conceição. Faz-se uma apresentação dos folguedos que existiram e existem em Boca
da Mata/AL. O objetivo desta pesquisa é analisar e compreender o motivo da
diminuição e das mudanças das práticas dos folguedos nesta localidade por meio
disso será construída a memória dos folguedos por meios dos relatos dos exbrincantes, hoje são as pessoas mais velhas da comunidade. Está memória terá uma
grande importância para os moradores deste lugar, sendo um trabalho que contribui
para história de um povo, mostrando aos seus futuros moradores, parte do que estava
guardada na memória dos mais velhos, encontra-se sistematizado em memória
disponível ao acesso.
O Interesse pelo assunto partiu inicialmente das conversas escutadas nos
novenários da festa de Nossa Senhora da Conceição Padroeira do Distrito Peri- Peri
localizado na cidade de Boca da Mata. Ao finalizar o ritual da missa as senhoras
ficavam a conversar, comentando como era as festas no tempo de sua mocidade,
ressaltando que após as rezas das novenas dos padroeiros havia os leilões, mas as
apresentações dos folguedos é que era o primordial e nos tempos atuais, segundo os
relatos orais realizados com alguns ex- brincantes de folguedos a prática foi
diminuindo.
Portanto foi proposto fazer um levantamento sobre os folguedos que
existiram e os que existem na cidade de Boca da Mata e em quais locais eram e são
praticados. Continham diversos grupos de folguedos, os mesmos faziam parte do
cotidiano das pessoas da localidade; atualmente encontram-se praticamente
desaparecidos e esquecidos, pois há apenas a prática do Coco de roda por intermédio
das escolas no período junino. Vale ressaltar que Boca da Mata é um lugar rodeado
de fazendas e um Distrito Peri-Peri no qual existiam vários folguedos como as
Baianas, o coco de roda e o Pastoril; nas fazendas tais como Chã dos Leões o
Guerreiro; Ouro Branco o Pastoril, o Guerreiro e a Lapinha; Bento Moreira o Coco de
roda, o Caboclinho, o Pastoril, o reisado e a Taieira; e na cidade de Boca da Mata o
Côco de roda, o Guerreiro e o Pastoril.
12
Desse modo, o que consta neste é resultado de uma pesquisa
antropológica, pautada em metodologias da disciplina, voltada para a história oral
como entrevistas, conversas informais, levantamento bibliográfico.
Para contribuir na compreensão da pesquisa fez-se necessário fazer a
leitura dos textos do antropólogo, sociólogo, jurista e folclorista brasileiro Manuel
Diégues Júnior (2006); dos historiadores Luiz Sávio de Almeida (1997) e Jacques Le
Goff (2003); do sociólogo Maurice Halbwachs (1968); do folclorista Luís da Câmara
Cascudo (2008); e Mário de Andrade (1999) dentre outros que deram subsídios para
compreender o objeto de estudo.
O trabalho está organizado em três capítulos. Inicialmente uma descrição
referente ao princípio deste, descrevendo como se deu as primeiras práticas do
trabalho de campo. Continuando, segue uma apresentação sobre a cidade de Boca
da Mata. Em seguida no segundo capítulo uma apresentação dos folguedos que
existiram neste lugar. Posteriormente, um debate sobre memória coletiva por meios
dos autores que abordam sobre a temática proposta. Para ápice do estudo no terceiro
capítulo os folguedos como uma construção da memória dos “mais velhos”.
A análise se fundamentará também nas falas dos ex-brincantes de
folguedos sobre suas participações nos diversos grupos que existiram. Tais falas
foram coletadas por meio de entrevistas realizadas com moradores de quatros lugares
pertencentes à cidade de Boca da Mata, como o espaço da própria cidade, no Distrito
Peri-Peri, na fazenda Ouro Branco e na fazenda Bento Moreira.
Tereza Maria Frota Haguette (1997) tem uma concepção acerca da
entrevista como um procedimento em que há uma interação social entre duas
pessoas, uma destas é o entrevistador e a outra, entrevistado. O primeiro, tem por
finalidade buscar informações por meio do segundo. De acordo com a autora esse
método é a prática mais empregada na execução do trabalho de campo.
Para realização desta pesquisa foi preciso uma análise referente a história
de vida dos ex-brincantes por meio das entrevistas. De acordo com Cecilia de Souza
Minayo (1993) a história de vidas tem como intuito fazer uma retratação referente aos
conhecimentos vivenciados por pessoas, grupos de pessoas ou organizações.
Segunda a autora existem dois tipos de história de vida, a primeira diz respeito ao
conjunto de experiências vividas, esta é chamada de história de vida completa, a
segunda específica uma etapa ou momentos de experiência desejada pelo
13
entrevistador. Ainda sobre o assunto o sociólogo Howard Becker (1994) complementa
discorrendo sobre a temática que a história de vida aproxima mais da vivência das
pessoas, pois a história apreciada é a história que diz respeito a própria pessoa. Os
narradores tornam-se responsáveis a partir do momento que relatam suas histórias,
seguindo dando forma e conteúdo às narrativas por meio das interpretações de suas
vivências.
Para melhor compreensão do objeto de pesquisa fez-se necessário a
utilização de imagens, possibilitando uma maior veracidade dos dados dos
entrevistados por meio das entrevistas. Sendo assim, David MacDougall (1994) sobre
a antropologia visual, o autor nos orienta que, as imagens possibilitam uma maior
concepção de maneira satisfatória, no sentido de contribuir no enriquecimento do
saber antropológico.
Antes de iniciar a análise sobre a memória dos folguedos por meios dos
“mais velhos”, apresenta-se uma breve reflexão sobre memória, folguedos e dando
continuidade detalha-se a forma como eram celebradas as festas de padroeiros
antigamente e como é nos dias atuais. Para isso buscou-se embasamentos em alguns
estudiosos referentes ao assunto com o intuito de propor esclarecimentos sobres os
festejos de padroeiros, pois estes são conceitos centrais utilizados neste trabalho.
A relevância deste estudo está situada em compreender a causa da
diminuição das práticas dos folguedos, levando em consideração a forte presença que
havia na cidade de um modo geral, assim mostrando que os folguedos fazem parte
da memória dos mais “velhos”.
1. COMO TUDO COMEÇOU: A CAMINHO DO TRABALHO DE CAMPO,
BREVE APRESENTAÇÃO DA CIDADE.
Os aspectos teóricos metodológicos deste trabalho tiveram início no
segundo semestre de 2012, no momento em que estava cursando a disciplina de
Antropologia 6 com a professora Fernanda Rechenberg. O objetivo da disciplina era
despertar nos discentes a busca pelo assunto do seu TCC (Trabalho de Conclusão
de Curso). As metodologias adotadas pela professora para disciplina estavam
baseadas nisto. Assim, a mesma indicou leituras para cada aluno que estivesse de
14
acordo com seu assunto e leituras para os que ainda não tinha nenhum assunto em
mente.
Com isso a professora deu suporte técnico nos auxiliando na elaboração
das perguntas para os momentos de entrevistas, nos ensinou a descrever os
personagens, o cenário onde ocorre a pesquisa de campo e nos orientou como
interpretar as entrevistas. Assim pude perceber que tudo o que se passava no
decorrer da pesquisa era de fundamental importância para compreensão do objeto de
pesquisa e no momento de sistematizar, nada poderia passar despercebido.
No primeiro momento da disciplina, a professora Fernanda Rechenberg fez
com que cada estudante conhecesse as diversas áreas de estudos da antropologia.
Em aula, cada aluno pode apresentar dois seminários, estes baseados em leituras
para auxiliar em nossas pesquisas, ainda muito imaturas, mas que precisavam ser
despertadas para seguirmos adiante nos próximos semestres que se encaminha para
finalização do curso.
Aqui devo enfatizar e esclarecer o grande esforço que foi feito pela docente
em ler os textos dos mais variados assuntos, bem como em realizar pesquisas por
autores que discutissem temas que interessassem aos discentes daquela turma,
sempre com o intuito dar um caminho para as possíveis monografias.
Acredito que todos os que ali se encontravam naquela turma estavam
bastante felizes, pois era uma contribuição para definir o assunto ou clarear a nossa
mente sobre que pretenderíamos abordar. Ainda aqui tenho que ser sincero, naquele
momento seria a professora ideal para ser minha orientadora, no entanto como o tema
que me propôs abordar não era na linha de pesquisa que estudava não me atrevi a
convidá-la.
Primeira avaliação composta, deveríamos agora nos preocupar com a
segunda nota. Assim a segunda nota era justamente colocar a mão na “massa” e partir
para prática. De início descrevemos sobre o que desejávamos pesquisar, baseado no
assunto, elaborar perguntas para entrevistas. Tudo foi entregue e em seguida
devolvido corrigido com suas observações e contribuições.
Enfim, chegou o dia de termos o primeiro contato com nossos possíveis
entrevistados que interessa para nossa pesquisa. E foi justamente em dezembro de
2012 que tudo começou na prática.
Ao chegar do trabalho às 15h30min, guardei os materiais troquei a calça
por uma bermuda, peguei um caderno e às 16h00 sai de casa com destino à
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residência de Dona Divaci1, a fim de realizar minha primeira entrevista. Ao aproximarme de sua residência, um grupo de professoras de uma creche que fica localizada a
frente de sua casa, pararam e ficaram por lá. Intimidado resolvi passar adiante e não
parar com minha bicicleta, e imediatamente pensei em ir à casa de outra senhora,
para realizar a entrevista. Ao chegar lá, encontrei o portão aberto. No caminho até a
porta havia muitas plantas ao lado da passagem; imediatamente vi uma mulher de
pés descalços a conversar com alguém que estava dentro da casa a qual não
consegui identificar. Ao chegar chamei logo por Bela, filha de D. Cícera a quem estava
procurando para minha entrevista. A mesma respondeu de dentro de casa: Aguarde
um instante, e em seguida ela me atendeu. Perguntei se sua mãe estava em casa, ela
respondeu que estava, porém encontrava-se deitada. Falei para ela que voltaria outra
hora. Bela perguntou-me o que eu queria falar com sua mãe, aproveitei já que tinham
duas cadeiras na área, sentei e na outra cadeira Bela se sentou. Expliquei que se
tratava de uma pesquisa para meu TCC. Aproveitando, falei qual era o assunto que
queria saber de sua mãe e imediatamente Bela sugeriu outras senhoras também para
entrevistar. Agradeci pelas dicas e falei que voltaria outro dia.
Na volta para casa, avistei que as professoras não mais se encontravam
em frente da casa de dona Divaci. Parei minha bicicleta em frente ao portão de sua
casa a qual tem uma cerca de arames presos a umas pilastras de cimento. Um
cachorro começou a latir desesperadamente e isso já me deixou amedrontado, caso
ela me pedisse para entrar em sua casa. Dentro da cerca de arames haviam três
casas. A casa de uma de suas filhas localizada ao lado esquerdo, a de dona Divaci
ao meio e a outra à direita que parecia não habitar ninguém, mas todas pertencendo
a sua família. Chamei, uma voz dentro da casa respondeu, em seguida seu filho
apareceu e falou que ela estava vindo. Seu filho apareceu ao lado da casa direita por
uma passagem que se formou devido às casas ser uma ao lado da outra e mantém
uma distância de mais ou menos dois metros. Dona Divaci ao chegar próximo a me
cumprimentei-a, como já conhecia, devido frequentarmos a mesma Igreja Católica
Nossa Senhora da Conceição. Senhora de comportamento sério, com um dos braços
deficiente.
Para começar a entrevista falei que gostaria de conversar e expliquei qual
era o meu objetivo com ela. A mesma convidou-me a ir até a área de sua casa,
1 Divaci Barbosa 60 anos de idade ex-brincante de folguedos.
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passando pela frente da casa que fica à direita da sua. Perguntei logo a respeito do
cachorro que segundo ela, falou que não mordia. Fui empurrando minha bicicleta,
encostei na calçada da casa a direita. Ao chegar à sua casa, abriu o portão. Dentro
da área encontravam-se algumas plantas em caqueras, não havia cadeiras.
No decorrer da entrevista chegou um homem em seu portão (não no portão
da área, mas no portão que cerca as três casas) perguntando pela sua outra filha
Leônia que mora um pouco mais distante das três casas para descarregar o caminhão
de adubo. Dona Divaci fala que sua filha foi a Maceió capital de Alagoas. Ainda, dona
Divaci pergunta se Vitória (filha de Leônia) que é sua neta não está em casa, o homem
falou que já tinha chamado muito e ninguém respondia. O homem volta para falar com
o motorista que a dona da casa não se encontrava. E foi dada continuidade a
entrevista.
Imediatamente seu filho aparece em uma estrada que tem ao lado da
creche que fica à frente da casa de dona Divaci e a mesma pergunta se ele sabia o
número do telefone da sua irmã, Leônia, o mesmo fala que não, mas em seguida
andando na bicicleta começa a falar o número meio em dúvida e em voz alta. Logo
em seguida Dona Divaci começa a chamar na casa de sua filha (Leonide) ao lado
esquerdo de sua casa, no mesmo instante seu neto Victor responde que tem uma
chave, porém não sabe se é a da casa de sua tia Leônia. Dona Divaci pergunta se
sua tia Leônia havia deixado à chave na casa de sua irmã que é a casa onde Vitor
está essa à esquerda da casa de Dona Divaci. Vitor entrega um molho de chave a
sua avó, ela pede para que o homem averiguar se é uma daquelas chaves. O homem
faz o que dona Divaci pede, mas não era nenhuma daquelas chaves, pois as chaves
eram da creche. Logo chega o caminhão com os sacos de adubos em frente à sua
casa. O motorista fala se pode colocar ao lado da casa a direita da casa de dona
Divaci, no corredor entre as duas casas. Dona Divaci começa a reclamar de seus
filhos. - Leonide não para em casa! Que povo irresponsável! Em seguida agradeço
pela atenção e pergunto se poderei retornar mais vezes.
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Para o trabalho que foi solicitado percebi que necessitava de mais um
sujeito para ser entrevistado e rapidamente já sabia aonde ir. Organizei-me e dias
após dias, sendo no mesmo mês.
Fotografia 1 ano 2015, arquivo próprio,
Dona Divaci Barbosa.
E mais uma vez no mesmo horário às 16h00, como o sol já está menos
quente sai de casa, de bicicleta com destino ao Povoado Ouro Branco, que fica a 10
minutos do Distrito Peri-Per. Indo de bicicleta, no trajeto passei pela fazenda Chã dos
Leões, após chego ao Povoado Ouro Branco. Esse é rodeado de canaviais. É um
povoado com poucas casas, a maior parte das pessoas que residem são familiares.
Há uma bica que leva o nome do povoado que é bastante visitada pela população
Bocamatense. Chegando à residência de Josefa Lenice Torres2 conhecida como
Dona Nicinha a avistei de longe. Desci da bicicleta e fiquei aguardando sua chegada.
Ao chegar me cumprimentou, pois já me conhecia. Perguntou o que desejava. Disse
que gostaria de fazer um trabalho da faculdade e que precisava realizar uma entrevista
com ela. Imediatamente concordou. Pediu-me que aguardasse, mandou sentar do
lado do alpendre onde fazia sombra e ainda me pediu que colocasse a bicicleta
2 Lenice Torres conhecida como Dona Nicinha tem 60 anos de idade, é ex-brincante de folguedo e
reside no Povoado Ouro Branco.
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também na sombra para esfriar enquanto buscava uma sacola para comprar o pão.
Pediu-me que parasse o menino da bicicleta que estava vendendo pão quando
passasse pela frente da sua casa. Quando o menino do pão foi passando fiz o que
havia me pedido. D. Nicinha comprou os pães, ouvi quando pediu ao menino para que
colocasse dentro da sacola um real de pão seda, o pai do menino de longe respondeu
que não tinha.
Após isso chegou um rapaz de moto, era forte, alto, de cor branca, usando
boné junto com uma senhora de altura mediana, cabelos lisos também de cor branca
e cabelos lisos meio grisalhos trazendo uma sacola de pão comprado no Distrito PeriPeri. Dona Nicinha falou que já tinha comprado. Ouvi também à senhora entregando
uma quantia em dinheiro. Antes de entrar para guardar o dinheiro pedi-lhe que
trouxesse um pouco de água. Ao chegar me trouxe uma tigela de sobremesa com
doce de leite. Ao me dar o doce, percebeu que tinha se esquecido do copo para beber
a água. Foi buscá-lo. Ao chegar, falei do objetivo do meu trabalho, e novamente falei
que gostaria de fazer uma entrevista com ela. O local era uma casa de alpendres de
cor azul nas paredes e janelas brancas com alguns quadros pequenos pendurados
na parede. Onde me sentei, existiam duas cadeiras de ferro coberta com cordão.
Fotografia 2, ano 2015, arquivo próprio
Dona Nicinha.
Concluído a realização das entrevistas, precisava sistematizar e entregar a
professora na data marcada. O trabalho foi entregue e dias depois nos foi devolvido.
A proposta para finalizar de uma vez por todas a disciplina era fazer uma relação dos
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textos lidos e apresentado com as entrevistas e interpretá-las. Após isso o trabalho foi
entregue. E ainda assim Fernanda comentou comigo sobre meu trabalho da forma
como uma das entrevistadas falava com entusiasmos e saudade dos tempos em que
praticava os folguedos.
Finalizada a disciplina a ideia ficou parada e só no ano de 2014 é que foram
retomadas as atividades, elaborando um pré-projeto mais detalhado baseado no que
já havia realizado para entregar ao professor de início Dr. Wagner Chaves Diniz.
Devido outros compromissos deste professor, não foi possível me acompanhar até a
conclusão do meu trabalho. Com isso convido professor Siloé de Amorim para
prosseguir com a pesquisa.
A princípio meu objetivo era delimitar minha pesquisa apenas nos Distrito
Peri- Peri, porém com o passar do tempo, foi surgindo à necessidade de ampliar e
focar na cidade de modo geral. Desde a cidade até as fazendas e o Distrito, pois a
cada conversa informal que era feita com moradores dos lugares, fui percebendo que
houve práticas de folguedos em outras localidades da cidade. Sendo assim, fez-me
refletir sobre a importância deste trabalho para as pessoas que estão por vim, pois
será uma memória escrita. Entretanto muitos dos que hoje residem neste lugar não
sabem da existência dessa história.
1.1 Boca da Mata
A história deste município é curta, devido à falta de dados históricos
formais.
De acordo com a prefeitura Municipal de Boca da Mata – PMBM, 2015 o
nome do município é uma referência às primeiras residências construídas na entrada
de uma grande mata, estendida rumo a Atalaia. As terras ofereciam condições para a
implantação de sítios e fazendas, que desenvolviam as lavouras e a criação de gado.
As terras da região pertenciam ao engenho Santa Rita de propriedade do Senhor
Antônio Pinto da Cunha Coutinho.
Com suas poucas casas de taipa logo Boca da Mata passou a povoado. A
iluminação era a querosene. A população se servia de água de açudes, poços e
cacimbas. Nessa época já havia uma capela construída de taipa, onde hoje é a Matriz
de Santa Rita. Aos poucos foram surgindo algumas casas comerciais e uma pequena
20
feira. Os transportes eram cavalos, carro de bois, aparecendo em seguida charretes
e outros veículos. Algum tempo depois, foi instalada energia elétrica a motor. Já
funcionavam algumas escolas particulares e públicas. A primeira professora foi a Srª
Ana Vicência da Cunha.
A maior parte das terras pertencia ao Engenho Santa Rita, de propriedade
de Antonio Pinto da Cunha Coutinho. E a primeira capela foi obra de Pedro Simões,
antigo proprietário do engenho Mucambo.
Com o rápido desenvolvimento do povoado, surgiu o movimento pela
emancipação. Uma lei elevou a vila à condição de município autônomo, mas a lei não
foi cumprida e Boca da Mata permaneceu integrada a São Miguel dos Campos.
Registrado na divisão administrativa em vigor no ano de 1955, quando possuía 463
habitantes e 160 domicílios. A emancipação aconteceu em 1958. De acordo com o
senso demográfico do IBGE 2010 a população e composta por 25.776 habitantes.
Boca da Mata revela belezas naturais exuberantes como a Serra de Santa
Rita, bicas e balneários como o Balneário Águas de São Bento, a Bica do Arlindo,
além das Bicas Baixa Grande e Quebra Carro, ambas em APA (Área de Proteção
Ambiental). O ponto de encontro da cidade é a Praça Padre Cícero. A animação do
povo do município pode ser vista em suas principais festividades: Festa da Padroeira
Santa Rita de Cássia dia 22 de maio, Emancipação Política dia 11 de novembro e
Festa do padre Cícero Romão comemorada dia 20 de julho, esta atrai centenas de
romeiros das diversas cidades do estado Alagoas.
A cidade é também conhecida por conta do seu artesanato em madeira,
legado do Mestre Manoel da Marinheira conhecido internacionalmente e hoje com
vários seguidores, entre filhos e discípulos.
Aliás deve ser dito que Boca da Mata era conhecida, durante anos deste
século, como terra de farinha boa, ouvindo-se nos mercados, aqui e ali, a
referência de que se tratava de “Farinha da Boca da Mata”, quase uma
espécie de antônimo da Farinha boa é “ararapina” sendo a primeira ótima e
a segunda péssima. (ALMEIDA, 1997, p.51).
De acordo com Almeida (1997) a cidade de Boca da Mata já produziu a
melhor farinha de mandioca do estado de Alagoas, ao falar em farinha logo vinha a
mente como referência a farinha de Boca da Mata por apresentar uma boa qualidade
e agradava a todos que provava.
21
1.2 Os folguedos
Segundo Andrade (1999) compreende-se folguedo como um momento de
lazer, o qual está isento do compromisso do trabalho, mas com tempo livre para se
fazer o que mais gosta. Era o que acontecia com os brincantes de folguedos. Para os
brincantes de folguedos tempo livre era destinado a preparação das apresentações.
De modo que a palavra folguedo vem de folgança, conforme indica Andrade (1982).
A palavra folguedo vem de folgança, o momento da “folga” o tempo do ócio,
o ato de se entregar ao divertimento, assim como a palavra folguedo designa
as danças brasileiras no geral, a manifestação em si, o tempo fora do trabalho
ordinário, tempo extracotidiano, que se presentifica nas festas. Também se
podem afirmar que o folguedo é uma categoria situada por Mário de Andrade
como danças dramáticas. (ANDRADE, 1982, apud, MAGALHÃES, p. 05).
Baseado no que foi coletado, no trabalho de campo por meio das
entrevistas, na cidade de Boca da Mata existiram oito tipos de folguedos que eram
praticados pela população, são eles: Baianas, Coco de Roda, Caboclinho, Guerreiro,
Lapinha, Pastoril, Reisado e Taieira.
Os mesmos eram praticados em cinco lugares, na própria cidade tinha o
Coco de Roda, Guerreiro e Pastoril; no Distrito Peri-Peri existia as Baianas, o Coco
de Roda e o Pastoril; no Ouro Branco, Guerreiro, Lapinha e Pastoril e no Bento Moreira
o Coco de Roda, o Pastoril, o Reisado e a Taieira.
Dos que foram citados acima apenas o Coco de Roda ainda é praticado por
meio da Escola Josefa Cavalcante Suruagy.
Folguedos
Lugar
Baiana
Distrito Peri-Peri
Côco de Roda
Boca da Mata, Distrito Peri-Peri e Beto
Moreira
Guerreiro
Boca da Mata e Povoado Ouro Branco
Lapinha
Povoado Ouro Branco
Pastoril
Boca da Mata, Distrito Peri- Peri e
Fazenda Bento Moreira
Reisado
Fazenda Bento Moreira
Taieira
Fazenda Bento Moreira
Tabela 1- folguedos e lugares que existiram e existe.
22
1.3 Guerreiro
O folclorista José Maria Tenório da Rocha (1984) “propõe a seguinte
definição para Guerreiro, um grupo multicolorido de dançadores e cantores,
semelhante aos Reisados, mas com maior número de figurantes e episódios, maior
riqueza nos trajes e enfeites e maior beleza nas músicas. O Auto dos Guerreiros é um
folguedo surgido em Alagoas, por volta de 1927 e 1929. É o resultado da fusão de
Reisados alagoanos, do antigo e desaparecido Auto do Caboclinhos, da Chegança e
dos Pastoris.”
É um dos mais característicos e importantes folguedos populares do ciclo
natalino do estado de Alagoas. Canta, através do sincretismo religioso, a chegada do
messias e a homenagem dos três Reis Magos. É apresentado entre os dias 24 de
dezembro e 6 de janeiro, Dia de Reis.
Os trajes multicoloridos, enfeitados com espelhos, miçangas, fitas,
lantejoulas, areia brilhante, cetins, contas de aljôfar (tipo de pérola), os homens usam
calções e meias longas brancas e as mulheres vestidos com acessórios, de acordo
com seus personagens. Utilizam enfeites de árvore de Natal nos chapéus, diademas
ou coroas, nos guarda-peitos, calções e mantos, numa imitação dos antigos trajes
nobres do Brasil Colônia. Os chapéus ou diademas são verdadeiras obras-primas de
arte popular. Tudo muito bem trabalhado.
A organização do folguedo no momento da encenação se configura da
seguinte forma: na frente, em dois cordões em fila, um ao lado do outro, ficam os
Embaixadores, as Estrelas, a Borboleta, a Sereia e demais figuras.
Entre os dois cordões vêm o Mestre, o Contramestre, o Rei, as Rainhas, a
Lira, o índio Peri e seus vassalos, o General, os Caboclinhos, e, ao fundo, os dois
Mateus com os rostos encarvoados e os palhaços com as caras pintadas de branco e
vermelho.
O sanfoneiro e os tocadores de tambor e ganzá, vestidos à paisana,
completam o cortejo, puxando os ranchos e marchas de rua características do
folguedo, como os pedidos de abrição de porta ou de sede; as peças de entrada de
sala ou de sede; a louvação ao divino; peças sobre assuntos amorosos, elogios;
entremeios como os do Sapo, do Doido, do Javali, do Messias, do Boi e do MataMosquito.
23
O Guerreiro existiu na cidade de Boca da Mata, nas fazendas Ouro branco.
Dona Nicinha nos orienta sobre a musicalidade deste folguedo:
O Guerreiro tinha mestre, contra- mestre, o índio Peri.
em Maceió na rua primeiro de maio
procurando eu sei que acho
enfeito pra comprar,
eu compro lata
eu compro fita
eu compro espelho
a coisa que eu aprecio
pra meu guerreiro brincar
guerreiro cheguei agora Nossa Senhora é Nossa defesa...
(iniciava o Guerreiro cantado essa música)
1.4 Pastoril
Fotografia 3, ano 2010, arquivo de imagens Instituto
Girassol de Desenvolvimento Social- IGDS, pastoril
Cascudo (1972), o Pastoril chegou ao Brasil por intermédio dos
portugueses, ainda no século XVI, e fixou-se no Nordeste, onde é encontrado em
todos os Estados. Este folguedo popular presta homenagem ao nascimento de Cristo,
sendo o seu contesto musical centrado no aviso dado pelo anjo Gabriel aos pastores
sobre a chegada de Jesus Cristo, e na caminhada de José e da Virgem Maria,
juntamente com o menino Jesus, até à manjedoura.
O folguedo é encenado durante o período do natal, percorrendo todo mês
de dezembro, indo até seis de janeiro, dia dos Reis Magos (CASCUDO, 1972, p. 64).
24
Segundo Cascudo (1972), o pastoril compreendido como uma dança
dramática religiosa é geralmente encenado diante do Presépio, que pode ser
representado em painéis pintados, montagem de cenário com figuras de barro, de
madeira e outros materiais, até figurantes de verdade. No Nordeste os pastoris são
cordões feitos em geral aos sábados do Natal até as vésperas do Carnaval. “O que
tem maior significado no pastoril e o constitui, são as pastoras, os elementos básicos
na função coro e são tomadas como personagens” (CASCUDO, 1972, p. 64)
Assim relata Dona Nicinha:
...o pastoril era completo, tinha mestra contra- mestra, tinha a Diana e os
pastores, o pastor, o anjo, a borboleta. Tudo isso significa que o pastoril tava
comemorando assim tudo... o nascimento de Jesus. Porque assim no pastoril
tem o pastor, um homem, um menininho vestido de pastor.
Meu São José, dai-me licença (Meu São José...Quem é são José? - É o pai
de Jesus. Se iniciava com essa música). No Natal se iniciava pedindo licença a São
José
Meu São José, dai-me licença para o pastoril dançar
Viemos para adorar Jesus nasceu para nos salvar
Mestra
É de meu gosto é da minha opinião
Hei de amar o encarnado com prazer no coração
Hei de amar o encarnado com prazer no coração
Conta- mestra
É de meu gosto é da minha simpatia
Hei de amar o azul com prazer e alegria
Hei de amar o azul comprazer e alegria
É de meu gosto é da minha opinião
Hei de amar os dois partidos com prazer no coração
Cantava no dia de Nata essa música. No final quando terminava a noite de
natal, para encerrar o pastoril cantava-se assim também do pastoril.
Adeus que é tarde queremos partir
O dia amanhece queremos dormir
Se a mestra é linda contra- mestra é mais
A nossa Diana quem não fica atrás.
Todos se despedindo com chapéu, maracá, se chamava maracá, tipo um
pandeirinho na mão, era a despedida da noite de Natal.
25
1.5 O Contexto Histórico do Coco de Roda
Aqui folclore e engenho se unem; ligam-se e oferecem oportunidade a uma
abundância de observação. Porque é rico o material folclórico que se
encontra no engenho e no açúcar. Em todo o Nordeste são interessantes e
várias as manifestações folclóricas referentes a cana ou ao açúcar, ao
engenho, ao canavial, ou à cachaça. Também nas Alagoas estas
manifestações se encontram, a começar por uma dança tipicamente
alagoana, tipicamente de engenho, porque nele nascida: o côco. (DIÉGUES
JÚNIOR, 2006, p. 290).
Fotografia 4, ano 2010, arquivo próprio Coco de
roda, rapazes que dançavam.
Fotografia 5, ano 2010, arquivo próprio, coco de
roda, meninas que dançavam.
Manuel Diégues Júnior (2006), em sua obra intitulada “O Banguê nas
Alagoas”, apresenta a intima a afinidade que existia entre os engenhos e essas
culturas populares, e a influência que essa política econômica exerceu nos trabalhos
realizados sobre os folguedos alagoanos.
Assim, amparado sobre o pensamento do mesmo autor, nos engenhos
havia uma forte presença dos folguedos, principalmente, nos dias festivos,
compreendido como uma forma de divertimento para o dono do engenho, bem como
para sua família e amigos, alegrando os dias de festas.
Desta forma, esse cenário e prática não foram diferentes em Boca da Mata,
onde possuía manifestações populares e ainda existem, mesmo não sendo as de
antes e nem como antes, pois esta era a forma de divertimento que havia neste
período.
Em Boca da Mata existiram alguns cocos de roda e ainda existe, hoje sendo
praticado nas escolas no período junino. Algumas pessoas organizaram coco de roda,
porém com outras ocupações que vão surgindo com o passar do tempo, faz com que
outras pessoas se interessem a fazer parte do grupo. Para não ficar sem a prática dos
26
folguedos, me responsabilizei e fiquei coordenando o grupo. Isso foi o que aconteceu
com o coco de roda de Boca da Mata.
No Distrito Peri-Peri existiram alguns grupos de coco de roda. O primeiro
do lugar foi organizado por Maria Júlia Gomes Bastos3 conhecida por D. Júlia,
residente neste lugar incentivada por Zé Wilton4. O grupo era constituído por crianças
e adolescente da escola e residente do Povoado Peri- Peri como era chamado antes.
Os ensaios aconteciam em sua casa no horário da noite durante os dias do meio da
semana e aos domingos à noite. D. Júlia ficou responsável pelo grupo durante cinco
anos. Segundo ela o grupo fazia viagens para apresentar em Boca da Mata, Maceió
e em Pilar. Após sua filha Juliana Gomes Bastos5que também era participante ficou
responsável.
No período em que sua filha ficou à frente em 1999 participei, na época os
ensaios aconteciam em baixo de uma palhoça numa propriedade privada que
pertencia à uma moradora do lugar chamada Cicinha como era conhecida.
Esta palhoça servia para as apresentações da quadrilha juninas do lugar,
bem como das quadrilhas juninas convidadas. Neste momento em que estive
presente o intuito dos ensaios era realizar uma apresentação para D. Júlia no
dia do seu aniversário, devido a mesma ser a fundadora e gostar tanto de
Coco de Roda. (João Paixão dos Santos Neto6).
Em 2005 com o incentivo do projeto Girassol, uma ONG que estava
desenvolvendo trabalhos com a juventude. Os jovens do grupo chamado Semeperi
(sementes do Peri-Peri), tiveram a ideia de escrever um projeto com o objetivo de
realizar um resgate de uma cultura local, e a escolha foi o Coco de Roda, pois algumas
pessoas que fazia parte deste grupo já havia participado do Coco de Roda organizado
por D. Júlia. E neste período o Distrito Peri-Peri encontrava-se isento de práticas de
folguedos.
Para iniciar o regate do folguedo fez-se necessário convidar Juliana para
ensinar as coreografias e as músicas. Também foi convidado um jovem chamado
Amarildo conhecido como testa, também com o intuito de auxiliar os jovens nos
passos e nas músicas.
A primeira apresentação do grupo foi no encerramento do Novenário de
Nossa Senhora da Conceição padroeira do Distrito Peri- Peri usando figurino
3 Foi a primeira organizadora do côco de roda no Peri-Peri.
4José Wilton de Melo, 55 anos de idade, professor, filho de mestre de guerreiro, também foi organizador
do Pastoril e côco de roda.
5 Filha de Júlia Gomes Bastos, Juliana Gomes Bastos Enfermeira e ex- organizadora do coco de roda.
6 João Paixão, 25 anos de idade, Tecnólogo de Alimentos, é ex-brincante de folguedo e admirador de
cultura popular.
27
emprestado do grupo de Boca da Mata chamado Pisa mulata. O nome do grupo
permaneceu o mesmo nome do grupo do que fazia parte do projeto “Semeperi”.
Com esse incentivo o grupo tomou gosto pela arte da dança do coco e
deram continuidade nos anos seguinte. Fiquei responsável pelo grupo em 2005, 2006
e 2007.Durante esse tempo os ensaios eram realizados nos fins de semanas e
feriados na Escola Municipal Lagoa do Peri-Peri. Em 2006 como o grupo não tinha
recurso para compra de materiais como instrumentos, e figurino, os jovens tiveram a
ideia de pedir contribuições aos comerciantes do lugar e pessoas físicas que aos olhos
dos jovens poderiam contribuir. Assim foi feito, o dinheiro foi arrecadado e comprado
o tecido para confecção dos vestidos das meninas, pois as roupas dos meninos eram
mais fáceis de arrumar. Com a ajuda de Dona Lêda Quirino que tinha uma filha
dançando no coco de roda nos ajudou confeccionando os vestidos por oito reais. Esse
valor cada menina se responsabilizou a pagar. Assim, durante o mês junino
realizávamos apresentações nas ruas do Distrito Peri-Peri e nas fazendas próximas,
como Fazenda Ouro branco e Chã dos leões, como também na festa da Padroeira.
Em 2006 o projeto Girassol se torna Instituto Girassol de Desenvolvimento
Social e um projeto foi aprovado, dentro deste projeto havia uma ação com o nome
fundo de apoio a projetos de jovens- FAPJ que estava apoiando projetos de jovens
com o valor de três mil reais. Com o incentivo da educadora que esteve com o nosso
grupo em 2005, construímos um projeto e o mesmo foi aprovado. Com isso o grupo
ficou bastante entusiasmado. Com o dinheiro foi comprado tecido para os vestidos
das meninas, calças, camisas e chapéus para os meninos e um taró. O grupo
permaneceu até 2008. Neste ano um jovem chamado Leonardo residente de uma
fazenda próximo ao Distrito Peri-Peri juntamente Celso da Silva Gonçalves conhecido
como tita ficaram responsável pelo grupo. Quando estiveram responsáveis iniciaram
a compor novas músicas e coreografias, pois isso foi uma necessidade do grupo de
se modernizar. (Para atrair mais os jovens, pois os mesmos gostam de novidades).
Zé Wilton faz uma descrição referente ao coco de roda mostrando sua utilidade:
Côco de Roda era uma dança que na época dos escravos servia, para animar
e alegrar as noites dos senhores de engenhos. Além de representar o
chamego que despertava entre os dançarinos.
28
1.6 Baianas
As Baianas para Rocha (1984) é concebida como um grupo de dançadoras,
que, trajadas com as vestes convencionais de baianas, dançam e fazem evoluções
ao som de instrumentos de percussão. Neste folguedo especificamente não há a
presença a figura masculina nas danças. Além disso, o próprio constitui uma
modificação rural dos Maracatus pernambucanos ou é uma "alagoanização" dos
maracatus, sem a corte real e sem a boneca, e mais elementos dos pastoris e dos
cocos, mesclados com canções religiosas negras. Surgiu no sul de Pernambuco com
a denominação de Samba de Matuto ou Baianal.
Boa noite meu senhor e senhora! (Baianas)
Que a baiana chegou
É o beija-flor que a flor não beijou...
Dançava batendo os pés...
(Fragmento da música das Baianas cantada por Tanúzia Paulino Xavier).
1.7 Lapinha
De acordo com Paz (1987) o pastoril se desenvolve diante de um presépio
ou tem um bosque como cenário, onde cantigas corais se entremeiam aos textos
falados, solos e danças, que se realizam por ocasião das festas de Natal. É também
representado em tablados em praça pública. Este folguedo começa na noite de Natal
e vai até o dia de Reis, depois do qual tem seu lugar a Queima da Lapinha, onde
queimam-se as palhinhas de cada presépio, que é considerada a nota final das
representações pastoris. Este fato é análogo às festas de arremate que encerram as
Folias de Reis. Pastores e pastoras cantam em roda, em volta da fogueira, enquanto
as palhinhas vão se queimando e a fogueira se apagando, ficando apenas brasas e
cinzas. O cortejo vai se afastando e cantando a Queima da Lapinha.
1.8 Reisado
Para Rocha (1984) O auto popular profano-religioso formado por grupos de
músicos, cantores e dançadores, que vão de porta em porta, no período de 24 de
dezembro a 6 de janeiro, anunciar a Chegada do Messias, homenagear os Três Reis
29
Magos e fazer louvações aos donos das casas onde dançam. No Brasil, o Reisado é
espalhado em quase todo o território com os nomes de Reis, Folias de Reis, Boi de
Reis ou apenas Reisado. Sua principal característica é a farsa do boi, que constitui
um dos entremeios ou entremeses, onde ele dança, brinca, é morto e ressuscitado.
O reisado fala mais em rei, é festa ... hoje mesmo ele sempre aparece na
festa dos três reis magos, representa os três reis magos. Parecido com o
Guerreiro, mas não é, é diferente. É o chapéu de fita, as roupas eram umas
meias. Entre homens e mulheres eram tudo saia, placas cheias de vidros,
chapéu cheio de espelho com aquelas fitas largas descendo só de um lado,
a gente só enxergava de um lado, do lado de fora era cheio de vidro e no lado
de dentro era virado como o do lampião. (Tanúzia Paulino Xavier, 22 de abril
de 2015).
1.9 Taieira
Segundo Rocha (1984) a Taieira é uma dança-cortejo de caráter religioso
afro-brasileiro que faz louvação a dois santos, São Benedito e a Nossa Senhora do
Rosário, a qual é nomeada padroeira dos pretos. De aculturação africana, ligada aos
Reinados dos Congos e estruturada na época da escravidão.
Cada música tinha uma apresentação era tipo de um gesto que a gente fazia,
a dança variava também... Mas...Eu sei... era a mestra quem dizer a rainha
da Taieira, na época, que na Taeira tem o rei e a rainha, eu era a rainha da
Taieira. Eu era quem puxava as músicas, cada música era um tipo de dança...
(Tanúzia Paulino Xavier, 22 de abril de 2015).
Como conta Tanúzia a música da Taieira tem um repertório voltada para
um culto religioso, cada música tinha um objetivo, não eram cantadas só por cantar.
.
A música da Taieira só fala mais em coisa religiosa, assim... como se fosse
canto de Pastoril, canto de pastoril num canta canto de Jesus, na Taieira
também é assim.
Taieira do porto foi quem me criou
Estrela do céu foi quem me coroou
Dançar Taieirinha na ponta do pé
Pra festeja...
(Tanúzia Paulino Xavier, 22 de abril de 2015).
30
2. MEMÓRIA E FOLGUEDOS
Este capítulo tem como questão central, de fato, possibilitar uma discussão
sobre memória dos festejos de padroeiros e folguedos.
2.1 Memória e Folguedo: O debate
De acordo com Lê Goff (2003) a memória, como propriedade de conservar
certas informações, ou seja, que diz respeito a vivências que fizeram parte de uma
mesma realidade, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de informações
psíquicas, graças às quais o homem pode utilizar impressões ou informações que
foram passadas, ou que em seu discurso representa como passadas.
Conforme nos orienta Halbwachs (1925), cada grupo tem uma história e
nesses grupos distinguem personagens e acontecimentos, mas o que chama a
atenção, diz o autor, é que na memória as semelhanças passam para o primeiro plano:
revendo o passado o grupo toma consciência de sua identidade através do tempo.
Quando dizemos que um depoimento não nos lembrará nada se não
permanecer em nosso espírito algum traço do acontecimento passado que
se trata de evocar, não queremos dizer, todavia que lembramos somente que,
desde o momento em que nós e as testemunhas fazíamos parte de um
mesmo grupo e pensávamos em comum sob alguns aspectos,
permanecemos em contato com esse grupo, e continuemos capazes de nos
identificar com ele e de confundir nosso passado com o seu. Poderíamos
dizer, também: é preciso que desde esse momento não tenhamos perdido o
hábito nem o poder de pensar e de nos lembrar como membro de grupo do
qual essa testemunha e nós mesmos fazíamos parte, isto é, colocando-se no
seu ponto de vista, e usando todas as noções que são comuns a seus
membros. (HALBWACHS,1968, p. 28)
Entendendo o que foi exposto acima, o que prova a veracidade da vivência
de um grupo é a capacidade de todos que constitui o mesmo, ter em suas falas um
pensamento compartilhado entre todos, assim percebendo uma identificação entre
seus membros isso possibilitará a criação de uma memória coletiva do grupo.
Para que nossa memória se auxilie com a dos outros, não basta que eles nos
tragam seus depoimentos: é necessário ainda que ela não tenha cessado de
concordar com suas memórias e que haja bastante pontos de contato entre
31
uma e as outras para que a lembrança que nos recordam possa ser
reconstruída sobre um fundamento comum. (HALBWACHS,1968, p. 34).
A memória coletiva para ser o que é, precisa que os membros que
constituíram determinado grupo, aprovem as memórias dos componentes ao ser
construído, além disso, necessita que essa mesma memória dos participantes tenha
diversos pontos convergentes no seu discurso, pois só assim pode se construir a
memória de um grupo ou comunidade. Neste sentido em Boca da Mata, Peri-Peri,
Ouro Branco e Bento Moreira foi o que aconteceu com os grupos de folguedos desta
cidade em discursão, os diálogos foram se encaixando e favoreceu para a formação
da memória dos folguedos. Sendo assim vale fazer uma interpretação sobre a
concepção de folguedo.
2.2 Compreensão sobre folguedos
De acordo com o Ministério da Cultura (2015), Alagoas é o estado que
possui a maior diversificação em folguedos, são 29 manifestações folclóricas
registradas e reconhecidas.
Como esclarece Mário de Andrade, um dos pioneiros que fez parte dum
processo de valorização dos saberes populares brasileiros, em sua concepção define
os folguedos como danças dramáticas assim descrito:
Reúno sob o nome genérico de ‘dança dramática’ não só os bailados que
desenvolvem uma ação dramática propriamente dita, como também todos os
bailados coletivos que, junto com obedecerem a um tema dado tradicional e
caracterizador, respeitam o princípio formal da Suite, isto é, obra musical
constituída pela seriação de várias peças coreográficas (ANDRADE, 1982, p.
71).
Já para Câmara Cascudo (2000) um dos maiores folcloristas brasileiros,
faz utilização do termo folguedo popular desta maneira:
Manifestação folclórica que reúne as seguintes características: 1) Letra
(quadras, sextilhas, oitavas ou outro tipo de verso); 2 Música (melodia e
instrumentos musicais que sustentam o ritmo); 3) Coreografia (movimentação
dos participantes em fila, fila dupla, roda, roda concêntrica ou outras
formações); 4) Temática (enredo da representação teatral.)” (CASCUDO,
2000, p. 241).
32
De acordo com os autores antes mencionadas, pode-se analisar que os
folguedos não são danças com apenas uma característica, mas estes termos são
compostos por uma gama de diversidade de estilos envolvidos na apresentação,
todavia é preciso que apresentem um caráter dramático de representação.
E depois de numerosas discussões, foi aceito que por ‘folguedo popular’ se
entenderia todo fato folclórico, dramático, coletivo e com estruturação.
Dramático não só no sentido de ser uma representação teatral, mas também
por apresentar um elemento especificamente espetacular, constituído pelo
cortejo, sua organização, danças e cantorias. Coletivo por ser de aceitação
integral e espontânea de uma determinada coletividade; e com estruturação,
porque através da reunião de seus participantes, dos ensaios periódicos,
adquire uma certa estratificação. Seu cenário são as ruas e praças públicas
de nossas cidades, especialmente nos dias de festas locais, em louvor de
santos padroeiros ou do calendário (LIMA, 1962, p. 11).
Amparado na definição concebemos traz uma definição clara do que está
posta a ser trabalhado, pois os folguedos que se fizeram presentes nos lugares onde
foi realizada esta pesquisa, mostra que, de fato, todas as apresentações realizadas
pelos grupos, eram realizados em espaços públicos e mais especificamente nos dias
festivos em louvação aos santos padroeiros de cada lugar desta cidade. Assim estão
de acordo com as definições citadas pelos autores.
2.3 A festa ontem e hoje
Como foi constatado por meios das entrevistas realizadas, era difícil
planejar as novenas dos padroeiros sem que os grupos de folguedos de cada lugar
não se fizessem presentes, pois havia uma ligação entre esses dois elementos, festa
de padroeiros e folguedos, esse último, era o complemento da novena, ou seja, rezar
e em seguida dançar como forma de louvar o nome de Deus por meios das
apresentações folclóricas como relata D. Divaci moradora do Peri-Peri, as festas
tradicionais da época eram ligadas a igreja católica. A festa de São Sebastião de
Jeguiá da Praia acontecia na casa de D. Zefa Marques7 e na casa do senhor Abílio8.
Rezavam o terço e celebravam novenas a luz de candeeiros. Após as orações a festa
7
Josefa Marques (in memória) moradora do distrito Peri-Peri, na sua casa que acontecia a festa de São
Sebastião.
8
Abílio (in memória) morador do distrito Peri-Peri, sua residência era lugar onde acontecia a novena de
São Sebastião.
33
continuava na rua com jogos, leilões e apresentações de grupos folclóricos como
guerreiro, pastoril e baiana.
Ainda sobre festa de padroeiros e folguedos D. Nicinha complementa:
“na fazenda Ouro branco também era celebrada a festa de São Sebastião
que acontecia no dia 20 de janeiro. Nesta festa existia botequim, aquelas
coisinhas de confeitos para comprar e zabumba. A festa era de iluminação a
gás, candeeiro.... Nas festividades rezava-se a novena, ao terminar a novena
a animação ficava por conta das apresentações dos grupos de folguedos. ”
A perspectiva trazida por Norberto Luiz Guarinello (2001) é pertinente. Na
tentativa de delinear o conceito de Festa, o autor propõe-se a ver a Festa, não como
realidade oposta ao cotidiano, mas sim como algo que está próximo deste, integrada
ao próprio costume diário. Dentre elas se encontram as festas religiosas que, quando
realizadas no interior de uma comunidade, fazem com que os indivíduos se unam em
torno de um objetivo único que é no caso aqui tratado, está relacionado à festa
religiosa em louvar à Deus.
Pode-se perceber que, era com essa intenção que se celebrava a festa.
Nos lugares onde haviam as comemorações de padroeiros como em Boca da Mata,
Distrito Peri- Peri, Povoado Ouro Branco e Fazenda Bento Moreira, essa era uma
realidade que estava ligada ao dia a dia das pessoas. A comunidade já esperava todos
os anos pelo dia das celebrações dos santos cultuados pela população.
Como relata Moura (2007) as festas populares brasileiras podem ser
classificadas conforme seus elementos estruturais, isto é, como festas religiosas,
profanas e profano-religiosas. Neste trabalho em particular está sendo abordada a
perspectiva da festa profano-religiosa.
Segundo Deus; Silva (2008) através das festividades pode-se conhecer,
portanto muito da história de um povo mostrando o comportamento da mentalidade
de uma sociedade em diferentes épocas, por meio das festas podemos conhecer a
história de uma maneira, muitas vezes, não contada, o que dá a ilusão de um
acontecimento ausente ou desconhecido.
Desta maneira podemos compreender que foi por meio das festas dos
padroeiros, bem como em outras festas religiosas como as natalinas que
possibilitaram a cidade de Boca da Mata, Distrito Peri-Peri, Povoado Ouro Branco e
fazenda Bento Moreira a ter uma vivência dos folguedos, e aqui é dada a oportunidade
de sistematizar a história da memória desse povo e desta cidade, contribuindo assim,
34
para construção de um material dos folguedos sendo de utilidade para os indivíduos
que ainda estão por vim, ao mesmo tempo que é identificado como um patrimônio
imaterial da cidade.
Conforme relata a Organizações das Nações Unidas para Educação,
Ciências e a Cultura- UNESCO (2015) o Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível
compreende as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos
em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e passam seus
conhecimentos a seus descendentes. É reconhecida a importância de promover e
proteger a memória e as manifestações culturais representadas, em todo o mundo,
por monumentos, sítios históricos e paisagens culturais. Mas não só de aspectos
físicos se constitui a cultura de um povo. Há muito mais, contido nas tradições, no
folclore, nos saberes, nas línguas, nas festas e em diversos outros aspectos e
manifestações, transmitidos oral ou gestualmente, recriados coletivamente e
modificados ao longo do tempo. A essa porção imaterial da herança cultural dos
povos, dá-se o nome de patrimônio cultural imaterial.
Lê Goff (1996) nos fala que é por meio das festas que se pode manifestar
alguns fatos sociais, tornando a festa um elemento revolucionário. A pesar de ser
acontecimentos temporários, deixam uma série de contribuições para a história dos
povos, revelando suas tradições, crenças, conquistas e costumes.
Atualmente
houve
uma
modificação
nas
festas
dos
padroeiros
comparando-as com as festas de antes, não se ver a presença dos folguedos nessas
comemorações, pois antes era algo bem forte e que marcava presença nos festejos,
pois ao pensar na festa do padroeiro fazia-se necessária pensar na preparação das
apresentações culturais como identifica os ex-brincantes. Os folguedos era presença
importante na festa, além das rezas das novenas. Como observa Diégues Júnior
O caso das festas populares ou dos folguedos típicos de engenho é bem
curioso. Já não se guardam as tradições antigas; quase nem se as conhecem
mais. (Diégues Júnior, 2006, p. 305).
Baseado em Diégues Júnior (2008) pode-se afirmar que na cidade de Boca
da Mata, às festas de padroeiros e os folguedos, segue bem seu pensamento, pois
nos lugares onde foi realizada a pesquisa pode-se percebe que não houve uma
preocupação em conservar a tradição dos folguedos. A comunidade sequer sabe que
os folguedos fazem parte da história da cidade, pois agora, apenas ficam nas
lembranças das pessoas “mais velhas” do lugar.
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Atualmente nas festas dos padroeiros existentes na Cidade tais como:
Festa de Santa Rita de Cássia e de Nossa Senhora das Dores em Boca da Mata;
Festa de Nossa Senhora da Conceição em Peri- Peri; Festa do Sagrado Coração de
Jesus no Ouro branco, não se ver mais a presença dos folguedos. Como nas festas
antigamente tinham proporções menores comparadas com as que vemos hoje, além
disso, a preocupação das festas realizadas antes era de louvar a Deus em quaisquer
das ações dentro da festa.
Nestes lugares, no período em que acontece a festa é possível perceber
que durante as nove noites da novena, cada dia é destinado a alguns grupos,
movimento ou pastorais da comunidade ou das comunidades vizinhas. Cada um dos
que participarão tem a responsabilidade de se fazer presente participar da celebração
e levar prendas para que essas sejam colocadas no leilão com o objetivo de arrecadar
fundos para a igreja.Os folguedos, nos dias atuais foram substituídos pelos parques
de diversões e shows.Nas reuniões que participei para a preparação do novenário de
Nossa Senhora da Conceição,os folguedos não são mais lembrados por aqueles que
estão à frente da organização da festa como acontecia antes. As preocupações
maiores são: convite da festa, comunidades convidadas, parque de diversão, liturgia
para o novenário, ornamentação da igreja e as procissões. Os folguedos só são
lembrados pelas pessoas mais velhas que já foram brincantes e não mais estão tão à
frente dos preparativos dos festejos de padroeiros.
3. OS FOLGUEDOS EM BOCA DA MATA, UMA TRADIÇÃO NA
MEMÓRIA DOS “MAIS VELHOS”.
Para melhor compreensão organizei a apresentação dos folguedos
dividindo-os pelos quatros lugares que foram pesquisados: Boca da Mata, Povoado
Peri-Peri, Povoado Ouro Branco e fazenda Bento Moreira. Em cada lugar descrito foi
identificado práticas de folguedos. Assim as entrevistas foram dispostas baseado no
lugar que o (a) entrevistado (a) residia ou reside até o dia de hoje.
O trabalho etnográfico descrito agora está baseado nas falas dos exbrincantes que são pessoas “mais velhas” dos lugares como Zé Wilton morador da
cidade Boca da Mata, Dona Nicinha residente do Ouro Branco, Dona Divaci Peri-Peri
e Tanízia que morou na fazenda Bento Moreira. Suas falas ganham eficácia na
construção da memória dos folguedos.
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O texto descrito a seguir é fruto de um trabalho de escuta para organização
da memória dos folguedos os quais estas pessoas fizeram parte. Para construção
desta memória os informantes tiveram que voltar ao passado para contar, algumas
vezes era preciso citar nomes de pessoas que fizeram partes dos folguedos e que não
se encontram mais entre nós.
3.1 Boca da Mata
Fotografia 6, ano 2015, arquivo próprio,
José Wilton de Melo.
Por meio das pesquisas e entrevistas realizadas com ex-brincantes, filho
de mestres de Guerreiros e organizadores de folguedos na cidade de Boca da Mata
existiu alguns tipos de folguedos. O primeiro que se tem notícia e que existiu nesta
localidade foi o Guerreiro, como nos conta José Wilton de Melo de 55 anos, professor
e filho do mestre.
Meu pai Antônio Alves de Melo (inmemória) foi mestre de Guerreiro desde os
25 anos de idade até os 70 anos. As apresentações do grupo eram realizadas
nas festas natalinas de finais de ano bem como nas festas de padroeiro como
na festa de Santa Luzia e Festas de Reis. Eram feitas também apresentações
fora do município, em Maribondo e Atalaia. A duração do Guerreiro foi de
1970 a 1980. Os ensaios aconteciam de fevereiro à novembro em algum pátio
de alguma escola do município. O Guerreiro era constituído por pessoas da
37
família, filhos, primos, sobrinhos e irmãos. (Entrevista na Casa da irmã de
José Wilton, no dia 28 de outubro de 2014).
Em seguida como relata José Wilton de Melo na cidade de Boca da Mata
existia um grupo de folguedo, o Guerreiro, o qual era seu pai o Antônio Alves de Melo,
conhecido pela população como Mestre Almeida. O lugar que este folguedo
encontrava para sua prática era única e exclusiva nas festas de comemoração dos
Santos cultuados pela população.
Ainda nesta cidade existiu e ainda existi o Coco de Roda, mas não mais
com o mesmo organizador que deu início a essa prática neste lugar.
Organizei o Coco de Roda, que tinha como nome “Pisa mulata” na Escola
Josefa Cavalcante Suruagy. (Entrevista naCasa da irmã de José Wilton)
Como foi apresentado antes Zé Wilton foi o primeiro a organizar este
folguedo na cidade,desde 2005, hoje ainda sobrevive como utras pessoas no
comando, sempre lutando para que esse folguedo se perpetue e se mantenham vivo.
Estou à frente do grupo há dois anos. O nome do grupo atualmente é “Flor
da Mata” [...] fazemos apresentações nas festas juninas, já fomos apresentar
em uma conferência da cultura e em outros lugares fora da cidade. Quando
está faltando um mês para o São João, ai começamos a ensaiar, ou quando
alguém nos convida. O coco é composto por alunos da escola (Entrevista
realizada em10 de dezembro de 2014, no colégio Estadual Josefa Cavalcante
Suruagy).
Como já foi organizador de coco de roda, esse é um tipo de folguedo que
caiu no gosto dos adolescentes e jovens por ter um contato físico entre o par, ter um
sapateado bem marcado com as batidas dos instrumentos e faz uma ligação bem forte
com a musicalidade que é característico deste folguedo. Sempre que há alguma
pessoa para organizar e se responsabilizar para estar conseguido espaço os ensaios,
os componentes não é problema, não falta pessoas para querer dançar.
Outro tipo de folguedo que existiu nesta cidade e que também foi de
organização de Zé Wilton foi o Pastoril.
Organizei junto com Bernadete Leite (in memória) o Pastoril existiu de 2005
a 2010, por meio da secretaria de educação e cultura de Boca da Mata. As
apresentações deste folguedo eram realizadas nas festividades dos finais de
anos, o mesmo era composto por alunos das escolas municipais da cidade
(Entrevista realizada na Casa da irmã de José Wilton, no dia 28 de outubro
de 2014).
De acordo com os depoimentos, nota-se que Zé Wilton contribuía com a
luta do resgate da cultura popular da cidade, pois segundo o mesmo tinha bastante
38
cuidado com que era relacionado ao folguedo. Tudo que compõe as vestimentas do
grupo era muito bem confeccionado de acordo com ele tinha que ser de primeira
qualidade. Desde o Coco de Roda até este folguedo, o que fosse para estes grupos
tinha que ser de qualidade. Era bastante preocupado com a questão estética das
vestes.
Este expressa o que sentia ao organizar os folguedos:
Quando ensaiava os grupos me sentia realizado em poder reviver os tempos
em que autoridades políticas valorizavam tudo aquilo e investiam mais na
cultura. Mas para mim era uma realização profissional, pois como meu pai,
sempre fui apaixonado pela cultura. (Entrevista realizada na Casa da irmã de
José Wilton, no dia 28 de outubro de 2014).
Aqui faz uma ressalva para os tempos em que as autoridades políticas
olhavam para as questões culturas com um olhar mais sensível, apoiando sempre as
iniciativas. Assim havia um maior apoio para que estes folguedos pudessem
permanecer vivo na história desse povo.
3.2 Distrito Peri-Peri
Saindo da Cidade vamos com destino ao povoado Per-Peri, Distrito esse
que pertence à cidade e fica a mais ou menos 8 Km antes da cidade.
A história do Distrito Peri-Peri inicia-se antes mesmo da história da sede do
município de Boca da Mata. Há aproximadamente 100 anos, havia uma fazenda nas
mediações e os moradores desta propriedade, trabalhadores e trabalhadoras nas
fazendas, iniciaram a construção de casas de taipas, quase sempre acobertas de
palhas, ao redor de uma bela lagoa que já existia, conforme Almeida relata:
Gostaria que desta feita as lembranças fossem além da vida da fazenda, que
embora tenham sido escritas a partir da fazenda, sobretudo de frente para os
dois açudes que vi serem construídos. Sempre tive os açudes como
monumentos em homenagem ao meu sogro, amigo e compadre; a saga de
fazer a fazenda em grande parte deveu-se a tenacidade em dominar as
águas, em transformar uma parte do Periperi do véio Pedro Quintela na
Vitória do Peri-Peri do Propício (ALMEIDA 2006, p. 29).
As margens da lagoa eram repletas de Pipiri (Cyperus giganteus), uma
planta que é utilizada na confecção de esteiras artesanais, muito utilizadas para
encher os colchõesultilizados pelas populações mais carentes. Foi esta planta que
deu origem ao nome do Distrito, e que no início era uma das fontes de rendas da
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economia da região, ao lado da agricultura de subsistência, com plantações de
macaxeira, amendoim, feijão pimenta do reino coco, café e laranja.Outra fonte de
renda que era usadapelas mulheres, era a marcela9 e o tucum10. A marcela era uma
planta utilizada para confeccionar travesseiros e o tucum, é paraonfeccinar redes de
pesca, pois é um lugar onde existe uma lagoa, e váriaos rios.
Também existia no povoado mais de uma casa de farinha utilizada pelos
moradores para produzir farinha, essa era vendida para as cidades vizinhas e para
capital, Maceió. Hoje existe uma casa de farinha que é utilizada pela família
paraprodução de subsistência e esta família dispõe do espaço para outras que cultiva
a materia prima que é produzida a farinha.
Os primeiros habitantes do Peri-Peri foram o senhor Pedro, senhor Lídio,
D. Ibelina e o senhor Bil. As mulheres davam a luz sobre os cuidados de D. Antônia
Firmino, a primeira parteira da comunidade local. A primeira professora foi D. Dijanira
Tenório Alves. Ela tinha apenas a 4ª série do ensino fundamental, e dava aulas no
pequeno chalé, sem nenhum recurso didático, mas contribuiu muito com a educação
das pessoas do povoado. Por ser católica, ajudou na construção da capela e na
preparação da primeira turma de crianças que receberam o sacramento da eucaristia.
Hoje a comunidade conta com duas capelas onde celebra a festa de Nossa
senhora da Conceição, que acontece sempre entre os dias 29 de novembro a 8 de
dezembro. Outro santo venerado pela comunidade é o padre Cícero. Todos os anos
e especificamente no mês de janeiro e setembro, duas caravanas são organizadas
pela comunidade rumo ao Juazeiro do norte, terra onde Padre Cícero viveu e morreu.
Décadas depois de criada, a comunidade se transformou em povoado,
atualmente é um distrito. De acordo como os dados de 2006 hoje, a comunidade que
é formada por uma população de 2.406, conta com uma escola de ensino
fundamental, uma creche, dois postos de saúde do programa saúde da família, dois
cemitérios, um pequeno comércio, templos (católicos e evangélicos), e ainda
9Macela é uma erva aromática que cresce até um metro de altura. Produz pequenas flores brancas
com centros amarelos e folhas serrilhadas verdes. Muitas pessoas esmagam as flores para serem
adicionadas a travesseiros ou almofadas como ajuda para dormir. Ela é originária da América do Sul,
incluindo Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
Fonte: http://www.asplantasmedicinais.com/macela-cha-para-que-serve.html
10 Fruto de uma palmeira amazônica, de polpa grudenta e fibrosa. Os indígenas usam as folhas da
palmeira para confeccionar cordas dos arcos, redes para pesca e para dormir. Da madeira, dura e
resistente, fazem muitas coisas, além de utilizarem o óleo da polpa e da amêndoa, que além de
comestíveis, usam-no para untar corpo e cabelo.
Fonte: http://www.caldeiraodeplantasmedicinais.com/2008/07/nossas-frutas-ii.html
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aproximadamente de 08 quilômetros de mata atlântica e a lagoa que deu origem a
comunidade.
Existia uma grande potencialidade na comunidade voltada ao artesanato
com uma confecção de esteiras de pipiri, bolsas de titara11, hoje é possível econtrar
pessoas que ainda desenvolve a arte do crochê, bordado, e pintura. Além de grupos
de jovens que se reúnem em dois campos para jogas futebol. Os grupos folclóricos
voltam também a ser fomentados como quadrilhas e danças típicas.
Em Peri-Peri houve alguns grupos de folguedos que existiram e fazem
pater da história do povo deste luigar como nos mostra D.Divaci:
Participei do Pastoril de seis meses a um ano[...]. Acabou, casei, procurei
família e não deu mais (entrevista realizada na casa de D. Divaci em
dezembro de 2012).
De acordo como o relato de D. Divacino Distrito Peri- Peri havia a prática
de encenar o Pastoril.
No entanto, deixa em evidência que os folguedos eram
realizados como forma de lazer da população da época a qual aproveitava a
ociosidade para a pratica do folguedo e a partir do momento em que as mulheres se
casavam deixava de participar devido encontrar uma ocupação, com isso aquele
tempo que era compreendido como tempo livre de desocupação não há mais neste
momento os afazeres do lar toma esse espaço.
Além deste folguedo D. Divaci participou de outro que foi o das Baianas.
[...] participei do Pastoril e das Baianas de seis meses a um ano[...] comecei
a ensaiar com as meninas. (D. Divaci dezembro de 2012).
Outro tipo de folguedo existente nesta localidade foi o Coco de Roda como
já foi citado no capítulo anterior, este teve diversas pessoas como organizadores. No
princípio D. Julia que foi a pioneira incentivada por Zé Wilton a organizar e ficar
responsavél pelo grupo. Após sua saída sua filha Juliana quem tomou a frente, mas
não havia o mesmo empenho. Passado um longo tempo a prática do Coco de Roda
estava esquecida e não se via mais falar sobre isso, mas com a iniciativa de um grupo
de jovens por meio de um projeto que fazia parte e eram desenvivido neste distrito,
11 O cipó Titara, fino, escuro e espinhoso, é a matéria-prima para a produção de materiais para o lar e
decoração. Uma arte em extinção, devido à dificuldade em se trabalhar com essa fibra.
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eleboram um pequeno projeto para fazer o resgate do Coco de roda.
Após a execução do projeto o objetivo foi o resgate, assim os jovens se
entusiamaram e de 2006 a 2010, este folguedo ficou sendo patrocinado. De 2006 a
2008 ficaram responsáveis juntamente comigo dois jovens um chamado Celso Luiz
residente do Distrito e outro chamando Léomorador da fazenda Chã dos Leões,
ambos participantes e amigos do Coco de Roda. Minha participação foi em relação a
estar organizando o grupo, elaborando ofício para solicitar o espaço da escola para
realização dos ensaios, marcar os dias e horários para ensair, ajudar na coreografia
e se responsabilizar pelo espaço ficando atento com os componentes já que eram
adolescentes. Todos queriam dançar, porém essas responsabilidades ninguém se
dispunha a tomar para si. Na verdade meu papel era de liderar o grupo.Em 2009 estive
ausente devido ter que morar em outra cidade os dois jovens se responsabilizava. Em
2010, apenas Léo segura o grupo. Em 2011, houve uma tentativa de colocá-lo à frente,
mas não foi obitido êxito. Em 2012, houve uma iniciativa de alguns jovens estudantes
da escola local que se organizaram para apresentar nas festividades juninas da escola
como também realizar apresentações na comunidade. Em 2013 e 2014, não se houviu
falar mais neste folguedo.Em 2015 foi possível prestigiar a apresentação deste
folguedo nos festejo junino na cidade de Boca da Mata.
3.3 Povoado Ouro Branco
O povoado Ouro Branco como é conhecido nos dias atuais, era chamado
de Sítio Roncadeira. Em 1924 segundo Dona Nicinha seu avó Francisco ferreira dos
Santos comprou as terras do atual lugar. Após a morte de seus avós, cada um dos
herdeiros, seus pais e segus tios, resolveram mudar de nome, assim ficou fazenda
Ouro Branco.
As primeira pessoas a residirem neste lugar foram os avós de Dono
Nicinha.
As pessoas trabalhavam em roças no intuito de conseguir mantimentos
para subsistência, era a única forma de trabalho da época. Da roça eram tirados
produtos para produzir farinha de mandioca. O avó de Dona Nicinha foi quem
construiu a primeira casa de farinha do lugar.
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Hoje é chamado de povoado Ouro branco, o mesmo é um lugar rodeado
de canaviais, localizado após o Distrito Peri-Peri, lugar deum povo alegre e acolhedor.
Em suas mediações há uma bica que tem por nome “banho azul” que serve de banho
para todos. Nos fins de semana é uma das opções de lazer para os moradores da
fazenda como também para os visitantes de outros lugares.
Aqui foi um lugar em que foi possível notar a existência das práticas de
folguedos como nos conta a entrevistada sobre os grupos que participou:
Guerreiro e Pastoril e os ensaios do Pastoril e do Guerreiro começavam em
junho e durava até janeiro,eu era a primeira pastora do pastoril do cordão
azul (D. Nicinha,dezembro de 2012às 16h00).
Como é notável D. Nicinha participava de todos os folguedos que existia no
lugar onde mora até os dias de hoje. Para ela tempo não era problema, havia tempo
de sobra para participar das festas dos padroeiros e das apresentações.
Os folguedos iniciavam suas apresentações no meio do ano como D.
Nicinha explica:
No encerramento do mês de maio, mês em que nós católicos se reúne para
rezar o terço em saudação a Virgem Maria, todos os dias acontecia às
apresentações, não de forma ensaiada, mas reunia a família e formava o
Pastoril ou o Guerreiro para que a festa pudesse ficar mais bonita. Era de
forma improvisada (D. Nicinha, dezembro de 2012 às 16h00).
Os folguedos que existiam no povoado Ouro Branco ficavam na
responsabilidade de toda a família, pois aqui todos que residiam nesta localidade eram
parentes. Hoje além das famílias também moram pessoas que não fazem parte das
famílias, no entanto a grande maioria são familiares.
As apresentações além de acontecer no mês de maio como foi mostrado,
ocorriam em outras épocas do ano como é amostrado a diante:
Nas festas juninas a festa de Santo Antônio em que rezavam as trezenas
(treze noites de oração) que era rezado na casa do tio Antônio; São João e
São Pedro. Primeiro realizava a novena e após dava-se início as
apresentações do Pastoril e do Guerreiro que seguiam até dezembro. No
Guerreiro eu era a última que se chamava figura do cordão encarnado.
(Entrevista realizada em dezembro de 2012 as 16h00).
43
A organização dos folguedos ficava na responsabilidade do pai de D. Nicinha
que participava desta prática. Segundo D. Nicinha quem organizava os folguedos era
chamado de diretor. As apresentações dos folguedos na fazenda Ouro Branco sempre
aconteciam mediante comemoração dos novenários de algum Santo.
[...] tinha um grupo de Guerreiro ali na fazenda Chã dos Leões que vinha
apresentar nessa festa, na festa de natal na casa do meu avó, na festa de
natal e na missa de Natal. (D. Nicinha, dezembro de 2012às 16h00).
Chã dos Leões é uma fazenda que está situada próxima a fazenda Ouro
branco. Localiza-se entre o distrito Peri- Peri e Ouro branco. Sempre nos momentos
festivos os grupos desta localidade eram convidados a se fazer presentes nos festejos
dos padroeiros celebrados.
D. Nicinha fala ainda da importância que tinha para eles os folguedos e o
que representava essas danças no seu entendimento:
Pra mim, porque meu pai, pra mim ele tudo me explicava, agora eu não sei
pros outros, porque eu sou muito curiosa e perguntava ao meu pai. - Mais
papai para que isso? – Vai chegar o natal e na maneira dele dizer. Comemorar o nascimento de Jesus. E para se ter o nascimento de Jesus
tinha que ter o Pastoril que era já comemorando lembrando o nascimento de
Jesus. Quando era no natal dançava o pastoril. Era sábado e domingo; era
de junho a dezembro dançava o pastoril e o Guerreiro. E no próprio natal se
encerrava.
Em seu tempo de mocidade os sábados e domingos eram destinados aos
ensaios dos folguedos. Neste período de juventude o lazer destinado a essas pessoas
como D. Nicinha era realizado por meio dos ensaios dos folguedos se preparando
para os dias festivos dos padroeiros.
De acordo com Dona Ninchina em entrevista realizada dezembro de 2012,
no povoado Ouro branco município de Boca da Mata, existia o folguedo chamado
Lapinha.
...Ainda no natal se dançava a Lapinha, que era como a formação do pastoril,
mas não tinha Diana (personagem do pastoril). Também tinha o cordão azul
e o encarnado (vermelho), ai cantava, só que não era música de Pastoril, a
música é a que canta na igreja, era assim:
Da cepa brotou a rama
Da rama brotou a flor
Da flor nasceu Maria
De Maria o salvador...
Cantava e dançava indo pra frente e pra traz. Era tipo Pastoril, mas era
Lapinha, com o menino Jesus, a contramestra era vestida de azul com trajes
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de Maria e o pastor era vestido em trajes de São José, para poder se formar
a Lapinha.
Primeiro era assim: tinha o oratório, aquele de madeira de antigamente, não
sei se por ai ainda tem, um santuariozinho de madeira. Aiformava-se assim:
Vinha a Maria que é Nossa Senhora com trajes de Maria, São José e vinha o
menino Jesus, ai com essa música cantando:
Ó Deus salve o oratório
Ó Deus salve o oratório
E a hóstia consagrada oiá meu Deus
E a hóstia consagrada oiá meu Deus
- E iniciava a abertura que era com essa música, ai abria-se o oratório.
Onde mora os cales bento?
Onde mora os cales bento?
E a hóstia consagrada oiá meu Deus
E a hóstia consagrada oiá meu Deus...
Cantava-se a música toda, batendo palmas, todo mundo ao redor batendo
palmas, ai depois se formava a Lapinha, que era o cordão encarnado
(vermelho) e o azul.
O gosto por participar desses grupos, foi devido meu pai gostar dessas
coisas. Ele tomava conta do Pastoril. (D.Nicinha fevereiro de 2013)
Como relata o motivo e o gosto pelos folguedos partiu do incentivo de seus
pais como ele gostava a tendência era os filhos acompanharem os pais. Com isso
houve um incentivo para que a família estivesse sempre junta para os que se iria fazer.
O guerreiro e o pastoril deixou de existir porque a tradição foi se acabando
né. A festa de Natal em Peri- Peri que era muito boa ali na igrejinha na capela
de Nossa Senhora da Conceição ai a festa foi deixando de existir, os mais
velhos foram morrendo como se diz a história e os mais novos não seguiram
a tradição. Também porque era minha tia Neci quem organizava a festa de
São Sebastião que acontecia no dia 20 de janeiro. (Josefa Lenice Torres
conhecida como Dona Nicinha, ex-brincante de folguedos) (D. Nicinha
fevereiro de 2013)
A mesma finalizar contando acerca do sentimento de poder participar dos
folguedos.
Eu me sentia muito bem porque assim... eu era a primeira pastora do pastoril
sabe... do cordão azul ai aquilo ali, o pastoril acompanhado com sanfona...
tinha aquelas apresentações o pastoril era completo
E era em festas como essas, que existia no povoado Ouro Branco, que os
folguedos encontravam espaços para permanecer vivo na cultura da população. O
que causou o desaparecimento dos folguedos seja, talvez, a ausência de pessoas
para organizar essas festas cultuadas pela população. Em meio a uma comunidade
contendo diversos habitantes, apenas ficava na responsabilidade de uma única
pessoa a tarefa de organizar a festa do santo e outra para organizar os folguedos.
45
Acredito que não havia uma preocupação pela disseminação na cultura local, após o
pai de D.Nicinha que se responsabilizava por manter a os folguedos vivos. Assim, fazme pensar que o motivoda ausência ou desaparecimento desses folguedos tenha sido
o fato de não haver mais a comemoração da festa dos Santos cultuados na época. E
isso, me faz crer, que a ausência ou desaparecimento dos folguedos esteja atrelado
à ausência dessas comemorações dos Santos festejados pela população. Embora
ainda exista a festividade do Sagrado Coração de Jesus na localidade.
Os dados sugerem que, o que mantinha a tradição do folguedo viva, fosse
à proximidade que existia junto com as festividades dos Santos padroeiros que se
festejavam na localidade. Festa do dia de Reis, São Sebastião, o terço rezado durante
o mês de maio, Santo Antônio, São João, São Pedro e no natal. Não podia haver a
reza das novenas ou trezenas como a de Santo Antônio, sem que após isso, houvesse
o momento das apresentações das danças. Pelo que se nota nos relatos, era a forma
de lazer que as pessoas tinham no lugar. Principalmente quando se dava início aos
ensaios que ocorria de junho a dezembro.
Devido a isso os folguedos permanecem vivo sim, porém na memória dos
que foram brincantes, pois dias de hoje a juventude deste local usa seu tempo livre
para praticar esporte jogando futebol em um campo que existe, reúnem-se para
beberem bebidas alcoólicas, vão aos shows que existem em determinados momentos
e nas redes sociais.
46
3.4 Fazenda Bento Moreira
Fotografia 7, ano 2015 arquivo próprio,
Tanuzia Paulino Xavier.
Esta fazenda também foi um dos lugares que se constatou a presença de
mais folguedos, aqui em particular se encontra três tipos de folguedos que não
existiram nos três lugres citados a cima. Como nos apresenta Tanuzia Paulino
Xavier12:
Começou a gente assim... dançando quadrilha e pastoril, era coisa de escola,
ai por causa dessas diversões de quadrilha e pastoril ai seu Jorge inventou
de fazer danças folclóricas. Ai a gente começou com a dança folclórica pela
Taieira. Pronto foi até o Pedro Teixeira que era de Chã Preta quem vinha
ensinar a gente, professor, ele agora morreu. Ai ele veio ensinar a gente
dançar a Taieira. Ai depois foram aparecendo mais danças, depois da Taieira
veio as baianas, da Baiana veio o Coco... Coco de Roda, do Coco veio o
Reisado. Enquanto ele ensaiava, vinha e explicava outro tipo de dança. Ai o
caboclinho, era... dança de índio como se diz a história, ai pronto ficou tudo
junto assim, dependendo do lugar que a gente ia sair, ficamos famosas como
diz a história, andamos por aqui quase tudo dançando, ai quando tinha pra
gente sair, pra apresentar em alguma cidade, ai... eu acho que o pessoal
pedia, a Taieira ou a Baiana ou o Coco, o Reisado, o reisado porque era mais
difícil, o reisado era muita coisa para botar em cima da gente ai agente...
assim... quando era o Reisado só dançava o reisado e o Coco de roda,
quando era a Taieira tinha a Baiana e Coco de Roda e as vezes era a Taieira,
a Baiana e o Coco de roda. Ai era essas danças que agente dançava.
(Tanuzia Paulino Xavier 22 de abril de 2015)
12
Tanuzia Paulino Xavier, 48 anos de idade, hoje enfermeira, foi ex-brincante de folguedos.
47
O início das práticas dos folguedos aqui iniciou-se como simples
brincadeiras e festividades para serem realizadas na escola. Seu Jorge como é
conhecido tomou iniciativa de levar a frente aquela brincadeira inicial, reuniu as moças
e rapazes do lugar e se responsabilizou pelas vestes, como isso foi dado inícios aos
folguedos nesta fazenda.
Dançavam em Boca da Mata, Anadia, Maribondo, Campo Alegre, São Miguel,
Barra de São Miguel, Pilar, Marechal é...até em Maceió mesmo na Asplana,
tinha outro clube, que eu não tô lembrada. Só sei que a gente “batia” por aqui
aqui tudo. Principalmente quando era Emancipação política, ai a gente
andava tudo isso. Nãoas roupas como ele podia, ele mesmo comprava, ele
mesmo mandava costurar, nós só tirava a medida. (Tanúzia Paulino Xavier
22 de abril de 2015)
Após a formação do grupo, o mesmo sempre que convidado realizava
apresentações em diversos lugares do estado e nos mais variados tipos de festas:
Dançavam mais em Emancipação política das cidades, em festa de Padroeira
também. A gente apresentava na praça. (Tanúzia Paulino Xavier 22 de abril
de 2015)
Além dos lugares que viajavam, o mais importante era apresentar no lugar
onde moravam, pois, a fazenda Bento sempre foi e ainda é um lugar bastante visitado,
devido ser reserva de mata atlântica serve para estudos. Ainda para este lugar
pessoas agendam visitas para irem ao museu onde existem centenas de obras em
madeira feita pela família de Manoel da Marinheira, além disso, as pessoas vão para
este lugar afim de se banhar na piscina ou nos rios que cerca o lugar.
Assim... tinha festa, no Bento não faltava gente na piscina assim... turistas ai
vinha um pessoal duma faculdade da Paraíba, agente apresentava. As vezes
o pessoal pedia que era pra fazer aniversário essas coisas que vinha de
Maceió, aquele povo do tempo panela de barro, gaúcho aquele povo tipo
gaúcho a gente apresentava. Quando chegava alguma visita dele mesmo
parente ou amigo vindo de longe a gente apresentava, quando fazia festa,
sempre a gente apresentava. Aniversário dele assim essas coisas que a
gente fazia festa surpresa. (Tanúzia Paulino Xavier, 22 de abril de 2015).
48
Os folguedos aqui tinham uma valorização muito grande, pois se fazia
presente em diversos momentos, onde o houvesse espaço eles estavam. Não
necessariamente precisava ser datas comemorativas do calendário religioso. Mas
desde a chegada de uma vista de parentes do dono da fazenda a outros momentos
mais festivos como seu próprio aniversário.
No Natal dançava pastoril, ai a gente saia tempo de natal, porque juntava o
Pastoril e a Taieira porque sempre a Taieira é uma dança mais religiosa. A
gente dançava que só em época de Natal. Quando o padre fazia novena
alguma coisa assim, ai tinha apresentação. (Tanuzia Paulino Xavier 22 de
abril de 2015)
Tanuzia faz uma abordagem sobre o que sentia ao participar dos folguedos,
falando que:
Primeiro você tem que gostar, era bom, era danças diferentes a gente
aprendia tudo, sempre gostei de dançar, então eu me divertia, era muito bom.
Nas apresentações o povo gostava a gente era aplaudida, sentia o prazer de
dançar para o povo e o povo gostar. Era chamada para gente ir para muitos
cantos e agente iria passear. Era bom demais conhecer os lugares...
Mas, não se poderia perder o costume, os folguedos aqui também faziam
parte das festas de finais de ano, festas natalinas, nas festas de padroeiro, após os
novenários. Esses eram os momentos cruciais em que deveriam estar presentes.
De acordo com os relatos de Tanuzia os folguedos foram acabando devido
às meninas ao sair de casa dizendo que iria para o ensaio, antes já havia marcados
com seus namorados e nem aparecia lá “fugia13”. Assim como seu Jorge não queria
se comprometer achou melhor acabar para que os pais o culpassem.
Atualmente, existem poucas pessoas residindo nesta localidade, pois se
mudaram para outros lugares. Assim os poucos jovens que ainda moram nesta
fazenda ocupam seu tempo no trabalho, na escola, nos shows e nas redes sociais.
Os moradores que ainda participam de algo relacionado aos festejos de padroeiros
são os donos da fazenda, pois possuírem meios de transporte para se locomoverem.
Os demais, como não há mais festas de padroeiros na localidade e não possuem
meios de transporte, não participam, a não ser das missas quando tem oportunidade.
Antes de 2011, como a feira era realizada aos domingos, as pessoas desta
fazenda tinham apenas acesso as missas que eram celebradas aos domingos pela
13
Maneira de falar quando uma mulher vai embora para casa de um homem morar com ele sem casar
nas formas jurídicas.
49
manhã, aproveitando o carro da feira que levaria os moradores. Às vezes, nessas
idas, eram realizados batizados dos filhos. Atualmente não há um cronograma de
missas para o Bento Moreira, caso os donos queiram quem seja celebrada uma missa,
devem agendar na paróquia. Nos dias atuais a feira é realizada aos sábados.
Diante do que foi exposto neste capítulo pelos entrevistados, os folguedos
faziam parte da ocupação das pessoas da época, servido como uma forma de
preencher o tempo livre, porém este momento compreendido como isento de
atividades relacionadas ao trabalho, favorecia para preparação dos festejos dos
padroeiros bem como para preparação das apresentações dos folguedos.
Para alguns entrevistados os folguedos eram uma contribuição para ajudar
na louvação a Deus após as rezas dos novenários dos santos padroeiros. As pessoas
que participavam tinham disponibilidade, pois todos os informantes participaram em
mais de um tipo de folguedos sendo assim se sentiam bastante felizes e realizados,
por esta contribuir com acultura local.
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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A memória dos folguedos é um estudo possível de ser realizado em
diversos lugares os quais desejem que sua história possa ser construída e guardada
para sempre, como no caso aqui foi realizado.
A memória dos folguedos construída e estudada em Boca da Mata/AL
possibilitou uma reflexão sobre as maneiras como as pessoas dos determinados
lugares citados no trabalho ocupavam sem tempo livre.
Em cada pessoa entrevistada foi analisado a forma como se expressavam
ao relembrar de sua participação no folguedo. Ao se remeter as lembranças foi
possível presenciar a expressão da sensação de prazer ao ter feito parte dos
folguedos, assim essa sensação tomava conta do semblante dos entrevistados. No
caso específico de D. Nicinha ao relatar a sua participação, afirma que caso houvesse
um grupo de algum tipo de folguedos nos dias atuais ainda se dispunha a ensinar e a
dançar. Ao finalizar a entrevista ficamos a conversar e ao pedir o CD das músicas do
Pastoril, procurou e antes de me emprestar não pensou duas vezes, imediatamente
colocou no som e começou a dançar, a cantar com muito gosto. Além disso, foi motivo
de satisfação em ter contribuído fazendo um resgate do(s) folguedo(s) que existiram.
Atualmente, nos lugares que foram realizadas as entrevistas, as formas de
ocupar o tempo livre pelos jovens na igreja são por meio da participação em grupos
de jovens, movimentos e pastorais. Os folguedos que existiram, encontram-se
ausente das festas dos padroeiros.
Baseado nas falas dos informantes não houve uma preocupação em
disseminar os folguedos por partes dos “mais velhos” para os mais novos. Assim
outras coisas foram surgindo no lugar como forma de entretenimento e lazer, fazendo
com que os folguedos fossem caindo no esquecimento das pessoas.
O coco de roda é um folguedo que ainda perdura até os dias atuais, porém
sua permanência não está atrelada aos festejos de padroeiros. Esse fica
independente dos acontecimentos. Encontra-se presente nas festas juninas da
cidade, especialmente ensaiado para esta época do ano.
Um fato que foi identificado na pesquisa, é que sempre nestes lugares
havia mais de uma forma de folguedos, em nenhum lugar foi encontrado apenas uma
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forma. Assim, percebe-se que sempre havia espaço para diversos folguedos e não
apenas um, pois se o intuito era louvar a Deus então deveria fazer parte da festa.
Aqui fica notório que, o trabalho exposto sobre a memória dos folguedos
não traz todos os aspectos possível de serem apresentados, muitas coisas podem
ainda ser extraídas. Todavia acredito que o objetivo da pesquisa foi alcançado o qual
foi apresentar as festas dos padroeiros existentes na cidade ao mesmo tempo
possibilitando uma apresentação dos folguedos que eram partes da realização da
festa dos santos padroeiros como um complemento nas louvações. Fazendo com que
muitos possam conhecer um dos elementos que fizeram parte da história do seu lugar;
coisa que muitos nos dias atuais não têm essa informação. E hoje esta prática
encontra-se diminuindo, pois apenas um folguedo ainda sobrevive na localidade.
O material construído resultante no resgate da memória coletiva, foi de
fundamental importância, visto que, todos, mesmo que não pratiquem folguedos
atualmente, poderão conhecer um dos aspectos que faz parte da sua identidade
cultural. Tendo assim, uma parte da sua história que ainda não foi explicitada na
história atual da cidade. Assim, este trabalho possibilita uma compressão mais
detalhada que ainda a população bocamatense não conhece para contribuir desde a
raiz, sua identidade cultural.
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