Olhar e ouvir para além do asfalto: um estudo sobre memória e violência no Vale do Reginaldo, Maceió-AL
Discente: Suana Csehes do Nascimento; Orientadora: Fernanda Rechenberg.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS-UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS- ICS
CIÊNCIAS SOCIAIS-LICENCIATURA
OLHAR E OUVIR PARA ALÉM DO ASFALTO: UM ESTUDO SOBRE MEMÓRIA E
VIOLÊNCIA NO VALE DO REGINALDO, MACEIÓ, AL
SUANA CSEHES DO NASCIMENTO
MACEIÓ- AL
2014
SUANA CSEHES DO NASCIMENTO
OLHAR E OUVIR PARA ALÉM DO ASFALTO: UM ESTUDO SOBRE MEMÓRIA E
VIOLÊNCIA NO VALE DO REGINALDO, MACEIÓ, AL
Trabalho de conclusão de Curso
apresentado ao curso de Ciências Sociais
da Universidade Federal de Alagoas –
UFAL, como requisito final para obtenção
do título de licenciado em ciências
sociais.
Orientadora:Profª
Drª
Fernanda
Rechenberg.
MACEIÓ-AL
2014
SUANA CSEHES DO NASCIMENTO
OLHAR E OUVIR PARA ALÉM DO ASFALTO: UM ESTUDO SOBRE MEMÓRIA E
VIOLÊNCIA NO VALE DO REGINALDO, MACEIÓ, AL
Trabalho de conclusão de Curso
apresentado ao curso de Ciências Sociais
da Universidade Federal de Alagoas –
UFAL, como requisito final para obtenção
do título de licenciado em ciências
sociais.
Orientadora:Profª
Drª
Fernanda
Rechenberg.
Data: 30 de Abril de 2014
Nota:
BANCA EXAMINADORA
Orientador: Profª. Drª. Fernanda Rechenberg
Prof. Ms. Bruno César Cavalcanti
Profª. Drª Ruth Vasconcelos Lopes Ferreira
Dedico este trabalho à meu avô Gyula Csehes (in
memorian), meu grande inspirador. Crescer
ouvindo suas estórias me fizeram criar uma
grande paixão pelo ouvir e escrever. Sua força de
vontade e sua paixão sempre geraram em mim
grande admiração. Hoje não poderia fazer algo
diferente, senão lembrar do quão importante suas
memórias são para quem sou hoje.
Dedico à meu pai Robson Marcelo, quem sempre
acreditou e me fez chegar onde estou hoje. Sua
história de vida e determinação fizeram-me olhar
para o mundo de outra perspectiva.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus, pois dEle, por Ele e para Ele é este trabalho. Certa de que
sem Ele jamais conseguiria concluir este trabalho, sou grata pela sua graça que me fez chegar
até onde estou.
À meus pais Robson e Uranadja que sempre estiveram ao meu lado me encorajando a viver
este momento e acreditando que eu seria capaz.
À minha amada irmã Suelyn , quem tantas vezes com suas doces e sabias palavras me
aconselhava e direcionava.
À minha estimada orientadora Fernanda Rechenberg, por acreditar que eu seria capaz de
produzir esse trabalho em um momento em que eu me vi sem direção.Por sua disposição em
ouvir-me e paciência. Lembrarei eternamente das vezes em que mesmo sem dizer nada seu
sorriso me encoraja a seguir em frente . Suas palavras de encorajamento me fizeram chegar
aqui.
Aos professores Bruno César e Ruth Vasconcelos por aceitarem o convite para participar da
banca de defesa deste trabalho
Ao grande amigo Douglas com quem compartilhei as maiores emoções e hoje chegamos até
esse momento juntos.
Ao grande amigo Aroldo Fernandes ,que conquistei ao longo deste curso. Companheiro que
sempre estava disposto a me ouvir.
Aos amigos Pedro e Moisés por suas valiosas contribuições na estruturação final desse
trabalho.
À amiga e irmã Suanne com quem sonhei durante tantos dias esse momento.
Aos irmãos Ricardo e Adriana Jatobá que sempre estavam dispostos a me ajudar guiando-me
dentro do Vale do Reginaldo e me fazendo chegar em alguns interlocutores
À família JOCUMeira que me proporcionou o encontro com o Vale do Reginaldo. Sem o
Projeto Aprender meus olhos ainda estariam fechados para aquele mundo.
RESUMO
Este trabalho é resultado de uma pesquisa antropológica realizada no Vale do Reginaldo em
Maceió, vale que é conhecido em toda cidade por suas histórias de crime e suas bocas de
fumo. Com a crescente urbanização em Maceió, o vale recebeu migrantes de toda parte, o que
fez com que o local sofresse com o aumento da violência, a poluição desenfreada do Riacho
do Salgadinho e tantos outros fatores. Buscando o máximo de informações sobre a história do
local, este estudo inicia apresentando o Vale do Reginaldo e os percalços encontrados ao
longo da pesquisa. Logo em seguida, as memórias dos moradores serão trabalhadas como
ponto-chave para entender as mudanças do passado e o presente. Por fim aborda-se a
violência de uma nova perspectiva, deixando de lado a fala estigmatizadora que a sociedade
tanto reproduz sobre o local e focando nas memórias dos moradores. Memórias estas que
estão impregnadas de dor e medo, assim como estão repletas de lembranças de um Vale
bucólico.
PALAVRAS-CHAVE: Vale do Reginaldo, memória, cotidiano, violência, urbano
Abstract
This work is the result of an anthropologic research conducted in the Valley of Reginaldo in
Maceio, a well-known valley throughout the city due to its stories of crime and drug dens.
With the increasing urbanization in Maceio, the valley has received migrants from many parts
of the city, making the place suffer with increase in violence, rampant pollution of the creek
of Salgadinho and several other factors. Seeking the maximum of information about the
history of the place, this study begins by presenting the Valley of Reginald and the setbacks
found during the research. Shortly thereafter, the memories of the residents will be used as a
key point in order to understand the changes in past and the current state of the Valley. Lastly,
the violence will be approached from a new perspective, leaving aside the stigmatizing speech
that the society reproduces about the local and focusing on the memories of the residents.
Memories which are impregnated in fear and pain as well as filled with remembrances of a
bucolic valley.
Key- words: Valley of Reginald, memory, everyday, violence, urban
SUMÁRIO
LISTA DE IMAGENS.................................................................................................08
INTRODUÇÃO............................................................................................................10
1.A ESCOLHA DO CAMPO DE ESTUDO..............................................................12
1.1 A entrada..................................................................................................................16
2. OS VALES DO REGINALDO................................................................................23
2.1 Divisões simbólicas a partir do imaginário dos moradores......................................23
2.2 O Reginaldo e seus moradores.................................................................................27
2.3 O Riacho Salgadinho: Sua história contada pelo moradores...................................36
3. O VALE DO REGINALDO E A VIOLÊNCIA EM MACEIÓ..........................47
3.1 Violência , estigma e o Reginaldo...........................................................................50
3.2 A violência nas falas dos moradores do Reginaldo.................................................57
4 . CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................66
REFERÊNCIAS .....................................................................................................68
APÊNDICES............................................................................................................70
LISTA DE IMAGENS
Página 17
Mapa apontando o Vale do Reginaldo e sua proximidade com o bairro Farol
Fonte: Google maps www.google.com.br/maps
Página 18
Mapa apontando o Vale do Reginaldo como Rua Diégues Júnior
Fonte: Google maps www.google.com.br/maps
Página 24
Imagem da Ponte Reginaldo que liga o bairro Farol ao bairro Feitosa
Fonte: G1.globo WWW.g1globo.com
Página25
Escadarias que descem do bairro do Farol para o Vale do Reginaldo
Fonte: Fotografia da pesquisadora, obtida durante o trabalho de campo.
Página26
Casas no Vale do Reginaldo I
Fonte: Fotografia da pesquisadora, obtida durante o trabalho de campo.
Página 27
Casas no Vale do Reginaldo II em contaste com os prédios do bairro Farol.
Fonte: Fotografia da pesquisadora, obtida durante o trabalho de campo.
Página 37
Mapa dos bairros por onde o Riacho Salgadinho passa
Fonte: CALIXTO,Fernanda Karoline Oliveira.O tratamento jurídico dos desastres urbanos
ambientas na perspectiva da sociedade de risco: O caso do Vale do Reginaldo em Maceió/
AL. 2013. Dissertação (Mestrado em Direito). Universidade Federal de Alagoas,Maceió- Al,
2013
Página 39
Riacho Salgadinho em seus primórdios.
Fonte: WWW. blogdojosemarques.wordpress.com/tag/riacho-salgadinho
Página 39
Primeiras ocupações de casas no Vale do Reginaldo e o Riacho Salgadinho
Fonte: WWW.turmadoflamenguinho.blogspot.com.br/2014/01/maceio-de-anteontem-deontem-e-de-hoje
Página 40
Vale do Reginaldo nos dias atuais e a situação do Riacho com as tubulações de esgoto
Fonte: Fotografia da pesquisadora, obtida durante o trabalho de campo.
Página 41
Casas ligadas aos paredões e seus esgotos dentro do Riacho
8
Fonte: Fotografia da pesquisadora, obtida durante o trabalho de campo
Página 42
Animais criados ao lado do Riacho
Fonte: Fotografia da pesquisadora, obtida durante o trabalho de campo.
Página 47
Gráfico com os índices de violência apontando Maceió como a capital mais violenta do Brasil
Fonte:www.g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2013/07/mapa-da-violencia-2013-apontamaceio-como-capital-mais-violenta
Página 48
Reportagem da Folha de São Paulo sobre a situação da violência em Alagoas
Fonte: www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/100252-a-mais-violenta-maceio-tem-areasproibidas.shtml
9
INTRODUÇÃO
O presente trabalho trata de uma pesquisa em uma área discriminada socialmente e
esquecida da cidade de Maceió. O Vale do Reginaldo situa-se entre os bairros do Poço, Farol,
Feitosa e Jacintinho. Mesmo estando tão próximo de bairros comerciais, populosos e de alto
padrão, o Vale é rejeitado pelas pessoas que passam diariamente por ali. Muitas pessoas
carregam consigo uma idéia já configurada do que se possa encontrar ao entrar no Reginaldo.
Ao invés de descobrir uma “nova” realidade, perpetuam uma idéia sobre tal.
O Vale sofre preconceito de moradores que apenas ouvem suas histórias no noticiário
local, ou pelas ruas da cidade. Muitas pessoas nunca entraram lá, mas detalham com
“precisão” como é a violência no local, como são tratados os moradores pelos traficantes e
policias. As histórias que são passadas adiante na maioria das vezes não privilegiam o bairro,
mas o torna um lugar cada vez mais estigmatizado com uma imagem exagerada e deturpada.
Inicialmente, quando pensamos em estudar a comunidade logo nos vem á mente
questões como violência, criminalidade, drogas, mas nunca paramos para olhar a história que
este bairro carrega. Sem deixar de lado esses aspectos, olhamos para a memória dos
moradores do Vale, para entendermos aquilo que só é inteligível aos que saem da esfera do
olhar e partem para o ouvir. Para isto utilizo Maurice Halbwachs(2006) para pensar como as
memórias individuais, que se introduzem na memória coletiva, constroem a historia do local.
Para se entender o Reginaldo é preciso ir além do asfalto. Quando digo isto, penso nas
vezes em que, caminhando para chegar ao Vale deixei as belas ruas asfaltadas, com seus
prédios comerciais luxuosos que cercam todo local, para descobrir o mundo que se esconde
por trás do asfalto escaldante.
Mesmo tendo realizado minhas pesquisas em um curto espaço de tempo, considero
que minha observação em relação o Reginaldo não começava naquela tarde em que me sentei
com meu primeiro interlocutor. Minhas análises, ainda que nada cientificas, começaram
quando desci a primeira vez as escadarias que dão acesso ao Vale do Reginaldo no ano de
2012.
10
Esta pesquisa antropológica teve como base o método etnográfico, com a realização de
observações no local e entrevistas com moradores do Vale do Reginaldo.Durante a realização
dessa pesquisa contei com seis interlocutores. Inicialmente todos concordaram em ter seus
nomes e imagens publicados neste TCC. No decorrer das pesquisas preferi manter sigilo sobre
a identidade dos meus interlocutores, ciente de que muito do que me foi dito lá dentro pode
comprometê-los. Devido a este fato troquei os nomes por nomes fictícios.
No primeiro capítulo apresentarei de forma mais metodológica os percalços
encontrados ao longo de toda pesquisa desde minha escolha do campo de estudo, até minha
entrada no Vale. Já neste primeiro capítulo mostrarei as disparidades que me deparava em
cada entrada no Vale.
No segundo capítulo foco em apresentar o Vale do Reginaldo de uma forma que seja
possível o leitor sentir um pouco do que é estar lá dentro. Com uma descrição detalhada do
local e sempre voltando-me para as memórias individuais e coletivas dos moradores, busquei
em um primeiro momento expor aquilo que meus olhos viam, depois detive minha escrita
naquilo que ouvi de meus interlocutores. Por fim, privilegiei um subcapítulo sobre o Riacho
Salgadinho, pois percebi que a memória daquele povo estava intimamente ligada ao Riacho.
No terceiro e último capítulo abordei a violência dentro do Reginaldo Sendo este um
tema muito debatido no meio da sociedade, busquei mostrar este tema de um novo ângulo.
Abordo a forma como os moradores do Vale são estigmatizados e os obstáculos que a
difusão do medo, através da mídia e de seus próprios moradores, criaram para o local. É
notório que as memórias que circulam no local são cheias de dores e abusos.
11
1. A ESCOLHA DO CAMPO DE ESTUDO
Uma das perguntas mais ouvidas ao longo desse trabalho, foi o porquê da minha escolha
do Vale do Reginaldo, na cidade de Maceió, para ser meu campo de pesquisa. Sendo eu de
uma região tão rica em histórias e belezas, como Coruripe, para muitos não era compreensível
minha afinidade com um lugar tão distante e tão desprezado socialmente. Acredito que não fui
a primeira a viver estas indagações corriqueiras. Penso nas vezes que perguntas como estas
também foram feita à Malinowski e tantos outros pesquisadores.
Talvez fosse mais cômodo permanecer em minha “zona de conforto” e escolher um
campo de estudo mais próximo, menos perigoso, com pessoas conhecidas, onde meu acesso
aos interlocutores seria mais fácil. Mas a escolha do meu campo de estudo deu-se quando
ainda nem pensava em escrever meu TCC: em 2012 ao trabalhar com uma organização não
governamental, Jovens Com Uma Missão- JOCUM1. Nesta organização, fazia parte de um
projeto social que trabalhava com crianças carentes dentro do Reginaldo.
O foco inicial das pesquisas eram as memórias dos moradores do Vale do Reginaldo.
Pensando em todo processo de estigmatização que os moradores sofrem por pertencer ao
bairro, pensei como seria interessante deixar de lado pontos como a violência , as drogas , etc,
e focar na história do local. Assim que pensei em pesquisar o Vale do Reginaldo, tinha uma
certeza em mente: não falaria especificamente sobre a violência no local. Certa de que este é
um assunto muito vinculado ao bairro, tentei trazer uma nova visão sobre o local. No entanto,
no decorrer das entrevistas notei que seria quase impossível não tocar neste assunto. A
violência era um assunto recorrente nas falas de meus entrevistados. Além disso vale ressaltar
que minha entrada no bairro se deu através de um projeto social que trabalhava
especificamente com crianças muito carentes e através destas meus olhos sempre voltaram-se
para a violência no local.
1
Jovens Com Uma Missão é uma Missão internacional e interdenominacional, empenhada na mobilização de
jovens de todas as nações para a obra missionária. Jovens Com Uma Missão reúne pessoas diferentes para
trabalhar nas mais diferentes atividades evangelísticas. Entre os missionários, podem ser encontrados jovens,
famílias, aposentados, universitários recém-formados e pós-graduados, pessoas vindas de mais de 100 países e
denominações evangélicas diferentes.
12
Atualmente as cidades urbanizadas deixaram de ser apenas um meio onde o
pesquisador habita e passaram a ser o objeto de estudo destes. A antropologia urbana
desenvolve pesquisas em diversas áreas do meio urbano, desde as diversas tribos urbanas até
as comunidades carentes. Essas comunidades têm despertado em muitos o desejo de
desvendar o mundo que está além dos nossos olhos. Como afirma a antropóloga Cláudia
Fonseca (2004),
A particular configuração que deu origem à sociedade de classes no Brasil
tem promovido contextos em que a extrema precariedade das condições de
vida - as moradias “irregulares”, a alta taxa de mortalidade por doença, a
instabilidade crônica de emprego- soma-se ás formas arbitrárias de poder,
criando uma visão de mundo particular. (FONSECA, 2004, p.207)
Para realizar esta pesquisa, utilizei referenciais próprias da antropologia urbana para
pensar o Reginaldo. O Vale do Reginaldo é um campo muito fértil para pesquisas
antropológicas. O local possui uma história que se entrelaça com a historia dos seus
moradores. A antropóloga Eunice Durham(2004) faz um apanhado de como a antropologia
urbana tornou-se um ponto-chave nas pesquisas atuais :
Essa recente popularidade da antropologia se deve também ao fato de que as
pesquisas concentram-se em grande medida em temas de interesse geral
imediato - não apenas os costumes exóticos das tribos indígenas (embora
esses constituam também uma leitura fascinante), mas muito do que é
cotidiano e familiar em nossa sociedade urbana ou que constitui
reminiscência de um passado recente: os hábitos e valores dos moradores de
Copacabana tanto quanto o modo de vida dos bairros a periferia, das favelas
e das comunidades rurais; o candomblé, a umbanda e o pentecostalismo ao
lado do catolicismo tradicional e das comunidades de base da Igreja
renovada; a família operária e das camadas médias; os movimentos sociais
urbanos e as formas de lazer popular; o feminismo e a sexualidade. Estamos,
em suma, produzindo uma nova e intrigante etnografia de nós mesmos. (
DURHAM, 2004, p. 359)
No primeiro momento da pesquisa, utilizei apenas a observação para uma primeira
coleta de dados. Caminhar pelo local fazendo fotografias, já me fazia localizar e identificar
grupos que ali estavam. Em alguns momentos senti-me acuada em fotografar alguns pontos
do Vale do Reginaldo. Nitidamente alguns lugares lá dentro são mais perigosos e caminhar
sozinha pelas ruas do Vale com uma máquina fotográfica na mão, poderia me trazer algumas
13
complicações. Em alguns momentos me vi confrontada com que José de Souza Martins relata
em seu livro “Sociologia da fotografia e da imagem” (2009):
O antropólogo e o sociólogo sempre dirão que querem fotografar as pessoas
em situações em que aparecem como elas são verdadeiramente. Mas as
pessoas podem dizer, com razão, que seu verdadeiro modo de ser está
naquilo que querem ser e acham que são, e não naquilo que aparentam na
intimidade ou fora dos cenários de ostentação, naquilo que o pesquisador
acha que é sua autentica verdade. (MARTINS, 2009, p.49)
Muitas vezes as fotografias foram de certa forma manipuladas pelos interlocutores da
pesquisa. Meus entrevistados sempre estavam bem vestidos em nossas entrevistas e sempre
que lhes pedia pra tirar uma foto, estes tentavam aparentar ao máximo que estavam felizes .
Não pude utilizar estas imagens de meus informantes pois no decorrer da pesquisa os assuntos
aqui abordados tomaram uma direção em que sua exposição poderia ser comprometedora.
A escolha dos informantes é essencial para minha pesquisa. William Foote-Whyte
(1980) mostra como relações sociais que serão traçadas entre o pesquisado e o pesquisador
são importante para que uma pesquisa seja bem sucedida:
Descobri que a minha aceitação no bairro dependia muito mais das relações
pessoais que desenvolvesse do que das explicações que pudesse dar.[..]
Aprendi logo cedo na minha estada em Cornerville, a importância crucial de
obter o apoio de indivíduos-chaves em todos os grupos ou organizações que
estivesse estudando. (FOOTE-WHYTE, 1980, p. 79)
Como busco entender a memória dos habitantes do Vale, procurei informantes de
todas as idades.Desde de senhores de idade que viram as transformações acontecendo no
local, até jovens que nasceram lá ou mesmo que já possuem um certo tempo de moradia no
Reginaldo.Busquei conversar com pessoas de gerações diferentes, pois considero importante
analisar a fala de cada geração sobre o local. Não podemos desconsiderar fatores externos que
irão influenciar na memória individual. As mudanças ocorridas ao longo dos tempos, como a
chegada de novos moradores no bairro, irão trazer mudanças para o meio social, mas também
para os moradores.
Ficou nítido em minhas entrevistas que cada grupo de gerações diferentes, possuía
uma ideia sobre o Reginaldo. Os mais antigos me passavam a sensação de um Reginaldo um
tanto calmo e romântico, de décadas atrás onde as pessoas se banhavam e pescavam no
Riacho Salgadinho. As mudanças ocorridas lá dentro deixaram marcas em suas memórias,
14
mas isto não lhes faz perder a admiração pelo local. Já os mais jovens possuem uma memória
mais recente, onde a violência e o medo fazem parte de suas memórias.
Nesta pesquisa realizei a coleta dos dados através da entrevista semi-estruturada. Para
Maria Isaura Pereira Queiroz (1988), “A entrevista semi-estruturada é uma técnica de coleta
de dados que supõe uma conversação continuada entre informante e pesquisador e que deve
ser dirigida por este de acordo com seus objetivos.” (Queiroz,1988, pp.22) .Tive o cuidado de
não influenciar os entrevistados com minhas perguntas ou até mesmo as falas que surgiam no
decorrer da conversa. Como nos apresenta Bourdieu (2008):
Quanto à formulação das questões o pesquisador deve ter cuidado para não
elaborar perguntas absurdas, arbitrárias, ambíguas, deslocadas ou
tendenciosas. As perguntas devem ser feitas levando em conta a sequência
do pensamento do pesquisado, ou seja procurando dar continuidade na
conversação, conduzindo a entrevista com um certo sentido lógico para o
entrevistado. Para se obter uma narrativa natural muitas vezes não é
interessante fazer uma pergunta direta, mas sim fazer com que o pesquisado
relembre parte de sua vida. Para tanto o pesquisador pode muito bem ir
suscitando a memória do pesquisado (BOURDIEU, 1999, p.47).
Devido o difícil acesso ao bairro, entre outros fatores, como a recusa de alguns
moradores a entrevista, minhas entrevistas duravam não muito mais que uma tarde. Aaron
Cicourel (1980), ao falar sobre os métodos em pesquisa de campo explica que:
O papel do observador-como-participante é usado em estudos em que se usa
entrevistas numa só visita. Exige relativamente mais observação formal do
que informal ou qualquer espécie de participação. Também resulta num risco
menor de “virar nativo” do que o risco inerente ao papel do participante total
ou de participante- como observador. No entanto, visto que o contato entre o
observador-como-participante e o informante é tão curto e talvez superficial,
é mais provável que ele compreenda mal o informante e seja mal
compreendido por este do que os outros dois o façam. (CICOUREL, 1980,p.
93)
Esse curto contato possui dois lados. Positivamente podemos pensar na distância que
vai existir entre o pesquisador e o entrevistado. O risco de minhas pesquisas sofrerem
influência do meu envolvimento com o grupo é menor. Em contrapartida, podemos errar ao
fazer uma leitura muito superficial daquilo que nos foi dito em uma entrevista. O
envolvimento com o objeto de estudo é algo corriqueiro nas ciências sociais. Gilberto Velho
(1997) nos mostra que:
15
Uma das mais tradicionais premissas das ciências sociais é a necessidade de
uma distancia mínima que garanta ao investigador condições de objetividade
em seu trabalho. Afirma-se ser preciso que o pesquisador veja com olhos
imparciais a realidade, evitando envolvimentos que possam obscurecer ou
deformar seus julgamentos e conclusões. (VELHO, 1997 pp 123)
Inicialmente busquei reunir o máximo de informações sobre o local, suas historias
buscando trabalhar o máximo de suas memórias e, em especial, sobre o Riacho Salgadinho.
Mas no decorrer da pesquisa percebi que em todas as falas havia um fator comum: a
violência. Percebi que muito mais do que falar do Riacho, aquelas pessoas queriam denunciar
ou até mesmo desabafar uma violência que invade suas memórias diariamente . Eu não
poderia tampar meus ouvidos para esta realidade, a cada pergunta feita, a cada momento
lembrado, eles sempre lembravam de algum ato de violência, seja ele simbólico ou físico.
Dessa forma minhas entrevistas tomaram um rumo diferente, ao invés de interromper as falas
sobre a violência e ficar sempre tentando saber detalhes sobre o bairro em si, deixei que suas
memórias me conduzissem a períodos e fatos que só aqueles moradores vivenciaram.
Olhar para este lugar e não pensar em suas esferas sociais, seus personagens, suas
memórias, suas historias é como negligenciar a oportunidade de ter acesso á este e ficar de
braços cruzados diante de tamanha riqueza.Talvez seja tamanha ousadia minha chamar esses
fatores citados acima de riqueza. Mas não fugindo da realidade, nem tentando ser romântica
demais, enxergo os problemas sociais que envolvem este lugar e ao invés de simplesmente
enxergá-los e ser mais um crítico, prefiro dedicar a este lugar um olhar diferenciado.
1.1 A ENTRADA
Entrar lá nunca foi uma tarefa tão simples. Não era simplesmente descer as escadarias e
chegar ao ponto onde ocorriam as atividades sociais. A cada encontro com o bairro meus
olhos e meu inconsciente defrontavam-se com uma triste realidade. Meninos ainda tão novos
envolvidos com drogas, meninas muito jovens e já brigando nas ruas por namorados e muitas
destas já sendo mães, vizinhos gritando na porta de suas casas seus problemas e o mais
comum, adolescentes e jovens sentados em grupos usando drogas e vendendo. Essa era uma
Maceió desconhecida para mim.
16
Até então, o que conhecia do Vale do Reginaldo era de ouvir falar, nunca havia ido lá.
Lembro-me como hoje do que meus olhos avistaram quando entrei em uma viela de chão de
barro no bairro do Farol. Era outro mundo dentro da mesma cidade. Com suas escadarias
gigantescas e suas casas, uma empilhada na outra, foi assim que meus olhos avistaram o Vale
do Reginaldo pela primeira vez. Na imagem abaixo é possível perceber a proximidade entre o
bairro do Farol, que é visto como um local de pessoas de classe alta e o Vale do Reginaldo.O
percurso no meio do grifo vermelho, é toda extensão do Vale do Reginaldo que possui
escadarias com acesso ao bairro do Farol:
Imagem 1
Vale ressaltar que o Vale do Reginaldo não é considerado um bairro de Maceió, por
mais que muitos o considerem. Em qualquer pesquisa realizada não será encontrado em
nenhum mapa o Vale do Reginaldo. Ele será reconhecido nas pesquisas como a Rua Diégues
Júnior do bairro Poço, como pode ser visto no mapa abaixo:
17
Imagem 2
Uma coisa muito comum em nós, observadores do “outro”, é o medo do que possa nos
esperar. Sendo o Vale do Reginaldo um local não tão simples de se ter acesso, um certo receio
nos acomete antes de entrarmos lá. Como pesquisadores, deixamos de lado nossos conceitos e
preconceitos e “invadimos” o território do “outro”. A cada nova imersão no bairro, era um
novo desafio para mim. Talvez o meu maior desafio fosse vencer o mesmo medo que a
antropóloga Alba Zaluar sentiu ao entrar na comunidade Cidade de Deus para realizar suas
pesquisas antropológicas:
A sensação mais forte que eu tive naquele momento foi a de medo. Não o
medo que qualquer ser humano sente diante do desconhecido, mas o medo
construindo pela leitura diária dos jornais que apresentavam os habitantes
daquele local como definitivamente perdidos para o convívio social, como
perigosos criminosos, assassinos em potencial, traficantes de tóxico, etc.
Apesar de saber que essa campanha não era senão a continuidade de um
18
processo de longa data de estigmatização dos pobres, eu tinha medo.
(ZALUAR, 2000, p. 9-10)
Mas nem sempre nossa entrada é bem vista pelos que estão lá dentro. Enquanto um
grupo abre-se totalmente aos questionamentos e dúvidas do pesquisador, outros grupos
fecham-se e não deixam ninguém entrar em seu território simbólico. O Vale do Reginaldo não
possui divisões estabelecidas visivelmente, mas todos sabem que certos grupos irão delimitar
até onde o “estranho” pode ou não avançar. Se olharmos de outro ângulo, iremos perceber que
não é simplesmente a sociedade ao redor do Vale que se fecha em seu mundo e marginaliza
estes. Mas certos grupos locais irão também se fechar e não deixar que ninguém se aproxime
da sua realidade. Não podendo nos aproximar destes grupos, ficamos apenas com as
impressões que a mídia nos passa sobre estes.
Em minhas primeiras visitas ao Vale e ainda sem pensar em escrever sobre o
mesmo,no ano de 2012, deparei-me enquanto caminhava pelo bairro do Farol, um local
conhecido por sua classe elitizada e seus belos prédios projetados com uma arquitetura
exuberante, com uma estradinha de barro que dava acesso a algum ponto. Dessa estrada saíam
pessoas com um estereótipo totalmente diferente do ambiente do bairro. Bastou-me alguns
passos adiante para descobrir o mundo que estava por trás dos belos prédios. Escadarias
gigantescas, mal projetadas, casas empilhadas umas nas outras, esgoto a céu aberto, ruas de
barro, animais espalhados pelas ruas... Era esse cenário que meus olhos avistavam. Naquele
momento tive a sensação de não estar mais em Maceió, mas cada vez que descia as escadarias
e olhava com um olhar de cautela e medo os becos e corredores que saiam das escadarias,
tinha a sensação de estar revivendo as cenas que só havia visto em filmes que mostravam as
favelas das grandes cidades.
A jovem que me apresentava o local, sendo esta ex- moradora do bairro, não me
poupou de suas tristes historias sobre a comunidade. Assim que começamos a descer as
escadarias, ela me informou que aqueles becos e corredores, alguns quase sem fim, eram
projetados propositalmente pelos traficantes do local. Quando a polícia invade o bairro,
aqueles becos servem de fuga para os traficantes. Em cada ponto que passávamos, era como
se aquela jovem lembrasse de algum acontecimento que havia ocorrido no local. Nosso
percurso foi marcado de frases: “Aqui um dia amanheceu um homem morto...”, “Um dia
assim que acordei a policia tinha acabado de matar um aqui...”.
19
Mesmo entrando no Vale com esta jovem, que era conhecida no local e atualmente
fazia parte do mesmo Projeto social ao qual eu participava, nossas descidas eram desafiadoras
para mim. Muitas vezes, enquanto nos preparávamos para descermos as longas escadarias,
quase que como uma reza ela me avisava: “Guarda o celular... A máquina fotográfica... Dê
bom dia pra todos... Se ouvir tiro, se abaixe!”. Eram essas as recomendações de alguém que
tanto conhece o Vale.
Estar com algum adereço que lhe remetesse ao projeto social era um código para que
os jovens que ali passavam o dia vendendo drogas soubessem que eu não fazia parte de
nenhuma gangue. Depois que os moradores já me reconheciam como alguém que estava ali
para ajudar a comunidade, não precisava mais entrar acompanhada. Mas uma coisa sempre
nos acompanhava em nossa jornada dentro do Reginaldo: o medo. Agora meu medo não era
mais dos moradores, mas das ações que ali ocorriam. A coisa mais comum era ouvirmos os
relatos das crianças que faziam parte do projeto, sobre historias de policiais que invadiam suas
casas, que entravam na comunidade e batiam em quem tivesse na frente ou até mesmo
testavam suas armas em locais públicos. Esse era o medo que me perseguia, o medo de que
algum dia fosse vítima desse abuso de poder.
Durante um ano entrei e sai de lá como uma simples observadora. Alguém que vê o
que acontece ao seu redor, choca-se e não consegue entender o que se passa ao seu redor.
Quando retornei ao Vale em 2013, agora na condição de pesquisadora, pude trazer novas
reflexões para acontecimentos cotidianos com os quais já estava tão acostumada.
Em minhas entrevistas fiz o percurso para se chegar ao Vale por dois lugares, ora
entrava pelo bairro do Farol ora pelo bairro do Poço. Sempre tive mais liberdade para entrar
pelo bairro do Farol, pois o projeto social ao qual fazia parte situava-se na segunda parte do
Reginaldo. Descendo por essa entrada tinha acesso á segunda parte do Vale, local onde
muitos moradores da primeira parte consideravam muito perigoso. Para mim, mesmo esta
segunda parte sendo considerada violenta e perigosa, sempre me senti mais segura andando
por lá.
Em meu primeiro encontro com os interlocutores tive a possibilidade de entrar pelo
bairro do Poço. Esse bairro é conhecido por seus centros profissionalizantes e pela
diversidade de estabelecimentos comerciais. Por ali, varias pessoas de diferentes classes
sociais transitam, pois o bairro é a principal ligação entre os bairros da Pajuçara e Ponta
20
Verde2 ao centro da cidade. Essa primeira parte do Vale é conhecida para muitos como uma
extensão do bairro do Poço.
Em minha primeira entrevista fui guiada pelo Reginaldo pelo irmão da jovem que
conheci pelo projeto social. Ricardo Jatobá,um jovem de 26 anos que mora no bairro desde
que nasceu. O jovem faz parte de uma igreja evangélica, Assembleia de Deus, que fica
localizada lá dentro. Nos encontramos no local marcado, Praça Bonfim, e logo fomos nos
dirigindo ao Vale. Este guiou-me para meus primeiros informantes. O jovem trabalha um
horário em um bairro vizinho, por isto, só pudemos nos encontrar no período vespertino, e
ainda assim tivemos que adiar alguns encontros devido a suas tarefas com a igreja ao qual faz
parte.
Como ainda não conhecia essa primeira parte do Vale, tudo para mim ali era novo. Ao
entrar tive a sensação de estar em uma cidade do interior, onde tipicamente você encontra
pessoas sentadas na porta de suas casas, roupas estendidas em arames farpados, animais para
todos os lados, etc. Lá não é diferente. As mulheres ficam sentadas nas portas de suas casas,
basta um estranho chegar ao local que seus olhos não disfarçam a curiosidade. Além das
mulheres, alguns jovens, que por alguns moradores são designados como “marginais”,
“traficantes” e “aviõezinhos”3, sentam-se em rodinhas embaixo das sombras das árvores.
Quando entrava pelo bairro do Poço, também precisava estar acompanhada por um
informante para que os moradores soubessem que eu não fazia parte de nenhuma gangue.
Quando entrei pela primeira vez por essa parte, tive a sensação de estar desprotegida, pois ali,
mesmo estando com a farda do projeto, as pessoas não me reconheciam, já que o projeto
localizava-se na segunda parte, logo só era conhecido pelos moradores daquela região.
Mesmo já conhecendo o bairro e algumas de suas historias, quando retornei para
realizar minhas pesquisas entendi o que Cardoso de Oliveira (2000) queria nos passar ao falar
sobre o olhar antropológico em campo:
2
Os bairros Ponta Verde e a Pajuçara são habitados por camadas médias e altas, além de serem conhecidos por
suas praias que atraem turistas de toda parte.
3
É comum os traficantes dos bairros escolherem alguns jovens menor de idade para levar droga de um lugar
para outro. Estes jovens são conhecidos como aviõezinhos. Segundo a antropóloga Teresa Caldeira (2000), “O
trafico de tóxicos oferece , de fato, aos jovens com dificuldades com mercado de trabalho, a oportunidade de
ganhar dinheiro que aumenta a proporção que sobe na hierarquia dessa vasta rede organizada do trafico. Em
linhas gerais, essa hierarquia funciona do seguinte modo: o traficante é aquele que tem capital para comprar
grandes quantidades da droga, seja diretamente do produtor, seja de seus grandes distribuidores.[...]O avião é
o que vai até o freguês , ou melhor, o que aponta o freguês, ou melhor, o que “aponta o freguês” para o vapor,
e ao mesmo tempo, vigia a policia.” (CALDEIRA, 2000, pp. 151)
21
Talvez a primeira experiência do pesquisador de campo – ou no campoesteja na domesticação teórica do seu olhar. Isso porque, a partir do
momento em que nos sentimos preparados para a investigação empírica, o
objeto, sobre o qual dirigimos o nosso olhar, já foi previamente alterado pelo
próprio modo de visualizá-lo. (Oliveira, 2000, p 19)
Quando se “está lá” com um olhar etnográfico, nossa visão do objeto torna-se outra.
Agora os acontecimentos que me rodeavam ganhavam um novo sentido. As crianças nas ruas
eram vistas agora por um novo ângulo. Os jovens sentados nas portas em grupos, já não eram
apenas participantes de uma gangue, para mim eles eram personagens de uma trama. Uma
trama que liga seus moradores à violência, seja esta física, como a sofrida pelos jovens que
tem seus corpos violados, ou a violência simbólica, como a sofrida pela dona de casa que tem
seu lar invadido por policiais e é obrigada a ouvir as piores ameaças.
Entre os belos prédios e o asfalto escaldante da cidade de Maceió, o Vale do
Reginaldo apresenta-se a nós como um lugar diferente e exótico. Os bairros que o rodeiam
carregam suas próprias historias, alguns conhecidos por serem bairros de elite, outros por
serem bairros populosos ,mas o Vale do Reginaldo não envolve sua história com a dos bairros
que o cercam. Basta olhar para dentro do Reginaldo para perceber que aquele local carrega
sua própria historia. História essa que é bem contada por seus moradores, como veremos no
próximo capítulo.
22
2. OS VALES DO REGINALDO
2.1 Divisões simbólicas a partir do imaginário dos moradores
Localizado vizinho a bairros muito conhecidos e de localização estratégica em
Maceió, o Vale do Reginaldo é um ponto onde inevitavelmente diariamente pessoas passam
muito próximo á ele. O Reginaldo faz fronteira com bairros como o Farol, Feitosa, Jacintinho
e Poço. O Vale possui uma localização central na cidade. Os moradores da cidade, para se
deslocarem do bairro do Farol para o Feitosa, precisam passar pelo Reginaldo. Para se chegar
a bairros comerciais, como é o caso do Jaraguá ou da Ponta Verde, as pessoas passam muito
próximo ao Vale.
O Vale do Reginaldo não possui divisões visíveis em sua extensão, mas seus
moradores marcaram pontos específicos para dividi-lo em três partes. São estes, o Vale do
Reginaldo I, que é considerado a parte mais segura, o Vale do Reginaldo II que já é vista
como a parte mais violenta e perigosa e o Vale do Reginaldo III que é conhecido pelos seus
sítios e esconderijos de traficantes. Para poder trafegar no local eu precisava sempre de
alguém que me desse acesso a essas partes. Por não conhecer ninguém da terceira parte, pude
apenas trafegar nas duas primeiras partes.
Como a terceira parte é o principal ponto onde os traficantes vendem drogas, meu
informante considerou perigoso demais nossa entrada lá, pois era comum a polícia fazer
sempre batidas no local e nós poderíamos ser confundidos com traficantes. Os moradores das
duas primeiras partes dividem-se de acordo com a ponte que liga o bairro do Farol ao bairro
do Feitosa, como mostra a fotografia abaixo:
23
Imagem 3
Como é possível notar na imagem acima, a ponte que separa o Vale do Reginaldo I do
Reginaldo II, possui várias casas construídas ao seu redor. Esta ponte é conhecida por ser um
local onde muitas pessoas suicidam-se. Lembro de uma manhã de sábado quando chegava ao
Projeto Aprender4 e fui surpreendida com uma triste história. Uma das crianças, um tanto
assustada contava que durante a madrugada uma mulher havia caído na cozinha de sua casa e
com muita raiva ele salientava que a mulher havia amassado as panelas de sua mãe. Episódios
como esse se repetem no Reginaldo quase que semanalmente.
Chama-se de Vale do Reginaldo II toda parte após a Ponte. Os moradores identificam
o começo do Vale do Reginaldo III a partir de uma ponte. Para nós que não moramos no local
é quase impossível conseguir identificar qual seria esta ponte. Em toda extensão do Vale
4
Projeto da ONG JOCUM, onde são realizados trabalhos educativos com as crianças do Vale do Reginaldo. Além
dos trabalhos que são realizados todos os sábados, são realizados também ações sociais,com a função de
alcançar os pais dessas crianças.
24
existem várias pontes que passam pelo riacho. Para se ter acesso ao lado do Vale do
Reginaldo II era possível fazer o percursos por duas entradas. Para mim, era mais comum
entrar pelo bairro do Farol onde descia as escadarias e já estava no Reginaldo. Outras vezes
descia pelas escadarias do bairro Feitosa. Nesta parte, além das escadarias estarem mais
desgastadas, chegando ao ponto de algumas partes não terem mais degraus só restando o
barro, essa escadaria era um pouco perigosa por ter poucas casas.
Imagem 4
Caminhando pelas duas partes do Reginaldo ficou nítido que a primeira parte do bairro
é bem mais estruturada. Lá ficam a maioria dos pontos comerciais além da sede do correio, o
posto de saúde, as escolas e a igreja católica. As casas daquela parte são maiores e
visivelmente mais estruturadas. Na maioria dos casos, elas possuem cerâmica no chão,
algumas possuem grades em suas varandas, outras com vidros em suas portas e janelas.
25
Imagem 5
No Reginaldo II as casas são bem menores. Na verdade não podemos chamar de casas
e sim cubículos. Famílias inteiras, com cinco, seis ou mais familiares, dividem uma sala, um
quarto, uma cozinha e um banheiro. Nesta parte é muito comum encontrarmos grupos de
jovens sentados usando ou vendendo drogas. As ruas são cheias de ligações clandestinas de
energia. Esta parte conta com a apenas uma igreja, Assembléia de Deus, e uma mercearia que
fica o dia inteiro trancada nas grades, devido o medo de assaltos. Nas duas partes é possível
perceber as disparidades entre o Vale e os bairros ao redor. Mas ao entrar no Vale do
Reginaldo II essas disparidades ficam muito mais visíveis para nós. Talvez devido ao fato da
precariedade das habitações ser mais visível lá, ou pelo fato desta parte estar muito próxima
ao bairro Farol, acentuando os contrastes entre as habitações. Basta levantar os olhos e o seu
26
mundo não é mais os cubículos, o riacho poluído, as drogas, mas sim os prédios luxuosos de
arquitetura exuberante.
Imagem 6
2.2 O Reginaldo e seus moradores
Em minha primeira saída a campo, no Vale do Reginaldo I, o primeiro informante ao
qual Ricardo me conduziu para fazer a entrevista foi o “irmão” João, como é conhecido no
bairro, um senhor de 80 anos que é tido pelos moradores como o mais antigo do local. Como
um fiel seguidor da igreja a qual faz parte, a Igreja Assembléia de Deus, Seu João não poderia
me encontrar de outra forma senão com seus trajes “típicos” dos adeptos desta denominação:
calça social e uma camisa fina com alguns botões desabotoados, eram seu vestuário naquele
tarde ensolarada. Confesso que quando Ricardo me informou que havia um senhor muito
antigo na comunidade e que o mesmo já havia participado de outras pesquisas sobre o bairro,
fiquei um pouco apreensiva. Não sabia como seria a comunicação com ele, tinha medo de
que o mesmo não entendesse minhas perguntas e tornasse a entrevista inviável. Mas no
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decorrer da conversa, me surpreendeu com a vitalidade e facilidade e comunicar-se. O senhor
não me poupou de suas historias desde sua infância ate os dias atuais. Sempre com um sorriso
no rosto, seu João respondeu a todas as perguntas, sem hesitar em misturar em suas respostas
sua vida pessoal com o que lhe fora questionado.
Como sua casa durante toda tarde recebe o sol, ele preferiu que nos encontrássemos
em um bazar comunitário organizado pela igreja da qual faz parte. Nos sentamos na porta de
entrada e ficamos ali conversando. As pessoas que passavam na rua projetavam seus olhares
para nós, como se perguntassem o que estava acontecendo ali. Em alguns momentos da
entrevista as pessoas chegavam a parar do lado para ouvir do que se tratava. Mas isso não
atrapalhava a entrevista, e logo ele continuava a me responder.
Como em toda pesquisa de campo, estamos sujeitos a sair de um dia de entrevistas
sem nenhuma resposta, ou pelo menos, sem encontrar as respostas que tanto esperávamos,
comigo não foi diferente. Sendo este meu primeiro contato com as pessoas na comunidade,
percebi também que em muitas das falas, ele saia do foco de minhas perguntas para denunciar
algum problema social. Quando questionava seu João sobre assuntos, como por exemplo, a
poluição do riacho, ele fazia questão de falar sobre a falta de iluminação no local, a falta de
transporte publico etc. Era como se para eles eu deixasse de ser estudante e pesquisadora, para
ser aquela que levaria suas reclamações para o governo. Essas falas e reclamações repetiramse em todas as conversas que tive lá dentro nesta primeira visita. Como afirma Mariza Peirano
(1995);
A experiência de campo depende, entre outras coisas, da biografia do
pesquisador, das opções teóricas dentro da disciplina, do contexto
sociohistórico mais amplo e, não menos , das imprevisíveis situações que se
cofiguram, no dia-a-dia, no próprio local de pesquisa entre pesquisador e
pesquisados.” (PEIRANO,Mariza, 1995, pp22)
Muitas vezes temos que nos adaptar à situações que se configuram no cenário em que
nos encontramos. Durante minha entrevista com seu João, tive a interrupção do jovem que me
acompanhava pelo bairro, Ricardo Jatobá. Por conhecer muito bem os informantes, o jovem
sentiu-se a vontade para fazer suas objeções chegando a influenciar nas respostas. Suas
interrupções eram tão enfáticas que chegavam a mudar o rumo da conversa. O jovem, por ter
uma relação de recusa com o bairro, notória em suas falas, utilizava o informante para que
este denunciasse aquilo que ele não podia falar. Já que a entrevista não estava sendo realizada
28
com ele, o jovem utilizou Seu João como um tipo de porta voz, onde ele fazia perguntas do
tipo “E a iluminação aqui dentro? Diga a ela como é o descaso...”, ao mesmo tempo que
perguntava já trazia uma resposta embutida.
Nossa entrevista continuou, mas Seu João em algumas de suas falas é bem
controverso. Sua opinião sobre a comunidade oscila entre aceitação e rejeição do local.
Inicialmente quando lhe pergunto se gosta de morar no Vale do Reginaldo ele me responde:
A gente mora aqui dentro porque a casa já é antiga, e casa própria. Tem
que morar, mas que se tenha prazer não... Eu já tive prazer em morar aqui,
hoje em dia não to mais com essa paixão, antigamente eu tinha...mas agora
com esse abandono! Não!
O que tira o seu desejo em continuar morando ali não é o mesmo fator que distancia a
sociedade do Vale. Para nós, simples observadores , o que mais chama atenção quando
ouvimos falar sobre o Reginaldo, é a violência. E este fator é o mesmo que nos amedronta e
nos causa uma certa rejeição ao local. Mas para Seu João a violência não o incomoda tanto
quanto o descaso dos próprios moradores com o bairro. A poluição do Riacho Salgadinho, a
poluição das ruas com as “coxias” de animais e a falta de cuidado dos moradores e da própria
prefeitura com a coleta de lixo, são pontos que o levam a querer sair dali. Sempre que toca
nesses pontos, o desânimo na sua fala é sentido. Terminamos a entrevista e minhas
impressões sobre o ancião é de alguém que busca reviver o Reginaldo da década de 60. Como
ele mesmo deixou claro em suas falas, um Reginaldo bucólico com ar interiorano, que foi se
perdendo no decorrer dos anos.
Inicialmente eu e meu guia Ricardo, havíamos programado nos encontrar naquela
tarde apenas com Seu João, mas no decorrer de nossa trajetória pelo Vale, Ricardo levou-me
até Dona Mariana Maria, uma jovem senhora de 44 anos que há 21 anos mora no Reginaldo.
Entramos em uma viela com muitas casas e lá estava “Mari”, como é conhecida pelos seus
amigos, sentada na sala de sua casa assistindo sua novela diária e cuidando de uma de suas
netas. Atenciosamente nos recebeu em sua casa e logo Ricardo foi lhe explicando o motivo de
nossa visita. Um pouco tímida, começou a entrevista respondendo somente o que lhe
perguntava, mas no decorrer na entrevista sentiu-se livre para falar e em alguns momentos
com um tom de desabafo.
Começamos a conversar e ela me contou que antes de chegar no bairro ela morava na
cidade de Barra de Santo Antônio, próximo à Maceió. Quando questionei o motivo de sua
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saída da sua cidade natal para o bairro, a mesma preferiu não comentar o que havia
acontecido. Mas ficou nítido em sua fala e fisionomia que algum acontecimento triste mudou
a direção de sua vida. Logo ela começou a relatar suas memórias sobre o Vale.
Nesses 21 anos que mora no Vale já morou em 11 casas, sendo que logo que chegou
no bairro começou morando na segunda parte e assim foi alugando casas até chegar na
primeira parte onde mora atualmente.Dona Mariana é mais uma moradora apaixonada pelo
local. Em nossa conversa mesmo expondo os problemas com a violência que o local sofre, ela
deixa claro que não sairia dali para lugar nenhum, pois gosta do lugar onde mora. Como ela
mesmo deixou claro, ela poderia alugar uma casa em qualquer lugar da cidade, desde que
tivesse o mesmo valor do aluguel, mas não faz questão de sair de lá.
Enquanto conversávamos, um amigo em comum de Ricardo e Dona Mariana chegou
em sua casa e sem perder tempo entrou na conversa. Ismael do Livramento de 32 anos, mora
no Vale do Reginaldo desde seus 5 anos. Com uma fala que se assemelhava a de um locutor
de rádio, o jovem tentava a todo custo mostrar um domínio maior que seus amigos sobre o
assunto em pauta. Para mim, nossa conversa foi a mais rica de informações dessa tarde. O
jovem trouxe-me muitos detalhes sobre a história do Reginaldo.
Inicialmente ele fez várias críticas ao descaso dos governantes para com a
comunidade, para ele o local é esquecido pelos políticos. Lembrou de quantas promessas já
foram lançadas para os moradores, como o asfaltamento do bairro, a iluminação pública, a
construção da creche entre tantas outras promessas. Mas Ismael ressalta que entra ano e sai
ano e essas promessas ficam só no papel. Em toda nossa conversa ele vai tentar mostrar que
muitos dos problemas que nós vemos no bairro poderiam ser solucionados se os governantes
agissem conforme prometem.
Assim como Dona Mariana e Seu João, o jovem também é apaixonado pelo local.
Durante nossa conversa, talvez ao perceber que estava apenas me apresentando os pontos
negativos do local, Ismael faz questão em apresentar o lado bom do Reginaldo. Ele me conta
que pessoas ilustres já fizeram parte do local, como o cantor Djavan. Muito entusiasmado
relata-me que seu pai jogava bola no campo embaixo do viaduto do Poço com o cantor e outra
senhora da comunidade estudava com o mesmo e sempre lhe conta historias de quando o
cantor escrevia suas canções enquanto os outros meninos jogavam bola. Mesmo com todos os
problemas, Ismael diz que nunca pensou em sair dali. Ele diz com orgulho que pretende viver
o resto da vida no Vale do Reginaldo, pois o local é muito bem localizado, e como ele mesmo
30
disse, basta você subir alguma das escadarias para chegar ao centro. Para ele bastaria que os
governantes olhassem com outros olhos para o local, valorizando as pessoas dali.
Passados alguns meses retornei para coletar novas informações. Desta vez iniciei as
entrevistas conversando com o senhor Marcos Antônio, um senhor de 38 anos que desde
nascença vive no Vale do Reginaldo I. Na tarde em que retornei ao Vale buscava encontrar o
líder comunitário “Fuscão”, como é conhecido pelos moradores locais. Mas fui informada por
alguns moradores e por seu secretário que recentemente tem sido difícil encontrá-lo, pois este
estava sempre em deslocamento para a Ceasa, local onde vende suas hortaliças. Mas o
secretario da Associação de Moradores local, o senhor Marcos, disse-me que poderia tirar
minhas dúvidas com ele, pois seu tio era quem havia fundado aquela Associação e o mesmo
detinha muita informações sobre o Reginaldo.
Fui recebida por ele na Associação Comunitária, uma casa alugada muito simples,
com uma escrivaninha, duas cadeiras e um ventilador. Inicialmente percebi que o senhor
Marcos não estava muito aberto para responder minhas perguntas sobre os problemas vistos lá
dentro. Por ter um papel social dentro da comunidade, é possível perceber que em muitas das
falas do secretário estava embutido um certo romantismo na descrição do local. Este descreve
o lugar como um local pacato e sem violência. Para ele, lá existe violência da mesma forma
que existe em tantos outros bairros da cidade.
Querer desfazer um pré conceito que foi lançado na comunidade é algo normal em
seus moradores, porém para ele é mais fácil negar a existência de problemas que seus próprios
moradores identificaram. Quando lhe questiono se no local existem gangues e se essas brigam
entre si, ele me responde que as gangues não existem lá dentro. Para ele tudo que acontece
nos bairros vizinhos é lançado para o local, e as historias que eram contadas do bairro só
faziam com que as pessoas de fora da comunidade sentissem medo de entrar lá.
Em nossa conversa ele me relata que nunca sairia do Reginaldo, pois ali é o centro da
cidade, como ele mesmo cita “O coração do centro é o Reginaldo”. As pessoas que moram no
lugar gostam de morar lá, não existe preconceito dos seus moradores em relação ao local. Ele
acredita que muita gente se mantém no local por sua boa localização, mas precisam conviver
com o preconceito dos moradores de fora.
Essa idéia da boa localização do Vale também é defendida na tese de mestrado da
estudante Fernanda Karoline Oliveira Calixto (2013):
É de se notar que se trata de um espaço privilegiado, ao longo da
principal Avenida do Município – Avenida Fernandes Lima - ,
31
próximo do centro da cidade e da parte baixa, localização com maiores
oportunidades de emprego, favorecendo o deslocamento dos
indivíduos pela cidade. ( CALIXTO, 2013, pp.42)
Sobre as divisões do Reginaldo ele defende a idéia de que não existe parte mais
violenta que outra, o Vale é um só. Quando lhe questiono sobre a existência de gangues no
bairro, ele foge da minha pergunta e começa a falar sobre a história do bairro. Mas eu volto a
questionar sobre as gangues e ele mesmo diz que as guerras que acontecem é entre eles e
normalmente os moradores nem chegam a presenciar essas brigas. Ele não acredita que
existem grupos que tornem o lugar violento, para ele tudo que acontece nos bairros vizinhos,
como o Jacintinho, é lançado para o Reginaldo.
Suas falas, para mim, são um tanto contraditórias se comparadas a de outros
moradores. Já percebendo que o mesmo tenta fantasiar a realidade do Reginaldo prossigo
minhas perguntas. Eu o questiono se já houve casos de integrantes de gangues quererem
assaltar moradores do bairro, e praticamente terminamos nossa entrevista com esta resposta:
Não!... Esses jovens não assaltam, eles só vendem drogas e nem vendem pra
os daqui, eles saem pra vender pra classe alta. Aqui é um bairro calmo,
quem cria essa imagem violenta daqui são os povos de fora. Você viu?!
Você não entrou aqui sozinha?!...Alguém mexeu com você?! Não né!... Se
tivesse essas gangues que todo mundo fala ai, você tinha sido assaltada,
aqui todo mundo é amigo, você pode andar do I para o II sem medo
[Referindo-se ao Reginaldo I e a segunda parte]...
Por perceber o desenrolar da conversa e notar que o secretário poucas informações
poderia me fornecer, preferi seguir aquela tarde procurando novos informantes. Antes de ir
embora pedi ao Seu Marcos para me indicar algum jovem para conversar, este não me indicou
ninguém, muito pelo contrario, me desanimou dizendo que os jovens dali não iriam se abrir
para que eu conversasse com eles. Notei que seu receio era que os jovens desfizessem tudo
que ele havia dito, sendo mais fácil não me apresentar a nenhum jovem.
Um fato importante para mim no decorrer de minhas pesquisas, foram os novos
personagens desta trama ao qual meu informante, Ricardo Jatobá, me levou. Ricardo me
levou até a jovem senhora Joana dos Santos. O meu informante conheceu a jovem no período
em que esta fazia parte da mesma denominação religiosa a qual ele e o esposo da informante
fazem parte. Assim que recebi sua ligação me informando que havia conseguido mais uma
32
jovem para que eu realizasse minha entrevista, pensei que seria mais uma jovem de sua igreja.
Mas a jovem já alguns meses não frequentava mais a igreja a qual seu marido até hoje
frequenta.
Esse encontro foi fundamental para que minhas perspectivas sobre o local fossem
vistas de um novo prisma. Até então só havia conversado com moradores que fazem parte de
determinada religião e isto me fazia ver o bairro de acordo com a visão destes moradores.
Dona Joana possuía uma fala totalmente diferente dos demais entrevistados. Particularmente,
meu contato com a jovem, foi para mim, o mais interessante. Talvez por suas histórias
trágicas que me remetiam a um passado ainda não relatado pelos demais, ou por sua
facilidade em comunicar-se, o que facilita o meu trabalho em campo.
Após subir as longas e cansativas escadarias, algumas tão estreitas que não era
possível apoiar meu pé nelas, cheguei a casa de minha informante e a mesma já me esperava
na porta. Quando cheguei em sua casa fui recebida com um sorriso no rosto e um ar de
ansiedade. A jovem senhora de 30 anos nasceu e se criou no bairro. Seus pais moraram
grande parte no local e tiveram todos os filhos lá. Dona Joana mora em uma casa alugada no
local conhecido por eles como “Escadaria do Marista”, pois esta escadaria dá acesso ao
Colégio Marista, localizado no bairro do Farol.
No decorrer de nossa conversa a jovem mostrou sentimentos ambíguos em relação a
viver no Reginaldo. Todas as suas falas mostram que ela sente-se rejeitada pela sociedade por
morar no Reginaldo, além disso, elas nos deixa claro que acredita que não conseguiu mudar
de vida pois as oportunidades não chegam até os moradores do Vale. Seu desejo de sair do
bairro para tentar uma mudança de vida é paradoxal ao seu amor pelo bairro. Em uma única
fala Dona Joana mostra como seus sentimentos em relação ao bairro são contraditórios:
Muitos que tão aqui...Tão aqui porque não tem a oportunidade que muitos
que tão dentro de uma faculdade tem ...Porque se eu tivesse dinheiro pra
alugar uma casa em outro lugar eu não taria no Reginaldo. Aqui ninguém
mexe com a gente, se te conhecer ninguém mexe com você, a única coisa
que pode acontecer é se você andar com uma máquina cara nas mãos, um
celular desfilando... Ninguém te conhece, vai te roubar né?! Você acha que
eu nunca fui roubada? Eu fui roubada na Ponta Verde, na Pajuçara, no
Farol e não foi ninguém daqui, as pessoas daqui são bacanas. Eu gosto de
morar aqui, eu gosto muito de morar aqui. Porque eles nunca mexeram
comigo.
33
A senhora começa falando que se tivesse a oportunidade de morar em outro lugar não
estaria no Reginaldo, em outras de suas falas, a jovem também cita a falta de oportunidade
sofrida pelos moradores do local e o preconceito vivenciado diariamente. Mas no decorrer de
sua fala, a jovem é contraditória ao falar que gosta de morar lá pela proteção que lhe é
concedida pelos traficantes. Fica nítido em suas falas, que o que lhe incomoda em relação ao
bairro é descaso e esquecimento que o Vale sofre, mas a violência que é vista por muitos
moradores como algo ruim, é para Joana um instrumento de proteção. Penso nessa violência
como um instrumento de defesa para esta, quando ela considera improvável algum bandido
local mexer com ela, por pertencerem ao mesmo espaço.
Nossa entrevista termina e de forma muito empolgante a jovem me propõe conversar
com um dos traficantes do bairro. Como o jovem estava na praia entregando drogas,
marcamos para conversar na manhã do outro dia e para não me deixar sair daquela forma, a
jovem me leva para outras pessoas. Joana me levou para a senhora Roselene, 42 anos e desde
seus 17 anos mora no Vale do Reginaldo .
Assim que cheguei a sua casa, havia outra jovem conhecida como “Aninha” sentada
com ela. Uma das coisas que percebi foi a desconfiança que pairava no ar entre as duas. Logo
no início da nossa conversa percebi a desconfiança, quando “Rose”, como é conhecida no
bairro, fez questão em dizer que nunca foi presa mas já foi aviãozinho de sua irmã quando
esta era traficante. Durante minha conversa com Dona Joana, ela me disse que me levaria a
uma jovem que já foi traficante no Vale e que já havia sido presa. Mas diferente de Dona
Joana que havia confiado em minha pesquisa e me relatou detalhes que muitos não sabem,
“Rose” estava totalmente desconfiada. Tive a certeza quando retornei ao Vale, e Dona Joana
me confirmou que “Rose” e “Aninha” haviam pensado que eu era uma policial tentando
coletar informações sobre o bairro.
Para que ela entendesse minha pesquisa, comecei a perguntar sobre o Riacho, mas
suas memórias sobre o mesmo são curtas. Como a senhora cresceu no bairro do Feitosa,
bairro vizinho do Reginaldo, do pouco que se lembra do Riacho, lembra que ele já era poluído
quando chegou ao Vale. Porém ainda não haviam construído os paredões de contenção e as
tubulações de esgoto. Suas respostas são curtas e logo corta minhas perguntas e diz “Me
lembro de pouca coisa, porque morava aqui mas sempre tinha que correr...”
No final de nossa conversa “Rose” me conta que já sofreu preconceito por morar no
Vale e que já teve vagas de emprego negadas após dizer seu endereço. Ela acredita que o local
34
sofre com todo preconceito porque as pessoas de fora do local aumentam muito o que ouvem
e vêem lá. Para ela não existe tanta violência no local como a população costuma espalhar
pelos noticiários. O que ela não esconde é a existência de traficantes no bairro, porém, na sua
visão, eles respeitam as pessoas do Vale e como ela disse “Eles não andam com
maloqueiragem5, eles só mexem com quem mexe com eles”.
Mesmo admitindo que o Vale já foi mais calmo em sua juventude, ela ainda considera
o local calmo e bom de morar, sempre enfatiza que gosta de morar lá. Porém, da mesma
forma que Dona Joana torna-se paradoxal em suas falas em relação à seu desejo de sair ou
permanecer no bairro, “Rose” termina nossa entrevista dizendo que se alguém lhe desse uma
casa em outro lugar, ela não pensaria duas vezes em deixar o local.
No dia seguinte como combinado com Dona Joana, cheguei ao Vale logo pela manhã
para me encontrar com o jovem traficante. Assim que cheguei a casa da senhora fui recebida
da forma mais fria possível. Dona Joana não parecia mais a mesma que havia me recebido um
dia antes. Sem me dar muita atenção,ela me informou que não teria como eu conversar com o
traficante naquele dia, pois o jovem estava na Praia da Avenida entregando drogas e seu
celular havia sido roubado. Quando a questionei se não havia a possibilidade de conversar
com algum de seus filhos, ela logo respondeu que eles não gostam de falar sobre isso e que
não poderia mais me dar atenção por estar muito ocupada lavando roupa e cuidando do
almoço de sua casa. Entendi que minhas entrevistas com esse grupo paravam por ali.
Maurice Halbwachs (2006), explica como a memória coletiva aparece ligada ao local
onde se habita os moradores de um bairro:
Assim, não há memória coletiva que não aconteça em um contexto espacial.
Ora, o espaço é uma realidade que dura: nossas impressões se sucedem umas
às outras, nada permanece em nosso espírito e não compreenderíamos que
seja possível retomar o passado se ele não estivesse conservado no ambiente
material que nos circunda. É ao espaço ao nosso espaço- o espaço que
ocupamos, por onde passamos muitas vezes, a que sempre temos acesso e
que, de qualquer maneira, nossa imaginação ou nosso pensamento a cada
instante é capaz de reconstruir- que devemos voltar nossa atenção é nele que
nosso pensamento tem de se fixar para que essa ou aquela categoria de
lembranças reapareça. (HALBWACHS,2006,pp.170)
5
A palavra “maloqueiro” é usada para designar aqueles que são vistos pela sociedade como bagunceiros,
pessoas de má fama no meio em que vive.
35
Em todas as falas dos meus entrevistados era recorrente a situação do Riacho
Salgadinho. Foi possível perceber que o Riacho está ligado as memórias individuais de cada
morador.
2.3 O Riacho Salgadinho: Sua história contada pelos moradores
Quando pensamos no Vale do Reginaldo logo nos vem à memória o Riacho
Salgadinho ou Riacho Reginaldo, como também é conhecido. Atualmente o Riacho já não faz
mais parte das belezas de Maceió. Ele é lembrado por sua poluição. É necessário fazer uma
viagem ao passado para entender como o Riacho chegou ao ponto que se encontra hoje. Em
sua tese de mestrado sobre o Vale do Reginaldo, Fernanda Karoline Oliveira Calixto
argumenta que:
As condições ambientais ao longo da bacia do Riacho Reginaldo eram, até
metade do século XX, favoráveis às populações residentes, sendo usado para
pesca, banho e lazer. Antes disso, “[...] até as primeiras décadas do século
[XX], [o Riacho Reginaldo possuía] águas cristalinas, onde se pescava
peixes com abundância e onde embarcações de pequeno porte transportavam
pessoas de uma margem a outra. (CALIXTO,2013,pp 41)
Basta conversar com os moradores mais antigos do Reginaldo, para que suas
lembranças nos remetam a este momento histórico onde havia um Riacho no Vale. Hoje
olhamos para dentro do Reginaldo e nos deparamos com um córrego onde os esgotos são
lançados. O jornal Tribuna Hoje colocou uma entrevista por titulo “Morte e vida Salgadinho”,
onde fica claro para nós leitores como se deu esse desgaste do Riacho:
Olhando pela perspectiva histórica da cidade, o riacho Salgadinho sofreu o
mesmo processo de degradação que as grandes cidades do mundo
cometeram com os rios que as cortam. A partir de 1850, o desenvolvimento
econômico de Maceió forçou a cidade a criar novas edificações, e claro, sem
saneamento básico.[...] A região do bairro do Poço, e por tabela os arredores
do riacho Salgadinho, tornou-se uma localidade de habitações populares.
“Não existia saneamento básico em Maceió. Todas as tubulações sanitárias
conduziam os dejetos sempre para o mar, rios e a lagoa. O maior condutor
sanitário daqueles tempos era o riacho Salgadinho”, lembra o professor. O
engenheiro Vinícius Maia Nobre explica também que além dos esgotos
canalizados ou não, que caiam e caem até hoje no riacho, a bacia do rio foi
36
constantemente impermeabilizada pelas construções e pavimentações de
ruas, contribuíram para a morte do Salgadinho.6
Imagem 7
Como pode perceber na imagem acima, o Riacho nasce nas regiões altas de
Maceió, no bairro Santa Lúcia e desemboca na Praia da Avenida. O Riacho passa por
vários bairros, estima-se que 30% da população alagoana viva em suas margens, sendo
que dessa porcentagem 10% está localizado no Vale do Reginaldo. Em uma entrevista
publicada pelo NEJAL- Núcleo de Ecojornalistas de Alagoas,
essa porcentagem
ganha uma nova dimensão:
6
Fonte: http://www.tribunahoje.com/noticia/270/cidades/2011/06/30/morte-e-vidasalgadinho.html . Acesso em 08 de abril de 2014.
37
Mas é no Vale do Reginaldo que o riacho assume o "posto" de canal de
águas podres. Quem vê o esgoto hoje, no Vale do Reginaldo, por exemplo,
não imagina que, alguns quilômetros acima, a água já foi limpa, clara, doce e
em condições até de se beber.[...] Em toda a extensão do Reginaldo há
dezenas de grotas. Cálculos da Defesa Civil revelam que moram nesse
trecho pelo menos 10 mil famílias, ou 40 mil pessoas. Os números mostram
ainda que o lixo doméstico e os dejetos destas pessoas são despejados
diretamente no leito do rio. Mas são os canos de PVC, de diâmetros
variados, que decretam a poluição total do riacho. Mesmo com águas da
chuva, o canal poderia ser limpo se os moradores tivessem o mínimo de
consciência ambiental. Da Grota do Canaã até o Vale do Reginaldo, todas as
casas têm o "sistema de esgoto" ligado diretamente ao leito do riacho. Fezes
e urina, águas de sabão, sobras de comidas e outros dejetos são despejados,
através dos canos de PVC, direto no riacho. A grande quantidade de tubos
brancos muda a paisagem da margem do Reginaldo. A cada acionamento da
caixa de descarga, dentro de uma casa, um ataque ao meio ambiente. Ao
todo, são cerca de 40 mil casas. Assim, não há rio que resista", comentou o
presidente do IMA, Adriano Augusto. As águas - mesmo podres - que
passam pelo canal funcionam como carros coletores de lixo em frequente
movimentação. Basta jogar a sacola de lixo no riacho que ele se encarrega de
levá-la para o mar. O que não bóia fica ali mesmo, no leito do rio. Além das
fezes "in natura" jogadas no riacho, as pessoas também "depositam" no leito
do córrego bacias sanitárias de louça.7
Não tem como negar que o crescimento desenfreado de Maceió só acarretou prejuízos
para o Riacho. A falta de infra-estrutura, saneamento básico entre outros fatores, fez com que
os moradores agissem por conta própria. A derrubada de árvores ao redor do Riacho,a
construção de casas em suas margens, o mau uso da água, tudo isso levou à decadência do
que chamamos de Riacho Salgadinho.
Um dos pontos levantados por alguns moradores em relação à poluição no Riacho, é
que esse processo iniciou-se após a chegada de novos moradores no Vale. Alguns moradores
alimentam a idéia de que os retirantes, que buscavam abrigo no Reginaldo, não possuíam
“amor” pelo Riacho por não pertencerem ao local. Seu João, um dos moradores mais antigos
do Vale, relembra o período em que as pessoas pescavam peixe e camarão no Riacho. Ele
lembra das senhoras lavando suas roupas e das crianças se banhando.
7
Disponível em: <http://www.nejal.com.br/Ecoreporter7.htm> Acesso em 05 de abril de 2014
38
Imagem 8
Imagem 9
39
As imagens acima mostram como era o Riacho na época em que ainda era possível
banhar-se nele. É importante salientar as diferenças desta época para os dias atuais. Nas
imagens acima vemos um Riacho cercado pela natureza. Na segunda imagem, em especial,
trata-se das primeiras ocupações no Vale do Reginaldo na década de 1920. Comparemos as
imagens acima com as abaixo:
Imagem 10
40
Imagem 11
Diferente das outras imagens onde a natureza predomina sobre a ocupação humana,
nas imagens acima vemos o que restou do Riacho. As casas são construídas em cima dos
paredões de contenção. Os esgotos são jogados dentro do Riacho, além disso é possível
perceber uma grande quantidade de lixo ao redor do mesmo. Hoje não vemos mais um Riacho
e sim um córrego poluído.
As lembranças que Seu João carrega ficaram no passado, pois atualmente o Riacho
tornou-se um depósito de lixo. Antes mesmo de ouvir seus relatos sobre o descaso dos
moradores com o Riacho, encontrei muitas pessoas jogando seus lixos no córrego. Hoje quem
olha para o riacho não consegue acreditar que um dia pessoas já usufruíram deste. Hoje o mau
cheiro, o lixo e os esgotos que são lançados lá dentro, são as únicas coisas que encontramos
lá.
Seu João ainda nos relata outros problemas os quais pioram a situação do Riacho. Os
moradores têm construído coxias para seus animais em cima das paredes de contenção do
Riacho. Ele nos diz que até um tempo atrás aquelas coxias não existiam, mas os moradores
41
que estavam interessados em ganhar apartamentos populares pela prefeitura, construíram
essas coxias para que a prefeitura quando derrubassem indenizassem seus donos . Os
apartamentos são construídos dentro do próprio Reginaldo, porém estes moradores que são
indenizados, segundo Seu João, raramente mudam-se para lá, eles usam o apartamento para
fonte de renda com um aluguel.
Nitidamente percebemos a revolta do ancião quando fala dessas coxias de animais. Eu
tive que concordar com ele que não é nada agradável trafegar por ruas estreitas com porcos,
cavalos, cabras. Além do mau cheiro que os dejetos desses animais causam. Essas coxias
também poluem o riacho, isso porque, como as coxias foram construías próximo aos paredões
do riacho, os dejetos dos animais são jogados lá dentro.
Imagem 12
No entanto, seria equivocado atribuir a poluição do Riacho Salgadinho apenas aos
moradores do lugar. Segundo Seu João, a população é negligenciada pela prefeitura em
relação à coleta de lixo. Conforme ele me relata, nas vésperas de natal de 2011 o bairro ficou
quase três semanas sem que o carro de lixo passasse lá. A prefeitura nunca explicou o que
42
aconteceu, mas o descaso não aconteceu somente neste período. Ele relata que nem sempre o
carro do lixo entra no Vale para fazer a coleta do lixo. Mas Seu João é bem sincero quando
diz que, mesmo que houvesse uma coleta regular, a população já se acostumou à jogar o lixo
nas ruas ou no próprio Riacho, desta forma,os problemas com a poluição no bairro não estão
simplesmente ligados ao descaso da prefeitura.
Dona Mariana mesmo não tendo nascido no Reginaldo, carrega suas lembranças sobre
o Riacho:
Quando cheguei aqui ele já estava começando a ficar poluído,mas eu
lembro dos mais velhos nos contando de como era bonito e limpo esse
riacho... Hoje em dia ninguém mais cuida dele! As pessoas acham que os
moradores do Reginaldo é quem polui ele, mas se você olhar ele já vem sujo
lá de cima, os esgotos, as encanações das casas, tudo o povo joga ai dentro
e depois vem dizer que é a gente o culpado.
Ela carrega consigo uma idéia de que os moradores dos bairros altos da cidade, por
onde o riacho também passa, são culpados pela poluição que vemos ali. Porem, me explica
que devido a falta de coleta de lixo no bairro, os moradores vão juntando seus lixos na rua,
mas para ela é aceitável eles jogarem os lixos dentro do riacho, já que segundo ela, quando a
chuva vem leva todo entulho embora. Além do lixo jogado dentro do riacho por seus próprios
moradores locais, ela também me relata sobre os dejetos dos animais que são jogados lá
dentro e o esgoto da cidade que a própria prefeitura lança lá dentro.
Ismael também me passou ricas informações sobre o Riacho. Como este praticamente
cresceu no bairro, carrega várias lembranças de sua infância em relação ao riacho. Este
conviveu pouco tempo com o riacho limpo, mas lembra de quando as mulheres iam para o
riacho lavar suas roupas e os filhos as acompanhavam para tomar banho no Riacho. Para ele
um fator que contribui para a poluição do Riacho foi a entrada de novos moradores no local.
Para ele, aqueles que nasceram e cresceram no lugar possuem uma certa paixão pelo riacho, já
aqueles que chegaram lá há pouco tempo não tomaram cuidado e poluíram este. Essa paixão
está relacionada ao período inicial, quando o riacho ainda era possível banhar. No decorrer da
conversa, ele reconhece que os próprios moradores nos dias atuais poluem e não cuidam do
riacho.
Ele relembra que durante muito tempo a população sofreu com as enchentes, devido a
grande quantidade de lixo jogada dentro do Riacho. Quando a chuva chegava os moradores já
43
se preparavam para as enchentes. Recorda do período que o governo construiu os paredões de
contenção do riacho. Essa foi uma tentativa do governo para tentar conter as enchentes, porem
ele ressalta que, nos dias atuais, quando a chuva chega os paredões não conseguem conter a
água que transborda e chega a levar animais e até mesmo pessoas. É comum ouvirmos dos
moradores que quando chove ninguém nem entra nem sai do Reginaldo. Atualmente o
prefeito manda tratores para o Vale na época em que se aproxima o inverno. Uma tentativa de
diminuir as enchentes nesse período.
Quando relembra o Riacho Salgadinho, a jovem senhora Joana conta que desde sua
infância o riacho é poluído como nos dias de hoje. Mas lembra que os mais antigos viveram
épocas onde era possível pescar camarão, lavar roupa e tomar banho no Riacho. Lembra ainda
que durante muito tempo os moradores conviveram com enchentes no local, quando a chuva
chegava a população já se preparava para o transbordar do riacho.
Antigamente tinha muita enchente, esses paredões diminuiu, mas nunca
parou de acontecer... Já desceu animais, cavalo, porco, até gente mesmo!
Porque transborda de uma maneira que cobre todo paredão, ai você não
sabe onde é o paredão, só água, por isso que pra mim e bom morra na
barreira, porque a gente de cima não corre tanto perigo...Minha mãe já
perdeu documento, moveis, eletrodomésticos, por conta das enchentes(...)
Sujo ele sempre foi, mas teve uma época que não era tão sujo, né?! Tinha
camarão, rede, as pessoas pescavam e tudo, as pessoas lavavam roupa e
tudo, mas agora... Porque não tem assim educação ambiental e também
assim até lixo hospitalares dos hospitais ali da açúcar, ali da Pitanguinha
desce pelo córrego, seringas, agulha tudo que você imaginar...É bem
complicado a situação da gente daqui.
O secretário da Associação de Moradores, também lembrou-se de alguns momentos
vividos na sua infância. Ele me relata que o local tinha um rio de onde as pessoas pescavam
peixes, roupas eram lavadas e até minadores haviam ali. A poluição veio com o aumento do
número de residências. Inicialmente eram poucas casas, mas o êxodo rural fez com que
muitos retirantes saíssem de seus interiores para o Reginaldo. Seu Marcos acredita que com a
chegada de novos moradores o riacho sofreu com a poluição, pois para ele só os moradores
mais antigos do Vale possuíam um cuidado com o riacho.
Como podemos notar cada morador carrega consigo uma memória sobre a história do
Riacho. Quando o sociólogo Maurice Halbwachs (2006) fala sobre a memória coletiva e o
44
espaço ele mostra como o ambiente material em que vivemos carrega marcas que muitas
vezes são apenas visíveis para aqueles que pertencem ao local.
Assim se explica como as imagens espaciais desempenham esse papel na
memória coletiva. O lugar ocupado por um grupo não é como um quadronegro no qual se escreve e depois se apaga números e figuras. Como a
imagem do quadro-negro poderia recordar o que nele traçamos, se o quadronegro é indiferente aos números e se podemos reproduzir num mesmo
quadro figuras que bem entendemos? Não. Mas o local recebeu a marca do
grupo, e vice-versa.[...] Cada aspecto, cada detalhe desse lugar tem um
sentido que só é inteligível para os membros do grupo, porque todas as
partes do espaço que ele ocupou correspondem a outros tantos aspectos
diferentes da estrutura e da vida de uma sociedade, pelo menos o que nela
havia de mais estável.” (Halbwachs,2006,p.159-160)
Todas as mudanças sofridas ao longo dos anos no Riacho Salgadinho, não foram
sentidas pelos moradores de outros bairros. Basta ouvir o tom de melancolia nas falas de seus
moradores, que entendemos a relação entre a memória dos moradores e o Riacho. Os grupos
resistem às mudanças no cenário em que vivem. Talvez por isso os moradores mais antigos
não se sintam culpados pela transformação do Riacho, mas colocam a culpa nos moradores
que chegaram de outros lugares. Halbwachs (2006) fala sobre essa resistência de determinado
grupo as mudanças:
Se, entre as casas, as ruas e os grupos de seus habitantes houvessem apenas
uma relação muito acidental e de curta duração, os homens poderiam
destruir suas casas, seu bairro, sua cidade e reconstruir em cima, no mesmo
local, uma outra cidade, segundo um plano diferente- mas as pedras se
deixam transportar, não é muito fácil modificar as relações que se
estabeleceram entre as pedras e os homens. Quando um grupo humano vive
por muito tempo em um local adaptado a seus hábitos, não apenas a seus
movimentos, mas também seus pensamentos se regulam pela sucessão das
imagens materiais que os objetos exteriores representam para ele. (ibid,
2006, pp. 163)
Podemos não entender como acontece essa resistência no Reginaldo, se olhamos para
o Riacho e vemos poluição por todo lado. A sensação que temos é que a própria população já
aceitou todo desgaste que vem ocorrendo com o Riacho.Nesta situação não basta apenas
olhar, é preciso ouvir. Cardoso de Oliveira (2000) em seu livro “O trabalho do antropólogo”
nos esclarece como se dá a relação entre olhar e ouvir.
45
Evidentemente tanto o ouvir como o olhar não podem ser tomados como
faculdades totalmente independentes no exercício da investigação. Ambas
complementam-se e servem para o pesquisador como duas muletas- que não
nos percamos com essa metáfora tão negativa- que lhe permitem caminhar,
ainda que tropegamente, na estrada do conhecimento.[...] É nesse ímpeto de
conhecer que o ouvir, complementando o olhar, participa das mesmas
precondições desse ultimo,na medida em que está preparado para eliminar
todos os ruídos que lhe pareçam insignificantes, isto é, que não façam
nenhum sentido no corpus teórico de sua disciplina ou para o paradigma no
interior do qual o pesquisador foi treinado. (OLIVEIRA, 2000, pp. 21-22)
Os nossos olhos muitas vezes encontram-se impregnados de preconceitos. O ouvir é
essencial para entender aquilo que muitas vezes não esta visível a olho nu. Quando penso em
tudo que ouvi sobre as memórias de meus entrevistados sobre o Riacho Salgadinho, percebo
que se ficarmos apenas na esfera do “olhar” muitos pontos que constituem a identidade do
local, irão passar despercebidos. É preciso dedicar tempo ao ouvir. Ouvir aqueles que
constroem o Reginaldo me fez entender a relação deste povo com o Riacho Salgadinho.
46
3. O VALE DO REGINALDO E A VIOLÊNCIA EM MACEIÓ
A realidade alagoana sobre seus índices de violência está estampada em jornais
regionais e nacionais como também nos noticiários diários. A Secretaria Geral da Presidência
da República juntamente com a Secretaria Nacional de Juventude e a Secretaria de Políticas
de Promoção da Igualdade Racial promoveram a publicação do Mapa da Violência:
Homicídios e Juventude no Brasil. Segundo esses dados:
Nos últimos dez anos, a cidade assistiu a uma explosão no número de
homicídios. No período, a taxa de homicídios em Maceió subiu 144%,
enquanto o conjunto das capitais teve queda média de 18%. (...) De oitava
capital mais violenta do país em 2000, Maceió passou ao topo do ranking
dez anos depois. A taxa de homicídios é de 110,1 por 100 mil habitantes quatro vezes a taxa nacional, de 27,4.
Para nossa tristeza, mas não surpresa, Maceió foi classificada como a capital mais
violento do Brasil como nos mostra o gráfico abaixo:
Imagem 13
47
Recentemente tivemos mais uma vez nossa cidade nos noticiários da televisão. Na
edição do dia 23/03/2014 do programa Fantástico da Rede Globo trouxe uma entrevista por
titulo: “Três cidades brasileiras estão entre as dez mais violentas do planeta”. Como já era de se esperar,
Maceió foi uma das cidades que o programa deteve seus olhos. A entrevista iniciou mostrando o caso de um
assassinato em um dos bairros em Maceió e logo apresentou os dados abaixo:
Maceió é a quinta cidade mais violenta do mundo, e primeira do Brasil, segundo
o estudo mexicano. Em 2013, foram 79 homicídios para cada 100 mil habitantes.
Acima de 10 homicídios por 100 mil habitantes, a Organização Mundial de
Saúde, considera uma epidemia de violência. De acordo com números do próprio
governo estadual, a maioria das vítimas de homicídios em Maceió é de jovens,
com idade entre 18 e 29 anos.“Quem está na orla não consegue visualizar que,
todos os dias, na cidade de Maceió, pelo menos cinco jovens estão morrendo. E
esses jovens não estão morrendo na orla. Eles estão morrendo nas periferias”,
destaca a socióloga Ruth Vasconcelos.8
Imagem 14
8
Disponível em: <http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/03/tres-cidades-brasileiras-estao-entre-dezmais-violentas-do-planeta.htm> Acesso em 14 de abril de 2014
48
A cidade de Maceió passou por um processo de urbanização crescente nas ultimas
décadas. Dados do Instituto Brasileiro de Administração Municipal- IBAM, nos revelam
como esse crescimento se deu:
Na década de 1950, a falta de planejamento e a topografia da cidade,
somadas ao acelerado processo migratório, deram início à ocupação
desordenada do vale do Reginaldo.(...) A partir de 1960 são identificados os
reflexos das modificações estruturais ocorridas no país, que vão interferir de
forma determinante na configuração espacial da cidade e no fenômeno
habitacional urbano em Maceió. É nessa década que a população de Maceió
cresce mais rápido do que a do Brasil e a de Alagoas, com taxa geométrica
de crescimento populacional anual de 4,7%.9.
O crescimento da cidade se deu da periferia para o centro, ao contrario do
que ocorreu nas principais capitais do país e diversas metrópoles do globo,
uma vez que a Companhia Habitacional de Alagoas (COHAB/AL), ao
buscar terrenos mais baratos para a construção de conjuntos habitacionais
para as famílias mais pobres, os localizou na periferia, levando à valorização
das áreas intermediárias, inacessíveis financeiramente a classe média e
baixa, “[...] por falta de um planejamento governamental, ou talvez por causa
dele”. Esse processo de urbanização utilizou-se da concentração de áreas
indiciárias cercadas pelo oferecimento de serviços e equipamentos públicos e
a exclusão da população mais pobre para locais cada vez mais distantes
deste.10
Todas as mudanças no cenário urbano da cidade de Maceió, não modificaram apenas a
estrutura de seus prédios, a construção de novas vias para comportar o aumento do número de
veículos ou outras mudanças. Mas também modificou o cotidiano e a vida social dentro da
cidade. Com a urbanização da cidade de Maceió a cidade começou a receber uma grande
quantidade de pessoas e estas procuravam abrigos nas periferias. Sendo este o período em que
o Reginaldo recebe uma grande demanda de retirantes.
Por mais que a sociedade não pesquise ou leia artigos científicos sobre o aumento da
violência em nossa cidade, basta você ligar a televisão ou o rádio para ser bombardeado de
9
Disponível em
<http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:http://www.ibam.org.br/media/arquivos/estudos/manu
al_maceio.pdf p. 22 Acesso em 21 de maio de 2014
10
CALIXTO,Fernanda Karoline Oliveira.O tratamento jurídico dos desastres urbanos ambientas na perspectiva
da sociedade de risco: O caso do Vale do Reginaldo em Maceió/ AL. 2013. Dissertação (Mestrado em Direito).
Universidade Federal de Alagoas,Maceió- Al, 2013 PP. 26
49
noticias sobre a violência na cidade. Não muito diferente da internet, que nos lança as
informações com maior rapidez. A sociedade percebe o que vem ocorrendo ao seu redor e
reage de formas diferentes.
O advogado alagoano, Fernando Maciel, em uma de suas
publicações no seu blog pessoal, deixa claro para nós como as modificações na cidade de
Maceió, que se apresentam de forma benéficas, tornam-se um problema social :
Nossa querida Maceió começa a apresentar ares de cidade grande, resultado
de várias transformações por que está passando como a inauguração de
novas vias e de um novo shopping center, que surgem como portas a um
novo tempo de desenvolvimento e prosperidade.(...) Este desenvolvimento,
entretanto, não vem somente com aspectos bons, mas traz consigo também,
como tudo na vida, características negativas (...) Um dos aspectos mais
tristes desta situação é sem dúvida nenhuma a violência urbana. A isso tudo
é somado o crescimento das drogas ilícitas em nossa sociedade. Assistimos
perplexos sequestros, arrastões, e outros tantos crimes (...) 11
3.1 Violência, preconceito e o Reginaldo
O sociólogo Erving Goffman (2008) nos traz uma definição histórica sobre a forma
como o estigma era empregado nos primórdios da sociedade:
Os gregos, que tinham bastante conhecimento de recursos visuais, criaram o
termo estigma para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava
evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de
quem os apresentava. Os sinais eram feitos com cortes ou. fogo no corpo e
avisavam que o portador era um escravo, um criminoso ou traidor uma
pessoa marcada, ritualmente poluída, que devia ser evitada; especialmente
em lugares públicos. Mais tarde, na Era Cristã, ,dois níveis de metáfora
foram acrescentados ao termo: o primeiro deles referia-se a sinais corporais
de graça divina que tomavam a forma de flores em erupção sobre a pele; o
segundo, uma alusão médica a essa alusão religiosa, referia-se a sinais
corporais de distúrbio físico. Atualmente, o termo é amplamente usado de
maneira um tanto semelhante ao sentido literal original, porém é mais
aplicado à própria desgraça do que à sua evidência corporal. (GOFFMAN,
2008,PP.05)
11
Disponível em : < http://blogsdagazetaweb.com.br/direitoseu/maceio-o-desenvolvimento-e-a-violenciaurbana/ > Acesso em 17 de maio de 2014
50
O sociólogo Erving Goffman (2008) argumenta que a sociedade cria padrões para
estabelecer o que é normal a seus olhos. São criados estereótipos para estabelecer um padrão.
As pessoas são rotuladas por um estigma indesejável.
Enquanto o estranho está à nossa frente, podem surgir evidências de que ele
tem um atributo que o torna diferente de outros que se encontram numa
categoria em que pudesse ser incluído, sendo, até, de uma espécie menos
desejável (...) Assim deixamos de considerá-la criatura comum e total,
reduzindo-a a uma pessoa estragada e diminuída. Tal característica é
estigma, especialmente quando o seu efeito de descrédito é muito grande(...)
(ibid, 2008, p.12).
Atualmente vemos favelas, comunidades e alguns bairros sofrerem com o preconceito
criado pela sociedade. Os moradores do Vale do Reginaldo sentem o estigma que a sociedade
lança sobre eles. Todos os meus entrevistados relataram-me algum caso onde foram
estigmatizados por morar no bairro. Dona Joana em suas falas sempre demonstrou que era
estigmatizada pela sociedade por morar no bairro:
Eu tenho prazer e orgulho de dizer que eu moro aqui, eu até costumo dizer
que eu sou periferia até a morte. Mas assim, já sofri preconceito por morar
aqui, por ter tatuagem, por ter carpa porque dizem que é do PCC...Mas não
é, é uma tatuagem que tem seu significado e eu me identifico, gosto muito de
tatuagem. Mas se eles olharem pra mim e pra um filho de colarinho branco
com tatuagem o olhar vai ser diferente, ele mora na Ponta Verde eu moro no
Reginaldo. Eu já levei nome de prostituta, vagabunda, maconheira, safada...
Tudo porque eu moro aqui e tenho tatuagem.(...) [Quando lhe pergunto se
ela já havia sido recusada em algum emprego por morar no Reginaldo, ela
me responde] Já sim! No Ritz Lagoa da Anta e em outros cantos que eu
trabalhava quando eu dizia que morava no Reginaldo eles me chamavam de
maconheira, lombreira... Diziam que eu era dona da boca, só assim... Esse
preconceito existe do começo ao fim do mundo! Morou no Reginaldo é
bandido, e nem todo mundo que tá aqui é bandido! É oportunidade que a
gente não tem e não tivemos de mudar de vida, entendeu?! Aqui tem pessoas
muito bacana, aqui tem pessoas que moram aqui que é universitário, que é
policial, então não é assim... Isso magoa muito sabe?! Porque eu no meu
caso tive que abandonar minha faculdade, mas se eu tivesse terminado a
minha faculdade, mesmo com a minha faculdade, eles iam dizer que eu era
uma bandida encubada.
Dona Joana é só mais uma vitima do preconceito que é lançado sobre moradores de
favelas, comunidades carentes e como no caso do Reginaldo, um local marginalizado.
Goffman( 2008) argumenta sobre a forma como o estigma é criado sobre determinado grupo
ou individuo:
51
As atitudes que nós, normais, temos com uma pessoa com um estigma, e os
atos que empreendemos em relação a ela são bem conhecidos na -medida em
que são as respostas que a ação social benevolente tenta suavizar e melhorar.
Por definição, é claro, acreditamos que alguém com um estigma não seja
completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de
discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar,
reduzimos suas chances de vida: Construímos uma teoria do estigma; uma
ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela
representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em
outras diferenças, tais como as de classe social. Utilizamos termos
específicos de estigma como aleijado, bastardo, retardado, em nosso discurso
diário como fonte de metáfora e representação, de maneira característica,
sem pensar no seu significado original.(ibid,2008, pp.08)
Quando a antropóloga Alba Zaluar (2000) pesquisava a comunidade Cidade de Deus,
escreveu em seu livro “A máquina e a revolta” sobre a forma como a sociedade enxergava os
moradores da comunidade. Os jovens que pertencem ao bairro sofrem com um estigma.
De todas as barreiras, a mais mencionada pelos jovens é a do preconceito e
da imagem negativa dos moradores de locais que são considerados como
antro de marginais e de bandidos. (...) Vocês pobres são todos perigoso. Um
espelho negativo nesta fase da vida em que as identidades estão mal
definidas e que, se eficaz, torna-se um fator a mais na inclinação do jovem
pelo crime..(ZALUAR, 2000 p.154)
As comunidades são marcadas de forma negativa, seus moradores são excluídos
socialmente e rotulados por características indesejáveis. Dona Joana,em uma de nossas
conversas relata-me um episódio em que seus filhos passaram por um momento em que o
estigma de marginal foi lançado sobre eles:
Mas assim essa discriminação não é de agora, meus filho mesmo, os dois
também já sofreram assim discriminação, agressão... Tipo, a gente faz isso,
faz aquilo,e as pessoas dizem: “ Vá chamar sua raça que é bandida!” E não
é bandida,foram pessoas que sofreram retaliações da vida, falta de
oportunidade.[...] Mas assim a criminalidade não mudou! Eu mesmo... Meus
dois filhos abandonaram os estudos, o de 14 também ta usando drogadas,
entendeu? [Como ela havia me relatado que já havia usado drogas, ao falar
sobre seu filho mais novo diz que ele também está usando] Mas você pode
dizer assim, pra você isso é natural? Não! Mais o que eu vou fazer se a
oportunidade que a gente tem não é de mudança?! Então assim... Ele não e
viciado, mas eu sei que ele usa maconha. O mais velho de 17 também já
usou, então assim, aqui não tem uma quadra esportiva, aqui não tem lazer,
então assim, a oportunidade que eles tem é o traficantes oferecer pra eles
52
drogas, roupas de marca, um revolve, dinheiro... é só você se envolver na
criminalidade.
Nessa fala é possível notar que os moradores do Vale buscam sempre saídas para
justificar a violência e a entrada de jovens o tráfico. A antropóloga Alba Zaluar (2000),
apresenta alguns dados que são apontados pela população da comunidade Cidade de Deus,
como fatores que podem levar um jovem ao mundo do tráfico:
“Ninguém é bandido porque quer” é uma frase que nos traz para o terreno
das determinações , das explicações objetivistas. E elas são múltiplas.
Apontam para a falta de assistência do governo, a pobreza cada vez maior
entre as famílias de trabalhadores, a policia corrompida, as atrações e
facilidades do trafico, o exemplo e sedução dos bandidos da vizinhança, a
revolta que os métodos violentos deste provocam. (ibid, 2000,pp153)
No meio social, esse estigma de que todo pobre é bandido é reforçado pela mídia. A
mídia tem um papel fundamental de reforçar esse estigma que já foi enraizado em nossa
sociedade. Uma barreira é criada dentro da sociedade contra esses bairros, favelas,
comunidades e todos lugares que sejam habitados por moradores da classe baixa.
Um fato que não podemos deixar de lado é a relação criada pela mídia local e o Vale
do Reginaldo. A mídia faz questão de diariamente expor os pontos fracos das comunidades
carentes. As manchetes dos jornais não poupam detalhes sobre a realidade nua e crua, eles
querem vender a notícia a qualquer preço e a população é tomada por essa onda de
sensacionalismo. Basta abrir os jornais, ou pesquisar o nome do bairro na internet, que
seremos bombardeados por noticias de roubos, mortes ,etc.
Mesmo o Reginaldo não sendo classificado como uma favela, o mesmo carrega
característica deste local. No website do Observatório das favelas12, foi divulgado um artigo
apresentado o que é uma favela:
Historicamente, o eixo paradigmático da representações das favelas é a
ausência. Nesta perspectiva, a favela é definida pelo que não seria ou pelo
que não teria. Nesse caso, é apreendido, em geral, como um espaço
destituído de infra-estrutura urbana- água, luz, esgoto,coleta de lixo; sem
arruamento;globalmente miserável,sem ordem, sem lei, sem regras, sem
12
Disponível em: < http://observatoriodefavelas.org.br/wp-content/uploads/2013/09/o-que-e-
favela-afinal.pdf> Acesso em 02 de março de 2014
53
moral. Enfim,expressão do caos. Outro elemento peculiar da representação
usual das favelas é sua homogeneização. Presentes em diferentes sítios
geográficos– em planícies, em morros, às margens de rios e lagoas – e
reunindo algumas centenas de moradores até alguns milhares, possuindo
diferentes equipamentos e mobiliários urbanos, sendo constituídas por casas
e/ou apartamentos, com diferentes níveis de violência e presença do poder
público, com variadas características socioambientais, as favelas constituemse como territórios que se exprimem em paisagens consideravelmente
diversificada . a homogeneidade , no entanto, é atônita quando se trata de
identificar esse espaço popular.
Ainda que o Vale não seja classificado como uma favela, a mídia faz questão de
expor as marcas negativas do local. Normalmente esse é um problema enfrentado pelas
favelas e comunidades das grandes cidades brasileiras, como o Rio de Janeiro e São Paulo.
Esse problema já vem sendo rebatido por alguns grupos que passam a noticiar em sites e
blogs pessoais o cotidiano das favelas. Um cotidiano que é esquecido nas telas dos
noticiários. Em Maceió ainda caminhamos a curtos passos, a mídia não nos poupa da
violência do Reginaldo e não faz a mínima questão de apresentar pontos positivos do local.
Dentre todas as pesquisas realizadas nos sites da internet, apenas um apresentava o local de
outro ângulo. O website “Elos mais cultura”13, traz uma breve apresentação do local,
apresentando este como sendo uma comunidade, além de trazer imagens sobre as belezas do
local, os recursos que são encontrados lá e a história de alguns moradores.
A mídia faz questão de distorcer a imagem dos bairros periféricos, tornando estes um
lugar onde muitos tem medo de aproximar-se. Os enunciados abaixo transcritos, mostram a
imagem que a mídia passa do Vale do Reginaldo.
Maceió lidera em homicídios, diz jornal Folha de S.Paulo.( “Segundo a
reportagem, ao tentar conhecer o bairro do Vergel do Lago e a região do
Vale do Reginaldo, locais conhecidos pelo aterrorizante índice de violência,
o jornalista da Folha fora informado por um taxista do acesso proibido.” ) 14
13
Disponível em:< http://www.elosmaiscultura.com.br/comunidade/valedoreginaldo> Acesso em 10 de maio
de 2014
14
Disponível em: http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=220180> Acesso em 03 de abril
2014
54
Polícia estoura boca de fumo no Vale do Reginaldo, em Maceió.( Um adolescente de
16 anos, envolvido em homicídios, foi apreendido.Operação conjunta cumpria
mandado de busca e apreensão.) 15
Acusado de matar médico é detido (Segundo o delegado, o assalto que
resultou na morte do médico foi cometido por dois adolescentes, um de 16 e
outro de 17 anos, que seriam “aviões” do tráfico (repassadores de drogas) do
Vale do Reginaldo, área onde residem. 16
Posto de saúde reabre, mas medo ainda impera.( Estado: Alagoas. Cidade:
Maceió. Bairro: Poço. Área de risco: Vale do Reginaldo, uma terra sem lei e
sem saúde pública. O que a venda de crack e maconha pode ter a ver com o
pré-natal da dona Maria ou o diabetes do seu Severino? Tudo. Por incrível
que pareça, o atendimento básico de saúde está relacionado ao tráfico de
drogas e foi interrompido por causa de uma guerra entre facções inimigas
que disputam o controle das grotas e brenhas onde a polícia não entra.) 17
Lembro-me de um episódio, durante a pesquisa de campo, quando entrevistava Dona
Joana. Sua televisão ligada em um programa local sensacionalista18, no qual o apresentador
relatava um roubo ocorrido próximo à Pajuçara, um dos bairros situados próximos do Vale do
Reginaldo. Ao ver o assaltante, o apresentador não esperou o mesmo dizer onde morava e já
foi dizendo: “Isso bem deve sair do Reginaldo...Olha a cara dele, tem cara de malandro!”.
É interessante notar que a senhora não se incomodou com o comentário do
apresentador. Além de não apresentar nenhuma reação à esta fala, é notório que em todas as
minhas entrevistas, os moradores possuíam críticas ao governo, aos próprios moradores, etc,
mas não faziam nenhuma crítica à mídia. Nenhum deles percebia que se os moradores dos
bairros vizinhos possuíam uma visão distorcida da realidade do Reginaldo, é porque a mídia
tem trazido noticias que só inferioriza o local.
15
Disponível em: < http://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2013/06/policia-estoura-boca-de-fumo-no-vale-doreginaldo-em-maceio.html> Acesso em 03 de abril de 2014
16
Disponível em: < http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=203458> Acesso em 03 de
abril de 2014
17
Disponível em: < http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=220163> Acesso em 03 de
abril 2014
18
Programa “ Fique Alerta” que é conhecido por suas reportagens apelativas e suas narrativas cheias de
sensacionalismo . O programa vai ao ar de segunda à sexta-feira na TV Pajuçara no horário das 12:00 horas.
55
Ao tratar da relação da mídia com a violência em alagoas a socióloga Ruth
Vasconcelos(2005) mostra quais efeitos essas informações que nos são passadas diariamente,
têm sobre nós.
A alta frequência com que as noticías de violência são veiculadas nos/pelos jornais
alagoanos produz efeitos de naturalização da violência e representações sociais que
interferem na constituição da própria realidade social e política do estado.
(VASCONCELOS,2005, pp.80-81)
A antropóloga Teresa Caldeira (2000) ao falar em seu livro “Cidades de Muros” sobre
os direitos dos presos, enumera três formas que a mídia utiliza para influenciar a opinião dos
seus telespectadores:
O terceiro exemplo vem do programa diário de Afanasio Jazadji, um dos
radialistas mais populares de São Paulo. Jazadji define a si mesmo como um
repórter policial e costuma apresentar um programa no qual narrava crimes.
Ele é conhecido por sua voz grave, pela maneira desrespeitosa com que se
refere a suspeitos, por sua defesa d policia e da pena de morte, e por sua
oposição radical aos direitos humanos.[...] Sua influência é evidente: as
pessoas que entreviste muitas vezes o mencionavam para justificar suas
opiniões, e em 1986, numa campanha baseada totalmente em ataques aos
direitos humanos e as políticas de Montoro, Jazadji foi o candidato mais
votado para a Assembléia Legislativa (300 mil votos na cidade de São Paulo
e mais de meio milha no estado.) (CALDEIRA, 2000,pp.347)
A violência é um tema que gera audiência. A população brasileira gosta de ouvir
detalhes de um crime, gosta de ver a cena do crime, enfim, tudo que estiver ligado à violência,
a mídia já percebeu que é um ponto para gerar audiência. A relação da mídia com a violência
é de usar esta para prender a atenção da população. A socióloga Ruth Vasconcelos(2005) nos
deixa claro isso:
Encontramos, entre os nossos entrevistados, algumas representações sociais
que justificam o alto consumo da violência: a existência de uma curiosidade
natural do ser humano para cenas de perversidade e sofrimento; a existência
de um processo de identificação do público consumidor, seja com a vítima
ou com o acusado; uma certa lei de compensação, que leva as pessoas a
querer contactar com realidades piores que a sua para amenizar o próprio
sofrimento; e, ainda, um certo sadismo ou morbidez da população que se
interessa por notícias de violência com uma certa dose de satisfação. As
56
tentativas de explicação apontam para a existência de motivações de ordem
subjetiva que certamente estimulam e asseguram a existência de programas
especializados nesta temática, como é o caso de programas locais e
nacionais: Plantão de Polícia (TV), Ronda Policial (Rádio), Cidade Alerta
(TV), Linha Direta(TV), etc. (ibid, 2005, pp.121)
Assim como a socióloga Ruth Vasconcelos, a antropóloga Tereza Caldeira traça uma
idéia sobre a fala do crime e a forma como esta se prolifera na sociedade.
“[...] A narração tanto combate quanto reproduz a violência. De fato, a fala
do crime faz a violência proliferar ao combater e simbolicamente reorganizar
o mundo.A ordem simbólica engendrada na fala do crime não apenas
discrimina alguns grupos, promove sua criminalização e os transforma em
vítimas da violência, mas também faz o medo circular através da repetição
de histórias e, sobretudo, ajuda a deslegitimar as instituições da ordem e a
legitimar a privatização da justiça e o uso de meios de vingança violentos e
ilegais. ” (ibid, 2000, P 43)
Além da mídia desenvolver essa sensação de medo no meio da sociedade, a própria
população reproduz uma fala onde a violência é o ponto chave.
3.2 A violência na fala dos moradores do Reginaldo
Falar sobre o Reginaldo sem tocar no assunto da violência, é como deixar uma parte
da memória deste povo esquecida.Os próprios moradores carregam aquilo que a autora Tereza
Caldeira(2000) em seu livro Cidade de Muros chama de “A fala do crime”.
A fala do crime - ou seja, todos os tipos de conversas, comentários,
narrativas, piadas, debates e brincadeiras que tem o crime e o medo como
tema- é contagiante.Quando se conta um caso, muito provavelmente vários
outros se seguem; e é raro um comentário ficar sem resposta. A fala do crime
é também fragmentada e repetitiva. Ela surge no meio das mais variadas
interações, pontuando-as, repetindo a mesma historia ou variações da mesma
historia, comumente usando apenas alguns recursos narrativos. Apesar das
repetições, as pessoas nunca se cansam. Ao contrário, parecem compelidas a
continuar falando sobre o crime,como se as infindáveis analises de casos
pudessem ajudá-las a encontrar um meio de lidar com suas experiências
desconcertantes ou com a natureza arbitraria e inusitada da violência. A
repetição da historia no entanto, só serve para reforçar as sensações de
perigo, insegurança e perturbação das pessoas. Assim a fala do crime
alimenta um circulo em que o medo é trabalhando e reproduzido, e no qual a
violência é a um só tempo combatida e ampliada. (ibid, 2000,pp27)
57
Em uma pesquisa de campo estamos sujeitos a vários fatores externos e internos que
podem mudar nossa relação com a pesquisa e pesquisados. Tenho total consciência da
importância da fala de cada entrevistado, porem sem querer trazer privilégios à ninguém,
coloco como fundamental para este capítulo as falas de Dona Joana. Uma tarde com esta
senhora me fez enxergar uma nova realidade em relação o Reginaldo. Suas informações ali
passadas são de grande valor para mim, não desmerecendo aquilo que foi dito pelos demais,
porem esta senhora passou-me detalhes que só aqueles que convivem desde muito cedo neste
mundo poderiam me passar. Sua visão sobre a violência no Reginaldo fixa na mente de
qualquer um que ouve suas histórias.Ela carrega uma lembrança muito triste do local, suas
memórias são de uma violência tal que suas lembranças chegam a impactar quem as ouve.
Dona Joana, mesmo sendo uma jovem senhora, já vivenciou cenas dentro do
Reginaldo que carrega em sua memória. Em nossa conversa era possível sentir sua dor ao ver
jovens sendo mortos em sua frente, crianças tendo suas infâncias roubadas pela violência e o
tráfico. A jovem me relatou com tanta emoção que tenho a sensação de estar revivendo junto
com ela o momento narrado. Mesmo quando tenta me falar de sua infância, de como foi viver
no Reginaldo há décadas atrás, suas memórias se entrelaçam com uma narrativa de violência:
“... Eu nasci e me criei aqui. Eu lembro das mesmas coisas ou coisas assim
piores... lembro de enchentes, entendeu, casas sendo demolidas, muito
trafico de drogas, pessoas que a policia metralhava nas ruas, prendiam ,
crianças que foram agredida por policias porque ficavam na rua assim
curiosas em vê e saber o que tava acontecendo, entendeu! Teve uma época
em que teve algumas mortes e mataram quatro pessoas de uma vez só
metralhadas , só que o que mais me marcou nessa época aos meus 9 pra 10
anos, foi uma época de uns policiais que andavam com “bala clava” nos
rostos, e quem tivesse na rua eles mandavam entrar e alguns que não
quiseram entrar apanharam no rosto... foram agredidos sabe! Então assim,
o cotidiano daqui sempre é esse, agressão , eles não distinguem quem é
quem ,não! Generalizam entendeu,morou aqui pra eles toda é bandido .”
Em nossa conversa, Joana deixou claro que suas memórias da infância vividas no
Reginaldo eram carregadas de violência e abusos. A fala acima foi a resposta que a jovem me
deu ao questionar-lhe o que lembrava de sua infância no Vale do Reginaldo. Diferente de
alguns entrevistados que tentavam “esconder” um passado e presente de violência do bairro, a
jovem não me poupou detalhes da realidade do local.
58
No começo de nossa conversa com uma de minhas informantes, Dona Joana, logo
após relatar-me alguns episódios de sua infância que lhe deixaram marcas para toda vida,
mostra como é importante para ela relembrar esses momentos :
“...Então, assim é um histórico de vida assim muito triste, eu acho que assim
quando o menino[Referindo-se à Ricardo meu guia dentro do bairro] me
propôs de fazer esse trabalho pra você eu me identifiquei muito , porque é
ate um pouco de você expor pra fora aquilo que ta sofrendo dentro de você
guardado... sabe! ”
Fica nítido nas fala da jovem senhora, que sua memória sobre o Reginaldo é repleta de
traumas. O ato de desabafar aquilo que tanto machuca a memória possui os seus dois lados.
Ao mesmo tempo que é “colocar para fora” aquilo que já foi guardado durante tanto
tempo,assim como é um risco para o interlocutor. Muitos dos que vivem no Reginaldo
preferem não expor para qualquer um o que já vivenciaram de abusos e violência no local.
Essa barreira entre o não-dito e o expor é pensada por Michael Pollak (1989) :
Por conseguinte, existem nas lembranças de uns e de outros zonas de
sombra, silêncios,"não-ditos". As fronteiras desses silêncios e "não-ditos"
com o esquecimento definitivo e o reprimido inconsciente não são
evidentemente estanques e estão em perpétuo deslocamento. Essa tipologia
de discursos, de silêncios, e também de alusões e metáforas, é moldada pela
angústia de não encontrar uma escuta, de ser punido por aquilo que se diz,
ou, ao menos, de se expor a mal-entendidos. (POLLAK,1989,pp 08)19
Dona Joana é bem enfática quando fala se sua relação com os traficantes do bairro:
Aqui é assim, eles respeitam, a não ser,assim, que se um ladrão daqui furtar
ou roubar algo de alguém daqui ele vai morrer. Entendeu?! Se uma mulher
brigar com o marido e chamar a policia sem comunicar o traficante, ela vai
morrer! Porque quem tem resolver isso são eles[refere-se aos traficantes],
agora se eles não resolver ai você resolve!Aqui dentro tem regras, essas
gangues... Então é assim, o traficante atual que manda aqui são dois irmãos,
um manda no começo e o outro manda no final. Mas tem uma parte aqui que
é de um e outra parte aqui que é de outro. Se você fizer esse tipo de coisa
sem comunicar a eles, você tá arriscando a sua vida, porque fora esses tem
as outras pessoas que estão abaixo deles. Mas aqui é tudo eles que
resolvem. Um dia aconteceu de uma mulher ta brigando com o marido e
gritar que ia chamar a policia, na mesma hora eles bateram na casa dela ,
ai falou: “ quem resolve aqui somos nos! Policia só entra aqui quando a
19
Disponível em <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2278> Acesso em 19 de
abril de 2014
59
gente não da conta!” Então você não pode meter a cara e querer resolver
do seu jeito. Tem que procurar alguém que esteja ali, entendeu, porque se
você procurar você vai ter apoio deles, mesmo você sabendo que esta se
arriscando mas tem que ser assim. Porque aqui o Vale é uma periferia muito
grande não é só esse pedacinho. Porque é muito grande, então tem varias
pessoas, cada um, como diz o popular, um tem o seu quadrado você não
pode invadir o quadrado dele.[...] As vezes os traficantes daqui faz coisas
que eles [referindo-se aos policiais] não fazem, bota ordem, entendeu?! Bota
ordem aqui! Se você tiver com fome você pode pedir a eles que eles lhe dão
comida. Eu mesmo já pedi a um traficante, ele já me deu comida pra comer
sem me pedir nada em troca.
A relação que é estabelecida com o tráfico e alguns moradores foi analisada pela
antropóloga Alba Zaluar (2000) em suas pesquisas na Cidade de Deus. Assim como na
comunidade, aqui no Vale do Reginaldo é comum nos depararmos com moradores que
defendem os traficantes .
De qualquer forma, a identificação do morador com o local em que mora,
que parece ser um mecanismo importante na formação de suas identidades
sociais, leva-o a fazer diferenciações preconceituosas entre os bandidos.
Sanguinário, perverso, covarde, maconheiro ou ladrão é o bandido de outras
áreas. Os estigmas veiculados pelos jornais sobre o conjunto habitacional
como um todo, qual seja, o de ser um antro de marginais, maconheiros,
bandidos e assaltantes, ampliam-se aos outros “pedaços” mas não ao
“pedaço” de quem fala. Na área do morador que fala predominam os
traficantes trabalhadores pacatos; os bandidos de cá,alem de valentes, são
“gente”, “não se metem com trabalhador”, “defendem a área”, “nos
respeitam”. (ZALUAR, 2000,pp144)
Em cada entrevista, os moradores queriam expor seus traumas, revoltas e desabafos
sobre fatos vivenciados no local. Suas falas sempre giram em torno da violência lembrada da
infância, da violência vivida nas ruas do bairro ou até mesmo de uma violência escondida
pelo medo.
Mas a visão da violência no local vai mudando de acordo com cada entrevistado.
Ismael, o jovem “falante”, traz outra visão sobre a violência no local. Para ele, a comunidade
em si não era violenta.Relembra que na década de 60, quando o Vale ainda era mais calmo,
os bandidos vinham fugidos de bairros vizinhos, como o Jacintinho e o Feitosa, bairros que
possuem gangues aliadas aos grupos do Reginaldo, e aproveitavam o aglomerado de casas
para se esconder lá. Dessa forma, o Reginaldo pegou “fama” de ser violento.
60
Eu já escutei muitas pessoas lá fora dizerem que aqui é o buraco do mundo.
Né!? Eu até aceito essas coisas, as vezes você trabalha ou pega um taxi,
quando você diz que vai para o Poço eles ainda vêem. Mas quando você diz
que vai pro Reginaldo, ai ele diz: Ho! Só vou levar até a praça Bonfim,
porque eu não entro ali não, porque ali é perigoso! Já foi perigoso, hoje já
não é mais... Agora não é, porque o perigo hoje...O perigo naquele tempo
antes era os bandidos mais velhos, hoje não...hoje são os jovens de 15,16
anos...
Ismael ao falar sobre a realidade atual, coloca os bandidos mais novos como um fator
que não causa medo nos moradores locais. Mas tem logo sua fala rebatida por Ricardo, o
jovem que me guiava pelo bairro, ao lembrar-lhe dos jovens que tentaram assaltar as jovens
que voltaram da oração da igreja. Seu João, meu primeiro informante, também carrega essa
idéia de que o Vale não é um local violento.Quando pergunto-lhe sobre a relação entre as
pessoas de fora do Reginaldo tem com as pessoas da comunidade o mesmo responde:
“Onde eu chego eu digo, eu moro no Reginaldo, quer goste ou não, tem uns
que ignoram.Tem taxistas que não gostam de entrar aqui, principalmente no
inverno. No ainda tem deles que fica cismado. Não sei se é por causa de
assalta, porque ele acha que aqui só mora assaltante, mas eu digo a eles que
eu moro há tatos anos ali, mas nunca ouvir dizer que ninguém foi assaltado
ali dentro. Você já foi assaltado aqui Ricardo? ... O povo fala daqui de
dentro, é um lugar desprezado, mas graças a Deus nunca sofri nada aqui.
Eu digo a eles, quando eles ficam assim, sem querer entrar, eu digo vamos
sem medo, porque você não vai vê nada.”
Ele não se sente intimidado pela violência local, mesmo Ricardo, o jovem que me
guiava no bairro, informando-lhe que em frente uma pastelaria próxima a igreja, pouco antes
de chegar para um culto, um jovem foi morto na frente de todos. Diante das falas de Seu João
tenho a impressão que para ele o roubo e a violência não existem no Reginaldo. Posso
levantar alguns pontos para justificar sua negação, como por exemplo, pensar nos caminhos
percorridos por ele. Como um senhor de idade avançada, ele passa o maior tempo em casa ou
na igreja, já o jovem Ricardo vai para o trabalho, anda pela comunidade e algumas vezes
chega tarde da noite em casa . Seu João pode carregar em sua mente um Vale do Reginaldo de
40 anos atrás, onde a violência era pouco comentada.
Hoje é comum encontrarmos crianças nas ruas brincando de bater umas nas outras.
Lembro-me de uma situação em que um menino de cerca de 11 anos ao ver um homem na
61
varanda de seu apartamento no bairro do Farol, simulou que estava com uma arma na mão e
tinha acabado de matar aquele homem. De forma inconsciente aquele menino reproduzia uma
cena de violência, talvez presenciada pelo mesmo dentro de sua comunidade. A idéia da
valentia masculina ser reproduzida e aprendia pelos mais jovem nos é pensada pela autora
Cláudia Fonseca(2004):
A valentia masculina se constrói desde a primeira infância através de duelos
constantes e multiformes entre homens. Basta observar o grupo de jovens
que assistem ao jogo local para ver essas provocações mutuas; os empurrões,
os insultos, os golpes de punho... é assim que os meninos aprendem a se
movimentar no universo de sensibilidade a flor da pele. (FONSECA, 2004,
p.191)
Diferente de Seu João e os demais, Dona Mariana carrega outra visão sobre a
violência no Reginaldo. Em sua fala fica claro que os moradores do Vale têm que conviver
diariamente com a violência. Quando lhe perguntei o que mudou na comunidade ela
respondeu-me:
“(...) O que mudou mais foi o posto de saúde, chegou com mais
oportunidade porque antigamente tinha que ir pra Maravilha pegar uma
ficha de 4 horas da manha. Isso era mais difícil. O que...o que mudou
mais?Mudou também o trafico. Antigamente a gente nem via isso, essas
coisas aumentou(...) No geral piorou o caso da violência, porque aqui
quando mata um mata dois de uma vez, quando começa a matar um mata o
outro. Quando cheguei pra morar aqui era pouco Melhorou em uma parte e
em outra não.”
Ao relembrar do passado local, contou-me um episódio quando ia sendo assaltada lá
dentro. Ao reconhecê-la, o assaltante que liderava o bando ordenou para que ninguém fizesse
nada com ela, pois eles reconheceram que era a “Irmã”, nome dado pelos traficantes por ela
pertencer a uma igreja evangélica local. Ela mostra que antigamente os moradores eram
respeitados, ninguém roubava os moradores da comunidade.
No seu livro “Família, fofoca e honra: uma etnografia de relações de gênero e
violência em grupos populares”, a autora Cláudia Fonseca mostra na comunidade estudada
por ela que lá havia um código de honra, onde a proteção e a homenagem eram as principais
moedas de troca. Os moradores seriam “defendidos” pelos bandidos locais, desde que
acobertassem suas fugas. Essa moeda de troca já existiu no Vale do Reginaldo, bastava
62
pertencer ao local que sua segurança lá dentro estava garantida. Quando Dona Mariana fala
sobre a atualidade, ressalta que os traficantes velhos deram lugar para os novos traficantes que
não respeitam ninguém. Mesmo com toda violência, quando lhe questiono sobre a
possibilidade de sair do Vale, ela responde-me :
Eu sempre digo que moro no Reginaldo. Porque eu moro aqui por opção
minha, eu não sou obrigada. Eu pago aluguel, onde eu quiser, num canto
pobre, eu pago aluguel pra mim morar. Então é opção minha morar aqui(...)
Os taxistas não querem trazer a gente aqui...eu ate brinco, ai eu digo:
“vamos você vai comigo e ninguém vai mexer com você”. Porque se tiver
alguém conhecido eles não mexem com ninguém daqui. Né?! num mexe, as
vezes tem gente que diz: Eita! no Reginaldo! Apesar de tudo eu gosto de
morar aqui.
Um dos pontos que não pode ser esquecido é a recusa dos moradores do Reginaldo à
polícia. Seus moradores ao invés de confiarem nestes, que tem como função defender o
cidadão, assim como estar sempre pronta a prestar socorro no momento em que se fizer
necessário, preferem recorrer aos traficantes locais. Segundo as Diretrizes para uma polícia
cidadã do Ministério Publico Federal:
Os policiais militares (soldados, cabos, sargentos, tenentes, capitães etc.) são
os responsáveis por garantir a segurança das pessoas. Eles têm como
principal função impedir que um crime ocorra, preservando a ordem nas
comunidades.20
Esse medo e recusa não está apenas relacionado ao Reginaldo e seus moradores. Em
uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas e o Instituto de estudos da religião
(ISER) por tema “Lei, justiça e violência realizada no ano de 1999, mostrou que:
Apenas 20% dos entrevistados admitiram ter recorrido à policia em caso de
violência, ou de algum problema que tivessem tido. Mas aqui apareceu outro
dado importante: 66,3% consideram que o aumento do policiamento nas ruas
contribuiria para a diminuição da criminalidade . Para combater a violência
urbana, o recurso ao policiamento foi muito valorizado pelo grupo
pesquisado. Mas paradoxalmente,a policia não foi citada como boa escolha
20
.Disponível em: < file:///C:/User/Downloads/cartilha_policia_cidada.pdf> Acesso em 28 de maio
de 2014
63
para resolver a aflição de cada um. (BOMENY; FREIRE-MEDEIROS,
2010, pp.194)
Poderíamos entrar em vários debates neste momento. Porém faz-se necessário apenas
olhar para os noticiários e entenderemos porque esta relação policia - cidadão esta tão
desgastada. Mas aqui focaremos no que a mídia tem contribuído para que esta relação torne-se
cada vez mais tensa. A socióloga Ruth Vasconcelos(2005) mostra como a mídia interfere
nessa relação:
Um dos efeitos produzidos pela divulgação massiva de matérias jornalísticas
envolvendo a estrutura policial com o crime organizado foi o da
generalização, através do qual as pessoas passariam a marginalizar todos os
policiais e própria imagem da instituição policial. Evidente que a população
sabia que nem todos os policiais estavam envolvidos com a criminalidade,
mas isto não impediu que a imagem do policial passasse a estar muito mais
associada ao crime do que a segurança. (VASCONCELOS, 2005,pp.107)
Dona Joana relata de episódios vividos em sua infância e juventude. Suas memórias
são um reflexo dos abusos policiais que ocorrem dentro do Reginaldo:
Quando eles vem bate mesmo, mandam entrar, alguns são até educados,
pedem pra entrar que pode ter troca de tiros, coisas desse tipo, até inclusive
também eu já me envolvi com drogas Também o meu ex marido, pais dos
meus filhos, também foi morto. Algemado, encapuzado... Eu creio que foi os
policiais que mataram ele, porque foi um requinte de muita crueldade pra
um bandido fazer aquilo, não que não faça, mas balaclave, algemando e
perto da radio patrulha, é muito difícil no Farol não ter tanto policiamento
pra acontecer um homicídio tão fresquinho daquele muito próximo a eles.
Então assim, você vê aqui crianças de 8, 9 anos que usa drogas, trafica,
14 anos que é usuário. Inclusive tem uma menina aqui de 14 anos que ela
perdeu um bebê de 6 meses porque namorava com um traficante daqui de
14 anos também. Ela apanhou tanto que perdeu a criança (...). Já vi a casa
da minha mãe ser invadida,eles derrubar tudo as feiras que a minha fez,
querer da tiro nos cachorros só porque eles não paravam de latir. A gente já
passou por várias situações assim, e passei sete anos tomando remédio
controlada por conta das agressões deles mesmos. Quando um dos meus
sobrinhos era vivo. Vi e presenciei eles desmaiarem ele de pancada com
ripa de casa e não foi em outro canto, foi na ladeira do Marista e todo
mundo viu. Deram um tiro no meu sobrinho e não pegou e disseram que ele
tinha reagido. Aqui você vê a policia invadir sua casa, colocar droga na sua
casa sem ser e se você falar ele diz que você morre! Então você tem que ser
conivente com o erro deles, inclusive tem até policiais que financiam o
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tráfico daqui. Pega de uma boca e dá a outra e vem aqui só buscar dinheiro
e quem vai falar pra morrer?
De todos os moradores que conversei, suas falas sempre citavam os policiais como
aqueles que passavam uma imagem de medo e não de alguém que está para ajudar. A visão da
comunidade sobre os policiais é uma das piores. Essa imagem de medo nos é apresentada pela
antropóloga Alba Zaluar(2000):
É sobre os pobres que a policia concentra seu poder fortalecido nos últimos
vinte anos: comete injustiças, nunca compensadas, humilha, mata, tortura e,
na rua, “vai logo dando sugestão”. A desconfiança que a presença policial
desperta entre eles, mesmo quando concordam sobre a necessidade do
policiamento ostensivo e sobre os bons propósitos de alguns (poucos)
policiais, é notável. A memória de muitos casos adversos e trágicos mantém
a imagem negativa do policial. Por isso dizem preferir, entre o policial e o
bandido, a este ultimo, que conhecem e com quem podem conversar.”
(ZALUAR, 2000, pp157)
No geral, percebemos que essa rejeição da população aos policiais, não se criou do
dia para noite. Poderíamos considerar que o aumento desgovernado da violência em Maceió,
fez com que os policiais mudassem seus meios de abordagem. Mas como é possível notar nas
falas de Dona Joana, desde sua infância ela lembra de abusos policiais. Abusos esses que não
são apenas com os criminosos ou delinqüentes, a população do Vale do Reginaldo,
independente de quem seja, teme a chegada de policiais no local.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho é fruto de pesquisas etnográficas, onde muito mais do que uma simples
observação em um local da cidade de Maceió, esta pesquisas contribuíram além de minha
formação acadêmica. Esta pesquisa também colaborou para que, mesmo em uma pequena
escala, pessoas possam ouvir sobre o Vale do Reginaldo.
Mesmo tendo realizado minhas pesquisas em um curto espaço de tempo, considero
que minha observação em relação o Reginaldo não começava naquela tarde em que me sentei
com meu primeiro informante. Minhas análises, ainda que nada científicas, começaram
quando desci a primeira vez as escadarias que dão acesso ao Vale do Reginaldo. Cada manhã
e tarde de entrevistas me renderam anotações, áudios e fotografias que foram essenciais para
que chegasse as conclusões deste trabalho.
Todos nós sabemos que o Reginaldo sofre com um preconceito de ser um local
violento e onde muitos carregam um pavor de chegar próximo. O que vi no local só
aumentava meu medo, porém, percebi que muito mais do que o olhar eu precisava me
aproximar daquele povo para poder ouvi-los. Aqui a memória tem um papel fundamental
Para isto utilizo Maurice Halbwsch(2006) para pensar como as memórias individuais,
que se introduzem na memória coletiva, constroem a historia do local. As memórias dos
moradores se entrelaçam com cada parte do Vale. Entendi que para se compreender algumas
relações que ali eram traçadas, eu precisaria me voltar para a memória individual.
Mergulhar nas memórias de um povo tão sofrido, foi para mim um desafio. Ouvir suas
histórias de dor e perdas, suas narrativas cheias de amor e recusa, medo e apego. Me faziam
entrar na memórias destes e como se fizesse parte do momento referido, eu muitas vezes tive
que me calar para não expor minhas opiniões, meus medos e sensações.
Nesta pesquisa, busco mostrar os “dois lados da moeda”. De um lado mostro a
realidade do Reginaldo. Um local pobre, cheio de violência, movido pelo tráfico de drogas,
com seus jovens tendo suas juventudes roubadas pelo crime ou pelo morte.Desde já , saliento
que não pretendo reforçar o estigma que já foi tanto lançado sobre o local. Mas não me
detenho apenas neste ponto, mostro que assim como tantos outros lugares, o Reginaldo possui
uma história que merece ser contada.
Para pensar a violência dentro do Reginaldo, penso a idéia da “Fala do crime”
apresentada pela antropóloga Teresa Caldeira(2000). Ao realizar suas pesquisas na
Comunidade da Cidade de Deus no Rio de Janeiro, a pesquisadora aponta para a sensação de
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medo que é espalhada no meio da sociedade ao ter seus crimes contados e repetidos pela
própria população. Esta mesma sensação tive ao conversar com meus interlocutores e durante
vezes tentar mudar de assunto e os mesmo preferirem falar dos crimes ocorridos ali.
Ficou claro que o Vale do Reginaldo é um local discriminado socialmente. Pensando
no que Goffman(2008) apontou como estigma, percebemos que dentro do Vale os estigmas
que são lançados são de “maconheiros”, prostitutas, “lombreira”, etc. Todos essas termos
estão ligados a características que denigrem a imagem dos seus moradores. Esse estigma é
lançado nos moradores em geral.
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REFERÊNCIAS
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sociologia. São Paulo: Editora Brasil, 2010.
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ZALUAR, Alba. A máquina e a revolta: As organizações populares e o significado
da pobreza. 2 ed. São Paulo; Brasiliense, 2000.
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APÊNDICE
Apêndice A - ROTEIRO DE ENTREVISTA
1- Seu nome
2- Sua idade
3- Há quanto tempo mora no Vale do Reginaldo
4- Da sua infância/juventude o que lembra da paisagem local
5- Em relação ao Riacho Salgadinho, quais lembranças você carrega dele
6- Para você, as transformações sofridas dentro da comunidade, influenciaram na
degradação do Riacho
7- Você pode citar um exemplo dessa mudança
8- Você considera o Vale um local violento
9- Você já sofreu preconceito por morar aqui
10- Na sua opinião, a violência no Reginaldo aumentou ou sempre foi dessa forma
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