Devoção e santidade em Santa Luzia do Norte-AL

Discente: Zulma dos Passos Feitosa Ribeiro; Orientador: Silóe Soares de Amorim.

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

ZULMA DOS PASSOS FEITOSA RIBEIRO

DEVOÇÃO E SANTIDADE EM SANTA LUZIA DO NORTE - AL

Maceió – Alagoas
2014

ZULMA DOS PASSOS FEITOSA RIBEIRO

DEVOÇÃO E SANTIDADE EM SANTA LUZIA DO NORTE - AL

Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado como requisito parcial para
obtenção do grau de licenciado em
Ciências Sociais pela Universidade
Federal de Alagoas – UFAL.
Orientação: Prof. Dr. Siloé Soares de
Amorim

Maceió – Alagoas
2014

ZULMA DOS PASSOS FEITOSA RIBEIRO

DEVOÇÃO E SANTIDADE EM SANTA LUZIA DO NORTE - AL

Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado como requisito parcial para
obtenção do grau de licenciado em
Ciências Sociais pela Universidade
Federal de Alagoas – UFAL.

BANCA EXAMINADORA

Prof.ª. Ms. Juliana Nicolle Rebelo Barretto

Prof.ª. Drª. Silvia Aguiar Carneiro Martins

Prof. Dr. Siloé Soares de Amorim – UFAL
(Orientador)

Maceió, _____ de junho de 2014.

Dedico este trabalho a Família do Z: Zenon (mainha), Zeonne
(irmã), Zara (filha) e ao meu Rei David (esposo) a quem os
amo muito. Foram essas pessoas que tornaram esse sonho
possível. Pois já dizia o cantor:
“sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só,
sonha que se sonha junto é realidade” Raul Seixas.

AGRADECIMENTOS

Agradeço Aquele que nos proporciona tudo. Aquele que é providência, luz e
sabedoria, ao meu Bom e Amado Deus, em quem sempre confio e entrego todo o
meu ser.
Agradeço a Mainha, que soube encaminhar sua família para a vida, principalmente
nos momentos mais difíceis, para nós, pois para ela não existe tempo ruim. Eita
mulher guerreira!
Agradeço a minha irmã, mesmo sem saber foi uma grande incentivadora nos meus
estudos acadêmicos.
Agradeço a David, meu esposo, uma das pessoas mais importantes para que eu
pudesse cursar esta Faculdade, uma vez que, quando entrei na UFAL estava
grávida e não sabia e todas as noites durante todo o curso, foi o Paizão que ficou
com nossa filha.
Agradeço a minha querida e amada filha, que era tida como a mascote de nossa
turma, pois ela frequentava mais a faculdade (na barriga da mamãe) que outros
colegas de curso, assim eles mesmos afirmavam. E foi pensando no seu bem que
me dediquei ao máximo para ter êxito neste curso.
Agradeço ao meu companheiro Carlos Jorge, de todas as vezes que me incentivava,
impulsionava, alegrava, descontraia, explicava com palavras certas na hora exata. E
foi o grande incentivador deste trabalho.
Agradeço a todos os professores e colegas de turma que me ensinaram muito, a
compreender a complexidade de cada autor estudado.
Agradeço a todos os paroquianos, amigos, conhecidos, padres, entrevistados local e
visitantes, pela contribuição para realização deste trabalho, que tem um pedacinho
de cada um com sua vivência de fé, de festa em Santa Luzia do Norte/AL.
Agradeço a Professora Silvia Martins, pessoa simples e humana que pensa no
próximo e ajuda naquilo que pode sem limitações.
Agradeço ao meu Orientador, Professor Siloé Soares de Amorim, que pegou o
barco.
o caminho e me ajudou atravessar para outra margem. Cheio de esperança,
sabedoria, incentivo e pé no chão me ajudaram a cumprir mais um ciclo nesta vida.

A religiosidade é certamente a expressão maior de sentimento
inconsciente de incompletude humana, pois de algum modo,
ela se manifesta para aqueles que creem em uma força
superior, seja ela Deus ou um ser não claramente entendido.
Rosa Lydia Teixeira Corrêa

RESUMO

O presente trabalho tem por objetivo expor um estudo à festa de Santa Luzia de
Siracusa, padroeira da cidade de Santa Luzia do Norte - AL. Analisando sua
importância no fator cultural e religioso. Foram feitas também entrevistas com
pessoas de diferentes faixas etárias. No decorrer dos capítulos há uma revisão
bibliográfica contendo autores que dissertaram sobre a cultura religiosa, a devoção e
a fé cristã. Em seguida uma breve redação sobre fatos históricos da cidade de Santa
Luzia e a trajetória de uma vida cheia de devoção e renúncia. Por fim, o trabalho tem
uma visão antropológica social numa etnografia apresentando além do texto,
imagens como ferramenta de investigação e de análise da antropologia fazendo um
aprofundamento sobre a festa católica de Santa Luzia de Siracusa em toda sua
essência e organização. As manifestações populares religiosas são vistas através
de festas e por rituais religiosos que demonstram a fé dos fiéis e todos os envolvidos
buscam um objetivo comum à devoção a Santa Luzia.

Palavras-chave: Cultura religiosa, Antropologia, Imagem.

ABSTRACT

This work aims to study expose a feast of Saint Lucy of Syracuse, patron saint of
Santa Luzia do Norte - AL. Analyzing its importance in cultural and religious factor.
Interviews with people of different age groups were also made. Throughout the
chapters there is a literature review containing authors who lectured on religious
culture, devotion and the Christian faith. Then a brief essay on historical facts from
Santa Luzia and the trajectory of a life full of devotion and renunciation. Finally, the
work has a social anthropological ethnography presenting an addition to the text,
images and research and analysis tool of anthropology doing a deepening on the
Catholic feast of Saint Lucy of Syracuse in all its essence and organization. The
popular religious manifestations are seen through festivals and religious rituals that
demonstrate the faith of believers and all those involved pursue a common goal
devotion to Santa Luzia.

Keywords: Religious Culture, Anthropology, Image.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Lista de Fotos

Foto 1 - Fachada da Igreja Matriz de Santa Luzia – 1979........................................ 24
Foto 2 - Fachada da Igreja Matriz de Santa Luzia – Atual........................................ 29
Foto 3 – Primeira Imagem de Santa Luzia ............................................................... 30
Foto 4 – Decoração do mastro ................................................................................. 36
Foto 5 – Família Noiteira .......................................................................................... 37
Foto 6 - Altar central da Igreja de Santa Luzia ......................................................... 38
Foto 7 – Imagem de Santa Luzia do Norte na charola ............................................. 39
Foto 8 – Fiéis colhendo flores após a procissão ...................................................... 40
Foto 9 - Barraca de Leilão ........................................................................................ 42
Foto 10 – Barracas que vendem artefatos religiosos ............................................... 44
Foto 11 – Caminhada da Luz ................................................................................... 45
Foto 12 - Barraca de leilão de animais ..................................................................... 46
Foto 13 - Lugares que servem de abrigo para os visitantes .................................... 47
Foto 14 – Cavalhada para festejar o dia de Santa Luzia de Siracusa ..................... 48
Foto 15 – Grupo Musical para animação dos fiéis ................................................... 49
Foto 16 - Momento de saída de Santa Luzia da Igreja ............................................ 50
Foto 17 - Retorno dos fiéis a Igreja Matriz ............................................................... 51

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO....................................................................................................

11

1. DIMENSÃO SIMBÓLICA DA RELIGIOSIDADE............................................

13

1.1 Tradição e religiosidade popular..................................................................

13

1.2 Cultura e Ética Religiosas............................................................................

17

2. ORIGEM HISTÓRICA DE SANTA LUZIA DO NORTE.................................

24

2.1 O município de Santa Luzia do Norte...........................................................

25

2.2 A trajetória de Santa Luzia de Siracusa.......................................................

30

2.2.1 Santa Luzia, Virgem e Mártir....................................................................

32

3. A FESTA DE SANTA LUZIA DO NORTE.....................................................

35

4. RELATO DOS FIÉIS ENTREVISTADOS......................................................

51

CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................

67

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................

70

ANEXOS.............................................................................................................. 71

11

INTRODUÇÃO

O trabalho apresenta a cultura religiosa de uma cidade do interior de
Alagoas, Santa Luzia do Norte. Nesta cidade é comemorada a Festa da Padroeira,
de Santa Luzia festa popular e religiosa, que é marcada pela a tradição da
população local realizada no dia 13 de dezembro.
Ora, sabe-se que a referida cidade é histórica e de grande importância para
o Estado de Alagoas, devido a sua localização geográfica e onde foi o celeiro da fé
para a cristandade católica no início do século XVIII, uma vez que, a Arquidiocese
Metropolitana estava situada em Santa Luzia do Norte, onde naquele momento se
chamava Santa Maria Madalena.
Conforme moradores antigos da cidade de Santa Luzia há uma lenda que
um senhor cego havia alcançado a cura de sua visão depois que fez uma promessa
para Santa Luzia, da referida cidade. E com isso começou a existir uma
peregrinação de romeiros desde então.
As festas, procissões e romarias são práticas da religião popular, tendo
como foco a santa padroeira, no costume local e na tradição religiosa. A festividade
é bastante notável no âmbito religioso e profano, é claro que o profano se
desenvolve em paralelo a religiosa, mas ambas trazem vários significados.
O trabalho foi de cunho qualitativo que tem um caráter exploratório, pois os
entrevistados foram livres para pensarem sobre o tema abordado. As entrevistas
foram realizadas no dia da procissão e outras entrevistas foram realizadas após a
festa durante os encontros religiosos nas missas, também foram tiradas fotos da
festa e dos romeiros, para entender o comportamento desses indivíduos, romeiros,
que vem até a cidade de Santa Luzia do Norte e os que aqui residem, para participar
dos festejos religiosos e ao mesmo tempo profanos que vão de encontro com
padrões católicos.
Teoricamente, e de acordo com Côrrea (2008, p. 103) por ser uma
manifestação cultural, a religiosidade, diz respeito à identidade de grupos
formadores da sociedade brasileira, objetivada por meio de diferentes formas de
expressão. Por isso pode-se também dizer que a religiosidade presente na
sociedade brasileira faz com que os sujeitos que a têm como princípio de vida
passem a cultivá-la por meio de diferentes modos de criar, fazer e viver.

12

Este Trabalho de Conclusão de Curso está composto por três capítulos: No
primeiro momento de caráter totalmente bibliográfico foram abordados aspectos que
envolvem a dimensão simbólica da religiosidade, detalhando sobre a cultura e
religiosidade sintetizando que tais aspectos são características mais marcantes do
povo brasileiro. Neste sentido a religiosidade se manifesta de múltiplas maneiras,
como decorrência, por um lado, das deferentes religiões praticadas na sociedade
brasileira e, por outro lado, como parte do modo de ser de muitas pessoas, ainda
que não professem uma religião específica.
No segundo capítulo houve uma abordagem sobre os fatos históricos da
cidade de Santa Luzia e em seguida a trajetória da vida de Santa Luzia enquanto
pessoa comum apresentando toda sua devoção.
Por conseguinte foi presentado de forma descritiva a festa em sua devoção
através de uma Etnografia com suas passagens, personagens e todos os atributos
que compõe a festa, comprovando a descrição com fotos e anexos inseridos no
texto.

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1. DIMENSÃO SIMBÓLICA DA RELIGIOSIDADE

1.1 Tradição e religiosidade popular

De acordo com Alves (2009, p. 19), a noção de tradição pode remeter à
imutabilidade, algo estático no tempo, sem mudanças. Ainda de acordo com o autor
sem interferências de instituições oficiais, como a Igreja ou o Estado, longe dos
dogmas escritos, presos apenas à fluidez da oralidade, as religiosidades populares
podem permanecer como antigamente, mudar ou adequar-se.
Na perspectiva da história e da antropologia, a noção de tradição difere da
assumida pelo senso comum ao se constatar que as tradições estão em
transformação. Os historiadores Eric Hobsbawm e Terence Ranger (1984),
utilizaram o termo inversão da tradição para salientar que em alguns momentos
essas tradições foram estabelecidas ou impulsionadas para criar coesão ou reforçar
um sentimento de identidade em grupos sociais. Como por exemplo, a instituição
dos padroeiros nas cidades e nos estados.
Conforme Alves (2009, p. 28), Nossa Senhora Aparecida tornou-se a
Padroeira do Brasil em 1930, no mesmo período em que outros elementos africanos,
como o samba, foram eleitos símbolos nacionais como forma de promover a
unidade, quer dizer ter um símbolo único. Alves (2009) nos diz que a escolha de
uma santa negra teve como objetivo atingir, além dos católicos, outros grupos
pertencentes a outras religiosidades. Deu certo, pois hoje podemos perceber em
todo o Brasil a forte presença de Nossa Senhora Aparecida e as variações do culto à
padroeira.
Em oposição ao conceito de inversão da tradição, o antropólogo Sahlins
(1997, p. 134 apud Zucon, 2009, p. 113), usa o termo inversão da tradição para
destacar que as tradições não são simplesmente inventadas, mas, sim, são sempre
reforçadas por meio de uma referência cultural e de afirmação da identidade cultural.
Ainda conforme Zucon (2009, p.115), as religiosidades populares, mesmo que
invisibilizadas no contexto urbano e pós-moderno continuam a existir de forma
vigorosa qualquer que seja a intenção, implorar, agradecer ou apenas festejar.

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Zucon (2009, p. 117), esclarece que é importante destacarmos que os cultos
e os ritos das religiosidades populares brasileiras caracterizam-se, de maneira
acentuada, por formas diretas de mediação com o sagrado e pelo desejo de interferir
na realidade de maneira mágica, com a pretensão de melhorar ou promover a vida
terrena de alguma maneira.
No Brasil, de acordo com Zucon (2009) religiosidade e sabedorias populares
muitas vezes se confundem, pois são comuns os ritos e os cultos que têm por
finalidade a cura do corpo físico. Simpatias, rezas, benzeduras, ervas e unguentos
são de uso corrente, fazendo parte do nosso ethos, conforme Geertz (1989, p. 103
apud Zucon, 2009, p. 117). O autor sugere uma definição de religião como
reorientadora e estimuladora de uma nova abordagem do assunto. Para Geertz
(1989, p. 104-105), religião seria então:
Um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosas, penetrantes
e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação
de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas
concepções com tal aura da fatualidade que as disposições e motivações
parecem singularmente realistas. (GEERTZ, 1989, p. 104-105)

O parecer do autor coloca a religião como um sistema simbólico responsável
por determinado tipo de comportamento social. Nesse sentido, ele admite o quadro
de referência que a religião representa e a ordem existencial que ela configura.
No pensamento de base marxista, a religião não vive no céu, mas sim na
terra; ela não é o fruto do sobrenatural nem uma enorme mistificação dos
sacerdotes. A religião é um reflexo ilusório das contradições sociais e seria mais
eficaz eliminar suas raízes sociais subordinando-a a luta de classes. Marx e Engels
(1972, p. 46 apud Gil Filho, 2012, p. 41) comentam:
A religião é a teoria geral deste mundo, a sua soma enciclopédica, a sua
lógica sob forma popular, son point d’honneur (um ponto de honra)
espiritualista, o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento
solene, a sua consolação e justificação universais. É a realização fantástica
do ser humano, porque o ser humano não possui verdadeira realidade.
Lutar contra a religião é, pois, indiretamente, lutar contra esse mundo, de
que a religião é o aroma espiritual.

Para Marx e Engels (1972, p. 85 apud Gil Filho, 2012, p. 42), os homens reais
são os produtores de suas representações, de suas ideias. É a vida concreta que
determina a consciência e, sob esse aspecto, a moral, a religião e a metafísica não

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têm uma autonomia real. Não tendo autonomia, também não têm história e nem
desenvolvimento, pois “não é a consciência que determina a vida, e sim a vida que
determina a consciência.” Gil Filho (2012, p. 44), confirma as palavras de Marx e
Engels quando nos diz que:
A religiosidade popular é exercida e significada pelos próprios atores
sociais. Nela, a coletividade se expressa não só nas manifestações que
mobilizam milhões, mas também porque os ritos e os cultos podem ser
exercidos por pessoas que não são representantes oficiais das Igrejas, em
que novos elementos podem ser inseridos e “ressignificados”. (GIL FILHO,
2012, p. 44)

Contudo retornando a Zucon (2009, p. 118), o trânsito religioso talvez seja a
característica mais comum das religiosidades populares. De acordo com Hall (2003,
p. 74-75 apud Zucon, 2009, 118), uma das características da modernidade tardia,
período no qual, para ele, estamos inseridos, é a fragmentação das identidades, ou
seja, a possibilidade de podermos exercer diferentes identidades, supostamente
antagônicas, ao mesmo tempo. Como exemplo, podemos citar uma pessoa
professada católica, que, em momentos de problemas de saúde ou financeiros,
podem buscar ajuda em outras religiões, como o espiritismo, que diverge do
catolicismo em seus dogmas.
Assim, conforme Zucon (2009, p. 119), o trânsito religioso pode ser apenas
uma possibilidade para a fragmentação da identidade, mas inscreve-se no cotidiano
de maneira que possamos notar o quanto as religiosidades populares são marcadas
por certo afrouxamento de seus limites.
Além da facilidade de transitar entre religiões, é possível observar também
uma recorrente religiosidade plural, na qual elementos de religiões
diferentes se acumulam. Os altares da umbanda (a qual teve sua gênese no
Brasil), em que coabitam santos católicos, entidades afro-brasileiras – como
índios e caboclos, ciganos e os povos do Oriente, tornam visíveis essa
pluralidade. Há também casos em que a pluralidade religiosa se estabelece
num processo de dinâmica cultural, ou seja, em muitas rezas e simpatias
populares, por exemplo, usa-se o machado para afastar tempestades,
desconhecendo-se ou ignorando-se o fato de que no candomblé, Xangô,
deus das tempestades, tem como símbolo o machado de duas lâminas.
(ZUCON, 2009, p. 122)

Portanto, de acordo com Zucon (2009), o trânsito e a pluralidade são
diferentes do sincretismo religioso, no qual existem versões e são criadas
correspondências entre manifestações religiosas distintas. O senso comum
acostumou-se a convencionar o trânsito e a pluralidade também como sincretismo.

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De acordo com o antropólogo Sergio Figueiredo Ferreti (1995 apud Zucon, 2009), o
termo sincretismo no Brasil passou por diferentes interpretações teóricas e usar
apenas esse conceito é insuficiente para compreender o todo que a religiosidade
brasileira contempla.
Para Zucon (2009, p. 128), o Trânsito, a pluralidade e o sincretismo religiosos,
mesmo unidos, não implicam necessariamente boa convivência. A não relativização
das ideias de outras religiões significa seguir seus dogmas. Algumas religiões ainda
agem em nome dessa premissa.
Na colonização do Brasil, a cristianização dos índios foi uma forma
poderosa de dominação. Frequentemente, a catequização era sugerida
como uma benfeitoria aos povos que “viviam em pecado” e eram “não
civilizados”. Oferecer um Deus, em geral, justificava a colonização e a
exploração de riquezas naturais, como uma troca recíproca, segundo os
colonizadores, ou seja, em troca da exploração, ofereciam um Deus.
(ZUCON, 2009, p. 129)

Contudo segundo Zucon (2009), na religiosidade popular, o sincretismo, a
pluralidade e o trânsito adquirem outra conotação. Podemos dizer que, fora dos
limites da Igreja, longe dos representantes oficiais, no predomínio do doméstico, a
tolerância e a relativização são maiores.
Traçando sobre religiões percebemos os diversos conteúdos que estão
inseridos e um deles conforme Abbagnano (1970, p. 45 apud Alves, 2009, p. 174),
são as regras e normas que estão inseridas nas organizações religiosas que, pela
sua característica de transcendência, obrigam os fiéis a observá-las e cumpri-las,
sob o risco de serem excluídos da comunidade por comprometer o equilíbrio
organizacional delas e a sua própria salvação.
De acordo com Abbagnano (1970, p. 46 apud Alves, 2009, p. 174), o termo
ética é oriundo do radical grego ethos, que significa “costume” e “caráter”. A ética é
um dos componentes usados pelas tradições religiosas no processo de civilização
das pessoas, pois ela aponta caminhos e perspectivas de vida a serem seguidos.
Conforme Alves (2009, p. 175), à medida que a tradição religiosa avança no
seu processo de institucionalização, as regras vão passando por um processo de
depuração e aperfeiçoamento racional. Ainda de acordo com Alves (2009) os
fundamentos da fé (que é a base da ética) são reinterpretados e a comunidade em
crescimento vai perdendo o controle direto sobre o comportamento dos seus
membros, necessitando reordenar as normas de vida.

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Como afirma Usarski (2007, p.87):
As instituições religiosas racionalizadas, devido à sua força e influência na
sociedade, tendem a produzir um discurso ético que favoreça o equilíbrio e
a estabilidade de todos. A partir de tal argumento, é possível entender a
importância das grandes tradições religiosas nas sociedades em que estão
inseridas. (Usarski, 2007, p.87)

Conforme Usarski (2007, p. 92) a ética cristã afirma que a ética individual
deve ser compreendida a partir de uma ética normativa, apresentada pela tradição.
A estrutura da teologia moral católica é determinada pela crença na bondade do
homem e do mundo como criação de Deus, mesmo depois do pecado original.

1.2 Cultura e Ética Religiosas

Corrêa (2008, p. 99) nos diz que na antropologia, fala da necessidade de
distanciamento e estranhamento para conseguirmos visualizar as nossas próprias
nuances. Conforme a autora a cultura é algo que se apreende por meio da família e
da sociedade, da reprodução e da repetição. O homem só é um ser social porque
vive em sociedade. E viver em sociedade significa conviver com as diferenças
sociais e culturais.
Conforme Oliveira et al. (2007, p. 118):
O termo religião indica: uma forma de expressão do fenômeno religioso que
ocorre em uma cultura ou culturas compreende-se também o ambiente
social como um agente que contribui e interfere na avaliação do mundo e
das pessoas na dimensão da expressão religiosa. (OLIVEIRA ET al., 2007,
p. 118)

Na análise de Durkheim (1996, p. 19), a religião encontra-se erigida na
própria natureza das coisas. Se assim não fosse, logo a realidade faria uma
oposição, à qual a religião não resistiria. A natureza da religião indica que ela está
muito mais apta a explicar o que de comum e constante existe no mundo do que o
que há de extraordinário.
De acordo com o autor a dimensão simbólica da religiosidade certamente
encontra nas práticas religiosas vinculadas à religião o seu sentido estruturante e a
elas os símbolos dão uma espécie de legitimidade, visto que estão socialmente
reconhecidos, por estarem instituídos.
Para Geertz (1989, p. 66-67):

18

Os símbolos sagrados funcionam para sintetizar o ethos de um povo, o tom,
o caráter, e a qualidade de sua vida, seu estilo e disposições morais e
estéticas e sua visão de mundo, o quadro que fazem do que são as coisas
na sua simples atualidade, nas suas ideias mais abrangentes sobre a
ordem. Na crença e na prática religiosa, o ethos de um grupo torna-se
intelectualmente razoável porque demonstra representar um tipo de vida
idealmente adaptado ao estado de coisas atual que a visão de mundo
descreve, enquanto essa visão de mundo torna-se emocionalmente
convincente por ser apresentada como uma imagem de um estado de
coisas verdadeiro, especialmente bem-arrumado para acomodar tal tipo de
vida. (GEERTZ, 1989, p. 66-67)

Tudo indica que os símbolos religiosos legitimam a ação do exercício da
religiosidade. Para Geertz (1989), os símbolos não são meras representações
materiais da divindade e/ou o ser superior a ser venerado, mas muito mais do que
isso, e, por essa razão, o autor entende símbolos pelo significado, ou seja, pela
concepção. Nesse sentido, Geertz (1989) não lida com a noção de representação
exterior, mas da interioridade, o conceito que faz com que a prática, nesse caso,
exista.
Nesse sentido, as práticas de rituais religiosos, potenciais reveladores da
religiosidade, não são em si símbolos da religiosidade, mas o entendimento
que as pessoas têm sobre esse exercício. Logo, as manifestações
simbólicas podem ser realizadas por meio de práticas religiosas
institucionalizadas, demonstrativas da religiosidade de grupos sociais, e
variam de acordo com a religião. No catolicismo, a religiosidade pode ser
manifestada pela participação do católico nas missas, que se constituem em
rituais centrais à manifestação da fé católica, provavelmente pelo estado de
graça que tais rituais provocam no indivíduo que dela participa. (CORRÊA,
2008, p. 87)

Contudo, conforme Corrêa (2008), a instituição religiosa referenda um corpo
sacerdotal que possui o monopólio das coisas sagradas apoiando-se em princípios
de visão relacionados às disposições da crença, as quais, por sua vez, orientam as
representações que revigoram esses princípios.
As instituições religiosas tradicionais também agem como empresas, com
dimensões. Os sacerdotes, por exemplo, detêm o monopólio dos cargos e dos
encargos das instituições religiosas e suas devidas repercussões financeiras.
Nesse sentido, de acordo com Bourdieu (1983, p. 39),
A constituição de um campo religioso “acompanha a desapropriação
objetiva daqueles que dele são excluídos e que se transformam por essa
razão em leigos [...], destituídos do capital religioso (enquanto trabalho
simbólico acumulado)”. Esse processo de desapropriação refere-se
especialmente aos grupos sociais que são excluídos e que ocupam uma

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posição inferior na estrutura de distribuição dos instrumentos de produção
religiosa. (BOURDIEU, 1983, p. 39)

Sobre esse aspecto, Bourdieu (1983) identifica no que tange à divisão do
trabalho religioso e, embora essa separação não signifique um esvaziamento do
capital simbólico, é reconhecida uma tendência de deterioração do capital simbólico
tradicional.
Bourdieu enfatiza que a oposição entre o sagrado e o profano está mais
relacionada com a posição dos agentes, no que tange à gestão do sagrado.
De um lado temos o corpo sacerdotal detentor do saber religioso e, de
outro, os leigos como sendo profanos no sentido de não conhecedores do
saber religioso e, portanto, estranhos ao sagrado e aos agentes autorizados
gestores do sagrado. (BOURDIEU, 1983, p. 40)

A religiosidade se torna mais visível por parte de grupos sociais de origem
socioeconômica menos favorecida por meio das festas dos santos que têm um
significado importante na

vida cotidiana dessas pessoas. Representações

fundamentais do catolicismo popular, os santos diz Jorge (1998, p. 66): “são seres
dotados de poderes sobrenaturais e capazes de interferir na vida e na natureza”. O
lugar que os santos ocupam na vida daqueles que neles acreditam manifesta-se de
modo ambíguo como exemplifica, Jorge (1989, p. 67):
Os santos ficam no céu, mas isso não significa que estejam separados dos
homens. É por meio das imagens de que o catolicismo popular tanto gosta
que os santos se fazem presentes na terra. A identificação da imagem com
o santo no céu é tão forte que o devoto chega a infringir punições às
estátuas quando seus pedidos não são atendidos ou quando demoram vêlo. Santo Antônio o santo padroeiro do casamento bem sabe como sofrem
as suas imagens. (JORGE, 1989, p. 67)

É comum encontrar em casas urbanas com menos frequência e em rurais
com mais frequência oratórios ou pequenos altares feitos de madeira num canto
reservado da casa. Os oratórios segundo Jorge (1989) ainda que de caráter
particular doméstico revestem-se também de caráter coletivo porque a família se
reúne ao seu redor. Muitas vezes estão presentes amigos e convidados da família
para tomar parte da devoção. Sobre os oratórios o mesmo autor ainda diz o
seguinte:
No meio popular os oratórios domésticos são normalmente colocados num
canto da parede tendo no centro a imagem do santo padroeiro e outros
quadros de santos. Já nas sedes das fazendas lugares, portanto mais
afastados. O oratório doméstico é muito mais amplo e normalmente possui
um andar aonde o padre vem celebrara a missa de vez em quando.
(JORGE, 1989, p. 68-69)

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Exemplificando o que já fora dito por Jorge em relação aos oratórios, Corrêa
(2008, p. 110), nos detalha um pouco mais sobre esta prática nos informando que os
santos são venerados como se fosse a Deus. Coroas e fitas coloridas enfeitam as
imagens como uma maneira de melhor exteriorizar a fé enquanto que o oratório e o
altar são espaços do sagrado do transcendente porque materializam de certo modo
a oportunidade de aproximação do “ser menor” com deus. A religiosidade se
expressa pela pessoa religiosa ao deitar e ao levantar.
Ainda de acordo com o autor, a festa ao santo padroeiro, por exemplo, é a
oportunidade de veneração na qual tempo e espaço são dedicados à devoção e o
trabalho cotidiano torna-se secundário. De acordo com Corrêa (2008), outros modos
de expressão da religiosidade podem ser percebidos nos grandes rituais católicos
como as festas dos padroeiros. Elas arregimentam um grande número de fiéis.
Corrêa (2008) nos traz algumas citações sobre o comportamento religioso
de devotos a padroeiras, e nos revela o significado dos símbolos religiosos para
essas pessoas. Por exemplo, de acordo com Corrêa (2008) o círio de Nazaré
realizado em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré a padroeira dos paraenses é
um testemunho interessante da religiosidade e da força que ela contém. Nesse
majestoso ritual que se desenvolve sob a forma de procissão milhares de pessoas
caminham por vezes sob forte sol e calor pelas ruas de Belém durante mais de
quatro horas, uma vez por ano, a cada segundo domingo do mês de outubro. Na
procissão do Círio, a corda que circunda a berlinda da imagem da santa é carregada
por centenas de pessoas que se amontoam, praticamente sendo levadas umas
pelas outras em agradecimento por graças alcançadas.
É a exaustão da expressão de uma reverência por meio da doação do corpo
na sua plenitude. Os pés descalços são a simbologia de uma doação e de um
sentimento de humildade que só naquele espaço pode ser traduzido. Nesse sentido
é que Geertz (1989) fala da ideia de que o símbolo é mais do que a representação
contida no objeto:
Ele é a concepção, o significado, a sua razão explicativa. Para ele, “os atos
culturais, a construção, apreensão e utilização de formas simbólicas, são
acontecimentos sociais como quaisquer outros; são tão públicos como o
casamento e tão observáveis como a agricultura”. (GEERTZ, 1989, p. 68).

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No Círio de Nazaré, a religiosidade também é manifestada por meio de
objetos, outros símbolos que significam a retribuição objetiva a um favor ou graça
alcançada, e se traduzem em miniaturas de casas, barcos, partes do corpo em cera,
enfim tudo o que se constituía num problema ou que, na vida cotidiana, teve
importância e que precisava da ajuda divina para se tornar realidade.
A festa da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, também é um
acontecimento que acarreta grandes peregrinações em torno da Basílica Nacional. A
religiosidade se manifesta em imagens que são adquiridas pelos devotos a cada
ano, como simbologia de renovação, concomitantemente a outros objetos que
simbolizam e, por assim dizer, significam a condição de devoto.
Berger (1985, p. 73) afirma que:
Enquanto permanece dentro dos padrões religiosos socialmente
estabelecidos, o indivíduo participa de um ser universal que também
consigna lugar aos fenômenos do sofrimento e da morte. Quando o
indivíduo está em sintonia com os ritmos das forças cósmicas, seu próprio
ser está em harmonia com a ordem fundamental de todo ser, uma ordem
que, por definição, inclui e, assim, legitima os ciclos do nascimento, da
decadência e da regeneração. Consequentemente, a decadência e a morte
do indivíduo são legítimas mediante sua “colocação no âmbito da ordem
mais ampla dos ciclos cósmicos”. (BERGER, 1985, p. 73)

A religiosidade pela fé católica no Brasil tem sido dominante desde o
Descobrimento do Brasil, mas outras manifestações religiosas institucionalizadas
são palco para esse modo de ser do brasileiro. Nas religiões protestantes, por meio
dos cultos como espaço simbólico de representação, a religiosidade é demonstrada
não pela adesão às exigências ao modo de vestir, como tornar a religião um ethos
de vida, mas consubstancia-se em modo de vida que ultrapassa o modus operandi
cotidiano.
Nesse sentido, para Geertz (1989, p.82):
A perspectiva religiosa difere da perspectiva do senso comum [...] porque se
move além das realidades da vida cotidiana em direção a outras mais
amplas, que as corrigem e completam, e sua preocupação definidora não é
a ação sobre essas realidades mais amplas, mas sua aceitação, a fé nelas.
Ela difere da perspectiva científica pelo fato de questionar as realidades da
vida cotidiana não a partir de um ceticismo institucionalizado que dissolve o
“dado” num aspiral de hipóteses probabilística, mas em termos do que é
necessário para torná-las verdades mais amplas, não hipotéticas. Em vez
de desligamento, sua palavra de ordem é compromisso, em vez de análise,
o encontro. (GEERTZ, 1989, p. 82)

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Como esclarece Mendonça (1984, p. 65) outros modos de manifestação da
religiosidade são encontrados no catolicismo popular por diferentes meios, quais
sejam: promessas, novenas, alianças e consagrações. Com base nesse autor,
explica-se em que consiste cada uma delas.
Nas promessas, os fiéis estabelecem uma relação de proximidade com Deus
por meio dos santos, seja o santo de devoção ou aquele que eles entendam ser o
mais adequado ao tipo de pedido a ser feito. Para os fiéis, o santo está próximo ao
trono de Deus e pode influenciá-lo. O rigor no cumprimento das promessas relata
Mendonça (1984), permite a inferência de que o fiel vai à exaustão pelo
merecimento da graça alcançada:
Daí o rigor com que as promessas são feitas e cumpridas causando até
mesmo estranheza, sobretudo as de caráter penitencial; longas e fatigantes
caminhadas até o santuário, capela ou oratório, onde se venera o santo;
jejum abstinências e outros atos penosos; ofertas de esmolas, com
consequente privação às vezes até do necessário; construções ou ajudas
para construções de Igrejas ou outros locais de culto; práticas de caridade
e, especialmente, obras de misericórdia. (MENDONÇA, 1984, p. 67)

No entendimento de Mendonça (1984) as novenas, em grande medida,
estão vinculadas às promessas e também traduzem o caráter de devoção e pedido
de ajuda ou de agradecimento por uma graça alcançada. As novenas, ainda
segundo o mesmo autor, são práticas do catolicismo popular que têm a finalidade de
instaurar pedidos materiais e espirituais.
As alianças, embora pouco conhecidas sob essa denominação, são muito
praticadas. Elas se dão pela devoção do fiel a um santo, o santo protetor.
As consagrações, por sua vez, são feitas aos santos, mas Mendonça (1984)
considera que, no Brasil, são de modo geral feitas a Nossa Senhora: “Quando a
criança é consagrada a Nossa Senhora, significa que além da mãe terrena ela tem
uma no céu.” (MENDONÇA, 1984, p. 67).
As festas dos santos são outros modos em que o sagrado estabelece
conexão estreita com o religioso. A eles são dedicados dias específicos e têm lugar
especial não só no calendário comum como no católico. A homenagem ao santo não
se faz exclusivamente no dia a ele dedicado, pois às vezes sua festa inicia dez dias
antes e culmina no dia dedicado a ele.

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Todas as crenças religiosas conhecidas, sejam simples ou complexas,
apresentam um mesmo caráter comum: supõe uma classificação das
coisas, reais ou ideais, que o homem concebe, em duas classes, em dois
gêneros opostos, designados geralmente por dois termos distintos que as
palavras profano e sagrado traduzem bastante bem. A divisão do mundo em
dois domínios que compreendem um, tudo o que é sagrado, outro, tudo o
que é profano, tal é o traço distintivo do pensamento religioso: as crenças,
os mitos, os gnomos, as lendas, são representações ou sistemas de
representações que exprimem a natureza das coisas sagradas, as virtudes
e os poderes que lhes são atribuídos, sua história, suas relações mútuas e
com as coisas profanas. (DURKHEIM, 1996, p. 19-20)

Dando continuidade ao texto sobre os diversos tipos de religiosidade
presentes atualmente dentre as já citadas, destacamos o candomblé que conforme
Mendonça (1984) é uma religiosidade presente na sociedade brasileira, é como a
religião dos negros iorubas da Bahia ou qualquer uma das grandes festas dos
Deuses africanos.
Conforme Mendonça (1984) essa forma de manifestação religiosa é são
realizadas em terreiros que geralmente possuem um amplo salão como um altar ao
fundo, no qual podem ser encontradas tanto imagens de santos, como de orixás.
Estas, de modo geral, são entremeadas por velas e cuias ou cântaros com
oferendas aos Deuses africanos.
Nos quintais dos terreiros, também se espalham oferendas entre árvores e
arbustos. Os rituais são compostos por mulheres e homens vestidos de branco.
Homens tocam tambores e, em conjunto com as mulheres, em rodas, cantam
evocando suas entidades protetoras. Nesse caso, os rituais são feitos também na
presença de público que assiste a eles sentado em cadeiras no salão e que depois é
atendido pelos pais e mães de santo que foram recebidos por participantes
(médiuns), durante o rito de canto e dança.

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2. ORIGEM HISTÓRICA DE SANTA LUZIA DO NORTE

Para darmos início a origem da cidade de Santa Luzia do Norte, trazemos
como ilustração a seguinte foto que foi datada do ano de 1979 referente à Fachada
da Igreja de Santa Luzia do Norte sendo disponibilizada uma cópia pela Cúria
Metropolitana de Maceió - Alagoas. Nesta foto observa-se o tempo pela aparência
em seu desgaste, uma igreja que não tinham uma preocupação de ser pintada pelo
pároco da época, conservando o patrimônio histórico, atualmente permanece a
mesma fachada, adaptando apenas a deficientes físicos e ganhou uma arborização,
como também uma preocupação com pintura como não fora visto anteriormente.
Foto 1: Fachada da Igreja Matriz de Santa Luzia do Norte - 1979

Fonte: Cúria Metropolitana de Maceió Alagoas - 1979

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2.1 O município de Santa Luzia do Norte

Conforme pesquisas bibliográficas realizadas na literatura disponível de
Romeiro (2008) e Feitosa (2009) houve a possibilidade de fazer um breve
levantamento da história da cidade de Santa Luzia do Norte. Quando se pensa em
Santa Luzia do Norte, hoje em dia, vem logo no nosso imaginário a festa religiosa, e
este aspecto é o início da cultura de nosso povo.
A cidade de Santa Luzia do Norte, no passado muito remoto foi um dos
primeiros e principais focos de povoamento do Estado de Alagoas, como também
dependiam daqui, as decisões de caráter religioso de Maceió.
De acordo com o escritor Antonio Romeiro (2008) as terras da atual Santa
Luzia do Norte, teve sua ocupação inicial com os índios caetés, que posteriormente
foi invadida pelos contrabandistas franceses, que exploravam a extração do paubrasil e dos colonizadores portugueses, que mais tarde se tornaram senhores de
engenho, criadores de gado e assistentes burocráticos do Estado de Portugal.
Os primeiros povoamentos do território alagoano foram: Penedo (1560); Porto
Calvo (1590); Alagoas do Norte – Santa Luzia do Norte (1608) e Santa Maria
Madalena de Alagoas do Sul – Marechal Deodoro (1611). Segundo nos informa o
geógrafo Ivan Fernandes de Lima (1992) os primeiros núcleos de vida urbana foram
os povoamentos acima citados, levando a expansão do território alagoano.
De acordo com Romeiro (2008) existem duas versões para o surgimento de
Santa Luzia do Norte, alguns historiadores se rementem a um escritor holandês
Vernhagem que afirma o surgimento a um cego que alcançou a graça da cura de
sua visão, então começou a construção de referido lugar, outros historiadores dizem
que tal fato é pura lenda, pois existe uma declaração no Livro do Tombo, no
Mosteiro de São Bento, na cidade de Olinda, Estado de Pernambuco, onde o
sesmeiro Diogo Vieira doara as terras de povoação de Nossa Senhora da Luz da
Vila nova de Santa Luzia a Antônio Martins Ribeiro, que na época era morador no
local.
O Instituto Histórico de Pernambuco, em 1948, atendendo solicitação dos
beneditinos, D. Pedro Bandeira de Melo e D. Bonifácio Jansen, publicou o Livro do
Tombo do multissecular Mosteiro de São Bento de Olinda.

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Entre alguns documentos de doação de terras ao Mosteiro, destaca-se uma
declaração firmada Por Diogo Vieira a Frei Cipriano, abade do Mosteiro de São
Bento de Olinda – Pernambuco, constando que o filho de Miguel Gonçalves Vieira
doara em época anterior, por escritura publica, “huma legoa de terra”, “na povoação
de Nossa Senhora da Luz da vila nova de Santa Luzia”, em local que não era mais
possível confirmar por se acharem muitos moradores acomodados nas ditas terras.
De acordo com a historiadora Lenon Passos Feitosa (2009) a cidade de Santa
Luzia era uma povoação promissora que já contava com três engenhos de açúcar,
com uma população crescida, e destemida tornando-se um reduto inexpugnável
para os invasores.
Ainda conforme as informações históricas da autora, por volta do ano de
1633, ali vivia a heroína, D. Maria de Souza, com sua filha e seus quatro filhos:
Gonçalo, Luiz, Antônio e Estevam, mais o seu genro Antônio Lopes Figueiras, que
comandou a defesa do povoado contra os holandeses; os quais já haviam tomado o
Porto do Francês, saqueado e destruído a matriz de Alagoas do Sul (Marechal
Deodoro).
Conforme Feitosa (2009) cada casa foi transformada em fortaleza, onde se
abrigavam os habitantes dispostos à morte em defesa do seu povoado. O invasor foi
surpreendido e após luta intensa e mortífera acabou recuando e desistindo de seu
intento. Entre os mortos estava o bravo Antônio Lopes Filgueiras – o comandante da
resistência.
O local ficaria também conhecido como “Santa Luzia de Siracusa” e, em certa
época como “Outeiro de São Bento” e recentemente como Santa Luzia do Norte.
A autora ainda nos informa em seu livro, a origem da história de Santa Luzia
do Norte (2009), que posteriormente, em 1636, foi de Santa Luzia do Norte que as
tropas portuguesas prepararam sua artilharia e bagagens para invadir e expulsar os
holandeses de Porto Calvo era o inicio da operação, só terminando nove anos
depois.
Segundo nos informa o geógrafo Ivan Fernandes de Lima (1992) o domínio
holandês que durou décadas retardou sobremaneira o desenvolvimento do vasto
interior alagoano e, ao findar esse domínio, apenas contava-se três núcleos de
população considerável e que foram fundamentais na formação do Estado de
Alagoas, são eles: Na região norte: Porto Calvo; Na região centro: Lagoa do Norte
(Santa Luzia do Norte) e Lagoa do Sul (Marechal Deodoro); Na região sul: Penedo.

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O povoado de Santa Luzia, em pouco tempo, era o mais importante,
localizado as margens da lagoa e, através do Decreto de 10/12/1830, elevou-se a
categoria de vila. Todavia o município judiciário só foi criado em 18/01/1900 pela lei
nº 282, ficando assim, até 1915 quando sua sede administrativa foi transferida para
Rio Largo. Tudo em decorrência da construção da estrada de ferro, que teve sua
implantação dentro daquele município, provocando um colapso no comercio de
Santa Luzia e, consequente emigração de quase todos os negócios para a sede
administrativa, em Rio Largo. Fato este responsável para que Santa Luzia voltasse à
categoria de distrito.
Quase meio século depois a heroica outrora vila consegue sua emancipação,
através da lei 2.464 de 23/08/1962.
Com base nos livros de Romeiro (2008) e Feitosa (2009) é possível analisar
toda a história de Santa Luzia do Norte que mostra que é a 4º (quarta) cidade mais
antiga do Estado de Alagoas, possui a igreja matriz de Santa Luzia do Norte, estilo
colonial e a sua construção é do ano de 1786, seus primeiros registros datam de
1633.

Um acontecimento marcante para todos os alagoanos foi à visita do

Imperador D. Pedro II ao Estado de Alagoas.
Os preparativos para a recepção a Vossa Majestade e a sua esposa, a
Imperatriz Dona Tereza Christina, transformaram sem dúvida os hábitos da
população da capital e alguns centros tidos como importantes – social, politica e
economicamente. Santa Luzia do Norte se fez representar as “homenagens
prestadas ao casal de monarcas”, enviando a Maceió componente da guarda
Nacional, que no dia 31 de dezembro de 1859, juntamente com os Batalhões de São
Miguel dos Campos, Marechal Deodoro e Atalaia, formaram no Paço Imperial.
O Imperador deslocou-se de Maceió a bordo do Vapor Pirajá, seguindo a
Lagoa Mundaú. Por volta das treze horas e quinze minutos do dia 9 de janeiro de
1860, D. Pedro II, pisou no solo de Santa Luzia do Norte.
O Imperador foi saudado pelo Presidente da Câmara, Bacharel Lúcio Soares
de Albuquerque Eustáquio. Visitou a Câmara, Casa do Júri, cadeias e outras
repartições.
D. Pedro II anotou que a Vila tinha 400 casas e que “há tradição de ter
existido no cimo de um monte um convento de São Bento, perto da rua do mesmo
nome”. O Imperador ainda visitou o engenho do Comendador Oiticica, supondo ser o
dito engenho do Mundaú.

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Como era de costume, o Imperador anotava aquilo que lhe chamasse a
atenção. Da visita as terras do Comendador Oiticica, fez a seguinte anotação: “Na
fazenda Marau, a légua da Vila do Norte, pertencente à Oiticica, avista-se do alto”.
Talvez na pressa da anotação D. Pedro II quis se referir à fazenda ou engenho
Mundaú.
A visita de D. Pedro II tinha por objetivo beneficiar Maceió, a Vila do Norte, as
povoações de Coqueiro Seco e Fernão Velho, determinando ao Presidente da
Província, Manoel Pinto de Souza Dantas, a fundação de uma companhia de
navegação. Sem recursos financeiros suficientes, o projeto não teve êxito.
O sentimento religioso da população da Vila do Norte era o catolicismo, pois
se encontravam diversos religiosos de várias ordens, entre eles tinham os
carmelitas, franciscanos, agostinianos, terézios e os beneditinos.
Como freguesia (paróquia), Maceió permaneceu eclesiasticamente ligada a
Santa Luzia do Norte, por mais de um século, dependendo das decisões do vigário
local.
No dia 4 de março de 1672, foi feito um acordo para a construção da atual
igreja. Tal acordo foi firmado entre os moradores de Santa Luzia do Norte e a
Câmara da Vila de Alagoas do Sul (Marechal Deodoro), as quais estavam
jurisdicionados, consistia na obtenção de subsídios que seria cobrado durante três
anos, dos moradores que pudessem comprovadamente contribuir, uma taxa sobre
barris e pipas de vinho, aguardente e azeite.
Os religiosos vinham de Olinda, recife, Bahia e até mesmo do reino para dá
os ensinamentos de Cristo, aliviando o sofrimento dos enfermos e participando
ativamente do desenvolvimento comunitário. Os vigários além de suas atribuições
religiosas ainda prestavam detalhadas informações dignas de um Instituo
Estatístico1.
Além da Igreja Matriz, que data 1786, os católicos de Santa Luzia do Norte,
ergueram uma igreja a Nossa Senhora do Rosário, infelizmente demolida a mais de
trinta anos. No local de referida igreja, construíram a Gruta Virgem dos Pobres.
Atualmente a Igreja de Santa Luzia conforme nos mostra a (foto nº 02) tem
uma aparência mais agradável, pois a comunidade religiosa que faz parte do grupo
1

Estes resumos estatísticos foram colhidos das cadernetas de desobriga da freguesia do
Norte, documentos estes atualmente pertencentes ao Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas,
maços números 20, 21 e 22.

29

responsável pela arrecadação da igreja através das ofertas tem um cuidado de
manter a pintura adequada e conservar a fachada histórica, mas passou por
algumas melhorias.
FOTO 2 – Igreja de Santa Luzia nos dias atuais

Fonte: Acervo fotográfico da autora

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2.2 A trajetória de Santa Luzia de Siracusa

Esta imagem foi advinda da cidade de Siracusa da Itália não há documentos
que comprovem a data e a localidade desta imagem e nem consta na própria
imagem dados que remetam a estas informações, apenas uma tradição oral.

Foto 3: Primeira imagem de Santa Luzia de Siracusa

Fonte: Acervo fotográfico da autora

Em seu livro “Santa Luzia – Protetora da Visão” Frei Contardo Migliorazanga
(2011) aborda sobre a vida de Santa Luzia de Siracusa e nos diz em seus relatos
históricos que Siracusa foi fundada em 735 antes de Cristo por colonos gregos, e é
uma das principais cidades da Sicília. Por se tratar de uma cidade marítima tornouse rica e populosa. Durante o poderio grego, surgiu o grande gênio Arquimedes,
físico e matemático. Depois passou a ser dominada pelos romanos.

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O apóstolo São Pedro é o fundador da Igreja de Siracusa. Tendo enviado o
seu discípulo São Marcião para presidi-la. Eis a inscrição que existe na Catedral:
“Igreja de Siracusa, filha primeira de São Pedro”. O apóstolo São Paulo também
passou por Siracusa, permanecendo naquele lugar por três dias.
Ainda de acordo com os relatos de Migliorazanga (2011) as catacumbas de
Siracusa eram muito famosas, inclusive a de Santa Luzia. Neste lugar de
sepultamento os primeiros cristãos se encontravam para realizar seu culto a Deus,
durante o período da perseguição romana.
A maioria dos historiadores reconhece que os cristãos, das várias
perseguições sofridas, a mais violenta pelo tipo de torturas, pela duração e extensão
e pelo grande número de vítimas, foi a de Diocleciano. Como pagão convicto e
intransigente, julgou o cristianismo como elemento de desagregação, levado por seu
intuito e pelo incentivo de seus assessores, desencadeou a última e mais grave
perseguição da época contra os cristãos. Publicou quatro decretos contra os
cristãos: a destruição das igrejas; queimar todos os livros santos, perder o direito de
cidadão, oferecer sacrifícios aos deuses pagãos sob pena de morte.
Segundo o Frei (2011) os cristãos passaram por todo tipo de pena e tortura:
emboscadas, prisões, flagelação, decapitação, crucifixão, empalação, tronco,
fogueira, imersão em caldeiras ferventes, afogamento, entrega a animais ferozes,
trabalhos forçados, entre outros. A perseguição foi tão grande, causando tantos
estragos e vítimas que muitos autores a chamam de “era dos mártires”.
A falta de dados sobre os mártires e os santos é muito grande devido a duas
razões: depende da mentalidade do próprio hagiógrafo (autor dos relatos pelos quais
conhecemos a vida dos santos) e por causa do confisco e destruição dos livros e
arquivos da Igreja. Os escritores tinham como ponto principal na vida do mártir, o
seu martírio, os demais dados não eram levados em conta, com sua história
pessoal, sua trajetória religiosa, suas características psíquicas, sua família, sua
educação e outros pontos a serem analisados.
Os responsáveis pela Igreja católica sempre procuraram conservar as atas
autênticas do martírio, ou seja, a exata transcrição do processo judicial lavrado pelo
Tabelião. As atas eram lidas por ocasião do aniversário do martírio que os cristãos
chamavam dia natalício do mártir, ou seja, dia de seu nascimento para a vida eterna
junto a Deus.

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São poucas as atas que existem na Igreja católica, ao considerarmos os
efeitos do tempo e o desleixo dos homens e mulheres como: incêndios, terremotos,
saques, inundações, guerras, empréstimo sem devolução e esquecimentos. Assim
acontecem, com as atas do martírio de Santa Luzia.

2.2.1 Santa Luzia, Virgem e Mártir.

Migliorazanga (2011) nos diz que Santa Luzia possuía duas coroas: a da
virgindade e a do martírio. A jovem Luzia queria imitar a Virgem Maria e entregou
sua vida em sacrifício a Deus, pois segundo o autor “o martírio é a maior prova de
amor a Deus”. Existem duas versões para o martírio de Luzia: uma versão latina e
uma versão grega. A primeira, foi modificada e ampliada, queriam torná-la uma
leitura edificante. A segunda é mais próxima da realidade.
Mas a maioria dos estudiosos prefere a versão grega do século VI. É
conhecido como Códice de Papadópulo, sacerdote grego-siciliano de Agrigento que
tinha em sua biblioteca. Esta versão parecerá um pouco estranha para os leitores, é
como se um artista tivesse dados exatos dos conceitos, elegância e espontaneidade
nos diálogos que dificilmente ocorreria durante uma tortura.
Ainda conforme o autor (2011) Luzia nasceu em 280 ou 281 de nossa era, em
Siracusa. Era de família nobre e rica em bens imóveis. Sua mãe se chamava
Eutíquia e de seu pai não se sabe nada, provavelmente seu nome era Lúcio, porque
naqueles dias era de costume impor o nome do pai na criança, tendo falecido
quando Luzia era adolescente.
Luzia havia se consagrado a Deus no mais profundo segredo que nem
mesmo sua mãe sabia. Esta por sua vez queria um bom casamento para sua filha.
Sofria de graves hemorragias, já havia procurado diversos médicos, gasto muito
dinheiro sem nenhuma esperança de melhora. O que lhe restava era tão somente a
fé em Deus para alcançar um milagre.
No dia 05 de fevereiro de 301, saiu Luzia e sua mãe, Eutíquia, da cidade de
Siracusa e foram para Catania, cidade da Sicília, onde se encontra o túmulo de
Santa Águeda, uma jovem mártir da qual Luzia era devota. Durante a celebração
eucarística, o diácono leu a passagem bíblica que relata a cura da mulher
hemorroíssa, narrada pelo evangelista Mateus. Então se encheram de esperança os
corações de mãe e filha. Após a missa todos foram embora, ficando Luzia e Eutíquia

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rezando por mais tempo no túmulo de Santa Águeda. Depois de período longo de
oração, Luzia teve um sonho com Santa Águeda, no qual revelava a cura da mãe e
afirmava ainda que Deus estava muito feliz pelo seu voto de virgindade. Ao acordar,
conta à visão que teve para sua mãe e esta lhe afirma a cura. Aproveitando da
ocasião Luzia revela seu segredo de total consagração ao Senhor, de viver na
pobreza e praticar a caridade. Pediu a sua mãe que vendesse todos os bens que
possuíam e doasse o dinheiro aos pobres necessitados.
De acordo com Migliorazanga (2011), voltando para a cidade de Siracusa,
Eutíquia, mãe de Luzia, satisfez o seu pedido: vendeu todos os bens que possuía e
o dinheiro foi repartido entre os pobres, as viúvas, os órfãos, os peregrinos e entre
todos os servos de Deus, os cristãos que são perseguidos pela sua fé. Com esse
gesto toda a cidade ficou espantada, então todos os pagãos tiveram a certeza de
que mãe e filha eram cristãs.
Ao saber de tal atitude, o pretendente de Luzia ficou furioso, uma vez que
cobiçava o dote nupcial e passou a suspeitar que a jovem prometida em casamento
fosse cristã. Enfurecido denunciou a jovem Luzia a Pascácio, prefeito da cidade.
Pascácio ordenou que Luzia fosse presa imediatamente e oferecesse sacrifícios aos
deuses pagãos, conforme estava escrito no decreto do governador.
Luzia, porém, se nega a fazer sacrifício. Pascácio tenta de todas as maneiras
intimidá-la, mas não tem êxito. Ameaça torturá-la, tenta humilhá-la levando-a para
um prostíbulo, mas apesar de um número muito grande de soldados, não
conseguem tirá-la do lugar. Parecia que Luzia tinha criado profundas raízes. Com
isso, Pascácio julgou ser bruxaria. Convocou imediatamente seus sacerdotes e
magos para solucionar o problema. Estes o aconselham a fazer uma aspersão para
desfazer o feitiço. Mas de nada adiantou, a aspersão não conseguiu exorcizá-la.
Usaram desta vez animais, amarraram as mãos e os pés da jovem com cordas, e
colocaram uma junta de bois para puxá-la; quando começaram a puxar, Luzia
estava firme como uma montanha.
Pascácio foi tomado pela ira e com sentimento de humilhação, mandou fazer
uma fogueira ao redor da virgem, colocando resina, piche, azeite e lenha para
queimá-la, no entanto as labaredas de fogo não a consumiam. Ao ver isto, Pascácio
ficou encolerizado e ordenou que um soldado a decapitasse, e assim foi feito. Era 13
de dezembro de 304.

34

A tradição da igreja conta que antes de morrer, Luzia profetizou o castigo de
Pascácio e o fim da perseguição de Diocleciano (que governava como Augusto) o
qual não voltaria mais a reinar, e a morte de Maximino (que governava como Cesar).
É interessante que encontramos muitas imagens e estampas de Santa Luzia
representada com os olhos em um prato, isso se deve a uma lenda elaborada no
final da Idade Média e não foi por razão de seu martírio, mas sim para lembrar que a
conquista do reino de Deus exige severo desapego. Vejamos o que nos conta tal
lenda: Conta-se que Pascácio, Prefeito de Siracusa, compartilhou da desilusão
amorosa do noivo de Luzia, durante o interrogatório perguntou a santa o motivo de
sua renúncia ao matrimônio e do desprezo às suas riquezas. Luzia declarou-lhe que
era o desejo de imitar a Jesus Cristo e segui-lo mais de perto.
Prefeito para tocar-lhe o coração, a fez considerar o grande amor e a
profunda admiração que o noivo tinha por ela. Luzia sentiu-se lisonjeada, mas não
caiu na armadilha; e ainda lhe perguntou inesperadamente: “Mas o que vê em mim
de bonito esse homem!” Pascácio lhe respondeu: “Esse homem ficou encantado
com a luz e o brilho de seus olhos”.
Ao ouvir isso, Luzia arrancou com as próprias mãos, sem demonstrar o menor
sinal de dor, seus belíssimos olhos, após ter os colocados num prato, disse ao juiz:
“Vai e leva-os para aquele que os admira”. Trata-se realmente de uma lenda
edificante e que inspirou muitos artistas.
Luzia era representada por vários símbolos: a palma representa a vitória pelo
martírio; a espada, instrumento do martírio; e a lamparina, representação da fé a
qual nos ensina na parábola do Evangelho das virgens loucas e das virgens
prudentes.

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3. A FESTA DE SANTA LUZIA DO NORTE

Neste capítulo há uma abordagem de cunho etnográfico que remete a festa
de Santa Luzia do Norte. Em homenagem a Santa Luzia que morrera no dia 13 de
dezembro do ano de 304 na cidade de Siracusa e foi eleita Padroeira da cidade
onde construíram um templo em seu nome, pois, todo aquele que dá sua vida por
causa de Jesus Cristo, ou que sofre castigos e morte por não renegar a fé em Cristo,
é considerado mártir pela Igreja.
Portanto, todas as cidades do Brasil que têm Santa Luzia como sua Padroeira
realiza em todos os anos nesta mesma data a festa religiosa da padroeira no mês de
dezembro, do dia 03 de dezembro ao dia 13 de dezembro. Em Alagoas conforme
pesquisas realizadas a única cidade que trás como referência Santa Luzia, é Santa
Luzia do Norte.
Contudo, Como tradição, todos os anos, desde 2009, no dia 03 de dezembro,
toda a comunidade é convidada pelo pároco para ir até a Fazenda São Luís,
conhecida como Fazenda Babau, no bairro do Quilombo, no município de Santa
Luzia do Norte, para juntos derrubar uma árvore grande, medindo em torno de 6 a 8
metros de altura, para confeccionar o mastro2.
Este símbolo religioso conforme mostra (foto 4) é todo decorado com fitas
coloridas, levada por cada paroquiano e fixado na Praça Dr. José Lobo Ferreira,
centro, conhecida como Praça da Igreja, pois a igreja fica de frente para a mesma.
Durante todo o percurso da Fazenda Babau até a praça os fiéis cantam louvores a
Deus e à Santa Luzia.
De acordo com a (foto 1, pg. 24) datada de 1979 observa-se que este símbolo
religioso (mastro) já é uma prática de anos anteriores desde o surgimento desta
festa religiosa em Santa Luzia do Norte. Na primeira foto percebe-se que o mastro
não era enfeitado como dias atuais e sim apenas pintado de apenas uma cor e
deixando sua aparência normal.

2

Manifestação folclórica pagã-religiosa em que a comunidade, um dia antes do início da festa do padroeiro, sai
em procissão para cortar um tronco de árvore, enfeita-o depois com grinaldas de flores e o coloca enfrente a
instituição religiosa.

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FOTO 4: Decoração do mastro

Fonte: Daniel Fidelis - 2009

No dia 04 de dezembro começa então o novenário à Santa Luzia, em que
todas as noites acontecem à celebração eucarística, tendo a cada dia uma Família
Noiteira e os seus respectivos animadores. São convidadas famílias de um poder
aquisitivo maior do município de Santa Luzia do Norte para ser Noiteira e os
animadores são os próprios grupos existentes da Igreja, sendo: Catequistas,
Pescadores, Padrinhos, Jovens, Romeiros e Motoristas, Homens do terço,
Apostolado e MEJ e Vicentinos, Legião de Maria e Comerciantes.
Ao amanhecer, às 06h00min horas, a Família Noiteira é responsável pelos
fogos em honra a Santa Luzia, bem como às 12h00min horas da tarde, às 18h00min
horas, durante a missa, no momento da consagração do corpo e do sangue de
Jesus Cristo. Quando a missa chega ao fim, o padre vai até o altar para incensar a
imagem de Santa Luzia cantando o seu hino.
Conforme, (foto 5 - abaixo) o noiteiro vestido de paletó na época era vereador
e professor responsável pela organização do dia e ao lado os animadores da festa
cantam durante toda a missa, conforme a programação.
Terminada a missa, a imagem de Santa Luzia é levada para a casa do
próximo Noiteiro e assim acontece em todas as noites durante todo o novenário até
a noite do dia 11 de dezembro.

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FOTO 5: Família noiteira e animadores

Fonte: Daniel Fidelis - 2009

No dia que antecede a festa da padroeira, dia 12 de dezembro, a Família
Noiteira é substituída por padrinhos e madrinhas da festa. O padre faz o convite a
toda comunidade e quem aceita tal convite deve contribuir com uma quantia em
dinheiro. Antecedendo o dia 12 de dezembro os padrinhos e madrinhas, recebem
uma blusa dada pela paróquia para serem identificados no momento da missa como
padrinhos e madrinhas, segundo a tradição. Na noite do dia 12 de dezembro, na
hora da oferta, as pessoas se reúnem formando uma fila para entregar sua oferta no
altar do Senhor. Neste momento percebe-se a satisfação, a alegria, o orgulho de
alguns paroquianos em patrocinar esta noite.
Quando começa o novenário, começa também a intensa decoração da Igreja
Matriz. A Igreja é decorada conforme (foto 6) com arranjos florais, onde cada dia é
doado por uma pessoa ou uma família. Os arranjos ficam no máximo três dias.
Após este tempo deverá ser trocado por outro, lembrando que este é um
novenário, então é trocado três vezes neste período, pois no dia 13 de dezembro é
feita uma decoração só para este dia, que sempre é mais bela e suntuosa de todas

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as decorações realizadas. A charola3 de Santa Luzia é feita também por meio da
doação de uma pessoa ou uma família.

FOTO 6: Altar central da Igreja de Santa Luzia

Fonte: Acervo fotográfico da autora

Para a decoração da charola de Santa Luzia de acordo com a (foto 7) são
contratadas pessoas de outros lugares juntamente com pessoas da própria
localidade. Em outros tempos mantinha-se em segredo sobre o tipo de decoração
que enfeitaria a charola para criar certa expectativa nos fiéis, ou para fazer um
comparativo com anos anteriores.
Há cerca de 5 (cinco) anos o trabalho de decoração é realizado em uma
tenda armada ao lado da Igreja, onde os decoradores fazem sua criação ao ar livre e
3

Charola - s.f. Andor de procissão. Nicho. Corredor semicircular entre o corpo da igreja e o altar-mor.

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muitos curiosos ficam perto para fazer perguntadas relacionadas a santa e conforme
a tradição recolher flores que para muitos também é um símbolo sagrado e que
pode trazer algum benefício para sua vida.

FOTO 7: Imagem de Santa Luzia do Norte na charola

Fonte: Acervo fotográfico da autora

Em tempos atrás, ao fim da procissão, quando a imagem de Santa Luzia
retornava para a Igreja, vários fiéis tentavam pegar parte da decoração da charola
como por exemplo: uma flor, um ramo ou um galho da planta que faziam parte da
ornamentação, porém, muitas das pessoas que estavam trabalhando na festa, os
organizadores, os paroquianos, não permitiam que as pessoas desfizessem a
decoração. Vendo toda essa dinâmica entre fiel e a Santa, o padre decidiu que ao

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final da procissão todo e qualquer paroquiano, visitante, romeiro poderia levar
alguma lembrança que pudesse fazer parte da decoração da charola de Santa
Luiza.
Atualmente, quando a imagem de Santa Luzia retorna para a Igreja, uma ou
mais pessoas da própria comunidade começam a distribuir essas flores e os fiéis
levam para suas casas não somente flores, mas flores de Santa Luzia, acreditando
que servem para fazer um chá (bebida) para curar alguma enfermidade do próprio
fiel ou de alguém que ficou em casa.
Em relação à (foto 8) já é tradição quando a imagem de Santa Luzia chega à
Igreja depois da procissão, os paroquianos que estão fazendo parte do apoio da
festa, jogam das janelas da igreja flores na imagem, e os fiéis recolhem essas flores
conforme (foto 8) e as levam para casa com o mesmo intuito, de que estas irão
ajudar de algum modo nas suas necessidades, sejam elas no âmbito físico ou
espiritual.
FOTO 8: Fiéis colhendo flores após a procissão

Fonte: Acervo fotográfico da autora

Durante o novenário em honra à Santa Luzia, em todas as noites, há a missa
na Igreja Matriz. Estas missas são celebradas com grande alegria, entusiasmo,
organização, beleza e contentamento dos participantes e que fazem acontecer às
festividades.

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Para melhor receber os fiéis, os visitantes, o pároco pede ajuda na compra da
tinta para pintar a Igreja, por ser uma Igreja “grande”, na maioria das vezes
consegue apenas doação e mão-de-obra para pintar o lado externo, onde é mais
desgastado pela ação do tempo; a parte interna fica para o ano seguinte.
São trocadas todas as toalhas que ficam nos altares, por outras mais novas;
todos os castiçais são limpos, assim como os cálices, a galheta, entre outros objetos
usados na realização da missa. Durante esse período festivo são utilizados objetos
mais novos e mais bonitos. A Igreja toda é lavada, os bancos recebem uma camada
de óleo de peroba, lâmpadas queimadas são trocadas, todos os ventiladores são
limpos, conserta-se o aparelho de som, o microfone, enfim, conserta tudo que
precisa, arruma a casa de Deus da melhor maneira possível, para que os fiéis
possam se sentir bem, em um ambiente limpo, bonito e arrumado.
Todos esses trabalhos são realizados pelos próprios paroquianos que
desejam contribuir para a realização da festa, uma vez que não podendo patrocinar
a festa com dinheiro, pode-se ajudar de diversas maneiras, seja na oração, no
serviço pesado, nas vendas, no pedir, na arrumação, trabalho não falta. Depois de
todos estes preparativos, a casa de Deus está arrumada.
Próximo à Igreja instala-se a barraca do leilão conforme (foto nº 9), lugar este
que recebe todas as noites as ofertas da comunidade a Santa Luzia. As ofertas são
variadas como: comidas típicas da lagoa (prato de camarão, de siri, de sururu, de
peixe, de maçunim, de caranguejo uçá); comidas do cotidiano (prato de carne de
boi, carne de porco, de linguiça, de galinha, etc.); frutas (banana, melancia, abacaxi,
uva, maçã, pêra, jaca, manga, etc.); doces (bolos, tortas, pudins, prato de brigadeiro,
caixa de bombom, etc.); salgados (prato de salgadinhos, torta salgada, bolo salgado,
etc.); animais vivos (galinha, pato, pintinho); diversos (panetone, jarro decorativo,
flores artificiais, brinquedos, quadros, jogo de copos, jarra para suco, toalha de
banho e rosto, panos de prato); pão (as padarias do município de Santa Luzia
sempre mandam aqueles pães enormes com formato de bichos, de tranças, formas
bonitas para agradar a quem vai até o leilão para arrematar alguma coisa).

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FOTO 9 – Barraca de Leilão

Fonte: Daniel Fidelis - 2009

Na rua em que se localiza a Igreja Matriz de Santa Luzia, é a mesma que
recepciona o famoso “parquinho da festa”. A chegada prevista para o parquinho é
sempre alguns dias antes da festa, que faz parte das animações organizadas para a
comunidade. O parque realmente atrai muitas famílias, pois, é sinônimo de diversão.
E as crianças que são em sua maioria as gratificadas por essa diversão se
encantam com todos aqueles brinquedos grandes, coloridos, com imagens de
desenhos conhecidos da televisão, do DVD, só querem brincar e se divertir.
O parquinho começa a funcionar na mesma hora em que começa a missa, às
19h00min horas. Alguns pais que tem crianças mais novas preferem este horário
para colocar seus filhos para brincar nos brinquedos, uma vez que tem pouca gente
a chance de passar mais tempo brincando é maior e de se machucar com outras
crianças maiores em brinquedos de muito contato físico também.
Devido à ausência de festividades constantes na cidade é neste período de
festa que os adolescentes e os jovens aproveitam para se produzem de tal maneira
que é impossível ser indiferente à sua presença marcante, seja na maquiagem, na
roupa, no sapato, no cabelo, nos acessórios, no comportamento, não importa, eles
se fazem notar.

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A rua, além de recepcionar o parquinho é tomada pelos ambulantes. No
início do novenário a maioria dos ambulantes e das barraquinhas é da própria
cidade de Santa Luzia do Norte. São pessoas simples, na maioria dos casos são
donas de casa, empregadas domésticas, faxineiras, varredores de rua, serviços
gerais, vigilantes, estudantes, aposentados, autônomos, desempregados, pessoas
que já possuem um pequeno comércio e tentam aumentar a renda familiar durante o
período festivo.
O principal produto a ser vendido é a comida; são vendidos vários tipos de
bolos, tortas, batata frita, churrasquinho de carne de boi, de galinha, de calabresa,
pé-de-moleque, tapioca, beiju, sanduíches, diversos tipos de doces e salgados.
Quanto à bebida, é mais comum serem vendidos refrigerantes e água mineral,
contudo, também existem as barracas que vendem bebidas alcoólicas.
Por residir na cidade onde ocorre a festa, é “mais fácil” conseguir um local na
Rua da Igreja, pois cada centímetro quadrado é disputadíssimo. Os organizadores
da festa demarcam o território da maioria dos vendedores ambulantes pintando de
tinta a cal as ruas, calçadas, praças, pois existe muita “confusão” por causa do
espaço, onde todos querem o melhor local, que se encontra próximo à Igreja.
Aproximadamente cinco dias antes para o dia 13 de Dezembro, dia de Santa
Luzia, começam a chegar os vendedores ambulantes de outras cidades, bem como
de outros Estados. Como em Santa Luzia do Norte não existem hotéis nem
pousadas, os ambulantes arrumam suas barraquinhas, ou banquinhas e dormem
dentro, ou ao lado das mesmas. Eles as cobrem com lonas, plásticos ou lençóis,
fechando toda a instalação e ficando lá a noite toda. Quando amanhece o dia, cada
um deles dá inicio aos seus afazeres.
Estes vendedores trazem consigo outros vários tipos de mercadorias em
trailer onde vendem almoços, bem como existem aqueles que vendem sanduíches
mais refinados; como também: vasos de flores, de chapéus, bonés, cintos,
chaveiros, brinquedos, bijuterias, relógios, copos de alumínio, panelas, de roupas,
sapatos, de utensílios para o lar, jogo de cama, toalhas de banho, tatuadores,
sorveteiros, churros, maçã-do-amor, uva com cobertura de chocolate, melancia,
abacaxi, laranja, pipoca, artesanato. Existem também as banquinhas com jogos de
roleta, dos copos para adivinhar, tiro ao alvo, se vende de quase tudo nesta festa.

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Conforme, (foto 10) há barraca também de artefatos religiosos referentes à
Santa Luzia pode-se observar: santos de gesso e gráficos, terços de vários tipos,
colares, santinhos, quadros de santos, CD´s, DVD´s, entre outros.

FOTO 10: Barracas que vendem artefatos religiosos

Fonte: Acervo fotográfico da autora

No dia 13 de Dezembro, dia do martírio de Santa Luzia de Siracusa. Logo
cedo, às 04h00min horas da manhã, é realizada a Caminhada da Luz de acordo
com a (foto 11), na qual toda a comunidade é convidada a participar. Na foto
observam-se pessoas levando uma vela para acender durante a caminhada em
honra à Santa Luzia, percorrendo as principais ruas da cidade. A saída desta
caminhada é determinada pelo pároco, quando este indica a casa de algum
paroquiano para dar início ao percurso do trajeto.
Logo em seguida, às 05h00min horas da manhã, é realizada a Missa da Luz,
esta recebe este nome devido ao significado do nome Luzia – que significa Luz – luz
que ilumina as trevas. Terminada a missa, às 06h00min horas começa a alvorada
festiva com a queima de fogos de artifício.

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FOTO 11 – Caminhada da luz

Fonte: Daniel Fidelis - 2009

Este dia é muito intenso, movimentado, alegre, festivo. E em várias cidades
as pessoas se organizam de várias formas para participar dos festejos em honra à
Santa Luzia, os romeiros, os fiéis, os visitantes, geralmente se juntam e alugam um
transporte como ônibus, micro-ônibus, besta ou vans, e vão, durante o caminho
cantando hinos e louvores a Deus. Chegando à cidade de Santa Luzia do Norte, vão
em direção à Igreja Matriz para cumprimentar a anfitriã da festa – Santa Luzia.
Alguns visitantes rezam por um bom tempo, outros não, querem aproveitar todo o
tempo que vão passar na cidade para explorá-la.
Existem vários tipos de promessas a serem “pagas” pelos devotos. Alguns
prometem oferecer animais vivos como galinha, pintinho, pato, pombos, bode,
carneiro. Outros prometem acender vários maços de velas, andar a procissão inteira
descalços, usar uma roupa toda preta, ou toda branca, vestir a criança de anjo, doar
toalha para o altar, doar arranjos de flores, rezar, carregar a imagem de Santa Luzia
durante a procissão, etc.
Na medida em que os fiéis vão chegando, vão pagando as suas promessas, a
barraca do leilão conforme (foto 12) é usada neste dia para leiloar apenas animais
vivos, que servem como pagamento das promessas feitas por eles à Santa Luzia de
Siracusa.

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FOTO 12: Barraca de leilão de animais

Fonte: Acervo fotográfico da autora

Por não ter uma extensão maior e nem muitos atrativos turísticos, os
visitantes procuram logo um lugar para se acomodar, seguem para a Igreja, ficam
nas sombras das árvores, nas praças, no coreto, nas escolas municipais, na creche,
nas calçadas, nas portas dos munícipes.
A Escola Estadual Sidrônio Augusto de Santa Maria conforme (foto 13) está
localizada na Rua da Igreja. A referida escola serve de alojamento para os
visitantes, nela também é preparado o almoço para ser vendido a todos os que
queiram comprar. Os paroquianos fazem doação de alimento e os preparam para
serem consumidos durante o almoço, onde todo o dinheiro arrecadado é revertido
para a Igreja.
Como é possível analisar na (foto 13) os fiéis trazem consigo comida, lanche,
água, refrigerante, cadeiras dobráveis, bancos, almofadas, toalha de banho e de
rosto, lençol, etc. Tudo isso é utilizado para seu próprio conforto, pois a maioria dos
visitantes passa o dia todo na cidade de Santa Luzia do Norte. Então eles futilizam
os espaços disponibilizados seja na escola, na creche, no coreto, e descansam até o
início da saída da procissão. Outros romeiros até utilizam objetos de casa como
cadeiras e bancos, procuram uma sombra para poder se abrigar do sol, fazem novas
amizades, bem como reencontram velhos conhecidos.

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FOTO 13: Lugares que servem de abrigo para os visitantes

Fonte: Acervo fotográfico da autora

De acordo com a programação prevista no (anexo 5) a missa solene de Santa
Luzia começa às 10h00min, e é presidida por um padre convidado pelo sacerdote
local, sendo co-celebrada por este último. Nos últimos anos quem animou a Missa
Solene foi o Coral Luz, coral da própria paróquia, formado por homens e mulheres.
Neste dia são cantados hinos mais solenes. Tanto os padres convidados, como o
pároco local, estão vestidos com roupa sacerdotal mais elegante.
Assim também acontece com o Coral Luz, com as autoridades locais, com
alguns dos paroquianos e alguns visitantes. Boa parte desses usam roupas simples
e camisas com estampas religiosas. E isso acontece com os paroquianos que fazem
parte do apoio da festa, que torna mais fácil de identificar as pessoas locais e poder
ajudar os visitantes naquilo que estão precisando. Durante a missa, a Igreja fica
repleta de pessoas, fazendo-a bonita, alegre, participativa, acolhedora, para aqueles
que se doam.
Terminada a Missa Solene, o sacerdote local dá a bênção aos visitantes,
estes que chegam a todo o momento e vão enchendo a pequena cidade. As ruas
são tomadas por ônibus, vans, carros de passeio, etc. As pessoas mais simples e
humildes chegam mais cedo, geralmente sem transporte, aqueles que possuem
seus veículos, seus carros de passeio chegam mais tarde.

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FOTO 14: Cavalhada para festejar o dia de Santa Luzia de Siracusa

Fonte: Acervo fotográfico da autora

Conforme se observa na (foto 14 – a cima) no começo da tarde, um grupo de
cavaleiros divididos pelas cores azuis e vermelhas realiza uma cavalhada para
festejar o dia de Santa Luzia de Siracusa. Antes de começar, todos os cavaleiros
vão até a porta da Igreja montados em seus respectivos cavalos pedir a proteção de
Santa Luzia para que tudo ocorra bem durante a cavalhada. Terminada a cavalhada,
no final da tarde, voltam todos aqueles cavaleiros para agradecer o final da mesma e
o bom resultado obtido pelo grupo.
Na Igreja Matriz, os fiéis rezam, cantam e agradecem tudo aquilo que Santa
Luzia “concedeu”. Uma turma de romeiros começa a cantar e animar quem estiver
presente na Igreja, e assim fazem a acolhida dos demais fiéis que estão chegando,
e isso ocorre em um sistema de revezamento. Enquanto isso, os responsáveis pela
logística da festa armam uma tenda bem grande e um palco, contratam o som, e
chamou os “cantores da Igreja”, e convidam um grupo musical de outra paróquia
para animar os fiéis durante a tarde.

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Foto 15 – Trio elétrico com grupo musical para animação dos fiéis

Fonte: Acervo fotográfico da autora

No horário da saída da procissão é disponibilizado um carro de som para
haver uma interação entre Igreja e o povo nas orações, nos cantos, nas perguntas e
respostas que são feitas e dadas nos “Viva Santa Luzia”, “Viva Nosso Senhor Jesus
Cristo”. Quem acompanha também a procissão, são as duas bandas musicais
existentes na cidade: Banda Independente e a Banda Professor Wanderley, que
tocam durante o trajeto da procissão, em cima de um pequeno trio elétrico conforme
apresentado na (foto 15), abrilhantando todo esse momento de festa.
Conforme mostra a (foto 16) quando a procissão sai da Igreja Matriz, às
16h00min horas, todo o povo segue a Santa Padroeira. Todos os anos a procissão
segue o seguinte trajeto: saída da Igreja Matriz, indo para o Bairro do Quilombo,
voltando para o Bairro do Centro, subindo a Rua Tiradentes, descendo a Rua São
Vicente, indo para a Rua Benedito Mascarenhas, desce até o começo da pista,
dobra a esquerda no Bairro da Matança, desce o Bairro do Caldeireiro e sobe pela
Rua Estêvão Protomártir de Brito, retornando à Rua da Igreja.

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FOTO 16: Momento da saída de Santa Luzia da Igreja

Fonte: Acervo fotográfico da autora

Após a procissão de acordo com a (foto 17), tem a missa com o arcebispo e a
bênção do Santíssimo Sacramento. Logo em seguida todos podem retornar para os
seus lares revigorados na Fé, cheios de esperança, felizes e convictos de que vale a
pena acreditar em Deus e na intercessão da Virgem e Mártir Santa Luzia de
Siracusa.
FOTO 17: Retorno dos fiéis a Igreja Matriz

Fonte: Acervo fotográfico da autora

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4. RELATO DOS FIÉIS ENTREVISTADOS

4.1.1 Entrevista com Jorge Fidélis, técnico em enfermagem, 48 anos.

A primeira entrevista foi realizada com Jorge Fidélis residente na zona urbana
do município. Perguntando qual a relação que o fiel tem com Santa Luzia ele
respondeu:
Eu posso dizer que... Desde pequeno, né. Começou a caminhada
na fé, na Igreja, vendo o exemplo da mãe e do pai, aí já conduziram nesse
caminho, aí eu consegui ter essa vivência na Igreja despertando, e mesmo
a festa né? Que fazia a gente vibrar sempre, e depois com o tempo, o
conhecimento da história, da vida, da pessoa, aí eu fui me apaixonando de
verdade, né? E agora quando eu vejo que tem como eu falar pra alguém
que quer saber dela, já falo um pouquinho, eu já começo a passar para as
pessoas, que elas entendam essa devoção. Por ela ser uma pessoa
simples e estruturada na sua vida de fé, aí foi paixão a primeira vista, mas
isso é que a gente tem na vivência, até pelo que a gente vê no dia a dia
vários santos, mas essa menina teve muita coragem.

Conforme as graças alcançadas durante a vida do entrevistado, nos relatos,
podemos perceber a fé e a devoção, por ser uma Santa que tem como tradição e
história a cura da visão percebemos que os que creem acreditam em outras curas
do corpo e da alma como é possível perceber quando perguntamos se já havia
recebido alguma graça e quais tinham sido e ele respondeu:
Muitas. E por incrível que pareça, as pessoas até dizem assim: “se
foi questão de visão?”. Não. Até pra mostrar, assim, que tá muito mais
amplo, que às vezes as pessoas pensam muito nos olhos físicos, mas como
ela conseguiu pra mãe, a mãe não sofria da visão. O problema da mãe era
outro, era um sangramento interno, entendeu? Mas aí, aí posso vê isso, que
também ela é protetora da visão física, espiritual, mas muita coisa sem ser
visão as que eu consegui. Olha, a gente pode dizer que foram inúmeras,
que a gente diz, mas tem coisas que marca a nossa vida. Eu sempre dizia
que a caminhada da vida da gente, a gente perde o pai e tem as

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dificuldades, e mãe também, aí sempre colocava pra que ela me orientasse
que eu pudesse chegar a desenvolver na parte profissional, tá entendendo?

E com todas as dificuldades que eu tive, de momentos difíceis, aí
pedia a intercessão, e pedia intercessão, e hoje vejo que tudo o que
alcancei foi graças a essa ajuda, essa força na vida, foi pela ajuda dela. Ela
é iluminadora, não, ela é iluminada, iluminador é Jesus, ela é iluminadora. E
assim, então, eu posso dizer que tudo que eu consegui até agora foi por
graças a ela. E a outra foi no trabalho. E essa aí foi visão mesmo. Eu
trabalhei no IOFAL, que era justamente da visão, e teve um problema lá,
que eu estava trabalhando, foi um pequeno acidente, não foi grave não,
assim, respingou nos meus olhos, e o primeiro pensamento que veio foi por
ela, o primeiro pensamento foi por ela, eu corri lá, lavei os olhos e fiz aquela
oração, ainda me lembro: “sei que não vai ter nada”, porque a gente sabe
que tem muita contaminação.
Tudo graças a Deus, e a ela, e eu não tive nada, nada, nada, nada.
Isso pra mim é uma força maior, tá entendendo? Aí eu coloco, assim, minha
vida, ela realmente tá orientando, me ajudando, me fortificando, tanto na
vida profissional, quanto na fé também. E é isso. Vai chegar né? Chegar lá.
Então tem esse amor expressivo e eu quero que todo o mundo conheça a
história, mesmo que diga assim: “eu não sou devoto de Santa Luzia”. Mas
eu vou amar pelo que ela teve que ela é né? Tem que ser divulgador. Não é
pra ela mesma, mas até pra conhecer a Deus, ela deu a vida. É um
degrauzinho pra você conhecer realmente o que é ser fiel, obediente, ter
discernimento, e isso, ela é um pouquinho de tanta coisa que ela fez nesta
terra, porque a gente está aqui, mas vai morrer. Quando isso acontecer vou
dar um abraço nela lá em cima, vou dar um abraço nela lá em cima, aí vou
ter bons papos com ela, de tudo o que ela fez por mim, de todos os pedidos
que foram feitos e ela me escutou.

4.1.2 Pedro César da Silva, professor.

O segundo entrevistado foi Pedro César da Silva, professor, residente na
zona urbana da cidade. E que também é um frequentador assíduo dos encontros
religiosos existentes na igreja católica. Perguntando sobre seu relacionamento com
Santa Luzia, como nasceu esse relacionamento? Ele respondeu:
Desde criança, e assim, por ser daqui, por ter sido batizado na Igreja,
por frequentar, e ser catequista muitos anos, acredito, aí a paixão por ela é

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desde criança mesmo. Não tem assim de que começou, mas é pela própria
criação de casa fez com que eu sempre fosse apaixonado por ela.

Questionando sobre promessas e as graças alcançadas o entrevistado
respondeu:
Já fiz uma promessa pra ela, já alcancei uma graça e praticamente eu
"tô" alcançando outra. Porque meu filho César, já nasceu com 90% da visão
do olho esquerdo comprometida. E era pra ter operado logo aos 3 (três)
meses de idade e assim a gente se “aperriou” muito. Na época fomos pra
vários médicos e dois queriam operar ele nesse período e a gente pediu à
Santa Luzia que mostrasse, assim, um caminho, que nos desse uma luz,
porque ele era muito bebê e a gente tinha medo de cirurgia; era de risco
que ela me desse uma luz pra que ele não fosse operado, para que não
passasse pela cirurgia naquele momento. E assim, graças a Deus, a
cirurgia estava marcada e na semana que estava marcada eu encontrei
uma pessoa amiga da mãe dele e quando a gente contou ela disse que a
gente não fizesse a cirurgia sem falar antes com Dra. Maria José Ferro, de
Palmeira dos Índios – AL.
E a gente foi pra lá, falar com a Dra. Maria José Ferro, e quando ela
disse realmente que o caso dele não era cirúrgico, que tinha um tratamento
para recuperar essa visão e ele faria a cirurgia pra lá com seus 14 ou 15
anos de idade, era quando o nervo ia tá maduro, adulto, maduro, e se
fizesse naquela idade e antes desse período, poderia voltar tudo de novo,
porque os nervos eram infantis. Assim não tinha idade correta para fazer a
cirurgia e a gente mesmo assim ficamos na dúvida, aí fomos pra Recife –
PE, que indicaram, aí quando a gente chegou lá que contou tudo e que
disse que a última pessoa que a gente tinha ido era a Dra. Maria José
Ferro, aí eles disseram: volte porque vocês estão nas mãos certas, correta,
ela é a melhor especialista do Norte/Nordeste. Eu tenho isso porque foi
Santa Luzia que botou essa luz no meu caminho. Aí a gente pediu muito
porque ele recuperasse a visão. O tratamento não foi 100%, não por conta
da Doutora, mas por conta nossa, pai/mãe. Como ele sofria muito, porque
criancinha tinha que ir pra escola com tamponamento pra tudo; o
constrangimento que era os coleguinhas que “mangava” tudo. Ele bebê,
não. Até 2, 3 anos, aí sem problemas, 4 anos. Mas de 5 anos que começou
já a entender, a gente não fez o tratamento que deveria, mas graças a
Deus, de 90%, ele recuperou 75% da visão. E eu devo isso, assim, à Santa
Luzia, que tenho certeza que ela botou a Dra. Maria José no nosso
caminho. E o tratamento não foi eficaz, não por conta dela, mas por conta

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da gente, pela graça divina. Aí, como eu sou devoto, todo o dia 13 de
dezembro, eu uso uma camisa vermelha.

Em relação à família, foi perguntado se ele pede proteção pra sua família e
suas colocações são sempre positivas em relação à Santa Luzia em sua fala
demonstra essa satisfação e confiança:
Peço sempre, sempre. Tudo que, todas as minhas orações, sempre
está em primeiro lugar Santa Luzia, depois São Pedro, porque é o patrono
de minha rua, do meu bairro, e Nossa Senhora da Conceição. São esses
três santos, que eu tenho devoção mesmo. E Santa Luzia e Nossa Senhora
estão em primeiro lugar.

A fé cristã esta tão presente que percebemos que todos os acontecimentos
existentes em suas vidas são atribuídos a uma graça alcançada, como no relato
abaixo:
Não, foi essa. Eu pedi também, na época dos meus problemas de
cálculo renal. E eu estava com uma pedra e se eu não expelisse essa pedra
eu ia me submeter a uma cirurgia. Foi em 93 ou 94. Foi nesses anos, de 93
e 94. Eu me peguei muito com Santa Luzia para que eu conseguisse expelir
essa pedra e eu de graças a Deus. A cirurgia estava marcada pra semana
(seguinte) e na semana foi que eu consegui botar essa bendita. Aí eu
também tenho que foi Santa Luzia que me concedeu a graça de ter “botado”
e não ter ido “pra faca”, porque na época era na faca mesmo, porque era
aquela cirurgia tradicional que abria, cortava o cara, tudo, de um lado ao
outro, é perigoso, e graças a Deus eu não passei por ela.

Perguntando ao professor sobre seus sentimentos em relação à Santa Luzia
ele respondeu que:
É que ela é minha santa de devoção mesmo. Toda a festa da
padroeira procuro ajudar. Como no ano passado, eu dei uma das
ornamentações da festa dela, fiz questão de dar pela minha devoção e todo
o ano eu ajudo, ou sou noiteiro, ou sou padrinho... Mas eu sempre fico
responsável por uma noite da festa dela, devido à devoção que eu tenho
por ela.

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4.1.3 José Ailton do Nascimento, 51 anos, técnico em enfermagem.

Questionado sobre a relação de devoção com Santa Luzia e quando começou
essa relação religiosa ele respondeu:
É uma santa por excelência. Eu já começo dizendo o seguinte: que
todo paroquiano deve ser devoto de sua padroeira. Até por uma questão
de... de... De religiosidade nata, de religiosidade natural daquela localidade.
E, tratando-se de Santa Luzia, é como uma honra, devoção à imagem como
qualquer outra santa padroeira. Mas Luzia que vem e protege, luz, visão,
olhos, atribuição. A minha história tá ligada desde os passos que eu dei na
Igreja, né? Andando, batizado, crisma, primeira comunhão, trabalho e é
uma história que com certeza não vai ser interrompida, até porque eu
particularmente... Primeiro por ser de uma terra, por ser de terra, por ser
uma terra ordeira, terra de gente calma, de gente trabalhadora, e também
pela graça de Deus ser abençoado por Luzia.
Essa mulher, italiana, de Siracusa, da Itália, que nós tivemos a
graça de tê-la como padroeira, né? Na história em que... Quando um cego
por aqui esteve, né? Um habitante que esteve por aqui. Conta-se a história
que: às margens da lagoa residia um senhor, e este senhor estava cego,
né? E a devoção dele, acho que foi assim, a maior devoção que eu já vi, e
outras que a gente vê no decorrer dos anos, na, no 13 de dezembro, data
em que comemoramos a sua festa. Comemoramos não, celebramos.
A gente não comemora. Na Igreja a gente não comemora, celebra.
Então, no momento em que celebramos a sua festa, a gente vê os favores,
não, a devoção atribuída a Santa Luzia, e os retornos, quando aquele povo
vem chorando, agradecendo, pagando promessa de... Da forma mais visível
possível, né? Tudo isso graças a um senhor que por aqui esteve há muitos
anos atrás e que deixou essa devoção, tanto essa devoção para conosco,
né? Tanto é que a imagem primitiva existe, a imagem de Santa Luzia de
Siracusa, que veio de Siracusa, que veio abençoar o povo dessas terras,
guiar o povo dessas terras, e daí nasceu e criou-se a devoção a Santa
Luzia, que não é uma devoção local. A devoção à Santa Luzia não está
somente atribuída, não só a região, ela ultrapassa fronteiras, né? Não só a
Santa Luzia do Norte. A Santa Luzia do Norte é pela beleza da imagem,
agora a gente não deve ter a devoção pela beleza da imagem, isso sim
influencia, mas a gente deve ter a devoção pela pessoa de Luzia, né? Não
importa se a imagem é de madeira, gesso, cimento, fibra, não importa. O
que importa é que a gente deve ter a devoção à pessoa, se reportando a

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vida que ela viveu sua vida de martírio, vida de sofrimento, vida de angústia,
de poucas alegrias e muitos sofrimentos, por isso que nós temos a graça de
venerarmos como patrona da visão.

Em relação as graças alcançadas o devoto respondeu que:
Só o fato da gente tá trabalhando por ela todos os dias já é uma
graça muito grande. Especialmente assim, Eu estava doente e pedia a
Santa Luzia, não... Não. Porque, não vejo assim, apesar de ter devoção
muito grande, não vejo assim, apesar de ter essa devoção muito grande,
mas eu acho que ainda não foi preciso, né? Oh Santa Luzia, eu “tô”
precisando disso, me ajuda, me socorre, não foi preciso ainda, e os ouvidos
dela ainda não se cansou neste ponto, ainda não. Espero que não nesse
ponto assim. Mas se eu precisar, a atribulação existe, milagres grandes
não, né? A mim, não. Especificamente não, né? Mas isso não quer dizer
que a devoção não seja grande, à imagem, à vida, à pessoa, nos faz
reportar, né? No... no... No estilo de vida dela. No estilo de vida. Da
simplicidade, da pureza, da obediência.
Eu só quero que ela me conceda esse milagre de ser obediente a
minha Igreja, que eu seja obediente àquilo que eu escolhi viver e o que eu
escolhi seguir, o evangelho de Jesus Cristo, como ela seguiu. Pra mim, já tá
de bom tamanho esse milagre. Porque a vida é difícil, o mundo é difícil se a
gente não tiver se assegurando a Santa Luzia, tantas santas de devoção.

Percebe-se que no relato há uma devoção por duas santas como podemos
observamos abaixo:
Eu gosto muito de Santa Luzia e Nossa Senhora das Dores. Pra
mim são as duas mulheres da minha vida. Luzia e Das Dores, né? Mas eu
atribuo à questão de milagre, milagre eu não vou dizer, nunca, nunca foi
preciso recorrer a esse tipo, né? As coisas pequenas a gente resolve, e as
grandes ela resolve. Mas se for preciso, eu sei que ela não vai me deixar na
mão. Porque você confia, ou não confia. Ou confia, ou não confia. Milagres,
eles são pagos. Eu, eu não gosto muito desse negócio de... Santa Luzia, se
a Senhora me fizer isso eu dou isso, se a Senhora me conceder uma graça
de ficar bom da vista, eu lhe pago, eu dou galinha.
Não concordo com isso. Eu acho que a gente não deve o milagre
pra mim não é assim, você receber e pagar. O milagre, pra mim, acontece
na medida em que você pede a intercessão e deixa acontecer, né? Esse

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negócio de dar um maço de velas, dar uma galinha, dou isso, dou aquilo,
eu... É popular, é religiosidade. Mas a devoção, pra mim, é você estar ligado
à vida da santa, do mártir, do santo que você tenha como, como, como
devocionário, como devoção, que seja devocionário, que você deve tá
atribuído a… a isso. É viver a vida dele, é estudar a vida dele, é seguir o
exemplo, é seguir o exemplo.
Ah, eu sou devoto de Santa Luzia. “Ah, quem foi Santa Luzia? Não
sei”. “Ah, sou devoto de Santa Luzia”. E o que Santa Luzia representa pra
você? “Não sei”. “Ah, sou devoto de Santa Luzia. Ah, mas quando eu quero
milagre eu vou pra outra Igreja”. Pra mim isso não é devoção não. Não é
devoção. E a gente vê muito. Particularmente eu acho muito bonito. Aí é
quando eu digo: orgulho-me de ser dessa terra. É uma terra de muita
religiosidade, é terra de um berço, é... Respira a religiosidade. É Luzia, é
Paixão de Cristo, é Ato de Natal. Tudo respira religiosidade. E graças a
Deus, tá acordando mais pra isso, tá acordando, porque quem tem Luzia
como mestre, rainha e protetora, não precisa, na terra, nem de óculos, a
gente usa por status.

Foram realizados vários questionamentos e entre elas foi perguntado se há
pedidos de bênçãos pela família e ele respondeu que:
Com certeza. Se a gente diz que ama, não é amar, é fazer o amor
acontecer. E, na verdade, não é dizer eu quero, quero, quero, não. Pra que
eu queira, eu preciso que eu faça a minha parte. A gente não deve pedir a
Santa Luzia que proteja, mas a gente pede sim. Mas antes de pedir, o que a
gente faz?

Agradece e entrega na sua mão. Eu costumo muito dizer

assim... Nos grupos que a gente anda, eu digo assim.

Uma vez uma

senhora me questionou: “Oxe, você fala de uma maneira tão diferente com
Deus”. Não falo diferente coisíssima nenhuma, não. A senhora que não está
acostumada a falar dessa maneira. Porque, assim, o problema existiu, o
problema tá acontecendo.
O Senhor que resolve. Não foi o Senhor que invento esse
problema? O Senhor dá a vida a, a isso acontece. Um dia desses aí a gente
vinha de uma viagem, a gente estava em peregrinação, em missão. A gente
vinha... E no caminho, chovendo, chovendo, chovendo... E o carro, o parabrisa não obedecia, e aquela chuva... Assim, o menino que vinha dirigindo,
ficou, assim, apavorado, e a esposa dele, uma... Uma mulher piedosíssima
ficou lá... Eu não “tô” vendo nada, nada... Reduziu a velocidade, e eu disse:
“porque você tá se preocupando”? Se tá chovendo, é porque Deus quer, e
se a gente tá em missão é porque Deus quer.

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A gente não tá em missão por querer. Se ele chama, a gente vai.
Ele resolve o problema, né? A gente tá aqui por devoção que a gente tem a
Ele, e por nossos intercessores, aí eu citei Santa Luzia, Nossa Senhora da
Dores, cada um citou o seu, aí pronto. Quando menos esperou, clareou
tudo. O vidro do carro tá limpinho. Aí ela chegou e disse: “também, da
maneira como o Ailton fala com Deus”. Mas é assim, nas coisinhas
pequenas. Mas se você... você..., se a gente analisar direitinho... Puxa, uma
tempestade daquela, aí eu me reportava à tempestade de Pedro, tive medo.
Porque a gente disse: não, eu quero que o Senhor acabe com isso, não, e
aconteceu, e a gente tá aqui.
A gente tá sob a sua proteção. Aí a gente diz: olhe Santa Luzia,
Nossa Senhora Dores, São Francisco, a senhora tá vendo, né? Então diga
aí a Deus que resolve. São coisas pequenas, que ninguém pode estar
sozinho, ninguém pode, não pode estar atribuído, atrelado a eles, porque
agente... é... é... Sozinhos nós não somos nada, sem Deus, né? E a gente
tem nossos santos, as nossas imagens, por um elo, né? Que nos liga, uma
ponte que nos leva a Deus, né? Eles não sabem que sabe é Deus. Luzia,
Das Dores, tantos outros existem, são pra gente símbolos da Fé, que
concretiza a nossa chegada até Deus. Então, que a Santa Luzia seja para
mim sempre modelo, o modelo assim, que eu seja realmente aquilo que eu
gostaria, aquilo que eu gostaria que eu fosse, não aquilo que ela, como
minha padroeira venha colocar no meu caminho. Porque, às vezes, de
repente, acontece “uma coisa”, eita desisto disso aí porque não dá futuro
não. De jeito nenhum. Luzia não salva, ela faz parte do plano de salvação.
Luzia não cura, Luzia não, não resolve, ela faz parte de um colegiado e, ela
leva a Deus. É advogada, Deus é o juiz, ela é advogada, advogada nossa.

Em relação à vida religiosa de Seu Francisco a relação com Santa Luzia, começou
desde que ele foi morar em Santa Luzia devido às amizades passou a frequentar os
mesmos espaços sociais inclusive a igreja.

4.1.4 Francisco Lima Filho, 63 anos, aposentado.
Rapaz, a minha vinda “praqui” foi porque eu trabalhava no correio, e
eu vim “praqui” como funcionário do correio, e depois a gente começou uma
amizade com o pessoal Prado, com a Deise, pronto. Aí depois, eu
conversando com a Rejane (sua esposa) em casa, a gente veio morar aqui.
Porque era em prol do meu trabalho, e gostamos muito daqui. Cidade boa
de morar. Foi aqui onde meus filhos, graças a Deus, galgou os objetivos

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deles, né? Não é nada de coisa, não... Mesmo, é porque eu gosto da
cidade, das pessoas, respeitadoras, sabe? O ciclo de amizade que eu fiz,
graças a Deus. Amo muito Santa Luzia, né?

Na relação direta com a Santa começou desde que uma graça aconteceu em
sua vida, como relata abaixo:
Ah, com a Santa, a padroeira da cidade é que ela é protetora da
visão. Também foi uma graça alcançada na minha vida. Porque eu estava
com um problema na visão, fiz a cirurgia dos meus olhos e, graças a Deus,
eu tô bem. Aquela Fé, né? Fé sabe... Que só papai do céu sabe a Fé que
eu tenho, e mais ninguém. E foi por isso, né? Sou católico, sou daqueles
que gostam mesmo de religião. Não perco uma missa. Se tiver meio
impossibilitado de ir para a Igreja, mas não, se não tiver não perco não, sou
católico mesmo, católico. A minha Fé move montanha.

Perguntando sobre desde quando iniciou a frequentar a igreja, ele respondeu:
Ah, desde criança, desde criança. Eu agradeço muito a meus pais
pela educação religiosa que eles me deram, desde criança, desde criança.
Quando eu não ia para a Igreja, eu tinha uma irmã que era muito católica,
ficava me procurando e quando eu chegava em casa ela ficava perguntando
por que não fui pra Igreja. Foi desde criança a minha vida religiosa. Desde
criança.

Questionado sobre o problema de visão que tivera e como resolvera este
problema
A minha visão estava, foi glaucoma, glaucoma. Aí já estava
“coisando” era nos dois. Mas a cirurgia só foi feita em um e o outro, graças
a Deus, foi colírio, como eu continuo até agora com colírio, né? Graças a
Deus, a minha fé venceu. Pela primeira vez que eu fiz uma cirurgia, foi
minha visão, foi à primeira vez. A cirurgia foi realizada faz 3 anos. Não ficou
nenhum problema após a cirurgia, Tá tudo certinho. Como protetora da
visão, eu entreguei na mão dela. Pela primeira vez que eu fiz uma cirurgia,
fiz logo de minha visão, e peço a Deus pra não fazer mais nenhuma, não.
Entrego na mão dela. É, é... Muito ruim entrar na sala cirúrgica, ali, médico
dando força, por que... Graças a Deus, o médico é muito bom... Que deram

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força... E a criatura (esposa) que também deu um empurrão, porque, meu
Deus do céu, não é bom nem falar, mas graças a Deus, está tudo bem.
Ótimo. Santa Luzia é protetora da visão. Milagre e mais milagre que a gente
vê que ela faz. É milagrosa demais. É a santa mais milagrosa, é Santa
Luzia.

É muito gratificante como nos relatos percebe-se a responsabilidade pela
família e a devoção por Santa Luzia para abençoar e proteger todos.
“Oxe!.” A família é... A minha família todo dia eu desejo, foi uma
família que Jesus escolheu e me deu assim (e faz um gesto de entrega com
as suas mãos). Essa criatura (se referindo a ele mesmo) vai ter sua esposa,
vai ter filhos, seus netos... E me deu. É presente. Todo dia eu devo
agradecer a Deus pela família que eu tenho, é pouco, você sabe né? A paz,
a união, a minha família é tudo para mim. A minha família é tudo pra mim. É
a maior riqueza que eu tenho na minha vida, né? Primeiramente eu peço a
Deus pela minha saúde, pra Ele e a família, família. As outras coisas papai
do céu vai mandando gradativamente. A minha família é a maior riqueza da
minha vida.

4.1.5 Erivaldo Pinto dos Santos, 37 anos, caseiro.

Questionado sobre a relação existente com Santa Luzia, ele respondeu:
Quando foi que começou, né? É assim... Eu fui batizado na Igreja
Católica, não era aquele católico, assim... Praticante, não. Eu vim praticar
mesmo, entrar na Igreja, em 2008. É quando realmente eu fui crescendo,
daí eu segui a... A Igreja Católica, mas não tinha aquele, aquele
conhecimento de Santa Luzia. Aquela história que ela foi... A vida de Fé que
ela levou quando jovem. Mas não tinha aquela devoção por Santa Luzia,
não. Eu vim ser devoto de Santa Luzia depois que eu levei uma pancada no
olho, no trabalho. Esse olho me incomodava muito.
Como se diz: corica – aquela água, a noite realmente doía. Eu não
gosto muito, assim... de médico, eita meu Deus, eu vou ter agora, não gosto
de médico, mas vou ter que ir pra não prejudicar esse olho... Porque
realmente estava com uma visão um pouco ruim. Realmente quando eu
andava, assim... Eu sentia, a água escorria direto e incomodava muito. Pra
tudo. Aí um dia, eu li um livrinho de Oração de Santa Luzia, aí eu me
dediquei durante a noite à reza do terço.

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Fiz aquela novena durante nove, nove noite, e eu sempre pedia a
intercessão a Deus, a intercessão Dela, que intercedesse a Deus por mim e
eu não precisasse ir ao médico, e que eu ficasse bom daquele olho, e
realmente foi realizado. Alcancei a graça, de não ir ao medico, e até hoje
não fui. Já tá com três, três anos. Graças a Deus eu não precisei ir ao
médico. Olha realmente ficou bom até hoje.

Eu enxergo normalmente,

graças a Deus, aí eu sou realmente muito devoto de Santa Luzia. O que eu
posso fazer por ela, pela Igreja dela, que eu confio, eu realmente faço.
Então é uma... Como é que se diz uma profissão de Fé, como ele professou
a Fé, todo aquele que crer primeiramente em Deus, e na intercessão dela,
que ela intercedesse por nós. A gente alcança a graça. Foi aí que graças a
Deus eu estou aqui, curado.

Vários fiéis participam de atividades da igreja e no tempo de festa, e
questionado sobre esse assunto, ele respondeu:
É... eu me envolvo assim... Sou aquele católico que vai praticar a
missa, missa realmente assim, aos domingos, eu não perco a missa não,
não. Quando eu não era antes por assim dizer, eu ia de ano em ano. Às
vezes, à festa dela mesmo. É eu não tinha aquela devoção. Mas hoje,
realmente estou aqui, católico praticante. Que faço parte da Igreja, do grupo
do apostolado (um grupo que existe na Igreja), hoje, já há um mês, fui pro
grupo dos Vicentinos (outro grupo da Igreja), buscando cada vez mais
conhecimento da Igreja Católica, né? E assim vou me envolvendo na festa
dela. Durante os tempos da festa de Santa Luzia eu me envolvo, eu ajudo,
eu contribuo né? Pode ser até agora quando foi à festa, "tamo" agora em
2014, que vai ser realizado o Novenário de Santa Luzia.
Aí eu até fiz uma sugestão ao padre, que ele botasse, era bom que
o “Sr.” aumentasse as noites do novenário da padroeira, já que as pessoas,
nós somos muito devotos de Santa Luzia. Porque dez noites são muito
“pouca”, né? Realmente, quando a festa se acaba, fica com aquela
saudade. Quanto mais durasse, mais tempo melhor. Aí até, eu dei essa
sugestão, e ele, é... é... “vamos ver”, mas eu não cheguei a dizer a ele
nenhuma graça que eu tinha alcançado “por” Santa Luzia, fiz somente
sugerir essa, essa sugestão... e... Até que esse ano parece que vai ser
realizado as treze noites.
Olha, eu me envolvo como se diz... Ajudando na... Na festa,
ajudando financeiramente, no que eu posso, e ajudando assim... Na, na
parte de limpeza da Igreja que envolve muito trabalho durante a festa,

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envolve é muita, muita gente. E eu me envolvo assim, na contribuição de...
De. Do que eu posso.
De chamar aquelas pessoas pra ajudar, e o envolvimento assim...
De ajudar na limpeza da parte externa da Igreja, né? É, lá na Igreja, pra que
todos que cheguem “veja” a Igreja cada vez mais bonita, ornamentada, no
que eu posso fazer. Não há preço que venha, venha pagar pela graça que
ela faz. Posso, se eu pudesse fazer algo mais por ela, realmente fazer algo
mais por ela... Aí eu faria mais que eu pudesse por ela.

Em relação à sua família, você pede a intercessão dela pra sua família?
Peço, peço intercessão porque, como se diz... Uma parte dos meus
irmãos são católicos, mas não são aqueles católicos praticantes.
Realmente, somente a... A minha mãe, até hoje, mas parte de minha
família, somos oito irmãos, mas não são aqueles irmãos que vai. Foram
batizados na Igreja, mas vai de ano em ano, né? Aí eu tenho que pedir a
ela que volte seu olhar pra eles, não é? Pra que eles voltem pra Igreja, seja
um católico realmente, que pratique o Evangelho que Deus mandou o
batismo, realmente é assim que eu peço a ela, e vamos vê o que ela
realmente, a Fé que eu tenho nela vai ser realizado. Não é só pedir pela
gente. Temos que saber o que a gente quer da nossa vida, né? Porque a
história dela é uma história muito bonita no cristianismo, é... Foi perseguida,
mas ela perseverou até o fim. Deu a própria vida, deu o seu próprio sangue,
pelo amor a Cristo, né? E hoje são milhões e milhões de pessoas devotos
de Santa Luzia, né?
A... A tradição dela vem da Itália, né? Da Itália, da terra de Siracusa,
né? E veio a sua imagem, hoje no Estado de Alagoas, como a gente
conhece a história que ela... Que ela é a maior festa, ou é a primeira do
Estado que realmente atrai. Porque eu tenho andado por outras festas, mas
vejo que é uma devoção realmente. A cada ano que passa, aumenta, e
assim... Em termo de sua imagem, de sua beleza, como ela é jovem eu...
Eu... Eu posso testemunhar que a gente tem diversas imagens, na nossa...
Na nossa Igreja, muito bonita, mas eu acho que foi... Se for fazer uma
pergunta, ela ganha em primeiro lugar. Uma das melhores, como se diz...
Linda imagem, tão bem feita que é a imagem de Santa Luzia.

As entrevistas que seguem abaixo foram realizadas no dia 13 de dezembro
de 2009, utilizando-se um MP4 para a gravação, mas a maioria das entrevistadas
não queriam que colocassem o seu verdadeiro nome e até mesmo suas vozes.

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4.1.6 Benedita

Dona Benedita, tem mais de 70 anos de idade, é viúva e mora no Município
de União dos Palmares/AL. Sua devoção por Santa Luzia vem desde a juventude,
sido influenciada por sua amada mãe. Conta que houve uma grande cheia ha muitos
anos atrás na cidade de União dos Palmares, tendo afetado muitas casas, inclusive
a residência de Dona Benedita. O fato interessante é que a água derrubou quase
por completo sua casa, menos uma parede na qual se encontrava a imagem de
Santa Luzia. Com isso, referido Senhora passou a acreditar ainda mais no poder
desta Santa.
No que se refere à festa da padroeira no Município de Santa Luzia do Norte,
Dona Benedita diz que participa da mesma a mais de 15 anos, gosta de seguir a
procissão e acha a festa muito bonita porque tem muita gente.
Esta entrevista foi realizada dentro da Escola Estadual Sidrônio Augusto de
Santa Maria, aonde os devotos chegam ao período da manhã e da tarde, se
acomodam para descansar, lanchar, almoçar e até dormir. Quando a procissão
começa, por volta das 16h00min, a maioria dos devotos segue o cortejo palas ruas
da cidade.

4.1.7 Lourdes

Dona Lourdes, tem mais de 45 anos de idade, reside na cidade de Maceió/AL.
Foi pela primeira vez a cidade Santa Luzia do Norte, para a festa da padroeira em
13 de dezembro de 2009 a convite de familiares e amigos.
Em sua breve entrevista diz não ser devota de Santa Luzia, que pouco
participa das atividades religiosas. Na verdade quem é devoto de Santa Luzia é seu
amigo, mas ele não estava no momento da entrevista, porque tinha ido até a igreja.
Na realidade, Dona Lourdes foi para a festa porque não tinha nada de
interessante para fazer naquele fim de semana. Esta entrevista foi realizada na
Escola Estadual Sidrônio Augusto de Santa Maria, por volta das 11h30mim.

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4.1.8 Rafaela

A jovem Rafaela tem mais ou menos 20 anos de idade, é estudante, solteira,
mora com seus pais em Maceió/AL. Rafaela estava segurando uma criança de colo
com mais de nove meses de idade, vestido de anjo. Perguntei se ela tinha feito
alguma promessa, respondeu que sim, mas quem fez a promessa foi sua mãe. A
jovem relata que quando descobriu que estava grávida sua mãe tratou logo de fazer
uma promessa para sua neta, pedindo a intercessão de Santa Luzia para que sua
neta nascesse com saúde.
Durante toda a gravidez Rafaela não apresentou nenhum tipo de problema de
saúde e o nascimento de sua filha foi perfeito. A criança veio ao mundo com muita
saúde graças à promessa da avó, diz a jovem.
Rafaela não tem devoção a Santa Luzia, mas ficou muito feliz pela gestação
normal e sem complicações. Pude perceber no falar, ao se emocionar, no tocar, no
olhar para Santa Luzia que havia criado um laço mais íntimo entre elas.
Esta entrevista foi realizada dentro da nave da Igreja Matriz de Santa Luzia de
Siracusa, por voltadas 17h00mim.

4.1.9 Amélia

Dona Amélia, aposentada, tem mais de 65 anos de idade, reside em
Maceió/AL. Participa da festa de Santa Luzia a mais de vinte anos, em decorrência
disso fez algumas amizades na cidade que sempre a convidam para passar o
período festivo em Santa Luzia do Norte.
Já fez várias promessas para diversos santos e conta ser atendida na maioria
de seus pedidos. Esses pedidos não se resumem só para ela mesma, mas se
estende aos seus familiares e amigos. Foi curada de várias enfermidades como da
visão, das pernas, da coluna, do útero.
Tem devoção por Santa Luzia, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora
de Fátima, entre outros. Esta entrevista foi realizada no Coreto de Santa Luzia do
Norte, onde havia um grupo de romeiros vindos de Fernão Velho, Maceió/AL.

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4.1.10 Thais

Thais é uma jovem de no máximo 20 anos de idade, solteira, estudante, mora
no Bairro de Chã da Jaqueira, Maceió/AL.
Sua filha Patrícia nasceu com um problema muito sério nos olhos, tanto que
os médicos chegaram a falar que em pouco tempo provavelmente sua querida filha
perderia totalmente a visão.
A mãe de Thais, vendo a aflição de sua filha e neta fez uma promessa a
Santa Luzia pedindo sua intercessão em favor da pequena Patrícia. Suas preces
foram ouvidas a criança foi curada e a forma de pagamento foi vesti-la com roupa de
anjo e sair na procissão durante dez anos. Patrícia já pagou cinco anos de promessa
faltando apenas outros cinco anos.
Perguntei se a criança gostava de sair de anjo e percorrer toda a cidade
acompanhando a procissão, Thais falou que não, porque estava vestida com roupa
diferente, andava muito durante a procissão e tinha medo dos fogos. Mas apesar
desses desconfortos, a criança cumpria sua obrigação.
Thais falou que não tinha devoção a Santa Luzia e nem possuía nenhuma
imagem de referida santa. Percebi certo distanciamento entre Thais e Santa Luzia
durante toda a entrevista.
Esta entrevista foi realizada na porta de casa de um morador em Santa Luzia, por
volta das 13h00min.

4.1.11 Beatriz

Dona Beatriz, tem mais de 40 anos de idade, é casada, do lar e reside em
Maceió/AL.
Relatou que nunca tinha participado da festa de Santa Luzia, este era seu
primeiro ano, mas havia gostado muito das festividades apesar de não ser devota de
Santa Luzia. Na realidade quem era devoto era seu esposo, Roberto, com quem ela
havia se casado há pouco tempo, foi ele quem a convidou, já que é um católico
fervoroso.
No momento da entrevista o Senhor Roberto estava conversando com um
grupo de amigos da igreja.

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Esta entrevista foi realizada na nave da Igreja Matriz de Santa Luzia de Siracusa, em
torno das 18h00min.

4.1.12 Lucia

Dona Lucia tem mais de 55 anos de idade, é advogada, casada, reside em
Maceió/AL. Já morou em Santa Luzia do Norte quando pequena, foi neste momento
que conheceu, aprendeu a gostar, admirar, respeitar e ser devota de Santa Luzia,
tendo como mestra sua querida mãe.
Relatou ter alcançado alguma graça por intercessão de Santa Luzia e todos
os anos vai para a festa da padroeira para agradecer e reanimar a fé por meio desta
Santa tão querida para Lucia.

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CONCLUSÃO

O tema escolhido referente à Festa da Padroeira de Santa Luzia do Norte/AL
foi uma das minhas inquietações desde meus 12 anos de idade, pois observava
desde então a devoção que atraia tantas pessoas a esta cidade, portanto, queria
entender a relação entre devoto e a santa. Observava o quanto às pessoas eram
agradecidas pelas graças alcançadas, do pedir e esperar a resposta por meio da fé.
É possível na festa religiosa desta cidade e com base em alguns teóricos
citados no decorrer do texto bibliográfico as várias formas de pagamento de
promessas: através de vestimentas brancas, pretas de anjos, doações para a igreja
e para pessoas carentes e até mesmo animais vivos.
Diante das pesquisas realizadas sobre a cidade que é histórica, percebe-se
um provável motivo para a cidade de Santa Luzia do Norte/AL ser tão visitada no
período durante o novenário à Santa Luzia. Então, desde muitos anos a cidade era
visitada por peregrinos para alimentar e renovar a sua fé.
Em outro momento do trabalho contamos sobre a história da Santa, que com
pesquisas bibliográficas e entrevistas de campo foi revelado um pouco mais sobre a
lenda criada pela própria igreja, com o objetivo de mostrar para os cristãos a fé que
cada um deve ter. Na qual conta que Luzia sendo interrogada pelo seu torturador
perguntou para ao mesmo, o que este jovem que queria contrair matrimônio com ela
tinha visto de tão bonito nela, a resposta foi: seus olhos. E na mesma hora Luzia
arrancou seus olhos com suas próprias mãos e os colocou no prato para que fossem
entregue a tal jovem. No mesmo instante nasceram olhos mais bonitos dos que ela
já possuía.
Outro aspecto que observado foi o crescimento de ambulantes, pois à medida
que os anos se passam a festa profana fica mais acentuada tanto em relação às
pessoas que vão para apenas curtir a parte externa da festa como: as barracas de
comidas, o leilões, os parques e as bebidas como também àquelas que querem ter
um lucro significativo no decorrer da festa, sejam eles da cidade ou não.
Portanto, se compararmos a cultura religiosa existente na festa de Santa
Luzia de Siracusa, da Itália, com toda a sua história de entrega a Deus e seu

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martírio, temos atualmente na festa no município de Santa Luzia do Norte/AL um
lado profano mais forte.
Outro dado importante na pesquisa exploratória, através de uma conversa
com um paroquiano da arquidiocese de Maceió, apenas a cidade de Santa Luzia do
Norte/AL, tem como padroeira Santa Luzia. Foi criada há poucos anos uma
comunidade em devoção à Santa Luzia, no município de Maceió/AL.
Então, a cidade de Santa Luzia do Norte é histórica e no Estado de Alagoas
apenas esta cidade tem como padroeira Santa Luzia, por isso que sua festa é
grandiosa. Sem levar em conta que Santa Luzia de Siracusa é muito querida no
Brasil.
Por fim o trabalho nos traz como contribuição uma síntese sobre a cultura
religiosa presente nas pessoas, independente de religião as pessoas creem em algo
superior e que se baseiam nessas crenças para conduzir seus modos de vida.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Luiz Alberto Souza. Cultura religiosa: caminhos para a construção do
conhecimento – Curitiba: Editora Ibpex, 2009.
CORRÊA, Rosa Lydia Teixeira. Cultura e diversidade. – Curitiba: Ibpex, 2008.
BERGER, P. A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 1985.
BOURDIEU, P. Sociologia. São Paulo: Ática, 1983.
DURKHEIM, E. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: M. Fontes,
1996.
FEITOSA, Lenon dos Passos. Origem Histórica de Santa Luzia do Norte.
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71

ANEXOS

72

Neste (anexo 1) temos o percurso da procissão de Santa Luzia onde cada rua
esta marcada por números indo-arábicos de 1 a 12 demonstrando a saída e a
chegada da procissão. Na figura segue uma legenda onde consta o número com
suas respectivas ruas.
ANEXO 1 – PERCURSO DA PROCISSÃO DE SANTA LUZIA

11

10
11

9

8

6

7

1
2
5
3

4

Legenda:
01 – Igreja Matriz de Santa Luzia (saída)
02 – Praça Dr. José Lobo Ferreira
03 – Rua D. Pedro II – bairro Quilombo
04 – Rua Antônio Rodrigues
05 – Rua Imaculada Conceição
06 – Rua Benedito Mascarenhas
07 – Rua Tiradentes
08 – Rua São Vicente
09 – Rua Benedito Mascarenhas (retorno)
10 – Rua vereador Manoel Moreira
11 – Rua Amaro Romeiro
12 – Rua Estevão Protomarte de Brito

Fonte: Elaborada pelo autor

No anexo 2 segue uma programação da Paróquia de Santa Luzia do Norte
referente à festa da Padroeira de Santa Luzia de Siracusa na década de 70.
Conforme informações anteriormente na década de 70 o dia da procissão só poderia
ser dia de domingo, caso o dia 13 de dezembro fosse em dia de semana (segunda a
sábado) seguia o novenário e no próximo domingo seria a procissão. Na década de
80 de acordo com o pároco da época esta tradição foi alterada, a procissão teria que
ser sempre como segue dias atuais no dia da Santa.
ANEXO 2 – PROGRAMAÇÃO DA FESTA

Fonte: Cúria Metropolitana de Maceió

No anexo 03 temos um documento sobre a construção da Igreja da Matriz
que segundo um documento da Sacristia da Igreja o ano de sua construção, mas se
opondo a esta afirmação na fachada da igreja chamada (Frontispício) consta a data
de 1786, podendo ser data de reforma ou reconstrução.
ANEXO 3 – DOCUMENTO SOBRE A CONSTRUÇÃO DA IGREJA MATRIZ

Fonte: Cúria Metropolitana de Maceió

Neste anexo segue um comprovante de que foi procurado em arquivos sobre
a o termo de criação da Paróquia de Santa Luzia de Siracusa no Município de Santa
Luzia do Norte e de que consta conforme o livro do Foro Gracioso e lançamento das
denominações de todas as paróquias da então Diocese de Olinda, pág. 11, nº 07,
que a Paróquia foi criada no ano de 1654.
ANEXO 4 - CERTIDÃO NEGATIVA DA CRIAÇÃO DA PARÓQUIA SANTA LUZIA DE SIRACUSA

Fonte: Cúria Metropolitana de Maceió

No anexo 5 segue uma programação atual da Paróquia de Santa Luzia do
Norte referente à festa da Padroeira de Santa Luzia de Siracusa.
ANEXO 5 – Programação atual da Festa da Padroeira de Santa Luzia

Fonte: Paróquia de Santa Luzia do Norte - 2009

Fonte: Paróquia de Santa Luzia do Norte