“A gente sabe o dia que vai, a volta só Deus sabe”: Estudo antropológico sobre memória coletiva e o universo da pesca no povoado do Pontal de Coruripe, Alagoas

Discente: Lays Lins Calisto; Orientadora: Fernanda Rechenberg.

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS – ICS
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

“A gente sabe o dia que vai, a volta só Deus sabe”: Estudo
Antropológico sobre Memória Coletiva e o Universo da Pesca no
Povoado do Pontal de Coruripe, Alagoas.

Lays Lins Calisto

Maceió – AL
2015

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS – ICS
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

“A gente sabe o dia que vai, a volta só Deus sabe”: Estudo
Antropológico sobre Memória Coletiva e o Universo da Pesca no
Povoado do Pontal de Coruripe, Alagoas.

Lays Lins Calisto

Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado no Instituto de Ciências
Sociais da Universidade Federal de
Alagoas como requisito para a obtenção do
título de Graduada em Ciências Sociais.

Orientadora: Profa. Dra. Fernanda Rechenberg

Maceió – AL
2015

Lays Lins Calisto

“A gente sabe o dia que vai, a volta só Deus sabe”: Estudo
Antropológico sobre Memória Coletiva e o Universo da Pesca no
Povoado do Pontal de Coruripe, Alagoas.

Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado no Instituto de Ciências
Sociais da Universidade Federal de
Alagoas e aprovada em 25 de maio de
2015.

___________________________________________________________________
Profa. Dra. Fernanda Rechenberg, Universidade Federal de Alagoas- UFAL (Orientadora)

Banca examinadora:

____________________________________________________________
Prof. Mestre Gilson Rodrigues Júnior, Universidade Federal de Alagoas- UFAL

____________________________________________________________
Prof. Mestre Bruno César Cavalcanti, Universidade Federal de Alagoas-UFAL

Para o menino Monteiro.

AGRADECIMENTOS

À Missi, Elir e seus filhos que me acolheram em suas vidas no cotidiano da
pesquisa.
Ao Seu Jorge, por nossas tardes de muitas conversas onde pacientemente me
ensinou sobre o ofício de ser pescador.
À Fernanda, por sua sensibilidade e força no caminho deste trabalho.
À Fátima, minha mãe, por ter me ensinado as primeiras letras.
Ao Daniel, meu pai, por ter sido sempre maravilhoso.
À Lys, por sua presença iluminadora em minha vida.
Ao Lael, por seu nascimento que renovou minhas forças.
Ao Vicente, por seu amor.
Ao Moisés por sua amizade, abraços e encontros maravilhosos.
Ao Thiago por sua amizade e apoio em todas as horas.
Ao Antônio, por sua presença tão especial nos momentos deste trabalho.
À Iracema e Laerte pela amizade e acolhida em suas vidas.
À Camila, por nossas conversas reveladoras.
À Jacqueline, por nossos encontros, conversas e inquietações que reverberam neste
trabalho.
Ao Gilson, que desde nosso primeiro encontro me encheu de vida com sua
existência colorida.
À Evelina, que desde sempre acreditou em mim nesses anos de graduação.
À Teresa, que me guiava pelos caminhos do Pontal, sempre disposta a me ajudar a
chegar no meu destino.
À comunidade do Pontal que tive o prazer de conhecer um pouco mais através deste
trabalho.
A todos os professores que contribuíram na minha formação profissional e pessoal.
Ao universo com quem aprendo todos os dias.

“Fui ao mar e ele me falou de suas grandezas
infinitas. Falei de você e ele calou”.
(Jackson Monteiro Ferreira)

RESUMO

Esta pesquisa resulta de um estudo etnográfico realizado junto a Missi e Seu Jorge,
moradores do povoado do Pontal de Coruripe, situado no Litoral Sul de Alagoas,
território cuja paisagem está intimamente relacionada com os ritmos das marés. Foi
realizado um estudo da memória, onde são apresentadas duas trajetórias sociais
que conformam experiências singulares com o universo da pesca. Os relatos
narrados revelam um campo de possibilidades que abre caminho para negociações
da realidade das novas gerações.

Palavras-chaves: Memória, Pontal de Coruripe, Universo da pesca.

ABSTRACT

This research is the result of an ethnographic study conducted with Missi and Sr.
Jorge, villagers of Pontal de Coruripe, located in the South Coast of Alagoas, territory
whose landscape is closely related to the tide's rhythms. It was conducted a study on
memory, in which are presented two social trajectories that make singular
experiences with the fishing universe. The narrated stories reveal a field of
possibilities that opens the way for negotiations on the reality of the new generations.

Keywords: Memory, Pontal de Coruripe, Fishing universe.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Página 14
Planta do Pontal de Coruripe.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 15

Mapa da localização do Pontal de Coruripe.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 16
Ilustração do descobrimento do Brasil.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Ilustração da celebração canibalística dos índios Caetés.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 24 e 25
Foto de meninas no aprendizado do artesanato com Ouricuri.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 41
Capilé, responsável pela construção das jangadas dos pescadores, nos
tempos de pesca de Seu Jorge.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Foto do carro de boi trazendo a madeira para a fabricação das jangadas.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 60
Foto com o pai de Seu Jorge auxiliando na captura de um tubarão.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 60

Foto do caminho do Pontal que dava acesso a Coruripe.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 63
Foto da captura de peixes com o arrastão.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 67
Foto com os estudantes da Colônia Z-10, atual sede da associação dos
pescadores do Pontal.
Página 68
Foto de um jangadeiro do povoado do Pontal.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 68
Foto de jangadeiros pescando.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Foto de pescadores em uma jangada no mar.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 69
Jangadas nas areias da praia do Pontal de Coruripe.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Foto de um pescador em um jangadeiro no mar.

Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.
Página 71 e 72
Fotos das celebrações religiosas de matriz africana na festa de Bom Jesus dos
Navegantes.
Fonte: FORMAN, S.; FORMAN, L. Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro.
Alemanha: Grafmarques, 1969.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

13

CAPITULO I : PRIMEIRAS PISTAS DO FAZER ANTROPOLÓGICO

15

1.1Pontal de Coruripe: marcas dos primeiros tempos

15

1.2 Com os pés no Pontal: narrando o povoado

21

1.3 “Catando folhas”: o fazer antropológico

29

1.3.1 O(s) Pontal(is) habitado(s) no percurso da pesquisa

29

1.3.2 Sobre estar em campo

32

1.3.3 O encontro etnográfico: um presente

38

CAPITULO II: MEMÓRIA E NARRATIVA

43

2.1 Os narradores do povoado do Pontal de Coruripe

47

2.1.1 Missi: vazios pela terra

47

2.1.2 Seu Jorge: olhos rasos pelo mar

58

CAPÍTULO III: DOS ENCONTROS EM CAMPO: Um mergulho no universo da
pesca
75
3.1 Breve panorama sobre estudos de pesca nas Ciências Sociais

78

3.2 Paisagem do Pontal: itinerário sobre a rítmica do lugar

83

3.3 “Muito bem a gente sabe o dia que sai, mas o dia que vem só Deus que toma
a frente deles tudinho que vão para o alto mar”: o saber-fazer na arte de pescar 84
3.4 Travessia: os caminhos e descaminhos da atividade pesqueira no Pontal de
Coruripe
90
GUISA DE CONCLUSÃO: Dos aprendizados em campo

96

REFERÊNCIAS

99

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como intuito principal adentrar no universo dos pescadores
do povoado do Pontal de Coruripe. Um povoado marcado pelos ritmos das marés
que se expressam nos modos que os moradores vivenciam o seu cotidiano. Esses
habitantes do Pontal participam de uma experiência atravessada por práticas e
modos de pensar relacionados à pesca artesanal, tecendo suas vidas em meio à
uma paisagem praticada que se transforma.
Adentrar neste universo foi possível a partir de uma pesquisa etnográfica
realizada entre setembro de 2013 e junho de 2014, junto a Missi e Seu Jorge, ambos
moradores do Pontal. Na tentativa de conhecer suas experiências cotidianas
atravessadas pelas inconstâncias marítimas no seu viver, o presente trabalho
buscou acompanhar os percursos biográficos desses dois narradores em seus
dilemas cotidianos, em suas lógicas de usos do espaço, no enfrentamento das
adversidades e incertezas em relação à atividade pesqueira e a abertura de
possibilidades diversas do ofício de pescador para as novas gerações.
Conforme aponta o antropólogo Gilberto Velho (2006), a possibilidade de
elaboração de um projeto não opera no vazio, mas depende de um contexto
específico para ser pensado. A abertura para se pensar outro caminho, além do
ofício de pescador, se alinha a um contexto social favorável entre os pescadores, na
elaboração de sentidos produzidos sobre o investimento no prolongamento da
escolarização.
A vivacidade do universo da pesca praticada no Pontal foi acessada através
dos estudos de memória, nas aproximações das histórias que informam sobre os
modos de ser dos pescadores. Buscando conhecer este ambiente habitado por Missi
e Seu Jorge, essa pesquisa foi em busca de suas histórias e o seu envolvimento
com a pesca. Esses moradores se constituíram narradores ao longo da pesquisa,
compartilhando

lembranças,

mudanças

e

dilemas

no

enfrentamento

das

inconstâncias presentes no ofício da pesca.

13

No primeiro capítulo apresento aproximações com o contexto histórico de
desenvolvimento do povoado do Pontal de Coruripe. Apresento também o meu
próprio olhar etnográfico, o que foi sendo transformado, adensado e envolvido ao
longo da pesquisa. Neste percurso e já inserida em uma “rede”, ampliam-se os
deslocamentos pelo povoado, conhecendo não apenas novos territórios, mas
também outras nuances que se revelam à medida que a pesquisa etnográfica se
aprofunda. As condições de minha entrada em campo são também descritas neste
capítulo, assim como o quadro metodológico da presente pesquisa com a proposta
de

uma

discussão

acerca

do fazer antropológico

a

partir

dos dilemas

experimentados.
O segundo capítulo propõe adensar as reflexões sobre memória e narrativa
sob a perspectiva de uma abordagem biográfica. As histórias dos narradores, suas
trajetórias sociais e os relatos de seu cotidiano que delineiam os ritmos do lugar vão
esquadrinhando uma memória coletiva do Pontal que está entrelaçada com a
atividade pesqueira.
Por fim, no capítulo três, o lugar é experimentado em seus ritmos. Os saberes
envolvidos e os dilemas enfrentados na pesca são apresentados tendo em vista os
conhecimentos transmitidos pelos pescadores ao longo do percurso em campo, em
diálogo com biografias relacionadas. Ainda neste capítulo, apresento um breve
panorama dos principais trabalhos relacionados com a temática da pesca no âmbito
das Ciências Sociais.
A partir da imersão em campo foi possível elaborar reflexões, dentre tantas
outras possíveis, acerca do contexto atual da atividade, que passa por um momento
de abertura para outras possibilidades profissionais pautadas na elaboração de um
projeto direcionado para uma trajetória escolar mais duradoura.
Durante a realização da pesquisa etnográfica, me vi em um ambiente
marcado por afetos e amabilidades, fundamental para compreender as histórias dos
narradores e a rítmica do Pontal, é a partir desta ambiência que o presente trabalho
foi elaborado.

14

CAPITULO I
PRIMEIRAS PISTAS DO FAZER ANTROPOLÓGICO

Pontal é uma vila de pesca muito bonita, porque o
oceano azul lava suas praias e o vento balança a copa
das palmeiras que margeiam a areia branca da praia.
(Forman, 1969:18).

1.1 Pontal de Coruripe: marcas dos primeiros tempos

15

Localizado no município de Coruripe, situado no Litoral Sul de Alagoas, o
Pontal tem sua história intimamente relacionada com os tempos da invasão do Brasil
pelos portugueses. Neste tempo, Coruripe era conhecido como Cururu-ipe, que
significa “rio dos seixos”. Os índios Caetés o chamavam assim por conta do rio que
corta o seu território e que mais tarde deu nome ao município.
Através do depósito arqueológico descoberto no local foram encontrados
vestígios indígenas da nação tupinambá que viviam ali agrupados em seus
aldeamentos. Os tupinambás viviam da caça, da pesca, da agricultura de coivara e
confeccionavam artefatos de barro e da palha extraída da própria região.
Nos momentos iniciais da colonização das terras brasílicas a região foi
marcada pelo emblemático acontecimento relacionado ao bispo D. Pero Fernandes
Sardinha e de seu encontro com os índios Caetés por conta do naufrágio da nau
Nossa Senhora da Ajuda, que condizia o bispo a Portugal.

16

Do evento, além da história, restou o busto de Sardinha alocado próximo à
Capela que foi o marco inicial da formação do povoado do Pontal, onde era
realizado o escambo de pau-brasil e outras madeiras. Após esse acontecimento as
populações Caetés foram varridas das terras do litoral sul alagoano. Além disso, o
lugar teve participação ativa no contexto da invasão holandesa, pois fazia parte da
rota que se ligava à sede administrativa holandesa que ficava em Recife.

17

Em relatos, alguns antigos moradores contam que a vila dos pescadores do
Pontal, entre os séculos dezesseis e dezessete era um porto movimentado onde
marinheiros e mercadores portugueses e franceses levavam a madeira do pau-brasil
para a Europa. Outra influência que viria a dar um dos principais contornos da
paisagem do lugar foi a participação dos negros no desenvolvimento da pesca nos
primeiros tempos do povoado.
A vila de pescadores começou a ter desenvolvimento maior do que a vila de
Poxim, a que estava subordinada e na segunda metade do século XIX, a vila
Coruripe foi criada pela lei nº 484 de 23 de julho de 1866 passando a ser sede do
município com a denominação de Coruripe. O povoado de Poxim foi desmembrado
de Coruripe e em 1891 foi reanexado. Em 1866, a freguesia sob invocação de
Nossa Senhora da Conceição, atual padroeira do município, foi transferida para o
centro de Coruripe.
Com uma faixa litorânea de 35 km de extensão em que se destacam as
praias de Pontal do Coruripe, Duas barras, Pituba, Lagoa do pau, Barreiras, Miaí de
cima, Miaí de baixo, Bebedouro e Japú, o município que é o segundo maior do
estado com uma área de 898,625 km2, está localizado na região sul do Estado de
Alagoas, limitando-se ao norte com os municípios de Teotônio Vilela e São Miguel
dos Campos, a sul com Feliz Deserto e Oceano Atlântico, a leste com o Oceano
Atlântico e a oeste com Penedo e Teotônio Vilela. Distante 86 km da capital
alagoana.
Estima-se que tenha uma população de 56.153 habitantes (IBGE, 2014), com
um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) de 0,615 em 2013.
Segundo a classificação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento o
município está entre as regiões consideradas de médio desenvolvimento humano
(IDH entre 0,5 e 0,8). Entretanto, em relação aos outros municípios do Brasil,
Coruripe apresenta uma situação ruim, pois ocupa a 4383ª posição. Ou seja, dos
5506 municípios analisados apenas 1124 municípios (20,4%) estão em situação pior
ou igual, apesar de dentro de um contexto estadual a sua situação ser considerada
“boa”, deve-se compreendê-la levando em consideração os baixos índices de
desenvolvimento do estado de Alagoas.
18

O lugar antes habitado em sua paisagem pelo pau-brasil passa a ter
importante papel no desenvolvimento da cana de açúcar no Nordeste. Segundo
estudos de Andrade (2005), realizados em meados do século XX, sobre a expansão
da cana-de-açúcar, o autor destaca algumas das etapas pelas quais as terras
coruripenses passaram com relação ao desenvolvimento da cultura da cana-deaçúcar. Dos engenhos para as usinas, a monocultura estabeleceu-se no lugar,
sufocando as culturas de subsistência das pequenas povoações. Inicialmente o
cultivo da cana-de-açúcar se estabeleceu nas áreas de vales, mas com o avanço
das técnicas agrícolas e o incentivo de políticas de desenvolvimento agroindustrial
ocorreu uma expressiva expansão desta monocultura na região.
A plantação de cana começou a dominar os tabuleiros costeiros, que até
então, eram usados por famílias que trabalhavam nos engenhos e usinas, tanto para
moradia como para o cultivo de mandioca, milho, feijão etc. “Diante disso, as áreas
destinadas à moradia e a produção de alimentos pelos trabalhadores foram
apropriadas para o cultivo da cana-de-açúcar” (SANTOS, 2007:31).
Hoje o município conta com a instalação das Usinas Coruripe, Guaxuma e
com a Cooperativa Pindorama1, esta traz em seu complexo cooperativo inserido em
uma política nacional de colonização e reforma agrária que foi idealizada por René
Bertholet em 1950 em meio ao cenário de tradição latifundiária de plantations
açucareira. Sua sede está localizada no município de Coruripe, mas a extensão da
colônia de Pindorama abrange ainda outros dois municípios, conta com
trabalhadores assalariados permanentes (administração e industrialização), além de
centenas de trabalhadores temporários nos períodos de corte da cana (SILVA;
ROCHA, 2011:5).

1

Embora esteja localizada em uma região onde predomina o latifúndio canavieiro, que é historicamente
marcado por um modelo extremamente excludente e concentrador de riqueza e poder, Pindorama persisti em
seu projeto assentado tanto no fortalecimento da cadeia sucroalcooleira, como na diversificação produtiva e
agroindustrialização o que permitiu não somente uma reinvenção do espaço agrícola como também uma
relação diferente com o lugar , e o que faz desta iniciativa pioneira e bem-sucedida é fato do projeto basear-se
em pequenas unidades familiares de produção, na intersetorialidade, na gestão coletiva, na solidariedade e na
inclusão social.

19

Apesar da predominância de latifúndios, com uma área de cultivo de cana de
aproximadamente 52.238 hectares, no quadro geral do estado o município
apresenta uma expressiva concentração de atividades econômicas ligadas à
agropecuária, à indústria de transformação, ao comércio e aos serviços. Nos índices
de desenvolvimento o município está em 19º lugar no estado (19/101 municípios) e
em 4.388º lugar no Brasil (4.388/5.561 municípios)2. O lugar, apontado como o local
de primeiro contato dos portugueses com o Brasil (ANDRADE, 2003) possuí uma
das mais belíssimas paisagens com uma faixa extensa de praias paradisíacas, onde
se realiza a pesca, uma das principais atividades econômicas de Coruripe. Como
também, suas belezas alimentam um turismo ainda em vias de desenvolvimento.
Dos tempos do encontro dos índios com D. Pero Fernandes Sardinha ficou
uma réplica de uma caravela portuguesa na praça do Avistamento no Pontal, uma
homenagem aos portugueses. A praça fica nas proximidades da orla da praia, onde
durante o verão acontece desde 2013 um festival musical realizado aos sábados por
iniciativa da prefeitura do munícipio, com o objetivo de incentivar o turismo local
oferecendo alternativa de diversão com a apresentação de músicos.
Outro marco dos primeiros tempos do Pontal é o busto de Sardinha
encontrado próximo à capela do padroeiro do povoado. Na escultura há a
representação do bispo em gesto solene, como quem estivesse abençoando o
povoado, apesar do acontecimento canibalístico. Configurando-se como uma
memória paisagística do lugar de tempos passados.
Sobre a formação do povoado do Pontal não existem documentos que
descrevam ao certo esses primeiros tempos. Em leituras sobre o desenvolvimento
agroindustrial do município, surgem pistas que nos levam a deduzir que os
habitantes mais antigos poderiam ter sido ex-escravos de engenhos próximos e as
terras por eles ocupadas seriam, na época, porções desvalorizadas para o cultivo da

2

Dados pesquisados no site do Ministério do Desenvolvimento Social, sobre o desenvolvimento do município,
disponível em: http//www.mds.gov.br, março de 2015.

20

cana-de-açúcar, haja vista que se tratava de uma porção distante dos vales fluviais,
portanto uma área não propícia ao cultivo da cana (ANDRADE, 2003).
Existem ainda, duas histórias sobre sua origem e povoamento do Pontal, a
primeira versão diz que, o engenho surgiu do nome São João da Praia do Pontal,
onde seu proprietário era o senhor João da Ressurreição Lima Lessa, que por
ocasião da visita do Imperador e da Imperatriz ao estado de Alagoas, doou certa
quantia em dinheiro para os festejos da recepção (ANDRADE; SILVA, 2003). A visita
ao lugar ocorreu em 31 de dezembro de 1856, presume-se que o engenho foi
construído por volta de 1820. A segunda versão sobre a sua origem é a de que o
povoado surgiu de um arruado de pescadores que foi crescendo através do tempo,
está versão é comumente relatada pelos antigos moradores que contam que os
índios foram os primeiros habitantes e que depois teriam vindo os negros
(ANDRADE; SILVA, 2003).
Nestas versões destacam-se as influências africanas no Pontal além de sua
formação intimamente relacionada com a pesca, ambas as versões se aproximam
do cotidiano do lugar que tem nos primeiros tempos a presença forte da cultura
africana como também o desenvolvimento da pesca como modo de sobrevivência
para seus primeiros habitantes. Além de uma forte presença de influências
indígenas no lugar.

1.2 Com os pés no Pontal: narrando o Povoado

Quando surgiu o interesse em realizar uma pesquisa no Pontal a
permanência no lugar foi sendo intensificada. Durante as longas temporadas de
trabalho de campo, fui acolhida na casa dos amigos Iracema e Laerte. Neste período
passei a pegar carona no ônibus que é mantido pela prefeitura de Coruripe para o
transporte dos moradores que estudam em Maceió. A carona no ônibus era
facilitada por Teresa, uma amiga que me ajudou com os horários e os principais
pontos de parada, por também ser estudante e usuária do transporte.
21

Foi através dessas caronas que minhas idas ao Pontal foram mantidas sem
qualquer custo durante o desenvolvimento da pesquisa. No início do trabalho de
campo, passava algumas semanas. Ao longo do processo de pesquisa minhas idas
foram intensificadas e cheguei a permanecer quase dois meses no Pontal.
Durante esse tempo inicie as primeiras incursões junto aos pescadores, na
tentativa de conhecer o cotidiano da atividade pesqueira do local. No início os
diálogos não aconteceram e com isso começava a minha preocupação com o
andamento do trabalho. Como os contatos não iam acontecendo, passei a conhecer
o lugar em “passeios” diários que foram fundamentais para a minha inserção em
campo e para adensar uma observação mais detalhada da vida social do povoado.
Nesta atitude de “passear” diariamente, foi se desenvolvendo uma etnografia
de rua3 (ECKERT; ROCHA, 2003:13), metodologia que consiste em caminhadas
exploratórias sem destino fixo, o que proporcionou importantes descobertas e
surpresas nos espaços do Pontal e nas práticas cotidianas de seus habitantes. Ao
andar pelo povoado, dois diferentes Pontais se apresentavam aos meus olhos. De
um lado, um lugar habitado por pessoas humildes, em sua maioria pescadores e
artesãs residentes em casa bastante simples. Do outro, casarões de veraneio que
passavam quase todo o ano fechados sob os cuidados de caseiros.
A presença de muitos becos no lugar chamou bastante atenção, pois sempre
podemos contar com esse atalho, um desses becos me marcou bastante. Um dia,
nos tempos em que ainda me perdia no Pontal, esse beco me auxiliou e reencontrar
o caminho de volta. Passei a utilizá-lo como caminho alternativo de acesso à praia.
A parte do mar que encontramos a partir deste acesso quase não tem arrecifes e as
ondas arrebentam com muita força nos paredões em tempos de maré alta. É

3

Experiência metodológica desenvolvida pelas antropólogas Ana Luiza Carvalho da Rocha e Cornelia Eckert
junto ao projeto de pesquisa intitulado “Estudo antropológico de itinerários urbanos, memória coletiva e
formas de sociabilidade no mundo urbano contemporâneo”. Neste trabalho as pesquisas na cidade eram
desenvolvidas com o uso de recursos audiovisuais como parte do olhar e da coleta de dados nos percursos
etnográficos em ruas, bairros e casas.

22

também nesta parte da praia que encontramos muitas casas admiráveis em seu
desrespeito aos limites da praia.
O acesso por este beco é uma alternativa para se fugir da entrada principal da
praia, cheia de carros, estabelecimentos comerciais, como restaurantes e também
pela Associação das Artesãs do Pontal que atrai bastante gente. Na associação são
expostos e vendidos artesanatos maravilhosos feitos com Ouricuri, a vista do mar
neste lugar é privilegiada e podemos acompanhar um pôr-do-sol um pouco diferente
do visto do mirante da “rua grande”, pois podemos ver os raios solares iluminarem
quase toda a extensão do mar.
O Pontal é considerado o local com a melhor estrutura turística do município
de Coruripe. Onde se pode encontrar uma longa faixa de praia, com uma área de
manguezais e o rio Coruripe que é hoje um dos ecossistemas mais ameaçados4. A
praia do Pontal é reconhecidamente uma das mais belas do litoral alagoano por ter
um mar de águas calmas proporcionado pelo seu paredão de arrecifes com
extensão total de 25km com 25 metros de profundidade que podem ser vistos nas
marés baixas. Foi por conta da existência destes arrecifes que foi construído em
1948 o farol do Pontal para evitar incidentes com as embarcações que naveguem
por suas águas. O farol também é evocado como símbolo do município de Coruripe.
Um dos arrecifes conhecido pelo uso destinado ao lazer é o Baixio. Nos
domingos de maré baixa, os habitantes do povoado rumam para este local. Quando
a maré está baixa é possível estar em meio ao alto mar aproveitando as belezas
deste lugar. Neste local, os moradores aproveitam suas piscinas naturais, bebem e
assam peixes na casca do coco. Conheci o Baixio através de Missi que é
companheira do pescador Elir que juntos constituíram uma família e tiveram dois
filhos Esheley e Elias. A família tem suas vidas atravessadas pelos ritmos do mar.
Travei o primeiro contato com Missi em uma festa que estava sendo realizada em
sua residência. Sua presença e seus desdobramentos na pesquisa serão mais
adiante apresentados.
4

Esses ecossistemas contam com o apoio da organização não governamental Eco Mangue que realiza ações
com o intuito de promover a conservação da diversidade biológica e cultural dos manguezais e do Rio Coruripe.

23

Em um dos domingos no Pontal, eu, Missi, Esheley, Elias e mais dois
sobrinhos de Missi fomos conhecer o Baixio. Nesta ocasião, Elir não pode estar
presente, mas um amigo da família nos levou em seu barco para que eu pudesse
conhecer um dos lugares de lazer dos pescadores do povoado. Nos divertimos
muito com os peixes que encontrávamos e com as piscinas naturais que se formam.
Mas a diversão costuma durar pouco, pois em menos de duas horas a maré enche e
o lugar fica coberto pelas águas. Fiquei sabendo do Baixio através de Elir em uma
das conversas que tivemos em seu barco. Nessa visita ao seu local de trabalho Elir
apresentou os principais instrumentos utilizados na pesca, o lugar em que dormia
nos dias que saia para pescar. Tentou me explicar como funcionava o GPS, admito
que apesar de seus esforços não consegui compreender muito bem seu mecanismo,
talvez por já me encontrar bastante enjoada com o balançar das ondas e com uma
enorme vontade de pisar em terra firme.
Desde os primeiros dias de caminhada pelo Pontal, sempre me chamou muito
a atenção o fato de todas as casas terem sempre crianças, jovens e velhos na
ocupação do artesanato feito com a palha do Ouricuri, seja no seu tratamento ao sol,
etapa que é realizada antes da confecção dos cestos, ou na produção propriamente
dita dos objetos.
A Syagrus coronata, mais popularmente conhecida como Ouricuri, Aricuri,
Nicuri e Alicuri, tem diferentes usos nos lugares em que se encontra. No Pontal ela é
conhecida como Ouricuri. Está planta é uma palmeira típica do semiárido nordestino,
presente e diferentes regiões secas e áridas das caatingas, como no norte de Minas
Gerais, na porção oriental e central da Bahia, no sul de Pernambuco, em Sergipe e
Alagoas (NOBLICK, 1986:13). É uma planta bastante conhecida na história do Brasil
e teve a influência de seus usos nas culturas indígenas na confecção de cestos para
pesca, de esteiras e outros utensílios.
No povoado do Pontal, suas folhas depois de secas ao sol se transformam
em utensílios domésticos utilizados no dia a dia, como também, são produzidos
artesanatos para serem comercializados nas portas das casas da maioria das
moradoras artesãs. O artesanato do povoado é bastante conhecido e, através de
24

incentivos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio ganhou
visibilidade, sendo possível a organização das artesãs em uma Associação com
sede própria no Pontal para a comercialização de seus produtos para os turistas.
Além disso, as peças de palha de Ouricuri produzidos no povoado são exportadas
para vários países.
A feitura do artesanato é bastante antiga no lugar com o intuito inicial de
confeccionar objetos para serem utilizados na casa e na pesca, tais como, os cestos
para guardar os utensílios da pesca, as esteiras para colocar o pescado, os
chapéus. Ao longo das gerações o artesanato com o Ouricuri passa de mão em
mão, mais predominantemente como uma atividade realizada pelas mulheres do
povoado que desde a infância são iniciadas na arte de trançar a palha como os
índios Caetés faziam nos primeiros tempos do lugar.
Seja no passado distante ou nos dias atuais, o artesanato com Ouricuri no
Pontal é um dos elementos tradicionais locais que permanece em meio a
transformações e que ganha vida nas mãos das meninas que hoje são iniciadas na
feitura do artesanato.

25

Nas suas ruas e becos cheirando a peixe é quase impossível não se deparar
com a exuberância do mar em seus aromas, sons e presença nas rebentações. O
mar em que se aventuram os seus pescadores, vive repleto de barcos. O pôr do sol
ao entardecer, um dos mais calmo que já pude apreciar é recebido pelos moradores
que o contemplam em meio aos afazeres cotidianos.
Quando o sol está prestes a descansar e a maré baixa é bastante comum a
presença de crianças brincando a beira mar. Ao cair da noite o Pontal é muito
diferente de seu ritmo diurno, as pessoas se recolhem em suas casas e as ruas vão
sendo esvaziadas e o mar que pelo dia encontra-se repleto de pessoas, ao anoitecer
vai ficando propício a caminhadas solitárias. Pode-se caminhar por suas areias sem
que se encontre uma pessoa se quer.
Durante os finais de semana de alta temporada os ritmos do lugar
apresentam diferenças, com suas ruas cheias de turistas. Com o comércio local em
efervescência, muito diferente dos dias comuns do povoado. Ao chegar o final de
semana as casas se encontram em festa. Em muitas delas tive o prazer de
participar. Nos sábados e domingos é bastante comum os moradores se reunirem
26

para beber e apreciar camarões, peixes e ouriço, muito apreciado como
acompanhamento.
Como mencionado anteriormente, o Pontal é considerado um dos lugares
mais desenvolvido para receber turistas dentro do circuito das praias que estão
circunscritas no litoral de Coruripe, tendo um considerável número de hotéis e
pousadas, restaurantes que servem pratos típicos de beira de praia. O povoado
ainda sedia os festejos tradicionais do padroeiro Bom Jesus dos Navegantes no mês
de janeiro e o Festival do coco que é realizado anualmente no mês de fevereiro.
Pude acompanhar os festejos de comemoração do padroeiro do povoado, uma
procissão belíssima que ocupa as ruas e o mar do Pontal em celebrações que se
prolonga noite a dentro com shows, comidas, feiras e parque de diversão. É uma
celebração bastante aguardada e é recebida com muita festa pelos moradores e
pelos que vieram participar dos festejos.
Apesar de receber um número de turistas todos os anos e de ser
reconhecidamente um dos pontos turísticos brasileiros mais belos, o lugar carece de
cuidados mínimos com a sua população que hoje pode ser estimada em 35.000
habitantes5. Os habitantes do povoado não podem contar com o serviço básico de
saneamento, exceto os conjuntos habitacionais que estão sendo construído com o
incentivo do Governo Federal. Andando por suas ruas os cheiros provenientes deste
descaso por parte da prefeitura é contrastante com a beleza do lugar e das pessoas.
Um lugar encontrado em uma das andanças pelo povoado foi a baía, local
bastante restrito ás pessoas de fora do Pontal, principalmente se tratando de uma
mulher, pois o local é predominantemente marcado pela presença dos pescadores,
por conta principalmente das construções dos barcos. A Baía fica próximo ao
Mangue e é uma parte da praia pouco explorada.
Neste local, encontrei vários pescadores que conversavam sobre a pesca e a
construção dos barcos, tinha ainda algumas barracas que serviam de abrigo em dias
5

Segundo censo realizado pelo IBGE em 2014.Sobre isto ver: http//ibge.or.br/pontaldecoruripe.phr?
idf=79&00lay=pde

27

de arrastão6. Pude acompanhar muito desses arrastões que aconteciam próximo a
este local. Ainda de manhã cedo mulheres, crianças, homens e jovens se reuniam
para a sua realização, diferentemente dos dias em que só homens ocupavam o
lugar. Como passavam a manhã inteira nesta atividade ocupavam os barracões para
preparar refeições rápidas e também guardar objetos.
Numa dessas visitas aos barracões, pude entrar e conhecê-los mais de perto,
pois até então só tinha visto de longe. Nesses barracões encontrei vários apetrechos
para a pesca, como redes, bóias, utensílios domésticos, etc. Neste mesmo momento
de descoberta, uma moradora de uma casa próxima do local me alertou sobre os
perigos de permanecer ali tendo em vista que era predominantemente ocupado
pelos homens da pesca. Entendi a sua preocupação, mas não poderia deixar de
visitar aquele local, pois se tratava de um lugar em que o universo da pesca se
mostrava sem reservas. No desenvolvimento da pesquisa, nunca deixei de ir a este
lugar, além do interesse para o campo, proporcionava a apreciação de uma praia
mais calma, longe da movimentação.
Ao andar pelo povoado encontramos pescadores em confabulações acerca
das marés, dos ventos, dos cuidados com os barcos, sobre assuntos diversos
relacionados a pesca sempre com seus pés descalços por conta do contato
constante com o mar. Certa vez, na casa de Missi ela me mostrou uma foto antiga
em que estava com Elir, ainda nos primeiros anos de namoro. Ela destacou sobre
Elir estar calçado, fato hoje quase improvável por conta de suas idas ao mar. Essa
prática, mesmo em dias que não estão trabalhando, permanece no cotidiano dos
pescadores ao habitarem o lugar. É mesmo raro encontrar um pescador que não
esteja descalço e com a imersão em campo fui percebendo que não só os
pescadores como a maioria dos moradores andam pelas ruas com seus pés à
vontade.

6

Tipo de captura de peixes realizado próximo a praia. Geralmente o arrastão conta inicialmente com duas
pessoas que lançam as redes em locais precisos e em seguida um mutirão é feito para que os peixes sejam
retirados do mar.

28

O Pontal é um lugar que se expressa em sua paisagem paradisíaca; nos
cavaletes em suas praças para acomodar redes; das tradicionais feiras aos
sábados; da televisão na praça; no parque de diversão que chega e ali se instala em
meio aos cavalos; nos domingos de bebedeira e peixe assado na casca do coco;
nos pés descalços, na palha de Ouricuri tecida pelas mãos das artesãs em tardes
ensolaradas; nos meninos brincando ou largados a beira mar, na caminhada rumo a
praia pelo calçadão ou pela sua areia, que dizem os moradores ser afrodisíaca.

1.3 “Catando folhas”: o fazer antropológico

No candomblé, “catar folhas”: alguém que deseja
aprender os meandros do culto deve logo perder as
esperanças

de

receber

ensinamentos

prontos

e

acabados de algum mestre; ao contrário, deve ir
reunindo (“catando”) pacientemente, ao longo dos anos,
os detalhes que recolhe aqui e ali (as “folhas”) com a
esperança de que, em algum momento, uma síntese
plausível se realizará (Goldman, 2001:6).

1.3.1 O(s) Pontal(is) habitado(s) no percurso da pesquisa

Entre os meses de setembro e outubro de 2013, quando ainda cursava o
sexto período da graduação, iniciei os primeiros contatos no povoado do Pontal. Nas
primeiras estadias por lá me deparei com um campo que a princípio parecia estéril.
Como já foi dito, nas idas a este lugar era acolhida na casa de Iracema e Laerte,
amigos que me recebiam com muito carinho. Foi através de Iracema que travei o
primeiro contato com Missi.
Estava no Pontal há pouco mais de um mês, imersa em lembranças e em
uma busca incessante de iniciar os diálogos com os pescadores. Foi quando
caminhava pela praia já sem esperanças que Iracema, amiga em comum, ligou e me
29

convidou pela segunda vez (eu havia recusado o convite no início do dia) para uma
festa. Aceitei o convite e rumei em direção a localização que havia dado.
O motivo da festa era a comemoração do aniversário de uma amiga incomum
de Iracema e Missi. Ao chegar na casa Iracema logo tratou de me apresentar a Elir e
comentar acerca de meu interesse em realizar uma pesquisa com os pescadores.
Inicialmente conversei com Elir sobre alguns temas relacionados à pesca e
marcamos um encontro para ele mostrar como era o seu cotidiano.
Voltando a Maceió, em conversas na disciplina de Antropologia VI, ministrada
pela Prof. Fernanda Rechenberg, comentei das dificuldades em encontrar
interlocutores para a pesquisa. Ao contar sobre os moradores do povoado que
conhecera no final de semana, fui orientada a investir no encontro com Missi, tendo
em vista as dificuldades em estabelecer contato com os pescadores.
Essa mudança no processo da pesquisa, que consistiu em uma tentativa de
travar contato com os pescadores de maneira indireta, a partir da companheira de
um pescador, possibilitou, a princípio, um meio para ter acesso a rotina dos
pescadores. De partida, encontrar Missi dentro do contexto da pesquisa me
entusiasmou bastante, pois mesmo sem conhecê-la havia algo em sua biografia que
despertou meu interesse.
De algum modo, sentia que nossas biografias tinham um ponto em comum.
De um lado, Missi enfrentava a possibilidade, ainda que remota, de perder seu
companheiro na ida ao mar; do outro, eu passava por um severo luto pela morte de
meu companheiro, que era morador desde nascido do Pontal e que agora estava na
morada do eterno. A mudança no acesso ao universo da pesca veio a marcar a
pesquisa de maneira decisiva.
Diferente das escolhas de objetos de pesquisa na maioria dos trabalhos
antropológicos, onde o lampejo norteador parte de um interesse pessoal do
pesquisador a respeito de um tema que lhe intriga. A escolha de realizar um trabalho
com o povoado do Pontal vem do interesse em estar lá em seus ritmos e cores,
como também o interesse pelo tema da pesca.

30

O universo da pesca chegou até mim através de conversas suscitadas a partir
de um projeto de Trabalho de Conclusão de Curso que acompanhei de perto e que
foi interrompido antes mesmo de ganhar vida em campo, realizado por um estudante
de Ciências Sociais e também meu companheiro de vida (a quem eu já fiz
referências nos parágrafos anteriores).
A vontade em desenvolver uma pesquisa no lugar, durante muito tempo foi
um modo que encontrei para manter uma conexão com aquele que não mais
poderia estar presente para realizá-la e que durante os anos finais de graduação
dividia comigo suas principais inquietações em relação ao seu trabalho. Inicialmente
poder estar no Pontal desenvolvendo esta pesquisa era uma oportunidade de
experimentar o lugar sob um olhar diferente. O tema da pesca foi um ponto de
partida para a pesquisa e proporcionou encontros, conversas, passeios e dias
tristes, como quando no percurso da pesquisa Missi estava bastante pesarosa com
a partida de sua mãe.
O encontro com Missi fez surgir uma inquietação acerca dos riscos
enfrentados por seu companheiro no desenvolvimento de seu ofício de pescador. O
interesse em encontrá-la abriu caminhos para conhecer a sua história e dar vida a
este trabalho em meio a tempos tão difíceis.
Inspirado nesses encontros, um documentário surgiu inicialmente no percurso
da pesquisa que foi apresentado na disciplina de Antropologia Visual, na Mostra
Sururu e em um Seminário7. A produção fílmica recebeu críticas bastantes positivas
e foi recebido por Missi com muita emoção.
A produção do documentário se deu a partir dos primeiros encontros com
Missi onde seus relatos eram centrados nos dilemas enfrentados por ela em suas
vivências com a pesca. A partir das falas de Missi, comecei junto ao Vicente
(fotografia e produção) a pensar sobre o documentário. Contamos com a
colaboração de Antônio na sua edição. Juntos buscamos captar em imagens e
7

Mostra Sururu de Alagoas 2013, realizada com o objetivo de difundir a produção áudio visual no estado; e
exibido no Seminário: Imagem, Pesquisa e Antropologia, realizado pelo VISURB – Grupo de Pesquisa Visuais e
Urbanas da UNIFEP, de 04 a 08 de novembro de 2013.

31

sonoridades o ambiente das conversas que foram travadas, como também
experimentar a paisagem do Pontal em seus ritmos que se misturam com as idas e
vindas do mar.
Com as filmagens das imagens para o documentário algumas cenas do
cotidiano foram descortinadas. A exemplo, os dias de chuva, os barcos atracados
nas águas e areias da praia, as crianças brincando, os moradores conversando em
meio a rebentação do mar. Um Pontal era descoberto a cada encontro. A cada
entardecer e à medida que adensava a pesquisa o lugar ia ganhando outros
sentidos, além dos já estabelecidos nos tempos em que o Pontal era o lugar para
reunir os amigos e aproveitar os dias ensolarados.

1.3.2 Sobre estar em campo

O trabalho de campo é, sobretudo, uma atividade construtiva ou criativa, pois
os fatos etnográficos “não existem” e é preciso um “método para a descoberta de
fatos invisíveis por meio da inferência construtiva” (Malinowski, 1935:317).
É somente com o passar do tempo que o antropólogo pode ser “afetado pelas
complexas situações com que se depara - o que envolve também, é claro, a própria
percepção desses afetos ou desses processos de ser afetado por aqueles com
quem o etnógrafo se relacionam” (Goldman, 2001:6).
Foi a partir dos vazios experimentados por Missi nas idas de Elir para o alto
mar e a possibilidade, ainda que remota nos dias atuais, de que seu retorno das
águas não seja possível, que antes mesmo de conhecer Missi fui afetada, no sentido
que Jeanne Favret-Saada (1977) confere à expressão, por sua biografia
atravessada por esses dilemas. O afeto aqui mencionando não se refere “a afeto no
sentido da emoção que escapa a razão, mas de afeto no sentido de resultado de um
processo de afetar, aquém ou além da representação” (Favret-Saada, 1977:15), de
modo que esse processo permitiu o estabelecimento de uma certa forma de
comunicação involuntária entre nós.
32

Desse modo, entra em cena uma discussão que vale a pena uma reflexão, a
saber, sobre a experiência de um descentramento vivenciado no fazer antropológico
que já foi amplamente discutido sobre “o ponto de vista do nativo”, marcada por uma
forte controvérsia acerca desta postura epistemológica nos trabalhos antropológicos
em que uma espécie de mainstream antropológico que sustenta, em síntese, que o
trabalho de campo depende de uma identificação do antropólogo com seus nativos,
o que permitiria captar o ponto de vista destes últimos como também viria a dar
embasamento para a construção de uma “autoridade etnográfica”.
É contra essa ideia amplamente difundida a respeito de que a etnografia
estaria fortemente condicionada por uma conversão do antropólogo que permitiria
pensar, sentir e perceber como os nativos, que Geertz escreveu seu ensaio
intitulado O ponto de vista do nativo (Geertz, 1983), em que o autor sustenta que a
etnografia dependeria preponderantemente da capacidade de situar-se a uma
distância média entre conceitos muito concretos, “próximos da experiência” cultural,
e conceitos abstratos, “distantes da experiência”, do que de uma habilidade de
identificação qualquer: “uma interpretação antropológica da bruxaria não dever ser
escrita nem por um bruxo, nem por um geômetra” (Geertz, 1983:57).
Seguindo este caminho, o antropólogo deverá ser um observador estrangeiro,
que como afirmou, Goldman é
Capaz de apreender, apenas como objetos, realidades para as quais os
nativos são relativamente, mas não necessariamente, cegos que garantiria
a possibilidade da etnografia. Esta deveria consistir, pois, na investigação
das mediações que se interpõem entre os nativos e sua experiência social,
possibilitando assim a análise das diferentes formas simbólicas através das
quais os nativos se expressam” (Goldman, 2001:7).

O mainstream acerca do trabalho de campo é muito mais produto de sua
crítica do que uma realidade previamente existente. Uma identificação total do
antropólogo com os nativos parece ser uma dessas situações de contato bastante
evocadas, mas pouco vistas na história da disciplina, como aponta Goldman (2001).
Na introdução aos Argonautas, importante obra para o desenvolvimento da
Antropologia, Malinowski (1922:31) recomenda que o etnógrafo de vez em quando
deixe de lado a máquina fotográfica, lápis e caderno, e participe pessoalmente do
que está acontecendo.
33

Ao sugerir que o antropólogo “tome parte nos jogos dos nativos”, Malinowski
discorre que não seria necessariamente uma conversão do antropólogo em nativo,
mas sim, a realização de uma “observação participante” que permitisse captar as
ações e os discursos da sociedade estudada em ato do que propriamente por parte
do antropólogo numa metamorfose em nativo.
A observação participante busca compreender o outro “de dentro” ao tentar
penetrar em formas de vida que lhe são estranhas, a vivência com a sociedade
estudada é parte fundamental na elaboração de suas reflexões, “uma vez que essa
vivência- só assegurada pela observação participante “estando lá” - passa a ser
evocada durante toda a interpretação do material etnográfico no processo de sua
inscrição no discurso da disciplina” (Oliveira, 2000:34).
Ao refletir sobre sua intensa experiência de campo com a feitiçaria no Bocage
francês, Favret-Saada (1977) sustentou a ideia de que, ao falar de observação
participante, a antropologia sempre adotou uma concepção de participação, como
identificação ou compreensão, o que teria conduzido a disciplina a reter apenas a
observação, gerando assim uma “desqualificação da palavra de seus interlocutores”
e uma “promoção da do etnógrafo” (Favret-Saada, 1977:6).
Ao contrário, por “participação” Favret-Saada entende a necessidade do
etnógrafo em aceitar ser afetado pela experiência etnográfica. Sobre esta discussão
a autora coloca, “não implica que ele (o antropólogo) se identifique com o ponto de
vista dos interlocutores, nem que ele aproveite a experiência de campo para excitar
seu narcisismo” (Favret-Saada, 1990:7).
Neste sentido, Goldman propõe que a etnografia não deve ser entendida
como um processo de observação de comportamentos e esquemas conceituais, ou
como formas de conversão ao assumir o ponto de vista do nativo, mas sim, deve ser
compreendido sob o signo do conceito deleuziano de “devir”. O antropólogo postula
a partir da apropriação deste conceito que, o devir é uma composição, “um
movimento através do qual um sujeito sai de sua própria condição por meio de uma
relação de afetos que consegue estabelecer com uma condição outra” (Goldman,
2000:9).
34

Goldman (2001) em seu artigo intitulado Os tambores dos mortos e os
tambores dos vivos: Etnografia, Antropologia e Política em Ilhéus-Bahia, realiza
muito habilmente uma discussão acerca dos temas que permeiam o trabalho de
campo, assim como traça um olhar bastante sofisticado a respeito do estar em
campo e suas implicações. O devir, segundo o antropólogo é o que nos arranca não
apenas de nós mesmo, mas de toda identidade substancial possível (Goldman,
2000:15).
Nos termos de Favret-Saada (1977), trata-se de ser afetado pelas mesmas
forças que afetam o nativo, isso não quer dizer que se realiza uma apreensão
emocional ou cognitiva dos afetos, mas de ser afetado por algo que os afeta e desse
modo estabelecer uma relação.
Ser afetado é próprio da imersão em campo, do contato com o outro, da
abertura que se dar para se entregar ao encontro etnográfico. À medida que são
estabelecidos vínculos com os interlocutores, onde suas experiências são
partilhadas, impossível é não se envolver, pois por mais que se queira manter uma
distância visando uma objetividade, quando se está em campo no convívio com as
pessoas este limite se apresenta bastante movediço. Ainda mais quando se trata de
uma pesquisa que tem como norte metodológico o estabelecimento de um diálogo
em que ambas as subjetividades, a do interlocutor e a do pesquisador são
reconhecidas. Deixar-se afetar e ser afetado torna-se parte fundante não só dos
encontros, como também suscita uma reflexão sobre o tema.
Ao entrar em campo nos diálogos com os interlocutores sobre o
enfrentamento das adversidades do mar sempre me deparava com duas expressões
que marcaram decisivamente o modo como fui afetada em campo. Ao se referir
sobre as idas ao mar, tanto Missi quanto Seu Jorge e nos dizeres de outros que
encontrei, a investida em alto mar era sempre colocada enquanto “aventurar-se”, no
sentido de arriscar-se e, sobretudo entregar o seu destino à própria sorte e aos
desígnios da natureza.
Estar pescando representa ao mesmo tempo risco e entrega. Uma entrega
com relação aos riscos do que pode acontecer e que foge ao controle de qualquer
pescador diante das inconstâncias marítimas. O próprio saber apreendido sobre o
35

ofício não traz garantias no território movediço que é o mar, a possibilidade de se
ficar à deriva é algo que só a sorte de cada um pode saber, no encontro com os
riscos do mar, lugar que em que é preciso ter parcimônia para que não se entregue
a própria vida em meio ao desespero.
Muitos perderam seus filhos, irmão, companheiros nas aventuras ao mar.
Mais forte do que a indignação que os casos de perda na lida com o mar pode
provocar é a certeza de que tantos os que ficam quanto os que vão entregam a
própria sorte a Deus, à natureza. E principalmente o entendimento dos limites do
homem sobre as inconstâncias marítimas.
Em seus relatos ao falar sobre as idas de Elir para o mar para pescar, Missi
nunca perde a esperança no retorno de Elir. Os riscos nos dias atuais de ser tragado
pelo mar diminuíram consideravelmente, mas contam os pescadores que o povoado
já perdeu seus homens para o mar.
Essa existência que se desenrola no lançar-se na aventura marítima à própria
sorte e principalmente na resignação diante dos infortúnios não só em alto mar como
também nas adversidades estando em terra, foram, cada vez mais, sendo
experimentadas em campo.
O que a princípio poderia ser um subterfúgio no enfrentamento de situações
tão instáveis, como quando num dos encontros com Missi ela me contava sobre a
quebra do motor de seu barco, foi um de nossos encontros mais delicados, pois
Missi estava bastante apreensiva com relação às incertezas que pairavam sobre a
sua família. Neste encontro, não pude impedir-me de ficar angustiada com tal
situação, mas ainda assim, Missi tendo notado o estado que fiquei com a notícia
confortou a mim e a ela com sua esperança e paciência frente às adversidades da
vida.
Não são poucos os casos de dificuldades entre os pescadores, muitos vivem
em situações bastante precárias no povoado. A família de Missi possui seu próprio
barco de pesca, enquanto muitos outros pescadores ainda prestam serviço aos
donos de barcos, adquirindo dívidas enormes com estes por conta dos empréstimos

36

pedidos antes mesmo de entrada no mar. Essa é uma realidade ainda mais dura,
pois estes pescadores ficam presos a essas dívidas intermináveis.
Em meio a essas histórias, muitas vezes durante a pesquisa os papéis
pesquisadora/ pessoa eram borrados, seria impossível não ser afetada pela
atmosfera do lugar no convívio com essas pessoas e nos seus dilemas enfrentados
cotidianamente. Para ilustrar um desses momentos em que o cotidiano do Pontal foi
sendo experimentado em meio a proximidades e afetos, trago uma passagem do
diário de campo sobre um dia bastante simbólico na realização desta pesquisa:
Era sábado, por volta de três da tarde havia acabado de ter uma conversa
duradoura com Seu Jorge. Ao término deste encontro fui em direção à casa
de Missi para marcarmos uma conversa para o dia seguinte. Ao chegar em
sua casa encontrei Missi e uma amiga conversando e tomando algumas
cervejas. A princípio achei a situação um pouco desconcertante, pensava
que poderia estar atrapalhando seu momento de descontração. Ainda
assim, ficamos combinando os horários possíveis para conversarmos (Ela
do lado de dentro da casa e eu do lado de fora). Foi quando a amiga de
Missi, falou: “Mulher, entre! ” Entrar em sua casa naquele momento, foi
como adentrar mais profundamente sua intimidade. Ao entrar, Missi
começou a falar para sua amiga a importância de minha presença em sua
vida. Eu oscilava entre manter-me a uma certa distância do que estava
sendo colocado e ao mesmo tempo pensava que aquele momento deveria
ser vivido. Tinha vontade de falar sobre minha vida, pois o ambiente era
bastante propício e me senti entre amigas. Neste encontro o que se mostrou
foi uma espécie de bastidores da pesquisa. Missi fazia um breve resumo
sobre seu entendimento acerca do trabalho para explicar a minha presença
ali, falava de nossos encontros, do documentário que estava preparando.
Os temas foram sendo encadeados para outros assuntos e quando percebi
estávamos as três falando de questões que nos importavam mais
intimamente. Foi quando o irmão de Missi chegou e interrompeu a
atmosfera afetiva que ali se instaurava. Voltamos a falar sobre o vídeo, em
seguida conversamos sobre temas aleatórios, outras pessoas chegaram em
sua casa e ela teria que se ocupar. Falei que precisaria ir, e nos
despedimos.
(Diário de campo, 2013)

Ao participar deste momento entre Missi e sua amiga, ela não só partilhava
sobre nossos encontros como também de maneira descontraída falava mais
abertamente sobre alguns temas relacionados aos sentidos que ela atribuía a
pesquisa e situava a minha presença em sua vida. Não sabia, mas ela tinha por mim
um carinho e uma admiração que não tinha conhecimento até este encontro. Entendi

37

um pouco por que de nossas conversas fluírem tão bem, ambas nutriam uma pela
outra um carinho e uma consideração que foi exposta neste dia.

1.3.3 O encontro etnográfico: um presente

Ao encontrar Missi pela primeira vez em sua casa logo o formato de
“entrevista” foi colocado de lado e um tom de encontro iam ambientando nossos
diálogos. Não saberia ao certo identificar o momento em que o ambiente de
encontro foi instaurado, onde duas mulheres falavam de questões relativamente
íntimas, num ambiente permeado por silêncios e pausas.
O ambiente de encontro instaurado proporcionou mudanças de abordagens,
reformulações dos temas e na maneira de fazer a pesquisa, essas reconfigurações
nos pontos norteadores do trabalho se deram nos diálogos com Missi. Nos
encontros, algumas posições foram pensadas e repensadas, esses momentos com
ela não só proporcionaram mudanças de abordagem, como em todo o formato do
trabalho.
Em nossos diálogos, percebi que não poderia trabalhar com o anonimato,
invisibilizando a sua pessoa, pois a escolha por utilizar o nome pelo qual ela é mais
conhecida se deu no processo deste trabalho que pode ser melhor entendido sob a
perspectiva de um aprendizado, como muito bem coloca Tereza Pires Caldeira em
suas colocações a respeito dos momentos de encontro em campo:
O depoimento não existia pronto para ser dito; ele é construído a medida
em que vai sendo dito. Tudo isso faz com que a relação da entrevista seja,
basicamente, uma relação de aprendizado: tanto o pesquisador quanto o
entrevistado descobrem, aprendem, refletem. (Caldeira, 1980:6).

Neste sentido, nestas primeiras incursões, Missi me levou por caminhos
inimagináveis dentro do contexto da pesquisa, aos quais suscitaram a necessidade
de redesenhar a abordagem a ser aplicada, aproximando o trabalho de uma
abordagem que proporcionasse um ambiente em que ela falasse por ela mesma.
Uma metodologia que se aproximava da atmosfera de nossos encontros e
que dialogava intimamente com o encontro etnográfico foi a perspectiva
38

desenvolvida por Jorge Prelorán (1987), a partir do uso de etnobiografias com um
enfoque êmico, ou seja, “desde dentro”. Em sua abordagem, Prelorán dialoga com o
espaço e os sentidos dados pelas pessoas na lida com esses ambientes, através de
sua abordagem acerca das histórias de seus personagens:
Através de mis etnobiografia describo elementos de las culturas que
documento, tratando de indagar em profundidad la gran diversidade de
maneras em que ele hombre se há organizado sobre la tierra, para tratar de
entender el sentido de su vida y las formas que há encontrado para
sobrevivir sobre ella (Prelorán, 1987:45).

A metodologia de Prelorán vai se fazendo no ambiente de sua pesquisa como
uma abordagem voltada para a criação de documentários que dialoga homem e
ambiente postulando em seus trabalhos a predominância de uma relação mais
duradoura com seus interlocutores que exige um convívio mais longo em que a
afinidade seria um elemento importante para este convívio e desenvolvimento do
trabalho.
Essa ênfase nos relatos e narrativas biográficas tenta apresentar os atores a
partir da sua própria perspectiva, onde o que é apreendido não é tanto uma história
particular, ou fatos, mas “o processo compreensivo e interpretativo que se estrutura
linguisticamente em torno da construção de uma imagem (situacional) que
protagoniza a própria biografia” (PINA apud CALDEIRA, 1980:9).
À medida que se abre caminho para um desenvolvimento de uma
metodologia em que o diálogo com o outro é um elemento importante dentro do
trabalho nos aproximamos de uma vertente da Antropologia denominada dialógica e
interpretativa e sobre esta abordagem Oliveira (1998) em sua obra O trabalho do
antropólogo, alerta sobre algumas implicações no uso deste método:
Nesse procedimento os horizontes semânticos em confronto- o do
pesquisador e o do nativo- abrem-se um ao outro, de maneira a transformar
um tal confronto em um verdadeiro “encontro etnográfico”. Cria um espaço
semântico partilhado por ambos interlocutores, graças ao qual pode ocorrer
aquela “fusão de horizontes” - como os hermeneutas chamariam esse
espaço-, desde que o pesquisador tenha a habilidade de ouvir o nativo e por
ele ser igualmente ouvido, encetando formalmente um diálogo entre
“iguais”, sem receio de estar, assim, contaminando o discurso do nativo com
elementos de seu próprio discurso. Mesmo porque, acreditar ser possível a
neutralidade idealizada pelos defensores da objetividade absoluta, é apenas
viver uma doce ilusão. Ao trocarem ideias e informações entre si, etnólogo e
nativo, ambos igualmente guindados a interlocutores, abrem-se a um
diálogo em tudo e por tudo superior, metodologicamente falando, à antiga

39

relação pesquisador/informante. O ouvir ganha em qualidade e altera a
relação, qual estrada de mão única, em uma outra de mão dupla, portanto,
uma verdadeira interação (Oliveira, 1998:24).

Nesta obra, o antropólogo traz uma importante discussão a respeito dos atos
cognitivos envolvidos no fazer antropológico. São eles: olhar, ouvir e escrever, que
ele procura problematizar afim de desnaturalizar tais atos como sendo passíveis de
reflexão ao longo do trabalho antropológico. A partir do momento que se inclina por
uma metodologia voltada para a produção de discursos que são produzidos nesses
encontros e na duração das relações, a responsabilidade no ouvir ganha sentidos
que podem ser compreendidos como uma entrega, pois neste ato o pesquisador
abre espaço para ouvir, ainda que com alguns ruídos ocasionados por suas
projeções.
O “saber ouvir”, como muito bem coloca Oliveira, é imprescindível no ofício de
antropólogo, assim como os demais atos envolvidos neste tipo de trabalho. Há que
se doar ao que outro traz para o encontro. Essa doação foi experimentada a cada
encontro em campo, acompanhado de todo um cuidado em diminuir possíveis
“ruídos” na escuta e de um cansaço imenso após cada encontro, pois os relatos
eram sempre muito cheios de vidas e careciam de uma escuta atenta a suas
minúcias que com certeza se perderiam no formato das gravações.
Tanto nos relatos de Missi quanto os de Seu Jorge este sentimento foi
partilhado. Seu Jorge é inserido no trabalho como um dos principais interlocutores
por conta de suas redes de afetos estabelecidas no povoado, por ser um pescador
antigo, sua narrativa traz para a pesquisa uma atmosfera dos tempos em que a
pesca era realizada de modo bastante rudimentar, possibilitando traçar paralelos
entre o desenvolvimento da atividade que demonstra marcadores históricos da
influência dos negros e a sua forte presença no povoado.
Seu Jorge, que é pescador aposentado foi indicado por Missi e Elir, assim
como, por outros moradores do povoado por se tratar de um morador antigo do
lugar, guardião de memórias que a partir de sua narrativa apresenta um Pontal
distante no tempo em suas permanências e mudanças. Sua narrativa possibilitou o
diálogo com fontes históricas não só do lugar, mas também do desenvolvimento da

40

atividade pesqueira no Nordeste, no segundo capítulo a partir das narrativas deste
pescador, esses diálogos são travados de modo mais contundente.
Nos diálogos com Missi e Seu Jorge, os jogos da memória foram trazidos à
tona e com isso diálogos com autoras como Ana Luiza Carvalho da Rocha e
Cornelia Eckert (2013) foram sendo imprescindíveis. Em seus trabalhos sobre
memória, as antropólogas desenvolvem com muita delicadeza, reflexões acerca da
memória e do seu lugar de produção, além de travarem diálogos com diversos
teóricos sobre o tema da memória. Apesar de suas teorizações se desenrolarem
tendo como pano de fundo o espaço urbano, os diálogos alcançam o ambiente desta
pesquisa no entrelaçamento das biografias dos interlocutores e a paisagem habitada
por eles.
Dentre os muitos encontros proporcionados em campo, Seu Jorge e Missi se
fizeram uma das vozes mais importantes neste trabalho, pela paciência de ambos
em relatar suas vidas, pela possibilidade de uma rotina de encontros que sempre
acontecia de maneira fluída e com muito respeito ao que estava sendo relatado.
As narrativas de Missi apresenta o outro lado da pesca, a perspectiva de quem
fica. Em nossos encontros iam sendo relatados aspectos importantes do lugar, como
quando conta a respeito da ida para Maceió marcada por uma relação de
apadrinhamento tão presente na história de Alagoas.
No caso das narrativas de Seu Jorge, em suas memórias de morador/pescador
do lugar, pude conhecer um Pontal distante no tempo, contada de maneira bastante
viva. Foi através dele que descobri uma das bibliografias mais importantes para a
ambiência da pesquisa, o livro Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro de Shepard
Forman, obra que era por ele reconhecida como um tesouro, pois trazia em
fotografias e relatos, memórias dos tempos em que no povoado não havia rede
elétrica e a madeira utilizada pelo velho Capilé, responsável pela construção das
jangadas nos tempos de Seu Jorge, era trazida em carros de boi.

41

Com Seu Jorge, a partir de suas narrativas conheci as aventuras e desventuras
enfrentadas pelos pescadores. Aprendi que estando em mar é preciso ter
42

parcimônia, ou como ele coloca: “ter aquele jogozinho”. Ainda com ele, desvelamos
um Pontal que só existe agora na memória, guardado em sua biografia que
atravessa o tempo e que em nenhuma bibliografia poderia ter esse contato tão vivo
com a história desse lugar.
A colheita das narrativas de Missi e de Seu Jorge traz para a pesquisa suas
principais problematizações acerca dos jogos da memória na elaboração de
narrativas que se inserem dentro da produção de uma memória coletiva, postulando
uma imersão nesta metodologia no desenvolvimento do trabalho como também seus
discursos delinearam as temáticas desenvolvidas.
A pesquisa está longe de abarcar o Pontal como um todo, em sua
complexidade e heterogeneidade. Pretendo com ela apresentar um fragmento das
múltiplas histórias possíveis que atravessam o povoado a partir das relações
estabelecidas, das vozes destes narradores e pelos dados recolhidos durante a
imersão em campo. Com isso, o trabalho traz a partir dessas histórias um pouco do
vivido em campo no convívio com esses moradores do Pontal que tem suas vidas
atravessadas pela atividade da pesca. Os relatos e as contextualizações que
seguem foram produzidos a partir destes encontros e de uma atitude de “observar
participando” (Velho, 1994) em que as subjetividades deram os principais contornos
ao trabalho.

CAPÍTULO 2

Memória e Narrativa

A vida narrada é um entrelaçamento de experiências evocadas pelos
interlocutores, um encontro entre a vida íntima do narrador e sua inscrição numa

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história social e cultural. Uma abordagem biográfica8 em pesquisas que visam o
conhecimento do homem sobre o homem e teorias de reciprocidade insere-se nas
experiências etnográficas pelo menos desde os últimos vinte anos deste século.
A utilização de métodos que previlegiam a vida do outro implica em alguns
questionamentos epistemológico quanto a essa escolha metodológica dentro do
trabalho etnográfico. Os relatos biográficos inicialmente podem ser compreendidos
enquanto uma fonte de informação sobre determinado contexto social; uma
evocação do narrador e; uma reflexão suscitada no encontro que acontece num
determinado contexto que pode ser tomado para explicar as singularidades desse
percurso biográfico.
Ao narrar a sua história, o interlocutor vai tecendo as experiências vividas,
reconstruindo acontecimentos numa travessia pelo tempo e apresentando os
conhecimentos apreendidos. Neste tecer e refletir a cerca da própria história
aparecem pessoas, lugares, viagens, marcadores de pertença em um determinado
grupo, dentre outras nuances que poderão surgir. Neste sentido, passa-se de
microcosmos acessados no encontro com experiências singulares vividas “onde o
sujeito fala situando-se em contextos vividos e re-interpretados no presente, o que
infere no lugar do qual o discurso é produzido” (ECKERT e ROCHA, 2013:23).
Uma “escuta etnográfica” das narrativas tem sua legitimidade alcançada a
partir do diálogo com outros métodos que vão desde a uma convivência prolongada,
o que permite conhecer os ritmos e espaços onde se desenrola a vida cotidiana a
eventos coletivos em seus vínculos estabelecidos. À medida em que se adentra
numa história de vida, um percurso é traçado pelo narrador que irrompe a narrativa
com acontecimentos que oscilam em sua temporalidade e espaço. Ora se relata
sobre momentos longínquos distantes do alcance das lembranças, ora os relatos
são intercalados com acontecimentos recentes, na tentativa de dar sentido à
existência vivida.

8

A expressão “abordagem biográfica” se refere no sentido amplo de várias modalidades de metodologias
relacionadas aos usos de histórias de vida, estória de vida, biografias e autobiografias.

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Em seu ensaio A ilusão biográfica Bourdieu alerta para o abandono de uma
perspectiva de que a vida é “como um conjunto coerente e orientado que pode ser
apreendido como expressão unitária de uma intenção subjetiva e objetiva, de um
projeto” (BOURDIEU, 1996:184). Considerando que uma vida não é um fim em si
mesmo, e, portanto, não tem um sentido único, Bourdieu constrói a sua noção de
trajetória que se define como colocações e deslocamentos no espaço. Essa noção
nos faz abandonar a idéia de que “uma vida possa ser compreendida como uma
cadeia de acontecimentos” (BOURDIEU, 1996:189).
A partir da noção de trajetória na apreensão dessas histórias passa por um
processo de compreensão das inter-relações que existem entre o aspecto da
abordagem biográfica, levando em consideração o que esses discursos infomam
sobre o social, e o que isso remete ao interlocutor. Nesse diálogo entre a produção
de narrativas singulares e seu contexto social, Mauss (1974), realiza considerações
acerca dos relatos de vida como um método de apreensão do fenômeno social total,
à medida que concebe em sua abordagem a sociedade enquanto fato social total. A
partir desta perspectiva, Mauss considera que os depoimentos individuais são
apreendidos como fenômenos totais ligados ao nível estrutural, onde “aspectos
importantes de sua sociedade e do seu grupo, comportamentos e técnicas, valores e
ideologias podem ser apanhados através de sua história” (QUEIROZ, 1988:28).
Ainda com Queiroz, os relatos biográficos não são apenas vidas que são
reconstituídas pelo sujeito que a vivenciou, mas, sobretudo, traz nessas vivências
“sistemas de representações e de valores em vigor em todas as ações e práticas
sociais cotidianas” (QUEIROZ, 1987:29) que incidem na elaboração de uma
memória compartilhada no desenrolar das narrativas.
Uma perspectiva particular se desenrola e a figura de um personagem
portador de vivências compartilhadas no tempo/espaço vai se delineando num
constante “jogo de lembrar e esquecer, de selecionar e resignificar as práticas
sociais que situam os sujeitos como construtores singulares de conhecimento de
suas histórias individuais e coletivas” (HALBWACHS, 2004:121).

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Ao adentrar na “poeira da morada” nesse jogo de lembrar e esquecer, a
memória social pode ser considerada enquanto:
Domínio de uma função fantástica, na sua insubordinação à ação corrosiva
do tempo. É nela que inscrevemos o regresso aos tempos vividos, vocação
de inteligência humana para enquadrar à descontinuidade das recordações
empíricas, assegurando a toda a humanidade a continuidade de sua
consciência (ECKERT e ROCHA, 2013:73).

Segundo Rocha e Eckert (2013), Maurice Halbwachs postula que a memória
só pode ser uma duração no tempo enquanto lembrança do outro, “posto que, para
trabalhar a memória, as nossas lembranças, dependem das lembranças dos outros”.
A imagem de si é resgatada no presente contato, através das lembranças que criam
sentidos num fluxo, construindo a si mesmos à medida que são construídas as
narrativas, aproximando-nos da figura de O narrador de Benjamin (1985), que
entende a narrativa enquanto um texto construído na relação com aquele que ouve.
A figura do narrador tem por dom o poder de contar a sua vida, o narrador é
aquele que “poderia deixar a luz tênue de sua narração consumir completamente a
mecha de sua vida” (BENJAMIN, 1985:221). No sentido benjaminiano, “os sujeitos
das situações biográficas reencontram e reconhecem, em sua narração, a
identidade do “si mesmo”, sensibilizados pelo conhecimento de si como sujeitos”.
(BENJAMIN, 1999:223).
Encontrar-se a si mesmo nesse ato de relembrar “sugere uma relação
reflexiva com a trajetória histórica do sujeito e do coletivo o qual emerge” (ECKERT
e ROCHA, 2013:242) no ato dialógico com aquele que ouve. Trata-se, no sentido
que atribui Oliveira (1998), da “fusão de horizontes”: “o que significa que na relação
dialógica que suscita no outro a inclinação a compreensão dos acontecimentos, é
“incorporado em alguma escala, o horizonte do outro” (OLIVEIRA, 1998:68).
A escolha metodológica de uma abordagem biográfica foi se delineando a
partir dos encontros etnográficos que foram pautados numa escuta densa das
histórias de vida de Missi e de Seu Jorge a partir da elaboração de suas narrativas
foram suscitados os principais questionamentos epistemológicos na utilização desta
abordagem quando em suas narrativas apresentavam suas histórias misturadas a

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memória de um grupo fortemente influenciado pelos ritmos marítimos na prática da
pesca.
Esses narradores ao apresentarem em seus discursos suas histórias
protagonizam e constroem representações individuais que são remetidas a um plano
coletivo de uma comunidade pesqueira que realiza uma prática tradicional que
perdura ao longo do tempo marcada por continuidades e descontinuidades.

2.1 Os narradores do povoado do Pontal de Coruripe
2.1.1 Missi: vazios pela terra

Missi: Esse tempo que eu morei em Maceió foi logo no início da minha
juventude. Foi o que eu tinha o quê, cinco anos de idade que me levaram
pra Maceió e eu voltei com quinze anos[...] Fui com um compadre da minha
mãe. Eles precisavam de uma pessoa para estar limpando assim, lavando
um prato, varrendo uma casa e fazendo companhia a esposa dele enquanto
ele ia trabalhar. Aí ela foi e pegou a gente. Foi eu e minha outra irmã
também. Eu tinha cinco e ela seis anos de idade.

Estamos sentadas na varanda de sua casa. É junho de 2013, faz bastante
calor no Pontal. É fim de tarde e a casa está vazia. A casa é simples e acolhedora,
localizada numa das ruas estreitas do povoado. Sentadas nas cadeiras, éramos
cumprimentas pelos vizinhos passantes. A primeira vez que vi Missi foi numa festa
em sua casa. A festa estava cheia de rostos conhecidos e desconhecidos. Dentre
eles o de Missi, que me foi apresentada como sendo a companheira de Elir,
pescador há algum tempo.
Missi: Esse pessoal que eu morei em Maceió. Que a minha mãe,a minha
mãe não sabe ler,meu pai não sabe ler.E esse pessoal me ensinou muito a
tabuada,me ensinou a escrever,ler...A esposa dele botava assim pra sentar
pra ficar lendo, estudando até chegar a idade boa de ir pro grupo.Eles tinha
estudo.Ela me sentava no chão fazia a tabuada.Pegava assim os livro dela
e me ensinava a ler.Aí,eu aprendi com eles[...]Por que a minha mãe tinha
muitos filhos,né.Pra tá dando atenção a todos, estudo...E naquele tempo
era difícil, naquele tempo era difícil.

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Missi é a irmã mais nova de oito filhos que Dinalva e Geraldo tiveram, vinda
de uma família simples com a mãe trabalhando em casas de família e o pai
pescador, ela passou alguns anos de sua vida morando em casa de padrinhos em
Maceió.
Os pais de Missi conheceram o casal Francisco e Anita, ainda quando Missi
não era nascida. Geraldo, quando jovem era salva-vidas e nas idas e vindas pela
praia conhece o casal que é de Maceió e vinha passar o final de semana no Pontal.
“Aí a minha mãe os chamou para ser padrinho, eles aceitaram” (Missi). E quando
Missi completou cinco anos foi morar com os padrinhos.
Nesse mesmo tempo, uma das irmãs de Missi também foi morar em Maceió
na casa de outro padrinho. Dinalva, mãe de Missi desejava que as filhas pudessem
receber educação e melhores condições de vida residindo com seus padrinhos.
Dinalva é lembrada por sua filha como uma mulher forte e que desejava o
melhor para seus filhos. A mãe de Missi faleceu no decorrer da pesquisa acometida
por uma doença que a afligiu por alguns anos.
Uma ambiguidade de afeto e trabalho é tecida pelos pais de Missi e seus
padrinhos vindos de Maceió, de um lado, a família pobre de Dinalva e Geraldo com
muitos filhos e sem condições de criá-los, do outro os padrinhos recém-casados que
precisavam de uma “cria da casa”, no sentido de cuidar dos afazeres domésticos. E
que vai auxiliar também nos cuidados com a recém-nascida do casal.
Uma relação de reciprocidade é estabelecida pelo apadrinhamento. Se
desenha uma prática que remonta desde os primeiros tempos no Nordeste
amplamente condicionado por um sistema patriarcal e escravista regido pela troca
de favores em que:
A organização familiar e a vida doméstica não poderiam deixar de ser
influenciadas por alguns dos elementos que marcaram profundamente a
formação da sociedade brasileira e o modo de vida dos seus habitantes
(Freyre, 2004: 56).

Essa prática é bastante comum no Nordeste e no Pontal são inúmeros os
casos de crianças que são apadrinhadas mantendo uma relação de afeto e trabalho.
Como é o caso de Ilma, cunhada de Missi que começou a trabalhar numa casa
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como responsável pelos trabalhos domésticos quando não tinha nem quinze anos.
Quinzenalmente Ilma deixa sua casa e seu companheiro para se dedicar
exclusivamente aos afazeres da casa de sua patroa, como ela denomina. “Ela
sempre gostou de mim e dela (se referindo a sua filha) ”. Ao falar sobre a “ajuda”
que recebe de sua patroa nos investimentos na educação da filha, Ilma assevera
que faz “de tudo para a filha estudar, para vencer! ” (Ilma)
Dos cinco aos dezesseis anos Missi morou em Maceió e todo final de semana
ia para o Pontal com os padrinhos.
Missi: A minha mãe já tinha nove filhos [...] Naquele tempo era difícil. Todo
final de semana a gente vinha e passava sexta, sábado e domingo. Eu
chorava para não ir embora... Ia chorando daqui pra Maceió”.

A infância e início da juventude de Missi foram marcados por essa mudança
no curso de sua história, apontado por ela como um marco importante no que se
refere aos aprendizados valiosos que vai receber nesse tempo que morou no bairro
do Prado em Maceió.
Ao falar sobre esses primeiros momentos da infância fala da saudade de seus
familiares e de seu lugar, das brincadeiras de criança e das responsabilidades
domésticas que tinha na casa de seus padrinhos.
Missi: Eu fui para lá por que...Eles viram que meus pais tinham muitos
filhos. A gente era umas meninas educadas. Aí foi e levou a gente para
gente estudar. Para ensinar a gente a ser uma pessoa. Futuramente a
pessoa ter o seu trabalho.

Ao completar seus dezesseis anos, Missi retorna para morar definitivamente
no Pontal com seus pais. A amizade entre os padrinhos e Missi permanece até hoje
(Missi ainda hoje costuma realizar trabalhos domésticos na casa de seus padrinhos
quando eles vêm para o Pontal passar os finais de semana).
Missi: Aí foi quando veio à juventude, né? Começou aquele foguinho de
querer namorar. Aí, eles (os padrinhos) não quiseram mais.

Missi retornou para o Pontal. Retomou os estudos que não foram levados
muito adiante, pois foram interrompidos na sexta série. Foi nos tempos de escola
que Elir e Missi se conheceram. Numa festa de São João.

Logo em seguida

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decidem abandonar a escola e iniciar uma história de cumplicidade e muito amor
que já dura dezesseis anos.
A mudança para Maceió não só muda os rumos dos primeiros momentos da
infância, como vai inscrever em Missi um discurso pautado num significado da
escolarização enquanto um meio de alcançar melhores condições de vida. Este
significado, nos tempos de meninice não eram compreendidos tão fortemente
quanto nos tempos da chegada dos filhos e a expectativa de condições diferentes as
quais o casal vivências por conta das incertezas de seus ofícios.
Missi: Era importante e um dia a gente ia precisar daquele estudo. Eu era
aquela menina “vou nada para escola, estudar para quê? ” “Hoje é o que os
meus filhos dizem: “Minha mãe para quê estudar, homem! Todo dia abusa,
esse negoço de estudar, acordar cedo para ir para escola”. “E é” ?! Eu
também dizia isso meus filhos, também dizia isso”. “Minha mãe me
chamava, o pessoal me chamava para ir para escola”. E eu “para que ir
para escola? Para que estudar? ” Hoje eu estou aqui, se eu não botasse
cabeça mesmo para pensar, estudar, eu estava com o meu trabalho. Por
que tudo a gente vai passar um dia. Chega adolescente, chega a infância,
um dia a gente cresce fica adulta e não tem um trabalho, né? Não depende
de você mesmo. Tem que depender de você mesmo. [...] Bom, aí eu botei
na cabeça assim, devido os meus filhos, né... por que o que eu tenho hoje
eu não quero para os meus filhos. Eu quero que eles estudem, tem uns
trabalhos bons. Dedicar aos estudos. Por que do estudo...você tendo uma
cabeça boa, aprende aquilo, aquilo outro...faz um concurso, já passa.Faz
um curso. Já manda lhe chamar. Por quê?!Por Que você é inteligente
naquilo ali, né? Foi para frente com aquele estudo [...].

Desde os primeiros momentos de nossos encontros, Missi traz de um lado
uma insatisfação e impotência com relação aos rumos de sua vida com a ruptura
com a escola, e, do outro, uma resignação e satisfação desse acontecimento que foi
imprescindível, segundo ela, para constituição de sua família com Elir.
P: Se arrepende por ter parado os estudos?
Missi: Bom, por uma parte eu me arrependo e outra não. Por uma, graças a
Deus, Deus me deu dois filhos maravilhosos [...]. Não tenho o que dizer,
graças a Deus. Agora por outra, sinto dificuldade, assim, por que não tenho
o meu trabalho para poder também ajudar ele mais ainda, né? E ajudar os
meus filhos também.

Missi faz uma reflexão sobre o fato de ter deixado os estudos, o que para ela
foi decisivo na constituição de sua família com Elir, uma vez que, o casamento e a
continuidade dos estudos eram opções excludentes.

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Foi em uma festa de São João (festejo bastante tradicional no Pontal) que Elir
e Missi se conheceram. “A gente conversou se dava certo ou não. Mas quando o
amor acontece, tem que acontecer! Vive assim no dia-a-dia” (Missi). Os dois, nos
primeiros anos de namoro, vão morar na casa da mãe de Elir. Nesse tempo, Elir vai
começar a lidar com o mar. Inicialmente com a pesca de arrastão e depois com a
pesca de linha.
Missi: [...] União, a pessoa não ficar só. Tem ali seu marido... tem a sua
casinha, seus filhos. Todo homem, toda mulher quer ter sua família. Agora
por que cada um pensa de uma maneira, né? De arrumar logo o seu
trabalho para não está dependendo dele, né? Já tem outros que não tem
filho, fica ali dependendo de marido. Eu não, faço minhas bolsinhas, vendo
peixe na feira, tem a bolsa escola do meu fio e dá para ir devagarzinho eu
mermo me mantendo e mantendo a casa[...] Até hoje a gente está vivendo.
Nunca nos separamos. Sempre que ele vai fazer uma coisa conversa
comigo [...] E assim unido no dia-a-dia para nunca se separar os dois. Como
vai ficar as crianças, né? [...] Ele não faz nada sem me perguntar. Eu
também não resolvo nada sem ele.

Aos poucos os dois vão construindo seu lar que fica a poucos metros da casa
da mãe de Elir, na casa que hoje Missi me recebe.Com quase um ano de namoro,
Missi e Elir tem o primeiro filho, Elias. Nesse tempo, eles já moravam na casa
construída com muito esforço e fruto do trabalho de Elir como pescador.
Missi: Quando ele logo começou a pescar, eu ficava só na casa[...] Eu só
tinha o mais velho, era pequeno. Eu nem dormia aqui, eu ia dormir na casa
da minha mãe que eu tinha medo de dormir cedo, menino pequeno...eu não
ia sair de madrugada, uma hora da manhã sozinha para casa dos meus
pais. Aí, toda semana que ele ia pescar, arrumava as coisas e ia para casa
da minha mãe, dormia lá. Quando chegava a gente vinha ficava aqui. Aí, foi
que engravidei de novo, aí tive a menina, aí não tive mais medo[...] Assim:
costume dele não está ali do meu lado.A pessoa dormir só é muito ruim, a
gente sente falta.

Esses primeiros momentos da relação de Missi e Elir são muito difíceis para
ambos. Eles são jovens e lidam com a escolha que fizeram em nome do amor que
sentem um pelo outro. Amor este que dará força para enfrentar os acontecimentos
dessa vida.
Missi: Se não for Elir para maré pescar, não paga, não come, né?! Para
pagar a alimentação. Pagar a feira e tudo.

Missi enaltece o fato de Elir ser trabalhador, inteligente. “Ele não é daquele
homem que fica sentado esperando cair do céu. Ele batalha mesmo. Ele se esforça
muito, ele batalha... a pessoa dizer assim: “óia, chega da maré e fica aí dentro de
51

casa assistindo. Comendo e dormindo”. Não, ele batalha muito, muito mesmo! ”
(Missi)
Os atributos que Missi dar a seu companheiro reafirmam a existência de
papéis de gênero a serem desenvolvidos. Assim como Elir também traz essa
temática para o seu discurso. Em ambos os discursos são ressaltadas expectativas
em relação aos papéis a serem desenvolvidos pelos parceiros sem que estes não
sejam passíveis de serem flexíveis e até mesmo invertidos a depender das
situações.
Parece que as expectativas e as atribuições dentro do relacionamento podem
ser mais bem acomodadas se vistas como um ponto de partida para organização de
papéis e não de maneira inflexível e estanque. Importando muito mais a manutenção
da relação e das obrigações domésticas alinhadas à uma solidariedade que Missi e
Elir construíram nesses anos de casamento.
Elir passa de cinco a doze dias pescando em alto mar. Enquanto isso, em
terra, Missi vivência dilemas referentes à educação dos filhos em relação à ausência
do pai.
Missi: Quando ele está fora, eu fico com meus filhos, levo para escola, para
dar banho, café e tudo. Aí, é assim o dia-a-dia. Quando ele volta já é
melhor, as crianças já atendem mais ele do que eu. Aí já fica melhor[...]por
que meus filhos obedecem mais a ele. Aí já fica um pouquinho mais difícil a
criação, principalmente com criança e agora que meu filho vai fazer treze
anos. A responsabilidade já está indo mais adiante. É por que não fica a
responsabilidade só em cima de mim. Já fica mais em cima também do pai.
Mas se for aquele pai que entra e sai de dentro de casa. Agora quando já
tem um que fica ali, ele chega pergunta “se os meninos já fizeram o dever.
Ele pega o caderno dos meninos olha se está direitinho os cadernos. Ele
manda os meus meninos ajeitar as letras [...]

Com o tempo Missi e Elir se organizam para construir um barco para ele
pescar. Esse momento é relatado por Missi em um de nossos encontros:
Missi: “Você quer que arrume a casa, ajeite os móveis todos? ” (Elir) “Não,
vamos fazer um barquinho para você pescar” (Missi). Aí pronto, a gente fez
o barquinho da gente. É pequeno, mas é da gente.

Missi: [...] Sem um estudo a gente não tem nada na vida. Se você não tiver
um estudo melhorzinho, que uma faculdade, que faça isso, faça aquilo...
Não tem um emprego bom! Por isso, a gente tem que se dedicar aos

52

estudos. Por que o estudo é a única coisa que a gente vai ter na vida. É
devido ao estudo que vem o seu trabalho.

Ainda que sob perspectivas diferentes traça-se entre nós um espaço de
compartilhamento de significados comuns. Desde nosso primeiro encontro, Missi
demonstra estar comprometida com o meu trabalho por reconhecer na minha
presença uma aspiração que ela constrói para seus filhos. “Espero ter ajudado no
seu trabalho”, é desse modo que ela encerra a primeira gravação de nosso
encontro.
Essa

preocupação

dá

pistas

de

uma

trajetória

atravessada

pelo

reconhecimento de um saber como forma legítima de conhecimento. Traça-se um
espaço de compartilhamento de sentidos com relação a um conhecimento
legitimado. A importância de uma trajetória escolar não é entendida por Missi nos
primeiros anos escolares quando ela se confrontava com escolhas que se
aparentavam antagônicas: o percurso escolar e o anseio em constituir uma família.
Ao falar sobre as trajetórias escolares de seus filhos ela demonstra um
entendimento de sua importância pautando-se em sua própria experiência:
Missi: É bom o trabalho da gente da pesca, é bom que ganha um troquinho,
mas só que eu não quero isso para os meus filhos por que o que a gente
passou e ainda hoje está passando para criar eles... Eles tão vendo as
dificuldades. “Vocês vão querer isso para vocês, por isso a gente manda
vocês estudarem para ter o seu trabalho”.
P: Quer que eles façam faculdade?
Missi: -Ehhh, quero, quero muito amiga. Fazer sua faculdade, quero que
minha menina faça faculdade sim!
P: Eles querem fazer?
Missi: Querem, querem... Meu filho (Elias) de treze anos já... Ele já sabe
mexer com computador, sabe procurar, pesquisar para o pai dele negócios
de barco, GPS...ele procura.

Missi demonstra ainda que com algumas limitações com relação aos
conhecimentos específicos solicitados pela escola, o interesse no andamento das
fases escolares dos filhos, auxiliando-os nas suas atividades e na elaboração de
uma rotina de estudos diários. Ela se esforça em dar todo suporte possível, além de
introjetar em seus filhos (Elias e Esheley) a criação de sentidos mais duradouros em
relação à escola, a partir de sua própria experiência que é utilizada como um
exemplo a não ser seguido.
53

Missi: Se eu não soubesse ler era que ia ser pior para os meus filhos, eu sei
ler, faço conta para eles no caderno. Pergunto a eles se tem dever. Fico ali
no pé deles.

Missi não desmerece o ofício da pesca nem o do artesanato- as principais
atividades econômicas realizadas para a manutenção de sua família, mas pontua as
dificuldades e incertezas que marcam essas duas atividades.
Missi: No artesanato, na pesca a gente não ganha isso tudo. E outra, não
recebe como um trabalho fixo mesmo em que você recebe todo mês
certinho, que chova ou que faça sol, está ali depositado. É só você passar o
cartão, recebe! E a gente de artesanato ainda vai fazer o artesanato, ainda
vai aventurar para vender [...] A bolsa ainda vai vender. Quando recebe é
com dois meses atrasados. Como vai se organizar desse jeito?! A pescaria
também. Uma semana dá na outra não dá. Final de mês você pode ter e
pode não ter. E o seu trabalho certinho todo mês você está ali trabalhando
todos os dias. Chega no final do mês “está aqui o seu dinheirinho”.

Elir e Missi não tiveram escolha quanto aos ofícios que realizam. As
oportunidades de atividades econômicas no Pontal não são muito diversificadas,
ainda mais com o grau de instrução que ambos tinham na época, só lhe restou
“batalhar” no mar.
Missi: [...] A pescaria, a pessoa vai fica lá pescando... já que não tinha
outros meios, deixar o estudo para pescar. Tem outros que deixa o estudo
vai ser pedreiro.Ele já deixou o estudo e foi pescar por que aqui o que tinha
para fazer. Não foi escolha, já que só tinha aquilo para fazer foi fazer
aquilo.Aqui não tem uma fábrica, não tem uma loja. Se tivesse assim um
comércio aqui o Elir já tinha arrumado um trabalho. O Elir é inteligente! [...]
O Elir pesca realmente por que tem que pescar e não tem outros meios e
não tem um trabalho assim devido aos estudos que só tem até a sexta.

No momento de nosso terceiro encontro o casal passa por momentos difíceis,
o barco deles estava parado por conta de uma peça bastante cara que havia
quebrado e com o dinheiro que eles tinham guardado no banco não dava para
adquirir uma outra peça. Esse acontecimento ocorreu numa semana “sem lua”, que
representa uma semana propícia a bons resultados em alto mar, por conta da pouca
luminosidade o que deixa os peixes mais acessíveis a captura.
Esse foi um dos encontros mais tensos entre nós. Missi estava bastante
preocupada com as incertezas econômicas que pairavam sobre sua família nesse
tempo.
P: Você consegue guardar algum dinheirinho?

54

Missi: Consigo, às vezes a gente está muito apertado a gente vai na Caixa
tira um trocadinho, faz a feira! Tem dia quando a pescaria não dá aquele
mês. Dá aquele vento forte, né? É chuva... Aí já tem aquele trocadinho na
caixa, aí já tem para alimentação dos seus filhos. Por que se não for pensar
nisso [sobre a organização das finanças da família] chega o tempo ruim e
não arruma nada.

Foi com Elir que iniciei as primeiras incursões nos saberes relacionado à
pesca.
Elir: “A pesca, a gente sai para pescar... pescar sai um dia e não sabe o dia
que chega. A gente pode pegar tempestade, o barco pode quebrar [...]. É
difícil, tudo no mar é difícil”.

Em nosso primeiro encontro para conversarmos sobre a pesca, Elir me levou
para praia e lá contou os dilemas enfrentados pelos pescadores, explicou sobre a
rotina do pescador, as dificuldades já enfrentadas em alto mar, apresentou seus
amigos pescadores, mostrou a balança, local onde os peixes são pesados. E neste
mesmo dia marcamos um passeio no mar com seu barco. No dia marcado, partimos
em um barco menor que nos levaria ao seu barco, para que ele me mostrasse como
era a sua rotina em alto mar.
Neste dia, Elir mostrou os principais instrumentos utilizados na pesca,
conversamos sobre a solidão e os perigos em alto mar. Explicou sobre os usos de
tecnologias que diminuíam as possibilidades de se ficar sem localização, como por
exemplo, o GPS e o rádio, instrumentos estes que Elir domina e salienta que a
maioria dos pescadores ainda não sabem muito bem como funciona esses
instrumentos de localização.
Elir nasceu no Pontal, sobre os tempos de juventude conta uma história que
lhe marcou bastante. A história é sobre um encontro com um senhor vindo de São
Paulo:
Elir: Eu conheci uma vez um cara de São Paulo, eu tinha parece que
dezesseis ou dezessete anos, quando eu conheci ele. Aí a gente
conversando na praia, aí ele disse:
- “Oh Elir, ali da ladeira do Pontal, né?! Elir, você sabe o que foi isso aqui
antigamente? ” Ainda em suas explicações: - “O mar há milhões de anos
era aqui, ele batia nessa ribanceira (Ele me explicou que o mar alcançava a
principal rua de acesso ao Pontal) e sabia que daqui a milhões de anos ele
vai vir para onde ele era. Não é agora. Seus filhos vão morrer, vai vir outra
geração... mas que ele vem para aqui ele vem! ”

55

Elir: Ele conversava muito comigo sobre o mar, a natureza, sabe?! Agora só
tinha um problema, ele gostava de lugar isolado e quando aqui começou a
crescer ele foi embora.

No povoado é bastante comum a presença de pessoas vindas de outras
regiões, inclusive de outros países. Esses turistas vêm para conhecer o lugar e
acabam se instalando temporariamente ou de modo permanente. Nos tempos que
estive por lá caminhando sobre a praia conheci um jovem senhor vindo do Rio de
Janeiro para o enterro de sua mãe. O senhor havia ficado encantado pelo lugar e
pensava em passar os restos de seus dias por lá.
Por ser um lugar turístico e com ares de um litoral ainda pouco modificado
pelos avanços da modernidade, o povoado atrai muitos estrangeiros e pessoas que
procuram afastar-se das grandes cidades marcadas por seus ritmos frenéticos.
Foi com um amigo que Elir aprendeu o ofício da pesca, primeiro sendo
pescador de rede e depois construindo ao lado de Missi o primeiro barco do casal.
Elir: Eu era muito inteligente. Pediram para eu voltar para a escola e eu não
quis. Por que quando eu decidi casar com ela, morar mesmo tem que ter
um sustento. Aí, tem um colega meu. “Vamos porra lhe ensinar a pescar”.
Fui aprendendo a pescar. Levava muito acerto, querendo desistir. Eu só
enjoava de jangada.

Assim como Missi, Elir ao falar sobre seu filho seguir o mesmo caminho que
ele, diz: “Não quero que siga a mim não! ” E se utiliza de estratégias para que Elias
não queira ter o mesmo ofício que ele, levando-o para o alto mar em dias de mar
revoltoso.
Elir: É meu filho, queira ser não, que é assim o dia-a-dia. Para ficar com
medo, para ele procurar outra coisa para crescer na vida.

Ao contrário do que muitos pescadores ainda fazem ao incentivar seus filhos
a seguirem pelo mesmo caminho, Elir se mostra contrário, só no caso de “não ter
recurso ou se Elias optar por se casar cedo”.
Elir: Por que você acha que hoje em dia tem futuros melhores ainda para
uma criança crescer e ser alguém na vida. Eu vou ensinar meu filho, como
eu vejo muitos pescadores incentivando os filhos de sete, oito, dez anos
ficar levando para barco e trazendo. Criança não estuda mais não. Criança
não estuda por que só quer aquilo. Já que não precisa estudar para ser
pescador, quer sair da escola para ir para praia acompanhar o pai. Por que
já está colocando na cabeça que quer ser pescador. Tira mais não.

56

Elir que me mostrou os primeiros conhecimentos ligados à pesca, sempre
esteve bastante preocupado com as questões ambientais do lugar, desde que fez
um treinamento para prestar serviço à Petrobras, fala que “sua visão com relação ao
ambiente mudou por que a gente não tinha essa educação” e que vem realizando
práticas que visam diminuir o impacto ambiental de sua presença em alto mar a
partir destes conhecimentos apreendidos. Relata ainda que muitos pescadores “não
têm essa mentalidade e que sujam mesmo”.
É nas ausências de Elir que vão se estreitando meus diálogos com Missi, seja
por estar ocupado nos afazeres da colônia em sua função de tesoureiro; prestando
serviços à Petrobrás ou nos longos dias que passa em alto mar.
P: Como é que você se sente quando ele está fora?
Missi: Sim, sinto bem por que ele está procurando, né?!E sinto um
pouquinho... como é que se diz?! Falta dele, que ele não está em casa
todos os dias para estar lidando com os meninos. Ah fica difícil, né?!Um
pouco difícil. Fica um vazio dentro de casa, eu sinto um vazio quando ele
sai para pescar. É um vazio, um vazio mesmo...Quando ele sai para maré
eu sinto aquele vazio dentro de mim, um vazio mesmo...Nem eu consigo
explicar esse vazio…É difícil. [...] Aquele vazio que vem e quando é aquele
vazio de quem perde, aí que fica um vazio mesmo dentro da gente. Não
consigo nem de imaginar.
P: Mas você imagina?
Missi: Ah, imagino...Por que a gente nunca está descansada, né?!

No início da abordagem do tema do vazio, ao falar sobre as ausências de seu
companheiro por conta de seu ofício, Missi colocava inicialmente a sensação
experimentada como uma falta que ao longo dos encontros vai tomando forma de
um vazio, a princípio inexplicável por ela. A palavra vazio é recorrente quando ela se
depara com temas relacionados ao sentimento que se estabelece na ausência de
Elir. No percurso do encontro adentramos num espaço desconhecido, um lugar que
é experimentado ao ritmo das marés e as fases da lua, quando Elir vai pescar.
O vazio que ela coloca é “materializado” em situações em que a ausência de seu
companheiro é sentida ao longo dos dias em que Elir estar em alto mar. Missi, ao
habitar o quarto do casal (em um de nossos encontros ela me apresentou sua casa
e ao chegarmos no quarto do casal, ambiente íntimo de encontro entre os dois, ela
representava para si a presença invisível de Elir). É neste espaço de representação
57

de seu companheiro que Missi “representa a existência sensível daqueles com quem
entro em contato em certos momentos” (HALBWACHS, 2006:12).
Vão se tecendo lembranças de seu companheiro que são representadas nos
momentos, como ela coloca: “[...] a pessoa passa a mão assim na cama... Dentro de
casa, ele gosta de assistir os jornais. Venho assistir os jornais ele não está no
sofá[...]”. São circunstâncias colocadas por Missi em que as lembranças são
despertadas no momento em que experimenta o vazio, podendo ser entendido como
“o tempo vazio” Halbwachs (2006), “[...] momento em que ocorrem cortes que
tendem a se estender às durações e às consciências das outras pessoas”. “[...] será
possível imaginarmos que se desenrola uma espécie de tempo vazio” (Halbwachs,
2006:14).
Com relação a possibilidade de enfrentamento de um vazio no que se refere
aos riscos de Elir não voltar do mar, ela coloca:
Missi: Penso, penso... penso muito quando ele vai para alto mar. É um
risco, muito bem sai, mas ninguém sabe o dia que chega.Só sabe Deus[...]
Os filhos já é uma companhia da gente dentro de casa, né?! [...] Tenho
amigos que foram para o alto mar e não voltaram. Saiu o barco da
Petrobrás e não encontrou até hoje, nem corpo e nem nada. O mar a
pessoa vai, mas também não sabe se volta, só quem sabe é Deus.

O mar é descrito por Corbain (1989) em seus estudos sobre a praia e o
imaginário ocidental como um ambiente marcado por uma “densidade de conflitos
que se manifestam nesse território suspenso”. O mesmo mar que Missi entrega Elir,
sob um discurso de quem acredita na providência divina, pois não há outra
possibilidade de enfretamento das inconstâncias da natureza.

2.1.2 Seu Jorge: olhos rasos pelo mar

Seu Jorge: [...] Agora, só que eu via você... Passava aqui e ficava naquela
casa ali, olhando lá. Você passava...

Ainda nos tempos dos primeiros encontros com o Pontal quando surgiram os
primeiros interesses de pesquisa costumava caminhar nos fins de tarde, passear
58

pelo lugar com a intenção de apenas contemplar o poente do sol, acompanhava
esse momento em um lugar que desde a primeira vez que o vi fiquei impressionada.
Já faz um tempo que isto ocorreu, quando criança meus pais organizaram uma
viagem de carro para percorrer o Litoral Sul fazendo paradas pelas suas praias e
pontos turísticos.
Esse foi um dos melhores passeios que fizemos e que nunca mais se repetiu.
Passamos por várias praias conhecendo, tirando fotos que por sinal nunca foram
reveladas. Dentre esses lugares passamos pelo Pontal de Coruripe e lembro-me de
ter ficado impressionada, talvez por conta da minha pouca noção na época, com o
fato de uma rua acabar no encontro com o mar. Essa lembrança do Pontal marcoume bastante, foi uma mistura de incompreensão e beleza. Diminuída a
incompreensão, restou a beleza.
Esse lugar que é parada obrigatória para os que estão de passagem pelo
Pontal, não chega a ser um ponto turístico, é apenas uma rua com algumas árvores
e casas em que se construiu uma espécie de mirante e que é frequentado como
ponto de contemplação do mar em sua imensidão e o pôr do sol, mas que nos dias
de semana, de pouco movimento de turistas é mais um lugarzinho em que de vez
em quando chegam moradores para conversar, namorados se encontrarem e
meninos brincarem.
Durante as caminhadas que realizava pelo Pontal, Seu Jorge estando em sua
lanchonete, havia percebido minha presença e antes mesmo de nos conhecermos
ele mencionou ter percebido minha presença no lugar, como também, já tinha o visto
em seu estabelecimento, com o olhar contemplativo pousado sobre o mar ou em
conversas calorosas com seus amigos que ali chegavam.
Em conversas com Missi e Elir ao perguntar sobre eles terem conhecimento
sobre algum morador antigo do Pontal logo o nome de Seu Jorge surgiu como
referência no lugar. Depois desta conversa segui para o estabelecimento de Seu
Jorge que pelo que me indicavam era o mesmo que já havia observado. Quando
cheguei à sua lanchonete ele se mostrou bastante interessado em me ajudar mesmo

59

sem saber ao certo do que se tratava, pois não tratei de maiores detalhes nesse
primeiro momento, mesmo assim, já marcamos um encontro para conversarmos.
Na hora marcada fui até o seu estabelecimento que fica localizado na “rua
grande” (é o termo utilizado por Seu Jorge para denominar a rua em que mora, uma
das ruas mais antigas do Pontal). [...] “Era a única rua que tinha assim, tipo um
comércio, as outras já veio depois, fazendo ruas, casas” (Seu Jorge). Fui recebida
por Seu Jorge que já me esperava na companhia de alguns amigos que já sabiam
da minha vinda e que ao longo dessa conversa interviam e compartilhavam suas
vivências e foi nesse ambiente amigável que comecei a conhecer a história de Seu
Jorge e que pude explicar melhor os motivos que me levaram a conversar com ele,
como morador “antigo” do Pontal.
Seu Jorge: Meu pai me contava que ele veio muito jovem mesmo, então
meus pais chegaram aqui muito jovem. Foi crescendo, crescendo por que
eles vieram de um lugar chamado Baixa Verde era um lugar que tinha aqui
para cima. Sertão. Vieram ele [pai de Seu Jorge], dois irmãos e uma irmã e
os velhos, né?!O velho (avô de Seu Jorge) quando chegou aqui deixou a
esposa e viajou para banda de Sergipe... Para comprar uma foice. Saiu
dizendo que ia comprar uma foice e não voltou mais. [...] Aqui era uma
ilhazinha de pescador, era quatro casinhas de palha, né?! Aí foi crescendo,
crescendo, a população vai crescendo, um filho casa aí já tem outra
família... Aí vem gente de fora compra terreno. E hoje em dia está esse
povoadão, né?! Mas ainda é povoado!

Filho de José Antônio dos Santos, mais conhecido como Baixo Verde, e Dona
Laura dos Santos, Seu Jorge nasceu no Pontal na casa dos pais e aos doze anos
seu pai lhe ensinou o ofício da pesca. Acompanhou de perto as transformações do
povoado. Em um de nossos encontros Seu Jorge me apresentou com muito
entusiasmo o livro Bico: O filho de um jangadeiro brasileiro de Leona e Shepard
Forman, a obra traz uma narrativa lúdica a despeito da perspectiva de um menino
chamado Bico, trazendo valioso material visual do lugar na década de sessenta e
que em meio às reflexões acerca do lugar e com a confiança de Seu Jorge, é uma
das bibliografias consultadas da pesquisa.
O livro é bastante apreciado por ele, que demonstra um forte vínculo com o
Pontal através de uma “rede de amizades” em que ele vai tecendo em pormenores
as trajetórias dos “personagens” que aparecem no livro. Seu Jorge me apresenta
seu pai em meio às lembranças. Na foto, o pai de Seu Jorge aparece capturando um
60

tubarão, neste tempo essa prática era bastante comum, assim como, a captura de
tartarugas.

Seu Jorge: A gente saia daqui para feira de lá de pés, muitas vezes três
horas da manhã. Caminhando para vender o peixinho. Aí quando nos vinha
trazia a farinha, o feijão, o arroz. [...] Na festa de Bom Jesus dos navegantes
as brincadeiras eram todas aqui. Vendia bolo, vendia aquelas broas, vendia
castanha, tudo, tudo.

61

Escutando essas lembranças de Seu Jorge era possível ir montado um
quadro de imagens dos festejos que aconteciam no Pontal antigo e das caminhadas
para freira que eram feitas a pé e no escuro.
A festa que Seu Jorge menciona em suas memórias é uma tradição que já
atravessa dois séculos, a festa de Bom Jesus do Navegante é organizada pela
Igreja junto com a Colônia de Pescadores Z-109 e com a prefeitura de Coruripe. Ela
é uma das principais festas realizadas no povoado. Figura como um importante
evento religioso e turístico do Pontal.
Os festejos são realizados no segundo domingo de janeiro e têm início com
centenas de pessoas cortejando o padroeiro Bom Jesus dos Navegantes
percorrendo as ruas do povoado em procissão, rezando e cantando até a beira mar,
onde dezenas de barcos saem em uma procissão fluvial que pode durar até quatro
horas. Ao retornarem à praia é realizada uma missa. Além disso, são montadas
feiras, parques de diversão e são realizados vários shows com bandas locais.
A festa simboliza a renovação de votos ao santo protetor dos pescadores.
Nestes dias de festa o santo é reverenciado e comemorado unindo-se aos
agradecimentos e pedidos relacionados aos ganhos na pesca. Para os turistas é
uma festa tradicional do Pontal bastante aguardada pelos seus festejos a beira mar
e pelo clima festivo do lugar nessa época.
Numa conversa entrecortada por barulhos da rua e grandes pausas de Seu
Jorge, a conversa seguia como ele mesmo diz “naquele joguinho”. Ao falar da lida
com o mar que dentre outras “habilidades” exige parcimônia e foi nesse ritmo que a
conversa seguiu. Com a voz pausada Seu Jorge continuava:
Seu Jorge: Ele (pai de Seu Jorge) me explicava sobre a vida na pesca[...]
10

A gente ia pela linha, pela sassanga até chegar... Até chegar no ponto…
sassangando... A primeira vez que a pessoa vai quem dá toda a dica é o
9

A Colônia dos Pescadores Z-10 do Povoado do Pontal foi fundada em 1921, hoje tem cerca de 2500
pescadores associados
10

Sassangando é o termo que Seu Jorge traz para o encontro para contar como os pescadores faziam para
medir a profundidade do mar.

62

profissional, né?!Ele pega a linha, o anzol, ele mede como é que você vai
largar aquela linha. Até a segurar ele ensina. Quando o peixe pega se você
não aguentar entrega para ele, para ele puxar. [...] Lá (no mar) eu não
comia e quando chegava em terra eu não comia também, enjoava. Um
enjoo da maré [...] Dormia lá em cima de uma bolina, uma tábua, eu ficava
lá, um sol quente e um frio que chega ficava tremendo [...] Aí, fui me
acostumando. Depois eu já ia sozinho. [...] Eu mesmo vomitava muito.
Então, eu me acostumei mesmo por que não tinha emprego nenhum. Era só
a pesca, e tirar coco eu não sabia. Até hoje eu não subo um palmo de
coqueiro [...] Tentei, mas não consegui não.

É neste “território suspenso” 11 que Seu Jorge faz suas primeiras incursões no
fazer-se pescador junto ao seu pai, cuja experiência acumulada nos anos de pesca
é comunicada ao dar-lhe conselhos na lida com o mar, uma prática tão cara a figura
do narrador, segundo Benjamin (1985). Conselhos que são transmitidos no ato da
pesca, em meios aos ritmos do trabalho. Foi com o irmão mais velho que o pai de
Seu Jorge aprendeu o ofício da pesca. Seu Jorge conta que seu pai era pescador
“profissional”. Era assim denominado “por que ele sabia muitas coisas do alto mar
(Seu Jorge).
Na geração de Seu Jorge, os meninos eram introduzidos bem cedo aos
aprendizados que envolviam a pesca, havia casos de meninos com sete anos já
serem iniciados.
Seu Jorge: Eu na época, se tivesse emprego aqui, eu não tinha dado para
ser pescador. Por que eu ia para o alto mar, mas quando eu voltava, voltava
doente. Não comia. Vinha tonto, como que tivesse tomado um porre de
cachaça, entendeu?!
Passava o dia... Mas no outro dia tinha que enfrentar de novo. Botava tudo
para fora [...] Mas eu fui me acostumando, acostumando. Hoje em dia se eu
for é a mesma coisa que está aqui. Não sinto mais nada. Não era todo
mundo que ia. Mas eu não tinha outro emprego, precisa de um dinheirinho.
Mas hoje quando eu vejo o tempo bonito, aqueles homens indo para o alto
mar me dar aquela saudade, muita vontade mesmo.

11

Alain Corbin, em estudo sobre a praia e o imaginário ocidental, assim descreve o ambiente do mar ao falar
“da densidade de conflitos que se manifestam nesse território” (Corbin, 1989:214).

63

Seu Jorge aos dezoito anos é convocado para servir o exército, esse tempo é
lembrado por ele com certo tom nostálgico, revivido como um momento cheio de
realizações, principalmente pelo fato de que neste período que passou no serviço
militar ele pode praticar aquilo que desde a infância havia tomado gosto e que até
então lhe era reservado pouco tempo para se dedicar, a saber, os esportes. Seu
Jorge conta com entusiasmo sobre sua forte inclinação para os esportes e que foi
servindo no exército que pode praticá-los cotidianamente, pois jogava na seleção do
quartel.
Na época apesar do bom desempenho e com forte possibilidade de seguir
nesta carreira, Seu Jorge não sabe explicar ao certo sobre a mudança nos rumos de
64

sua futura carreira profissional, diz apenas que foi “Burrância minha, minha filha
[...]Não quis! Chance eu tive e muita, está entendendo?! Por que eles não queriam
que eu saísse. Eu fui quem pedi ” (Seu Jorge). Ao cumprir com as obrigações civis,
Seu Jorge segue direto para o Rio de Janeiro para trabalhar, lá permanece por cinco
anos e é lá também que nasce seu primeiro filho.
Passados os cincos anos no Rio de Janeiro. Seu Jorge muda para Sergipe,
trabalhando em Aracaju inicialmente numa gráfica na qual é despedido com pouco
tempo de trabalho. Segue sendo servente de pedreiro e em seguida vai trabalhar em
uma empresa de pesca. “Procurei trabalho e não encontrei. Digo: vou é pescar! Que
eu sei pescar! ” (Seu Jorge)
Ao longo de nossas conversas Seu Jorge relatava as histórias do lugar a
partir de sua experiência pessoal, a partir de seus encontros pessoais com a gente
do lugar em um tom de uma narrativa biográfica marcada por uma serenidade e
resignação com os acontecimentos de sua vida, até os acontecimentos mais
intempestivos eram contados no mesmo tom seguindo sempre a sua cadência
“naquele joguinho”, como quando me contou sobre uma aventura que vivenciou em
alto mar:
Seu Jorge: [...]Essa foi a pior. Já enfrentei muito trovão, relâmpago.
Tempestade mesmo no alto mar... Quando a gente estava lá de repente
formou-se uma nuvem e essa nuvem[...] nós chamamos bomba de vento. É
que nem um funil, um funil mesmo! A parte de cima bem cheia e embaixo
vem afinando... O vento vem ali, o temporal vem ali. Vem fazendo aquele
rodamoinho embaixo. Aquela barroca faz um buraco mesmo! Fez-se dentro
do mar e se aproximou da gente. “Lá vem, lá vem, lá vem...” O mestre lá
12
com a experiência dele. Aí foi lá fez uma Salamão , na cabina do barco. E
quando já estava próximo mesmo, aí ele cavou a faca assim no meio, no
Salamão, nós tudo aí vendo ele fazer tudo. De repente a ventania que vinha
atrás da gente aí ele desviou. Saiu descendo assim e água fervendo como
se tivesse fogo, aquela laboração, sabe?!Eee, passou direto para lá e a
gente aqui ele só veio só. A ventania bem forte e o barco querendo até virar.
Graças a Deus, a mão de Deus é mais poderosa. Fez o milagre dele, aí
passou o vento forte, continuou. A ventania ficou bem forte. E nós “vamos
embora, vamos embora[...] Colamos a âncora em cima do barco e dirigimos,
só que não era motor era vela, abrimos só o meio da vela. Não
conseguimos. Abrimos a vela totalmente, mas a ventania era demais. Aí
depois quando foi anoitecendo e nós não estava vendo nada, nada, nada
12

Salamão é uma espécie de bússola improvisada, utilizada por pescadores antigos. Que exigia muito intuição
de quem o manejava além de um domínio sobre a natureza.

65

13

mesmo. “Vamos larga a poita aqui e ver onde nós estamos”. Não tocou
não[...] E depois nós foi ficar de frente pra Lagoa Azeda e no outro dia
amanheceu calmo. Nos fincamos o mastro e chegamos aqui[...] Aí, pronto!
Foi o temporal mais forte que nós pegamos, foi esse! Umas seis horas da
tarde começou essa aventura.

Essa aventura, como Seu Jorge relata, aconteceu ainda quando ele era
aprendiz de pescador. Neste relato pude perceber uma maior vivacidade no seu
contar, sem que para isso recorresse a uma dramatização que beirasse ao heroísmo
destes homens. Sempre ressalta em seus relatos relacionados à lida com o alto mar
a necessidade de se ter parcimônia nestes momentos em que não “sem ter em que
se agarrar”. Seu Jorge, ao falar sobre as habilidades necessárias em alto mar,
ressalta dentre outras, que o mar exige um jogozinho. Habilidade que se expressa
na capacidade de manter-se sereno frente as adversidades do mar, como quando
ele esteve à deriva com seus companheiros.
Corbin (1989) em seus estudos sobre a praia e o imaginário ocidental, ao
analisar um conflito entre pescadores, descreve uma predisposição dos pescadores
em atribuir um caráter divino as fronteiras das águas no agenciamento de seus
conflitos. É bem comum dentre a comunidade de pescadores do Pontal uma mesma
predisposição, tanto dos que se lançam no mar como os que aguardam o retorno
dos pescadores.
Seu Jorge me conta que sempre foi bastante namorador14, no Rio de Janeiro
teve seu primeiro filho, em Sergipe teve mais dois filhos e quase se casou. Quando
ainda morava em Sergipe foi passar férias no Pontal e reencontrou Maria José, uma
antiga namorada dos tempos da escola.

13

É como os pescadores chamam a corda que amarra a ancora.

14

Ao contrário do que Alain Corbin vai descrever sobre os “marinheiros”, “pescadores” ou os “homens da
costa” e sua disposição para “a vivacidade e o gosto da dança, a paixão irrefreada, verdadeira tempestade
interior, à propensão a embriaguez. Seu Jorge se distancia desta descrição, mas em seus relatos sobre outros
pescadores muitas dessas disposições são apontadas por ele, principalmente a que se refere à embriaguez
colocada muitas vezes como uma das principais causas de desajustes domésticos no que se refere ao
provimento da família do pescador.

66

Namoraram por um ano e logo em seguida começaram os preparativos para o
casamento. “Eu vim para cá. Aí pedi aos pais, né?! Ela quis também. Aí eu disse a
ela que não ia custar muito, nos se casar. Aí quando eu vim trouxe a aliança.
Casamos aqui na igreja” (Seu Jorge).
Os planos de Seu Jorge e Maria José eram de ir morar em Aracaju, ele já
estava até construindo uma casa, mas com a morte da mãe de Maria, eles decidem
ficar no Pontal para cuidar de seu pai que na época negociava peixe e possuía uma
embarcação. “Aí ela disse se eu aceitava morar aqui com o pai dela [...] Mas eu
tinha comprado o terreno lá em Aracaju, tive que vender, né?!” O pai de Maria José
ainda hoje mora com o casal. Um senhor já bastante idoso que em algumas
conversas na lanchonete nos acompanha e às vezes faz algumas intervenções
confusas e de pouco entendimento.
Numa de nossas conversas Seu Jorge menciona que fazia aniversário
naquela data, septuagenário de vinte sete de outubro. Ele conta o motivo pelo qual
teve que se aposentar, assunto este que ele tratou superficialmente em nossos
primeiros encontros e que só passado algumas conversas retomou este tema.
Seu Jorge: Foi problema de saúde [...] Que eu fui no alto mar, aí quando eu
voltei de manhãzinha, seis dias de alto mar. Aí voltei com meus amigos. Aí
tinha um rapazinho que era muito meu amigo. Quando eu chegava da maré
dava um peixe a ele. E eu estava com um oriente, relógio, novinho, novinho
zerado, aí o rapaz olhou assim para mim e disse: “- Jorge você estar assim
com o aspecto diferente”. Digo: - Eu rapaz?! - Sim! Aí que eu olhei para o
relógio, o relógio parado. Oxe?! Aí quando eu saltei para terra. O cara disse:
“-Você estar com o gesto diferente Jorge, seus olhos estão muito
vermelhos”. Aí imediatamente eu fui...que era uma empresa de pesca. Aí eu
fui lá, falei com o patrão. E ele disse: “-Vamos agora mesmo para o médico”
[...]Aí o médico disse: “-Jorge, não desanime, nem fique triste, nem nada,
mas o senhor não tem mais condições de ir para o alto mar[...]Você está
com problema no coração” [...] Pronto! Aí não fui mais para o alto mar.

E sem pensar, apenas em tom saudoso, relatou sobre os tempos de
pescador:
Seu Jorge: Aí de muitos anos, dos antepassados. De pai para o filho, de
neto para o tataraneto. Quem dar para pescar, quem não procura outros
meios, outros procuram negócio de construção por que na época, os
estudos eram muito difícil. [...] Tinha escola, a única escola que tinha era
essa colônia (A escola a que Seu Jorge se refere é hoje sede da Colônia de
Pescadores do Pontal). Eu estudei aí ainda, muito jovem. Mas os outros era
tudo particular, professora assim na casa deles mesmo. Eu tinha uma tia
que era professora. Antigamente era só duas pessoas de jangada de pau

67

que antigamente não tinha barco. Só pau de jangada[...] Dormia por cima de
peixe, salgava, forrava aquele pedacinho de esteira. Deitava. [...] Hoje em
dia não... Antigamente era só pela mente, viajando pela mente. Não tinha
com o que se comunicar, nem nada.

68

69

O uso da jangada há muito está ligado à história do Nordeste. Segundo
Freyre, em sua obra Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a

70

paisagem do Nordeste do Brasil traz elementos históricos que podem contextualizar
a utilização da jangada na pesca realizada pelos negros:
[...] “as jangadas estiveram por muito tempo ligadas à cana, ao açúcar e ao
negro de engenho. Tanto quanto o carro de boi. Ainda hoje não quebrou de
todo a ligação dos tempos de engenho de água. E segue relatando um
episódio: Faz poucos dias, vimos reunidos, em praia do norte de Alagoas,
como no Nordeste de 1700, a jangada, o negro e o carro de boi. A barcaça
quase no seco da praia e entre ela e um carro de boi, uma jangada fazendo
de ponte de embarque. Os cabras quase nus, carregando açúcar (Freyre,
2004:66).

A cena descrita por Freyre, assemelha-se a uma das passagens presentes no
livro Bico: O filho de um jangadeiro em que aparece Capilé, senhor negro,
responsável pela construção da jangada, o carro de boi trazendo a madeira, os
meninos correndo. Neste tempo, a pesca era realizada exclusivamente com
jangadas como relatou Seu Jorge.
Distantes no tempo, os relatos circunscrevem a jangada como um elemento
que localiza uma possível herança desse tipo de pesca que remonta desde os anos
de 1700. Na história verifica-se a localização dos engenhos próximos a fontes de
água como rios, lagoas e o mar essa proximidade influenciou bastante a dieta das
famílias dos engenhos como também a dos mocambos. Os negros que nos tempos
de escravidão vão para o mar a serviço de seus “donos” após a abolição continuam
nesta atividade como meio de sobrevivência:
Os engenhos antigos do Nordeste viviam muito do mar e dos rios: dos
peixes, dos caranguejos, dos pitus, dos camarões, dos siris, que a dona da
casa mandava os moleques apanhar pelos mangues, pela água, pelos
arrecifes. Esses pescadores a serviço da casa patriarcal tornando-se
jangadeiros iguais aos caboclos; tão peritos quanto eles no traquejo das
jangadas, das canoas e da rede de tucum, na caça aos jacarés, ás emas e
aos veados da margem dos rios. Deram mesmo uma técnica mais doce ao
manejo da canoa, impelida tão sem gosto pelos caboclos; nas mãos do
preto o remo e a vara da jangada e de canoa tornaram-se instrumentos
quase de gozo; às vezes até de certa delícia masoquista (Freyre, 2004:66).

Gilberto Freyre traz ainda uma reconfiguração dos usos do mar em tempos de
nossa sociedade essencialmente escravista e assim descreve:
A água nobre é hoje a do mar- esse mar nuns lugares tão azul e noutros tão
verde que banha as areias do Nordeste. Iemanjá mesma já não é adorada
pelos pretos de Xangô na água dos rios mais principalmente na água do
mar. E, entretanto, faz pouco mais de um século que essas praias ilustres
não eram senão imundície. Faz pouco mais de um século que nelas só se
fazia atirar o lixo e o excremento das casas; se enterrar negro pagão; se

71

deixar bicho morto; se abandonar esteiras de bexiguento ou lençol de
doente da peste (Freyre, 2004:72).

Seu Jorge em um de nossos diálogos conta muito superficialmente da
presença de religiões de matriz africanas no tempo que as práticas religiosas eram
mais expressivas no povoado e que hoje encontram-se restritas a espaço
particulares.

72

Anúncios de jornal da primeira metade do século XIX trazem negros
canoeiros. Como o caso de Francisco José do Nascimento, o jangadeiro cearense
que se distinguiu na campanha da Abolição e ficou conhecido pelo nome de guerra
“Dragão do mar”. E hoje são multidões os negros barcaceiros e jangadeiros em
Pernambuco, na Bahia e em Alagoas (Freyre, 2004:66).
Seu Jorge: [...] Eu já tive uma jangada, já possuí uma jangada. Até um ano
aqui, ano de São Pedro teve uma corrida, ganhei até troféu, ela andava
muito aí ganhamos o troféu. Na corrida de jangada.

Esse tipo de corrida era bastante comum no Pontal antigo. Ainda se realiza
essa competição em alguns lugares vizinhos, como Penedo, Neópolis, Santana do
São Francisco e Propriá, segundo o Relatório do IPAHN (ANTUNES, 2008), sobre
as memórias de trabalhadores da beira do rio em Penedo15.

15

Em Penedo as corridas são de canoas e figura como o ponto alto dos festejos de Bom Jesus dos Navegantes
que ocorrem no mesmo período que no Pontal também com procissão, feiras e shows.

73

Seu Jorge: A pessoa pensa mil coisas em um só momento. Aquele
jogozinho. A gente mesmo já está acostumado, a gente fica imaginando
assim e quando vem ficando a noite é que é...É quando vai ficando a noite é
que mais assim o cara vai ficando assim num sombrossozinho, entendeu?!
Por que às vezes não fica todo mundo[...] Fica um só ali olhando o navio,
uma coisa outra. [...] Vê o sol nascer assim vivo, né?! De manhãzinha
aquele sol bonito. Onde nos pescava só via mar e céu, não via nada, nada.
[...]Medo faz muito, quem não é acostumado nem vá! Nem vá porque não é
muito bom não. [...] A pessoa vai para o mar, agora para voltar, só sabe é
Deus, né?![...]Para voltar quem determina é ele mesmo.

Em um outro relato Seu Jorge conta sobre a importância de manter certa
sobriedade estando em mar.
Seu Jorge: Parou motor, ficamos à deriva lá, o mar só batendo e cobria
tudo, o barco querendo afundar. Meus companheiros querendo cair n´água.
Aí dizia: -Não, não, não vai sair daqui não. Só vai sair quando nós ver esse
barco afundar. Mas a mão de Deus é mais, né?! Os poderes dele, sei que
saiu levando, levando aí sei que saímos do perigo. Aí ficamos lá à deriva. O
mar era tão forte que a lancha da Petrobrás na época queria chegar perto
da gente, mas não conseguia para dar o socorro[...] Aí a gente fez tipo uma
vela, aí nós vinhemos descendo, descendo até dar em terra. Mas tinha
deles (pescadores) já querendo abandonar. Querendo saltar n ´água. Uma
loucura dessa que não vai chegar ninguém em terra. Tem que ter paciência.
No alto mar não adianta se apavorar, nem se desesperar, não. Tem que se
apegar com Deus. Você gostaria de pescar?
P: Da experiência que tive eu não sei, viu?!
Seu Jorge: É...
P: Por que foi tão pouco e eu estava vendo tudo do lado de cá[...] Eu fiquei
sem chão. (Trata-se de uma experiência que tive com Elir, quando este
levou-me para conhecer o seu barco).
Seu Jorge: Pouco nervosa, né?! Estranha mesmo! A gente pesca, mas não
é assim um emprego que a gente ver ganho adequado é porque a gente
arruma o pão de cada dia, mas é meio perigoso, meio não, perigoso! Por
que você saiu para o alto mar, você está indo, mas para voltar só quem
sabe é Deus. Para ser pescador tem que ter sorte!

A noção de emprego é posta no contraste em relação ao ofício da pesca
marcado de incertezas, embora os pescadores estejam assegurados pelo INSS e
mais recentemente (2003), o seguro-defeso intermediado pela Associação dos
pescadores. Figura como exemplos de trabalho assalariado nas proximidades do
povoado, os empregos na prefeitura de Coruripe, no comércio, escolas, usina e
casas de família.
P: Gostaria de ter estudado?
Seu Jorge: Gostaria ...só que eu não tinha tempo. Por que ou ia querer a
bóia, o pão de cada dia ou estudava. Aí, ia passar dificuldade com os

74

irmãos, né?! “Aí eu não vou, vou cuidar da minha alimentação e ajudar a
minha mãe”.
P: Seus filhos não deram para ser pescador?
Seu Jorge: Foi uma coisa que eu nunca ensinei meus filhos. Eu queria que
eles estudassem[...] Eles sentiam falta quando saia para pescar. Eles
estudaram até grande em Coruripe.

Em tom saudoso e já próximo do fim de um de nossos encontros, Seu Jorge
desabafa sobre seus sonhos e vontades de voltar a pescar em alto mar.
Seu Jorge: Às vezes eu digo: Vou pescar! Por que hoje em dia os jovens de
hoje não querem levar pessoa de mais idade. Não quer! A pessoa de idade
não tem agilidade que tem um jovem. O alto mar não quer isso. Pessoa que
não tem a destreza, não tem agilidade. Às vezes eu sonho, sonho
pescando. Já sonhei várias vezes, várias vezes mesmo, não foi uma vez só
não[...] De achar que estava lá, pegando peixe, óia?! Quando acordo, estou
aqui (risos). Ainda ontem eu estava sonhando pescando. Juro por Deus! Era
mesmo que está pegando o peixe assim... Nossa! Quando se acorda,
cadê?!

CAPÍTULO 3

DOS ENCONTROS EM CAMPO: um mergulho no universo da pesca

“Vamos chamar o vento, vamos chamar o vento. Vamos
chamar o vento, vamos chamar o vento. É vista quando
há vento e grande vaga, ela faz o ninho no rolar da fúria
e voa firme e certa como bala. As suas asas empresta a
tempestade quando os leões do mar rugem nas grutas
sob os abismos passa e vai em frente. Ela não busca a
rocha, o cabo, o cais, mas faz da insegurança a sua
força e do risco de morrer o seu alimento. ” (Citação
presente na música “Vamos chamar o vento” de Gal
Costa)

As discussões que seguem são frutos dos encontros etnográficos com o
povoado do Pontal, em seus ritmos, com as narrativas de Missi e Seu Jorge e com
as vozes dos moradores em depoimentos formais e informais. A partir desta imersão
75

no ambiente da pesquisa alguns elementos foram sendo traçados e que merecem
ser analisados na tentativa de dar sentido as vivências compartilhadas nesse
povoado em que a pesca confere tonalidades próprias ao lugar e nas histórias
partilhadas.
Foi nos diálogos com Missi e Seu Jorge que surgiram os principais
pressupostos que serão desenvolvidos neste capítulo. Em suas narrativas algumas
pistas foram apresentadas apontando para o desenvolvimento de uma reflexão
acerca do vivido em campo, sem perder de vista a posição que ocupava estando em
campo, o que trouxe tonalidades próprias na pesquisa, como salienta Caldeira
(1998) em seu artigo Uma incursão pelo lado: não-respeitável da pesquisa de
campo.
Em minhas primeiras entradas em campo me apresentava como estudante de
Ciências Sociais e que deseja desenvolver uma pesquisa no povoado e sua relação
com a pesca a partir de suas histórias. Essa posição em campo reconhecida pelos
narradores marcou nossos diálogos desde os primeiros contatos. E não poderia
passar despercebida pelas reflexões acerca das situações que vão ambientando o
campo de pesquisa.
Caldeira (1998), em seu artigo sobre o lado não- respeitável da pesquisa de
campo,

elabora

reflexões

acerca

da

aparente

neutralidade

nas

relações

estabelecidas em campo. “Ao entrar no ambiente da pesquisa o antropólogo deve
refletir sobre as condições que atravessam a relação estabelecida entre pesquisador
e interlocutor” (CALDEIRA, 1980:332). Se insere nestas reflexões o reconhecimento
compartilhado da legitimidade do saber científico que coloca o pesquisador na
posição de investigador e o interlocutor responsável em relatar os fatos com
veracidade.
Ao entrar em campo e pensando nesta aparente neutralidade da relação entre
interlocutor e pesquisador que se insere no trabalho de campo uma relação de poder
é estabelecida e compartilhada nas sutilezas do fazer antropológico. Foi nos
diálogos com Missi que os questionamentos desenvolvidos por Caldeira (1980) se
mostraram com mais vivacidade. Quando no fim de uma de nossas conversas Missi
76

disse: “Espero ter ajudado no seu trabalho”, demonstrando uma preocupação com o
desenvolvimento da pesquisa.
A frase proferida por Missi ecoava ainda sem que um sentido fosse conferidolhe, e inicialmente foi apenas uma nota de diário de campo. Ao longo dos encontros
e o interesse em “ajudar” de Missi foi ficando cada vez mais nítido no
reconhecimento de um saber socialmente legitimado que se desdobrava em
expectativas que ela alimentava de acessos mais significativos para seus filhos a um
conhecimento legitimado difundido inicialmente nos ambientes escolares.
Nos encontros com Seu Jorge sua relação com a pesca foi um dos temas
centrais de nossas conversas e neste sentido, o mundo do trabalho e da escola
foram amplamente discutidos por ele, no agenciamento de suas escolhas e rupturas
com esses dois espaços, como quando o momento em que ele fala “que teve que
sair da escola para poder ajudar sua mãe e irmão na subsistência familiar” (Seu
Jorge).
Nas narrativas de Missi e Seu Jorge se desenrolam biografias marcadas
pelos ritmos das marés, atravessadas por diferentes gerações que experimentam o
cotidiano no povoado. Suas histórias apresentam um evento comum de ruptura com
o espaço escolar em detrimento da entrada e envolvimento na atividade pesqueira.
A fala de ambos traz sentimentos contraditórios acerca desse rompimento com o
espaço escolar e a entrada na atividade. De um lado, certo pesar tendo em vista as
possibilidades que poderiam ter sido construído e do outro, um contentamento ao
vislumbrar o que conseguiram dadas as condições que lhe foram colocadas.
A aproximação de horizontes proporcionada por temas relacionados ao
ambiente escolar marcou fortemente os encontros com Missi e Seu Jorge. Tendo em
vista as considerações de Magnani (1996) acerca do trabalho etnográfico de que “as
primeiras observações já obedecem a algum princípio de classificação”, as
condições em campo, os diálogos e as temáticas tocadas nos encontros foram
sendo considerados ao longo do processo da pesquisa como elementos norteadores
que foram traçando os principais contornos do trabalho.

77

Esses primeiros traços que delineiam a pesquisa foram trazidos para a
reflexão com o intuito de conhecermos um pouco mais o ambiente de pesquisa
como também compreendermos os andaimes16 para a reflexão neste capítulo, no
empenho de adentrarmos no ambiente marítimo da comunidade de pescadores do
povoado, através das narrativas de Missi e Seu Jorge e nos vários diálogos travados
ao longo da pesquisa que trouxeram para a discussão uma tensão geracional no
que se refere à identidade de pescador em vias de um possível declínio que, dentre
outros fatores, é evidenciada por expectativas direcionadas para uma continuidade
da trajetória escolar.
Antes de adentrarmos nesse ambiente da pesca do povoado do Pontal,
faremos uma breve incursão sobre os estudos referentes ao ambiente marítimo no
âmbito das Ciências Sociais, que se mostrou relevante para conhecermos as
principais abordagens, estudiosos e enfoques desta temática em que o trabalho está
inserido.

3.1 Breve panorama sobre estudos de pesca nas Ciências Sociais

O interesse das Ciências Sociais pelo mar é relativamente recente, sendo a
geografia humana e a história, as primeiras áreas do conhecimento a explorarem
este campo. Trabalhos como de Herubel (1928), A evolução da pesca e o de A.
Thomazi (1947), A história de pesca, publicados na França que tratam da pesca sob
uma perspectiva histórica e geográfica foram alguns dos marcos iniciais de
desenvolvimento deste tema.

16

Vagner Gonçalves da Silva em sua obra “O antropólogo e sua magia” vai trazer a noção de andaime para
tratar dos questionamentos acerca do modo como se apreende o conhecimento de comunidades. Trazendo
para o centro de sua discussão como sendo este um dos objetivos da etnografia o que possibilita “olhar através
da organização da narrativa as múltiplas veredas que lhe deram origem (SILVA, 2000:119).

78

Os estudos de sociedades de pescadores tiveram início na Etnologia, quando
pesquisadores ingleses começaram a fazer ciência. Malinowski em 1922 publicou
sua obra Argonautas do Pacífico Ocidental, com um enfoque em críticas
metodológicas, mais detidamente sobre o método evolucionista que caracterizava a
pesca como um estágio civilizatório anterior à agricultura e à sedentarização.
O autor, inserido numa perspectiva funcionalista, estudou a sociedade dos
insulares tombriadeses, particularmente o kula (troca ritual de bens) realizado no
âmbito da navegação entre as ilhas da Polinésia. Suas análises sobre as funções
das crenças religiosas, dos mitos e da magia contribuíram decisivamente para
consolidar uma Antropologia Moderna baseada no método de observação.
Outro pesquisador que contribuiu decisivamente para a construção da
Antropologia foi Raymond Firth, também funcionalista, que publicou em 1946 Os
pescadores Malaios. Para Firth a economia da pesca e a economia camponesa
eram idênticas. Segundo este autor, ambas as economias apresentam analogias
estruturais e a sociedade dos pescadores foi tratada como parte das sociedades
camponesas, concepção refutada posteriormente em 1970 pelo próprio autor, que
passou a realizar uma distinção entre o camponês e o pescador, baseada no tipo de
acesso aos recursos naturais.
Esses primeiros antropólogos não tinham como um estudo específico as
sociedades insulares (Malinowski) ou as sociedades marítimas dos pescadores
(Firth), como afirma Breton (1989). O interesse de ambos teóricos era dirigido à
elaboração de novas metodologias e ao avanço teórico da Antropologia. Ainda
assim, estes foram os primeiros marcos de estudos desenvolvidos, ainda que de
modo não central, das comunidades pesqueiras.
O estudo das sociedades marítimas, sobretudo a dos pescadores ganhou
força entre os estudos antropológicos e sociológicos com pesquisas que se
desenvolveram no Atlântico Norte. Breton (1989) cita os trabalhos de Barnes (1954),
Blehr (1963) e Barth como pioneiros nessa nova fase de estudos dos pescadores do
Mar do Norte, em que a problemática principal se centrava nas mudanças sociais
ocorridas com essas comunidades. Essas pesquisas foram publicadas por Anderson
79

e Wadel em 1972 numa coletânea intitulada:

North Atlantic Fishermen:

Anthropological essays on modern fishing.
Contemporaneamente,

trabalhos

de

antropologia

que

enfocam

especificamente às sociedades de pescadores começaram a ser publicados em
outras regiões do mundo. Entre as décadas de 40 e 60 trabalhos como dos
antropólogos Pierson e Teixeira (1947): Survey de Icapara, uma vila de pescadores
do litoral sul de São Paulo e Gioconda Pierson e Teixeira (1947) com o trabalho O
cerco da tainha na Ilha de São Sebastião (1945) e O cerco Flutuante: uma rede de
pesca japonesa, que descrevia o modo de vida e técnicas de pesca utilizadas pelos
pescadores- caiçaras do litoral de São Paulo foram desenvolvidos.
Outra contribuição etnográfica significativa para o entendimento das relações
entre as comunidades caiçaras, oriundas da miscigenação entre o colonizador
português, o índio e o negro foi realizada por Mussolini (1980). A autora analisou
também o processo de disseminação entre os caiçaras do cerco flutuante, aparelho
de pesca introduzido pelos migrantes japoneses.

Entre 1950 e 60 houve uma contribuição significativa dos geógrafos humanos
que descreveram vários aspectos da distribuição e formas de vida dos pescadores
entre o Rio de Janeiro e Santa Catarina (França, 1954; Berrardes,1958; Brito Soeiro,
1961). Pode-se afirmar que, com raras exceções, eram trabalhos mais descritivos e
empíricos, sendo que, no final da década, apareceram alguns trabalhos dirigidos ao
"estudo de comunidades" (Carvalho, 1969).
A partir de 1960, alguns trabalhos ganharam densidade metodológica e
teórica, enfocando, sobretudo a questão das mudanças sociais entre os pescadores
litorâneos. Destacam-se os trabalhos do folclorista Luís da Câmara Cascudo (1957)
em sua obra Jangadeiros que realizou o primeiro estudo sistemático sobre a pesca
da jangada no Nordeste e as comunidades de jangadeiros, enfocando as suas
tradições e seus conhecimentos.
Nesse trabalho, provavelmente pela primeira vez é descrita a pesca de
caminho e assento ou marcação, pela qual os marcos ocultos no mar são
demarcados visualmente através do uso de acidentes geográficos no continente.
Outro trabalho que deve ser mencionado é o de Hélio Galvão: Novas Cartas da
80

Praia (1968), onde o autor faz uma etnografia dos pescadores de jangada de Tibau
do Sul no Rio Grande do Norte.
Entre 1967 e 1970, merece destaque um importante trabalho realizado dentro
de uma perspectiva antropológica, e fugindo ao modelo de análise de comunidade, o
artigo de Cordell, The lunar tide fishing cycle in Northeastern Brazil (1967),
enfatizando o conhecimento dos pescadores do litoral da Bahia sobre os ciclos
naturais e o sistema de manejo pesqueiro.
Tiveram também trabalhos como o do antropólogo norte-americano, Shepard
Forman, em seu livro The raft fishermen (1970), que teve como principal foco a
mudança social e a tradição numa vila de jangadeiros, de Coqueiral, no litoral de
Alagoas. Forman afirmava que os jangadeiros de Coqueiral eram inventivos e que
adotavam inovações desde que estas os beneficiassem diretamente e que não
apresentassem

grandes

riscos

ao

que

viviam

num

patamar

mínimo

de

sobrevivência. Essas inovações incluíam, por exemplo, a introdução de redes mais
eficientes. Para o autor, apesar do caráter tradicional da atividade pesqueira, as
mudanças ocorriam vagarosamente, sendo acompanhadas de novas relações
econômicas, particularmente por uma distribuição de riquezas que se dá, em geral,
em detrimento dos pescadores.
A partir do final 1970 e meados de 1980, alguns trabalhos de sociólogos e
antropólogos ganharam densidade metodológica e teórica. Neste sentido merece
destaque trabalhos como dos sociólogos Mourão (1971), Diegues (1971, 1983) e
dos antropólogos Kottak (1966), Forman (1970) como também os trabalhos dos
antropólogos Maldonado (1986), Duarte (1978), Lessa (1985) e Beck (1979) que
estudaram pescadores artesanais no Nordeste, Leste e Sul do Brasil.
Até recentemente, essas comunidades marítimas “eram estudadas com a
utilização de conceitos e metodologias aplicadas às sociedades agrícolas ou rurais”
(Diegues, 1995:17). Estudos de caráter antropológico e sociológico, a partir do final
da década de 70, tanto no Brasil quanto no exterior, começaram a indicar as
limitações teóricas e metodológicas encontradas na análise das sociedades
marítimas

oriundas da

aplicação

dos conceitos

próprios

das

sociedades

camponesas. Neste sentido, iniciou-se o desenvolvimento de uma área específica

81

do conhecimento nas Ciências Humanas intitulada de Antropologia Marítima, Sócio
Antropologia marítima, ou ainda, Antropologia da pesca.
A Antropologia Marítima é hoje um campo de pesquisa especializado de
estudo etnológico sobre comunidades que vivem do mar, especialmente da pesca. A
construção desse campo disciplinar é recente e o verbete Antropologia Marítima
aparece pela primeira vez em 1992, no prestigiado Dictionaire de l’Ethnologie et de
l’Anthropologie, publicado pela Presses Universitaires de France, sob direção de
Pierre Bonte e Michel Izard.
Segundo Geistdoerfer (1989), a Antropologia Marítima estuda a variedade e a
complexidade dos sistemas técnicos, sociais e simbólicos elaborados pelas
populações litorâneas no processo de apropriação do espaço marinho que daí
retiram sua subsistência. Ainda sobre as populações litorâneas Geistdoerfer (1989)
afirma que:
As práticas sócio-culturais da gente do mar, o conjunto de comportamentos,
reúnem aquilo que denominamos por „técnico‟, „simbólico‟, „social‟,
„econômico‟, „ritual‟. Essas práticas são marcadas, de maneira original, por
essas „propriedades naturais‟ do mar, socializadas pela aplicação dos
diferentes sistemas. Mas segundo o valor social, econômico ou simbólico
que as comunidades dão ao mar e aos seus recursos, o conjunto de
práticas socioculturais dessas comunidades pode ser marcado de forma
diferenciada (Geistdoerfer, 1989: 7).

Com o desenvolvimento dos estudos relacionados as comunidades marítimas
Centros de Antropologia/Sociologia Marítima surgiram recentemente no Canadá,
França e Holanda. Em Paris, o Centro de Etno-Tecnologia em Meio-Aquático foi
fundado em 1970 por pesquisadores em Ciências Humanas no Museu Nacional de
História Natural.
Mais recentemente, antropólogos e sociólogos brasileiros têm produzido
trabalhos que acenam para uma sociologia e antropologia das comunidades
marítimas. Partes desses pesquisadores estão associados ao CEMAR, Centro de
Culturas Marítimas, da Universidade de São Paulo, onde, em associação com o
Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental tem sido ministrado um curso
sobre Antropologia Marítima, a disciplina também é ministrada no Departamento de
Antropologia do Museu Goeldi, em Belém do Pará e na Universidade Federal da
Paraíba, em João Pessoa.

82

Esses são alguns dos marcadores iniciais de constituição e desenvolvimento
desta área de pesquisa que apontam para um crescente interesse em desenvolver
pesquisas junto a essas comunidades, no qual a pesquisa se insere no empenho de
poder contribuir com o os estudos relacionados a esta temática.

3.2 Paisagem do Pontal: itinerário sobre a rítmica do lugar

Acompanhando o cotidiano do povoado e a partir das narrativas de seus
moradores, pude começar a perceber outra paisagem se desenhando acerca do
lugar. O conceito de paisagem, entendido aqui como uma possível representação de
planos que dão conta da relação espacial e simbólica entre os objetos visíveis de
forma a compor um todo (CAUQUELI apud DEVOS, 2006:40). A paisagem enquanto
representação ou visão de mundo (GEERTZ, 1978, 27), é entrecruzada por uma
relação com o ambiente, marcada pela influência dos ritmos da natureza que se
configura no exercício da atividade pesqueira realizada na região.
Nas narrativas a paisagem aludida do lugar não é a paisagem visível, mas
uma paisagem que diz respeito às práticas cotidianas nos espaços que não se
esgota, portanto, em uma maneira de ver o espaço, mas também na materialização
de seus usos que pode ser experimentado de diferentes formas, uma delas é a
experiência que é sentida pelos que são de fora. Neste sentido, Corbin (1989)
descreve o interesse dos citadinos no ambiente e nas populações das zonas
litorâneas, o tipo particular de turismo que se atrai por estas “freguesias litorâneas” e
sua representação idílica têm suas raízes na vida urbana e na tentativa de se
libertarem das mazelas que caracterizam a “vida mental” da metrópole, compondo
muitas vezes um “quadro adocicado” da vida dos habitantes da praia.
À medida que convivia com as pessoas do lugar e sentia as suas rotinas e
ritmos, a paisagem foi se configurando de maneira particular e alguns contornos
foram aparecendo e ganhando formas ainda não experimentadas, como por
exemplo, o tom que é dado pela pesca ao lugar, seja no balanço dos barcos que se
misturam ao céu e ao mar; nas confabulações de pescadores em meio ao
entardecer; ou no cheiro forte de peixe em suas ruas. Sendo o povoado, o “espaço
83

de referência” (ECKERT; ROCHA, 1993,132) em que a pesca figura como um dos
importantes marcadores neste espaço
Reconstruir essa paisagem habitada por estes pescadores incide na
necessidade de reconstruir os ritmos do lugar, para adentrarmos neste espaço
construído e vivenciado por esses habitantes em suas práticas cotidianas
relacionadas com a pesca que imprimem uma rítmica própria que ressoa em todo
povoado.
O ciclo das estações do ano produz no lugar mudanças significativas que são
acompanhadas por estratégias que mudam toda a rotina do lugar. No transcorrer do
trabalho de campo pude acompanhar essas mudanças na paisagem do local a partir
deste ritmo dos trabalhos associados à pesca. Entrever essa nuance do lugar
permitiu entender suas dinâmicas a partir da mudança de estações em que as
atividades pesqueiras se inserem, como delineadoras das rotinas e mudanças nos
compassos em seus diferentes espaços.
As estações do ano no Pontal são mais demarcadas a partir de dois
momentos ao longo do ano: um inverno que é caracterizado por um período chuvoso
que inicia em junho e vai até agosto, podendo variar. E um verão bastante seco, que
apresenta variabilidade em relação á ocorrências de chuva. Configurando-se como
um ambiente marcado por variações climáticas, típico da região Nordeste de
estados circunscritos na faixa litorânea.
Nos meses em que inicia o inverno no povoado, as ruas ficam esvaziadas.
Neste período, os pescadores ficam em terra reparando seus barcos e não saem
para pescar, pois os ventos e as ondas ficam muito fortes. O movimento de turistas e
banhistas vindo da capital cessa, as chuvas deixam o mar turvo e o céu fica tão
embaçado que quase não conseguimos avistar os barcos em meio ao cinza de
alguns dias desta estação. Ainda que estejamos no período de chuvas, acontecem
dias ensolarados que faz reaparecer os banhistas vindos da capital.
Quando o verão inicia em dezembro os pescadores retornam a suas
atividades mais diretamente ligadas à pesca e com isso a movimentação recomeça.
Assim como, a chegada de turistas para ocupar as pousadas e casas de veraneio
84

que coincidem com os meses de férias do trabalho. A praia se enche de sol, o mar
perde seus tons turvos de inverno e aos poucos os sons altos vão aparecendo, os
carros cheios de gente vão chegando, os estabelecimentos que permaneciam
fechados abrem suas portas, os bares vão sendo abastecidos a espera de
consumidores e começam a funcionar noite adentro, a bebida, a ocupação das
praças e das casas aumenta e o clima festivo de férias é estabelecido.
O ciclo da pesca no Pontal é ainda atravessado por períodos de defeso,
momento em que a captura de peixes não é autorizada, neste período os
pescadores recebem o benefício do Governo Federal e para isso necessitam estar
em situação regular no que se refere a comprovação e manutenção enquanto
profissional da pesca.
A relação entre os ritmos do lugar e a sazonalidade pode ser sentido pelo
atravessamento que a inserção em campo proporcionou no entendimento do
cotidiano do povoado marcado por uma forte rítmica. O verão, que além de
apresentar as potencialidades turísticas do local compõem nesses dias também os
preparativos para as investidas no mar.
Assim como em outras sociedades que estabelecem uma relação de
atividades que visam à sobrevivência por meio da natureza, como por exemplo,
observou Roberto Kant de Lima, que em sua pesquisa com os pescadores de Niterói
ao relacionar os fenômenos da natureza com a atividade da pesca pode verificar
similaridades com a atividade da agricultura, ambas apresentam seus ciclos
econômicos marcados pelas dinâmicas da natureza, “quando predominam diferentes
processos de produção, havendo, portanto, condições “econômicas” e “extraeconômicas distintas que influenciam seu funcionamento e características, os
resultados desta relação serão predominantemente os seus resultados associados
as condições ecossistêmicas” (LIMA,1997:164).
Em estudos sobre as variações sazonais das sociedades esquimós, Mauss
(2003), traz a partir do contato com essa população a descrição das mudanças
nessa sociedade conforme as estações do ano, pontuando a maneira pela qual os

85

homens se agrupavam, a forma de suas casas e a mudança de suas instituições
que se encontravam diferentes no decorrer dessas variações.
Enquanto os meses de inverno são caracterizados pela concentração da
população esquimó em territórios específicos, o verão proporciona a dispersão desta
população por longas extensões. Para Mauss, essas mudanças em conexão com as
variações experimentadas por essas populações e podem ser observadas em
contextos diversos o que possibilita observar “mesmo nas sociedades em que elas
são menos imediatamente visíveis, em que a trama formada pelos outros fatos
sociais as dissimula ” (MAUSS, 2003:426).
As variações sazonais pensadas a partir de Mauss, auxilia na observação e
entendimento das transformações ocasionadas pelas estações do ano nas rotinas
do lugar. O verão, período do ano em que ocorre o deslocamento de populações
vinda de todos os lugares, inclusive de outros países dirigindo-se para a praia do
Pontal, configurando-se como um momento de forte presença de turistas que
modifica visivelmente a paisagem do lugar e que proporciona trocas e relações mais
ou menos duradouras com os moradores, como por exemplo, no caso dos padrinhos
de Missi que tinham uma casa de veraneio próximo à praia o que possibilitou o
encontro com seu pai e a feitura de laços que desenrolaram no deslocamento de
Missi para a capital na busca de melhores acessos escolares.
Nos demais meses do ano, o ritmo do Pontal toma uma forma bastante
distinta daquela encontrada no verão. As casas ficam quase que todo o resto do ano
fechadas sob os cuidados de caseiros; alguns estabelecimentos fecham as suas
portas e as ruas vão tomando sua calmaria e ares bem distintos daqueles do verão
que podem ser compreendidos enquanto processos de ocupação e esvaziamento do
povoado em consonâncias com as variações climáticas o que conforma mudanças
na paisagem.
Outra noção que lança luz sobre a rítmica do lugar é o que Evans-Pritchard
(2005) vai denominar de “sistema ambiental”, para entendermos um pouco mais as
mudanças provocadas pelo ciclo pesqueiro e suas influências na paisagem do lugar.
Evans-Pritchard em sua descrição a despeito dos modos de subsistências e das
86

instituições políticas do povo nilota, traz importantes marcos referenciais para
adentrarmos nesta comunidade na sua relação íntima com a natureza no que o
antropólogo denominou de “tempo ecológico”, ao estudar os Nuer numa articulação
entre os ciclos da natureza e os ciclos sociais na vida desta sociedade.
É neste contexto ecológico no qual os pescadores estão inseridos que se dá a
sua relação íntima com as nuances ecossistêmicas que influenciam os ritmos do
povoado, uma vez que a pesca é uma das principais atividades de subsistência da
maioria de seus moradores e que pode ser observada de forma análoga ao enfoque
dado pelos estudos de Evans-Pritchard (1978), cuja principal atividade baseava-se
na lida com o gado, sendo este um elemento fundamental para compreensão de
seus modos de vida.
Neste sentido, uma relação ecológica com o lugar, que pode ser entendido
como espaço importante na “constituição da experiência pesqueira” (MALDONADO,
1994:34) em que são delineados os acontecimentos relacionados a pesca e que
marcam profundamente a paisagem do povoado na definição dos modos de vida de
maneira singular no que se refere as influências da natureza na tomada de decisões.
Um “tempo ecológico” (EVANS-PRITCHARD, 1978) é experimentado pela
comunidade, cuja referência de sua organização social está pautada em sua relação
com o ambiente marinho, influenciada pelos ciclos do verão e do inverno, que divide
o tempo em dois momentos de experiências distintas com o lugar, pois o cotidiano é
atravessado por um tempo relativo onde as estações do ano estão intimamente
relacionadas com a dinâmica social.
Os aspectos que definem as cadências da vida social, são os ritmos da
natureza e de maneira mais detida, o da pesca em seus ciclos que são demarcados
por períodos de restrições/declínio e abundância, o que envolve toda uma relação
de socialização entre os pescadores que transforma o “ritmo ecológico” em “ritmo
social” anual. De acordo com esses ritmos, constata-se, em relação ao tempo, que
sua duração se dá a partir da atividade pesqueira. “Sendo a passagem de um ciclo
para outro, percebida na relação que uma atividade se relaciona com as outras”
(EVANS-PRITCHARD, 1978:115).
87

Sentir a rítmica do lugar abre caminhos para conhecer as influências das
variações ecossistêmicas no povoado do Pontal adentrando no tema do próximo
tópico acerca dos conhecimentos necessários para a mobilidade em alto mar.

3.3 “Muito bem a gente sabe o dia que sai, mas o dia que vem, só Deus que
toma a frente deles tudinho que vão para o alto mar”: o saber-fazer na arte de
pescar
A contraposição entre uma educação formal oriunda dos espaços escolares e
uma educação informal baseada no exercício de uma atividade considerada
artesanal, como é caso da pesca, que envolve o domínio da técnica e
acompanhamento de todas as etapas produtivas deste ofício, confere a este saber
local uma expressão simbólica e material a partir de um seu jeito de ser, estar e ver
o mundo (GEERTZ, 1989) inserindo-se dentro de um universo simbólico particular
que pode ser captado a parti da herança cultural.
Nas muitas investidas em campo e visitas a casa de Missi, pude conhecer
muito dos pescadores do Pontal que nos finais de semana se reúnem em sua casa
para conversar, beber e se deliciar com os pescados. Foi na casa de Missi que pude
travar importantes contatos com os pescadores, num desses encontros fui
apresentada a Erivaldo e José Daniel, ambos pescadores desde os doze anos.
Começamos a conversar sobre o ofício da pesca de modo informal. Eles
começaram a falar a respeito dos desafios da atividade pesqueira assim como
apresentaram uma longa descrição das espécies de peixes capturados por eles e
uma detalhada descrição sobre seus respectivos comportamentos. Tendo esses
conhecimentos em vista ambos pescadores relatavam da limitação acerca dos
resultados obtidos na captura dos peixes.
Contexto similar ao encontrado por Adomilli (2002) em seu estudo em que
acompanhou o cotidiano de trabalhadores da pesca do Parque Nacional da Lagoa
do Peixe no Rio Grande do Sul, a partir de suas representações práticas sociais,
alguns aspectos comuns do ethos pesqueiro são recorrentes em ambas as
88

comunidades pesqueiras. O autor comenta em seu trabalho acerca do fator sorte
apontado em muitos relatos recolhidos junto aos pescadores do Parque assim como
nos relatos de Seu Jorge que salientou “que é preciso ter “sorte para ser um bom
pescador”.
O ofício requer em suas incursões pelas inconstâncias do mar um senso de
localização ancorado em habilidades específicas ligadas ás familiaridade com o
meio marítimo. Esse senso de localização é produzido em meio a marcadores
invisíveis e visíveis. Em relatos, Seu Jorge narra que a localização de cardumes de
peixes e a captura de espécies específicas eram realizadas com a medição da
profundidade do mar, “a gente ia sassangando até o lugar certo da captura”.
Um meio importante de localização para os pescadores do povoado é o Farol
que pertence ao Centro de Sinalização Náutica, construído no ano de 1948. A sua
construção foi acompanhada de perto por Seu Jorge na época momento em que já
realizava as suas primeiras incursões em alto mar. O Farol é hoje símbolo do
município de Coruripe.
O mar em seu movimento ininterrupto das águas, tantas vezes aludido como
local de manutenção da comunidade traz uma mística carregada de um sentimento
de entrega, nos gestos e dizeres desses pescadores. O mesmo mar que já foi
cenário de manifestações religiosas africanas nos dias de festa do padroeiro do
povoado. Seu Jorge ao comentar sobre este acontecimento relata que achava bonito
“aquela gente toda de branco saindo para o mar”.
Na lida com o mar uma concepção de liberdade é esboçada de maneira
ambígua nas falas dos pescadores que de um lado, controlam todas as etapas
envolvidas na realização do ofício em comparação a outras atividades; por outro, os
pescadores experimentam privações na ordem dos acessos aos bens materiais por
conta das incertezas que marcam a atividade.
Com relação às aprendizagens da pesca, esta é realizada através de um
saber-fazer que se dá a partir dos conhecimentos passado de uma geração a outra.
Woortman (1987) em seus estudos acerca dos modos como os camponeses do
Nordeste estruturam os trabalhos agrícolas em uma colônia ao sul do país pontua
89

que os conhecimentos são “transmitidos no próprio trabalho, geralmente por uma
pessoa mais velha” (WOORTMAN apud RECHENBERG, 2007: 66) traçando
possíveis pontos em comum com a atividade da pesca.
No momento dos primeiros aprendizados sobre a pesca, Seu Jorge aponta
em seu relato as inúmeras dificuldades de adaptação aos ritmos marítimos e ao falar
deste momento de entrada na pesca ele reivindica a falta de possibilidades. Já a
inserção de Elir foi marcada por transformações da atividade. Nos tempos de Seu
Jorge, os pescadores pescavam com jangadas. Já Elir, com o auxílio das políticas
de incentivo a pesca, construiu seu próprio barco e conta hoje com modernos
instrumentos para se localizar em alto mar.
Com entradas em momentos distintos de desenvolvimento da atividade
pesqueira, tanto Seu Jorge quanto Elir produzem um mesmo discurso no que diz
respeito a falta de oportunidades – sendo a atividade ainda a única possibilidade de
obtenção de subsistência para as famílias com baixo grau de instrução.
A tônica dada por estes e outros pescadores com relação a falta de
possibilidades locais de desenvolvimento de outros trabalhos é marcada por uma
dualidade entre a falta de escolhas e um contentamento com a realização da
atividade pesqueira praticada no povoado e que é marcada não só por
imprevisibilidades em alto mar como também em terra nas responsabilidades
referente a manutenção de suas famílias.

3.4 Travessia: os caminhos e descaminhos na atividade pesqueira do Pontal
de Coruripe
Iniciaremos a discussão sobre as mudanças no rumo da pesca pensando a
sua relação com o lugar, marcada pelas relações que se estabelecem no cotidiano,
“o que garante a construção de uma rede de significados e sentidos que são
produzidos pela história e pela cultura de uma dada sociedade, constituindo uma
identidade, uma vez que é esse espaço que o homem se reconhece porque é o
lugar da vida” (MENDES, 2008:140).
90

O lugar dos discursos produzidos é importante para se pensar as trajetórias
dos pescadores Elir e Seu Jorge no que se refere aos caminhos e descaminhos da
pesca experimentados por essas gerações que emoldura as transformações nos
horizontes de possibilidades a partir de um recorte das experiências da pesca nos
diferentes momentos em que estão associadas.
A ruptura com o ambiente escolar em detrimento da manutenção de sua
sobrevivência através da realização da atividade pesqueira traz características que
podem dialogar com os estudos de Santos e Sampaio (2012) que em seu artigo
sobre o processo de declínio da pesca artesanal em Fernão Velho-AL constatam um
baixo nível de instrução dentre os pescadores, realidade comum a outras
comunidades pesqueiras no Nordeste brasileiro (SOUZA; NEUMANN- LEITE, 2000;
NASCIMENTO; SASSI, 2007; ALENCAR; MAIA, 2011), inclusive na comunidade do
Pontal.
Em sua pesquisa com os pescadores da lagoa os autores identificaram que
“apesar destes baixos índices há grande preocupação quanto aos acessos à
educação formal de seus filhos” (SANTOS; SAMPAIO, 2012:6). Eles relacionam este
fato à atual política de inclusão social do governo brasileiro e também ao
cumprimento da legislação, que está punindo os pais ou responsável pela
negligência na educação dos filhos, segundo o Art. 246 do Código Penal – Decreto
Lei 2.848/40, Art. 22 e 55 do Estatuto da Criança e do Adolescente – Decreto Lei
8.069/90; Art. 1.634 do Código Civil- Decreto Lei 10.406/02.
Os autores ainda enfatizam que os pescadores não desejam que seus filhos
se tornem pescadores, pois alegam que a pesca não garantiria um futuro promissor,
tampouco garantia a subsistência das famílias fazendo com que estes buscassem
outras atividades. Situação semelhante foi observada por Nascimento e Sassi (2007)
em Cajueiro da Praia (PI) e Lima e Velasco (2012) em comunidades do estuário da
Lagoa dos Patos (RS) em que os conhecimentos envolvidos na pesca estão
deixando de ser transmitidos as novas gerações.
O contexto apontado como favorável ao desenvolvimento de uma
permanência escolar mais duradoura abre caminhos para se pensar a situação da
91

atividade frente aos acessos ao ambiente escolar. À medida que os filhos dos
pescadores podem optar por outros caminhos, e, no caso, dos pescadores do
povoado, com o consentimento e intenção definida de descontinuidade ocupacional,
isso implica numa mudança significativa na estrutura familiar, como também em um
possível enfraquecimento da atividade nas próximas gerações. As escolhas dos
filhos também delineiam e definem possíveis contornos para “novos tempos” no
Pontal.
Gilberto Velho (1994), em suas reflexões acerca das sociedades complexas,
a partir de uma abordagem interacionista traz para o debate um modelo teórico que
abarca um contexto em permanente “confronto dentro do complexo jogo de
negociação da realidade” (Velho, 2006:51), sendo assim, uma “heterogeneidade
cultural que deve ser entendida como a coexistência, harmoniosa ou não, de uma
pluralidade de tradições” (Velho, 1981:16) e requer a consciência da interpenetração
de diferentes mundos e a fluidez das fronteiras culturais.
Tendo como principais referenciais teóricos em suas reflexões acerca das
sociedades complexas, as pesquisas desenvolvidas na Escola de Chicago, onde o
trabalho do Sociólogo Georg Simmel fora influência teórica indubitável. Além deste,
Schutz (2012), com seus escritos sobre fenomenologia das relações sociais, figuram
como as bases de seu pensamento.
Gilberto Velho vai desenvolver suas principais reflexões pautadas nas
sociedades complexas em que o indivíduo precisa traçar um projeto para lidar com
os sistemas de valores diferenciados e heterogêneos, com os quais se depara na
sociedade na qual está inserido, o que não excluí sociedades menores que também
não são totalmente homogêneas em que a vida social se dá na interação das
diferenças.
A organização relacionada à manutenção da continuidade dos filhos de Missi
e Elir no ambiente escolar, envolve procedimentos de ordem moral e simbólica,
como a valorização dos estudos, o lugar atribuído à escola, ao título por ela
concedido e no apoio e encorajamento transmitido sobre o empenhos e resultados
escolares, além de uma participação materializada pela vigilância e mesmo
acompanhamento na realização das atividades, assim como uma atenção na
92

ocupação do tempo, na assiduidade às aulas, na escolha de escolas de melhor
prestígio da rede pública, entre outras dimensões capazes de aproximar a relação
do estudante com a escola.
Essa conduta está circunscrita ao que Gilberto Velho denominou de projeto
que figura como “a conduta organizada para atingir finalidades específicas” (Velho,
2003:38), vale ressaltar, que este processo não é linear, nem contínuo ou
homogêneo e, portanto, deve ser compreendido em suas multiplicidades. A
elaboração de um projeto implica em uma antecipação da futura trajetória e biografia
do sujeito, neste sentido, insere-se a dimensão da memória. E neste sentido, Missi e
Elir acionam suas vivências no ordenamento de suas vidas em sua relação com a
pesca para elaborarem estratégias que contribuam para a descontinuidade
profissional de seus filhos.
A elaboração de projeto não opera num vácuo, mas sim, a partir de premissas
e paradigmas culturais compartilhados por universos específicos, que Velho (2003)
denominou de campo de possibilidades, onde o ato e a possibilidade de escolha dos
indivíduos, em oposição à determinação do grupo, são o ponto de partida para a
formulação de um projeto individual.
Os projetos, ainda que reconhecidos como individuais, estão inscritos em um
contexto sócio cultural específico, elaborados a partir de um recorte circunscrito
histórica e culturalmente. O campo de possibilidades é fundamental para a
compreensão da maneira pela qual os projetos são elaborados e modificados ao
longo de uma trajetória de vida.
De um lado, temos a tradição da pesca estabelecida ao longo dos anos como
principal fonte de manutenção da sobrevivência; do outro, a elaboração de projeto
que visa dar sentidos a uma trajetória escolar duradoura, ainda recente dentre os
pescadores, e que tem como principal motivação a demanda do mercado de
trabalho. Em uma das falas de Elir, ele expressa com bastante ansiedade sobre uma
das limitações de seu ofício:
Elir: Eu converso com muitos pescadores, porra, um diz: “rapaz, se eu
arrumasse um emprego eu deixava de pescar”. O outro: “se eu arrumasse
um emprego eu deixava de pescar”. Por quê? Por que está enjoado do

93

dono de barco, das dificuldades de pagar a casa. Por que hoje em dia é
cartão de crédito em todo canto, hoje em dia. Por que a pessoa que
trabalhe em qualquer canto é fácil ter cartão de crédito. Mande o pescador
conseguir. Não existe não cartão de crédito para pescador. Tem que
declarar uma renda fixa.

Elir tem anseios no que se refere às possibilidades de acesso que não são
contemplados de maneira satisfatória com a realização de seu trabalho. Em sua fala,
o investimento a favor do trabalho assalariado contraria as observações realizadas
em outros trabalhos sobre o universo da pesca (Diegues, 1997; Maldonado, 2001)
em que uma ideia de liberdade é colocada em contraposição ao trabalho
assalariado.
A fala de Elir e dos demais pescadores do povoado apresenta uma
expectativa muito expressiva no que se refere à melhoria das condições de seus
filhos, em detrimento da ruptura com o mundo da pesca e a busca por contextos
mais favoráveis para o seu desenvolvimento em profissões que garantam maior
estabilidade financeira. Quando perguntado a respeito de ensinar seu filho Elias os
saberes envolvidos na pesca, Elir faz questão de afastá-lo do ofício, ao contrário do
tempo de Seu Jorge, em que os meninos eram inseridos muito cedo na atividade
pesqueira.
Ainda que a demanda do mercado de trabalho seja importante neste processo
de elaboração de sentido da escolarização, entra em cena também elementos mais
subjetivos no que se refere ao desejo de superação da condição familiar, a
ocupação de posições mais qualificadas, reconhecimento social, ampliação de
conhecimentos e participação na sociedade.
Esses anseios com relação à escolarização não eram vislumbrados nos
tempos de Seu Jorge, ele mesmo conta que deixou os estudos para auxiliar na
manutenção de sua família. A geração de Elir vai se deparar com as mesmas
condições, com alguns casos isolados de ruptura com a atividade. No caso dos
filhos de Missi e Elir, uma outra possibilidade está sendo desenhada a partir de um
“campo de possibilidades” favorável ao investimento em uma outra profissão.

94

À medida que filhos dos pescadores podem fazer outras escolhas, se
liberando do projeto familiar de continuidade ocupacional implica também em um
enfraquecimento e uma mudança significativa da estrutura familiar. As rupturas com
o estilo de vida dos antigos podem implicar na saída desses jovens do povoado, em
busca de novas oportunidades, ou no desenvolvimento de práticas distintas das dos
pais.
Um trabalho que pode dialogar com este cenário atual da pesca no Pontal é o
artigo de Paixão (2007) acerca do significado da escolarização para um grupo de
catadoras de um lixão de São Gonçalo. A autora, dentre outras questões, aborda
que a inserção dos filhos das catadoras no espaço escolar significa que os mesmos
terão acesso a “aprendizagens dos instrumentos básicos necessários à integração
em uma sociedade letrada e amplie chances no mercado de trabalho” (PAIXÃO,
2007:227).
Paixão coloca no cerne de sua discussão a inserção de famílias
desfavorecidas que não tinham acesso ao espaço escolar e, de como são
elaborados os sentidos e expectativas referentes à escola por essas catadoras. A
inserção no espaço escolar por famílias que apresentam vulnerabilidade social, pode
ser compreendida se associada há uma forte expansão educacional no Brasil que
também alcançou a comunidade do Pontal.
Com a ampliação do papel do estado, via alocação de gastos sociais na
esfera educacional e de políticas educacionais específicas, a rápida urbanização e
transição demográfica do Brasil na composição social das famílias e da clientela
escolar, contribuíram para mudanças nas condições de vida e da distribuição
geográfica das famílias e, ainda, a demanda educacional por parte da população
(SILVA e HASENBALG apud ZAGO, 2007). Esses fatores vêm contribuindo para
uma democratização da escola, que ainda dá não se de maneira efetiva por
depender de variáveis, como por exemplo, o meio social, o sexo, a nacionalidade ou
a origem geográfica.
Essa expressiva procura por prolongamento do percurso escolar pode ser
explicado por acontecimentos que ocorreram nos anos 90 e que foi “marcadamente
crítico para os jovens do ponto de vista profissional com o crescimento da taxa de
95

desemprego; a redução do emprego assalariado e; o fortalecimento de ocupações
não-assalariadas, em sua grande maioria em condições precárias” (Zago,
2007:148).
Essas aproximações com o contexto educacional em diálogo com populações
que apresentam vulnerabilidade social traçam algumas semelhanças com o contexto
do povoado do Pontal, através dos discursos produzidos sobre o investimento no
prolongamento da escolarização nos tempos atuais.
As mudanças no horizonte de possibilidades de famílias vulneráveis, e, neste
caso, os pescadores do Pontal, foram oportunizadas por um contexto que é
favorável à criação de sentidos em trajetórias escolares mais duradouras, tendo em
vista as intervenções institucionais capazes de proporcionar uma relação mais sólida
e também por uma capacidade destes pescadores em perceber a interpenetração
de diferentes mundos e a fluidez das fronteiras culturais na elaboração mais
consciente e intencional de um projeto que se opõem aos caminhos da pesca.

GUISA DE CONCLUSÃO: dos aprendizados em campo
Fazer parte de tantas lembranças e momentos superpostos, nos diversos
encontros em que compartilhei das memórias, dos gestos e práticas cotidianas dos
narradores, ou simplesmente nos momentos em que nos estregávamos às
conversas sobre temas diversos, me proporcionou o reencontro com um outro
Pontal, através dos vínculos afetivos construídos.
O mar, os barcos atracados, o pôr do sol, os pescadores confabulando nas
praças, as moças tecendo seu artesanato de Ouricuri; imagens que se entrelaçam a
ritmicidade do povoado que vão pouco a pouco compondo o ambiente e a memória
coletiva de seus habitantes.
Mergulhar nesse ambiente singular, onde as vidas são ordenadas pelos
elementos dos cosmos, das águas, dos peixes, exigiu que se transfigurasse a ideia
inicial de uma aparente acomodação por parte dos pescadores com relação aos
96

desígnios da natureza, em uma resignação que se explica na entrega sem medidas
às inconstâncias marítimas, essa foi uma das valiosas lições dessa pesquisa. Um
mergulho pontuado pela diferença, próprio do fazer antropológico, mas também
envolvida em um “estar-junto” onde os limites eram movediços, criados e recriados
no tecer das relações estabelecidas que escapam a própria pesquisa.
A advertência levistraussiana de que “não é jamais ele mesmo nem o outro
que ele (etnógrafo) encontra ao final de sua pesquisa” (LÉVI-STRAUSS, 1960:17),
ganha um sentido mais vivo após essa vivência em campo. Pois, não só foram
produzidos, a partir de minha presença, efeitos nas histórias desses narradores,
como também, trago comigo suas presenças que a cada investida em campo foram
transformando não só o meu olhar dentro da pesquisa, mas também, o meu próprio
olhar para a vida.
Após nove meses de pesquisa, os “dados sensíveis” recolhidos em campo: a
produção fílmica do documentário Missi e os sentimentos envolvidos à medida que
as histórias dos narradores eram ouvidas, constituíram uma nova experiência com o
Pontal. Somam-se a um conjunto de áudios dos encontros, fotos, imagens gravadas,
a descoberta do livro Bico: O filho de jangadeiro, que se configurou como elemento
importante no processo da pesquisa, além da produção de relatos e dilemas
pessoais sob as condições em campo que são indissociáveis da pesquisa
etnográfica e da escrita do diário de campo. Esses elementos configuram um retrato
de uma experiência etnográfica e de uma ambiência particular na qual se desenrolou
a pesquisa.
Nessa perspectiva, não pretendo encerra as inúmeras possibilidades de
interpretação do universo da pesca no povoado do Pontal. Pelo contrário, a
aproximação com este ambiente constitui-se em um esforço por apresentar um
retrato do que foi possível ser experimentado enquanto estava lá me relacionando
de maneira única com os interlocutores e com o lugar.
É importante pontuar sobre a limitação do trabalho em dar conta de maneira
mais elaborada dos conhecimentos envolvidos na arte da pesca artesanal. Em
tempos de ampla discussão acerca do processo de desescolarização que tem
97

apresentado importantes questionamentos sobre o formato do processo educacional
nas escolas. Faz-se necessário fazer um estudo mais profundo sobre as práticas
não formais de ensino, que persistem em pequenos povoados nos aprendizados que
são passados de geração em geração.
Ao realizar a pesquisa, inquietações que escapam aos limites de reflexão
deste trabalho foram surgindo, como por exemplo, um estudo mais elaborado sobre
o percurso escolar dos filhos dos pescadores conhecendo o “ponto de vista” dos que
participam na elaboração de um projeto de vida voltado para um percurso escolar
mais duradouro e que não foi contemplado neste momento. Esse interesse surgiu
nos diálogos informais que mantinha com os filhos de Missi e Elir, Elias e Esheley
sobre o ambiente escolar.
A experiência compartilhada no encontro etnográfico, trouxe não somente
algumas pistas iniciais para um fazer antropológico, mas um aprendizado afetivo
sobre a “gente do mar”. O trabalho é uma tentativa de apresentar, a partir das
relações estabelecidas, vidas que são atravessadas pelas inconstâncias dos ritmos
das marés, ambiente movediço, e também o espaço em que vidas são erguidas ao
balanço dos ventos e que ainda assim, se mantém firmes.

98

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