Jogos Koiupanká na educação escolar indígena
Discente: Wellington Neto da Silva; Orientador: Silóe Soares de Amorim.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS - UFAL
INSITUTO DE CIÊNCIAS SOCAIS - ICS
CIÊNCIAS SOCIAIS LICENCIATURA
WELLINGTON NETO DA SILVA
JOGOS KOIUPANKÁ NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA
Maceió – AL
2016
WELLINGTON NETO DA SILVA
JOGOS KOIUPANKÁ NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado ao Instituto de Ciências Sociais
(ICS) da Universidade Federal de Alagoas,
como requisito parcial para do grau de
licenciatura em ciências sociais.
Orientador Prof. Dr. Siloé Amorim
Maceió - AL
2016
Folha de Aprovação
WELLINGTON NETO DA SILVA
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado ao Instituto de Ciências Sociais
(ICS) da Universidade Federal de Alagoas,
como requisito parcial para do grau de
licenciatura em ciências sociais.
Orientador Prof. Dr. Siloé Amorim
_________________________________________
Prof.º Doutor, Siloé Soares de Amorim, Universidade Federal de Alagoas – UFAL
(Orientador)
Banca Examinadora:
___________________________________________________________
Prof.º Mestre, Adelson Lopes, Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL
___________________________________________________________
Prof.ª Doutora, Silvia Martins, Universidade Federal de Alagoas – UFAL
Dedicatória
Dedico este trabalho aos professores e professoras da
Escola Estadual Indígena Ancelmo Bispo de Souza, da aldeia Koiupanká.
Agradecimentos
Agradeço a Francisco Koiupanká pela acolhida e por ser um elo fundamental para o
desenvolvimento desta pesquisa; ao meu querido professor orientador, Siloé Amorim
por toda disposição, por contribuir com meu aprendizado e pela paciência que teve
durante esse período de pesquisa; gratidão aos companheiros do CIMI, Hélio, Daniela e
Zenus que vivenciaram e contribuíram nas minhas idas á campo; a minha família pelo
grande apoio dado a mim durante toda a minha vida; a minha tia Cícera pelo incentivo e
por ser um exemplo que me ajudou a seguir na profissão docente; aos meus amigos e
amigas que sempre ouviam minhas lamentações e felicidades e as grandes amizades
construídas durante o curso de ciências sociais licenciatura; agradeço imensamente a
família Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) que tanto me proporcionou
grandes experiências na militância e tantas coisas boas que interferiram no meu modo
de ver o mundo, de amar e de me tornar à pessoa que sou.
Resumo
O presente trabalho de conclusão de curso consiste em analisar elementos presentes em
práticas desportivas realizadas na aldeia Koiupanká. Desde o processo formal de
“ressurgência” no qual se apresentaram com o etnônimo Koiupanká entre 11 e 12 de
dezembro de 2001, o povo Koiupanká enfrenta diversos desafios, entre eles está a
questão da visibilidade, a reivindicação da demarcação de suas terras e a educação
escolar indígena como possibilidade de motivação dos mais jovens no envolvimento das
práticas tradicionais do seu povo. Tais práticas desportivas compõem manifestações
lúdicas, e são denominadas pelos sujeitos que as executam de jogos tradicionais
indígenas, que exigem habilidades motoras, cálculo, agilidades no exercício do corpo e
conhecimento em diversas disciplinas do currículo escolar que estão diretamente
relacionadas ao modelo de educação indígena desenvolvido pelos sujeitos investigados.
Foram realizadas pesquisas de campo na área indígena Koiupanká entre outras,
entrevistas e diversas leituras relacionadas ao tema aqui discutido, a fim de
compreender o significado dos jogos indígenas e identificar possíveis contribuições
desses jogos para o fortalecimento das práticas culturais do povo Koiupanká. Ao
realizar esses procedimentos analíticos, constatam-se conjuntamente noções de
alteridade na educação escolar indígena tendo os jogos como um instrumento que
possibilita diálogo entre diferentes culturas.
Palavras chaves: Jogos, Koiupanká, alteridade, Educação Indígena.
Abstract
This monograph intends to analyze the sports practices and its elements in a Koiupanká
native village. Since its resurgence, in 2001, the Koiupanká people faces several
challenges, as the social visibility, the land demarcation claim, and the indigenous
education. Those native sports are defined by the Koiupanká as games that demands
motor skills, calculus abilities, corporal agility and general knowledge in several
subjects related to the indigenous education. Our researches were based on native
village visits, interviews, and several themed books reading, in order to understand the
meaning of the indigenous sports, and how it does contribute to Koiupanká people.
When searching about this theme, it was noticed some kind of alterity in indigenous
education, in a way that those games can allow a dialogue between different cultures.
Keywords: Games, Koiupanká, alterity, indigenous education.
Sumário
Introdução .....................................................................................................................09
1-
Os Koiupanká ...................................................................................................14
1.1
Situação da terra e alguns desafios a serem superados .................................16
2-
Educação Escolar Indígena ..............................................................................20
2.1
Educação Indígena ...........................................................................................23
2.2
Jogos Indígenas Koiupanká na Educação Escolar Indígena: noções de
alteridade ...........................................................................................................24
3-
IV Jogos Koiupanká ..........................................................................................26
3.1
Regras do Jogo Koiupanká ...............................................................................29
3.2
Modalidades do Jogo Koiupanká ....................................................................30
3.3
O Toré .................................................................................................................41
3.4
O jogo e rito .......................................................................................................43
Considerações finais .........................................................................................43
Referências ........................................................................................................45
9
Introdução
Esta pesquisa discorre sobre a prática dos Jogos Tradicionais Indígenas na
aldeia Koiupanká, localizada na região do sertão do estado de Alagoas. Vários tipos de
jogos são praticados por diversos povos tradicionais em toda América e presume-se que
essas variedades de jogos sejam imensuráveis e não cometeria a inexatidão da tentativa
de abordar detalhes sobre a prática dos jogos tradicionais em outras culturas que não
advir-se dos sujeitos investigados na presente pesquisa, pois, cada povo possui
dinâmicas, características, organização e ambições próprias e diversas.
De forma um pouco abrangente, de acordo com Fasshebe (2006) o que
denominamos atualmente de Jogos Tradicionais Indígenas é a forma como cada grupo
étnico concebe fazer de modo bastante diversificado, dinâmico e com práticas que
exigem o exercício do corpo, habilidades de cálculo, habilidades motoras e
compartilham valores e saberes culturais criados na socialização da vida dos próprios
sujeitos do grupo étnico.
Jogos Indígenas como objeto de estudo ainda é considerado incomum nas
Ciências Sociais. Os estudos e pesquisas sobre as variedades dos jogos indígenas e suas
particularidades passam a ser mais inseridos nas ciências sociais a partir das ultimas
quatro décadas, porém, estes aspectos ainda são pouco estudados pelas ciências socais
no que se refere a dados etnográficos. Quando se examinam as fontes disponíveis sobre
jogos tradicionais na América do Sul, parece que as fontes científicas relacionadas a este tema
estão bastante dispersas. Vários jogos são esporadicamente citados em um contexto mais amplo,
mas, na maioria dos casos, os autores se atêm a mencionar alguns “Jogos Indígenas” sem
maiores explicações (FASSHEBE, 2006, p. 75). Fasshebe reafirma que só recentemente o
tema Jogos Indígenas tem ganhado mais relevância nas Ciências Sociais, no campo da
Antropologia e da Educação Física, sendo a partir da década de 60 que se
impulsionaram estudos sobre jogos indígenas das mais variadas formas.
Segundo Fasshebe, algumas primeiras sistematizações de dados etnográficos
sobre jogos indígenas no século XX se encontram nas narrativas de Curt Nimuendaju
(1937) que realizou estudos sobre os índios Kaingang e relatou sobre a escalada do
pinheiro. Outro pioneiro na coleta de dados etnográficos sobre o tema aqui tratado foi
Telêmaco Borba (1908) o qual anotou dados sobre o campo de batalha Kanjri que era
um jogo que simula tipos de guerra entre os Kaingang. Posteriormente outros etnólogos
10
como Lévi-Strauss (1997), Viveiros de Castro (1987), e Darcy Ribeiro (1970), passam a
identificar os jogos indígenas como elemento da cultura indígena.
Segundo o Atlas do Esporte no Brasil (2005), em 1958 é lançado o documento
“Brinquedo de nossos Índios”, organizado pelo antigo Conselho Nacional de Proteção
ao Índio, que hoje é substituído pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). A
Constituição Federal (CF) de 1988 obriga o Estado, no artigo 217 a “proteger, resgatar,
registrar e divulgar as manifestações culturais de caráter esportivo que vinculem às
nossas raízes etno-históricas” (CF, 1988). Em 1996 o Ministério Extraordinário do
Esporte cria o “Programa Esporte de Criação Nacional”, citando práticas desportivas
indígenas como uma das prioridades no programa. Outro complemento a este
dispositivo constitucional está na criação do Referencial Curricular Nacional para as
Escolas Indígenas, criado em 1998 e que ressalta o aprendizado dos esportes e “resgate”
dos jogos tradicionais nas aldeias como instrumento de aprendizado.
Consta no Atlas do Esporte no Brasil que “Os jogos tradicionais indígenas são
atividades corporais, com características lúdicas, pelas quais permeiam os mitos e os
valores culturais” que envolve uma questão educacional de formação dos mais novos
referentes à permanência desses no espaço que vive seu grupo étnico, como exercício de
rememorar os modos de vida dos antepassados e uma prática de lazer e socialização.
A universalização dos jogos olímpicos modernos durante o século XX, com o
processo de globalização, o padrão de regras e normas dos jogos olímpicos modernos
teve influência em diversas culturas e países, instituições e escolas. Com referência a
essas influências dos jogos olímpicos modernos e no programa do Mistério do Esporte
criado em 1996, criou-se o primeiro Jogos dos Povos Indígenas (JPI) no Brasil,
idealizados por Marcos e Carlos Terena, aprovados e organizados pelo Comitê
Intertribal, com representantes indígenas locais (Terena) e “líderes nacionais”, juntando
aproximadamente 30 povos, no dia 16 de abril, em Goiânia, estado de Goiás, segundo o
Atlas do Esporte no Brasil (2005).
Os Jogos dos Povos Indígenas tomaram grandes proporções, tornaram-se
mega-eventos que os quais, até então não existe um consenso entre algumas lideranças,
um dos motivos se dá devido à influente relação com setores/representantes do Estado
que estão em conflitos de terras e a visibilidade midiática que para alguns se interfere
em aldeias para fazer a imagem do índio em mercadoria. Por outro lado, várias etnias
tem se apropriado de mecanismos midiáticos e passam a perceber os jogos na grande
11
dimensão que é realizada como um espaço de representação e visibilidade na sociedade
não indígena e no Estado para a garantia de direitos, socialização de diferentes
linguagens e fortalecimento dos fóruns de discussão sobre políticas públicas para e com
os povos tradicionais.
Em Alagoas, na atual conjuntura, percebem-se muitas reivindicações
apresentadas pelos povos indígenas, entre as reivindicações destaca-se a luta pela a
visibilidade e reconhecimento étnico por parte de setores do Estado (FUNAI), o direito
a terra e a água, saúde e educação e lazer. Direitos essenciais que também proporcionam
a formação dos mais jovens na sua tradicionalidade e a permanência dos mesmos no
território do seu povo, exigindo assim, uma educação diferenciada que crie mecanismos
os quais possibilitem na formação nos mais jovens a compreender sua história, a
organização do seu povo e estimular habilidades na luta por direitos.
Ao visitar algumas aldeias indígenas em Alagoas, como os Karapotó, Xucurukarirí, Kalankó, Geripankó, Katokin e Karuazú, pude apanhar essas séries de
reivindicações citadas. Em campo, entre dezembro de 2013 á setembro de 2016, a
princípio, surgiu o interesse em buscar compreender como se dava o ingresso dos mais
jovens no movimento indígena, que se organiza através da articulação entre diversas
lideranças, porém, nessas visitas fui me distanciando um pouco do tema que pretendia
pesquisar. Ao perceber o envolvimento de vários jovens em esportes em momentos de
lazer na sua comunidade.
Este interesse em estudar esporte se deu inicialmente durante uma participação
minha em uma partida de voleibol numa tarde de sábado na aldeia Karapotó – Plakiô,
em são Sebastião, Alagoas. A partir de então comecei a ler artigos em jornais, revistas e
páginas das redes sociais de internet sobre o tema, e foi quando fui tomando nota sobre
eventos desportivos de grandes portes organizados por povos indígenas e também
descobri que no estado de Alagoas um grupo étnico estava fazendo a experiência de
realizar atividades desportivas denominadas de jogos indígenas Koiupanká. Vale
lembrar que práticas desportivas como voleibol, handebol, futebol e entre outras sempre
fizeram parte de atividades rotineiras nos territórios indígenas. O futebol por exemplo é
muito marcante em várias comunidades indígenas. Os Karapotó – Plakiô, Geripankó e
Wassú-Cocal chegam a organizar e treinar times de futebol para competir dentro e fora
de suas aldeias. Cada povo possui suas dinâmicas desportivas.
12
O povo Koiupanká atualmente encontra-se inserido nesse contexto o qual foi
exposto alguns desafios e reinvindicações dos povos indígenas em Alagoas. Há alguns
anos são realizados na aldeia práticas desportivas denominadas de jogos indígenas
Koiupanká. Os jogos indígenas Koiupanká estão na quinta edição realizada em 2016
ainda aparece como algo novo para os povos indígenas de Alagoas, também como mais
um elemento de estudo acadêmico no estado.
Este trabalho busca estudar os jogos Koiupanká como um possível mecanismo
de enfretamento aos problemas da comunidade indígena Koiupanká. Dessa forma, o
objetivo geral dessa pesquisa é compreender o significado dos jogos indígenas na aldeia
Koiupanká. Reforço que esta “curiosidade” em pesquisar estes jogos veio a partir de
algumas vivências como educador popular que tinha acesso á algumas lideranças
indígenas (não se inclui lideranças Koiupanká) e visitas feitas nas áreas indígenas antes
citadas com um grupo de pesquisa de atualização do Atlas Terras Indígenas em
Alagoas, coordenado, inicialmente Professora Silvia Martins (2007) e sua atualização,
coordenada pelo Prof. Siloé Amorim ambos do ICS em parceria com o Curso de
Licenciatura Indígena (CLIND) da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL),
juntamente com o Prof. Adelson Lopes e a equipe do CLIND. Devido uma série de
complicações pessoais que interferiram na minha acadêmica a pesquisa durou mais de
um ano para chegar a esta sistematização.
Esta pesquisa buscou seguir o método qualitativo. Segundo MARTINS, H. H.
T. de S. (2004) A pesquisa qualitativa é definida como aquela que privilegia a análise de
micro processos, através do estudo das ações sociais individuais e grupais. Sendo assim,
busquei uma metodologia com os seguintes procedimentos: leitura de documentos,
sobre o tema (sítios, jornais impressos, redes sociais de internet, artigos científicos,
livros impressos e entre outros), análise do projeto pedagógico da escola indígena na
área Koiupanká – na quarta edição dos jogos indígenas que aconteceu em 19 de
dezembro de 2014.
O trabalho de campo também foi feito ainda em períodos que os jogos não
estavam acontecendo. Em campo foram realizadas conversas com o vice cacique, Inácio
Silva; entrevistas com Francisco João da Silva, diretor da Escola Estadual Indígena
Ancelmo Bispo de Souza; consultas ao regimento interno dos jogos cedidos pela
coordenadora da escola mencionada e diálogo com representantes do Conselho
13
Indigenista Missionário sobre o acompanhamento dessa entidade jurídica aos povos
indígenas em Alagoas.
De modo que este trabalho está dividido em três capítulos. No primeiro capítulo
apresento um conceito sobre grupo étnico a partir da teoria de Barth, contextualização
da conjuntura do povo Koiupanká, sua história, organização e os principais desafios a
serem superados como: o reconhecimento étnico de suas terras pela FUNAI, a ameaça
de terceirização de profissionais da escola indígena que pode interferir de modo
negativo na educação escolar indígena. O segundo capítulo aborda sobre as atribuições
desenvolvidas na Educação Escolar Indígena e os parâmetros que regem esse modelo
diferenciado de educação e discorre sobre noções de alteridade nos jogos como
instrumento pedagógico da Educação Escola indígena Koiupanká. O terceiro e ultimo
capítulo apresento dados etnográficos da quarta edição dos jogos indígenas Koiupanká e
de outros processos de preparação para o V Jogos Koiupanká. Este capítulo está
subdividido nos seguintes pontos: a participação de outras etnias, o regulamento, as
modalidades e os rituais nos jogos. As narrativas dos capítulos um e três são compostas
também por imagens fotográficas de minha autoria durante o período dos jogos na área
indígena Koiupanká, nos pré-jogos na aldeia Geripankó, nas reuniões e entrevistas com
a direção da Escola Ancelmo Bispo de Souza e visitas com representantes do CIMI.
Contém ainda imagens registradas pelos próprios índios organizadores do evento.
Acredito que a utilização das imagens ajuda a facilitar o diálogo com o leitor a fim de
desenvolver uma melhor compreensão do texto.
14
1- Os Koiupanká
;
Figura 1. Localização do município de Inhapi em Alagoas. Fonte:
IBGE.1
O povo Koiupanká está localizado no município de Inhapi, no sertão do estado
de Alagoas, á 270 km de Maceió. Os povos indígenas que atualmente habitam o semiárido alagoano, Geripankó, Kalankó, Karuazú, Katokin e Koiupanká, são originários do
tronco étnico Pankararú. O etnônimo Koiupanká faz referencia a Comunidade Indígena
União Pankararú (Amorim; 2003) e têm sua organização consolidada desde o início da
década dos anos 2000.
Na linguagem indígena, os Pankararú seriam o tronco enquanto seus
descendentes a “rama” ou “ponta de rama”. O processo de emigração para o Estado de
Alagoas começou no final do século XIX, início do XX (AMORIM; 2003). Em 2001
foram reconhecidos por outros povos indígenas também da mesma região do semi-árido
de Alagoas: Karuazú, Katokin, Kalankó, Xucurú Carirí e entre outros.
Na abordagem sobre o contexto de reconhecimento do grupo étnico
Koiupanká, se faz necessário fazer referência ao conceito no que diz respeito a grupos
1
Fonte: < http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=270330&> - acesso em: 10
de abril de 2016.
15
étnicos. Reporto-me ao conceito de grupos étnicos utilizando o argumento apresentado
por Friedrik Barth, quando os define por categorias que apontam seus limites e
fronteiras. Para Barth os grupos étnicos operam como categorias de descrição e
Autodescrição.
Autodescrição está relacionado à forma como um determinado grupo (étnico)
se identifica e se posiciona frente à sociedade externa e a outros grupos. A categoria da
descrição é referente sobre de que forma uma sociedade não pertencente a determinado
grupo observa o mesmo (BARTH, 1969). O modo de organização dos grupos étnicos é
o que conceitua a etnicidade. Etnicidade se dá partir de interações geradas por valores
culturais de um povo. Desta forma, entende-se a partir da teoria de Barth (1969) que os
grupos étnicos são categorias de atribuição e identificação construídas pelos próprios
sujeitos por meios interacionais que, segundo Martins (2007) os povos são:
(...) reconhecidos por sua história de resistência e não mais por
uma suposta emergência ou ressurgência étnica, conforme vinha
sendo reconhecidos os índios no Nordeste ou aqueles que foram
destituídos de seus territórios e práticas culturais, religiosas,
sociais e que, contudo, vêm reaparecendo no cenário político do
indigenismo institucional, em busca de seus direitos.
(MARTINS, 2007, p.148)
Neste sentido, o povo Koiupanká foi reconhecido por várias etnias do país
(formalmente) em 2003, no mesmo período que acontecia o Primeiro Encontro Nacional
dos Povos Indígenas em Luta Pelo reconhecimento Étnico e Territorial. De acordo com
o Relatório Técnico do Atlas Terras Indígenas em Alagoas os povos presente neste
encontro decidiram que os Koiupanká devem ser reconhecidos por sua resistência.
Em alguns momentos de rituais como o praiá, ritual do milho, da mandioca e
queimada do murici, as comunidades dos Koiupanká mudam suas atividade rotineiras.
Estes momentos de rituais como o da queimada do murici ocorrem geralmente em abril
ou março (sábado da semana santa) quando passam por um momento espiritual
profundo apenas entre indígenas (VIEIRA, 2010). É o período que comemoram o seu
ressurgimento.
16
1.1 Situações da terra e alguns desafios a serem superados
Os Koiupanká se organizam em três áreas territoriais chamadas de núcleos:
Sítio Roçado, Cabeça de Galo e Baixa Fresca. O sítio Roçado é um dos núcleos da
aldeia onde vive boa parte das lideranças Koiupanká, é também o núcleo sede da aldeia
e o mais próximo da zona urbana de Inhapi. Algumas famílias Koiupanká vivem nas
regiões rurais e outras na cidade. O povo Koiupanká tem uma população considerável
grande. Ao todo são 177 famílias e uma população de 800 indivíduos. A população
Koiupanká tem atualmente um número de 171 jovens, sendo 97 do sexo masculino e 74
do sexo feminino. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) é considerada
jovem a pessoa que estiver na faixa etária entre 15 a 29 anos.
Esses dados citados acima foram colhidos no pólo de saúde da comunidade.
Esses e outros dados foram acessados durante um encontro com lideranças da escola e o
CIMI, no dia 17 de junho de 2016 para a construção de um projeto referente aos jogos
indígenas Koiupanká 2016.
A terra que os Koiupanká ocupam é considerada dominial tradicional indígena,
ou seja, mesmo que não seja homologada, a terra é de domínio dos próprios índios,
herdada ou adquirida por parentes. No Brasil existem três categorias de terras indígenas:
reservas indígenas, tradicionais indígenas e dominiais indígena. As terras adquiridas
pela União, doadas por terceiros ou desapropriadas pelo Estado para a permanência
efetiva de determinado grupo étnico indígena são denominadas como reservas
indígenas. As terras tradicionalmente indígenas são terras ocupadas originalmente por
indígenas. A modalidade dominial indígena refere-se à forma de qualquer aquisição da
terra para seu usufruto. Essas modalidades estão referendadas na Constituição Federal
1988, Lei 6001/73 - Estatuto do Índio, Decreto n.º1775/96 de acordo como banco de
dados que consta no site da Fundação Nacional do Índio 2.
Desde o século XIX (1883) os Koiupanká reivindicam o reconhecimento
étnico-territorial (delimitação) para posterior fazer a demarcação das terras que ocupam.
Até o dia 25 de setembro de 2016 (ultima vez que estive novamente na aldeia) ainda
estavam esperando a promessa feita pela FUNAI para formar um Grupo de Trabalho
(GT) para estudar o reconhecimento da terra.
2 <www.funai.gov.br/index.php/indios-no-brasil/terras-indigenas> acesso em: 10 de abril de 2016.
17
Parte dos Koiupanká vivem em pequenas parcelas de terra em propriedade
dominial na zona rural nos arredores da cidade, outras famílias vivem na própria cidade
de Inhapi. Para o auto-sustento referente à plantação, algumas famílias dependem das
terras de posseiros, os Koiupanká trabalham na terra que não é dele legalmente. Além
disso, ainda surge outro problema: trabalha pelo modo que é chamado de “meiota”, ou
seja, parte do que for plantado fica para o posseiro. Este é um acordo para que o
trabalhador possa usufruir da terra para a plantação de milho, macaxeira, batata doce,
inhame, feijão de corda e entre outros.
Muitos desses posseiros “permitem” o trabalho do indígena na plantação da
roça pelo fato de terem uma relação de amizade com alguns indígenas ou conhece
alguém que tenha um grau de parentesco, e em algumas ocasiões o trabalhador não pode
se identificar como indígena, pois, alguns posseiros temem que o indígena possa
reivindicar a posse da terra. Para evitar conflitos muitos desses trabalhadores não podem
se assumir como índio para o posseiro.
Como se percebe, o principal desafio dos Koiupanká é o acesso a terra. É um
direito legítimo dos indígenas e elemento essencial para a sobrevivência, para
satisfazerem as suas carências vitais. Quando este direito é impossibilitado ou negado
surge daí diversos problemas e entre esses problemas está o êxodo de jovens para as
grandes capitais.
A direção da escola indígena, tendo como diretor Francisco João da Silva
informou que tem aumentado o número de pessoas que saem inclusive da região para
buscar outros modos de sobrevivência. A maioria principalmente mais jovem, ao
terminar o ensino médio, por não ter acesso ao trabalho que garanta sua sustentabilidade
financeira no território sai da aldeia e do estado de Alagoas para trabalhar em São Paulo
na construção civil ou como vigilante.
Apesar de ainda subsistir muitos desafios diante do não reconhecimento da
terra por parte do Estado, ou seja, a FUNAI, algumas conquistas significativas
aconteceram ao longo de sua luta entre elas: a instalação de um pólo de saúde e a escola
estadual indígena.
18
Foto 01: Pólo base Koiupanká. Imagem feita no dia 17 de junho de 2016 no período de coleta dos dados –
fotografia: Wellington Neto
O Pólo Base Koiupanká foi inaugurado em 2011. São atendidos por um médico
e um dentista que passam a semana e dormem na comunidade e tem o serviço de uma
enfermeira que mora na zona urbana. A comunidade é atendida por um médico cubano
que faz parte do programa “Mais médicos”, criado pelo do governo federal durante o
primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff. Na área indígena Koiupanká têm á
disposição uma ambulância e um carro de apoio no pólo de saúde. A conquista desse
pólo base com equipe fixa tem contribuído muito com a população Koiupanká. Antes
havia apenas uma equipe itinerante do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), na
ausência dessa equipe os indígenas buscavam atendimentos no sistema de saúde do
município.
19
Foto 02: Escola Estadual Indígena Anselmo Bispo de Souza. Imagem feita no dia 17 de junho de 2016.
Parte externa do setor administrativo da escola – Fotografia: Wellington Neto
No período de coleta de dados em campo algumas informações referentes à
escola foram cedidas pela direção. Até 18 de dezembro de 2015, segundo informações
cedidas pelo diretor da escola que também é uma das lideranças da aldeia, Francisco
Koiupanká, a escola possui um quadro de 21 funcionários, 193 estudantes matriculados
(até 18 de dezembro de 2015) distribuídos entre os níveis infantil, fundamental I e II,
ensino médio regular e Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Em 2016 esse número de estudante mudou. Atualmente são 177 estudantes
matriculados em três turnos. Houve uma redução de estudantes das turmas da EJA e
encerramento de uma turma do ensino médio. A escola foi fundada em 2006, fica no
núcleo roçado, duas casas são alugadas na aldeia pela Secretaria Estadual de Educação
para abrigarem as turmas. Também contam com um carro de para o translado dos
estudantes de outros núcleos.
Existe uma ameaça grave de retrocesso aos povos indígenas de Alagoas. O
problema foi relatado pelos missionários laicos do CIMI (2016), Daniela Oliveira, Hélio
Pereira e pela direção da escola: está tramitando um projeto pelo governo do estado de
Alagoas que pretende avançar o processo de terceirização nas escolas, e neste processo
atinge diretamente os povos indígenas e seu “modo diferenciado de educação” o qual
dialogaremos no próximo capitulo.
20
Uma vez que, corre o risco de professores indígenas que não possuem cargos
efetivos possam ser substituídos por não indígenas e além do mais estarem a serviço dos
interesses de empresas privadas que representam os interesses de não índios focando
apenas nos ideais de produção do capital monetário. Este processo ainda não está
implantado por meio definitivo aos povos indígenas de Alagoas, porém segue sendo
estudado por técnicos da secretária estadual de educação.
Diante do contexto abordado percebe-se os grandes desafios que são
enfrentados pelos Koiupanká. A coordenação pedagógica da escola indígena procura
por meio da educação de escolaridade indígena inserir e incentivar os mais jovens por
meios de práticas pedagógicas sobre tradicionalidade e tem os jogos indígenas como
principal instrumento pedagógico. Estas práticas pedagógicas realizadas pela escola
serão explanadas no decorrer do presente trabalho.
2 - Educação Escolar Indígena
Educação Escolar Indígena é a terminologia mais utilizada pelos indígenas e
pelo Estado para fazer uma distinção do ensino voltado aos povos indígena, um ensino
que garanta no processo de aprendizado, a socialização e integração de práticas
culturais/tradicionais de cada povo indígena desde o ensino infantil.
A Educação Escolar Indígena está em execução legal por meio da Constituição
Federal de 1988 e sob a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB);
compete ao Ministério da Educação (MEC) coordenar a nível nacional as políticas
públicas de Educação Escolar Indígena tendo como um dos instrumentos o Referencial
Curricular Nacional para as Escolas Indígenas (RCNEI), construído em 1998; cabendo
também aos estados e municípios a responsabilidade na execução dessas políticas
criadas pelo MEC para a garantia deste direito dos povos indígenas, que se tornou uma
grande conquista de vários anos de reivindicação do movimento indígena.
A educação escolar indígena passou por vários paradigmas ao longo da história
da educação no Brasil, desde o período colonial até o final do século XX. No Brasil
colônia os processos educacionais iniciaram com os Jesuítas, posteriormente com outras
ordens Católicas; e missões messiânicas com o intuito de “catequizar” e “civilizar” os
21
índios, seguindo um modelo assimilassionista cultural europeu e também criar
mecanismos de exploração da força de trabalho.
Este modelo escolar se concretiza em 1558 que foi explicitado um plano
“civilizador” defendido pelo padre Manuel da Nóbrega focando os mais novos nesse
processo, buscando monitorar, refrear e regular os nativos através de um sistema que
visava regimentar o índio enquanto trabalhador produtivo. Este foi um contraponto
apresentado aos colonizadores que defendiam a dizimação deliberada (MONTEIRO,
1994; p.36).
Frente aos modelos de educação imposta aos indígenas desde o Brasil colônia,
foi na década de 70, no século XX que foi se iniciando uma organização política
consolidada entre lideranças de varias etnias, um movimento que começou fora dos
espaços institucionais do Estado como, por exemplo, a FUNAI e contou o apoio de
algumas entidades da sociedade civil, que acabou resultando neste modelo bilingue de
educação diferenciada que temos hoje.
Os princípios contidos nas leis dão abertura para a construção de
uma nova escola, que respeite o desejo dos povos indígenas de uma
educação que valorize suas práticas culturais e lhes dê acesso a
conhecimentos e práticas de outros grupos e sociedades. Uma
normatização excessiva ou muito detalhada pode, ao invés de abrir
caminhos, inibir o surgimento de novas e importantes práticas
pedagógicas e falhar no atendimento a demandas particulares
colocadas por esses povos. A proposta da escola indígena
diferenciada representa, sem dúvida alguma, uma grande novidade
no sistema educacional do país, exigindo das instituições e órgãos
responsáveis a definição de novas dinâmicas, concepções e
mecanismos, tanto para que essas escolas sejam de fato
incorporadas e beneficiadas por sua inclusão no sistema, quanto
respeitadas em suas particularidades (RCNEI: 34).
Este aspecto da educação escolar indígena nos é relevante, pois, trata a
educação como uma política pública de direito garantido constitucionalmente. Foi
partindo desses desafios que surgiu a Educação Escolar Indígena, com necessidade de
implantação de uma educação ultrapasse o ambiente escolar, que contribua como
instrumento político a serviço da comunidade e de sua emancipação, uma escola que
contemple os letramentos e os valores simbólicos do meio que ela está inserida, com
professores técnicos orgânicos, ou seja, vindos da própria comunidade e que facilita nos
trabalhos técnicos de elaboração de regimentos, calendários, currículos, materiais
22
didático-pedagógicos e conteúdos programáticos adaptados às particularidades étnicoculturais e linguísticas próprias a cada povo indígena.
Para o antropólogo da Universidade de São Paulo, Luiz Donizetti Grupioni
(2006) a formação de professores indígenas é outro ponto que favorece na
universalização da qualidade do ensino na escola indígena. Na década de 80 “Programas
de Formação de Professores Indígenas foram implementados por organizações não
governamentais. Esses poucos programas pioneiros, no entanto, fizeram a escola e
rapidamente começaram a surgir, em todas as regiões do país, mais e mais programas de
formação para o Magistério Indígena” (MAHER, 2006, p.23). A partir da década de 90
a responsabilidade da formação de profissionais do magistério na educação escolar
indígena passou a ser do Estado. Com isso, estados federativos criaram programas
voltados à formação de professores.
O estado de Alagoas, entre outros é atendido pelo Programa de Apoio à
Formação Superior e Licenciaturas Indígenas (PROLIND) é uma iniciativa do
Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização
e Diversidade (SECAD), da Secretaria de Ensino Superior (SESU) e o Fundo Nacional
de Desenvolvimento da Educação (FNDE), para graduar professores da população
indígena3. Por meio do PROLIND a Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) desde
o ano de 2010 possui o Curso de Licenciatura Indígena (CLIND), é um curso de
formação superior distribuídos em turmas de letras, ciências biológicas, pedagogia e
história. Apenas indígenas e sem formação superior que podem ocupar as vagas
oferecidas.
Com significativos avanços em relação às políticas da educação escolar
indígena, somente através do desempenho prático na realidade local que poderemos
afirmar que essas medidas são eficientes para responder as principais demandas locais
em relação ao ensino e aprendizagem proposto pelo modelo escolar aqui abordado.
A formação de profissionais indígenas para atuar nas escolas de suas
comunidades faz um movimento no sentido de que não é a escola que deve ocupar a
comunidade, mas a comunidade que ocupa e se apropria da escola como instrumentos
3
Consultar o sítio da UNEAL:<http://www.uneal.edu.br/programas/programa-de-apoio-a-formacaosuperior-e-licenciaturas-indigenas-prolind >acesso em: 09 de abril de 2016
23
que possam lhes favorecer em relação á conquistas de mais diretos e afirmação da sua
identidade.
Nesse contexto o sistema educacional relacionado aos povos indígenas se
apresenta numa divisão em duas partes que se complementam: educação escolar
indígena e educação indígena.
2.1 Educação Indígena
A Educação Escolar Indígena não tem o mesmo significado que Educação
Indígena. O fato é que a educação indígena não depende da instituição escolar para que
as crianças se atentem as crenças e práticas religiosas, aos significados e os aspectos
simbólicos voltados para os processos de socialização do seu povo.
Um exemplo bem evidente relacionado a esta distinção, se dá ao observar
crianças correndo espontaneamente para se inserir com passos sincronizados em uma
dança do Toré. Este aprendizado passa por processos de observação e transmissão pelo
núcleo familiar e por outras relações sociais estabelecidas no grupo étnico o qual a
criança faz parte. A partir daí, percebe-se, que é preciso entender que este tipo de
apropriação de leitura feita inclusive pelas crianças não foi aplicado obrigatoriamente
por um espaço formal de sala de aula.
A Educação Indígena ela se dá de forma integral e continuada, está diretamente
relacionada às relações sociais do cotidiano do individuo. Terezinha Machado Maher
(2006) considera que esta abordagem sobre Educação Indígena torna-se um recorte
histórico sobre os processos educacionais necessários que facilitavam na comunicação,
na produção e nas demandas do grupo étnico.
A partir do contato com o “branco”, no entanto, esse conhecimento passou a
ser insuficiente para garantir a sobrevivência, o bem-estar dessas sociedades. É preciso
agora também conhecer os códigos e os símbolos dos não-índios, já que estes e suas
ações passaram a povoar o entorno indígena (MAHER, 2006, p. 17).
24
2.2 Os jogos Koiupanká na Educação Escolar Indígena: noções de alteridade.
Com base nos princípios que norteiam a educação diferenciada ou educação
escolar indígena, no ano de 2006, os educadores e educadoras da Escola Estadual
Indígena Anselmo Bispo de Sousa, que está localizada no sítio Roçado, na aldeia
Koiupanká começaram organizar atividades desportivas como um instrumento
pedagógico de acordo com Plano Político Pedagógico (PPP) da escola. Segundo o
diretor da escola, Professor Francisco João da Silva (Francisco Koiupanká), começaram
a fazer uma sistematização de conhecimentos, juntando saberes local da comunidade no
que se refere à história cultural, religioso e lúdico relacionando com o conhecimento
interdisciplinar aplicado na grade curricular da escola indígena, buscando assim seus
próprios instrumentos pedagógicos de acordo com a realidade local. Nesse processo
cada professor ficou com responsável por uma turma e de acordo com sua área de
ensino
A sistematização de alguns saberes locais da aldeia Koiupanká para compor
aos jogos indígenas não precisa necessariamente seguir um método formal escolar,
técnico, pois, aplica-se aí a metodologia continuada4. Segundo Meliá (1997):
Os povos indígenas mantiveram sua alteridade graças a estratégias
próprias, das quais uma foi precisamente a ação pedagógica. Em
outros termos: continuou havendo nesses povos uma educação
indígena que permite que o modo de ser e a cultura venha a se
produzir nas novas gerações, e também encare, com relativo
sucesso, situações novas. (MELIÁ, 1997 p. 21-22).
Na afirmação abordada por Bartolomeu Meliá é possível afirmar que o grupo
étnico Koiupanká ao criar e se apropriar de ações pedagógicas que interferem
diretamente de modo positivo nas formas de contar sua história, simbologias e
organização, ele está desenvolvendo uma função de manutenção da alteridade do grupo,
função essa adquirida com a contribuição feita por meio da educação indígena.
Alteridade “é um aspecto fundante na antropologia” (PEIRANO, 1999), um
debate científico ainda recente na sociedade contemporânea, globalizada e pós moderna.
Porém é um aspecto bastante complexo de se entender, não é um termo resumido em
contextos generalizados. A noção de alteridade está acompanhada em uma perspectiva
plural, ou seja, tem como ponto de partida o contato com o outro (diferente), processo
4
Metodologia continuada é o que está conceituada no presente texto como educação indígena.
25
de diferenciação da organização sociocultural entre diferentes grupos étnicos ou
sociedades e que a partir desse contato possibilita a criação mecanismos de construção
de diálogo e conhecimento sobre a cultura do outro, gerando assim outros caminhos,
novos “fluxos” que dialogam com as diferenças de forma ampla.
Esses “novos fluxos” tratam-se do desafio de se respeitar as diferenças e de
integrá-las em uma unidade que não as anule, mas que ative o potencial criativo e vital
da conexão entre diferentes agentes e entre seus respectivos contextos (FLEURI, 2003,
p. 497) que tende a possibilitar o respeito e o dialogo na busca de paridades de direito.
A noção de alteridade (PEIRANO, 1999) no presente texto direciona-se para
contextos educacionais, uma vez que a escola é o espaço de socialização de saberes,
culturas, e diferentes modos de vida que se expressam no espaço físico escolar através
das relações sociais que se formam entre as categorias que compõem a dimensão da
organização escolar. Aspectos de um mundo globalizado interferem diretamente nessas
questões, pois, com o avanço da universalização das informações tendencia a uma
uniformalização cultural, provocando até conflitos devido às diferentes visões de mundo
de cada sociedade.
São nessas circunstâncias dada pela sociedade capitalista e globalizada, que o
modelo de educação é tido como responsável e mediador de conflitos nos processos de
ensino e aprendizagem, referendados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, que no
caso da educação escolar indígena aspiram evidenciar “a diversidade étnica e cultural
que compõem a sociedade brasileira”. A educação escolar indígena aparece nesse
contexto como uma quebra de um paradigma. Pode-se dizer que a educação escolar
indígena é fruto de um movimento de alteridade dos povos indígenas do Brasil e através
dela, além de outras políticas e ações do próprio movimento indígena se mantém o
processo de socialização de saberes e reafirmação da sua identidade étnica.
Compreender as noções de alteridade relacionadas a processos educacionais,
que supera os modelos de educação institucionalizada e abre caminhos para novos
diálogos e “relações inter grupais mais amplas e suas subdivisões – étnica geracional”
ajuda a compreender o presente trabalho sobre os jogos indígenas Koiupanká,
organizado pela escola indígena da aldeia.
26
3 - Jogos indígenas Koiupanká
Antes da primeira edição dos jogos indígenas, professores da Escola Estadual
Indígena Ancelmo Bispo de Souza já realizavam atividades desportivas voltadas á
questões étnicas a fim de sensibilizar os/as jovens para aderirem às tradições e por conta
dos desafios apresentados na época: como a não existência de uma escola diferenciada,
o êxodo provocado pela ausência de políticas públicas essenciais para sobrevivência e a
luta pelo reconhecimento e demarcação da terra (Francisco Koiupanká, 19 de dezembro
de 2015).
Referente às primeiras edições dos jogos indígenas Koiupanká, O prof.
Francisco, contou que os recursos logísticos foram do que a escola tinha a oferecer:
alimentação, dormitório e trabalhos feitos de artesanato, pois foram as primeiras
experiências e não tinha a proporção de educadores/as, participação de outras
comunidades e principalmente apoio financeiro para arcar com uma grande estrutura.
No ano de 2014 a escola foi contemplada pelo Programa “Mais cultura na
escola” (criado no primeiro mandato de Dilma Rousseff) entre os mais de cinco mil
projetos. O Programa Mais Cultura na Escola até aquele momento era uma ação do
Governo Federal em uma dimensão de gestão interministerial entre o Ministério da
Educação (MEC) e o Ministério da Cultura (MINC) e tem por finalidade fomentar ações
que promovam experiências culturais em curso em comunidades e múltiplos territórios.5
Em 2015 não foi possível à realização dos jogos indígenas por não haver apoio
financeiro ao grupo por parte do Estado.
Karuazú e Kalankó realizaram em 2015 os pré-jogos. A realização de
atividades de pré-jogos ainda é algo muito recente. Pré-jogos são ações sugestionadas
pelos Koiupanká proposto a fim de incentivar com sua experiência outras comunidades
indígenas como foi o caso dos Kalankó, só que em menores delineamentos que traçam
além de um momento de lazer, uma prática pedagógica e uma forma de preparação para
os jogos Koiupanká. Nessas duas aldeias ainda não possuem escolas indígenas, os/as
estudantes que vivem nessas aldeias têm as suas aulas na zona urbana, mas estas
5
Acessar
o
manual
de
desenvolvimento
das
atividades:
<http://www.cultura.gov.br/documents/10883/1171222/manualdesenvolvimento_maisculturanasescolas_
periodo+eleitoral_19-08.pdf/ecf78e5c-f9bd-4528-a427-a1c906d12c56 > - acessado em 22 de dezembro
de 2015.
27
atividades foram realizadas por jovens, adolescentes e algumas lideranças que
participaram de outras edições dos jogos Koiupanká. Os Geripankó também já estão
realizando atividades desportivas por meio da educação escolar indígena e tendo o apoio
de alguns professores Koiupanká.
A quarta edição dos Jogos Indígenas Koiupanká, foi sucedida nos dias 19
(abertura), 20 e 21 do mês de dezembro de 2014. Durantes estes dias apenas observei,
até porque na ocasião toda a comissão organizadora e algumas lideranças da aldeia
estavam com dedicação em exclusiva às atividades.
Segundo Francisco, no início era um projeto pequeno e pensado apenas para a
escola, mas foi tomando grandes proporções e acarretou no envolvimento de outros
grupos étnicos e o envolvimento dos outros indivíduos da comunidade que se tornam os
principais sujeitos das narrativas de sua história e sua de resistência, que possibilitou o
envolvimento de outras aldeias indígenas do sertão alagoano como os povos Karuazú,
Katokin e Geripankó, localizados no município de Pariconha; e Kalankó que ficam no
município de Água Branca.
A participação desses grupos citados se deu na interação da realização das
provas com a presença de estudantes pertencentes a essas aldeias e algumas lideranças.
Também se fizeram presentes de dois representantes da etnia Pataxó, do município de
Porto Seguro, do estado Bahia, que realizam a mais de uma década grandes atividades
desportivas também com a denominação de Jogos Indígenas. Os representantes Pataxós
contribuíram no apoio de algumas provas e na produção áudio visual de todas as provas.
Outros métodos adotados pelos professores/as para a divulgação dos jogos
foram os de se apropriarem de ferramentas criadas por tecnologias que conecta o
indivíduo facilmente com o restante do mundo. A utilização de sites, blogs, aplicativos,
páginas e perfis de redes sociais de internet tornaram-se instrumentos de apropriação
dos povos indígenas a fluir o diálogo com outros grupos étnicos e a sociedade não
indígena, além disso, têm sido instrumentos de articulação para dar visibilidade das
ações do movimento indígena que favorece no incentivo a introdução principalmente de
jovens no movimento e nos trabalhos em rede como a Rede de Juventude Indígena
(REJUNDI). A comunidade possui blog e página no facebook, gerada pelos professores
e professoras que divulgam suas principais atividades do ano.
28
FOTO 03: Pajé Antonio Koiupanká (camisa azul) e o Pajé Antonio Kalankó (camisa amarela). Entre eles
estão crianças, jovens e adultos das aldeias Koiupanká e Kalankó. Jogos Indígenas do dia 19 de dezembro
de 2014. Fotografia: Wellington Neto.
FOTO 04: Crianças e adolescentes da aldeia Jeripancó prestigiando as provas do sábado a tarde logo após
a prova de arco e flexa – Jogos Indigenas 2014 . Fotografia: Wellington Neto
29
A escola diferenciada diante de diversas adversidades assume o papel
protagonista na formação cultural de um povo que envolve faixa etária desde criança até
a fase adulta. A noção de alteridade estendida pela a missão da escola indígena passa
pelo processo de apropriação da cultura do ambiente que o sujeito está inserido, fase
que possibilita compreender os significados e o processo de construção da identidade
cultural. Seguindo esta lógica, compreendo que as práticas dos jogos indígenas é um
instrumento pedagógico que contribui no processo de aprendizado tanto para quem é de
dentro da comunidade como para quem acompanha de fora e transmite um sistema de
significados, que permite compreender determinada sociedade e sua cultura.
3.1 Regras dos Jogos Indígenas Koiupanká
A aldeia Koiupanká foi a primeira do estado de Alagoas a realizar atividades
desportivas desta magnitude. Organizada com projeto pedagógico apresentando toda a
metodologia e do regulamento contendo os critérios para participarem das provas. Todo
este material pedagógico é produzido pela equipe de educadores da aldeia.
No projeto pedagógico dos jogos dispõem as disciplinas e os conteúdos que são
abordados durante todo o processo dos jogos, contemplando as 14 modalidades das
competições. As disciplinas envolvidas são: português, matemática, biologia, química,
física, geografia, história, sociologia, educação física, artes e filosofia. Para os
professores indígenas Koiupanká, conforme consta no projeto pedagógico a
interdisciplinaridade nos jogos favorece no aprendizado coletivo e na construção de
conhecimentos não somente dos indivíduos diretamente ligados na instituição escolar,
pois provoca um envolvimento maior de toda aldeia.
Ao analisar o projeto pedagógico dos jogos, percebe-se que todas as
modalidades são relacionadas a lazer, trabalho e meios de sobrevivência aparentemente
de forma lúdica. As modalidades realizadas nos jogos de 2014 foram: modalidade
tacape, modalidade cabo de guerra, modalidade corrida do maracá, modalidade corrida
do sexto, modalidade arco e flecha, modalidade zarabatana, modalidade badoque,
modalidade corrida do pote, pithiá, estilingue, luta corporal, peteca, quebra de braço e
burduna. Materiais como arco, flechas e zarabatanas eram de responsabilidade de cada
aldeia.
30
Todas as modalidades dos jogos foram realizadas em uma arena grande que
fica no sitio roçado. Esta arena foi construída pelo pessoal da própria comunidade. Chão
de barro batido e espaço isolado com um cercado de madeira e barbante de cipó em
volta de toda arena, nome de referência a espaços de jogos. O isolamento é feito para
evitar aglomeração de quem não faz parte da competição, mas nem sempre acaba
funcionado.
Os organizadores deram o nome do espaço dos jogos de Arena Towê, que
significa “espaço de festa”. A entrada na arena dos jogos só é permitida com a
autorização da coordenação; Também foi necessário o uso de um carro de som para
fazer a narrativa das competições e para chamar os/as competidores/as. O carro de som
foi doado pela prefeitura do Município assim como uma máquina patrol que serviu para
tirar o mato onde fica a arena e deixar o chão em formato plano; para indígenas da
comunidade e visitantes se abrigarem da chuva e nas horas fortes do sol foram
colocadas três tendas brancas grandes doadas pela secretaria estadual de educação.
3.2
Modalidades do jogo Koiupanká
Modalidades são as categorias e provas de todas as competições com objetos que
apresentam aspectos simbólicos da cultura indígena6:
1. Tacape: a pessoa que participar da prova fica com os olhos vendados para tentar
acertar o alvo. O alvo é um pote que fica no meio da arena de areia onde os
jogos são realizados. O tacape é um instrumento de madeira, chamado
popularmente de porrete, forte e foi utilizado por muitos povos antigos como
arma e para acertar animais em caças. Atualmente é utilizado pelos Koiupanká
para bater o feijão seco retirado das roças nas roças.
6
Infelizmente não possível o registro fotográfico de todas as modalidades do IV jogos Koiupanká
31
Foto 05: Crianças Koiupanká com o tacape; imagem produzida no dia 20 de dezembro de 2014 Jogos Indígenas Koiupanká. Fotografia: Wellington Neto.
A fotografia acima foi registrada durante uma apresentação teatral a qual
crianças contavam sobre o papel da liderança indígena que deve se portar como
guerreiro. Em algumas sociedades o tacape é também um instrumento de guerra e jogo.
A próxima fotografia foi registrada pela Escola Indígena Anselmo Bispo de Souza e
mostra a utilização do que aqui estamos chamando de “tacape” como um instrumento de
trabalho para a quebra do feijão de corda seco.
32
Foto 06: Quebra de feijão de arranca seco no núcleo roçado da aldeia Koiupanká. Fotografia:
perfil oficial do facebook da escola Anselmo Bispo Koiupanká, publicada no dia 08 de janeiro
de 2015.
2. Cabo de Guerra: por meio de uma corda longa dois grupos opostos usam a força
durante três minutos para conseguir maior parte da corda. Esta competição é
realizada entre homens e mulheres e disputada entre diferentes grupos étnicos do
sertão que participam dos jogos. Esta atividade é realizada nos jogos Koiupanká
para relembrar o tradicional ritual Pankararú chamado de puxada do cipó.
A fotografia apresentada a seguir foi registrada durante a primeira experiência dos jogos
indígenas organizado pela equipe de professores da Escola Estadual Indígena José
Carapina, na comunidade Ouricuri do grupo étnico Geripankó. Momento também
considerado como preparação dos estudantes Koiupanká para seus jogos. Nessa foto
aparece as mulheres, a maioria professoras da escola dos Koiupanká, vestidas no
uniforme de cor preta e da escola dos Geripankó que na ocasião acabou vencendo a
prova.
33
Foto 07: competição feminina entre Koiupanká e Jeripankó. Imagem produzida no dia 10 de
junho de 2016 durante os jogos da aldeia Jeripankó – Fonte: Wellington Neto.
3. Corrida do Maracá: é um instrumento sagrado, de grande valor cultural e
religioso para diversos povos indígenas, indispensável nas práticas ritualísticas
do povo Koiupanká. Os indígenas que competem nos jogos realizados na aldeia
fazem o revezamento do maracá num percurso de 300 metros por meio de
corrida segurando o maracá;
34
Foto 08: Corrida do maracá. Imagem retirada da página oficial (facebook)da escola Ancelmo
Bispo de Sousa, periodo dos jogos na aldeia Geripankó realizado pelos professores indígenas da
aldeia com a participação dos estudantes Koiupanká no dia 10 de junho de 2016.
Fonte:<www.facebook.com/photo.php?fbid=1590106277948880&set=pb.100008485689420.2207520000.1472596490.&type=3&theater>, link acessado em 29 de agosto de 2016.
4. Corrida com o cesto: o cesto feito de cipó é um utensílio muito comum em
comunidades rurais e comunidades tradicionais é utilizado para diversas
finalidades, muito comum também entre os Koiupanká. É um balaio utilizado
principalmente para guardar frutas e outros tipos de alimentos. Nesta prova, é
realizada uma corrida que participam pessoas do sexo masculino ou feminino,
estudantes da escola indígena. Na corrida do cesto é feito um revezamento entre
os participantes com o utensílio cheio de fruto do ouricuri, alimento muito
comum na região do sertão. A fotografia a seguir mostra o percurso que as
estudantes indígenas Koiupanká fizeram durante essa competição.
35
Foto 09: Corrida do cesto na cabeça em volta dos potes – Jogos Indígenas Koiupanká, 20 de dezembro de
2014. Fonte: Wellington Neto.
5. Arco e flecha: instrumentos utilizados por diversas sociedades indígenas e
carregados por grandes valores simbólicos e sagrados em sociedades indígenas.
Esta competição é realizada em referimento ao ritual da flechada do imbú dos
povos Pankararus. Nesta modalidade, pessoas do sexo masculino devem acertar
um alvo tendo três tentativas.
36
Foto 10: modalidade arco e flecha - Jogos Indígenas Koiupanká, 19 de dezembro de 2014. Fotografia:
Wellington Neto.
As fotografias referentes à competição de arco e flecha demostra a participação e
concentração dos estudantes Geripankó durante a realização dessa prova no período do
IV jogos indígenas Koiupanká.
Foto 11: Alvo da modalidade da prova da flecha – Jogos Indígenas Koiupanká, 19 de dezembro de 2014.
Fonte: Wellington Neto.
37
6. Zarabatana: instrumento também histórico utilizado desde as sociedades
primitivas. Utilizado para a caça e mobilização de animais através do veneno
que era colocado no dardo da peça. Não é utilizado para trabalhos cotidiano de
caça e abate na comunidade Koiupanká e não se sabe de registro desse
instrumento entre os povos indígenas do nordeste;
Foto 12: modalidade zarabatana, jogos indígenas Koiupanká, 19 de dezembro de 2014. Fonte:
Wellington Neto
7. Badoque: assim como arco e flecha é instrumento muito antigo com
características parecidas. Retira-se o arco da flecha e coloca uma pedra no local,
isso em tamanho muito pequeno, em formato de “y”, para atirar a pedra é usado
um material como elástico feito de pedaços de borrachas. Nesta modalidade cada
participante da prova também teria que acertar o alvo; o badoque é uma
nomenclatura comum naquela região do sertão, em outros locais é chamado de
estilingue. É um instrumento antigo que é utilizado para caça de animais
pequenos como aves e utilizado entre as crianças que costumam brincar na
caatinga.
8. Corrida do pote: A corrida de pode acontece de formas distintas: a primeira com
as meninas estudantes da comunidade que tem que encher de água os potes
grandes e vence quem encher primeiro, a outra forma desta competição é numa
38
corrida de aproximadamente 100 metros com pessoas com homens carregando o
pote nas costas e mulheres no colo ou na cabeça.
O pote é um utensílio também comum em sociedades indígenas e não indígenas,
é muito utilizado na comunidade para guardar a água que serve para beber.
Foto 13: Corrida do pode, na aldeia Geripankó realizado pelos professores indígenas da aldeia
com a participação dos estudantes Koiupanká no dia 10 de junho de 2016; Fonte: Wellington
Neto
9. Pithiá: Essa é uma das provas mais animadas dos jogos. O Pithiá é feito da palha
do ouricuri em formato de trança, participa homens e mulheres (jovens), cada
competidor entre um corredor formado por mulheres, as mulheres seguram cada
uma segura um pedaço de galho de uma planta chamada cansanção, o cansanção
é um arbusto urticante que provoca forte coceira e queimaduras no contato com
a pele. Nesta atividade o competidor passa pelo corredor onde as mulheres
começam a passar a chicotear o cansanção em suas pernas, além disso, ele tem
que disparar três pedras pequenas, um de cada vez em dois potes cheios de água;
10. Luta corporal: geralmente quando nos referimos à luta corporal nos vem a ideia
de conflito, combate violento através da força física com a intenção de
estabelecer a dominância sobre o rival. Nos jogos Koiupanká a luta corporal
aparece com outro sentido e com outra dinâmica. A prova realizada foi realizada
na noite do dia 20 de dezembro de 2014 (terceira noite) por homens e mulheres é
inspirada na rapidez do gato maracujá. O gato maracujá é um animal conhecido
da região do semi- árido pela agilidade e façanha.
39
Nesta atividade cada competidor deve usar agilidades de ataques e defesa, cada
um coloca um pacote (saco plástico) com argila molhada nas costas e os
adversários devem estourar este saco e passar a argila branca no rosto do
adversário.
O propósito da luta corporal nos jogos Koiupanká está relacionado a
compreender as habilidades do corpo;
11. Peteca: O jogo da peteca é de origem indígena e ultrapassou sociedades não
indígenas que criaram várias regras para o jogo. A peteca tem uma base parecida
com bola pequena de borracha tendo ainda duas penas. Na aldeia Koiupanká, em
formato de circulo os competidores se organizam e devem jogar a peteca uns
para os outros foi eliminado quem deixou a peteca cair ficando apenas uma
pessoa como vencedor. Nesta prática desportiva participaram crianças e jovens;
12. Quebra de braço: também outra modalidade que representa resistência física e é
também uma brincadeira praticada em sociedades não indígena. As pessoas que
competiram não podiam deixar que o oponente virasse o braço do outro para a
posição horizontal. Participaram dessa prova jovens homens e mulheres. A
próxima fotografia mostra a disputa entre duas jovens Koiupanká que chamou
bastante atenção de quem assistia aos jogos na noite do dia 20 de dezembro de
2014.
40
Foto 14: Quebra de braço feminino nos jogos indígenas Koiupanká 2014. Fonte:Imagem retirada
da página oficial do facebook da escola Ancelmo Bispo de Sousa, através do link
<https://www.facebook.com/profile.php?id=100008485689420&sk=photos&collection_token=1
00008485689420%3A2305272732%3A5 > acessado em 30 de abril de 2016.
13. Borduna: a prova é feita pelo arremesso da borduna e vence a competição aquela
pessoa que arremessar o mais longe possível em três tentativas.
A borduna é um dos instrumentos antigos na cultura bélica indígena,
instrumento que tem atualmente um forte valor simbólico relacionado à luta no
movimento social indígena por direitos constitucionais mostrando o valor
simbólico da bravura de algumas etnias. A borduna é feito de madeira dura com
uma ponta de bico e desenhos e pinturas que variam de um grupo étnico para
outro.
Na noite do dia 19 de dezembro de 2014 foram realizadas outras atividades que
não exerciam habilidades físicas, com apresentação teatral encenada pelas crianças da
escola da comunidade na qual abordaram o tema “o ser guerreiro na infância”, tratou-se
de uma encenação sobre a importância da preservação das matas e animais. Além dessa
atividade houve exposição, troca e venda de ervas medicinais como o chá do feijão andú
ou também pode ser chamado de guandu (varia entre as regiões), que serve para
substituir o café normal e ajuda a estancar hemorragias, erva muito comum na região.
Nessa noite de participação das mulheres da comunidade que não estão engajadas
diretamente na educação escolar indígena, porém cumpre um papel diário na educação
do cuidado a saúde com apropriação de preparos feitos por ervas medicinais.
41
(...) ultrapassar uma dimensão temporal e espacial, mas principalmente,
tentam demonstrar sua cultura e práticas étnicas que permanecem e que
são apresentadas ampla e publicamente em reproduções materiais
representadas nas vestes, pinturas e adornos corporais, formas de
alimentação e de veneração aos encantados, e principalmente de se autoapresentar com suas particularidades étnicas renovadas a partir de
elementos identitários considerados tradicionais na forma de
reconhecimento das populações indígenas nacionais, vistas genericamente
a partir de elementos visíveis reconhecidos nas sociedades indígenas
(MARTINS, 2007,p 150).
As práticas corporais dos jogos Koiupanká não se expressam apenas nas
competições que exigem habilidades físicas, elas vêm acompanhadas pela
caracterização do corpo através das pinturas e vestimentas que são indispensáveis e
estão presentes no regulamento do jogo. Este tipo de caracterização é também uma
expressão de pertencimento ao grupo étnico.
Para a identificação dos/das participantes das provas, era necessário está
utilizando uma ombreira que faz parte da veste indumentária de quem participa, tendo
na ficha de inscrição a informação de qual comunidade o/a participante pertence.
3.3 O Toré
Foto 15: dança do toré encerramento dos jogos na aldeia Geripankó com a presença dos Koiupanká e
Katokin no dia de junho de 2016; Fotografia: Wellington Neto.
42
A dança também se apresenta como um dos principais instrumentos educativos
tendo o uso do corpo uma função pedagógica, carregada de mistérios, sentidos e
significados das suas práticas culturais. A abertura de cada prova, homens e mulheres,
jovens, adultos, idosos e principalmente crianças seguem o ritmo sincronizado dos
passos no chão do “terreiro” trazendo a ancestralidade e se apresenta como um espaço
de reafirmação da sua identidade étnica e das relações sociais de paz estabelecidas entre
os indivíduos da comunidade e com outras aldeias que participam e prestigiam os jogos.
O toré é um elemento marcante que está presente em todas as etapas dos IV
Jogos Koiupanká o qual é permitido todas as pessoas indígenas que desejam inserir sem naquele momento do rito mesmo não estando participando em nenhuma
modalidade dos jogos. Estes são os principais momentos de interação entre os povos
indígenas presentes durante a culminância dos Jogos Koiupanká.
Em todos os momentos dos jogos havia presença forte do som da maraca e do
pisado da dança do toré. “O toré pode ser dançado em alguns momentos por todos,
inclusive não indígena convidado; dança tipicamente religiosa, que tem muitas
finalidades, entre elas: agradecimento, festa, louvor, penitência, selar amizades” (Vieira,
2010 p. 16). No início de cada prova dos IV Jogos Indígenas Koiupanká é puxado um
toré pelos organizadores e/ou lideranças de outras aldeias, nesse caso, apenas indígenas
poderiam participar do momento.
A luta por se mostrar índio – e não se diluir entre os regionais e perder
suas características identitárias (ou adesão étnica) – se promove e se
consolida, em larga medida, na instância ritual dos torés promovidos e
mantidos com trabalho pelas pessoas engajadas na manutenção da
etnicidade indígena (GRÜNEWALD, 2005, p. 14).
Grünewald (2005) acentua o toré como elemento cultural-religioso construído
a partir da crença e tradições estabelecidas por cada povo. Salienta ainda que o toré
possa ser ademais constituído por “motivações étnico-políticas”, ou seja, segundo
Grünewald o toré é um ritual que indígena que se tornou também um instrumento de
afirmação da identidade étnica frente ao Estado.
43
3.4 O jogo e o rito
(...) o conceito de jogo não se resume apenas na ideia de competições,
mas cultural, com fragmentos religiosos e lúdico processo pedagógico
utilizado para atrair principalmente os mais jovens (Francisco
Koiupanká).
Em alguns momentos de rituais como o praiá, ritual do milho, da mandioca e
queimada do murici as comunidades dos Koiupanká mudam suas atividade rotineiras.
Estes momentos de rituais como o da queimada do murici ocorrem geralmente em abril
ou março (sábado da semana santa) quando passam por um momento espiritual
profundo apenas entre indígenas (VIEIRA, 2010). É o período que comemoram o seu
ressurgimento.
Nos IV Jogos Koiupanká todos os momentos de provas são abertos para serem
prestigiados por não indígenas, mas apenas indígenas podem participar das provas. Não
indígenas casados com indígenas não podem participar dos jogos como atletas, mesmo
morando há anos na aldeia. Conjecturo que tal ocorrência aconteça devido às
circunstâncias ritualísticas que ocorrem no início de cada prova, sendo que nessa
comunidade indígena rituais são somente permitidos á indígenas.
Foto 16: Dança do Toré puxado pelo pajé Antonio Kalankó na abertura da prova arco e fecha – Jogos
Indígenas Koiupanká, 19 de dezembro de 2014. Fotografia: Wellington Neto.
44
Antes do café da manhã do domingo as lideranças dos jogos se encontraram
em um espaço reservado para um momento de ritual para pedir proteção aos seus
encantados durante as atividades do dia. Não observei o ocorrido, pois entendia as
limitações impostas em trabalho de campo pelos organizadores e preferi ficar com as
crianças que muito cedo já estavam acordadas, enquanto umas crianças tomavam café,
alguns educadores pintavam as outras crianças que cantavam e tiravam fotos do corpo
pintado com argila e folha de jenipapo.
De acordo com Levis-Strauss (1997) é essencial fazer algumas ponderações
sistemáticas entre o jogo e o rito:
O jogo aparece (...) como disjuntivo: ele resulta na criação de uma
divisão diferencial entre os jogadores individuais ou das equipes, (...).
No caso do jogo, a simetria é pré-ordenada; ela é estrutural, pois decorre
do princípio de que as regras são as mesmas para os dois campos. (...).
No caso do ritual, ocorre o inverso: coloca-se uma assimetria
preconcebida e postulada entre profano e sagrado, fiéis e oficiantes,
mortos e vivos, iniciados e não-iniciados etc., e o ‘jogo’ consiste em
fazer passarem todos os participantes para o lado da parte vencedora,
através de fatos cuja natureza e ordenação têm um caráter
verdadeiramente estrutural (LÉVI-STRAUSS, 1997, p. 48).
Lévi-Strauss em suas análises sobre a antropologia estrutural do jogo e do rito,
ao observar alguns rituais chega à conclusão que as relações e as diferenças entre jogo e
rito são estruturais: “todo jogo se define pelo conjunto de suas regras, que tornam
possível um número praticamente ilimitado de partidas; mas o rito, que também se
‘joga’, parece-se mais com uma partida privilegiada, retida entre todas as possíveis, pois
apenas ela resulta em certo equilíbrio entre dois campos” (LÉVI-STRAUSS, 1997, p. 46).
Lévi-Strauss (1997) aponta que jogo e rito são estruturantes devidos seus
conjuntos de regras, mas afirma que a religião não é um jogo, assim percebe-se relações
e as diferenças entre jogo e rito de forma mais evidente: num jugo, no final de cada
partida os indígenas que participarão se distinguirão entre os que venceram e os que
perderam.
No ritual esse processo é inverso, consolidado sem classificação entre
perdedores ou vencedores, estabelecendo assim um conjunto de união.
A intenção não é simplificar os rituais aos processos dos jogos. Compreendo
que o ritual abrange maiores proporcionalidades que podem permear forma de
organização de cada povo indígena e também em diversos contextos, inclusive em
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atividades como os jogos Koiupanká que se pode afirmar sua preponderância na
educação indígena presente comunidade envolvida.
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Considerações finais
O desenvolvimento deste trabalho buscou discorrer sobre as práticas lúdicas,
religiosas e desportivas realizas por crianças, adolescentes e jovens. O intuito foi de
identificar reais contribuições para os sujeitos da aldeia indígena Koiupanká. Ao se
debruçar sobre os estudos dos jogos indígenas na aldeia Koiupanká, constata-se que
parte rudimentos pré-concebíveis podem ser considerados condizentes com a
contextualização encontrada no apanhamento de alguns dados etnográficos.
Sendo assim, este estudo colaborou para identificar e afirmar algumas
possibilidades: a realização dos jogos Koiupanká é uma ideia de reinvenção de práticas
culturais que se deram a partir do contato com outros grupos étnicos e organizações
indígenas que se basearam em competições olímpicos das sociedades ditas
“civilizadas”, mas criando metodologias e objetivos vindos dos próprios indígenas, as
quais patenteiam estratégias e finalidades convergentes, mas também com
particularidades próprias. Ou seja, compreende-se que as estratégias e finalidades
apresentam características convergentes no sentido que a execução dos jogos
possibilitou celebrar e compartilhar experiências que proporcionaram a interação entre
pessoas de variadas faixas etárias da aldeia e as boas relações entre os grupos étnicos
que participaram dos jogos; Por outro lado, as estratégias e finalidades possuem
particularidades com interesses internos: tornar-se visível para setores da sociedade não
indígena por meio da prática da alteridade possa fortalecer a garantia das políticas
públicas reivindicadas pelos Koiupanká, e a estratégia adotada para consubstancializar
os conceitos teóricos entre a educação indígena e a educação escolar indígena.
Na condição de pesquisador, apenas a observação das provas dos jogos
Koiupanká no período de sua culminância, não facilita a compreender os significados
dos elementos culturais, estruturais e as dimensões que compõem os objetivos dos
jogos. É indispensável afirmar que as percepções dos elementos mencionados só foram
possíveis devido às narrativas dos sujeitos responsáveis, ao acesso aos projetos
pedagógicos dos jogos, leituras e pesquisas sobre a educação escolar indígena e com a
minha participação na construção de um dos projetos que tinha como finalidades
angariar recursos para os jogos, esse projeto tornou-se essencial no estreitamento das
afinidades entre o pesquisador e os sujeitos investigados e possibilitou a coleta de dados
relevantes para o desenvolvimento do trabalho.
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Sabemos que nas ciências sociais nenhuma pesquisa deve ser considerada
conclusiva. A pesquisa sobre os jogos indígenas em Koiupanká, pelo fato de ser uma
prática em processo de gestação, exigiu uma responsabilidade muito maior na busca de
referenciais para chegar às conclusões expostas nos breves capítulos deste trabalho, pois
se trata ainda, de um exercícios na construção e buscas de conhecimentos e
aprimoramento dos próprios índios, sujeitos implícitos nestes jogos, nos quais buscam,
não tão somente expectativas de afirmações identitárias, mas também uma forma ímpar
de organização e aprofundamento de experiências enquanto povos indígenas
contemporâneos, de modo que, este trabalho ou a pesquisa sobre os jogos Koiupanká na
educação escolar indígena, propões novos caminhos para mais uma linha de estudo das
ciências sociais dentro da aérea da etnologia indígena.
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