A vida do campo na cidade: a inscrição do habitus rural no bairro Benedito Bentes

Discente: Aline Maria Silva de Araújo Orientadora: Ruth Vasconcelos

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS – ICS
CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS SOCIAIS

Aline Maria Silva de Araújo

A VIDA DO CAMPO NA CIDADE:
A inscrição do habitus rural no bairro Benedito Bentes.

Maceió
2017

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS – ICS
CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS SOCIAIS

ALINE MARIA SILVA DE ARAUJO

A VIDA DO CAMPO NA CIDADE:
A inscrição do habitus rural no bairro Benedito Bentes.

Monografia apresentada ao curso de Licenciatura
em Ciências Sociais na Universidade Federal de
Alagoas, como requisito para obtenção do grau
de Licenciado em Ciências Sociais.

Orientadora: Profª Drª Ruth Vasconcelos

MACEIÓ
AL

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS – ICS
CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS SOCIAIS

ALINE MARIA SILVA DE ARAUJO

A VIDA DO CAMPO NA CIDADE:
A inscrição do habitus rural no bairro Benedito Bentes.

Trabalho de conclusão de curso submetido à Banca Examinadora designada pelo Curso de
Ciências Sociais como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Licenciatura
em Ciências Sociais.

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________________
Profª Drª Ruth Vasconcelos

______________________________________________________
Profº. Drª Elaine Cristina Pimentel Costa

______________________________________________________
Profº. Drª Fernanda Rechenberg

Maceió
2017

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Dedico essa monografia a minha avó Zulmira (in memoriam)
pelo amor materno.

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AGRADECIMENTOS

Grata,

A Deus por ter me dado perseverança para conseguir mais uma vitória.

Imensamente ao meu pai Aloísio, pela sua dedicação e empenho nos meus estudos.

À minha tia Josefa e à minha mãe Josinete pelo apoio às minhas decisões.

A meu esposo Paulo pelo amor, auxílio e assistência sempre que necessário nesta jornada.

Às minhas irmãs Betty e Neide pelo carinho e atenção.

Aos meus filhos, Karoline e Thyago, por existirem em minha vida com imenso amor e
alegria.

Aos meus amigos, Fausto e Ieda que me fizeram companhia nessa trajetória.

À minha orientadora Profª Drª Ruth Vasconcelos pelo estímulo e exemplo que me levaram
a seguir em frente.

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O habitus é esse princípio gerador e unificador que retraduz as
características intrínsecas e relacionais de uma posição em um estilo
de vida unívoco, isto é, em um conjunto unívoco de escolhas de
pessoas, de bens, de práticas. (BOURDIEU. 1996, p. 21,22.)

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RESUMO

Este trabalho apresenta uma investigação realizada nos Conjuntos Residenciais Benedito 1 e
Benedito 2, que se localizam numa área distante do centro da capital de Alagoas, visando
identificar, a permanência de traços e hábitos rurais na vida dos moradores desses dois espaços
residenciais, destacando como se dá a relação entre o rural e o urbano para essa população.
Através de uma literatura que discute a relação entre o mundo rural e o urbano, evidenciamos
com este estudo, como a tradição rural mantém-se no cotidiano do Bairro, em que se estabelece
uma relação de submissão e ou oposição entre os hábitos da cidade e do campo, ou vice-versa,
entre os hábitos do campo e da cidade. Nossa hipótese é que ao estarem acostumados com o
modo de viver rural, os moradores procuram se acomodar ao modo de viver urbano, sem que
possam totalmente se desapegar de suas tradições e costumes. Nosso estudo se propõe a discutir,
através de uma literatura sociológica, como acontece essa dicotômica rural/urbano, tendo como
base a realidade vivida pelos moradores do Benedito Bentes, a partir dos quais buscamos
assinalar alguns impactos que vivenciam a partir dessas tensões culturais. Foi possível realizar
um estudo que seguiu um caminho metodológico com viés quantitativo e qualitativo, através do
qual se procurou analisar os espaços presentes no bairro através do seu conteúdo social e
histórico. Analisamos os processos migratórios que formaram os dois conjuntos residenciais, a
saber, Benedito Bentes 1 e Benedito Bentes 2, que se dividem em razão da sua construção e
tiveram datas de inauguração em etapas diferentes. Assim, a reflexão apresentada neste trabalho
nos propicia uma investigação que vai além dos conceitos de rural e urbano, compreendendo a
dinâmica de espaços que se interagem no modo de viver, em que apesar da inserção dos hábitos
urbanos, os moradores do bairro Benedito Bentes permanecem com os traços de um modo de
vida rural. Pois, o rural e o urbano estão presentes no bairro não somente representados pelos
hábitos do campo e da cidade nas práticas dos moradores, mas também através de suas
paisagens; assim, tanto no espaço urbano, como nas dimensões subjetivas é possível encontrar,
na prática de cada indivíduo, movimentos de interação nas duas direções, do estilo rural ao modo
de vida urbano, e da cultura do campo para a dinâmica das cidades.

Palavras-Chave: Urbano/Rural. Hábito. Processo Migratório.

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ABSTRACT

This work presents an investigation carried out in the Benedito 1 and Benedito 2 Residences,
located in an area far from the center of the capital, aiming to identify the permanence of rural
traits and habits in the life of the residents of these two residential spaces, highlighting how the
Between the rural and the urban for this population. Through a literature that discusses the
relationship between the rural and the urban world, we show with this study how the rural
tradition continues in the daily life of the neighborhood, in which a relationship of submission
and opposition is established between the habits of the city and Of the countryside, or vice
versa, between the habits of the countryside and the city. Our hypothesis is that, because they
are accustomed to the rural way of life, the residents seek to adapt to the urban way of life,
without being able to totally detach themselves from their traditions and customs. Our study
proposes to discuss, through a sociological literature, how this rural / urban dichotomy happens,
based on the reality lived by the residents of Benedito Bentes, from which we seek to point out
some of the impacts that they experience from these cultural tensions. It was possible to carry
out a study by adopting a methodological path with scientific bases, in which it was tried to
analyze the spaces present in the neighborhood through its social and historical content. We
analyzed the migratory processes that formed the two residential complexes, namely Benedito
Bentes 1 and Benedito Bentes 2, which are divided by reason of their construction and had
inauguration dates in different stages. Thus, the reflection presented in this work provides us
with an investigation that goes beyond the concepts of rural and urban, including the dynamics
of spaces that interact in the way of living, in spite of the insertion of urban habits, the residents
of the neighborhood Benedito Bentes remain With the features of a rural way of life. For the
rural and the urban are present in the neighborhood not only represented by the habits of the
countryside and the city in the practices of the residents, but also through their landscapes;
Thus, both in urban space and in the subjective dimensions, it is possible to find in each
individual's practice movements of interaction in both directions, from the rural style to the
urban way of life, and from the culture of the countryside to the dynamics of cities.

Keywords: Urban / Rural. Habit. Migratory Process.

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SIGLAS

CARHP - Companhia Alagoana de Recursos Humanos e Patrimoniais.

COHAB - Companhia de Habitação Popular de Alagoas.

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

SEMINFRA - Secretaria Municipal de Infraestrutura e Urbanização.
AMBEV - Americas’ Beverage Company (Companhia de Bebidas das Américas).

CEASA - Central de Abastecimento Alimentício- hortifrutigranjeiros.

CEAL - Companhia Energética de Alagoas.

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LISTA DE ILUSTRAÇÃO

Figura 1: Fazenda Santa Luzia - Benedito Bentes 2.
Figura 2: Ano da inauguração do complexo Benedito Bentes 1.
Figura 3: Foto Benedito Geraldo do Vale Bentes.
Figura 4: Protesto Conjunto Frei Damião – Benedito Bentes 2.
Figura 5: Mapa Climático de Alagoas.
Figura 6: Imagem aérea do Complexo residencial Benedito Bentes 1.
Figura 6a : Imagem aérea do bairro.
Figura 7: Final da Av. Pratagy.
Figura 8: Feira ao Livre B. Bentes 2
Figura 9: Réveillon Praça Pe. Cícero.
Figura 10: Condomínios Recantos.
Figura 11: AMBEV
Figura 12: Av. Garça Torta B. Bentes 1
Figura 13: Av. Pratagy B. Bentes 1.
Figura 14: Conjunto Residencial Cidade Sorriso B. Bentes 2
Figura 15: Conjunto Frei Damião B. Bentes 2.
Figura 16: Conjunto Carminha B. Bentes 2.
Figura 17: Grota da Alegria.
Figura 18: Famílias que residem nas áreas verdes.
Figura 19: Mercadinho do bairro, B. Bentes 2.
Figura 20: Festividade no B. Bentes 2.
Gráfico 1: Capitulo 2.
Tabelas 1 à 16: referente aos questionários aplicados.

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Sumário
INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 12
UM PERCURSO METODOLÓGICO .................................................................................... 15
CAPÍTULO 1 – FORMAÇÃO HISTÓRICA DO BAIRRO BENEDITO BENTES .......... 17
1.1– Benedito Bentes um bairro Urbano/Rural. ...................................................................... 22
1.2 – A cidade vista sob o olhar da Escola de Chicago ........................................................... 26
1.3 – O continuum entre o rural e o urbano no complexo residencial Benedito Bentes 1 e 2. 30
CAPÍTULO 2 - O URBANO/RURAL E HÁBITO A PARTIR DE UMA
CONCEITUALIZAÇÃO TEÓRICA. ..................................................................................... 74
2.1 – O conceito de habitus sob a perspectiva de Pierre Bourdieu e Norbert Elias. ............... 45
2.2 - Analisando o conceito de habitus para ambos os autores. .............................................. 49
CAPÍTULO 3 – A VIDA DO CAMPO DA CIDADE: A PERMANÊNCIA DOS TRAÇOS
DOS HÁBITOS RURAIS NOS ESPAÇOS URBANOS. ....................................................... 86
3.1 – O Bairro Benedito Bentes sob a ótica dos moradores. ................................................... 57
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................... 75
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA..............................................Erro! Indicador não definido.
ANEXO 1 ........................................................................................Erro! Indicador não definido.

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INTRODUÇÃO

Foi a partir da observação e do contato cotidiano com os moradores do bairro Benedito
Bentes, ao longo do trajeto que percorria para chegar à minha casa, que surgiu meu interesse
pelos traços rurais que se apresentam na vida dos moradores do complexo residencial
Benedito Bentes 1 e Benedito Bentes 2. Através das conversas e acontecimentos no bairro
desenvolvi esse particular interesse em realizar uma pesquisa sociológica que me
possibilitasse discutir a circunstância em que alguns moradores, embora vivendo num espaço
urbano, apresentam, em suas práticas e na reprodução de valores, características do mundo
rural.
Cabe ressaltar que o problema que me impulsionou à realização desse estudo foram as
relações estabelecidas entre os habitantes e o lugar, de modo a analisar os processos
migratórios que formaram os dois conjuntos residenciais que se transformaram num bairro,
nos quais as realidades que foram encontradas assemelham-se ao modo de vida reconhecido
como rural. Com essa perspectiva, propomos examinar aspectos da dinâmica urbano/rural,
através das práticas cotidianas dos moradores e das tradições presentes no local, que se
revelam na forma de vestir, no jeito de falar e nos hábitos do cotidiano do bairro.
O contato que tivemos com a população, especialmente a partir da observação de
campo, realizando entrevistas e aplicando questionários durante a pesquisa, levou-me a
perceber o quanto o modo de viver rural dessas pessoas influenciam no seu dia a dia, e estão
presentes também no espaço físico do bairro. Constatamos que apesar de ser uma construção
urbana, trata-se de um território cercado pelo cultivo de cana-de-açúcar, áreas verdes, e de
uma fazenda local chamada popularmente de Fazenda Duas Bocas, como pode ser visto no
registro fotográfico a seguir.

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Figura 1. Fazenda Stª Luzia, popularmente chamada Fazenda Duas Bocas1.

Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

O autor Bertrand (1973) pontua que os EUA, no seu aspecto urbano, mantém alguns
valores coloniais, embora seja um país com características urbanas; assim, não há diferença
no vestir, no falar em relação ao rural, embora existam áreas afastadas do centro que trazem
esses aspectos urbanos:
“Os termos rural e urbano quando aplicados aos EUA, já que o país
tornou-se culturalmente urbano, e o povo rural não pode mais ser
diferenciado do urbano no vestir, no falar, nos hábitos e valores,
apesar ainda de haver áreas nos EUA que ainda retêm valores da
América colonial” (BERTRAND, 1973 p.63).

Conquanto, para compreender o apego aos hábitos rurais desses moradores a partir dos
ditames sociológicos, buscando nas referências teóricas informações de estudos que
possibilitasse fazer uma problematização sobre esse fenômeno ocorrido num bairro da capital
Maceió, em que uma parcela desses moradores no Benedito Bentes, classifica seu bairro como
interiorano e rural, segundo relatos de próprios moradores que foram entrevistados. Talvez
essa compreensão advenha do fato de ser um bairro localizado num território distante do
centro da cidade.
Através do uso de fotografias para auxiliar a coleta de dados da pesquisa, notamos a
existência de uma diferença, tanto espacial como social, entre os dois conjuntos situados no
1

Acima da imagem, observamos o Aterro Sanitário que foi transferido para o bairro. Contorna todo
limite territorial do Benedito “1” e do Benedito Bentes “2”.

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mesmo bairro denominados, respectivamente, de Conjunto Residencial Benedito Bentes 1 e
Conjunto Residencial Benedito Bentes 2. A construção e inauguração desses bairros
aconteceram em períodos de tempos diferentes, e isso pode ser um fator que acentue as
diferenças entre os bairros. Foi encontrado um desenvolvimento territorial abrangente no
conjunto residencial classificado de número “2”, onde fora realizado a construção de outros
conjuntos residenciais para suprir a demanda migratória no bairro.
Apesar de saber que todos esses novos conjuntos residenciais foram resultado de um
planejamento urbano e territorial, não nos propomos a analisar esse processo de planejamento,
mas tão somente tentar compreender como se dá a permanência de traços e hábitos rurais em
meio àquela população. Para tanto, utilizamos instrumentos apropriados da sociologia para
desenvolver uma análise sobre esta vida social, como também o uso de instrumentais teóricometodológicos e empíricos que, de alguma forma, auxiliaram no esclarecimento de questões
que foram sendo descobertas ao longo do processo de coleta do material empírico.
Identificamos três temáticas importantes para discutir neste TCC, e que dialogam com
a problemática que tomei para estudo: a relação Urbano/Rural, discussão sobre hábitos e
sobre processos migratórios. Essas discussões estão presentes nos três capítulos que compõe
esse trabalho.
Assim está estruturado o nosso TCC: no primeiro capítulo, a atenção foi voltada para a
formação histórica do bairro Benedito Bentes. Sobre os moradores que inauguraram o
primeiro complexo residencial e nome dado a homenagear Benedito Geraldo do Vale Bentes,
agrônomo e presidente da Companhia Energética de Alagoas, CEAL e sobre o crescimento
acelerado do Complexo Residencial “1” que fez surgir a necessidade emergencial de uma
segunda unidade denominada Complexo Residencial “2”.
No segundo capítulo, trazemos uma conceituação teórica sobre o tema da relação
Urbano/Rural que me ofereceu elementos para uma reflexão sobre o porquê da permanência
dos traços dos hábitos rurais numa área residencial urbana. Focando nos moradores mais
antigos que inauguraram os dois Complexos “1” e “2” e no seu cotidiano, procuramos
compreender esses espaços entre campo e cidade nas realidades encontradas na presente
pesquisa, que se assemelham ao modo de vida reconhecida tradicionalmente como rural
associada ao contexto urbano do bairro.
No terceiro capítulo, focalizei sobre o processo migratório que resultou no povoamento
dos dois Complexos residenciais e os transformou no bairro Benedito Bentes, devido ao seu
crescimento populacional e habitacional acelerado em que busquei destacar, especificamente,

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a permanência dos traços e hábitos do mundo rural. Neste capítulo utilizamos as falas
transcritas das entrevistas que realizamos com quatro moradores que residem no bairro desde
a inauguração da primeira etapa do complexo Benedito Bentes 1. Focalizando nos impactos
sofridos no mesmo e como o poder público atua nesse contexto, quais as ações para dar
assistência aos moradores, no âmbito educação, saúde e segurança pública.
Por fim, nas Considerações Finais, apresentamos nossa visão sociológica do bairro
Benedito Bentes, evidenciando os traços rurais encontrados nas relações sociais, no modo de
vida e nas formas de trabalho dos moradores, argumentando numa reflexão final feita por um
dos entrevistados: “Benedito Bentes um bairro Urbano/Rural, pode se tornar um
Munícipio?”.
UM PERCURSO METODOLÓGICO
A metodologia da pesquisa constitui-se de um conjunto de procedimentos mediante os
quais os problemas científicos são formulados e as hipóteses são examinadas. Foi com essa
preocupação que definimos alguns procedimentos metodológicos para investigar o objeto de
estudo definido para este TCC que foi a presença e permanência de traços e hábitos rurais no
espaço urbano delimitado como no bairro Benedito Bentes.
Percorremos o seguinte caminho de pesquisa para obter os dados objetivos que nos
apontassem a permanência ou não de traços e hábitos rurais entre os moradores: pesquisa
teórica, pesquisa documental e pesquisa de campo.
Na pesquisa teórica, procurei autores que abordam os temas sobre hábito, rural e
urbano, nos quais me forneceram um quadro de referencial teórico e conceitual, que me
ajudou a conceituar esta dicotomia Urbano/Rural e a compreender a permanência de traços e
hábitos rurais no bairro Benedito Bentes.
Com a pesquisa documental, caracterizada pela busca de informações em documentos,
em registros escritos ou online, foi usada como fonte de conhecimento histórico e de
informações coletadas por meio de levantamento de dados estatísticos e censitários fornecidos
pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e pelo Instituto Histórico e
Geográfico de Alagoas, desde a inauguração do bairro até o presente momento.
Já na pesquisa de campo, obtive informações empíricas (in loco) no bairro Benedito
Bentes, através das técnicas de pesquisas utilizadas para coleta de dados que foram: registro
fotográfico, observação de campo, aplicação de questionários e realização de entrevistas,

16

utilizando um roteiro pré-definido de acordo com os objetivos e as hipóteses da pesquisa, e
com uso de gravador. Foram aplicados 80 questionários com os moradores dos dois conjuntos
Residenciais, 40 questionários entre os moradores do Benedito Bentes 1 e 40 entre os
moradores do Benedito Bentes 2. No momento da aplicação dos questionários foi observado
o modo de se expressar de alguns moradores, que se referiam ao Centro da capital como
Maceió, dessa forma procurei pontuar quantitativamente as pessoas que se expressavam desse
modo no momento da aplicação do questionário, anotando com atenção no caderno de campo
que acompanhava a investigação.
Quero registrar as dificuldades que nos deparamos para conseguir aplicar os 80
questionários nos dois conjuntos residenciais. As dificuldades foram postas desde a
disponibilidade de tempo dos moradores, para compatibilizar horários, até o acesso aos
conjuntos residenciais do bairro Benedito Bentes, que assumiu proporções gigantescas,
englobando áreas distantes e de difícil acesso, tais como Conjunto Aprígio Vilela, Selma
Bandeira, Conjuntos Freitas Neto, Conjunto Luis Pedro. A problemática da violência e do
tráfico de drogas também se configurou como uma dificuldade para nosso acesso aos
moradores, inclusive tendo sido abordada por uma viatura da ronda da polícia militar no local,
no momento em que me deslocava para realização desta pesquisa, para chamar minha atenção
em relação ao perigo que circundava o bairro.
Além dos 80 questionários, foram realizadas quatro entrevistas com quatro moradores
antigos do local, pessoas que residem no bairro desde sua inauguração, em que relataram qual
a visão que tinham do bairro em que residiam
Após a coleta dos dados, realizada pelo caminho metodológico apresentado, analisei os
espaços presentes no bairro, identificando aspectos de conteúdo social e histórico,
concomitantemente, em que busquei identificar elementos do mundo rural e urbano, através
das relações que os moradores estabelecem com o seu lugar de moradia. Assim, analisando os
processos migratórios que formaram os dois conjuntos residenciais e que no presente
momento tornou-se bairro, e as realidades que encontrei no bairro assemelham-se ao modo de
vida reconhecido como rural inserido em um contexto urbano. Através deste procedimento
metodológico foi possível observar, por exemplo, que o Conjunto Residencial Benedito
Bentes 2 apresenta com mais afinco as características rurais do que o complexo residencial
Benedito Bentes 1; mas, em ambos os conjuntos, foi possível observar a permanência de
traços e hábitos rurais, conforme esclareço na conclusão desta monografia.

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CAPÍTULO 1 – FORMAÇÃO HISTÓRICA DO BAIRRO BENEDITO BENTES

O complexo Benedito Bentes é formado por uma série de conjuntos habitacionais e
loteamentos. Além de um comércio variado, há uma feira que faz uma grande movimentação
comercial no bairro; geograficamente, localiza-se bem distante do centro da cidade de
Maceió, e apresenta áreas de tabuleiro e de grotas. Sua construção foi realizada em 1986 pela
Companhia Habitacional – CHOAB, e a inauguração aconteceu também neste mesmo ano.
Figura 2 - Ano de 1986, inauguração do Complexo Residencial Benedito Bentes “1”.

Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

A maioria dos moradores avalia que o bairro é bastante afastado, mas essa distância fica
minimizada pelas várias linhas de transporte coletivo implantadas a partir do programa de
mobilidade urbana no bairro que buscou facilitar o acesso ao bairro e ao Centro da cidade. O
que se observa é que o bairro comporta uma infraestrutura que foi ganhando dimensões de
uma pequena cidade.
Para homenagear o amazonense de nascimento e agrônomo, que foi presidente da
Federação do Comércio de Alagoas do SESC/SENAC, também Presidente da Companhia
Energética de Alagoas CEAL, Benedito Geraldo do Vale Bentes, cargo este que exerceu até o
seu falecimento em 1974, o bairro ganhou o nome deste alagoano adotivo, contemplando os
dois complexos residenciais.

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Figura 3 – Foto de Benedito Geraldo do Vale Bentes

Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

Quanto aos seus primeiros moradores, que habitaram logo após a inauguração do
complexo residencial que, além de pertencer à periferia de Maceió-AL, é considerado distante
do centro da capital e da orla marítima, qualificaram com uma divisão numérica, em razão de
este ter sido o primeiro a ser construído e inaugurado, chamando de Benedito Bentes 1.
Os primeiros residentes foram sorteados pelo funcionalismo público através do cadastro
habitacional da Companhia Habitacional – CHOAB, entre servidores do Estado e do
Município.
Com o decorrer dos anos algumas residências foram sendo vendidas pelos próprios
moradores que alegavam a deficiência no transporte coletivo devido à localidade e à distância
do residencial para o centro da capital, que dificultava a rotina de trabalho e atendimento
médico de urgência pelo o Hospital Geral do Estado (HGE) que se situa em outro bairro
distante do Benedito Bentes, o bairro chamado Trapiche da Barra. A preocupação com a
dificuldade de acesso ao HGE devia-se ao fato de não ter sido construído de início o Mini
Pronto Socorro de urgência e emergência no próprio bairro Benedito Bentes.
Com isso novos moradores foram sendo instalados, e esses eram advindos de
municípios do próprio Estado (Santana do Ipanema, Messias, Rio Largo, Girau de Ponciano
entre outros) ou de outros bairros da capital Maceió.

19

O crescimento acelerado do residencial se alastrou de tal maneira que outras áreas
foram sendo ocupadas. Como áreas verdes que se transformaram em grotas e vilarejos,
ocupadas por moradores de rua e trabalhadores rurais que vieram de outros municípios a
procura de trabalho na Usina de Cachoeira do Mirim seja como cortadores de cana-de-açúcar
e empregadas domésticas.
Procurando dar assistência à demanda populacional do complexo, o Governo Estadual
inaugurou outro complexo, adjacente e semelhante ao primeiro e o nomeou de Benedito
Bentes 2, seguindo a classificação ordinal estabelecida pelos moradores que se instalaram na
primeira inauguração.
Sua ocupação fora rápida e a chegada de novos moradores trouxeram também ao
complexo não somente um comércio variado e uma feira de agricultores, mas também trouxe
moradores que foram desabrigados das chuvas fortes que caíram na capital e da favela do
bairro do Trapiche que ficava na localizada orla lagunar, comunidade denominada Sururu de
Capote.
Houve também invasões a casas de outros conjuntos habitacionais que se ergueram no
complexo Benedito Bentes 2, a saber, Moacir Andrade, Luis Pedro, Selma Bandeira, Aprígio
Vilela e, precisamente, no conjunto Cidade Sorriso 1 e 2.
De acordo com o relato do prefeito comunitário Silvano Barbosa, hoje vereador do
Município de Maceió, algumas dessas famílias conseguiram se cadastrar e receberam a
moradia, pelo fato de que haviam investidos na casa há mais de um ano. Mas outras foram
expulsas por um Oficial de Justiça da prefeitura que por encargo da Secretaria de Convívio
Urbano e seus fiscais, abrigaram essas famílias num galpão denominado de “Convívio
Urbano” (Informações obtidas na Prefeitura Comunitária do bairro).
Cadastrados e guardados num galpão da Secretaria Municipal de Controle e Convívio
Urbano, a prefeitura não teve onde alojar essas famílias. Então, ocorreu no bairro uma
manifestação feita por essas famílias em que atearam fogo em pneus e galhos de árvores e
afirmaram que não deixariam suas residências. Mesmo diante de toda essa pressão social, a
prefeitura posicionou-se afirmando que só poderiam permanecer nas casas as famílias que
haviam sido previamente cadastradas.

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Figura 4 – Fotografia da manifestação os moradores do bairro Benedito Bentes

Fonte: gazeta web. Fig 4

Numa tentativa de solucionar seu problema de moradia, algumas famílias, por iniciativa
própria, construíram barracos nas encostas do Benedito Bentes 1 e 2 dando assim o
surgimento de outras comunidades e vilarejos, onde residem até hoje, nos quais surgiram:
Grota Alto da Alegria e Grota da Caveira.
No ano de 2016 o Barro do Benedito Bentes completou 30 anos de existência, tendo se
transformado num bairro grande e populoso; a partir do crescimento urbano, embora sendo
um bairro, assume um status de município, ou seja, encara desafios equivalentes ao de uma
cidade. A complexidade administrativa do bairro deve-se ao fato de hoje o Benedito Bentes
acolher, ou aglomerar, 15 grotas, uma favela e 27 conjuntos. Em razão dessas dificuldades
estruturais esse bairro concentra hoje problemas comuns a uma grande cidade: altos índices de
criminalidade, ineficiência do transporte coletivo e falta de infraestrutura e ordenamento
urbano.
Registre-se que além de todos os problemas infraestruturais já mencionados, os
moradores sofrem as consequências de ter, localizado no Bairro, a Estação de Tratamento de
Efluentes (ETE) montada no conjunto Cidade Sorriso 2, que pertence a Companhia de
Saneamento de Alagoas (Casal), que já foi denunciada ao Ministério Público por conter
irregularidades em seu sistema colocando em risco a saúde e o meio ambiente.

21

Com ênfase na mobilidade urbana e acesso ao tráfego para Orla Norte da capital, o
então prefeito do Município na época, Cícero Almeida, lançou um projeto em sua
administração, intitulado de Eco via Norte. No momento presente, as obras estão em
andamento, e o objetivo será ligar o bairro Benedito Bentes as praias do litoral Al-101 Norte,
chegando à praia de Guaxuma. Após esta via de transporte ser concluída será mais uma opção
de tráfego, entre as partes alta e baixa da cidade de Maceió.
O bairro cresceu de forma espantosa ao longo desses 31 anos; conforme completou
nesse ano de 2017, assim, um território que era chamado de fim de mundo, hoje abriga uma
população com mais de 88.084 habitantes segundo fontes do IBGE em 2010. Embora dividido
em duas etapas pela sua inauguração e construção, com a demanda da chegada de moradores
em períodos diferentes, advindos de municípios vizinhos e bairros da capital, e trazendo uma
qualificação que o divide em dois complexos 1 e 2, que formam todo o bairro, sua população
cresce perceptivelmente, com a migração de famílias dos Municípios do agreste e sertão do
Estado de Alagoas.
É importante destacar que, dividido pelas duas etapas de sua construção e inauguração,
em períodos diferentes, os dois complexos residenciais Benedito 1 e Benedito 2 passaram a
ser identificados e qualificados pelos moradores como espaço urbano (Benedito Bentes 1) e
espaço rural (Benedito Bentes 2). Essa visão dicotômica atribuída aos dois complexos pelos
seus moradores chamou-nos atenção e nos impulsionou a investigar que fatos e características
existem nesses dois complexos que justificam os moradores terem essa visão.
O Complexo Benedito Bentes 2 foi habitado por um número significativo de pessoas
advindas da zona rural do Estado, pessoas que ocuparam o bairro através de invasões e não de
cadastros na prefeitura municipal. Essas invasões clandestinas produziram uma ocupação das
encostas e grotas, formando vilarejos que assumiram traços rurais. As áreas verdes que antes
eram desocupadas foram invadidas com construção de moradias, agricultura e criação de
animais para corte e leite. Apesar da manutenção desses traços rurais, observa-se também um
movimento de urbanização e incremento do comércio, particularmente com a instalação de
supermercados e do Shopping Center. Além disso, há um visível crescimento urbano e
populacional que tem sido motivado a construção de novos loteamentos naquela localidade.
Há uma clara diferença no processo de ocupação e na dinâmica dos dois complexos
residenciais Benedito Bentes 1 e 2: no complexo do Benedito Bentes 1 instalaram-se
indústrias, um supermercado de grande porte, bancos e um terminal rodoviário; enquanto que
no o complexo do Benedito Bentes 2 não ocorreram mudanças e avanços que imprimissem

22

uma característica de urbanização naquele espaço territorial. Os moradores reconhecem essas
diferenças, e registraram algumas insatisfações através dos questionários que aplicamos com
essa população dos dois complexos, afirmando que enquanto o Benedito Bentes 1 foi
beneficiado com empresas e indústrias de renome, fortalecendo seu comércio local, o
Benedito Bentes 2 recebeu o Aterro Sanitário do Município.
Entendemos que uma leitura do bairro sob uma perspectiva sociológica nos permite
visualizar algumas diferenças vivenciadas pelos moradores dos dois complexos residenciais
estudados, particularmente diferenças produzidas pelas marcas do rural e do urbano que
envolve a população que vive nos dois complexos habitacionais. Estamos diante de vários
fatores que nos colocam diante do tema da articulação do rural e urbano nos processos de
crescimento das cidades. Entendemos que não vamos esgotar o tema nos marcos deste TCC,
mas esperamos puder lançar luzes para que novas pesquisas sociológicas possam vir a
acontecer, aprofundando o estudo desse espaço da cidade que é complexo não apenas no seu
nome, mas na própria realidade que o constitui.

1.1– Benedito Bentes um bairro Urbano/Rural.

Com vistas a compreender a realidade desse bairro, bem como suas singularidades e
particularidades, refazemos a trajetória de conformação do bairro refletindo sobre qual o seu
papel na configuração urbana de Maceió.
Partimos inicialmente da visão dos habitantes de outros bairros da capital que se
situam distantes do Benedito Bentes e que estigmatizam o bairro como um lugar tipicamente
interiorano, segundo a entrevista que realizamos para esta pesquisa. Além de interiorano, o
bairro é identificado como extremamente inseguro e violento, dado os altos índices de
criminalidade e violência urbana, segundo dados segurança pública da capital, pesquisados
nas manchetes de noticiário do site Alagoas 24 horas2.
Outras afirmações que carregam o bairro com um estigma de ser distante e interiorano,
chamando atenção até mesmo pelo clima que sofre com as alterações de chuvas típicas da
mata atlântica. O clima na região da Mata Atlântica está inserido na faixa de transição entre o
clima Tropical e Subtropical. A proximidade do oceano, a dinâmica atmosférica regional e os
traços de relevo, contribuem para tornar o clima local predominantemente quente e úmido, no

2

Coloque aqui os links em que você viu essas notícias.

23

bairro Benedito Bentes, bem como, com o período das chuvas irregulares durante o verão,
para todo o município de Maceió, como vemos na figura 5 no Mapa climático abaixo.

Fonte: Site Alagoas em dados e informações. Mapas de caracterização, Secretaria de Estado de Alagoas.

Nesse sentido, o clima favorece o plantio e a criação de animais de leite e corte.
Embora, uma parcela da área do plantio de cana-de-açúcar tenha dado lugar à construção do
Complexo Residencial, ainda hoje existe no limite territorial a Fazenda Santa Luzia, chamada
popularmente, fazenda Duas Bocas e as terras pertencentes ao Grupo Carlos Lyra, da Usina
Cachoeira do Meirim, sem falar em áreas verdes extensas que contornam todo o bairro.
Conforme vemos na imagem abaixo:

Figura 6 - Imagem aérea Benedito Bentes.

Fonte: Google maps.

24

Figura 6a - Imagem aérea Benedito Bentes.

Fonte: Google maps.

Estamos argumentando que o bairro Benedito Bentes apresenta em seu cotidiano
relações entre o urbano e rural e essa realidade foi descrita pelos próprios moradores. Ou seja,
pode-se identificar elementos do rural e do urbano nas relações estabelecidas entre seus
moradores. No trabalho, no hábito e não somente na estrutura física, que apesar dos
residenciais existentes, ainda tem a presença de todo conjunto residencial estar cercado por
áreas agrícolas e fazendas, sugerindo indiretamente a estes moradores que, de alguma forma,
residiam na zona rural, o cultivo e a criação de animais. Pois, em se tratando disso, é comum
encontrar no bairro vacas de leite pastando nas esquinas das ruas, como fotografamos abaixo;
e também abatedouros clandestinos, pocilgas e granjas, onde tudo é comercializado na feira
ao ar livre e no mercado municipal do bairro.

25

Figura 7 – Final da Av. Pratagy Benedito Bentes 1. Vaca de leite pastando no final da avenida
Pratagy, esquina da Escola Estadual Dom Otávio Aguiar com a carcaça do animal colocada
no poste de eletricidade sinalizando a vacaria clandestina para venda de leite.

Fonte: Fotografia de pesquisa de campo.

Figura 8 - Feira ao ar livre no Benedito Bentes 2.

Fonte: Gazetaweb.com

Embora com a recente inauguração de um shopping center no bairro, observei que o
lugar de socialização mais frequente no bairro, situa-se na Praça principal, chamada Praça
Padre Cícero, local onde ocorrem lazer, eventos, recreações, atividades físicas e a
confraternização de reveilon.

26

Figura 9 - Reveilon Praça Pe.Cícero Benedito Bentes “1”.

Fonte: Gazetaweb

Estudos que abordem essa temática escolhida nesta monografia são poucos, visto que o
meu interesse partiu em buscar compreender, como um lugar urbano, com inserção de hábito
e instrumentos urbanos, os habitantes ainda preservam traços de um modo de vida rural.
Existem estudos elaborados para grandes cidades ou para pequenos núcleos urbanos, mas para
um conjunto residencial que se transformou num bairro e tende a crescer cada vez mais,
podendo se tornar um Município são poucos casos estudados no campo da sociologia urbana.

1.2 – A cidade vista sob o olhar da Escola de Chicago
Nos estudos elaborados no campo da sociologia urbana, dos referenciais teóricos que
orienta esta monografia ressaltamos a Escola de Chicago, por sua contribuição a
compreensão e análise dos fenômenos urbanos. Esta Escola composta por um grupo de
pesquisadores professores da Universidade de Chicago, que realizaram estudos dos centros
urbanos combinando conceitos teóricos com a pesquisa etnográfica. Por conseguinte,
destacando dentre tantos outros pesquisadores, Robert Ezra Park, que através dos estudos da
Escola de Chicago relacionados ao surgimento de favelas, da violência e ao aumento
populacional, nos dá um arcabouço teórico para o estudo do Conjunto Residencial Benedito
Bentes que se tornou o maior bairro da capital alagoana.

27

A Escola de Chicago, diante dos problemas políticos e sociais que surgiam na época,
preocupava-se em analisar os limites que a sociologia podia averiguar numa grande cidade em
que a imigração e a assimilação de milhões de imigrantes chegavam à sociedade americana.
De forma que, desenvolveu um método de investigação, utilizando diversas fontes
documentais, como também o trabalho de campo sistemático que fortaleceu tanto as propostas
metodológica de pesquisa qualitativa quanto quantitativa no campo sociológico.
Em torno dessa reflexão sobre a Escola de Chicago, o significativo papel
desempenhado, foi também por alunos da Universidade de Chicago, que abordaram vários
temas e estudos acerca dos fenômenos urbanos, remetendo ao campo das pesquisas empíricas
em detrimento das grandes construções teóricas, produzindo desse modo, variados estudos
sobre a realidade urbana de Chicago.

Assim esses pesquisadores juntamente com o corpo

discente, elaboraram métodos originais de investigação, que iam desde a utilização de
documentos pessoais, a trabalhos sistemáticos, e explorando diferentes fontes documentais. A
exemplo da Escola de Chicago, da mesma maneira fora realizado a investigação desta
monografia, do bairro Benedito Bentes, através de fontes documentais e teóricas, bem como
uma exploração do trabalho de campo.
Outro fator a comentar sobre a Escola de Chicago é sobre o interacionismo simbólico,
que teve influência na sociologia de Chicago. Presentes nos sociólogos, John Dewey, Charles
Peirce, William James e George Mead. Como o próprio nome já indica, o interacionismo
simbólico, plainou a natureza simbólica da vida social de Chicago, produzidas pelas
atividades dos indivíduos, em suas relações sociais, pelo qual o pesquisador participa, também
como agente do mundo que se propõe a estudar.
O agente aprende a construir seu “si”, e o dos demais, graças à sua
interação com estes. A ação individual pode então ser considerada
como a criação mútua de vários “si” em interação. Desse modo, os
“si”

adquirem

um

significado

social,

tornam-se

fenômenos

sociológicos, que se constituem a vida social. O estudo sociológico
deste mundo, portanto, deve analisar os processos pelos quais os
agentes determinam suas condutas, com base em suas interpretações
do mundo que os rodeia. (COULON, 1995, p. 20)

Nesse sentido, a Escola de Chicago constrói não uma sociologia especulativa, mas uma
sociologia da ação. Assim, está associada a uma sociologia humanista, acerca da concepção

28

que os agentes tem do mundo social, suas manifestações subjetivas, impregnadas dos valores
religiosos.
Por outro lado, vemos que ao seguir os caminhos investigativos da Escola de Chicago,
pontuamos a analise sobre os impactos dos processos migratórios no bairro Benedito Bentes,
isto porque, se faz necessário abarcar a esses estudos, sobre migrações que ocorreram no
bairro, a estudos teóricos sobre assimilação e aculturação que vieram estar presentes na
comunidade do bairro, como por exemplo, moradores que anteriormente eram trabalhadores
rurais em suas cidades de origem, e hoje ao migrarem para o Benedito Bentes, exercem
trabalho no corte de cana-de-açúcar na Usina Cachoeira do Meirim, já que não possuem terras
para cultivar, e realizar o mesmo trabalho de costume. Chamamos a atenção para esse êxodo
rural que está presente entre os moradores migrantes do bairro, e que sofreram com os
impactos ocasionados pela mudança no modo de vida e de subsistência adquiridos e procuram
assimilar e a aculturar-se ao modo de vida citadino.
Estudos que abordem o tema do êxodo rural, por exemplo, nos mostra o quanto à
migração de famílias e trabalhadores ocorreram de forma intensa no Brasil. Para o autor
Bertrand (1973) o êxodo rural constante do interior para cidade, forçou ajustes para enfrentar
a vida contemporânea, adequando os valores tradicionais rurais as atividades urbanas. Nessa
perspectiva, de se adequar a vida urbana, como por exemplo, as vizinhanças, no ambiente
rural ficam distantes uma das outras ou aglomeradas em vilarejos. Mesmo assim, há um
vínculo de amizades e aproximação entre as vizinhanças. Enquanto na cidade, a proximidade
da vizinhança nem sempre constitui um estímulo para o estabelecimento de vínculos e
conversas entre vizinhos que, muitas vezes, são marcadas pelo distanciamento.
Nessa reflexão, compreendendo que os conteúdos rurais estão presentes no cotidiano
dos moradores nas relações de vínculo, conversas entre vizinhos, costumes e nos meios
adquiridos de subsistência, conquanto, a diferença do comportamento das pessoas que vivem
no mundo urbano e no mundo rural, também se apresenta entre os moradores do bairro. Este
fator da diferença de comportamento das pessoas segundo seu costume rural ou urbano,
estudamos no referencial teórico no texto do autor Simmel (2004).
Encontramos no texto de Simmel (2004) “As Metrópoles e a Vida Mental”, algumas
reflexões que revelam a frieza e o distanciamento vivenciados no mundo urbano, em
contraposição às relações de proximidade e afeto vivenciadas no mundo rural.
Observando o espaço físico, que mesmo com características rurais e urbanas no
presente bairro e estabelecendo atividades de caráter comercial, os moradores estabelecem

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vínculos rurais com seus vizinhos. Sendo nas relações sociais adquiridas pelo convívio de
vizinhança e rotina de trabalho, por conseguinte, deixam transparecer a confiança e
proximidade com a vizinhança, seja no caderninho de contas da quitanda, ou nas conversas na
porta de casa, ao entardecer.
O modo de vida urbano difere desse modo de vida rural característico que se apresenta
nos hábitos dos moradores do Benedito Bentes. Pelos referenciais teóricos estudados, o modo
de vida urbano acentua um distanciamento entre vizinhos; caracteriza-se pelas idas e chegadas
da rotina de trabalho e a falta de um bom dia, ou de conversas livres e relaxantes na porta de
casa ou nos espaços de lazer dos apartamentos. A correria do dia a dia, a indisponibilidade de
tempo e dificuldade de viver uma aproximação, deixa para trás alguns costumes e hábitos dos
antepassados. Portando, vivem a vida cotidiana sem muito afinco, como destaca Simmel
(2004) ao falar sobre a forma da vida na metrópole entre indivíduos que tomam uma atitude
de reserva.
Somos forçados a manter esta reserva, em parte, por este fato
psicológico e, em parte, pelo direito à desconfiança que sentimos
perante esses elementos fugazes da vida urbana, em conseqüência, é
freqüente não conhecermos sequer de vista aqueles que durante todo
ano são nossos vizinhos e é isso que faz com que tantas vezes
pareçamos frios e sem coração aos olhos dos habitantes das pequenas
cidades. (SIMMEL 2004, p. 83)

A vida citadina tende a ter um caráter superficial, porém cada indivíduo procura
encontrar um tipo de ambiente em que se sinta a vontade, e deixe inconscientemente fluir seus
hábitos e costumes seja no contato cotidiano ou nas relações informais como festas, trabalhos
e vizinhança.
Apesar de no bairro Benedito Bentes, os complexos residenciais 1 e 2 apresentarem
configurações sociais e físicas diferenciadas, um mantendo mais traços rurais e o outro mais
traços urbanos, identificamos que seus moradores de ambos os complexos seguirem um modo
de viver urbano. Destacamos, no entanto, que no Benedito Bentes 2, os moradores mantém
mais fortemente os traços rurais, seja pelas ações, atitudes e a forma de trabalho que utilizam
para garantir sua subsistência. Constatamos na entrevista a um morador que em sua quitanda
ainda usa a caderneta de anotações de vendas exatamente porque mantém um laço de
confiança com os seus vizinhos. Essa atitude deixa claro e evidente a manutenção de um

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hábito rural, característicos das pequenas cidades e vilas de municípios. Nesses termos,
Simmel (2004) assinala que nas grandes cidades a troca monetária assume configurações
diferentes das relações de confiança existentes nas pequenas cidades: “Assim, as metrópoles,
nas quais, por serem as sedes principais da troca monetária, e a venalidade das coisas se
impõe com toda uma amplitude diferente da das pequenas localidades, são também locais
privilegiados do snobismo” (SIMMEL 2004, p. 82).

1.3 – O continuum entre o rural e o urbano no complexo residencial Benedito Bentes 1 e
2
Dando continuidade a este capítulo da monografia, chamamos a atenção para o fato de
que o complexo do Benedito Bentes “1” modificou muito mais sua estrutura física do que o
complexo do Benedito Bentes “2”, pois as áreas em que antes existiam as plantações da Usina
Cachoeira do Meirim, foram ocupadas ou vendidas para grandes indústrias e empresas,
processo que aconteceu de forma paralela às invasões das pequenas áreas verdes existentes no
bairro. Também é importante registrar que ocorreu a construção de novos condomínios
residenciais e loteamentos por parte do Governo do Estado e de agentes imobiliários
utilizando como atrativo o plano governamental “Minha Casa Minha Vida”. Dessa forma, no
Benedito Bentes “1”, em sua paisagem está em boa parte preenchido de construções urbanas.
E no âmbito de lazer e comércio, a inauguração do Shopping Center Pátio Maceió, que
enriqueceu urbanisticamente o bairro. Como vemos nas imagens abaixo:

Figura 10 - Imagem condomínio Recantos, Benedito Bentes. Onde antes ocupava a plantação
de cana-de-açúcar

31

Fonte: pesquisa Google.

O complexo residencial cresceu e se tornou bairro, não somente em suas casas e ruas,
mas também no setor industrial e empresarial.

Instalando no bairro, precisamente no

complexo Benedito Bentes “1” o supermercado G Barbosa, AMBEV, Coca-Cola, Almaviva,
Escolas Estaduais e municipais e Creches da prefeitura.

Dos moradores que precisavam

percorrer a distância até o Centro da cidade, passaram agora a trabalhar perto de casa, no
próprio bairro em que residem. E trabalhadores de outros bairros, passam a comprar ou alugar
casas no bairro para comodidade do acesso à rotina do trabalho nessas empresas.

Figura 11 - AMBEV recém construída no bairro, onde antes ocupava a plantação de cana-deaçucar.

Fonte: pesquisa Google

Figura 12 - Complexo Benedito Bentes “1” Av. Garça Torta. 30 anos desde a inauguração.

32

Fonte: Gazeta web.

Figura 13 - Complexo Benedito Bentes “1” Av. Pratagy.

Fonte: Gazeta web.

São as avenidas principais do bairro que concentra o comércio do complexo Benedito
Bentes “1”. Enquanto que o Complexo Benedito Bentes “2”, diferentemente do Complexo
Benedito Bentes “1”, não foram instaladas nem empresas nem indústrias. Unicamente seu
crescimento e desenvolvimento fora nos conjuntos habitacionais: Luis Pedro II, Carminha,
Aprígio Vilela, Moacir Andrade, Cidade Sorriso “1” e “2”, Parque das Américas, Frei
Damião.

E no pequeno comércio de lojas dos próprios moradores e na feira. Como

33

assinalamos anteriormente, os conjuntos residências mais recentes foram ocupados por
pessoas que migraram das encostas que sofreram com os desmoronamentos causados pelas
fortes chuvas que aconteceram no Estado de Alagoas, no ano de 2010. Esses movimentos
migratórios aconteceram sob o olhar do poder público e da defesa civil, particularmente o
deslocamento das pessoas que vieram das favelas desfeitas nos bairros turísticos da capital,
como a Favela do Jaraguá que era localizada no bairro do Jaraguá, escolhido para ser um dos
cartões postais da cidade. A desocupação da favela do Jaraguá aconteceu sob forte resistência
dos moradores da localidade, e passou a ser visto como um processo de higienização e
varredura social feita pelo governo para deixar aquela área livre para o turismo. Tais
informações foram investigadas e encontradas na manchete do jornal da capital no acervo do
Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

Figura 14 - Residencial Cidade Sorriso. Localizado no Complexo Benedito Bentes “2”.

Fonte: Gazeta web.

Outra área observada nesta pesquisa são as grotas e encostas utilizadas pelos
moradores dos dois complexos, tanto do Benedito “1” como do Benedito “2”, para realizar o
cultivo de hortaliças e tubérculos, frutas, e até a criação de animais de corte, como granjas,
pocilgas e gado de leite. É comum e de fácil observação encontrar na porta das casas desses
moradores do Benedito Bentes “2” carroças que utilizam para transporte:
Figura 15 - Imagem Benedito Bentes “2” Conjunto Frei Damião, morador cria gado de leite
solto na rua de sua residência.

34

Fonte: registro fotográfico realizado pela pesquisadora
em trabalho de campo.

Figura 16 - Imagem Benedito Bentes “2” Conjunto Carminha. Carroça na porta da casa de
morador.

Fonte: bairros.com.

Além da criação de animais, há famílias que utilizam as encostas para realizar o plantio
de subsistência. Nesta imagem abaixo na figura 17 vemos a encosta da Grota da Alegria no
Complexo Benedito Bentes “2” onde há plantação de bananeiras, aipim e frutas, e um curral
para cavalos.

35

Figura 17 - Descida da Grota da alegria, Benedito Bentes “2”.

Fonte: registro fotográfico realizado pela pesquisadora em trabalho de campo.

Constatamos como esses espaços que outrora foram dominados quase que
exclusivamente pelo cultivo canavieiro, hoje se transformaram em áreas urbanas, com
políticas públicas fomentadas pelo Estado. Além disso, é preciso destacar o deslocamento
compulsório e migratório de famílias para o Benedito Bentes que também mudaram a
fisionomia do território. Tais características encontradas demonstram a existência de duas
realidades que se opõem presentes no bairro. Procurar definir esses espaços urbano e rural se
torna indefinido, em vista de que, entre casas e campo se homogeneízam.

Os primeiros debates e reflexões surgem sistematizadas por uma
leitura que assume o rural como uma realidade especifica e oposta ao
urbano, embasada pelos estudos das diferenças entre comunidade e
sociedade de Ferdinand Tonnies. Este antagonismo dualístico para o
rural era o tema da corrente denominada dicotômica (BLUME, 2004,
p.18).

A reflexão proposta para o bairro Benedito Bentes, na definição urbano/rural é a de
continuidade, isto é, de acordo com a formulação teórica do espaço continuum. Diversos
autores realizaram reflexões sobre esses espaços, e atentam para a existência de um espaço
continuum do rural e o urbano (Bertrand, 1973). Alguns traços que definiam o espaço rural
de forma clássica ainda podem ser encontrados, mas, advertindo que se apresente de acordo
com a sua intensidade de atuação.
Algumas famílias no Benedito Bentes adotam essa configuração de espaço rural, mas
há outras que embora permanecendo que o modo de viver rural, procura se inserir na vida

36

urbana, seja no novo trabalho de subsistência ou não. O próprio bairro se transformou ao
longo de 30 anos, de sua inauguração até os dias atuais. Embora se apresente ainda com
espaços da época da inauguração, que relembram que tal lugar fora um lugar de trabalho
canavieiro.
As definições existentes do que seja rural e urbano são associadas a duas grandes
abordagens: a dicotômica e a de continuum. A dicotômica apresenta as diferenças entre o
espaço urbano e rural, sendo o campo como algo que se opõe à cidade. Na de continuum se
apresenta com uma aproximação entre o espaço rural e a realidade urbana; e é nesta segunda
abordagem analítica que identificamos o bairro Benedito Bentes.
Um bairro que apresenta uma continuidade do espaço rural para a realidade urbana, seja
no modo de viver dos moradores, seja no espaço físico do bairro, contribuindo para o
cotidiano carregado da permanência dos traços dos hábitos rurais.
Queremos registrar que durante a aplicação dos questionários, identificamos
através de depoimentos de vários moradores, o desejo de que o Bairro Benedito Bentes,
incluindo o Complexo residencial “1” e “2”, seja transformado em um município, portanto,
ganhe o status de cidade. Conforme podemos ver na amostragem da Tabela 1 na coleta de
dados feita pelo questionários.

Tabela I - Concorda em o bairro se tornar em Município

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Concorda

Nº

%

Concorda

Nº

%

Sim

28

70

Sim

30

75

Não

12

30

Não

08

20

Não Opinou

0

0

Não Opinou

02

5

Total

40

100

Total

40

100

As informações empíricas que foram obtidas por meio de um trabalho de campo, foi
resultado de uma pesquisa que iniciou há dois anos; os dados foram coletados no lugar de
moradia e na lida cotidiana dos moradores. Através de observação não estruturada e da
aplicação do questionário e entrevista colhemos informações a respeito da opinião desses

37

moradores quanto à possibilidade do Benedito Bentes se transformar num município, seja em
razão da localidade, distante do Centro da cidade, seja em razão da configuração do lugar.
Vejamos a fala de um morador durante a entrevista: “Aqui é muito distante de Maceió,
quando me perguntam onde moro, eu respondo até brincando com isso, assim: Moro no
Infinito-bentes” (Morador do complexo Benedito Bentes 2, há 20 anos, masculino, idade 39
anos).
Percebemos que a forma desse morador se referir ao Centro da cidade, como se
morasse fora da Capital, mesmo sabendo que está na Capital Maceió, usa o presente termo
para qualificar a distância do bairro, demonstrando seu hábito costumeiro que carrega consigo
desde seu endereço anterior, pois residia num Município alagoano de Messias e deixou o
trabalho na roça para vir a Maceió procurar trabalho.
As pessoas oriundas de municípios vizinhos, portanto, da zona rural, sofreram um
impacto a olhos vistos, tiveram que transformar suas vidas para se adaptar à nova realidade.
São pessoas que estavam acostumadas ao trabalho no campo com o cultivo e criação de
animais, e que sofreram drasticamente com a diferença imposta pela vida no espaço urbano
que agora residem. Esses moradores precisaram se adaptar ao sistema imposto pelo
capitalismo urbano que exige de cada família a obtenção do que necessitam para
sobrevivência no mercado do bairro. Ora, sem trabalho e sem meios, a solução de imediato foi
invadir as áreas verdes e as encostas do bairro, para prover suas necessidades com o cultivo de
grãos e a criação de animais.

38

CAPÍTULO 2 - O URBANO/RURAL E HÁBITO A PARTIR DE UMA
CONCEITUALIZAÇÃO TEÓRICA.
Desde o primeiro momento que iniciamos as reflexões sobre essa temática no
complexo residencial Benedito Bentes, buscamos definir o que entendíamos por espaço
urbano e rural a partir de uma conceitualização teórica que nos orientasse na observação de
campo para melhor discernir esses espaços durante a elaboração desta monografia.
Não existe uma convergência entre os pensadores contemporâneos sobre as categorias
urbano e rural. Na verdade, conceituar esses espaços e territórios implica colocar o objeto
(espaço social) sob visões sociológicas que adotam diferentes perspectivas, pois alguns
teóricos atribuem a forma de cidade e campo ao urbano e ao rural, enquanto outros atribuem
essas categorias ao modo de viver em sociedade.
Qualquer tentativa de definir esses espaços envolve a pergunta se é legítimo fazer tais
distinções entre essas sociedades urbanas e rurais, ou delimitar o que é rural e o que é urbano.
Do ponto de vista do teórico Graziano (2002) argumenta que:

[...] está cada vez mais difícil delimitar o que é rural e o que é urbano.
Mas isso que aparentemente poderia ser um tema relevante, não o é: a
diferença entre o rural e o urbano é cada vez menos importante. Podese dizer que o rural hoje só pode ser entendido como um continuum do
urbano do ponto de vista espacial; e do ponto de vista da organização
da atividade econômica, as cidades não podem mais ser identificadas
apenas com a atividade industrial, nem os campos com a agricultura e
a pecuária (GRAZIANO, 2002, p. 8).

Nesse sentido, para comparar a validade das diferenças rurais-urbanas, entre conceito
denotativo definido desses espaços, seria por um procedimento de se estabelecer uma
orientação-de-valor e, então, classificar grupos nos respectivos termos. Contudo, o que ocorre
na aplicação desse método revela que os valores da família rural estão mudando e seguindo
padrões estabelecidos pela família urbana; assim como as relações familiares estão se
tornando mais contratuais e de natureza impessoal. Esta especulação conceitual daria conta de
que o urbano teria hábitos citadinos ou traços rurais, ou seja, preserva hábitos e costumes
comparáveis ao estilo do viver no campo.
Segundo Graziano (2002), o que existe é uma continuidade de um espaço a outro, pois
no rural existe um pouco do urbano e no urbano um pouco do rural. É justamente esse espaço

39

continunn que o autor busca explicitar. Onde cada um abrange o outro indefinidamente, seja
na agricultura, nos costumes, ou mesmo na atividade industrial, perfazendo uma continuidade
entre o universo rural e o mundo urbano.
Poderíamos traçar objetivamente esses dois conceitos, contudo requereriam estudos
empíricos profundos que pudéssemos distinguir com objetividade.

Perguntaríamos a

princípio, onde destacar essa continuidade? Onde podemos encontrar tais diferenças nas
famílias rurais e nas famílias urbanas? Conquanto, analisar valores e costumes que se
assemelhem pelo seu cotidiano nesses espaços aponta uma mudança nos padrões
estabelecidos pela família urbana ou mesmo na família rural. Não se deter a um modo de vida
de acordo com a localidade em que residem, e procurar adaptar sua subsistência onde se
encontram, seria também um ponto a destacar, a respeito dessa continuidade a que se refere o
autor Graziano (2002).
Assim, entendemos que ao procurar adaptar a subsistência de sua família ao novo
território que passaram a residir, no bairro Benedito Bentes, os moradores precisaram se
adequar às exigências do novo local em que vivem. No contato que tivemos com os
moradores do bairro Benedito Bentes, encontrarmos não somente aqueles que se inseriram no
mercado informal, exercendo atividades como a de tirador de coco, de carroceiro ou o
vendedor de frutas e legumes, como aqueles que criaram sua fonte de subsistência abrindo seu
estabelecimento comercial ou atuando com vendas na feira do bairro.
Em relação aos costumes, muitos cultivam o hábito de, no fim de semana, sentarem-se
na porta de casa para conversar, jogar dominó, além daqueles que fazem passeio de cavalo nas
ruas do próprio bairro, com os cavalos que criam nos fundos da casa onde moram. Sabemos
que a manutenção desse hábito rural só é possível porque eles mantêm a criação de cavalos
nas áreas verdes das encostas onde residem. Há moradores que criam animais para venda e
cultivam tubérculos para a feira do bairro, mas há outros que cultivam e criam pelo costume e
não para subsistência. Tais hábitos que guardam consigo, os moradores passam para filhos e
netos.
Nesse sentido, o autor Bertrand (1973) explica que o trabalhador rural procurou se
ajustar à vida no qual foi obrigado a se adequar com a mudança de sua cidade rural para
cidade urbana. Essa realidade é vista no bairro Benedito Bentes particularmente porque a
grande maioria de sua população é composta de migrantes que moravam em cidades do
interior do Estado, como assinalamos anteriormente.

40

O êxodo rural constante do interior para cidade forçou ajustes para
enfrentar a vida contemporânea, adequando os valores tradicionais
rurais as atividades urbanas. Conquanto, uma consequência, mas não
uma distinção: o êxodo rural (BERTRAND, 1973).

Em Castells (1983) propõe uma designação para urbano, da seguinte forma:

Urbano designaria, então, uma forma especial de ocupação do espaço
por uma população, a saber, o aglomerado resultante de uma forte
concentração e de uma densidade relativamente alta, tendo como
correlato previsível uma diferenciação funcional e social maior.
(CASTELLS 1983, p.17)

Assim, conforme Castells (1983) o aglomerado resultante de uma forte concentração,
designado como urbano tem, além disso, a diferenciação funcional e social. Correspondendo a
um complexo demográfico formado, social e economicamente, por uma concentração
populacional não agrícola, que se dedica a atividade de caráter comercial. Tomando este
sentido, esta diferenciação funcional e social seria segundo as estruturas produtivas e sociais
que determinariam a organização do espaço.
Castells (1983) designa o espaço urbano como uma forma de ocupação que vai sendo
formada segundo um processo dialético. Explica que a esta organização social a que se refere,
são os centros religiosos, administrativos e políticos de uma complexidade determinada do
produto do trabalho. Trata-se de um sistema social que não está separado do tipo rural, nem é
posterior a ele, pois os dois estão intimamente ligados no âmago do mesmo processo de
produção das formas sociais, segundo Castells (1983), mesmo que, do ponto de vista destas
próprias formas, estejamos em presença de duas situações diferentes. Para termos uma melhor
compreensão do que nos explicita o autor Castells (1983) o que o autor quer dizer quando fala
a respeito dessa organização do espaço, o que vai determinar essa organização do espaço?

O

autor nos explica que seriam segundo as estruturas produtivas e sociais que determinariam
essa organização espacial.
Nesse sentido, Castells (1983) quis dizer que apesar de haver dois espaços, o rural e
urbano, estes, não estão separados, mas ligados pelo sistema social que num mesmo processo
de produção das formas sociais, os dois espaços vão sendo organizados socialmente. Por
conseguinte, esses espaços foram se organizando de acordo com suas estruturas produtivas e
sociais. Dentre o qual o espaço urbano, este não foi organizado ao acaso, explica Castells

41

(1983), mas, foi formado paulatinamente, numa expressão concreta de cada conjunto histórico
no qual uma sociedade se especifica. Sendo com o próprio homem e das relações que esses
homens estabelecem, porque o espaço urbano vai sendo formado e organizado pelos
processos sociais que o exprimem, num processo dialético. Com os determinismos de cada
tipo e de cada período da organização social. Desta forma, o bairro Benedito Bentes que a
trinta anos era somente um simples Conjunto Residencial, mas que com os processos sociais
que num certo período histórico, e paulatinamente, com o avanço das migrações e das
relações estabelecidas no lugar, foram determinando sua organização social, e formados esses
dois espaços, rural e urbano, presentes no complexo residencial que se tornou um bairro e
que, de sob a perspectiva do autor Castells, podemos afirmar que vive uma questão urbana
produzida pela complexidade das relações dialéticas entre homem, cultura, história e espaço,
em suma, de uma dinâmica produzida pelo materialismo histórico.
Isso indica que para esses dois teóricos Bertrand (1973) e Castells (1983) não há uma
distinção definitiva entre esses espaços urbano/rural, mas que propriamente essa
complexidade social do estudo urbano/rural como um conceito distinto encontra-se nas
relações do produto do trabalho exercidas nesses espaços.
Procurando observar no objeto de pesquisa, o Complexo residencial Benedito Bentes,
este acomoda fatores relacionais e simbólicos. Entre moradores do Complexo “2” na pesquisa
de campo, foi observado que no processo de reprodução das relações de produção se
reproduzem nas diferentes classes sociais presentes no bairro. Estas vivem e reproduzem em
seu quotidiano crenças, valores e mitos fazendo com que o espaço considerado rural torne-se
especial, sagrado, superior ao espaço considerado urbano no presente bairro. Assim, o espaço
rural no bairro assume uma dimensão simbólica segundo os diferentes grupos que o povoam
ou frequentam. Pontuando a Praça principal do bairro, que une os dois Complexos, chamada
de Praça Padre Cícero, lugar de junção dos dois Complexos em atividades recreativas e
sociais, e de trabalho. Como podemos observar na fala de uma moradora mais antiga do bairro
entrevistada.
Às vezes vou na carroça do meu marido que me deixa lá na Praça da Formiga (Praça
Central do bairro chamada Pe. Cícero) saio cedo de casa para trabalhar lá no
mercado daqui da praça. Vendo ovos de galinha e de codorna, pata também. A praça
tem muitos divertimentos. (K. P. P. moradora do Benedito Bentes “2”)

Outro aspecto simbólico observado no trabalho de campo no complexo residencial
Benedito Bentes “2”, é o fato de se referirem ao Centro da cidade de Maceió como se

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residissem em um município próximo. Como observamos na fala de um dos moradores do
complexo Benedito Bentes “2”, durante a entrevista:

O Biu aqui é muito longe de Maceió, daqui demora muito os ônibus, para chegar a
Maceió, por isso faço minhas compras aqui mesmo no mercado do Biu2 (J. S. S,
Morador do Benedito Bentes “2”)

Tal como observamos esse morador entrevistado e outros moradores também do
complexo Benedito Bentes “2” são portadores de uma compreensão espacial e simbólica que
os fazem se sentir residentes de um bairro fora da cidade de Maceió. Por conseguinte, é de
fato o modo de viver dessas pessoas que o fazem adquirirem um estigma interiorano.
Contudo, o fator “distância” e a dificuldade de acesso do bairro influenciam também nesta
visão dos moradores, em comparação aos outros bairros mais próximos do Centro da capital.
Para compreender o que ocorre no complexo Benedito Bentes através da sociologia,
notamos a ocorrência de um fenômeno que poderíamos classificá-lo este “novo rural” como
não rural, visto que é criado por uma demanda da cidade e só tem aparência de rural. Seria um
“novo rural”?
Com relação a isto, Rua (2002, p.83) afirma que esse rural, levaria ao desaparecimento
do rural que compreendemos, àquele rural camponês, e se tornaria urbano, enquanto
preservaria as especificidades do rural, contudo, considerando-o esse novo rural como um
território híbrido, onde urbano e rural interagem. Seria assim o fenômeno de um “novo rural”?

Para nós não se trata do fim do rural destruído pela urbanização
homogeneizadora, [...] chamamos atenção para o processo de
desenvolvimento do capitalismo que se dá de maneira desigual no
espaço. [...] O rural, ao guardar especificidades das práticas espaciais
de suas populações, garante (e, em alguns casos, fortalece) a
identidade territorial que, mesmo submetida às lógicas difundidas a
partir da cidade, ainda permite a essas populações uma certa
autodeterminação (Rua 2002, p. 33-34).

Pressupondo que de acordo com o modo de vida e dos hábitos desses moradores do
complexo Benedito Bentes “2”, e paralelo a afirmação do autor Rua (2002), é o novo rural
que aos poucos se sobrepõe ao rural camponês, que vai permitir aos moradores desse
complexo residencial Benedito 2, uma autodeterminação de valores e modo de vida.
Entendemos que esses moradores moldam seu modo de viver a um novo rural que está
inserido no urbano, fortalecendo, assim, essa identidade de morar no Benedito Bentes, visto

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como um lugar, por uma parte de seus moradores, parecido com um interior, um município da
capital alagoana.
Além do que, os moradores que se inseriram naquele bairro distante do centro da
capital, criaram um sentimento de autodeterminação porque precisaram desenvolver os meios
próprios e singulares para conseguir se adaptar à vida naquela localidade, sem deixar os seus
costumes e hábitos da sua cidade interiorana de origem.
Partindo para o estudo da teoria Lefebvriana que se refere à teoria do espaço social,
atribui a três momentos para a produção do espaço social: o espaço concebido; o espaço
vivido e o espaço percebido. O espaço concebido é constituído a partir de um saber técnico,
de uma representação abstrata, ideológica, distante do real. O espaço percebido advém de
práticas espaciais oriundas de atos, valores e relações específicas de cada formação social. Já
o espaço vivido relaciona-se às diferenças em relação ao modo de vida programado,
comportando, portanto, a experiência cotidiana vinculada ao espaço das representações, pela
corporeidade das ações humanas. Esta discussão está contida na obra do autor Henri Lefebvre
(2006) em seu livro “A produção do espaço” tradução de Doralice Pereira.
Nesta acepção o autor Lefebvre (2006), a produção do espaço contém e está contido nas
relações sociais, e é historicamente construído como representação mental, e o urbano e a
cidade como expressão material desta representação. Tal compreensão do autor Lefebvre, é
possível entendermos a razão pelo qual esses moradores do Complexo “2” sentem-se
residindo fora da capital Maceió, pois, o que vive em seu cotidiano, suas dificuldades de
acesso a capital, entre outras, cria essa expressão mental de que bairro Benedito Bentes se
situe fora da capital Maceió.
Abaixo, o gráfico das pessoas que residem no complexo Benedito Bentes “2” e
Benedito Bentes “1” que responderam ao nosso questionário e se expressam ao falar do
Centro da capital como “Maceió” e que morassem no Benedito Bentes como sendo um
município interiorano.

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Gráfico 1

Como os moradores se referem à Maceió?

8
Ir a Maceió
24

42

Ir ao Centro
Ir ao Mercado

Fonte: Dados coletados pela autora do trabalho

No momento de aplicar os questionários foi observado o modo de se expressar de
alguns moradores, assim, procurei pontuar quantitativamente as pessoas que se expressavam
desse modo no momento da aplicação do questionário, anotando com atenção no caderno de
campo que acompanhava a investigação.
Ao todo foram aplicados 80 questionários, distribuídos 40 no Benedito Bentes 1 e 40
no Benedito Bentes 2, conforme explico na metodologia desta monografia.

Do total das

pessoas que responderam ao questionário, pontuei, “Falam ir à Maceió” - 42 pessoas, “Falam
ir ao Centro” - 24 pessoas, “Falam ir ao mercado” - 08 pessoas, “Não se expressaram de
nenhuma forma” - 06 pessoas. Conforme está elaborado no gráfico acima.
Chamamos atenção para o fato de que aquelas pessoas que quando falam que vão à
Maceió como se estivessem em outra cidade, entendem que o Benedito Bentes seria de fato
um Município fora da cidade de Maceió. Tal compreensão, revela não somente um equívoco,
mas a compreensão de um povo que veio de outro lugar (o rural) e que jamais se sentiu
integrado à cidade de Maceió. São, na verdade, migrantes de municípios vizinhos a Maceió,
ou de outros bairros da capital, e mantém a ideia de que não pertencem à cidade de Maceió.
Sentem-se, portanto, interioranos em relação à capital de Alagoas e carregam uma
representação mental, tal como fala a teoria Lefebvriana, como a expressão material de uma
vida que efetivamente acontece distante da capital, fazendo-os se sentir, de fato, fora da
cidade de Maceió.

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Recorrendo à teoria de Emile Durkheim quando em seu livro “As regras do método
sociológico,” discute a importância dos valores e hábitos, como balizadores de nossas crenças
e práticas sociais para pensar o que se passa na comunidade que reside no Benedito Bentes.

É verdade que os hábitos, individuais ou hereditários, têm, sob certos
aspectos, as mesmas propriedades. Ele nos domina, nos impõem
crenças ou práticas. Só que nos dominam desde dentro, pois estão
inteiros em cada um de nós. Ao contrário, as crenças e as práticas
sociais agem sobre nós desde fora; assim, a influência exercida por
uns e por outros é, no fundo, muito diferente (DURKHIEM 1999,
p.28).

Durkhiem (1999) nos leva a refletir sobre os fatos sociais como maneiras de sentir,
agir e pensar exteriores ao indivíduo e dotados de poder coercitivo e tem como base a moral
social, que estabelece um conjunto de regras a permitir ou a proibir. Da mesma forma, os
hábitos, conforme agem e pensam os indivíduos, atuam como poder coercitivo, que não se
desapegam. Nesse sentido, os moradores por estarem residindo distante do Centro da capital,
em termos de distância espacial, influenciam no agir de seu cotidiano, e isto, faz com que
criem o estereótipo de se sentirem interioranos em relação aos demais bairros próximos do
centro da capital.

2.1 – O conceito de habitus sob a perspectiva de Pierre Bourdieu e Norbert Elias.
Partindo para a reflexão do conceito de hábito, pontuo dois teóricos que fizeram estudos
acerca desse tema: Norbert Elias e Pierre Bourdieu.
O autor Elias (1994) estudou as relações humanas ao longo da história da humanidade.
Em seu livro “O Processo Civilizador” ele coloca que a humanidade está imersa em três
processos: o histórico, o cultural e o biológico. Diante disso, o autor chamou de Processo
Civilizador, o processo que criou o hábito (habitus). Conquanto, quis dizer que o homem faz a
sociedade enquanto está se fazendo. Por isso nesses três processos citados, a que atribui, as
gerações vão passando e a sociedade ocidental não se transforma. Nosso estilo de vida muda,
mas nosso hábito não, porque as tecnologias de hoje são mais avançadas do que as do
passado.
Permanecemos com o mesmo hábito, mesmo esquema de dominação onde este tem sua
gênese da Sociedade de Corte de onde advém o controle dos afetos. Elias (1994) coloca na

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Sociedade de Corte a gênese do hábito. Assim, o autor Elias (1994) desenvolveu essa
abordagem na sociologia que chamou de sociologia figuracional. Onde vai buscar no seu
livro, O Processo Civilizador (1939) uma análise dos efeitos da formação do Estado Moderno
sobre os hábitos, costumes dos indivíduos.
Elias (1994) exemplifica que todas as sociedades, ao longo da história, criaram normas
e princípios com a finalidade de orientar as relações entre grupos e pessoas. Ele faz uma
análise nas relações entre os sexos e cita:

O sentimento de vergonha que cerca as relações sexuais humanas tem
aumentado e mudado muito no processo de civilização. Isto se
manifesta com especial clareza na dificuldade experimentada por
adultos, nos estágios mais recentes de civilização, em falar com
crianças sobre essas relações. Hoje, porém, esta dificuldade parece
quase natural. Afigura-se que, por razões quase biológicas, a criança
nada sabe sobre as relações entre os sexos e que é tarefa extremamente
delicada e difícil esclarecer a meninas e meninos em crescimento o
que está acontecendo com eles e o que acontece em volta. A extensão
em que esta situação, muito longe de ser evidente por si mesma,
constitui mais um resultado do processo civilizatório, só é entendida
se observarmos o comportamento das pessoas em um estágio diferente
de desenvolvimento (ELIAS, 1994, p. 169-170).

Enquanto no passado as relações sobre sexualidade ficam ocultas, hoje ocorre
diferente, porém carregam consigo o mesmo comportamento de ocultação do assunto, embora
falado em situações educacionais. Na medida em que os indivíduos que formam a sociedade
são educados, os hábitos vão sendo mais polidos ao passar do tempo.
Em suma, o autor Elias (1994) nos diz que ocorre uma naturalização dos hábitos e
costumes. Por conseguinte, é necessário considerar que as diferenças de costumes são
peculiares àquela sociedade e aquele tempo histórico. Desta forma, o “hábito” na sociologia
figuracional de Elias é visto como um espaço de interação, onde as relações entre os
indivíduos ocorrem sempre de maneira interdependente.
Conforme Elias (1994) a sociedade é composta por várias figurações nos quais se
encontram presentes indivíduo e sociedade, e seguindo sua abordagem, ao longo da
humanidade diversas figurações modernas e tradicionais entram em conflito buscando
legitimidade, também podemos notar que há uma relativa autonomia do indivíduo sobre

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participar ou não das figurações e ao mesmo tempo percebemos que não há como os
indivíduos participarem da vida social sem estarem imersos em uma figuração, pois segundo
Elias (1994) não há uma identidade “EU” sem uma identidade “NÓS”.

É a permanência maior e comumente vitalícia de muitas relações
humanas, se não de todas, e de uma balança nós-eu em que o nós tem
clara preponderância sobre o eu, e que frequentemente exige a
subordinação incondicional do eu ao nós, do indivíduo ao grupo-nós.
(ELIAS, 1994, p.177)

De acordo com a explicação acima, Elias (1994) quer nos explicar que a sociedade se
forma a partir das relações sociais formadas entre o “Eu”, “Tu”, “Nós”, “Eles” etc., ou seja, é
composta por indivíduos interdependentes, indivíduos diferentes, mas que se tornam iguais
pois dependem uns dos outros, pois é isso que ele quer dizer quando fala sobre uma balança
nós-eu.
Procurando relacionar a referência teórica do autor Elias (1994) com o tema desta
monografia, chamo a atenção para a afirmação que o autor faz quando nos explica que o
habitus é fruto de um processo histórico. Segundo o autor Elias (1994) hábitus se constrói nos
relacionamentos e nos processos históricos, mas também além de ser um conceito social, é
conceito “pessoal”, porque é de forma única a maneira do indivíduo apreender o mundo.
Portanto, à medida que o homem apreende o mundo ele forma a sociedade em que vivem, as
gerações vão passando e a sociedade continua a mesma. Dessa forma, se pensássemos a forma
de vida que nossos pais tiverem, e a nossa hoje é diferente, do tempo dos nossos antepassados,
devido à inserção da tecnologia do nosso tempo, porém nosso modo de pensar, agir, nosso
habitus, não mudou, continua o mesmo, apenas vai sendo polido com o passar do tempo.
Em suma, para o autor Elias o indivíduo se apresenta com uma configuração social
exterior a ele. Assim, habitus na conceitualização de Elias é visto como um espaço de
interações, onde as relações entre os indivíduos ocorrem sempre de maneira interdependente
onde as identidades dos indivíduos se tornam pessoais e sociais. Observando dessa forma, os
moradores do bairro Benedito Bentes, que apesar de levarem uma vida urbanizada, citadina,
deixam transparecer sua identidade pessoal nas suas relações que é o habitus rural que trazem
consigo no momento de suas interações e de maneira interdependente, como nos explica o
autor Elias (1994).

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Em Bourdieu (1996) conceitua habitus citando da seguinte forma:
O habitus é esse princípio gerador e unificador que retraduz as
características intrínsecas e relacionais de uma posição em um estilo
de vida unívoco, isto é, em um conjunto unívoco de escolhas de
pessoas, de bens, de práticas. (BOURDIEU. 1996, p. 21,22.)

Em Bourdieu (1996) para uma compreensão do conceito de habitus, faz-se necessário
conhecermos o conceito que ele atribui a campos sociais. Porque para o autor esses conceitos
estão interligados. Nos campos são espaços onde ocorrem disputas de poder, compostos por
sujeitos dominantes e dominados que disputam entre si a obtenção dos capitais.
Conforme Bourdieu (1996) explica esse habitus está ligado a uma classe social ou
posição social, ocupada pelo indivíduo. Onde esta classe não somente é resultada do montante
de capital econômico que dispõe, mas também pelo volume de capital social e cultural que
possuem. Assim, para Bourdieu (1996) o que resulta é esse habitus é resultado de todos
capitais: o capital econômico, cultural e social juntos. E essas estruturas objetivas são os
campos: o campo religioso, político, científico e das artes.
Nesse sentido, Bourdieu (1996) aponta, que para compreendermos o conceito de
habitus, é necessário ver que o habitus são princípios geradores que homem carrega dentro de
si. Dessa forma, o habitus é individual, e ele se constrói no processo de socialização. Por
conseguinte, naquilo que o indivíduo adquire ao longo da vida, portanto, são os bens
simbólicos, como por exemplo, as tradições.
Por conta dessa relação entre as experiências passadas e as tradições, e as condições do
momento presente, o habitus para Bourdieu (1996) produz ações e reproduz práticas. Desse
modo, entendemos que os moradores do bairro Benedito Bentes reproduz suas práticas
passadas, isto é, anteriormente de migrarem para o bairro em sua cidade natal. Onde pela
entrevistas dos moradores são municípios distantes da capital Maceió e que era onde o modo
de viver rural e de costume ocorre uma adaptação ao chegar ao residencial Benedito Bentes
que ainda era um Residencial.
Portanto, essas migrações trouxeram impactos na vida dessas pessoas com seus
costumes e hábitos rurais para se estabelecerem no bairro com o passar dos anos. Esses
moradores tiveram uma mudança no comportamento a se adequar a vida citadina, porém, não
mudaram seu pensar, isto é, suas expressões mentais, no qual Bourdieu (1996) vai chamar de
disposições estruturantes, constituídas na mente do indivíduo.

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Os habitus são princípios geradores de práticas distintas e distintivas –
o que o operário come e, sobretudo sua maneira de comer, o esporte
que pratica e sua maneira de praticá-lo, suas opiniões políticas e suas
maneiras de expressá-las diferem sistematicamente do consumo ou
das atividades correspondentes do empresário industrial, mas são
também esquemas classificatórios, princípios de classificação,
princípios de visão e de divisão e gostos diferentes (BOURDIEU.
1996, p. 22).

Vemos que por conta desse caráter distintivo, distinto e individual nas práticas dos
indivíduos, mas no mesmo tempo social, os indivíduos que trazem consigo o mesmo tipo de
habitus, tendem a agir a partir das expectativas criadas diante deles, “o habitus”.
Portanto, quem bebe um chá, possua um habitus diferente, de quem bebe também o
mesmo tipo de chá, mas em uma condição simbólica distinta. Assim, o habitus, segundo
Bourdieu, se incorpora na prática dos indivíduos e é construído historicamente. Por isso,
falam os dois autores Bourdieu e Elias, que é através do processo de socialização, pois o
homem o carrega dentro de si e é dado pelo meio social, adquirindo ao longo de sua vida.

2.2 - Analisando o conceito de habitus para ambos os autores.
Nas leituras do referencial teórico de Bourdieu (1996) e Elias (1994) é percebida a
semelhança conceitual em ambos os autores, a respeito de habitus.
Bourdieu e Elias consideram o mesmo pensamento sociológico de que os indivíduos
sofrem a influência de outros indivíduos, como também que o habitus é formado através de
um processo histórico. Contudo, Bourdieu tem uma análise mais materialista, enquanto Elias
tem uma análise, partindo de que as relações sociais entre os indivíduos são de vital
importância para a formação do habitus. Porquanto os indivíduos possuem uma relação de
interdependência, que favorece a sua vida humana, conforme Elias explica em sua referência
teórica.
Outro ponto de semelhança entre ambos é no conceito de Habitus em Bourdieu e de
Figuração em Elias. Em Bourdieu (1996) chama atenção para a influência do campo como um
espaço de relações, como o campo religioso, econômico, político, e científico. Sendo é a partir
da interação desses campos que se produz o habitus, e o habitus é que vai compor esses

50

campos. Já no autor Elias (1994) a sua ideia de figuração social mostra que as relações sociais
dos indivíduos na família, trabalho, escola, etc. são que influenciam no seu habitus.
Em suma, podemos a partir de esses referenciais teóricos, compreender que, a
permanências dos traços dos hábitos rurais que ocorrem no bairro Benedito Bentes se dá pelo
fato de que as relações sociais estabelecidas pelos seus moradores advêm de uma relação
simbólica de poder dos campos religioso, cultural, econômico, etc., nos quais atuam nos
indivíduos numa relação de interdependência que se tornam um habitus, segundo nos
esclarece a conceitualização de ambos os autores.

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CAPÍTULO 3 – A VIDA DO CAMPO DA CIDADE: A PERMANÊNCIA DOS
TRAÇOS DOS HÁBITOS RURAIS NOS ESPAÇOS URBANOS.
Compreendem-se como conteúdos rurais: hábitos, relações sociais, formas de trabalho,
de lazer, relações com a família e com o lugar, aspectos estes, trazidos do campo que podem
ser caracterizados como rurais. Tomando como parâmetro essa compreensão dos elementos e
conteúdo que caracterizam o rural, observados durante a pesquisa, conseguimos identificar,
particularmente no complexo Benedito Bentes 2, uma série de relações, formas de trabalho e
características do próprio lugar que, objetivamente, aproximam o bairro do universo rural.
É importante destacar que, encontramos esses conteúdos rurais nos dois complexos, embora
no que se refere ao conteúdo rural referente a características do “lugar”, o complexo Benedito
Bentes “2” se sobressai com relação a esse aspecto físico.
Como já afirmamos anteriormente, observamos em todo complexo residencial
aspectos referentes a conteúdos rurais, no entanto, o desenvolvimento urbano no bairro se fez
mais presente no complexo Benedito Bentes “1” do que no complexo Benedito Bentes “2”. O
fato de terem sido construídos em etapas diferentes favoreceu essa diferença de um para o
outro. Enquanto um complexo cresce em comércio e indústria, o outro cresce em habitações.
O acesso ao complexo Benedito Bentes “1” oferece mais facilidade de comércio e habitação
do que o complexo Benedito Bentes “2”, que se expande apenas de novos conjuntos
habitacionais. Chamo atenção para o fato de que esses novos conjuntos habitacionais estão
sendo ocupados, em sua grande maioria, por pessoas pertencentes a classes sociais de
baixíssima renda.
Para termos uma ideia da sua dimensão em termos de extensão do complexo Benedito
“2”, este comporta vários conjuntos residenciais que se estendem até outro bairro Garça Torta,
beirando o litoral Norte. E, justamente, a construção da Ecovia-norte viabilizará o acesso ao
bairro, ligando a área do tabuleiro, onde se localiza o Benedito Bentes, até a zona litorânea de
Garça Torta. Entre plantações de canas-de-açúcar e cultivo clandestino de famílias que
residem em grotas e áreas verdes, há um vasto espaço de matas e grotas que circundam todo
território do bairro. A fonte fornecida para esses dados foi colhida na investigação de campo
realizada na Prefeitura Comunitária do próprio bairro, que fica localizada na Praça Pe. Cícero
ao lado do terminal central integrado.

52

Figura 18 - Imagem das moradias das famílias nas áreas verdes.

Fonte Prefeitura Comunitária do Benedito Bentes.

É entre os moradores que migraram de municípios vizinhos que podemos observar mais
fortemente a presença de conteúdos rurais em suas relações sociais, seus hábitos e formas de
trabalho, mantendo seus costumes e padrões de subsistência e trabalho aproximados do que
viviam no campo e na vida rural. Como afirmamos, essa característica é menos forte no
Benedito Bentes 1 que é habitado por pessoas que migraram de bairros da própria capital, que
já tinham incorporado hábitos citadinos.
Sabemos que o modo de vida rural mudou mesmo para quem vive ainda no campo e
em cidades interioranas, segundo alguns autores da pesquisa teórica dessa monografia;
embora passando a viver na cidade e adquirindo modo de vida citadino, tais hábitos mais
costumeiros e antigos permanecem sem demonstrar qualquer alteração. Na verdade o que
mudou são as novas formas de trabalho, tecnologia, escolarização até mesmo nos aspectos
religiosos. Muitos homens em várias idades, desde jovem ao mais adulto na terceira idade,
entregam-se ao trabalho do corte de cana para garantir o sustento da família.
Outro aspecto encontrado nos complexos Benedito Bentes “2” e Benedito Bentes “1”
são algumas mercearias, conhecidas popularmente como quitandas ou mercadinhos, que são
estabelecimentos de pequeno porte instalados na própria residência dos donos desses
estabelecimentos. Existe o costume de usar o “caderninho” para anotações de compras a
fiado. Com isso, entre amigos e vizinhos, estabelece uma relação de confiança, na anotação da

53

caderneta, no qual são anotadas as compras realizadas, em que procuram seus vizinhos
antigos que são comerciantes em detrimento dos supermercados de grande porte existente no
bairro. Das quitandas encontradas no bairro, foram o Mercadinho Barros e a Quitanda Zé do
Pífano, que tem este nome pelo fato de que o dono possui uma banda de Pífano com seus
vizinhos, ficam situados no Benedito Bentes 1 próximo a Escola Estadual Dom Otávio
Barbosa Aguiar na Av. Pratagy. Como vemos na Figura 19, fotografia realizada nas visitas
para coleta de dados e trabalho de campo.

Fonte. Fotografias realizada pela autora no trabalho de campo.

Silva (2010) assinala algumas características que compõe o mundo rural das pequenas
vilas que estudou:
O “comprar fiado” é um costume que se baseia justamente na
confiança e funciona, pois o comprador se não pagar terá seu nome
“negativado” na cidade, ofendendo assim sua própria moral como
homem. São nesse sentido características próprias de pequenos
centros, onde as relações estabelecidas são oriundas do mundo rural.
(SILVA, A. 2010 p.4)

Vimos, no entanto, que isso ocorre nas relações pessoais mais próximas. Outro aspecto
observado foi na forma de trabalho, em que cultivam frutas e hortaliças e a criação de animais
de corte para comercializar na feira ou mesmo circulando nas ruas do bairro a venda de leite
de vaca e cabra numa carroça, segunda a entrevista de um morador do complexo “2” procura
nesse meio sua subsistência.

54

(...) Quando a gente chegou aqui tinha muito terreno pra plantar, a
gente continuou plantando aqui o feijão de arranque e também as
bananas... (Morador do complexo Benedito Bentes 2, 39 anos).

Outro fator observado são nas famílias que vieram de outro bairro da capital
localizados na orla lagunar, retirados de suas casas, por motivos de incêndios e das fortes
chuvas que desabrigaram a favelas, Vila dos Pescadores no bairro Jaraguá e Sururu de Capote
no conjunto Dique Estrada. Esses moradores que praticavam a pesca na orla e a extração de
sururu na lagoa ficaram impedidos de manter suas atividades profissionais em razão da
distância do Benedito Bentes para a orla e a lagoa, local de onde tiravam seu sustento. Na
verdade, essas famílias que antes estavam acostumadas à pesca e à venda do sururu foram
retiradas, inesperadamente, de seus locais de moradia e instaladas no bairro Benedito Bentes;
sendo este um projeto urbanístico planejado pela prefeitura municipal.
Diante da dificuldade de deslocamento, os novos residentes do Benedito Bentes que
foram removidos de seus bairros, ficaram impedidos de manter suas atividades em razão da
distância do seu local de trabalho. A solução para algumas dessas famílias que foram
removidas para o Benedito Bentes, e permaneceram residindo no bairro 3, foi procurar outro
meio de subsistência. Passaram a viver da plantação de hortaliças e grãos, bem como da
criação de animais (agricultura e pecuária) nos quintais de suas casas e em terrenos das
encostas para comercializar no bairro. Muitas foram fechadas pelo poder público por serem
clandestinas: vacarias, pocilgas etc, porém ainda resistem sua comercialização da carne e leite
na feira do bairro.
São variadas as formas de trabalho, algumas na roça com o cultivo de feijão outras no
transporte de animais, cavalos e carroças, pedreiros, e fazendo parte do programa lançado
pelo prefeito comunitário do bairro o Programa “Barriga Cheia”, no qual adquiriram um
terreno ao lado da fábrica da coca cola para cultivar o feijão verde, com isso encontramos na
feira e nas esquinas das principais ruas do bairro famílias que vendem o feijão que cultivam
junto com as hortaliças em meio às casas e lojas comerciais do bairro.
Nesses aspectos encontrados, vemos que há a existência de uma nova ruralidade
presente no bairro Benedito Bentes. Não a ruralidade estudada em sua formatação clássica,
mas uma nova ruralidade que se apresenta e se molda ao cotidiano desses moradores do bairro
Benedito Bentes.
3

Algumas famílias que foram removidas retornaram para viver em outros barracos construídos nas
mesmas favelas de que saíram.

55

Candiotto e Correa (2008) propõem que essa ruralidade encontrada se dispõe
composta por “objetos, ações e representações peculiares do rural, com destaque para as
representações e identidades rurais dos indivíduos e grupos sociais” (CANDIOTTO E CORREA
2008 p. 233). Essa ruralidade não é definida como oposição a urbanidade, ela se acentua como

um processo dinâmico em constante reestruturação dos valores locais, hábitos etc., que se
incorpora entre a relação de campo e cidade.
É importante que além de elencarmos os aspectos produtivos e das relações sociais,
demarcarmos também os aspectos culturais encontrados no bairro. Tais aspectos culturais
seguem características rurais nas suas manifestações das atividades festivas realizadas no
bairro, sejam elas religiosas ou cíveis.
Ao fazer a observação de campo, foi possível encontrar numa das ruas do bairro uma
banda de pífano que se apresentava de casa em casa conforme a tradição e em outro momento
apresentação de pastoril na Praça Pe. Cícero. Entre outras festividades como também, cultos
religiosos, parques de diversão e a festa de réveillon promovida pela prefeitura da capital.
Conquanto, a presença também de homens que se reúnem para jogar dominó e conversar no
banco da praça.
Com o agravo da violência presente no bairro, muitos dos costumes das festividades
promovidas pela prefeitura comunitária local estão sendo feitos em horários do dia, como
festa do dia das mães, dia das crianças e blocos de carnaval.
Além dessas festividades existe ainda a festividade da igreja local com o bingo da festa
do padroeiro no complexo Benedito Bentes “2”, conjunto residencial Frei Damião, que reúne
enorme quantidade de pessoas dentro e fora da igreja, que pela concentração de pessoas neste
dia, o percurso do itinerário do ônibus é mudado pela interdição da rua e fluxo de pessoas no
local. Festividade aguardada pelos moradores no mês de janeiro de cada ano. Observamos
também a relação de proximidade entre as pessoas que frequentam as festas.
Podemos observar nas fotografias fornecidas pela paróquia Local do Benedito Bentes 2
durante a investigação de campo. Figura 20.

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Figura 20 - Festividade no Benedito Bentes 2 pelas ruas do complexo residencial da Paróquia
local.

Fonte Fotos fornecida pela Paróquia Dom Bosco, Benedito Bentes 2.

Dessa forma, perpetuam-se no âmbito local hábitos historicamente difundidos e que
atravessam gerações familiares, sobretudo nas formas de produção agrícola, feira local,
relações sociais, manifestações culturais e festividades locais.
É nesse sentido que o ser humano procura dignificar seus atos, sua existência, através
de atribuições nas dimensões subjetivas e objetivas procurando se engajar e interpretar os
fatos cotidianos do seu viver.
Observamos o quanto é importante identificarmos os aspectos objetivos e subjetivos
presentes nessas manifestações sociais e culturais que expressam, em última instância, as
representações sociais que estruturam o tecido social. Essa é uma vertente teórica que faz uma
articulação entre a psicologia social e a sociologia, e que valoriza os sentidos e significados
que os sujeitos atribuem aos fenômenos sociais.

Há 52 anos, quando Moscovici inaugurou seus estudos sobre
Representações Sociais, já existia a preocupação em articular a
sociologia e a psicologia social com o objetivo de integrar as
dimensões subjetivas e objetivas para o estudo de fenômenos sociais.

57

Segundo

Moscovisci,

os

sujeitos

estão

sempre

a

construir

representações sobre fenômenos sociais relevantes, situações e coisas
que fazem parte e seu cotidiano, com o objetivo de conferir um
sentido e atribuir significados ao mundo em que ele está inserido.
(VASCONCELOS, 2014 p.52)

As representações são imagens construídas a partir da mediação entre o sujeito e o
mundo real, no tocante, essas representações estão inseridas nas práticas sociais partilhadas
pelo grupo social em que esses sujeitos estão inscritos. Vasconcelos (2014) aponta que esses
sujeitos orientam suas práticas a partir de representações as quais consubstanciam o universo
da subjetividade, que contribuem para construção da própria realidade.
O conceito de representação social da sociologia de Emile Durkheim vem sendo
utilizado nas ciências humanas, buscando designar fenômenos múltiplos e estudados em
termos de complexidade individuais e coletivas, em seus aspectos psicológicos e sociais.
Sendo utilizada mais na psicologia social do que na sociologia, as representações
sociais, buscam interpretar e pensar a realidade cotidiana, uma forma de conhecimento da
atividade mental desenvolvida pelos indivíduos para fixar sua posição em situações e eventos.
Em suma, a representação social é um conhecimento prático que dá sentido aos eventos
que nos são normais e ajuda na construção social da nossa realidade; ela é o processo pelo
qual se estabelece a relação entre o mundo e as coisas. Retomando ao raciocínio desses
aspectos culturais, vemos que o lado figurativo da representação, é inseparável de seu aspecto
significativo.
Esses aspectos culturais locais estão ligados aos hábitos rurais que conduzem a uma
determinada configuração que se dá durante as festividades e em todos os hábitos cotidiano.
É nessa valorização das tradições que a ruralidade permanece e como tal, e
sustentamos nossa hipótese de que há uma permanência de traços rurais no bairro Benedito
Bentes.
3.1 – O Bairro Benedito Bentes sob a ótica dos moradores.
Antes de apresentarmos a visão dos moradores do Benedito Bentes sobre o bairro que
moram, delineamos o perfil sócio econômico dos que participaram da pesquisa com o
preenchimento do questionário.

58

Como assinalamos anteriormente, durante o processo de pesquisa foram aplicados 80
questionários com os moradores do bairro, distribuídos para cada complexo residencial 40
para Benedito Bentes 1 e 40 para Benedito Bentes 2.
Segue alguns dados que nos permitem estabelecer um perfil dos moradores que
responderam ao questionário:
Tabela II – Sexo

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2
Sexo

Nº

65

Homens

16

40

14

35

Mulheres

24

60

40

100

Total

40

100

Sexo

Nº

Homens

26

Mulheres

Total

%

%

Nossa amostragem conta com uma representação de gênero de 42 moradores do sexo
masculino e 38 moradores do sexo feminino. Ainda que nossa abordagem não tenha
explorado um recorte de gênero, entendemos ser importante ter tido essa representação quase
equitativa entre homens e mulheres. Estabelecemos a dinâmica e visita ao Bairro para
realização dos questionários da seguinte forma: num sábado, nos dedicamos ao Benedito
Bentes 1, nos horários da manhã e tarde; e no outro, ao Benedito Bentes 2. Dessa forma,
organizamos nossa agenda buscando facilitar o acesso e encontrar a disponibilidade dos
moradores, durante dois meses.
Foi observado que no Complexo Benedito Bentes 1, os homens estavam mais
presentes do que as mulheres em suas residências. Assim, no Complexo Benedito Bentes 2 os
que responderam mais ao questionários foram mulheres porque eram as que estavam mais em
casa. Uma possibilidade de explicação do porquê de termos uma maior presença de mulheres
do que de homens em suas residências, no Complexo Residencial Benedito Bentes 2, é que há
uma dinâmica familiar mais tradicional, evidenciando um hábito rural em que os homens
ocupam mais os espaços da rua e as mulheres o espaço da casa. Na amostragem do Benedito
Bentes 1, a realidade mostrou-se diferente, com uma evidência mais citadina e urbana, em que
homens e mulheres circulam com maior equidade, nos espaços da casa e nos espaços da rua.

59

Abaixo, visualizamos o perfil da amostragem em relação ao estado civil, profissão,
idade dos participantes da pesquisa.

Tabela III - Estado Civil

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Estado Civil

Nº

%

Estado Civil

Nº

%

Casados

29

72,5

Casados

22

55

Solteiros

11

27,5

Solteiros

11

27,5

Separados

0

0

Separados

05

12,5

Viúvos

0

0

Viúvos

02

5

Total

40

100

Total

40

100 %

Tabela IV - Profissão

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Profissão

Nº

%

Profissão

Sim

18

45

Sim

08

20

Não

08

20

Não

17

42,5

Autônomo

11

27,5

Autônomo

10

25

Aposentado

03

7,5

Aposentado

05

12,5

Total

40

100

Total

40

100

Nº

%

Observamos nesta amostragem referente à profissão que no Benedito Bentes 2 é
maior o número daqueles que não têm uma profissão (42,5%). Nas duas amostragens

60

temos pessoas que, apesar de dizer que não têm uma profissão, atuam como autônomos
(27,5% no BB1 e 25% no BB2). Apenas 20% dos abordados no BB2 afirma ter uma
profissão, enquanto 45% dos que preencheram o questionário terem afirmado possuir
uma profissão.
Tabela V - Idade

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Idade

Nº

%

Idade

Nº

%

20 --- 30

12

30

20 --- 30

12

30

31 --- 40

10

25

31 --- 40

10

25

41 --- 50

07

17,5

41 --- 50

05

12,5

51 --- 60

04

10

51 --- 60

07

17,5

61 --- 75

07

17,5

61 --- 75

06

15

Total

40

100

Total

40

100

A faixa etária de nossos informantes variou de 20 à 75 anos de idade. A maioria dos
nossos respondentes está numa faixa etária acima de 30 anos, portanto, pessoas que já tinham
idade para expressar suas opiniões sobre as temáticas que abordamos na pesquisa, estando
todos em idade produtiva.

Tabela VI - Tempo que reside no bairro

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Anos

Nº

%

Anos

Nº

%

01 --- 10

17

42,5

01 --- 10

17

42,5

11 --- 20

13

32,5

11 --- 20

10

25

20 --- 31

10

25

20 --- 31

13

32,5

Total

40

100

Total

40

100

61

É equivalente a percentagem de moradores que residem no bairro há mais de 10 anos.
Já vivenciam aquela realidade há um bom tempo de vida. Mesmo assim, já foi um tempo um
tempo suficiente para adaptar-se ao lugar e adotar um modo de vida e estabelecer relações
sociais de acordo com o espaço urbano/rural característico do lugar. Com isso, podemos
entender a relevância da questão de que não basta apenas o longo tempo de residência no
complexo para abandonar os seus hábitos rurais. O habitus permanece com os sujeitos
independentemente dos seus deslocamentos espaciais, de acordo com o que discutimos a
partir de Bourdieu (1996) e Elias (1994) no sentido de que “o habitus são princípios
geradores que homem carrega dentro de si” (Bourdieu 1996); portanto, não importando o
tempo que residem no lugar, o seu deslocamento de um lugar para o outro não apagou uma
séria de estilos, gestos e atitudes que trazem do seu lugar de origem; assim, o habitus que os
referenciam estará sempre presente.

Tabela VII - Residia anteriormente

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Onde residia

Nº

%

Onde residia

Nº

%

Município em Alagoas

09

22,5

Município em Alagoas

04

10

Bairro em Maceió

25

62,5

Bairro em Maceió

31

77,5

Fora de Alagoas

06

15

Fora de Alagoas

05

12,5

Total

40

100

Total

40

100

A maioria dos respondentes, das duas amostras, informam que migraram para o
Benedito Bentes vindos de bairros da própria capital Maceió (62,5% do BB1 e 77,5% do
BB2). A maioria desses se deslocaram dos seguintes bairros: Trapiche, Eustáquio Gomes,
Jacintinho, Conjunto Dique Estrada e Vergel, considerados bairros da periferia de Maceió
formado por pessoas que vieram do campo, particularmente com a crise da indústria
canavieira e o fechamento das terras para os trabalhadores do campo, na década de 90. Muitos
foram residir nas favelas e periferias de Maceió. Por uma ação estatal, essas favelas foram
removidas do espaço urbano e deslocadas para esses conjuntos residenciais do Benedito

62

Bentes, inclusive para o Conjunto Cidade Sorriso que também localiza-se no Tabuleiro. As
famílias que não conseguiram casas nos conjuntos residenciais construídos pelo poder público
para abrigar essas famílias vítimas da remoção foram morar nas encostas, passando a formar
as Grotas que hoje passam a ser também lugar de atenção do poder público.

Tabela VIII - Estuda no bairro

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Estuda

Nº

%

Estuda

Nº

%

Sim

06

15

Sim

10

25

Não

34

85

Não

30

75

Total

40

100

Total

40

100

Em relação à Tabela VIII podemos constatar que a maioria dos moradores
participantes de nossa pesquisa informa que não estuda (85% do BB1 e 75% do BB2). Em
contato com os participantes da pesquisa, foi possível constatar que eles reconhecem que
existe uma deficiência em relação ao acesso as escolas que se localizam no bairro, bem como
as escolas que ficam distante deles. Por isso, preferem que seus familiares (filhos, netos,
sobrinhos) estudem em escolas fora do bairro Benedito Bentes por causa do transporte escolar
fornecido pelo programa do governo, que facilita o deslocamento de saída e de chegada. O
transporte escolar é decisivo porque a ida para a escola a pé, mesmo que seja mais próxima,
constitui um fator de risco, pois os estudantes ficam suscetíveis a assaltos por causa do alto
índice de violência presente no bairro. Para esses moradores, pegar um ônibus que os levem e
tragam de volta na rua em que moram é mais seguro do que estudar perto de casa, segundo
relatos no momento da aplicação dos questionários.
A seguir, amostragem dos moradores participantes da pesquisa, que afirma possuir
comércio no bairro.
Tabela IX - Possui comércio no bairro

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

63

Possui Comércio

Nº

%

Possui Comércio

Nº

%

Sim

17

42,5

Sim

23

57,5

Não

23

57,5

Não

17

42,5

Total

40

100

Total

40

100

Apensar dos dados não expressaram uma significativa diferença entre as amostras
entre os moradores dos dois bairros, em relação à percentagem dos que possuem comércio no
Bairro (42,5% no BB1 e 57,5% no BB2), nossa observação empírica revela que o comércio e
a feira existente no Complexo Benedito Bentes 2 é muito mais ampla e envolve muito mais
moradores que possuem barracas e lojas no bairro; portanto, é o Benedito Bentes 2 que possui
um maior número de moradores envolvidos com atividades de comércio no bairro. A feira e o
comércio comportam itens variados em que se encontra de tudo: desde peças de vestuário,
alimentos, produção agrícola, avicultura, suinocultura, produção de leite de gado, móveis e
uma infinidade de itens; como também, durante a pesquisa de campo, foi encontrado barraca
de curandeira e ervas que, por sinal, é muito visitada no local como alternativa ao Posto de
Saúde do bairro. Por conseguinte, é outro sinal da permanência dos traços de um habitus rural
desses moradores, que preferem fazer uso de práticas sugeridas pelas curandeiras e fazer uso
de medicamentos com ervas ao invés de procurar o atendimento médico no Posto de Saúde
existente no bairro. Consideramos que esse comportamento que opta por cuidados alternativos
com a saúde existe tanto no Benedito Bentes 1 como no Benedito entes 2.

Tabela X - Trabalha no bairro onde mora

Benedito Bentes 1

Trabalham no Bairro
Sim
Não
Total

Nº
31
09
40

%
77,5
22,5
100

Benedito Bentes 2

Trabalham no Bairro
Sim
Não
Total

Nº
29
11
40

%
72,5
27,5
100

Quanto a realizarem atividades de trabalho no bairro, observamos que uma alta
percentagem das pessoas que responderam ao questionário trabalham no âmbito do próprio

64

bairro (77,5% no BB1 e 72,5% no BB2). Trata-se de um trabalho informal, mas que garante o
sustento da família. Das atividades informais relacionadas no questionário que aplicamos,
destacamos as seguintes: venda de cuscuz de arroz em carro-de-mão, venda de bananas, ovos
etc como vendedores ambulantes nas ruas do bairro. Existem aqueles que trabalham fazendo
capinagem, e oferecendo seus serviços, montados em carroças, nas portas das casas. O serviço
é capinar quintais ou subir em coqueiros para tirar cocos. Uma moradora relatou que vende
roupas usadas no espaço do bairro. Todos esses serviços expressam um certo comportamento
interiorano que são a forma que os moradores têm encontrado para garantir a sua subsistência
e de suas famílias. Sem empregos, precisam encontrar uma alternativa para fazer dinheiro, e
utilizam-se dos conhecimentos que carregam consigo como um habitus rural para colocar em
prática no seu dia a dia.
A partir do referencial teórico dos autores Bourdieu (1996) e Elias (1994)
compreendemos que a permanência dos traços dos hábitos rurais (habitus rural) que ocorre no
bairro Benedito Bentes, a partir da partilha que os moradores fazem de determinados valores e
percepções no campo social, cultural, religioso, constituem um campo simbólico que orientam
a atuação dos indivíduos no bairro, e definem suas práticas sociais.
Na tabela XI abaixo questionamos se participavam de associações que pudessem
existir no bairro, porém vemos que no Complexo 2 nenhum morador dos que responderam ao
questionário participa de associações do bairro, somente duas pessoas que residem no
complexo 1 participam e tratando-se somente de associação religiosa.

Tabela XI - Participa de Associação no bairro.

Benedito Bentes 1

Participação
Sim
Não

Nº
02
38

%
5

95

Total

40

100

Benedito Bentes 2

Participação
Sim
Não
Total

Nº
0
40
40

%
0
100
100

A ausência de participação em associações nas amostras coletadas nos dois
Complexos Residenciais é reveladora de uma comunidade que não faz uso dos instrumentos
políticos democráticos para conquista dos seus direitos sociais. Contraditoriamente, defendem
a posição de que o Bairro Benedito Bentes deveria ser transformado num município (70% do

65

Benedito Bentes 1 e 75% do Benedito Bentes 2), como assinalamos anteriormente na Tabela
1.

Tabela XII - Concordam que existe diferença entre os dois complexos.

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Concordam
Sim
Não

Nº
31
09

%
77,5

22,5

Total

40

100

Concordam
Sim
Não
Total

Nº
31
09
40

%
77,5
22,5
100

É alto o índice dos moradores que participaram da pesquisa quanto a sua percepção de
que existe uma diferença na dinâmica social e no comportamento das pessoas que residem no
Benedito Bentes 1 e no Benedito Bentes 2 (em ambas as amostragens, 77,5% reconhecem que
há uma diferença entre os complexos). A diferença advém do próprio desenvolvimento do
bairro que aconteceu de forma diferenciada. A maioria compreende que o Benedito Bentes 1
teve um crescimento mais arrojado, com o desenvolvimento do comércio e indústrias que dão
um aspecto de que o bairro é mais desenvolvido e avançado; enquanto o Benedito entes 2 não
apresenta avanço no aspecto econômico, educacional e no campo do lazer, mantendo um
aspecto atrasado, rural e interiorano. Essa percepção pode ser confirmada com os dados da
tabela XIII em que os respondentes se posicionam se a classificação de bairro rural é mais
adequada ao Benedito Bentes 1 ou ao Benedito Bentes 2. O crescimento de ambos os
Complexos (1 e 2) pode ser visto a olhos nus, dando destaque a um crescimento habitacional
através do lançamento de loteamentos e a construção de conjuntos residenciais que
transformam o aspecto habitacional do Bairro (Fonte: IBGE). O Desenvolvimento do bairro
tem acontecido de forma diferente, mantendo muitas contradições e desigualdades,
corroborando com a tese de Ruas (2002) quando afirma: “Chamamos a atenção para o

66

processo de desenvolvimento do capitalismo que se dá de maneira desigual no espaço” (RUA
2002, p.33).
Os moradores participantes do questionário relataram a necessidade de melhorias para
o bairro, porém destacam que o poder público da capital, favorece com mais atenção para o
Benedito Bentes 1, do que para o Benedito Bentes 2. As melhorias que foram comentadas
destacam-se as seguintes: Escolas Estaduais de Tempo Integral, SENAI, Empresa
ALMAVIVA, Indústrias de grande porte (Coca-Cola e AMBEV), Supermercado G.Barbosa,
Faculdades FAT, UNIT, Pitágoras e o Shopping Center, todos instalados no Benedito
Bentes1.
A percepção de que há uma diferença entre os complexos 1 e 2, ficou bastante
evidente quando perguntamos sobre qual bairro eles classificariam como rural, se o BB1 ou o
BB2. Na tabela abaixo pode-se constatar que tanto os moradores do BB1 como do BB2
posicionam-se de acordo com a tese de que o Benedito Bentes 2 carrega traços mais rurais do
que o Benedito Bentes 1.

Tabela XIII - Classificam o bairro como Rural

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Mais Rural

Nº

%

0

B.Bentes 1

0

0

35

87,5

B.Bentes 2

40

100

Nenhum

05

12,5

Nenhum

0

0

Os dois

0

0

Os dois

0

0

Total

40

100

Total

40

100

Mais rural

Nº

B.Bentes 1

0

B.Bentes 2

%

Um total de 87,5% de moradores do complexo Benedito Bentes 1 e 100% do
Complexo Benedito Bentes 2 classificam o Bairro Benedito Bentes 2 como um espaço que
tem características de um espaço rural.

Nas duas amostragens, ninguém relacionou o

Benedito Bentes 1 com características rurais e apenas 12,5% da amostragem do BB1 opinou
que nenhum dos dois complexos apresentem características rurais.
Como já discutimos anteriormente, trabalhamos com a percepção do rural como
hábitos, relações sociais, formas de trabalho e de lazer, relações com a família e com o lugar

67

que conservam aspectos trazidos do campo que podem ser caracterizados como rurais, com
destaque à plantação de verduras e hortaliças nos quintais e criação de bichos, além das festas,
da feira, e de prática que relembram uma vida interiorana (conversas nas caladas, dominó a
praça etc). Durante a pesquisa identificamos uma série desses aspectos acima citados nos dois
complexos; no entanto, sem sombra de dúvida, o Benedito Bentes 2 apresenta conteúdos
culturais e práticas sociais que se aproximam muito mais do universo rural do que do universo
urbano, o que nos faz defender que naquele território configura-se uma dinâmica em que a
vida do campo acontece na cidade.
As reflexões do autor Rua (2002) nos ajudam a compreender que esse rural que se
apresenta no bairro como um todo, não é apenas um rural camponês a que estamos
acostumados, contudo, há um rural que se torna urbano, conquanto, preservando as
especificidades do rural. Nesse sentido, o bairro Benedito Bentes torna-se um território
híbrido, onde o urbano e o rural se interagem. Esses aspectos podem ser conferidos nas
tabelas abaixo em que se registra o percentual de moradores que praticam o cultivo agrícola e
a criação de animais nos dois complexos estudados.
Tabela XV – Prática de cultivo agrícola no bairro

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Cultivo Agrícola

Nº

%

Cultivo Agrícola

Nº

%

Sim

06

15

Sim

27

67,5

Não

34

85

Não

13

32,5

Total

40

100

Total

40

100

Outra pergunta respondida com um índice relevante para comprovar empiricamente, o
que havíamos observado in loco, e que reforça nossa tese de o Complexo 2 apresenta com
mais afinco a permanência dos traços e hábitos rurais, foi sobre a prática do cultivo e
produção agrícola, conforme vemos na tabela XV acima, em que 67,5% dos moradores do
Benedito Bentes 2 praticam cultivo em suas casas e ou participam de produção agrícola no
bairro no programa “Barriga Cheia” criada pela Prefeitura Comunitária do bairro para ajudar
famílias carentes que subsistem dessa prática.

68

Tabela XVI – Prática da criação de animais no bairro

Benedito Bentes 1

Criação de animais
Sim
Não

Nº
06
34

%
15

85

Total

40

100

Benedito Bentes 2

Criação de animais
Sim
Não
Total

Nº
25
40

%
62,5

37,5

40

100

Da mesma forma, e reforçando os dados já revelados na Tabela XV acima, também
obtivemos os dados na Tabela XVI que comprovam a prática de criação de animais que
favorecem a forma de subsistências de 62,5% dos moradores do Benedito Bentes 2, que
utilizam a criação de animais de corte e a produção do leite para garantir o sustento de suas
famílias.

Tabela XIV - Prática de Lazer no bairro

Benedito Bentes 1

Benedito Bentes 2

Lazer no Bairro

Nª

%

Lazer no Bairro

Nª

%

Sim

39

97,5

Sim

28

70

Não

01

2,5

Não

12

30

Total

40

100

Total

40

100

Referentes à prática do lazer, conforme nos apresenta a tabela XIV acima, 97,5% dos
moradores do Benedito Bentes 1 praticam diversas formas de lazer, destacando a forma de
lazer mais relatada no questionário foi ir ao Shopping Center recém inaugurado no bairro. As
outras formas de lazer comentadas pelos moradores do Benedito Bentes 2, que totalizou a
percentagem de 70% foram: passeio de bicicleta, passeio a cavalo e a carroça, conversar com

69

os amigos na praça central do bairro, ir ao barzinho, ao futebol e jogar dominó na porta com
os vizinhos.
Entrevistamos os moradores mais antigos do bairro com o objetivo de perceber qual
sua percepção sobre a vida no bairro e suas representações sociais em relação ao mundo rural
e urbano que os circundam. Assim, buscamos entrevistar os moradores mais antigos do bairro,
dando prioridade àqueles que moram no bairro desde sua inauguração. Dessa forma,
desejamos mostrar como eles avaliam o conjunto residencial no decorrer desses anos em que
aquele território se transformou em bairro.
Ao perguntamos aos moradores como eles avaliam o bairro; indagações foram feitas,
nas quais, a possibilidade do bairro se tornar um município, e entre outras, o crescimento
desenfreado de conjuntos habitacionais no bairro que retirou a possibilidade da existência
anterior de áreas verdes que algumas famílias utilizavam para criação de animais e cultivo
hortaliças, tubérculos e frutas.
Outro aspecto que os moradores atribuem entre os dois complexos Benedito Bentes
“1” e Benedito Bentes “2” é fato dos dois complexos se diferenciarem. Nos quais entre os
quatros mais antigos moradores que foram encontrados, também apontam que entre os dois
complexos há um mais avançado do que o outro. Atribuem ao Benedito Bentes “2” a um lugar
de atraso e rusticidade, enquanto ao Benedito Bentes “1” a um lugar de progresso e
modernidade.
Nesse sentido, esses moradores atribuem o complexo Benedito Bentes “1” com
características urbanas pelo fato de ser visto com progresso e modernidade, com a instalação
de indústrias, shopping, hipermercados e condomínios habitacionais, enquanto que, ao
complexo Benedito Bentes “2” com características rurais pelo fato de ser visto com atraso e
rusticidade, e seu território existirem áreas verdes e encostas, como grotas e campos onde
existe a Fazenda Duas Bocas.
Conquanto, esses aspectos apontados por esses moradores não definem em sua
totalidade o bairro, pois a concepção tradicional do rural como lugar de atraso e rusticidade e
do urbano como lugar do progresso e modernidade, não pode mais ser tida como absoluta,
porque tanto o Rural como o Urbano tem passado por grandes transformações de acordo com
o levantamento bibliográfico sobre o tema nesta monografia.
Em Wandeley (2001) há uma explicação de que
A sociedade brasileira parece estar tendo um novo olhar sobre o rural,
antes visto como uma fonte de problemas passa a apresentar indícios

70

de ser também portador de soluções com o crescimento da busca por
um maior contato com a natureza e o aprofundamento das relações
sociais mais pessoais, tidas como predominantes entre os habitantes
do campo (WANDERLEY, 2001, p. 31).
Em Moreira e Gaviria (2002, p.54): “As características tidas como eminentes do rural,
muitas vezes também podem ser percebidas em pequenas cidades e vilarejos. Nestes lugares
existe uma grande carga cultural que é traduzida pelo apego as tradições”.
Nesse sentido, tais transformações do rural estão presentes nessa articulação entre rural
e identidade social da comunidade e não somente a presença do rural que se faz presente no
seu espaço físico, que também passou por modificações com a chegada da tecnologia.
As relações entre a cidade e o campo a cada dia estão mais estreitas e é quase
impossível não haver essa relação de seus habitantes com o lugar e seus hábitos. Definindo tal
comportamento dos moradores ao bairro como a uma topofilia4. É possível observar isso na
fala de alguns moradores mais antigos entrevistados quando perguntados sobre sua opinião a
respeito do bairro Benedito Bentes desde sua inauguração até o momento presente, entre os
dois complexos 1 e 2.

Morador do complexo Benedito Bentes 1:
(...) Tudo aqui mudou, nada é mais como antes, com aqueles canaviais
e matas em frente das casas. Com a construção de novos conjuntos a
população aumentou. Eu vejo que o Benedito 1 é mais desenvolvido
do que o Benedito 2(65 anos).

Moradora do complexo Benedito Bentes 2:
(...) Tem muito a se fazer ainda aqui no bairro. Aqui tem de tudo na
feira e no comércio do bairro. Também tem o mini-hospital Denilma
Bulhões, clínicas médicas, cemitério, a indústria de refrigerante
AmBev, a coca cola, as escolas e agora com um shopping aqui
pertinho. Só que não é aqui no Biu2, é somente no Biu 1. E também as

4

Topofilia é descrito como sendo "o elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico". Uma
pessoa pode ter uma relação com lugares de maneira topofílica ou topofóbica.
(Disponível em www.dicionarioinformal.com.br/topofilia/ Acesso em 05 de julho de 2017).

71

faculdades pra meus filhos estudarem que chegou aqui no Biu 1, isso
foi muito bom. Mas quem mora aqui no Biu 2 tudo fica longe. Até
mesmo ir para o Biu 1 preciso pegar o ônibus integração que demora
muito. As vezes vou na carroça do meu marido que me deixa lá na
Praça da Formiga (Praça Central do bairro chamada Pe. Cícero) saio
cedo de casa pra trabalhar lá no mercado daqui da praça. Vendo ovos
de galinha e de codorna, pata também. A praça tem muitos
divertimentos (57 anos).

Morador do complexo Benedito Bentes 1:
(...) Eu morava no bairro do trapiche aqui em Maceió, mudei para cá,
aqui era calmo, mas depois da inauguração do Benedito 2, a chegada
de novos moradores no bairro, com o tempo a violência aqui
aumentou muito. Gosto muito de morar aqui, só que é longe do Centro
e da praia. Aqui parece que moro no interior, fora de Maceió (52
anos).

Morador do complexo Benedito Bentes 2:
(...) Eu gosto daqui do Biu. Moro aqui desde quando meu avô recebeu
a casa. Antes a gente morava em Girau do Ponciano. Tinha roça lá.
Mas chovia pouco e o feijão não crescia, meu avô plantava feijão de
arranque. Quando a gente chegou aqui tinha muito terreno pra plantar,
a gente continuou plantando aqui o feijão de arranque e também as
bananas. Dá pra vender na feira daqui. A gente pegou terreno aqui na
grota e deu pra plantar e cuidar da burra. Faz muito tempo a gente tá
aqui. Eu cheguei aqui ainda rapazinho. Meu pai perdeu o terreiro que
a gente cria o porco. Por causa que fechou. Sabe. Tem que ter licença
pra matar o porco pra vender. Eu agora trabalho de pedreiro. De
tardinha fico na porta de casa com meu vizinho e a gente joga dominó
(39 anos).

O quarto morador entrevistado, do Benedito Bentes 2, (39 anos) nos relata as
mudanças que sua família sofreu ao migrar para Maceió e sua chegada ao Benedito Bentes

72

adaptaram-se um lugar semelhante ao que sua família estava habituada a viver no anterior
município de Alagoas. Fica evidente a dependência de subsistência dessa família e igualmente
a tantas outras no bairro.
O terceiro entrevistado, morador do Benedito Bentes 1, (52 anos) ressalta a dificuldade
de seu deslocamento no bairro.

Aponta o bairro por ser distante do Centro da cidade e da

orla para momentos de lazer, com isso o faz sentir residir fora de Maceió pelo fato de se
tornar distante.
A segunda entrevistada, moradora do Benedito Bentes 2, destaca a necessidade que
tem de deslocamento de um complexo para o outro, utilizando como meio de transporte a
carroça de trabalho do seu marido. Além de praticar a criação de aves para comercializar os
ovos no mercado público do bairro.
A todos os entrevistados foram feitas as mesmas perguntas sobre o bairro, no sentido
de que relatassem sua opinião de como se sentiam em residir no bairro Benedito Bentes. Na
aplicação do questionário respondido pelos moradores dos dois complexos, no qual as
perguntas foram todas referentes a seu modo de vida e sua forma de trabalho e relação social
com seus vizinhos (Ver Anexo 1).
No tocante, suas respostas tem o mesmo direcionamento, em que atribuem ao bairro, a
distância, a violência, a falta de políticas emergentes (com grande potencial de crescer)
referentes ao desenvolvimento em transportes e empregos. Relatam também a falta de
sociabilidade entre os dois complexos. Para alguns moradores do Benedito Bentes 1 que
tratam os complexo vizinho de forma estigmatizada. Sente-se superiores aos moradores do
complexo Benedito Bentes 2, por residirem há mais tempo, e que a chegada dos moradores do
complexo Benedito Bentes 2 trouxe um crescimento populacional que acarretou ao longo de
anos o aumento da criminalidade no bairro.
Na revisão bibliográfica, em uma leitura esmiuçada de autores que estudaram um
fenômeno semelhante ao desta monografia, destaco o autor Norbert Elias (2000), em seu livro
“Os Estabelecidos e Outsiders” e a autora Lídia Rebouças (2000) em sua dissertação de
mestrado “O Planejado e o vivido”.
Rebouças (2000) comenta sobre a sociabilidade forçada entre pessoas ribeirinhas cuja
vizinhança foi definida, e a dificuldade desses reassentados em reproduzir suas vidas sob
novas bases materiais e organizacionais, impondo-lhe um padrão produtivo e uma
organização inspirada no mundo urbano-capitalista.

73

Uma forma de refletir sobre os desdobramentos de uma ação
planejada no nível das relações sociais é eleger a categoria de espaço
como norteadora do convívio de diferentes ordens culturais e perceber
como cada agente social envolvido atua dentro de uma rede de
significados (REBOUÇAS 2000 p. 31).

No autor Elias (2000) relata em Winston Parva, como em outros lugares, viam-se
membros de um grupo estigmatizando os de outro, não por suas qualidades individuais como
pessoas, mas por eles pertencerem a um grupo coletivamente considerado diferente e inferior
ao próprio grupo. Não havia diferenças de nacionalidade, ascendência étnica, cor ou raça
entre os residentes das duas áreas, e eles tampouco diferiam quanto a seu tipo de ocupação,
sua renda e seu nível educacional – em suma, quanto a sua classe social. As duas eram áreas
de trabalhadores. A única diferença entre elas era a que já foi mencionada: um grupo
compunha-se de antigos residentes, instalados na região duas ou três gerações, e o outro era
formado por recém-chegados.

O problema a ser explorado não consistia em saber qual dos lados
estava errado e qual tinha razão, mas em saber que características
estruturais da comunidade em desenvolvimento de Winston Parva
ligavam dois grupos de tal maneira que os membros de um deles
sentiam-se impelidos_ e tinham para isso recursos de poder
suficientes_ a tratar os de outros, coletivamente, com certo desprezo,
como pessoas menos educadas e, portanto, de valor humano inferior,
se comparadas com eles_ os recém-chegados eram desconhecidos não
apenas dos antigos residentes, mas também entre eles; não tinham
coesão, e, por isso, não conseguiam cerrar fileiras e revidar (ELIAS
2000 p. 24).

Elias (2000) realizou um trabalho de observação, a partir do qual foi possível
compreender a realidade observada fazendo proposições nos planos micro e macro. Fica
evidente na obra de Elias, que a maior coesão entre os moradores das zonas habitacionais
1, existia a exclusão e a estigmatização entre eles, os dos membros da zona habitacional 2.
O autor Elias (2000) chama a atenção para a diferenciação existente entre
preconceito individual e a estigmatização grupal praticada em Winston Parva.
Em se tratando do bairro Benedito Bentes, precisamente o complexo B. Bentes 2,
que demonstra ter mais uma vida rural do que urbana, e seus moradores mantêm mais

74

costumes rurais do que costumes citadinos, passam a adquirir esse estigma de interiorano
pelo fato do modo de viver das famílias que migraram para o complexo B. Bentes 2, antes
acostumadas ao hábitos rurais de seu cotidiano.
Dessa forma carregam consigo suas tradições, formas de trabalho, e modo de
relações com seus vizinhos de acordo com o modo de viver rural adaptando a vida
urbanizada e capitalista do bairro. Havendo uma continuidade, associada a abordagem de
continuum, do autor Graziano (2002) numa aproximação entre espaço rural e a realidade
urbana, identificada na vida dos moradores do bairro Benedito Bentes.

75

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Elencamos nessas considerações as principais discussões tratadas nos capítulos desta
monografia, chamando atenção aos principais aspectos debatidos que enriqueceram esse
estudo sociológico. É possível detalhar os seguintes aspectos comentados pelos moradores e
observados por nós na condição de pesquisadora.

O estigma atribuído ao complexo Benedito Bentes 2

Há uma visão de que o complexo Benedito Bentes 1 estigmatiza o complexo Benedito
Bentes 2, como um bairro rural, atrasado, e com alto índice de criminalidade, devido sua
população ser de famílias migrantes e apontadas pela mídia como sendo uma varredura social
feita pelo governo. Atribuem, dessa forma, essa visão estigmatizada ao Benedito Bentes 2.
Ressaltando, porém, que apesar desse estigma, por parte dos moradores do complexo
Benedito Bentes 1, ainda assim, realizam relações sociais e de comércio ao complexo vizinho
estigmatizado no âmbito também da religião, educação escolar e no vínculo de amizades.
No levantamento documental da presente pesquisa, sobre o índice de criminalidade no
bairro, pela Secretária de Segurança Pública, esclarece que o índice se efetua com mais
intensidade no complexo Benedito Bentes 2, embora sejam os dois complexos apresentados,
sendo o bairro em sua totalidade, como o mais violento da capital entre os bairros Clima Bom,
Tabuleiro, Santos Dumont, Cidade Universitária e Eustáquio Gomes.
Apesar de se situar mais distante, com seus conjuntos residenciais adjacentes, o
complexo Benedito Bentes 2 abriga entre os conjuntos residenciais, as associações de bairro
(Associação dos Moradores e a Associação das Donas de Casa e Amigos do Benedito Bentes)
Polícia Comunitária, Postos de Saúde, e a Ong “Pense Alagoas” que favorece a população
com o atendimento médico aos moradores. Juntamente com o complexo Benedito Bentes 1,
que há entre ambos uma integração de relações sociais, nos momentos festivos, culturais e
religiosos e de trabalho.
Dessa forma, essa estigmatização entre os bairros, que revelam uma certa rixa entre
eles, não afeta a interação e socialização entre ambos. Mas mantém relações sociais e
culturais tornado os dois complexos em um bairro tido como o maior na capital de Maceió.

76

A definição de urbano e rural no bairro

A bibliografia que referenciou este trabalho trabalha com uma definição sociológica do
rural e do urbano, para além da ideia de campo e cidade, mas a partir de diferentes situações.
Segundo os autores estudados, atribuir uma definição ao rural e urbano, deveria fazer
primeiramente, uma combinação de vários traços típicos e não levando apenas em conta só
uma característica, conquanto levando isso ao fenômeno no Benedito Bentes, que no aspecto
do seu espaço físico e geográfico, por ser construído em uma área da capital cercado por mata
e plantações de canaviais e circundado ao leste pela fazenda Santa Luzia conhecida como
fazenda Duas Bocas, não o define como rural.
A necessidade de averiguar aspectos que identifiquem o bairro num conceito rural ou
urbano está presente nas dimensões subjetivas e objetivas dos seus moradores. Precisamente
nas representações sociais que expressam a sua visão de mundo, isto é, da realidade em que
vivem, no seu bairro.
De certo, para uma população das comunidades rurais identificamos que existem os
trabalhadores rurais que se ocupam com a agricultura e também o fato de que numa
comunidade rural a densidade da população é mais baixa do que na urbana. Neste caso o
bairro Benedito Bentes tem em sua composição de habitantes uma densidade alta atribuída a
uma cidade urbana do que rural. Além do que seus moradores em pequena parte trabalham no
corte de cana para garantir sua subsistência, enquanto outras famílias plantam e criam animais
de corte para comercializar na feira o bairro.
Considerando também, a diferença na integração social, em que nas comunidades
rurais, o contato é muito menor com o número de pessoas, enquanto que numa vida citadina,
em comunidades urbanas o contato com pessoas é muito maior, e a interação social mais
intensa, caso este que, com a instalação do shopping Center no bairro Benedito Bentes, essa
interação social só aumentou. Se antes vizinhos que tem o hábito de se sentarem a porta de
casa para conversarem, com a chegada do shopping ao bairro, procuram uma distração
diferente ao sair de casa para passear no shopping. Vemos relevância desses aspectos que
concerne uma continuidade do rural para o urbano analisados nesta pesquisa.
Nesse sentido, avaliando tais aspectos vemos que são principalmente suas formas de
trabalho, o estilo de vida e o hábito cultural dos moradores que os identificam com uma vida

77

rural, trazendo consigo aspectos rurais e não somente os costumes do próprio lugar, no
sentido espacial e físico do bairro.
Portanto, não poderia existir apenas o rural e o urbano sem algo que intermediasse
essa relação, existiriam vários elementos que dariam a continuidade entre esses dois aspectos.

O apego ao habitus rural.

As reflexões realizadas através dos estudos em que nos debruçamos a respeito do
conceito de habitus, leva-nos a concluir que segundo a abordagem conceitual feita pelos
autores Bourdieu (1996) e Elias (1994) sobre habitus e figuração social, se dão pelo fato de
que as relações sociais estabelecidas no lugar entre os moradores advêm de uma relação
simbólica de poder nos campos religioso, econômico e cultural.
Sabendo que a sociedade do Benedito Bentes foi formada paulatinamente pelo processo
migratório no bairro – informação obtida na pesquisa documental – e seu espaço físico e
geográfico pela construção dos dois conjuntos habitacionais encapado pelo Estado como
apenas mais uma construção habitacional no seu plano de governo, e que sem nenhuma
perspectiva de crescimento futuro, abarcou o que poderia se tornar hoje, como o é, o mais
populoso bairro da capital alagoana – IBGE – demonstra também a permanência dos traços
dos hábitos rurais dos moradores.
Uma sociedade como a do bairro Benedito Bentes que cresce a cada ano, segundo o
último senso do IBGE, está cada vez mais aberta a necessidades no plano da segurança
pública, da educação, da saúde, pois as faltas de políticas públicas deixam muitos problemas
para a população.
Nesse sentido, podemos compreender os meios pelos quais os moradores que
demonstram a permanência dos hábitos rurais, procuram para sua subsistência, ainda sendo no
trabalho rural, e mantendo suas relações sociais com a presença de costumes e tradições
rurais. Portanto, se faz necessário assistir aos moradores, por parte do governo, de tais
políticas públicas – informação obtida pelo levantamento de dados na prefeitura comunitária.
Pois, se no Benedito Bentes a maioria das famílias vivem do cultivo e criação de animais, da
feira do bairro, precisam ser assistidas nessas suas atividades e especificidades. O modelo de
sociedade não pode ser imposto pelo Estado como somente a uma vida urbanizada, citadina,
se a presença de uma nova ruralidade se apresenta no bairro.

78

Para compreender o problema que nos instiga, tomamos como exemplo, a pensar nas
sociedades antigas, onde cada uma se formou com um modelo existente. Na Idade Média
cristã, que foi estruturada na pregação de Cristo, na doutrina elaborada pelos sacerdotes da
Igreja do Oriente e do Ocidente. Já a sociedade mulçumana nasceu e se desenvolveu seguindo
o padrão ditado por Maomé. Na sociedade dos Estados Unidos se fundou com base nos
modelos das ideias protestantes, iluministas e puritanas. Como também se pensarmos no
modelo liberal que foi vitorioso no século XIX e ainda está presente na nossa economia e na
nossa política, onde é derivado do pensamento de John Locke, Adam Smith, Alexis de
Tocqueville e outros. A sociedade soviética tentou a construção do modelo concebido por
Marx e Engels.
Portanto, nenhuma sociedade obteve um modelo único e correto, que pudesse se
perpetuar desde o passado e o presente capaz de tornar a vida de seus indivíduos que o
adotaram perfeita e sem problemas sociais.
Ao relembrar os estudos de ciência política, antropologia e sociologia da academia, em
sala de aula, podemos abordar que a plenitude da vida em uma sociedade em que está
continuamente em desenvolvimento, não poderá está em consonância com seus indivíduos se
o modelo de vida adotado não for o ideal para a coletividade. Numa sociedade pós-industrial
em que vivemos, cabe ao Estado formar um planejamento urbano satisfatório, convencido de
que o bem estar social esteja em primeiro plano e a considerar que nesta sociedade, que no
caso desta pesquisa sociológica é o Benedito Bentes, no qual empiricamente, se faz presente a
permanência dos traços dos hábitos rurais que movimentam o cotidiano desses moradores.
Podemos compreender melhor a permanência dos traços dos hábitos rurais no Benedito
Bentes, através dos referenciais teóricos e as entrevistas, em que percebemos que a questão da
ruralidade discutida, encontra-se num processo de mudança paulatina de suas características e
modo de viver, estando imersa na urbanidade do bairro. Embora vivendo um cotidiano
citadino, os hábitos e costumes rurais permanecem sem qualquer alteração ou diminuição. O
que podemos perceber é que a permanência dos traços dos hábitos rurais se adapta em sua
particularidade numa realidade urbana dando continuidade a ambos, o rural e o urbano.
Constatamos que o bairro foi povoado por um processo migratório em que não houve,
por parte do Poder Público, o acompanhamento de sua expansão com oferecimento de
políticas públicas necessárias a atender a população migratória que chegava ao complexo,
aumentando gradativamente o território populacional do Benedito Bentes. Tudo isso foi

79

decisivo para aumentar os índices de deficiências no Bairro, com os dados alarmantes em
relação à violência, à assistência educacional e o atendimento à saúde da população do bairro.
Os conjuntos residenciais foram sendo construídos e inaugurados, entregues as famílias
sem qualquer planejamento prévio que averiguassem o processo migratório das mesmas.
Como por exemplo, de qual localidade vinham, número de membros na família, ocupação
profissional, formas de trabalho, número de crianças em idade escolar, etc. Sem serem
atendidas, o que tornou a assistência à população extremamente falha.
Só no conjunto Cidade Sorriso existem 1.500 casas, porém, nenhuma escola construída,
nem Posto de Saúde no local, nem mesmo área de lazer. Sendo assim, sem assistência esses
conjuntos que foram povoados por famílias que foram tiradas da favela de lona do bairro
Eustáquio Gomes e da favela Sururu de capote no Conjunto Dique Estrada, foram aos poucos
sendo ocupado pelo tráfico de drogas, constituindo-se efetivamente num bairro violento,
atrasado e rural, por ser distante e cercado por canaviais e uma Fazenda Local Santa Luzia.
Dessa forma, essas famílias procuram adaptar-se ao lugar e procuram formas de
trabalho rural para sua subsistência, através da criação de animais, bovinos para leite, porcos,
aves e na pequena agricultura de hortaliças, tubérculos e frutas, comercializando na feira ao ar
livre do canteiro principal da Avenida do Benedito Bentes 2.
Apesar de, na ótica dos moradores verem os dois complexos como diferentes em
progresso e atraso, urbano e rural, a presente pesquisa revelou que há também semelhanças
entre os complexos residenciais, na medida em que tanto no Benedito Bentes 1 como
Benedito Bentes 2 existem aspectos da vida rural. Esses aspectos rurais não estão presentes
apenas na paisagem ou no espaço físico, mas, estão presentes nos dois complexos residenciais
Benedito Bentes 1 e Benedito Bentes 2, na permanência dos traços dos hábitos rurais de seus
moradores, além de estarem presentes nas suas dimensões subjetivas expressas através das
relações sociais, do modo de vida e das formas de trabalho.
Acreditar, portanto, que os dois complexos se diferenciam de forma profunda é uma
visão superficial da realidade desses complexos residenciais. Os moradores do Benedito
Bentes 1 são mais antigos e os moradores do complexo 2, que migraram e se instalaram
procurando adaptar-se sua subsistência e o modo de viver com suas formas de trabalho a um
recente e novo lugar, também é amenizada essa visão estigmatizada, pelo fato de que, apesar
de atribuírem o estigma, não deixam de terem interações sociais. De forma que o estigma que
carrega o Benedito Bentes 2 de ser violento, rural e atrasado, não interfere na sociabilidade
entre os dois complexos.

80

O reconhecimento do lugar enquanto produto histórico e social foi realizado a partir dos
grupos sociais que constitui o bairro. Os moradores do Benedito Bentes, em sua maioria,
migrantes de municípios e bairros vizinhos, e também trabalhadores rurais permitem a
permanência de hábitos rurais que viveram ou que lhe foram repassados pelos seus
antecedentes.
Os moradores do bairro Benedito Bentes em sua maioria, continuam a estabelecer esse
vínculo de trabalho do tipo rural, porque muitas famílias procuram emprego no Centro da
capital, e outras formas de emprego com carteira de trabalho assinada ou pelo trabalho
informal, pelo fato de que o bairro apresenta pouca oferta de trabalho para essas famílias sem
escolaridade profissional.
Em suma, a dependência do campo, da vida rural, garante a permanência de hábitos e
conteúdos rurais, que são reconhecidos através das relações cotidianas e de trabalho e que
estão presentes nas dimensões objetivas e subjetivas dos indivíduos.
Nesta monografia não podemos deixar de registrar a falha do Poder Público com
relação à uma política de planejamento urbano fazendo o reconhecimento de que essa
deficiência trouxe sérias e drásticas consequências para a população desassistida. A falta de
interesse público para orientar na formulação e políticas públicas relativas à habitação e
urbanização acarreta problemas sociais sem precedentes.
Observamos a falta desses profissionais, no edital de concursos públicos do Estado e
Município, para o cargo de Cientistas Sociais que com certeza favoreceria com pesquisas
empíricas da sociologia, antropologia e ciência política, nos projetos econômicos, sociais e
urbanos do Estado, capacitando ainda mais o governo em políticas públicas para atender
satisfatoriamente a população. As possibilidades de o bairro ter tido menos problemas sociais
se ampliariam caso o complexo residencial Benedito Bentes tivesse contato com um
planejamento urbano pautado nos conhecimentos das ciências sociais (sociologia, política e
antropologia). Certamente estaria mais assistido em termos de inclusão social, com garantias
de empregos, segurança pública, saúde e educação e a expansão do complexo residencial, que
se tornou o maior bairro da capital Maceió, contando com uma população maior do que a
população do município de Arapiraca/AL.
Portanto, fenômenos sociais como este, estudado no bairro Benedito Bentes, ainda
estão cercados de transformações e com o surgimento de novos aspectos que irão desencadear
novas indagações e investigações que desejamos, possa apresentar novos paradigmas para

81

pensar as especificidades do mundo urbano e rural, ou, se quiserem, da “rurbanização” 5 dos
bairros.

5

Rurbanização é o processo pelo qual ocorre uma transformação das atividades desenvolvidas nas áreas
rurais, ou seja, seria uma crescente integração entre os espaços urbanos e rurais. Como por exemplo, o
surgimento de novas atividades voltadas para a construção civil, lazer, turismo, ou ainda, a mudança de
algumas indústrias para o campo.
(Disponível em http://geolibertaria2.blogspot.com.br/2009/07/rurbanizacao.html. Acesso em 04 de
julho de 2017).

82

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85

ANEXO 1

86