Missionários “animalitários”: o resgate de animais de rua em uma ONG de Maceió-AL

Discente: Ana Cláudia Bernardo da Silva; Orientadora: Marina Félix de Melo.

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS - UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS - ICS
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS / LICENCIATURA

Ana Cláudia Bernardo da Silva

MISSIONÁRIOS “ANIMALITÁRIOS”: O RESGATE
DE ANIMAIS DE RUA EM UMA ONG DE MACEIÓ-AL

MACEIÓ-AL
2016

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS - UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS - ICS
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS / LICENCIATURA

MISSIONÁRIOS “ANIMALITÁRIOS”: O RESGATE
DE ANIMAIS DE RUA EM UMA ONG DE MACEIÓ-AL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado por
Ana Cláudia Bernardo da Silva, sob orientação da
Profa. Dra. Marina Félix de Melo.

MACEIÓ-AL
2016

BANCA EXAMINADORA

____________________________________________________________
Profª. Dra Marina Félix de Melo
Instituto de Ciências Sociais – UFAL
Orientadora/Presidenta
____________________________________________________________
Prof. Dr. Amaro Xavier Braga Jr.
Instituto de Ciências Sociais – UFAL
Examinador
____________________________________________________________
Profª. Ms. Jordânia de Araújo Souza
Instituto de Ciências Sociais – UFAL
Examinadora

A todos aqueles que resgatam os animais de rua

AGRADECIMENTOS

Primeiramente, agradeço à Universidade Federal de Alagoas pela oportunidade
que me foi estendida, de poder cursar na Instituição; ao Instituto de Ciências Sociais,
pelos excelentes professores que contribuíram para minha formação; ao Professor, Dr.
Ranulfo Paranhos, pelas exposições das aulas produtivas de Ciência Política, e, estendo
meu agradecimento todo especial para minha professora e orientadora, Drª. Marina
Félix de Melo, a princípio, porque acatou meu convite e de ter acreditado no projeto, e
de ter me orientado durante toda a pesquisa, e, também, por sua paciência e dedicação.
Aos integrantes da ONG a qual me receberam com atenção e me concederam a
autorização de realizar a pesquisa e as entrevistas.
A minha família, em especial a minha mãe Cícera, minha principal referência
que sempre me incentivou a estudar. Ao meu pai José que também me motivou a
estudar; as minhas cincos irmãs que também sempre me motivaram a cursar uma
faculdade, aos meus colegas de turma, em especial Aline Maria pelas discussões
teóricas, e aos meus amigos mais próximos.
E por fim, ao meu melhor amigo, companheiro e esposo José Lino pelo seu amor
compreensão e lealdade. A todos a minha gratidão.

Protejam os animais, pois eles possuem coração e sentimento, assim como nós.
Sir Arthur Schopenhauer

RESUMO

O presente estudo trata da relação humanos\animais, em especial, de cães e gatos
abandonados que são resgatados por ONGs. A proposta analítica do estudo gira em
torno da problemática de compreender por que determinadas pessoas se dedicam a
ONGs que têm por missão resgatar animais de rua. Através de um estudo de caso,
analisou-se a atuação de “Missionários Animalitários”, expressão utilizada para
designar agentes de ONGs que se dedicam a missões que envolvem o resgate de
animais abandonados. As principais questões que giram em torno de nosso problema de
pesquisa são: formação escolar dos agentes de ONGs; papel desempenhado pelos
voluntários nas instituições sociais; ganhos matérias\simbólicos e motivações que estes
voluntários têm no trabalho que desenvolvem.

Palavras-chave: Animais Abandonados; ONGs; Voluntariado.

ABSTRACT

This study seeks to understand the relationship between human\animals, mainly, the
abandoned dogs and cats that are rescued by the NGOs (Non-Government
Organizations). The analytic proposal turns around the comprehension of why some
people are determined to be volunteers in NGOs that have as mission rescue stray street
animals. Through a study case, we analyzed “Animalitary Missionaries”. This
expression is used to designate agents of NGOs who are dedicated to a mission that
involves abandoned animals rescues. The main topics that involve our research problem
are: schooling of these agents; the occupations of these agents inside the institutions;
some symbolic/material gains and motivations that these volunteers have day by day.

Keywords; Animals abandoned; NGOs; Voluntaries

SUMÁRIO

Introdução

10

1. Agentes de ONGs em um campo de abandono

14

2. Capital simbólico em Pierre Bourdieu

21

3. Caracterização do estudo de caso

27

4. Análise dos agentes de ONGs que têm por missão resgatar animais

30

5. Conclusão

35

6. Referências

37

7. Anexos

40

10

INTRODUÇÃO

Desde os tempos mais remotos da história da Humanidade, o homem já vivia em
companhia dos animais. Já se discutiam os direitos destes, uma vez que os animais não
humanos eram tidos como menos importantes do que os humanos. Os animais eram
vistos como seres inscientes, que não possuíam alma, dor ou qualquer tipo de
sentimento. Eram tratados como máquinas ou objetos de propriedade, assim como eram
tratados também os escravos. Com o passar do tempo, abolicionistas1, que promoviam o
fim da escravidão, bem como outras formas de exclusão, igualmente dedicavam-se às
questões sobre os maus tratos a animais. Com o correr histórico, e a eclosão de eventos
como o fim da escravidão, movimentos sociais diversos no Brasil passam a presenciar
transformações contextuais das mais amplas, a exemplo do surgimento da Organização
das Nações Unidas (ONU). Esta última tinha como um de seus princípios discutir
direitos na esperança de uma humanidade melhorada. Declarações importantes foram
surgindo ao longo das assembléias, dentre elas, a Declaração Universal dos Direitos
Humanos que proclamava que “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em
dignidade e em direitos” (1948). Em consequência, outras leis e direitos vieram,
inclusive para os animais não humanos, de que versamos neste trabalho.
Nos anos 1970, os animais ganharam destaque no documento também
proclamado pela ONU/UNESCO, em sessão realizada em Bruxelas, Bélgica, no dia 27
de janeiro de 1978. A Declaração Universal dos Direitos dos Animais foi, uma grande
conquista em defesa de tais direitos. Os animais passaram a receber a “proteção do
homem” e seus “mesmo direitos” de vida. A proposta da declaração veio então a sugerir
que tais direitos “existenciais” não eram garantidos a animais, em especial, aos
domésticos, de que tratamos nesta investigação.
Uma das normas da Declaração Universal dos Direitos dos Animais afirma que:
“O animal que o homem escolher para companheiro nunca deve ser abandonado”
(1978). Contudo, não é o que ocorre na realidade da sociedade que estudamos. Nas
1

Abolicionistas distinguem contra qualquer tipo de violência contra os animais. Atualmente Caetano
Sordi(2011) problematiza como os animais são utilizados em todas as esferas comercial nas sociedades,
sejam em consumo de carne, ou uso de pele nas vestimentas, espetáculos de circos ou em atrações em
zoológicos.

11

grandes cidades centenas de animais estão largados à própria sorte, perambulando pelas
ruas, abandonados, sujos, famintos, revirando lixo em busca de comida ou abrigo, ou
buscando protegerem-se da chuva.
O abandono de animais gera consequências desastrosas, como seu sofrimento
físico e/ou emocional, provocando-lhes tristeza, medo, ansiedade, agressividade, afora
que o animal solto nas ruas fica sujeito a todo tipo de problema, tais quais: zoonoses
(doenças típicas dos animais) que podem, consequencialmente, causar enfermidades aos
humanos; violência física como mutilações; envenenamentos; dentre outras mazelas.
As razões destes descasos para com os animais são várias: falta de planejamento
familiar; dificuldades financeiras; falta de estrutura física, como moradia em
condomínios mais restritos; reprodução indiscriminada. A Castração, por sua vez, é um
tema que gera opiniões divergentes. Há quem a defenda respondendo ser preciso um
controle reprodutivo destes animais em ambientes domésticos, ou mesmo outros tipos
de controle, como o emocional do animal, evitando agressividade, por exemplo. Há
quem não a defenda, quem relute a respeito desta ação alegando a necessidade de livre
perpetuação das espécies, ou por questões religiosas, morais ou por “pena”. Todavia, o
trabalho proposto não discutirá estas questões, tampouco as contempla como objetivos
específicos, o que não significa que desconsidere tais contextos em que a problemática
se insere.
Diante da existência de tantos animais “errantes”, o destino destes algumas
vezes passa a ser o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses – Maceió-AL), onde são, na
maioria das vezes, mortos. Para amenizar tal sofrimento, protetores independentes ou
grupos defensores de animais os recolhem e os levam para Organizações NãoGovernamentais de proteção e defesa. Esses protetores se dedicam a resgatar animais
abandonados dando-lhes alimentação, higienização, medicação, castração e/ou toda
manutenção possível. Muitas dessas pessoas, às quais o trabalho virá apresentar como
objeto de análise, atuam na luta pelos direitos dos animais, protestando por leis mais
severas aos agressores, ainda que na Constituição Brasileira (1988), art. 225, já proíbese atos de crueldade contra os animais.
A multiplicação de animais abandonados nas ruas, em especial na capital
alagoana, vem tomando grande proporção. Embora haja Organizações NãoGovernamentais – ONGs - em prol destes, estas não conseguem erradicar o problema,
também de ordem sócio-ambiental, demonstrando que a sociedade não está preparada

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para lidar com a problemática de que tratamos, apresentando falta de conscientização no
que se refere aos cuidados com os animais.
A questão animal nas últimas décadas vem sendo discutida nos mais diversos
campos, a exemplo do Direito, da Medicina Veterinária, da Filosofia etc. Nas ciências
sociais vem sendo estudada, principalmente, por correntes antropológicas e grupos
acadêmicos, a se destacar o grupo Espelho Animal (Grupo de pesquisa acadêmico) 2. Na
Sociologia já temos contribuições com trabalhos sobre tais relações como o de Maria
Helena Costa Carvalho (2012) e Kênia Gaedtke (2014), que são referências importantes
na temática. No entanto, ainda é um campo novo que precisa ser mais explorado.
Embora a relação humanos\animais não seja objeto de destaque da Sociologia e sendo
um novo fenômeno que merece ser analisado, acredita-se que ao realizar esta pesquisa
abre-se a possibilidade de contribuição para outros trabalhos que possam ampliar o
debate. Como mencionado, o objeto em si já vem sendo estudado, porém, ainda não foi
realizado nenhum tipo de estudo com a inclinação sociológica que tentamos dar à
investigação a partir do problema que gira em torno da compreensão do porquê de
determinadas pessoas se dedicarem a ONGs que têm por missão resgatar animais de
rua.
As principais questões que orientam esse trabalho são: identificar o percurso
escolar dos agentes estudados; delinear o papel que os agentes cumprem nas
organizações a partir da divisão social do trabalho na ONG investigada; averiguar quais
os possíveis ganhos materiais e\ou simbólicos destes agentes em ONGs; e identificar a
motivação desses agentes para o trabalho voluntário.
Para fins de sistematização dos momentos de discussão do trabalho, o dividimos
em quatro capítulos. O primeiro capítulo, intitulado “Agentes de ONGs em campo de
abandono”, pelo qual tentamos perceber que elementos levam os agentes a trabalharem
em ONGs e quais suas motivações para o trabalho voluntário. O segundo, sobre
“Capital simbólico em Pierre Bourdieu”, onde se discute a teoria sob dois conceitos que
serão tratados: Capital simbólico e Campo. O terceiro, que trata da “Caracterização do
estudo de caso”, no qual fazemos a descrição do campo de maneira etnográfica,
analisando o percurso metodológico e as técnicas de coleta de dados utilizados no

2

Grupo de Pesquisa acadêmico antropológico vinculado ao Programa de Pós graduação em
Antropologia da Universidade Federal do rio Grande do Sul e coordenado pelo professor e antropólogo
Bernardo Lewgoy, este grupo investiga e reflete sobre as relações humanos-animais.

13

trabalho. O quarto, propriamente analítico, intitulado “Análise dos Agentes em ONG´s
que têm por missão resgatar animais”, neste capítulo respondemos aos objetivos
específicos previstos para o presente Trabalho de Conclusão de Curso, a exemplo de
como a estrutura organizacional funciona nas ONGs a partir do olhar de um estudo de
caso a ser apresentado nas seguintes páginas e, por último, Nas considerações finais,
fazemos um apanhado geral de modo a responder o problema de pesquisa: “Por que
determinadas pessoas se dedicam a ONGs que têm por missão resgatar animais de
Rua?”

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1. AGENTES DE ONGS EM UM CAMPO DE ABANDONO
A inquietação desse problema de pesquisa veio a partir de observações a respeito
de cães e gatos abandonados pelas ruas. Sabemos que na sociedade existem tantos
outros problemas sociais, no entanto, defensores de animais são movidos por uma
missão peculiar. Mas qual missão?
Nesta missão não humanitária e sim “animalitária”, conceito usado por Matos
(2012) ao se referir ao engajamento e à militância pelos direitos dos animais,
observamos uma perspectiva de “militarismo animalitário”, termo cunhado por JeanPierre Digard (1990; 1999) e que diz respeito àqueles que lutam por uma causa
“animalitária” da mesma forma como outros se engajam na causa “humanitária”.
A ajuda humanitária é assistencial, material, moral ou legal, e seu principal
objetivo é aliviar o sofrimento alheio. A questão da ajuda humanitária é muito notória
na sociedade moderna, englobando todas as atividades que têm por finalidade prevenir e
negociar (principalmente conflitos), e que buscam não apenas minimizar, mas encontrar
soluções para problemas nacionais e internacionais.
Os termos empregados “animalitário” e “humanitário” adquirem sentido quando
analisados os discursos dos agentes que recolhem animais abandonados, o que só
reforça a retórica “ajuda” da assistência, da proteção, da compaixão. Esses são alguns
dos elementos que estão relacionados a uma causa, que embora não seja humanitária, é
“animalitária”.
Pretende-se identificar elementos concretos e subjetivos que levam essas pessoas
a se dedicarem ao resgate desses animais. A principal questão que norteia esse trabalho
é por que os agentes de algumas ONGs assumem a missão de resgatar animais de rua?
As principais hipóteses de pesquisa são: a) Os agentes das ONGs possuem diferentes
percursos escolares, sendo estes de diferentes áreas, e com diferentes níveis de
escolarização; b) A divisão social do trabalho nas ONGs ocorre de forma difusa, não
havendo uma rígida divisão de funções e\ou hierarquização das atividades; c) Os
agentes

investigados tendem

a ganhar reconhecimento social pelo trabalho que

exercem, o que influencia de forma significativa aspectos psicológicos e de
reconhecimento destes agentes; d) As principais motivações por parte dos agentes para
este tipo de trabalho são para conscientizar a sociedade a não abandonar e incentivar a
adoção dos “bichos” sem raças definidas.

15

A investigação desta pesquisa é sobre os agentes que estão vinculados às ONGs
e que trabalham no resgate de animais abandonados. A partir dos objetivos específicos
já elencados, é importante identificar o percurso escolar desses agentes, qual sua
formação\profissão e esta é uma variável importante para entendermos o nível de
comprometimento e exigências de qualidade e eficiência no trabalho com os animais.
A pesquisa demonstra como os agentes prestam serviços nessas ONGs e como
colaboram para com elas. Assim, delineamos quais tipos de papéis que cumprem, isto é,
a partir da Divisão do trabalho e como é feita a divisão das funções entre homens e
mulheres, se são advogados, contadores, recepcionistas, veterinários, administradores,
empregados de serviços gerais.
Como vivemos numa sociedade de consumo, subentende-se que devemos
acumular bens materiais. Esta acumulação, geralmente, é proveniente de remuneração
trabalhista. Logo, imaginamos que pelo trabalho remunerado retemos bens materiais. E
quando

este

trabalho

não

é

remunerado?

Questiona-se

a

solidariedade,

consequentemente o voluntariado, por esta ação ser compreendida por um trabalho sem
remuneração financeira. O que leva uma pessoa a trabalhar sem remuneração? Quais
tipos de ganhos materiais e/ou simbólicos têm um indivíduo que se dedica às causas
“animalitárias”?
Até que ponto esses agentes são solidários? Qual a relação que eles têm com os
animais resgatados? É apenas um sentimento desinteressado, simbolicamente falando?
Pretende-se identificar e compreender os motivos que levam essas pessoas a
resgatarem\cuidarem de animais de rua; e que conceitos eles têm de missão. Os agentes
investigados são movidos exclusivamente por questões afetivas? O “amor” é o principal
motivo que leva os agentes a resgatarem os animais de rua? Estes indivíduos estão em
busca da diminuição dos maus tratos aos animais? De acordo com as entrevistas que
realizamos, os agentes alegam que os animais merecem respeito tal qual os humanos.
Procuram modificar vidas e, a partir disto, querem mostrar para a sociedade como ações
sociais deste tipo resgatam\protegem os animais. Pela narrativa dos agentes, temos a
ideia de que se cada um ajudasse um pouco, “a causa animal não seria precária no
Brasil” (Marcela3, voluntária, abr. 2016).
Afetividade é importante para compreendermos as relações de seres humanos
com os animais, essas relações afetivas que vêm ocorrendo entre humanos e animais são
3

Nome fictício da voluntária.

16

reflexos das sociedades modernas, onde a individualização e o consumo são muitos
presentes, contudo o comportamento das pessoas vem mudando em relação a isto. É
importante frisar que quando se fala de relações de afetividade, refere-se ao
comportamento de carinho, seja ele ao abraçar, beijar, acariciar, conversar, preocupar,
atitudes que são “comuns” de seres humanos para com seres humanos.
Uma pesquisa inédita divulgada pelo Instituto Brasileiro Geografia e Estatística
(IBGE, 2015) mostrou que o número de animais, em especial os cães, superou o de
pequenos humanos (crianças) em residências. Estas pequenas mudanças culturais e de
atitudes na relação humanos\animais nos chama a atenção para pensarmos em novas
ONGs de defesa dos animais.
A proliferação das ONGs de proteção animal tem crescido muito no Brasil. De
acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE, 2010) havia, em 2010, 2.242 Fundações Privadas e Sem Fins Lucrativos
(FASFIL) de meio ambiente e de proteção animal no Brasil. A região Nordeste
apresentou 297 ONGs desse tipo 4 . A região que apresentou o maior número de
instituições deste perfil foi a Sudeste, com 1.124 FASFIL5. O resultado desta pesquisa
nos mostra que é crescente o número de pessoas engajadas na causa animal, sendo
assim, essas ONGs desempenham um papel fundamental na luta pela causa.
O conceito de ONG, Organização Não-Governamental, segundo Landin (1993),
foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) na década de 1940 para definir
as Organizações civis que não tinham nenhum vínculo com o governo. As ONGs fazem
parte do chamado terceiro setor. O primeiro setor, o Estado, cuida dos bens e interesses
públicos. O segundo setor, o privado, visa o consumo e o lucro por via mercadológica.
Já o terceiro setor é caracterizado por instituições sem fins lucrativos, designadas a
gerarem serviços de ordem pública, ou seja, é um setor formado por instituições
privadas com finalidades públicas.
Alguns autores, a exemplo de Montaño (2003), alegam que o terceiro setor
surgiu da omissão do Estado em diversas esferas da sociedade como meio ambiente,
combate à pobreza, reciclagem, saúde, educação entre outros. Grande parte da mão de

4

5

Dados do IBGE

Não houve necessidade de mapear instituições na causa animal na cidade de Maceió, uma vez, que a
cidade apresenta apenas duas instituições que são registradas em cartório e são reconhecidas como
ONGs.

17

obra que atua nas ONGs é formada por funcionários e principalmente por voluntários.
Muitas dessas Organizações buscam apoio financeiro através de várias fontes, como por
exemplo, doações, parcerias com empresas privadas ou fundações ou mesmo, e
principalmente, com o Estado. Do ponto de vista legal, uma ONG para funcionar deve
ter o estatuto registrado em cartório e ser regulamentada pela Lei 9.790 de 1999.
A maioria das Organizações de proteção animal, os protetores resgatam,
protegem e levam os animais para as ONGs, que muitas vezes servem de lar fixos a
esses animais, que são em maioria cachorros e gatos em situação de maus tratos e
abandono. Estes protetores compõem a unidade de observação desta pesquisa, sendo
tais agentes vinculados a essas ONGs que promovem assistência veterinária dentre
outras atividades.
Gerenciar uma entidade é definir sua missão e seus objetivos organizacionais,
considerando seus valores institucionais como os de estabelecer finalidades,
planejamento, executar projetos ou outras atividades. Uma Organização NãoGovernamental não é estruturada apenas em seus valores institucionais, mas estruturada
em funções, ou Divisões de Trabalho, através da distribuição de tarefas. Com isso a
ONG viabiliza a execução do trabalho e o cumprimento da missão organizacional.
As profissões executadas por agentes de ONGs se pretendem à especialização,
habilidade e técnicas de administração de uma forma geral, buscando um vínculo de
confiabilidade com a sociedade e agilidade no atendimento. Os dirigentes de ONGs
tendem a ter cursos superiores como psicologia, medicina, serviço social, arquitetura,
direito etc. A profissionalização dos agentes em ONGs vem acontecendo devido à visão
de melhorar os vínculos de informação para que as ONGs tenham mais oportunidades
de financiamento, pontua Melo (2009).
O conceito de profissionalismo de Friedson defende:
O profissionalismo é definido por meio das circunstâncias típicoideais que fornecem aos trabalhadores munidos de conhecimento
os recursos através dos quais eles podem controlar seu próprio
trabalho, tornando-se, desse modo, aptos a criar e a explicar aos
assuntos humanos o discurso, a disciplina ou o campo particular
sobre os quais têm jurisdição (Freidson apud Melo, 1995: 141).
O profissionalismo representa um método logicamente distinto de
organizar uma divisão do trabalho. Ele expressa uma
circunstância em que as ocupações negociam limites

18

jurisdicionais entre si, estabelecem e controlam sua própria
divisão do trabalho6. (p. 144).
A profissionalização dos agentes se dá a partir da necessidade de profissionais
competentes e experientes na execução do trabalho de ONGs, inspirando qualidade de
serviços na forma de trabalho das Organizações. Uma ONG considerada
profissionalizada reúne características como: Divisão de do trabalho, nível alto de
escolaridade de seus gestores, especialização, divisão de tarefas rígidas e tarefas mais
burocratizadas, estratégias de planejamento, dinâmica de trabalho entre outras. (Melo,
2009). Outra forma estrutural importante para as ONGs, além da profissionalização de
cada agente, está na forma hierarquizada da divisão de tarefas. A hierarquia é muito
presente em qualquer estrutura organizacional com diferentes tipos e graus de
escolaridade. Esta é executada como um meio de tarefas articuladas compostas por
presidentes, diretores, administradores, contadores etc.
O aumento de profissionais nas Organizações é algo constatado em todo País.
De acordo com Landim (1999) é no chamado Terceiro setor em que o crescimento se
torna mais aparente. Portanto, esse campo de trabalho não é apenas composto por
trabalhadores voluntários, mas também por trabalhadores remunerados. Daí, a
necessidade de se ter profissionais especializados e experientes para prestar serviços de
qualidade, bem como funcionários aptos para atender a estes requisitos, inspirar
confiança e reforçar a credibilidade das Organizações (Salamon apud Lima, 2009
[1997] pg.85).
Muitos desses profissionais realizam trabalho voluntário de acordo com a Lei
9.608 de 1998. É comum em Organizações pessoas em busca de realização deste tipo de
trabalho, buscando executar atividades em Organizações sem fins lucrativos. Por sua
vez, o trabalho voluntário agrega valores humanistas pelos quais o indivíduo doa seu
tempo livre para beneficiar outras pessoas, grupos ou Organizações sem remuneração.
Uma das grandes forças de uma organização sem fins lucrativos é
que as pessoas não trabalham nela para viver, mas por uma causa
(nem todas, mas muitas). Isto também cria uma responsabilidade
para a Instituição:de manter a chama viva e não permitir que o
trabalho se transforme em apenas “emprego”. (Drucker,1999,
apud Lima,2010 pg.89).

6

Conceito de profissionalismo usada por Melo(2009).

19

Alguns estudos apontam que a atividade do voluntário é qualificada como uma
“atividade desinteressada”, pois, implica na falta de interesse do agente em receber
alguma remuneração. Esse desinteresse pode ser movido pela afetividade ou
oportunidade de aprendizado, quando convertido em interesse simbólico. Todavia, sabese que conter um indicativo de trabalho realizado em ONG pode valer como uma
“pontuação interessante” no currículo de jovens que ainda, por exemplo, estão em fase
inicial no mercado de trabalho.
Para o comprometimento no voluntariado, o voluntário que realiza sua atividade
é norteado por uma causa, uma missão, e deve ter a preocupação de efetivá-la. Para
além da causa, o trabalho voluntário não é visto apenas como “hobby”, mas uma
obrigação, em que o agente necessita cumprir suas funções e efetivar resultados.
Segundo Lima (2010), o voluntário passa a ser um agente que busca assegurar direitos
sociais, exercendo assim práticas de cidadania.
Um dos desafios do voluntariado é articular o trabalho na estrutura
administrativa que pode significar uma ruptura de vínculos, dependendo da maneira
como for direcionado. É importante que a estrutura organizacional não deixe permitir
essa quebra de vínculos. Quando um voluntário decide não mais trabalhar, sem uma
justificativa exterior plausível, é porque não se identifica com a proposta da
Organização. “Quanto mais se isolam as coisas de seu valor de vínculo, mais elas se
tomam transportáveis, frias (congeladas), objetos puros que escapam do tempo”
(Goubout, 1999 apud Lima 2010 pg.62). Assim, toda organização para funcionar deve
atender às expectativas dos objetivos que levam os agentes a “vestirem a camisa” da
Organização.
Para o bom funcionamento, as organizações necessitam assumir um controle de
entrada e saída de recursos, pois, os recursos são sempre revertidos aos beneficiários, e
não aos agentes. Assim, o trabalho está voltado para a causa, a solidariedade e os
objetivos da ONG. Para tal efetivação do trabalho é necessário que o voluntário seja um
profissional que atue competentemente, e para isto a profissionalização se faz
necessária. Melo (2009) ressalva que as organizações estão cada vez mais se munindo
de profissionais qualificados em diversas áreas do conhecimento, inclusive, algumas
delas têm sido instituídas por profissionais especializados. O interesse em contribuir
para o trabalho voluntário, isto é, contribuir para o bem estar de outros, pode ser
demonstrado por motivações de natureza simbólica (Bourdieu, 1996 apud Santos, 2010
pg.93) Isso quer dizer que é possível ter atitudes desinteressadas financeiramente, a

20

exemplo de se ter um trabalho voluntário sem receber precisamente lucros materiais,
mas que receba reconhecimentos simbólicos/subjetivos.
Ainda que alguns agentes voluntários não compreendam o que está em jogo com
tal tipo trabalho, ou que não estejam explicitas as razões que os fazem ser voluntários
em qualquer causa, ainda assim, há um “interesse invisível” que é importante esclarecer.
Conforme Bourdieu (2008) “por trás da aparência piedosa e virtuosa do desinteresse, há
interesse sutis e camuflados” pois, somente assim, os agentes podem ser honrados em
determinado espaço ou campo.
Isto significa que mesmo que os agentes se dediquem defendendo ou lutando por
alguma causa, serão retribuídos de alguma forma. Os motivos para que estes adiram a
alguma causa, de certa forma, está no altruísmo que advém do discurso da abnegação ou
solidariedade. Outras formas de motivação estão na identificação da causa escolhida, de
vínculos afetivos, como de fazer novas amizades, interação com outras pessoas,
conhecimentos, dentre outras motivações. A obrigação também pode ser entendida
como um tipo de motivação voltada ao dever moral, político, social ou religioso.
Na psicologia há muitas vertentes que estudam a motivação, que pode ser
entendida como um sentimento interno, impulso que alguém tem para fazer alguma
coisa (Roger, Ludugton, Graham, 1997 apud Todorovi, 2005 pg.123). Alguns fatores
que indicam a motivação estão na satisfação, realização, reconhecimento e sentimento
de responsabilidade e participação.
A motivação pode ser observada em vários espaços, inclusive nas Organizações,
muitas delas voltadas para o trabalho voluntário. O que pode determinar a motivação
nas Organizações está na interação entre os indivíduos, na identificação com a causa
proposta ou objeto específico.
Como mencionado, as motivações para o trabalho voluntário podem ser
explicadas das mais diversas formas. Como nossa problematização gira em torno do
porquê de determinadas ONGs assumirem a missão de resgatar animais de rua, e tendo
como objetivo principal analisar a missão dessas pessoas ao resgatarem tais animais,
consideramos pertinente a utilização dos conceitos de Bourdieu sobre campo e capital
simbólico para compreendermos as dimensões analíticas de divisão do trabalho,
percurso escolar dos agentes, ganhos materiais e simbólicos de tais indivíduos e
motivação, dimensões estas que compõem nosso objetivo acima mencionado.

21

2. CAPITAL SIMBÓLICO EM PIERRE BOURDIEU
A teoria sociológica parte do dilema entre indivíduo e sociedade (agência x
estrutura). Na teoria bourdieusiana, escolhida para este trabalho, Bourdieu estabelece a
relação entre indivíduo e sociedade. Para sustentar sua teoria o autor faz uma análise das
estruturas objetivas da sociedade.
A pretensão deste capítulo é situar alguns conceitos sociológicos fundamentais
elaborados por Bourdieu em torno da temática (dos agentes que resgatam animais) para
entender a estrutura do pensamento do autor. O conceito de habitus se torna importante
uma vez que o sujeito é socialmente estruturado, ou seja, é por meio das estruturas
estruturantes que o agente é capaz de dar atividades as suas ações. O habitus é um
sistema de disposições incorporadas pelos agentes, ou seja, os sujeitos são dotados de
um habitus com disposições ancoradas em certos capitais, sejam estes econômico,
social, cultural ou simbólico. Entretanto, neste capítulo veremos centralmente o capital
simbólico devido a sua importância nessa pesquisa.
O habitus que os agentes adquirem e carregam é formado conforme o espaço
social no qual estão inseridos “a posição de cada sujeito na estrutura das relações
objetivas proporciona um conjunto de vivências típicas que tenderiam a se consolidar na
forma de um habitus adequado à sua posição social” (Nogueira; Nogueira, 2004 apud
Pies, 2011 p.20).
Para Bourdieu é preciso um espaço para o agente poder compreender e elaborar
a estratégia social. Esse espaço é denominado campo. O conceito de campo elaborado
pelo autor é o espaço onde ocorrem as relações entre os indivíduos e as estruturas
sociais. Espaço sempre em disputa e com uma dinâmica que obedece a leis próprias.
Igualmente, se caracteriza por ser um espaço de poder, que pode ser entendido pelo
acúmulo de capital e pelas relações de combinações estabelecidas pelos atores
envolvidos. Para Bourdieu,
(...) campo é uma rede, ou configuração, de relações objetivas entre
posições. Essas posições são objetivamente definidas, em sua existência e
nas determinadas que impõem sobre os ocupantes, agentes ou
instituições, pela sua situação presente e potencial na estrutura de
distribuição de espécies de poder (ou capital), cuja posse comanda o
acesso aos lucros específicos que estão em jogo no campo, assim como

22

pelas suas relações objetivas com outras posições (dominação,
subordinação, homologia). (Bourdieu, 1989, apud Pies, 2011 p. 20)
O campo é um constante jogo, no qual há regras estabelecidas. Como em um
jogo qualquer, há disputas, mas também acordos onde os agentes legitimam tais
disputas. Conforme Celi Pinto:

(...) o campo estrutura-se pelo estado da relação de forças entre os
agentes. A matéria-prima desta luta é o capital de cada agente que varia
tanto quanto a quantidade como quanto a qualidade. Capital é definido
por Bourdieu como uma relação social, isto é, uma energia social que não
existe e não produz sem efeitos a não ser dentro do campo onde ele
produz e reproduz (Pinto, 1996 apud Pies, 2011, p.21)
O campo passa a ser o espaço onde o capital se produz e reproduz, estabelecendo
uma relação interdependente entre campo, indivíduo e capital. Salienta Martins:

O campo é um espaço social que possui uma estrutura própria,
relativamente autônoma, em relação a outros espaços sociais, isto é, em
relação a outros campos sociais. Mesmo mantendo uma relação entre si,
os diversos campos sociais se definem através de objetos específicos, o
que lhes garantem uma lógica particular de funcionamento e de
estruturação. É característico de o campo possuir disputas e hierarquias
internas, assim como princípios que lhe são inerentes cujos conteúdos
estruturam as relações que os atores estabelecem entre si no seu interior
(Martins, 1897, apud Pies,2011, p.21)
Cada campo tem sua estrutura, uma organização, podendo haver relações com
outros campos. Cada agente age no seu campo procurando manter a sua posição. Na
teoria de Bourdieu não existe um único campo, mas diferentes tipos de campos dentro
do espaço social, cabendo ao agente procurar definir seu espaço e sua política dentro do
campo. Para o autor francês, os campos surgem como produtos de processos de
especialização da sociedade. Outros diferentes tipos aos quais o autor refere-se são o
campo político, campo econômico, campo universitário, campo jurídico, campo
cultural, campo simbólico, dentre outros. Não importando a variedade de campos, os
interesses estão sempre em disputa, assim cada qual precisa ter bem definido sua
estratégia e sua ação. Porém, existem lutas internas entre estes diferentes tipos. O campo
econômico exerce um privilegio dentre os demais, pois, os agentes estão em busca da
maximização de bens materiais.
Segundo Bourdieu, considerando a divisão social do trabalho nas sociedades e o
espaço social, o campo pode ser concebido por um sistema de estruturas a partir de sua

23

ocupação dos agentes, grupos ou instituições que passam a legitimá-lo. Por isso, há uma
diversidade de campos, cada qual com seu objeto (artístico, político, jurídico),
procurando “jogar” a partir do habitus. O campo é o espaço das relações de poder, de
um sistema de forças, onde os agentes entram em concorrência e lutam para pôr em
prática o capital adquirido. Dessa forma, é perceptível a relação de dominados e
dominantes, na qual os dominados acabam por legitimar tal condição, possibilitada pelo
habitus, bem como pelo grupo dominante, gerando dois grupos, subordinados um ao
outro por poder e hierarquia.
Segundo o autor, a vida social e o campo da produção simbólica aprisionam
simbolicamente os agentes, verificando aí uma relação de poder. Porém, apesar do
desenvolvimento intenso entre os mesmos, os agentes não deixam de produzir, e é essa
produção que movimenta a vida social. “Os indivíduos capazes de produzir, conhecer,
apreciar e consumir bens superiores teriam maior facilidade para alcançar ou se manter
nas posições mais altas da estrutura social”. (Nogueira, 2004 apud Pies, 2011, p.23).
Quando consideramos os conceitos de campo e o habitus incorporados,
conseguimos visualizar também os traços distintivos dos grupos, que são ainda
mobilizados e determinados segundo o espaço social onde estão inseridos. Nesse
sentido, o capital se distingue por uma pluralidade de capitais.
Bourdieu deriva a noção de capital da noção econômica em que o capital se
acumula por operações de investimento, se transmite por herança e se reproduz de
acordo com a habilidade do seu detentor em investir, o que faz considerar que há outras
formas de capitais, tais como o capital social, simbólico e cultural que de alguma forma
interagem com o capital econômico.
A estrutura do campo é dada pelas relações de força entre os agentes e grupos e
as instituições que lutam pela hegemonia no interior do campo, isto é, quem manda,
quem outorga o poder de ditar as regras, de repartir o capital específico de cada espaço.
A forma como o capital é repartido dispõe relações internas ao campo, dá a sua estrutura
(Bourdieu, 1984 apud Thiry-Cherques, 2006 p.37).
Todo campo vive conflitos entre os agentes portadores de um habitus individual
ou coletivo. Os agentes elaboram estratégias que permitem manterem ou melhorarem
suas posições sociais. Essas estratégias estão relacionadas ao capital, porém, este é
desigualmente repartido e, por isso, os agentes estão sempre em disputa em determinado
espaço ou campo procurando defender seus privilégios.

24

Para Bourdieu não existe apenas um capital, mas vários tipos de capital como já
citado. O capital econômico resulta na riqueza, no acúmulo de bens materiais. O capital
simbólico refere-se ao conjunto de rituais com prestígios e reconhecimento. O social
corresponde a acessos sociais, redes de contatos influentes. O autor ainda explica que as
formas de capitais são conversíveis umas às outras. O agente social que possui capital
econômico pode convertê-lo em capital simbólico ou em capital intelectual, capital
social etc.
Essa explicação nos remete à hierarquização nas formas de capital e nos
interesses em jogo em cada situação. O capital econômico exerce um poder de
dominância em relação aos outros capitais. O capital cultural muitas vezes está
associado ao capital econômico mas, além dos capitais econômico e cultural, o capital
simbólico é muito relevante na teoria bourdieusiana, relacionado ao poder simbólico.
Este capital simbólico é resultado da naturalização de outros capitais que de alguma
forma são legitimados. Isso acontece através do poder simbólico, “poder quase mágico
que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força física ou econômica e só
exerce se for reconhecido.” (Bourdieu, 1989, p.14-15). Em outras palavras, o poder
simbólico é invisível, irreconhecível e legitimado.
Para Bourdieu, o capital simbólico está vinculado à honra, ao reconhecimento e
à subjetividade. O autor define:

O capital simbólico é uma propriedade qualquer (de qualquer tipo
de capital, físico, econômico, cultural, social), percebida pelos
agentes sociais cujas categorias de percepção são tais que eles
podem entendê-las (percebê-las) e reconhecê-las,atribuindo-lhes
valor. Um exemplo: a honra nas sociedades mediterrâneas é uma
forma típica de capital simbólico que só existe pela reputação, isto
é, pela representação que os outros fazem dela, na medida em que
compartilham um conjunto de crenças apropriadas a fazer com
que percebam e apreciem certas propriedades e certas condutas
como honrosas ou desonrosas (Bourdieu, 2008, p.107).
Em outra passagem, Avelar, partindo de Bourdieu, conceitua capital simbólico:

Pode ser entendido como o reconhecimento dado pelos
agentes de cada campo a outro agente que garante o acesso
ao reconhecimento e contatos sociais, ou tarefas
socialmente valorizadas e habilidades que possibilitam aos
sujeitos competir uns com os outros nos diferentes campos

25

da sociedade. (Bourdieu, 1989, Avelar, 2001 apud Souza,
2013).
De forma mais geral, o capital simbólico está associado ao modo como o agente
é percebido pelos outros. Esse tipo de capital está relacionado aos outros capitais, como
o capital cultural por exemplo. “Da mesma forma o agente pode possuir um sobrenome
socialmente reconhecido como importante pode conferir a um indivíduo certo capital
simbólico que não corresponde, necessariamente, aos seus capitais econômico, cultural
e social” (Nogueira e Nogueira, 2004 apud Pies, 2011 p. 26
).
O capital simbólico é a busca pela satisfação, por um reconhecimento importante
perante aos demais. O agente social precisa de reconhecimento do grupo, campo ou
espaço social de alguma forma a exercer dominação. Esta se dá devido à legitimação e
confiança dos outros. Bourdieu também faz uma observação acerca do estruturalismo,
que privilegia as estruturas estruturadas a partir das produções simbólicas como
instrumentos de dominação para explicar a liga entre os indivíduos. O autor diz em uma
síntese: “os sistemas simbólicos, como instrumentos de dominação, só podem exercer
um poder estruturante porque são estruturados”. (Bourdieu, 1989). Isso quer dizer que a
estrutura só pode ser estruturante porque é estruturada, buscando entender a sociedade
com a própria estrutura.
As estruturas servem como instrumento de dominação impondo suas ideologias
aos dominados. Essa dominação o autor chama de violência simbólica, exercida pelo
poder simbólico. Como já explicado, esse poder é invisível, dissimulado e quase
“mascarado”. Nas palavras do autor:

É enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de
comunicação e de conhecimento que os sistemas simbólicos
cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou
legitimação da dominação,que contribuem para assegurar a
dominação de uma classe sobre outra(violência simbólica) dando
o reforço da sua própria força às relações de força que as
fundamentam e contribuindo assim, segundo a expressão de
Weber, para a domesticação dos dominados (Bourdieu, 1989 p.
11).
A violência é legitimada dentro de cada campo e cabe aos agentes lançarem suas
estratégias dentro dos grupos ou instituições para manterem seus poderes. Todo campo

26

é um espaço de disputas pelo reconhecimento ou prestígio social, na corrida de ampliar
seus capitais e suas influências. É o espaço também no qual os agentes demonstram seu
capital intelectual a fim de organizarem projetos em prol do grupo ou sociedade. É o
espaço onde estabelecem suas redes de relações objetivas, tentando impor sua cultura ou
política.
Não somente a violência simbólica tem importância neste trabalho, como
também o capital simbólico, conceitos altamente relacionados e que serão usados na
nossa pesquisa de campo apresentada a seguir. Veremos como Bourdieu pode nos
auxiliar a responder nosso problema central de por que determinadas pessoas se
dedicam a ONGs que têm por missão de resgatar animais de rua, e o que se refere ao
nosso objetivo de entender o que leva determinadas pessoas a se dedicarem a ONGs que
têm por missão o resgate de animais. Utilizaremos o conceito de capital simbólico,
verificando como este pode contribuir no entendimento da ação dos agentes estudados
para o desenvolvimento do trabalho voluntário.

27

3. CARACTERIZAÇÃO DO ESTUDO DE CASO
A metodologia escolhida para este trabalho é de caráter qualitativa de
investigação social. Seu recorte se deu a partir de um estudo de caso em uma ONG em
Maceió. Um estudo de caso, segundo Yin, “permite investigar um fenômeno
contemporâneo dentro de seu contexto de vida real, especialmente quando os limites
entre fenômeno e o contexto não estão claramente definidos”. (Yin, 2001 apud Gil,
1989).
A escolha desta metodologia visou alcançar os objetivos geral e específicos já
mencionados para resolução do problema de investigação. Estamos analisando por que
determinadas pessoas assumem a missão de resgatar animais de rua.
A investigação teve seu recorte espacial na cidade de Maceió-AL. Optamos pela
ONG Grupo Quatro Patas 7 para nosso estudo de caso pela dinâmica que a entidade
possui de resgatar animais de rua para um abrigo que possui para esta finalidade. Este
recorte nos possibilitou analisar e compreender o porquê de indivíduos resgatarem os
animais abandonados.
As primeiras formas de contato ocorreram por meio de mensagens através do
site do Grupo Quatro Patas. Posteriormente, tivemos contato com a vice-presidência da
Instituição, que nos abriu as portas da organização para a pesquisa, sem nenhum tipo de
impedimento ou ressalva.
O Grupo atua em Maceió e tornou-se ONG em dezembro de 2015. É composto
por voluntários e não possui sede própria. Possui um Lar temporário onde ficam
abrigados os animais resgatados até que sejam adotados. O lar não conta com ajuda
governamental, apenas com doações e parcerias. Estas parcerias são constituídas por
clínicas Veterinárias, Escolas de Línguas, Supermercados, entre outras empresas. O lar
temporário não tem sua localização divulgada, a fim de evitar que pessoas abandonem
outros animais à porta, situação não mais comportada estruturalmente pela ONG, que é
pequena e de poucos recursos financeiros e/ou de sustentabilidade. A missão da ONG é
atuar no combate ao abandono e aos maus tratos dos animais. Pretende-se se tornar uma
referência como grupo de proteção animal e na luta de políticas públicas específicas
para regulamentação da criação de animais.

7

Nome fictício.

28

A divisão do trabalho nesta ONG foi repartida por dois grupos: o primeiro,
compõe o grupo interno que é a parte administrativa e, o segundo,o grupo externo que
são os voluntários que trabalham “por fora”, isto é, estão mais presentes nos eventos.
No grupo interno cada agente tem suas funções específicas, tais como, presidente, vicepresidente, tesoureiro, secretária geral, fiscal, veterinária, dentre outras funções. No que
se refere à parte administrativa, duas integrantes são “contratadas”: a veterinária e a
cuidadora8. Os integrantes do grupo interno possuem escolaridade de nível superior, são
formados em Direito, Psicologia, Biomedicina, Jornalismo, Arquitetura, Zootecnia,
dentre outros cursos.
A primeira fase da pesquisa ocorreu em dois momentos: um, a ser apresentado
ao leitor ao longo da discussão dos agentes vinculados a ONG com a qual trabalhamos
em campo, e outro, que foi a procura por literatura especializada, fase inicial da
pesquisa e organização de material. Logo, realizamos uma pesquisa bibliográfica dos
estudos sobre relação humano\animal, motivação, voluntariado, terceiro setor e, em
especial, ONGs que tratam acerca da missão com a qual trabalha nossa organização do
estudo de caso em questão. A partir dessa parte da pesquisa, os textos lidos foram
escolhidos de acordo com o que mais se aproximava da problemática da pesquisa. Após
as leituras realizadas, separamos o material por conteúdos que agregam as dimensões
analíticas do trabalho: profissionalização das ONGs, Divisão do trabalho, voluntariado,
ganhos materiais e simbólicos, motivações dos agentes para o trabalho, dentre outras
relativas ao objeto de investigação.
A segunda fase da pesquisa foi praticada com os recursos das seguintes técnicas
de recolha de informações: observação direta e observação participante. Com o
levantamento de informações, e a conseqüente inserção no campo, pudemos estar
presentes na ONG e em seus eventos realizados de Fevereiro a Maio de 2016,
observando as atividades feitas dentro da instituição pelos voluntários, bem como
participando de uma atividade de contagem dos animais abrigados na ONG. Tal
exercício foi caracterizado pela rotulação de dados dos animais como: nome, idade,

8

A médica Veterinária e a Cuidadora dos animais nao possuíam carteira assinada na época que foram
feitas as visitas de campo a ONG. Todavia, não são consideradas como voluntárias porque recebem,
informalmente, alguma remuneração financeira pelo serviço prestado. Somente estas duas agentes se
enquadram numa categoria aparte da Instituição de “prestadoras de serviço”, sendo todo o restante do
corpo efetivo da ONGs formado por voluntários.

29

peso, se estão medicados, apadrinhados, se estão aptos para adoção e, quando em caso
de morte, a verificação da causa.
Após as observações diretas, participamos de alguns eventos como bazar
beneficente em prol dos animais, feiras de adoção e reuniões com os voluntários da
ONG. Também foi elaborado um diário de campo com entradas tabuladas a partir das
dimensões analíticas da pesquisa. Estes passos foram essenciais para a realização da
observação participante, posto que tivemos melhor acesso aos agentes para passarmos
para a etapa de coleta de dados por meio de entrevistas semi-estruturada.
Para a técnica e coleta de dados utilizamos a entrevista “como técnica em que o
investigador se apresenta frente ao investigado e lhe formula perguntas, como objetivos
de obtenção dos dados que interessam a investigação”. (GIL, 1989). Foram realizadas
10 entrevistas com cerca de 25 a 30 minutos de fala transcrita em cada uma delas.
Seguimos um roteiro de entrevista (anexo) e os entrevistados foram informados de que
seus nomes seriam alterados e não publicados, ou seja, todos os nomes próprios citados
nas seguintes páginas são fictícios. Por fim, e como técnica de análise, aplicamos a
análise de conteúdo baseado em Bardin (1977), seguindo seus procedimentos de
codificação, a categorização e as inferências.

30

4. ANÁLISE DOS AGENTES DE ONGS QUE TÊM POR MISSÃO O
RESGATE DE ANIMAIS
Partimos do problema de pesquisa sobre o porquê de determinadas pessoas se
dedicarem a ONGs que têm por missão resgatar animais de rua. Seguindo os objetivos
específicos que projetaram este trabalho, tivemos que: 1) Identificar o percurso escolar
dos agentes estudados; 2) Delinear o papel que os agentes cumprem nas organizações a
partir da divisão social do trabalho nas ONGs investigadas; 3) Averiguar quais os
possíveis ganhos matérias ou simbólicos destes agentes em ONGs; 4) Identificar a
motivação desses agentes para o trabalho voluntário. Os dados apresentados foram
encontrados em campo, sobretudo pelas entrevistas que sustentam os argumentos que
apresentaremos.
A fim de identificarmos o percurso escolar dos agentes estudados na ONG
investigada, observamos que as relações de trabalho se dão de forma colaborativa. O
grupo administrativo é pequeno, porém, cada agente tem seu papel específico, mas
quando necessário todo mundo “faz tudo”, comenta umas das entrevistadas. Esta
polivalência pode ser percebida quando um agente com uma formação de tal área exerce
uma função de outra área, a exemplo de uma zootecnista trabalhando na função de
conselheira fiscal ou da vice-presidenta exercendo tarefas como as de auxiliar de
limpeza ou manutenção de estrutura. Entretanto, formalmente, o quadro da diretoria
geral da ONG é formado por agentes com graus de escolaridade de nível superior.
Sou formada em Biomedicina, e atualmente sou a
tesoureira mas, sempre faço outras funções aqui na
ONG. (Paula, abr. 2016).
A minha formação é em Direito e Psicologia, no
momento organizo os eventos, busco doações em
determinado lugar quando precisa, de tudo um
pouco eu faço. (Sandra, abr.2016)
Sou a presidenta da Instituição e fico sob a
responsabilidade dos cuidados com os animais.
Prefiro ter o contato diretamente com eles do que
resolver alguns problemas burocráticos. (Marina
abr.2016)

31

Ao analisar os possíveis ganhos materiais e\ou simbólicos que os agentes
possivelmente teriam com o trabalho que desenvolvem na ONG, a partir das entrevistas,
constata-se que não há ganhos materiais, mas existem sempre ganhos simbólicos. O
discurso articulado pelos agentes durante as entrevistas foi quase sempre o mesmo, o de
demonstrar um sentido de afetividade ou amor pelos bichos, no poder em ajudá-los.
Pesquisadora: O que você “ganha” materialmente
e\ou simbolicamente, trabalhando como voluntário
(a ) na ONG?
Sandra: De valores simbólicos é na qualidade de
vida em saber que está fazendo algo diferencial e
com esse trabalho poder chamar atenção do governo
que possa fazer políticas públicas em relação aos
animais. (voluntária, abr. 2016)

Ou,

Ilza: Satisfação pessoal. A impressão de que está
fazendo a diferença, especificamente na vida do
animal. (voluntária, abr. 2016)
Paula: Têm pessoas que não entendem, de que
trabalhamos sem ganhar dinheiro. O dinheiro que
recebemos com a venda de roupas no bazar, por
exemplo, tudo é revertido para os animais. Não
ganhamos dinheiro, mas temos uma obrigação para
com esse trabalho. (voluntária, abr. 2016)
Mariana: Trabalhar em prol da causa sem receber
lucro financeiro. O único lucro é conseguir uma
família para os animais e vê-los felizes. (voluntária,
abr. 2016)
No tocante ao “ganho” simbólico, observamos que embora os agentes
voluntários não recebam lucro financeiro, estão em busca de prazer pessoal. Mesmo que
haja um “desinteresse” financeiro, há um interesse em busca do reconhecimento
simbólico pelo trabalho exercido. “O que ´ganho´ simbolicamente está no
reconhecimento e contato comas pessoas” (Júlio Cezar, voluntário, abr. 2016).
Relacionando esta fala do entrevistado com a teoria de Bourdieu, diretamente
ligada ao capital simbólico, temos o reconhecimento dado pelos agentes a cada espaço.

32

Em nosso campo, observamos como é garantido o acesso de reconhecimento simbólico
aos agentes, aos contatos sociais, ou tarefas socialmente reconhecidas e valorizadas.
Dessa maneira, os voluntários além de se identificarem com a causa, e ainda que
não sejam remunerados, estão em busca de reconhecimento social, da satisfação e no
prazer em ajudar. Tais pontos ocorrem mesmo que inconscientemente, isto é, que os
agentes não direcionem este poder legitimado para uma causa objetiva. Outro fator
determinante analisado está no cerne do campo, tratado por Bourdieu, e da influência
que esses agentes tiveram ao longo de suas vidas. Alguns entrevistados revelaram que a
intenção em ajudar ou trabalhar como voluntário surgiu no meio familiar, pelo exemplo
de parentes atuantes no terceiro setor, como salienta Antônio: “A minha mãe já era
voluntária de outra instituição, foi a partir daí que comecei a me engajar na causa
animal” (voluntário, abr. 2016). Isso nos mostra que a relação agente e campo pode
influenciá-los de alguma maneira, posto que o campo está entrelaçado no habitus que
socialmente influencia as ações dos agentes ou dos grupos.

Eu sempre gostei de animais, e minha mãe já era
protetora independente, pegava os animais da rua e
levava para casa. Fui observando e ajudando a
cuidar... foi assim que me interessei em atuar nesse
tipo de trabalho. (Marcela, voluntária, abr. 2016).
Ao questionar porque o interesse em trabalhar com animais na Instituição e o
porquê de resgatá-los:
Pela paixão pelos animais. E pela tristeza deles sofrerem
nas ruas, todo tipo de violência e maus tratos e me sinto
bem em fazer algo para amenizar o abandono. (Marina,
voluntária, abr.2016)
Primeiro, porque já tem muita gente engajada em causas
humanitárias e segundo é um prazer que tenho desde
criança. (Mariah, voluntária, abr.2016).
É perceptível que nas falas transcritas os agentes tiveram influência de seu
espaço social, principalmente no campo cultural. Os agentes desde cedo tiveram acesso
aos bens culturais, bem como ao percurso escolar e ao meio social que se encontram,
bem como influenciaram de alguma maneira no engajamento da causa animal. A partir
dessas narrativas, verificamos como a motivação deles no trabalho voluntário é
importante para continuarem na missão sustentada pela ONG.

33

Numerosas teorias têm sido elaboradas para tentar explicar a motivação em
alguma tarefa ou trabalho, seja ele remunerado ou voluntário. Alguns autores sustentam
que os indivíduos possuem motivações pessoais ao realizarem determinado tipo de
trabalho. Estas motivações pessoais estão nos valores, nas intenções e nas atribuições
(Vroom, 1964; Adams, 1965; Locke e Latham, 1990 apud Tamayo, Paschoal, 2003).
Seguindo nosso último objetivo específico da pesquisa, observamos que as
motivações que os agentes têm para o trabalho na “missão animal” apresentam-se
verbalizadas:
Pesquisadora: O que mais te motiva a este trabalho?
Paula: O prazer de resgatar o animal doente, de
cuidá-lo e vê-lo sendo adotado
(voluntária, abr. 2016)
Ou,
Kátia: O olhar de “gratidão” dos bichinhos e poder
dar-lhes uma nova chance.
(voluntária, abr. 2016)
Além das motivações voltadas para os valores afetivos, o que também pode ser
motivador é o trabalho no grupo ou na organização. Porém, quando a organização e os
colegas não são colaborativos entre si, o trabalho pode ser desmotivador. Vejamos:

O que mais me motiva é a felicidade dos animais, e
o resultado que o trabalho vem tendo. Por outro
lado, o que menos me motiva é justamente o “trato”
com as pessoas, seja com os voluntários e com os
adotantes dos animais. (Mariah, abr.2016).
É obvio que tem momentos estressantes, mas
quando eu recebo uma lambida de um cachorro
(risos), me dá mais forças para continuar na causa.
Sem dúvidas, são os animais que mais me motivam.
(Marcela, abr.2016).
Embora as relações afetivas para com os animais sejam as principais razões para
os agentes continuarem na “luta”, há falas que também querem chamar à atenção do
poder público, o que pode ser uma motivação. “É preciso uma legislação mais rígida
para com os animais, principalmente para aqueles que abandonam e os maltratam, e nós
lutamos para que aconteça”. (Ilza, voluntária, abr.2016).

34

Os discursos destes entrevistados nos ajuda a responder ao nosso problema de
pesquisa sobre porque determinadas pessoas se dedicam a ONGs que têm por missão
resgatar animais de rua. As dimensões analíticas que nos ajudaram a responder tal
problema de pesquisa foram o percurso escolar dos agentes estudados; o papel que os
agentes cumprem nas organizações a partir da divisão social do trabalho nas ONGs;
possíveis ganhos materiais e\ou simbólicos destes agentes nas ONGs e motivação para o
trabalho voluntário. A concatenação destas dimensões analíticas para compreensão do
problema de pesquisa só se fez possível porque tivemos participação em campo, onde
pudemos verificar in loco a atuação dos agentes. Para finalizar este capítulo destacamos
uma fala que consideramos importante no que diz a respeito à missão institucional à
qual os agentes estão vinculados. Observemos:
A missão da ONG é conscientizar a população,
mas, estamos tratando as consequências do
abandono. (Voluntária, fev. 2016).

35

5. CONCLUSÃO
A relação humano\animal é ainda um desafio para a Sociologia. Isto se dá
devido à própria origem da disciplina enquanto ciência, afirma Gaedtke (2014) devido
aos encantamentos da era moderna que impulsionavam a produção intelectual que
estava vinculada às noções de racionalidade. É necessário que a sociologia repense seus
objetos, que não seja apenas uma disciplina relacionados somente a indivíduos, mas
também às relações destes com animais, objetos etc. Porém, ainda há uma série de
impedimentos, como a falta de inovações teóricas ou a forte cultura antropocêntrica na
academia, o que pode implicar em trabalhos que faltam teor científico, deixando-os
superficiais. Essas poderiam ser uma das razões e desafios para a Sociologia não se
interessar tanto, ainda, pela temática. (DeMello e Joseph 2010 apud Gaedtke 2014).
Numa pesquisa realizada sobre metodologias utilizadas em teses de doutorado
de sociologia 9 , de um total de 282 teses brasileiras no triênio 2012-2014, não
encontramos nenhuma temática relacionada a animais como tema principal ou
transversal. Porém, temos trabalhos de suma importância na temática, a exemplo da
elaboração, em andamento, da tese da autora Maria Helena Carvalho (UFPE) que
aborda as relações humanos\animais. Paralelamente, já existem alguns grupos de
trabalho em Congressos nacionais que levantam a possibilidade de aceitação deste
objeto de estudo, mas ainda é tudo muito tímido. Ao escolher essa temática sabíamos
que havia poucos estudos sobre o tema, mas como já havíamos citado, é importante
abordar a temática com essa proposta sociológica que durante o processo da pesquisa
girou em torno do porquê determinadas pessoas se dedicam a ONGs que têm por missão
de resgatar animais de rua.
A pesquisa teve como foco os agentes que resgatam estes animais. Procuramos
analisar o que leva essas pessoas a terem tal comportamento social. Através do estudo
de caso em Maceió-AL, o título escolhido “Missionarios Animalitários” foi inspirado
no conceito desenvolvido por Pierre Digard (1900: 199), usado por Matos (2012),

9

A presente investigação é resultado de um trabalho realizado no âmbito das atividades do Programa de
Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas, em parceria com o Projeto PIBIC
“Metodologias à paisana: como operamos na sociologia contemporânea”, do Instituto de Ciências Sociais
da mesma universidade, coordenado pela Profa. Dra. Marina Félix de Melo.

36

referindo-se à causa animalitária da mesma forma que outros se engajam na causa
humanitária. A teoria e conceito abordados neste trabalho visaram responder às
principais questões que nortearam todo o percurso da investigação.
Ao investigarmos os Missionários animalitários observamos que para além do
capital simbólico\cultural que possuem, eles também nutrem um sentimento de amor ou
afeto que têm para com os animais de uma forma geral, sobretudo os domésticos (cães e
gatos). Os missionários querem mostrar que a causa animal é possível no Brasil. É em
nome da missão que querem chamar atenção do poder público que dispensa políticas
públicas voltadas para os animais domésticos. É em nome desse trabalho missionário,
que vai além do trabalho voluntário, que doam tempo e cumprem uma obrigação
simbólica, promovendo campanhas de arrecadação de recursos, feiras de adoção,
incentivam as pessoas à adoção e, sobretudo, a respeitarem os animais. Estes agentes
também estão em busca de conscientizar a sociedade ao “não abandono” e, para além do
resgate de animais, querem resgatar o respeito dos humanos em relação aos “bichinhos”.
Esta pesquisa tentou de alguma forma lançar propostas\questionamentos\críticas
sobre a temática humano\animal, não discutida ao longo da pesquisa, posto o enfoque
de nosso objeto de estudo nos agentes das ONGs. O que buscamos nestas páginas foi
mostrar que é possível analisar não somente as ações\missões humanitárias, mas
também àquelas que se lançam a resgatar “objetos” não humanos. No nosso caso,
animais de estimação.

37

6. REFERÊNCIAS
ANDA. Agencia de Notícias de Direitos Animais do Mundo. Disponível em:
http://www.anda.jor.br. Acesso em: Agosto/2015
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Companhia das Letras, 2009.
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http://www.apasfa.org/leis/declaracao.shtml. Acesso em: Agosto/2015.
BARDIN, Laurence. A análise de conteúdo. Rio de Janeiro: Ed.70, 1977.
BOURDIEU, Pierre. “Sobre o poder simbólico”. In: O Poder simbólico. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: Sobre a teoria da ação. Trad. Mariza Corrêa.
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MELO, Marina. “Profissionalização institucional no Terceiro Setor e atuais demandas”.
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Passo Fundo. Dissertação de Mestrado, 2011.

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TODOROV, João Cláudio; MOREIRA, Márcio Borges. “O conceito de motivação na
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SOUZA, Raquel Santos. Filantropia Política no movimento combate ao câncerinfanto-juvenil em Sergipe. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de
Sergipe. 2010.

40

7. ANEXO: ROTEIRO DE ENTREVISTAS

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS\ LICENCIATURA

Roteiro de entrevista para Trabalho de Conclusão de Curso em Ciências Sociais –
Licenciatura.
Tìtulo: “Missionários “Animalitários”: O Resgate de Animais de Rua nas ONGs de
Maceió-AL”
Pesquisadora: Ana Cláudia Bernardo
Orientadora: Profa. Marina Melo
Nome d@ Entrevistad@ / Idade:
Data \ Local de Entrevista:

1. Como foi seu trajeto escolar/profissional? Você vem de que área de
estudo/atuação?
2. Como surgiu o interesse de fazer parte da ONG?
3. Como é seu trabalho na Organização? Quais suas funções dentro do Grupo
Quatro Patas?
4. Antes de vir trabalhar aqui, você imaginava como seria o trabalho interno e
administrativo de uma ONG?
5. Você já realizou algum outro tipo de trabalho voluntário? Se sim, como era ou
como está sendo?
6. Por que trabalhar em uma ONG em prol de defesa animal? Por que resgatar
animais abandonados?
7. Se a missão desta ONG não fosse a de trabalhar com animais, você estaria aqui?
8. O que mais te motiva a este trabalho?
9. O que menos te motiva a este trabalho?

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10. Pra você, o que é ser um voluntário?
11. O que você “ganha”, materialmente e/ou simbolicamente, trabalhando como
voluntária na ONG?
12. Qual a mensagem que você e a ONG querem passar para a sociedade com esta
ação de resgatar\proteger os animais abandonados?

42