O trabalho de agentes sociais: um estudo da atuação de uma ONG com crianças e adolescentes no bairro de Chã de Bebedouro, Maceió-AL
Discente: Meirilaine da Silva Calheiros; Orientador: Bruno César Cavalcanti.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS - LICENCIATURA
MEIRILAINE DA SILVA CALHEIROS
O TRABALHO DE AGENTES SOCIAIS:
Um estudo da atuação de uma ONG com crianças e
adolescentes no bairro de Chã de Bebedouro, Maceió – AL.
Maceió
2015
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O TRABALHO DE AGENTES SOCIAIS:
Um estudo da atuação de uma ONG com crianças e
adolescentes no bairro de Chã de Bebedouro, Maceió – AL.
Trabalho de conclusão de curso de apresentado
por Meirilaine da Silva Calheiros ao Instituto de
Ciências Sociais da Universidade Federal de
Alagoas, como requisito para obtenção do título
de Licenciado em Ciências Sociais.
Orientador: Profº. Bruno César Cavalcanti
Maceió
2015
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O TRABALHO DE AGENTES SOCIAIS
Um estudo da atuação de uma ONG com crianças e
adolescentes no bairro de Chã de Bebedouro, Maceió – AL.
COMISSÃO EXAMINADORA
Bruno César Cavalcanti (Orientador)
Rachel Rocha de Almeida Barros
Janecleia Pereira Rogério
4
Dedico este trabalho acadêmico a Deus, meu
criador, por ter me iluminado.
Aos meus pais, irmã, esposo e amigos pela força
dada em todos os momentos.
5
AGRADECIMENTOS
Há quatro anos atrás... Plantei meus objetivos, desejos e esperanças. Hoje, quatro anos
depois... Estou colhendo o tão sonhado fruto e durante o percurso, encontrei pessoas que
foram primordiais para o meu crescimento.
Portanto, agradeço primeiramente à Deus por ter me dado a oportunidade de chegar
até aqui, completar mais uma etapa das várias que ainda virão em minha vida.
Aos meus pais João Rodrigues Calheiros e Maria Calheiros e minha irmã
Meirilyzabete Calheiros pelo apoio, incentivo e por acreditar na minha capacidade de vencer.
Ao meu esposo Thiago de Morais por todo o apoio, compreensão e incentivo.
Aos meus amigos, colegas de classe, especialmente minha amiga Gabriella Cordeiro
que tanto apoio a mim foi dado compartilhando vários momentos que jamais esquecerei.
A Universidade Federal de Alagoas por ser um espaço que nos proporciona a
construção do conhecimento para nos constituirmos enquanto profissionais.
Ao meu orientador, Prof. Bruno Cavalcanti pelo acompanhamento, paciência e
conhecimentos compartilhados.
Aos professores do curso de Ciências Sociais Licenciatura, por auxiliar na construção
dos conhecimentos necessários para sermos profissionais capazes, para atuarmos no processo
de ensino e aprendizagem.
A Associação da Criança e do Adolescente da Chã de Bebedouro – ACACB que abriu
as portas para a realização desta pesquisa, pois sem ela essa monografia não seria completa.
A todos, meus eternos agradecimentos e manifestações de carinho, pois com certeza
vocês foram muito importantes ao longo da minha caminhada.
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RESUMO
O presente trabalho sobre Organização Não Governamental – ONG – tem como
objetivo apresentar uma reflexão sobre as ações desenvolvidas por uma entidade que atua
junto a crianças e adolescentes em uma comunidade de um bairro periférico de Maceió. Para
tal investigação, usa-se o conceito de ONG desenvolvido por Maria da Glória Gohn. O estudo
é pautado numa abordagem qualitativa e quantitativa, e pesquisa bibliográfica, sendo feita
uma pesquisa de campo. Para alcançar seus objetivos, pesquisa se realizou em uma associação
localizada no bairro de Chã de Bebedouro, em Maceió, utilizando-se de entrevistas com os
representantes legais, com alguns usuários (crianças e adolescentes participantes de alguma
atividade) e alguns familiares, como também observação participante. Neste método
desenvolvido, constatamos, ao final da pesquisa, a importância do trabalho desta associação
que há 14 anos vem trabalhando na comunidade.
Palavras-chave: Organização Não Governamental. Chã de Bebedouro. Criança e
Adolescente.
7
SUMÁRIO
Apresentação.............................................................................................................................8
Introdução.................................................................................................................................9
CAPÍTULO I: Organizações Não Governamentais............................................................13
1.1- Formação das ONGs no Brasil........................................................................................13
1.2- Os tipos de ONGs............................................................................................................15
1.3- As ONGs: Suas ações e atuação na sociedade................................................................17
1.4- A Importância Social do Terceiro Setor: A solidariedade na atualidade.......................19
CAPÍTULO II: O trabalho social da Associação da Criança e do Adolescente da Chã
De Bebedouro..........................................................................................................................23
2.1-
A construção da pesquisa..............................................................................................23
2.2-
Formação da Associação da Criança e do Adolescente da Chã de Bebedouro.............25
2.3-
Descrição do espaço físico............................................................................................29
2.4-
A presença do Serviço Voluntário: uma atitude solidária em busca
da transformação.......................................................................................................................30
2.5-
Parcerias para a manutenção das ações sociais da ONG.............................................32
CAPÍTULO III: A atuação da ACACB e os atores locais..................................................36
3.1-
Beneficiários do Projeto: crianças e adolescentes do bairro......................................36
3.2-
Os agentes locais parceiros da ACACB: família das crianças e a escola.....................37
3.3-
Dispositivos para a prática do projeto...........................................................................39
3.4-
Organização das atividades...........................................................................................42
3.5-
Dificuldades encontradas ao longo do trabalho...........................................................46
3.6-
Resultados alcançados com a execução do projeto.....................................................49
3.7 -
Depoimentos dos entrevistados....................................................................................53
CAPÍTULO IV - Considerações finais..................................................................................58
Referências Bibliográficas......................................................................................................61
ANEXOS..................................................................................................................................64
ANEXO 1 – Roteiros de entrevistas......................................................................65
ANEXO 2 – Gráficos.............................................................................................68
ANEXO 3 – Fotos das atividades da ONG..........................................................73
8
Apresentação
Essa pesquisa foi feita com base no trabalho realizado por uma ONG que presta
serviços a crianças e adolescente no bairro da periferia de Maceió-AL.
Quanto à estrutura do trabalho, encontra-se dividido em três capítulos. O primeiro
trata-se de uma introdução sobre Organização Não Governamental, descrevendo também sua
formação, tipos de ONG, atuação e o chamado terceiro setor. No segundo, refiro-me ao
trabalho desenvolvido pela Associação da Criança e do Adolescente da Chã de Bebedouro,
quanto a sua esfera de atuação. E o terceiro capítulo consiste basicamente nos resultados
alcançados através da presença desta entidade na comunidade.
A estrutura deste TCC finaliza-se com os depoimentos, as considerações finais,
seguindo-se das referências e dos anexos.
A importância desse estudo encontra-se em enfocar o protagonismo apresentado por
esta ONG no cenário social e em seus serviços prestados à uma população carente de políticas
sociais de governo, propriamente dito.
9
Introdução
O presente Trabalho de Conclusão de Curso tem por objetivo, primeiramente,
realizar uma discussão geral sobre as organizações não governamentais, no que diz respeito
ao seu conceito, sua formação, definição e a importância da sua atuação na sociedade.
Este trabalho tem como base dois caminhos: o primeiro é realizar uma discussão
geral sobre essas organizações não governamentais, os tipos de ONGs, a atuação delas, o
chamado terceiro setor, citando alguns autores que trabalham com essa temática. O segundo
consiste em uma etnografia de uma entidade que presta serviços a crianças e adolescentes na
comunidade do bairro Chã de Bebedouro na periferia de Maceió onde observei os serviços
realizados dessa instituição, observando questões físicas, suas características, sua missão e
atuação na comunidade beneficiada.
A Associação da Criança e do Adolescente da Chã de Bebedouro - ACACB está
localizada na cidade de Maceió, capital do Estado de Alagoas que tem uma população
estimada em 1.005,3191 habitantes, da qual 58,37% vivem na incidência da pobreza. Destes
mais de um milhão de habitantes que residem na cidade de Maceió, 10.541 residem no bairro
da Chã de Bebedouro. Esta parcela da população residente no bairro conta apenas com duas
escolas públicas e um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que atende pessoas com
transtornos mentais. Não há no bairro posto de saúde, creche, área de lazer, delegacia ou
outros serviços públicos que possam atender à população.
Só de crianças entre 0 e 14 anos há uma população de 2.963 habitantes num bairro que
conta apenas com duas escolas públicas2.
O bairro onde se situa a ONG é chamado de Chã de Bebedouro e está localizado na
parte alta da cidade. O bairro de Bebedouro é lembrado, como palco de memoráveis festas, de
encontros políticos, comércio em franco desenvolvimento e a hospitalidade de seus
moradores. Esta área já foi, nos primeiros anos do século XX, a preferida da elite
socioeconômica alagoana (ao menos a da capital), que construía seus casarões na rua
principal, próximo à lagoa Mundaú e à linha férrea. Mas, Bebedouro também foi palco de
manifestos políticos, pois os políticos sempre tiveram no bairro lugar para suas propagandas
em tempos de eleições, elegendo a Praça Lucena Maranhão como centro dos comícios. De
certo modo, esse bairro de Maceió mais se parece uma cidade do interior, com moradores
1
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, disponíveis em <www.ibge.gov.br> acesso em: 02 de
Out.2014.
2
Idem.
10
preservando hábitos que se relacionam ao jeito de viver da sua população no que se refere às
manifestações culturais e também à sua economia, visto que até hoje ainda existe famílias que
sobrevivem da pesca do sururu (molusco de água salobra) da lagoa Mundaú que banha o
bairro.
Por outro lado, seus casarões de tijolo batido e azulejos portugueses ainda hoje
ilustram o quanto foi nobre e rico o bairros, que foi um dos primeiros no crescimento
econômico da cidade de Maceió. E este crescimento atraiu pessoas de todos os lugares,
inclusive escravos e imigrantes de outras regiões. Em decorrência, e ao longo do tempo, assim
surgiram também becos, favelas e encostas, que é onde vive a maior parte da sua população
atual, aspecto que ilustra a pobreza é o nível de miséria e exclusão social em que vivem as
pessoas desse bairro que, como mencionado, já foi pioneiro no desenvolvimento econômico e
social da cidade.
Uma curiosidade, é que o bairro, por sua vez, já “abrigou” outras localidades
adjacentes. Anteriormente, as Chãs da Jaqueira e de Bebedouro, Mutange e Bom Parto, eram
uma localidade só. Mas devido ao crescimento populacional, de todos os bairros citados, hoje,
Bebedouro abriga apenas a Chã de Bebedouro como conjunto. Vale ressaltar ainda a bela
vista da Lagoa Mundaú, proporcionada por quem passa pelo Mirante da Chã de Bebedouro
que fica na Praça Rui Palmeira, que ainda serve de ponto de dos moradores em qualquer hora
do dia.
Para atingir os objetivos pretendidos de forma mais precisa neste estudo, fiz um estudo
descritivo com métodos qualitativos e quantitativos, através de pesquisa de campo, de um
pequeno levantamento bibliográfico e de entrevistas.
Para a coleta de dados junto à organização estudada, utilizei-me de entrevista com o
representante legal, com roteiro semiestruturado buscando informações tais como: fundação
da ONG, tipo de sede, formas de captação de recursos, de parcerias, de
registros em
conselhos, âmbito de atuação, quantidade de pessoas que trabalham na ONG, os vínculos
empregatícios, o serviço voluntário, o investimento na capacitação de seus recursos humanos,
o tipo de serviço oferecido para as crianças e os adolescentes, o número de participantes
atendidos, o tempo de permanência, o relacionamento da ONG com os familiares, dentre
outras questões.
As Organizações Não Governamentais (ONG) são grupos que não possuem fins
lucrativos e fazem vários tipos de ações solidárias, se enquadrando no chamado terceiro setor.
Suas ações se destinam a grupos específicos, como crianças, idosos, meio ambiente, animais,
homossexuais, mulheres dentre outros. As ONGs podem ser Não Governamentais, cidadãs,
11
ambientais e caritativas3. Sendo assim, elas necessitam de parcerias para manter suas
atividades.
Nem sempre essas organizações trabalham sozinhas, uma vez que a maioria tem
dificuldades financeiras. Ficam claras, então, as razões pelas quais as ONGs precisam buscar
parceiros para o desenvolvimento de suas ações, que segundo elas, são em benefícios dos
usuários.
Elas surgiram com o objetivo de fazer, em tese, o que é de responsabilidade do
Estado, buscando ajudar as pessoas excluídas da sociedade, principalmente aquelas que não
têm voz, que não sabem ou não podem lutar por seus direitos. As organizações sobrevivem,
na maioria das vezes, de financiamentos nacionais e internacionais, do próprio Estado e
também recebem doações de entidades privadas e/ou de pessoas físicas. Apesar de muitas
contarem com profissionais remunerados, conta ainda com o trabalho de voluntários, uma
questão que também será levantada nesta pesquisa.
Em síntese, as ONGs desenvolvem suas ações no sentido de garantir os direitos de
seus usuários e, assim, passam a ser fundamentais para o seu crescimento físico, mental e
social. Elas começam a se tornar responsáveis pelo seu desenvolvimento, ou seja, são como
uma espécie de “segunda família”. Com isso, essas organizações assumiram um papel na
sociedade servindo de fonte de inspiração funcionando como uma nova peça na construção da
cidadania.
No Brasil, pós década de 1930, o conceito de cidadania estava vinculado aos
direitos sociais relacionados ao mercado de trabalho, ou seja, apenas os trabalhadores efetivos
possuíam direitos perante o Estado. Já na década de 1980 é verificada uma intensa
participação da população no processo de luta para a elaboração de uma Constituição que
possibilitasse atender aos diversos interesses da sociedade. Com isso foi possível associar a
cidadania ao direito de todos estando o indivíduo inserido ou não no mercado de trabalho
formal4. As organizações Não Governamentais vêm se multiplicando e hoje fazem parte de
um importante canal de defesa da cidadania. Por isso, é fundamental o desenvolvimento de
pesquisas que contribuam para uma maior compreensão de como essas organizações vêm
atuando entre populações que muitas vezes são consideradas minoritárias.
O interesse pelo tema decorre especialmente da minha participação nesta ONG,
enquanto voluntária; ONG esta que desenvolve atividades socioeducativas, assistenciais,
3
4
São organizações que foram estabelecidas para o único propósito de desempenhar funções relativas à caridade.
Informações baseadas no livro Sociologia para o ensino médio de Nelson Dacio Tomazi, p. 153 e 156.
12
culturais e esportivas com crianças e adolescentes. Diante disto, essa pesquisa foi direcionada
para esse espaço que trabalha com esse segmento.
Comecei a participar da ONG pouco tempo depois de sua fundação em 2000. Fui
uma das crianças do grupo de teatro que ensaiava na Capela de São Sebastião no mesmo
bairro. Após a fundação da Associação, os ensaios passaram a ocorrer lá. Além do teatro,
participei de diversas atividades como: banda afro, dança afro, encontro de formação,
conferências, oficinas dentre outras. Em 2006 entrei para o quadro de voluntários da ONG,
enquanto auxiliar multifuncional passando para a coordenação administrativa em 2007 até os
dias atuais. Estar nesta associação, durante todos esses anos, me possibilitou muitas
experiências que contribuíram e ainda contribuem para meu crescimento pessoal e
profissional. E, por conhecer a vida interna e externa desta associação me veio o desejo de
fazê-la ser meu objeto de pesquisa, sabendo do grande desafio de pesquisar algo considerado
familiar “ao mesmo tempo, é esse multipertencimento que permite ao antropólogo pesquisar
sua própria sociedade e, dentro dela, situações com as quais ele tem algum tipo de
envolvimento e das quais participa” (Velho e Kuschnir 2003, p.18).
É possível perceber a importante função que as ONGs exercem na sociedade, pois seus
serviços chegam, muitas vezes, em locais onde o Estado se faz pouco presente e a maioria
delas passa por dificuldades e enfrenta barreiras; uma delas sendo o não reconhecimento de
seu trabalho.
13
Capítulo I
Organizações Não Governamentais
1.1
Formação das ONGs no Brasil
A sigla ONG significa organização não governamental, ou seja, aquilo que não
representa ou não está institucionalmente ligado ou financiado pelos Governos. A expressão
ONG teve sua origem logo após a Segunda Guerra Mundial, na Organização das Nações
Unidas (ONU) – com o uso da denominação em inglês “Non-Governamental Organizations
(NGOs)”, para designar organizações supranacionais internacionais que não foram
estabelecidas por acordos governamentais.
Segundo Rico, no Brasil e no mundo as ONGs são entendidas como “[...] aquelas
que não fazem parte do Governo e que, ao prestarem serviços coletivos, não passam pelo
exercício de poder de Estado” (RICO, 1998, p. 27), tomam forma e se estabelecem como um
caminho possível na atenção aos desfavorecidos, desempenhando, na verdade, o papel do
Estado, que passa a exercer apenas o de regulador frente ao desenvolvimento econômico e
social. As iniciativas dessas organizações são as mais diversas, mas, geralmente, contemplam
segmentos (negros, mulheres, crianças, idosos, índios, etc.) populacionais bastante
trabalhados pelo conjunto de organizações existentes (ou que ainda estão por vir). Tem-se um
direcionamento do atendimento para determinadas fatias da população, como é o caso das
instituições que trabalham com crianças e adolescentes, pois, hoje, há uma predominância em
tratar de assuntos que abordam esse público, frequentemente apontado como “o futuro do
país”.
A expressão ONG aparece pela primeira vez em documentos da
Organização das Nações Unidas (ONU), no final dos anos de 1940,
tendo como pano de fundo a ideologia e prática social denominadas
"desenvolvimento de comunidades", que pautaram as relações
políticas de cooperação e de dominação dos países ricos sobre os
países pobres no Ocidente capitalista (STEIL e CARVALHO, 2001,
p.2).
No Brasil, a expressão foi relacionada a um universo de organizações que surgiram em
grande parte, nas décadas de 70 e 80, que tinha como objetivo apoiar os movimentos sociais e
14
as organizações populares de base comunitária, com objetivos de promoção da cidadania,
defesa de direitos e luta pela democracia política e social. As primeiras ONGs nasceram
concomitantemente em sintonia com as dinâmicas dos movimentos sociais, pela atuação
política de proteção aos direitos sociais e fortalecimento da sociedade civil, com ênfase nos
trabalhos de educação popular e na atuação, na elaboração e no monitoramento de políticas
públicas.
Num primeiro momento, o termo foi usado no Brasil apenas para
definir as organizações internacionais que financiavam projetos de
organizações brasileiras. Nos anos 80, parte dos centros de
assessoria ligados a movimentos sociais adotou para si esta sigla.
Estes centros fundariam, em 1991, a Associação Brasileira de ONGs
(TEIXEIRA, 2002).
Para Gohn (2003), a origem das modernas ONGs brasileiras é diversa. Temos várias
entidades criadas a partir de grupos de assessorias a movimentos sociais populares urbanos.
No inicio da década de 80 estes grupos se autodenominavam “apoios”, e tinham diferentes
filiações: político-partidárias, religiosas, ou originários de outras instituições, como
universidades. Alguns pesquisadores sobre a questão das ONGs no Brasil, como Landim
(1993) e Fernandes e Piquet (1992) também têm destacado a origem das atuais ONGs – ou as
“cidadãs”, como denomina Gohn (2003):
As ONGs cidadãs nascem e crescem relacionadas ao campo das
associações e dos movimentos sociais: demarcando, dessa forma,
seu papel como agente de democratização, característica peculiar no
Brasil e em alguns outros países da America Latina (GOHN, 2003).
No Brasil dos anos 90, houve o surgimento de muitas ONGs cidadãs. Um grupo
muito forte é constituído pelas entidades ambientalistas e ecológicas de uma forma geral.
Outro grupo é formado pelas ONGs de assessoria a movimentos populares. Um terceiro grupo
é formado por entidades de assessoria a categorias determinadas como grupo de sindicalistas,
a exemplo do Instituto Cajamar de São Paulo. Um quarto grupo é formado por entidades de
composição social com predominância das camadas médias, voltadas para o apoio dos
interesses da classe média. São as antigas e já clássicas associações voluntárias, organizadas
para defesa de grupos específicos.
15
No setor de apoio aos menores e adolescentes encontra-se o maior número de ONGs
de base local, nacional. No setor rural, as ONGs internacionais têm diminuído e as nacionais,
particularmente as articuladas aos sindicatos, têm crescido. Algumas ONGs já antigas no
Brasil, como Federação de Entidades Assistenciais – FASE, ou o Instituto Brasileiro de
Análises Sociais e Econômicas – IBASE, ou o Instituto Superior de Estudo da Religião –
ISER, cresceram bastante nos anos 90. O IBASE se projetou internacionalmente por meio da
Ação da Cidadania, Contra a Fome, Pela Vida, coordenada pelo Betinho (GOHN, 2003).
Como ficou visto, tendo sua origem nos anos 40, as ONGs são entidades que
desenvolvem trabalhos sociais gratuitos juntos, às comunidades. Porém, para que seja
exercido esse tipo de trabalho, elas dependem da ajuda financeira de órgãos públicos,
empresas etc.
No Brasil, elas surgem entre as décadas de 70 e 80 com o objetivo específico de
apoiar os movimentos sociais na luta pelos direitos sociais e políticos do cidadão brasileiro.
No século XX, as ONGs são consideradas instituições cidadãs, e passam a exercer papel de
fundamental importância na formação e construção da cidadania brasileira.
Algumas conclusões que nos remetem à questão das ONGs como formas modernas
de participação na sociedade brasileira: modernas porque se organizam em torno dos
chamados direitos sociais modernos: direito à qualidade de vida, à felicidade, à não
discriminação, à preservação do meio ambiente etc.; porque buscam combinar os valores
individuais com valores coletivos, a racionalidade individual (dada pelos desejos e aspirações
das pessoas) como a racionalidade científica (dada pelos estudos e análises técnicas dos
problemas em questão); e finalmente, modernas por se constituírem em espaços coletivos de
participação da sociedade civil, a partir de interesses de grupos determinados, tendo como
referência movimentos e organizações sociais. (GOHN, 2003).
1.2 Os tipos de ONGs
[...] podemos dizer que o campo de atuação das ONGs têm sido o do
assistencialismo (por meio da filantropia), o do desenvolvimentismo
(por meio dos programas de cooperação internacional, entre ONGs e
agências de fomento, públicas e privadas) e o campo da cidadania
(por meio das ONGs criadas a partir de movimentos sociais que
lutam por direitos sociais). (GOHN, 2003).
Há basicamente três tipos de ONGs que segundo a classificação de Gohn (2003) são
classificadas como Assistenciais onde sua área de atuação se destina com base no
16
assistencialismo imediato concentrando seus serviços através de fornecimento de abrigos e
remédios, doações de cestas básicas, saúde preventiva, atividades educativas tais como
reforço escolar, recreação, dança, teatro etc. e “cumpre registrar também que as principais
ONGs brasileiras não são as assistenciais/filantrópicas, mas as cidadãs, embora as
filantrópicas sejam a maioria em termos numéricos (GOHN, 2003, p. 59)”. Como
Desenvolvimentista e suas ações são destinadas ao desenvolvimento autossustentável nas
áreas de reservas indígena, ecológicas, áreas de barragens. E por último as Cidadãs que
centram suas ações nas reivindicações dos direitos de cidadania. Luta pela valorização da
solidariedade para que determinados direitos passem a ter reconhecimento e legitimados pelo
Estado.
As ONGs cidadãs tem uma atuação significativa junto aos canais de
comunicação e em nível de políticas públicas, fornecendo subsídios
para sua elaboração, fiscalizando-as ou fazendo denúncias quando
ocorrem violações e omissões. Os deficientes físicos, idosos e
crianças têm obtido, por intermédio da pressão de certas ONGs,
alterações na estrutura físicas dos espaços urbanos. (GOHN, 2003,
p.14).
Essas ONGs estão envolvidas na representação dos cidadãos, na construção dos
valores coletivos, na construção do sistema político, como nos modos como as pessoas podem
influenciar o rumo da sociedade através da participação na esfera pública.
Outros tipos de entidades ou ONGs, surgiram da necessidade de
engajamento dos indivíduos aos grandes problemas da sociedade
brasileira, atuando em conjunto com outros organismos de luta
social, entre eles os movimentos sociais. (FROZ, 2005).
Alem da atuação das ONGs, os movimentos sociais deram uma grande contribuição
nas lutas de causas coletivas, tendo uma postura ativa diante dos problemas sociais. No
entanto, as ONGs no decorrer do tempo foram ganhando seu espaço, sua autonomia com suas
distintas formas de atuação na sociedade contribuindo para a retomada da democracia. Mas
isso não significa que os movimentos sociais perderam suas forças, pelo contrário.
17
1.3
As ONGs: Suas ações e atuação na sociedade
Os anos de experiência que as ONGs vêm adquirindo cotidianamente ensinam
como lidar com as questões que afetam a esmagadora maioria da população brasileira e
trazem pontos a favor das ações que por elas são postas em prática. Ao longo de décadas,
essas organizações lutam e continuam lutando, agora com mais organização e transparência,
para oferecer serviços de qualidade a uma parcela da população expropriada dos seus direitos.
Uma diversidade de assuntos é tratada de dentro para fora das ONGs, que realizam um
trabalho de divulgação e ampliação da necessidade de se reivindicar posições mais enérgicas e
de se buscar meios para enfrentar os problemas urgentes em nosso país, o que evidencia, mas
não garante a responsabilidade do Estado frente a essa situação.
No entanto, quando as ONGs avançam sobre as causas dos
problemas sociais, reivindicam que tais direitos sejam cumpridos e
universalizados pelo poder público, apontam a dura realidade da
exclusão social, desrespeito aos direitos humanos, o
descumprimento de regras mínimas de preservação ambiental e da
biodiversidade, assim como os mecanismos de manutenção e
reprodução destas injustiças, elas passam a incomodar, contrariam
interesses enraizados nas estruturas de poder. A forma mais comum
de reação dos setores conservadores tem sido a criminalização das
ONGs, o questionamento de sua representatividade, a redução de seu
trabalho a interesses e disputas partidárias, a acusação de estarem a
serviço de interesses escusos ou internacionais. (NOSSA, 2014).
Sabe-se que instituições que apontam e reivindicam sobre alguma causa são, mais
cedo ou mais tarde, alvo de ataques, cuja finalidade principal por mascarar o que está por trás
da injusta realidade social. Por outro lado “existem ONGs que na verdade visam o lucro, e
servem como instrumentos na lavagem de dinheiro e que muitas ONGs são de grandes
empresários internacionais, e servem de porta de entrada de suas empresas, em um dado país,
para facilitar a maximização do lucro” (SANTOS, 2008). Ainda segundo o autor, é fato que
existem ONGs que atuam realmente em prol dos menos favorecidos deste país (SANTOS,
2008, p. 89). Mas, o que se mostra importante destacar é que as organizações, diante de tantas
exigências e acusações, estão se tornando espaços cada vez mais articulados e bem
relacionados com as pessoas da sociedade, à medida que suas ações acompanham normas de
funcionamento que vão alem das prestações de contas aos seus usuários. O Estado e,
especialmente, os responsáveis pelas doações, sejam elas individuais ou coletivas, estão aí
para garantir a utilização adequada dos recursos destinados para as ações promovidas pelas
18
ONGs e “a sociedade como um todo, também deve ajudar a fiscalizar as ONGs através de
denúncia e análises de perfis antes de fazer qualquer tipo de doação” (SANTOS, 2008, p. 90.)
Para que assim, acusações que versam sobre as irregularidades dessas organizações, com
certeza, possam ser acompanhadas de perto pelos verdadeiros interessados.
Diante do exposto, o reconhecimento de que as crianças e os adolescentes são
sujeitos de direitos, além da sua clara situação frágil, impulsionaram as ONGs numa direção
de atendimento das necessidades desse público, visto que eles ainda estão em processo de
formação das suas características pessoais e profissionais, sendo mais abertos, de certo modo,
ao aprendizado de maneira mais saudáveis de agir e pensar. Nesse sentido, é grande o número
de organizações que voltam as suas atividades para esses atores demonstrando uma necessária
preocupação com os ditos “futuro do país”.
As questões que envolvem crianças e adolescentes abrem caminhos para o
desenvolvimento de uma diversidade de programas, projetos e ações sociais que visam a
melhoria das condições de vida dessa parcela da população que apesar de ser alvo de muita
discussão, ainda continuam com graves problemas.
Essas ações se constituem no cerne do funcionamento das ONGs, porque através
delas as organizações colocam em prática seus objetivos e convicções que para desenvolvêlas aprimoram a sua capacidade de angariar recursos materiais, humanos e financeiros, tendo
em vista as dificuldades enfrentadas cotidianamente.
Os recursos financeiros são os que exercem maior influência sobre suas ações, mas
não são determinantes para que elas aconteçam. Como as ONGs passam por dificuldades para
manter-se, elas buscam parceiros que apoiem suas ações. Estes, portanto, destinam recursos e
querem retorno das doações realizadas; com isso as ONGs acabam tendo que agir conforme
as exigências expostas. Neste sentido, e buscando atender as necessidades dos doadores, que
precisam de resultados para justificar e melhorar a sua imagem frente à sociedade, as
organizações trabalham com atividades que são mais práticas, claras e rápidas. Isto não exclui
as ações de duração média e longa, mesmo existindo em menor quantidade, mas com a
mesma importância.
É possível dizer que as atividades e projetos da ONG pesquisada podem ser
agrupados em 5 grupos para facilitar o entendimento acerca das particularidades de cada ação
realizada e seus objetivos diversos, como: esporte e lazer, culturais e artísticas, profissionais e
educacionais, acompanhamento e assistenciais onde baseiam o seu funcionamento no
desenvolvimento dessas ações.
19
As atividades de esporte e lazer são voltadas para a participação dos usuários em
atividades físicas, que contribuam para seu desenvolvimento físico e mental que em geral são
realizadas no horário contrário ao da escola.
As atividades culturais e artísticas também estão presentes na instituição pesquisada.
Elas são desenvolvidas para que os usuários valorizem principalmente a cultura da sua região
desenvolvendo habilidades artísticas como teatro, dança popular, expressão corporal, entre
outras.
As atividades profissionais e educacionais são ações que se inserem na área de
iniciação profissional e que visam o desenvolvimento das habilidades dos usuários, para que
eles possam se qualificar e conseguir inserção no mercado de trabalho. Os projetos
desenvolvidos nesse âmbito são muito importantes porque dão ao usuário a oportunidade de
aprender um ofício que pelas suas próprias condições de vida, não teriam possibilidades de
fazê-lo. Já foram desenvolvidos, então: cursos de informática, auxiliar administrativo,
telemarketing, serigrafia, corte e costura, cabeleireiro, artesanato, garçom e garçonete, dentre
outros. Alem desses cursos, a entidade já realizou ações voltadas às atividades escolares,
como reforço escolar, que possibilitou os usuários a fixar melhor os conteúdos aprendidos na
sala de aula como também resolver suas dúvidas.
Alem da realização de um acompanhamento com as crianças e adolescentes, a
entidade acompanha seus usuários psicologicamente, trabalhando questões que afetam o seu
cotidiano e discutem sobre problemas que ocorrem na instituição e no seio familiar. O
acompanhamento se faz presente também junto aos familiares, porque estão diretamente
envolvidos no processo de aprendizagem dos seus filhos. Por fim, se faz atendimento
individual e através de visitas domiciliares para orientação da família, para uma melhor
aproximação quanto à importância do seu acompanhamento nas atividades.
1.4
A Importância Social do Terceiro Setor: A solidariedade na atualidade
A formação do chamado terceiro setor ocorreu por volta dos anos 1980. A
compreensão do terceiro setor é de fundamental importância para a abordagem sobre as
Organizações Não Governamentais – ONGs, na medida em que as ações dessas organizações
realizam-se nesse âmbito. Tal setor, como conceito, surge nos EUA através de John
Rockefeller III e vem para o Brasil por intermédio da Fundação Roberto Marinho.
O primeiro setor é o governo, que é responsável pelas questões sociais. O segundo
setor é o privado, responsável pelas questões individuais. Com a ausência do Estado, o setor
20
privado começou a ajudar nas questões sociais, através das inúmeras instituições que
compõem o chamado terceiro setor. Ou seja, o terceiro setor é constituído por organizações
sem fins lucrativos e não governamentais, que tem como objetivo gerar serviços de caráter
público.
O Terceiro Setor está diretamente ligado ao conceito da Filantropia,
definem-se suas organizações como: privadas – fundações
empresariais, filantropia empresarial, empresa cidadã; sem fins
lucrativos; autogovernadas – ONG’s,
movimentos sociais,
organizações e associações comunitárias, Instituições de caridade e
religiosas; associação voluntária; Atividades pontuais e informais.
(PINTO, 2008).
O Terceiro Setor é uma junção do setor estatal e privado para uma finalidade maior,
suprir as falhas do Estado e do setor privado no atendimento às necessidades da população,
numa relação conjunta. Denomina um campo formado por atividades que falam em nome do
interesse público, desenvolvidas pela sociedade civil. Alem das formas tradicionais de ajuda
mútua, inclui também as iniciativas isoladas articuladas pela população e investimentos
filantrópicos de empresas privadas, recentemente resignificados, por vezes, como ações de
responsabilidade social.
No Brasil, registra-se a importância crescente das associações e outras
organizações na vida cotidiana dos cidadãos, mas suas implicações nas políticas públicas
contrastam com sua relativa invisibilidade na paisagem institucional. Como em muitos países,
as estatísticas oficiais ainda são insuficientes nesse setor. O próprio vocabulário é ambíguo e
termos como terceiro setor, setor sem fins lucrativos, ou o termo mais geral economia social
empregado pelos especialistas, são ignorados ou tem definição ainda imprecisa para a
população em geral.
Na verdade, essa variedade de expressões reflete a heterogeneidade encontrada no
âmbito do próprio setor, que engloba diversas formas de pensar e fazer sobre a realidade
social.
O termo ONG5aparece, “inicialmente, em documentos da ONU, sendo que a Ata de
Constituição já menciona Organizações Não Governamentais com as quais o Conselho
Econômico e Social da ONU poderia estabelecer consultorias” (HOROCHOVSKI, 2003, p.
5
Aqui, para a categoria ONG, adota-se o conceito da Associação Brasileira de Organizações Não
Governamentais, como organizações cujo perfil político caracteriza-se por: “tradição de resistência ao
autoritarismo; consolidação de novos sujeitos políticos e movimentos sociais; busca de alternativas de
desenvolvimento ambientalmente sustentáveis e socialmente justas; compromisso de luta contra a exclusão, a
miséria e as desigualdades sociais; promoção de direitos, construção da cidadania e da defesa na ética na política
para consolidação da democracia.” (ABONG, 2002, p. 7).
21
114). Na América Latina, surgiram já no final da década de 50 como organizações de natureza
político-social criadas por iniciativas de “grupos de profissionais e técnicos caracterizados
pela militância social, ou de grupos pastorais da Igreja Católica. Esses grupos informais
desenvolviam trabalhos de formação e promoção de comunidades de base em setores
marginalizados e tinham possibilidades de relacionamento com agências de cooperação
europeia, de procedência católica, que financiavam suas atividades (MENDES, 1999, p.5)”.
Em verdade, as ONGs existem no Brasil há muito tempo. Novo é a denominação,
organizações não governamentais, que lhes deram o Banco Mundial e as Nações Unidas.
Conhecidas antes como centros de pesquisa, associações em prol da educação popular,
entidades de assessoria a movimentos sociais.
É importante lembrar, que as Organizações Não Governamentais e entidades
filantrópicas, ao substituírem o Estado em sua insuficiência de prover à população, necessita
de pessoas dispostas a trabalhar não por dinheiro, mas pela satisfação em ajudar o próximo
por solidariedade. Mas, o terceiro setor não prescinde de caridade cristã, todavia vai além,
pois o trabalho voluntário busca, sempre, a satisfação de um ideal, que pode ser espiritual,
social ou ambiental (MAZONI, 2007, p. 50).
Ainda segundo Mazoni (2007), quanto à ideia de trabalho voluntário e remuneração,
que a Lei Brasileira do Voluntariado, após sofrer algumas modificações, passou a admitir uma
ajuda de custo aos voluntários e que ela pode existir, mas sem descaracterizar o trabalho
voluntário e que pode promover um caminho de oportunidades para a inclusão social e a
profissionalização.
O terceiro setor, assim, está se tornando um espaço onde pessoas procuram se inserir
no mercado de trabalho, colocando em prática os conhecimentos adquiridos e acumulando
experiências.
Diante disso, o terceiro setor precisa ser levado mais a sério pelo Estado, pelos
empresários e pela sociedade em geral, em virtude das expectativas que são lançadas em torno
das suas organizações e dos objetivos para os quais foram criadas.
Na concepção de Fernandes (1994) o “terceiro setor” não pretende substituir o
Estado na promoção de serviços sociais, nem o mercado na produção de bens e serviços, mas
apenas complementar as ações desses segmentos. Constituindo dessa forma, através da dupla
negação (não estatal e não lucrativo) uma mediação entre o Estado e o mercado, com o
propósito de prestar serviços públicos que possam amenizar os conflitos socialmente
construídos. Entretanto, a expansão do terceiro setor a partir da década de 90 tem
demonstrado que essa mediação tem se configurado como um possível substituto das funções
22
do Estado, não no sentido de eliminá-lo, mas de diminuir sua intervenção no âmbito social. O
espaço de uma suposta manifestação e reivindicação da sociedade civil denominado de
“terceiro setor” passa a ser reiterado como um espaço que permitiria a sociedade não apenas
sinalizar, mas, e, sobretudo, responder às problemáticas sociais.
Diante disso podemos encarar o Terceiro Setor como uma fonte de renovação do
espaço público e como uma ação concreta no resgate da solidariedade e da cidadania.
23
Capítulo II
A importância do trabalho social da Associação da Criança e do Adolescente da Chã de
Bebedouro
Fonte: foto da autora.
2.1
A construção da pesquisa
Esta pesquisa se conclui em uma etnografia de uma ONG de Maceió. Sendo assim, o
primeiro passo para iniciar a etnografia foi solicitar a permissão da pesquisa na organização
específica, ficando escolhida assim uma Associação situada em um bairro de periferia da
cidade de Maceió, Chã de Bebedouro, a Associação da Criança e do Adolescente da Chã de
Bebedouro - ACACB. Sua escolha se sucedeu a partir da minha atuação enquanto prestadora
de serviço voluntário. Para acesso à ONG não houve dificuldades, como também não houve
resistência por parte da coordenação geral da instituição, sendo a pesquisa bem aceita e
autorizada.
Foi usada na pesquisa, a observação participante6 em todas as atividades oferecidas,
além de entrevistas com a coordenação geral da ONG, com uma educadora, entrevistas e
histórias de vida com algumas crianças e adolescentes participantes e alguns familiares. Com
A observação participante caracteriza-se pela introdução do observador em um grupo no qual o
mesmo irar observar. Podendo ser a observação, de maneira distanciada, breve ou até mesmo aprofundada.
6
24
a escolha dessa Associação e já conhecendo seu interior, tanto seu ambiente físico como os
membros que a frequentam, tive que superar o grande desafio que foi a experiência do
estranhamento7 já que a convivência neste ambiente é regular. Mesmo com todo esse
envolvimento com o ambiente pesquisado, foram feitas observações do ambiente como um
todo antes de dar inicio à pesquisa.
Ora, o antropólogo não só vive como qualquer contemporâneo a
possibilidade da experiência do estranhamento, mas é para isto
treinado e preparado, embora este processo de socialização nem
sempre esteja claro para os que dele participam, quer como
discípulos quer como mestres. (VELHO, 1980 p.19).
[...] ao tomar conhecimento da etnografia de culturas diversificadas, o estudante vai,
aos poucos, acumulando um potencial de estranhamento e relação às suas próprias vivências
(VELHO, 1980 p. 19) sabendo que a relação que se estabelece entre pesquisador e pesquisado
é uma relação em que um requer o depoimento e o outro se ver em responder e com isso o
pesquisador deve estar preparado para este momento com o pesquisado “isto porque para
realizar seu trabalho precisa permanentemente manter uma atitude de estranhamento diante do
que se passa não só à sua volta como com ele mesmo (VELHO, 1980 p. 18)”.
No roteiro de entrevistas para os coordenadores havia questões sobre a fundação, as
atividades oferecidas e já desenvolvidas, número de participantes dentre outras. Para a
educadora, foi feito um roteiro com questões sobre a atuação e o que faz na ONG, o tipo de
serviço, a importância da atividade que desenvolve enquanto educadora dentre outras. E por
fim, o roteiro para os participantes e familiares havia mais questões sobre a importância das
ações desenvolvidas por esta Associação em suas vidas e as mudanças de vida ocorridas
depois do convívio na mesma.
O objetivo das entrevistas semiestruturadas foi procurar compreender o significado e a
importância dada pelos usuários à Associação.
Neste sentido, a entrevista foi de grande importância para compreendermos a
significância da Associação da Criança e do Adolescente da Chã de Bebedouro para seus
7
Estranhar é entender a experiência social para além de sua normalidade, ou seja, é colocar em questão
situações vivenciadas todos os dias e tidas como esperadas; buscando respostas para essa expectativa de
normalidade que envolve os fenômenos sociais e os torna inquestionáveis; é assumir postura investigativa frente
a um mundo aparentemente conhecido e ordinário.
25
usuários, uma vez que seu significado também ficou implícito por meio da observação das
atividades.
A pesquisa foi realizada durante minhas idas à ONG, e contou com oito entrevistados,
sendo estes crianças e adolescentes participantes de alguma atividade ofertada pela
associação, voluntários e uma mãe de um participante da associação. Assim, segue o quadro
abaixo referente ao número de pessoas entrevistadas, divididos por sexo, idade e tipo de
usuário:
Tab. 1 – Distribuição de participantes nas ações segundo o sexo e a faixa etária
Sexo
Participantes
Masculino
Feminino
Idade
2
38 e 46
2
16(M), 19(F), 10(F)8
Voluntários da ONG
Participantes do teatro
1
Participantes do futebol
1
16
Participantes da banda
1
12
Outros(mãe de participante)
1
40
Total
8 indivíduos
Fonte: pesquisa no acervo documental da ONG.
2.2 Formação da Associação da Criança e do Adolescente da Chã de
Bebedouro. Como tudo começou...
Esta pesquisa de campo não poderia deixar de abordar aspectos sobre a formação desta
organização. Para tal informação foi realizada uma entrevista com a coordenadora geral da
associação como também foram disponibilizados materiais contendo o histórico, atuação e
missão da Associação na comunidade em que atua.
Tudo começou por volta do ano de 1987 à 1988 quando um grupo jovem da
comunidade na Rua Manoel Parentes mais conhecida como “arranha–céu”, que fica numa
grota em Chã de Bebedouro, liderado por três mulheres (Sirlene Lopes, Ana Batista e Nilda)
sentiram a necessidade de fazer algo a mais alem de evangelizar; então essas mulheres
resolveram alfabetizar as crianças carentes da comunidade .
8
Para este item da tabela1, M representa masculino e F, feminino.
26
A ideia foi positiva e bem aceita, visto que, a capela de São Sebastião (onde atuavam)
já não conseguia acolher o grande número de crianças/adolescentes, que contavam com a
colaboração de jovens voluntários.
Certo dia, o Padre da época conhecido como Padre José Trombotto, percebeu o
entusiasmo e a dedicação daquela equipe e resolveu colaborar, comprando, com a ajuda de
seus amigos italianos, um terreno na Rua Nossa Senhora da Conceição, no mesmo bairro, e,
também ajudando na compra de materiais para a construção do prédio. Para tanto, o Padre
José não esteve só neste momento, pois o desejo de formar um Centro Comunitário na
comunidade partiu dessas mulheres citadas acima. Depois de toda a obra feita, no dia 19 de
março de 1989, o Centro Comunitário Nossa Senhora da Conceição foi inaugurado com uma
Celebração Eucarística, fazendo-se presentes familiares das crianças e adolescentes e demais
membros da comunidade.
Percebendo a importância do Centro na comunidade, a equipe engajou-se e buscou
apoio para dar continuidade ao trabalho de alfabetização. Recebeu apoio da pastoral da
Cáritas9, que foi presentear o grupo com: geladeira, fogão, material didático etc. Ao longo dos
anos fez parceria com a prefeitura de Maceió, através de uma creche, mais não foi uma
experiência positiva.
Mesmo diante de incertezas e precariedades, quer seja voltadas à estrutura física ou a
dificuldades financeiras, o trabalho precisava se manter e a equipe tinha que abranger e criar
outras atividades para chamar atenção da comunidade. Então, mais uma vez, o padre Jose
Trombotto veio socorrer, trazendo amigos que se disponibilizaram a conhecer e a colaborar
com o centro comunitário. Nesta visita, a equipe teve oportunidade de conhecer padre
Silvestre, aquele que indicou uma entidade chamada Change for Children que quer dizer
Esperança para Criança, localizada no Canadá10.
Através do projeto organizado para Change for Children, conseguiram trazer para os
familiares cursos de: pintura em tecido, crochê, manicure e pedicure, corte e costura e grupos
de capoeira e futebol de campo.
Sendo o projeto pequeno, e não estando estabilizado financeiramente, não se dispunha
de recursos para financiar o trabalho dos jovens que se disponibilizavam a colaborar, sendo
desse jeito sem nenhuma remuneração, caracterizando-se, portanto, como voluntariado.
9
Mais informações sobre esta organização estão disponíveis em http://pt.wikipedia.org/wiki/Caritas.
10
Sobre esta organização ver http://www.changeforchildren.org/cfca/
27
O resultado do projeto repercutiu numa enorme satisfação para a turma do futebol,
apesar de não ter as condições mínimas necessárias condizentes a um time de futebol como,
por exemplo, chuteiras, meias, uniformes e lanches, contando apenas com um terno azul
doado pelo Padre José. O empenho do futebol cresceu na comunidade fazendo surgir mais um
grupo chamado “Chute para vida” que se reunia na Capela de São Sebastião uma vez por
semana com o objetivo de ter uma formação, além dos treinos – uma formação sócioeducativa a qual ficou ligada ao Centro Comunitário.
Foi notória a dimensão das atividades do Centro Comunitário em Chã de Bebedouro.
Alem da forte articulação com a igreja, o grupo também se articulava com outros trabalhos
sociais de outras ONGs participando durante anos do Movimento Nacional de Meninos e
Meninas de Rua - MNMMR. Com o passar dos anos as crianças foram crescendo com uma
perspectiva de comprometimento com a luta social, e com isso foram formando lideranças,
educadores do Centro Comunitário, coordenadores, conselheiros fiscais e representantes da
Conferência Nacional de Adolescentes - C.N.A pelo Movimento Nacional de Meninos e
Meninas de Rua – MNMMR.
Através de um educador do MNMMR surgiram os primeiros batuques da banda afro
denominada Banda Afro Arranha-céu 11 recebendo este nome pelo fato de todos os
integrantes serem pertencentes a esta comunidade. No início, a banda não dispunha de
instrumentos musicais, porém os componentes tinham a força de vontade de aprender a tocar.
A banda teve seu início fragilizado e para desenvolver as atividades era preciso pedir
instrumentos emprestados. Sua composição originária deu-se por oito adolescentes que
usavam atabaque, ralador de milho, latas, garfo... Enfim, buscavam meios improvisados para
obter o som. Aos poucos, a banda foi ganhando estabilidade e conseguiu comprar seus
próprios instrumentos musicais. Novas pessoas foram entrando, houve dificuldades
financeiras e interpessoais, mas mesmo diante das incertezas, gradativamente a banda foi se
estabilizando.
Com o intuito de abranger as intervenções na comunidade, foi criada a banda afro
feminina que recebeu o nome de Banda Afro Palmares que era composta de meninas do grupo
de adolescentes da igreja, das proximidades do Centro e das quebradas12.
11
Este nome foi criado pelos primeiros integrantes da banda e foi escolhido porque a maioria deles morava na
grota denominada “Arranha-céu” no bairro de Chã de Bebedouro onde se situada a Capela de São Sebastião.
12
“Quebradas” é uma grota que fica nas proximidades da Associação onde mora uma boa parte dos participantes.
28
A banda tornou-se uma das melhores bandas afro de Maceió (esta informação estava
presente em um dos documentos da história da ONG), as apresentações eram esperadas por
todos por causa do seu gingado e beleza. Talento também não faltava já que na comunidade já
havia um grupo de teatro chamado A Cara do Brasil.
Os responsáveis do Centro resolveram aproximar-se do grupo trazendo-a como uma
das atividades, pois os ensaios eram realizados dentro da capela, passando assim a ocorrer no
espaço do centro comunitário, por ser um espaço maior. Muitos desafios eram postos ao
Centro, como principalmente o da dificuldade financeira. A saída era o improviso, rifas e
festival de teatro, discoteca, piquenique e casa do terror para conseguir manter as atividades e
comprar materiais.
A equipe foi tornando-se sólida, as crianças e adolescentes foram crescendo, se
tornando jovens comprometidos com uma perspectiva de compromisso social e, sentindo a
necessidade do Centro Comunitário ter sua própria identidade, ter seu estatuto, Cadastro
Nacional de Pessoa Jurídica - CNPJ reconhecido, já que havia dificuldades para conseguir
apoio através de fundações, Secretarias Municipais e Estaduais, pois exigiam documentos
legais de uma ONG.
Surge então a ideia de fundar uma entidade reconhecida de fato e de direito. Esta
iniciativa de fundar a Associação partiu das pessoas que estavam na linha de frente do
trabalho, foram elas: Lidja Pereira, Sirlene Lopes, Sirlene Maria, Luiz Alberto e Ana Batista,
que agilizaram todas as documentações necessárias para fundação de uma associação.
Então, a assembleia de fundação da ACACB foi convocada conforme o edital
publicado no dia 05 de Março de 2000 no O Jornal. Esta assembleia teve como pauta, a
aprovação do Estatuto da Associação e suas alterações; aprovação do Regimento Interno e
suas alterações; eleição para a Coordenação Geral e Conselho Fiscal, provisórios. O quorum
presente na assembleia refletiu que dentre os participantes da assembleia a grande maioria
tinha menos de vinte e um anos ficando assim suspensa e tendo continuidade no dia 11 de
Março de 2000 rediscutindo os mesmos pontos de pauta. Por fim, a ata da assembleia foi
registrada em cartório em 09 de Junho de 2000.
29
2.3
Descrição dos aspectos físicos da ONG
Fonte: foto da autora
A ONG escolhida para a presente pesquisa, situa-se no bairro Chã de Bebedouro.
Esta ONG conta com um quadro de 03 educadores, 1 pedagoga, 1 Auxiliar
Multifuncional (que faz os serviços de limpeza no prédio e alimentação), 1 Assistente social e
1 Psicóloga, porém, atualmente a entidade está sem esses dois últimos devido às dificuldades
financeiras que vem enfrentando nos últimos meses.
Há também 2 coordenadoras Administrativas, 2 coordenadores gerais e 3 conselheiros
fiscais. A ONG também conta com o apoio de outros voluntários. No momento, a equipe
encontra-se muito reduzida devido a grande dificuldade em se conseguir pessoas que prestem
serviços voluntariamente, sem nenhuma ajuda de custo.
O prédio da associação é cedido e fica em uma via principal do bairro, sua estrutura
percorre um quarteirão inteiro. O terreno onde o prédio foi construído, foi comprado pelo
Padre José Trombotto e não há escritura nenhuma do imóvel; então, como o mesmo faleceu, a
equipe responsável tem batalhado para conseguir o usucapião para que a associação tenha seu
próprio documento de localização.
Ademais a isto, a associação é composta por 1 salão onde são realizados encontros de
formação com os participantes, reunião com os familiares e ensaios, 1 sala de aula que
atualmente serve de brechó, 1 sala de teatro onde ocorre os ensaios do grupo de teatro A Cara
do Brasil e do grupo de Baú de Leitura, 1 secretaria, 1 sala que serve para o serviço de
telemarketing, 2 banheiros, 1 cozinha, 1 almoxarifado onde são armazenadas uma parte dos
alimentos, 1 sala dos computadores que também serve de biblioteca e 1 pátio que é onde os
participantes ficam na hora do lanche e onde ocorrem os ensaios da banda afro.
30
Durante as observações foi percebido que o prédio é de uma estrutura simples e que se
precisa de muitos reparos em sua estrutura interna e externa como conserto de telhados,
portas, etc.
Com a ajuda de doações de pessoas físicas através dos carnês de doação e do Projeto
Estudante foi possível, desde o início de Agosto de 2014, a realização da pintura externa e
interna do prédio com artes em grafites evitando assim pichações de torcedores de time de
futebol. Durante minhas idas à ONG pude acompanhar de perto esse trabalho que deu uma
nova cara à organização.
A pintura ficou muito bonita chamando a atenção de todos que passam. Em Agosto de
2014, a ONG recebeu doação de bancas escolares como também telhas para o reparo do
telhado. O serviço será realizado pelo pai de um participante da banda que é pedreiro e fará os
reparos voluntariamente.
E a menos de um ano o prédio passou por uma dedetização devido à grande
quantidade de cupim que se alastrou pelas salas como também para extermínio de ratos e
baratas já que na ladeira que fica em frente à ONG são jogados lixos pelos próprios
moradores da rua e das proximidades, já que o carro do lixo não sobe a ladeira para se colher
de casa em casa.
A associação alguns anos atrás, procurou os órgãos competentes na busca de
solucionar o problema quando foi realizada uma reunião com os moradores e a equipe. Depois
desta reunião o carro voltou a subir a ladeira por algum tempo, porém, meses depois, o
problema voltou, com isso, a associação, juntamente com os moradores, fez uma
manifestação pública em frente à sede em busca de uma solução. Em Março de 2014 a
associação juntamente com uma equipe de representantes de todas as atividades que são
nomeados de “Equipe de Liderança” iniciou um abaixo assinado na comunidade contra o lixo,
que será enviado para a Superintendência de Limpeza Urbana de Maceió – SLUM.
2.4 A presença do Serviço Voluntário: uma atitude solidária em busca da
transformação.
A presença de práticas voluntárias em instituições que prestam assistência à chamada
população carente no Brasil é datada do período colonial – como sinalizara Goldberg (2001,
p.11) – em que membros da igreja católica movidos pelo sacerdócio desenvolviam e
incentivavam a caridade por meio da ajuda financeira e disponibilidade de tempo de mulheres
abastadas. Nesse período a caridade estava fortemente ligada à religião, donde os fiéis
31
atendiam e auxiliavam as comunidades carentes orientados por um chamado a serviço de
Deus, ou ainda, por uma busca sobrenatural.
Segundo Rio (2001), o voluntariado é um produto histórico que vem se desenvolvendo
ao longo do tempo e está em permanente evolução. E, enquanto produto histórico tem-se
configurado na atualidade como uma alternativa para o enfrentamento das refrações da
questão social, em que os sujeitos permeados pela generosidade e pela vontade de justiça,
unidos a um sentimento de responsabilidade pessoal, cada um fazendo a sua parte num
esforço conjunto, poderiam contribuir para a diminuição da miserabilidade e redução dos
conflitos sociais.
O trabalho voluntário tem sido a expressão máxima da democratização de uma nação.
É também, “o principal meio de exercer a solidariedade e a cidadania e de colaborar na
construção de um Brasil mais justo e humano. O voluntariado é a expressão de um povo que
acredita na preservação da dignidade de todo e qualquer cidadão” (CAPELLATO, 2006, p.5).
Assim como a responsabilidade social, o voluntariado é uma prática
antiga, cuja origem data do século XIX, e que se desenvolveu a
partir de doações aos pobres pelas famílias mais ricas, inicialmente
era muito ligado a questões religiosas e de caráter assistencialista,
mas, diante das exigências econômicas e sociais, o seu foco de
atuação foi mudando e o voluntariado passou a ser relacionada à
noção de participação, consciência e ética, onde a mobilização de
diversos atores (empresas, pessoas, organizações) exerceu papel
importante para sua expansão no Brasil e no mundo.
(CAVALCANTE, 2006, p. 36)
Dessa forma, o principal meio de contribuir é com a participação, ser voluntário é ser
solidário, é doar tempo, vontade e ter consciência do que os seus atos podem produzir na
sociedade. Conforme destaca o site Portal Voluntário13, ser voluntário vai além do ato de se
interessar, é compartilhar. Assim, doar trabalho, conhecimento e tempo, tem muito mais força
de transformação e pode mudar mais rapidamente uma realidade negativa do que doar
simplesmente um bem material.
Neste caminho, a forma mais eficiente de começarmos a executar a solidariedade,
consiste na prática de atitudes simples de atenção ao próximo, como ceder o lugar a uma
pessoa mais idosa no ônibus, auxiliar a alguém que tenha dificuldade a atravessar a rua,
segurar as sacolas de quem precise de ajuda, doar alimentos, roupas, etc. que estejam e
excesso em casa.
13
Mais informações sobre o site ver https://portaldovoluntario.v2v.net/
32
Em recente estudo realizado na Fundação Abrinq pelos Direitos da
Criança, definiu-se o voluntário como ator social e agente de
transformação, que presta serviços não remunerados em benefício da
comunidade; doando seu tempo e conhecimentos, realiza um
trabalho gerado pela energia de seu impulso solidário, atendendo
tanto às necessidades do próximo ou aos imperativos de uma causa,
como às suas próprias motivações pessoais, sejam estas de caráter
religioso, cultural, filosófico, político, emocional. (CORULLÓN,
2014).
Ainda nesta questão do voluntariado, em entrevista com a coordenadora, a mesma
informou que todos que chegam para prestar serviços na ONG são informados sobre as
condições de trabalho, todos são informados sobre a lei do serviço voluntário e assinam o
termo de voluntário após uma leitura do mesmo. A entidade conta com um apoio financeiro
de uma Fundação de Luxemburgo chamada Fondation Meninos e Meninas de Rua e desde o
inicio da parceria nunca trabalhou com vínculo empregatício, oferecendo apenas uma ajuda de
custo mensal, dessa forma, cada prestador, ao chegar à ACACB é informado das condições;
passa por um processo de entrevistas, na primeira fase com um profissional de psicologia e,
na segunda, com a coordenação geral; são orientados com relação à importância do serviço
voluntário, que exige dedicação, responsabilidade e comprometimento com os objetivos
propostos. Esses termos assinados pelos voluntários estão arquivados em uma pasta na
secretaria da ONG.
2.5
Parcerias para manutenção das ações sociais da ONG
O fomento a instituições sociais é sempre muito ligado aos organismos internacionais
que, interessados na melhoria da qualidade de vida das populações mais carentes, destinam
suas ações e recursos para o desenvolvimento de projetos e atividades que buscam a defesa
dos seus direitos. As ONGs brasileiras, nesse cenário, foram crescendo e se desenvolvendo
com o apoio dessas instituições que, por décadas, financiaram as suas atividades. É o caso da
ONG pesquisada, durante a entrevista com a coordenadora geral a mesma relatou que desde
2003 as atividades são financiadas pela Fondation Meninos e Meninas de Rua que passou a
financiar o trabalho alguns meses após o final do projeto com a Fundação do Canadá. Esta
Fundação ficou sabendo do trabalho através de uma voluntária da associação que já havia
prestado um serviço em um movimento que já tinha sido financiado por ela. Então, a
associação teve que elaborar um projeto nomeado “Projeto Ajudando a Educar” que foi
33
aprovado e financiado até 2007.
Em 2008 um novo projeto foi elaborado e aprovado
garantindo a parceria com esta Fundação até Dezembro de 2013. Mesmo alegando da
dificuldade de arrecadar fundos para financiar os projetos no Brasil devido à crise, a fundação
mostrou interesse em firmar uma nova parceria com a ACACB, solicitando uma nova
proposta de projeto, porém reduzindo alguns gastos. Esta fundação, Além de financiar os
trabalho da associação, também financia outros projetos em outros Estados do Brasil contando
com o apoio do Ministério dos Negócios de Luxemburgo para cofinanciar seus projetos.
Durante todos esses anos, o projeto atuou com eficiência na comunidade atendendo aos
objetivos propostos pelos financiadores. Entretanto, no início de 2013, a associação foi
informada pela diretoria da Fondation Meninos e Meninas de Rua que iria ocorrer uma
auditoria para fiscalizar os projetos cofinanciados pelo Ministério de Luxemburgo e que a
mesma seria iniciada em Maio e, consequentemente, as auditoras responsáveis iriam visitar
todos os trabalhos no Brasil, inclusive o realizado na associação. As auditoras visitaram os
projetos com o objetivo de saber do impacto dele na comunidade e da relação da fundação
com esses projetos. Concluindo, após as visitas, as auditoras concluíram que os projetos não
tinham utilidade, inclusive o executado na associação, bloqueando assim a parceria do
Ministério com a fundação de Luxemburgo. Depois disso as dificuldades só aumentaram.
Diante disso, a entidade teve que se esforçar para se manter sem o apoio 100% desta
fundação que alegou não ter condições de financiar os projetos sem o apoio do Ministério.
Inicialmente este caminho foi percorrido com grandes dificuldades à medida que não há outra
fonte de financiamento mais eficaz. Desde o início de Janeiro, a associação vem sendo arcada
por esta fundação apenas com o pagamento das despesas com o prédio. Com isso, a Fundação
solicitou da ONG um relatório de final de projeto com dados estatísticos destacando os
avanços, impactos e dificuldades durante a execução Ajudando a Educar para ser entregue ao
Ministério para um possível retorno da parceria; como também pareceres de instituições como
escola, CRAS, Conselho Tutelar e movimentos para ajudar. A ONG conseguiu esses
documentos, elaborou esse relatório que foram enviados à Fundação.
Um aspecto que considero importante destacar, é a relação de confiança e transparência
entre as duas organizações. Durante todo o periodo de financiamento desta Fundação,
membros da mesma (presidente, diretora e tesoureira) visitaram a cada dois anos a sede da
ACACB fazendo um tipo de fiscalização, conferindo o andamento das atividades, sugerindo
propostas para a melhoria dos trabalhos da ong, conferindo prestações de contas (mês a mês),
as mesmas são enviadas mensalmente, juntamente com os extratos bancários, enfim, fazem
um tipo de fiscalização, alem de manter contato por e-mail e telefone.
34
Além desta parceria, a associação conta com o apoio, desde 2010, do Programa Mesa
Brasil do SESC, com doações de alimentos que são servidos às crianças e adolescentes
participantes das atividades e aos familiares. Conta também com um serviço de telemarketing
que foi reativado em Abril de 2014 com a confecção de carnês que foram distribuídos aos
moradores do bairro para arrecadar recursos para manter as atividades.
De 2004 a 2007 a associação contou com parceria do Programa Cidadão Nota 10 da
Secretaria da Fazenda - Sefaz com a arrecadação de notas e cupons fiscais que foram
revertidos em bens materiais. Além destas, a entidade conta com doações de pessoas físicas e
empresas privadas.
A ONG, desde 2011, conta com a parceria da Rede de Educação Cidadã – RECID/AL
através de formações, capacitações para os voluntários, palestras e oficinas para os
participantes. Todo o apoio recebido visa fortalecer o trabalho, reconhecendo seu papel na
comunidade em que atua.
Outro aspecto de relevante importância que vem auxiliando as crianças e
adolescentes participantes, principalmente em relação à escola, são as doações feitas pelos
bolsistas do Projeto Estudante14. Desde 2006, as crianças e adolescentes da Associação
recebem materiais que ajudam a se manter na escola. Entre 2008 e 2013 foram distribuídos
1.221 kits de material escolar, 1.146 kits com artigos de higiene e 478 blusas de fardamento
escolar, além de materiais de limpeza para a manutenção do prédio a fundação também apoia
a ONG em seus eventos como Dia as Crianças e confraternização natalina. Estas doações
ajudaram as crianças e os seus familiares a comprometer-se cada vez mais com a educação
escolar.
Atualmente, a entidade está sem projeto aprovado, mantendo suas atividades com
muita precariedade, contando com o apoio dos voluntários que se colocaram à disposição para
colaborar na realização do atendimento aos usuários sem receber nenhum retorno financeiro e
que são extremamente necessários diante das dificuldades financeiras enfrentada.
No início de Outubro de 2014, a ONG foi informada pela Fundação de Luxemburgo
que há uma possibilidade de financiamento de um novo Projeto para os anos de 2015 a 2018
cofinanciado pelo Ministério de Negócios de Luxemburgo. Diante dessa informação, três
membros da equipe têm centrado forças para a elaboração desse novo projeto, inclusive tenho
14
Projeto financiado pela Fundação de Luxemburgo que beneficia 30 jovens da comunidade com bolsas de
estudos.
35
feito parte dessa equipe de elaboração e tem sido mais uma experiência desafiadora na busca
da inovação e de um novo impacto das ações da ONG.
A busca por novos parceiros se tornou ainda mais constante. A equipe se mantém na
busca por novos projetos, porém, as dificuldades são muitas, inclusive por não ter as
documentações necessárias para conseguir apoios brasileiros. Além de ser cadastrada no
Conselho de Assistência Social, recentemente (2014) a entidade conseguiu o registro no
Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, após uma longa espera. Este
registro é de extrema importância para uma organização que trabalha com esse público e para
conseguir parcerias municipais e estaduais.
36
Capítulo III
A atuação da ACACB e atores locais15
Fonte: foto do acervo fotográfico da ONG.
3.1 Beneficiários do Projeto: crianças e adolescentes do bairro
Durante a pesquisa, foi notório observar que todo o trabalho da ACACB, tem como
foco de sua ação as crianças, adolescentes, jovens e seus familiares, e para que possa atender a
estes diferentes públicos esta tem desenvolvido atividades sócio educativas, e pequenos
cursos profissionais e/ou artesanais. Atualmente, a entidade atende a 123 crianças e
adolescentes e alguns jovens em idade de escolarização.
Cerca de 60% das crianças atendidas vivem em áreas de risco, moram próximas a
encostas e barreiras numa grota chamada “quebrada” em condições de pobreza, por isso, as
iniciativas da ONG pretendem atender com prioridade através de programas elaborados para
15
As informações contidas neste terceiro capítulo foram retiradas de projetos e relatórios da ONG.
37
elevar a sua autoestima, tornando-os autossuficientes e engajados na sociedade enquanto
cidadãos.
As crianças e adolescentes ao chegarem na ONG para participar de alguma atividade
são cadastradas e de acordo com esse cadastro e com as visitas domiciliares realizadas pelos
profissionais de psicologia, serviço social e educadores das atividades foi considerado que
cada família contém, aproximadamente, de 5 à 10 pessoas e que a maioria do público alvo
são filhos de pais separados e que moram com a mãe e irmãos e/ou parentes; então, diante
dessa realidade, a ONG visa atender a cada ano um total de 1000 pessoas diretamente, já que
os familiares dessas crianças também poderão ter acesso às atividades como cursos
profissionalizantes, visitas domiciliares, reunião com os pais, ginástica para as mulheres, além
de poder presenciar o que os filhos fazem na ACACB.
3.2 Agentes locais parceiros da ACACB: A família dos participantes e a escola
Segundo informações da coordenadora geral da associação, o envolvimento familiar
ainda é uma questão bastante delicada. Apontada como uma das dificuldades enfrentadas pela
ONG, as famílias não buscam participar ativamente da vida dos seus filhos, apesar dos
mesmos estarem diariamente na sede da organização. No entanto, é extremamente relevante
levar em consideração o quadro social em que vivem os usuários. Uma parte significativa das
famílias, preocupadas especialmente em buscar meios de se sustentar, as famílias acabam
deixando de participar mais efetivamente das questões relativas à ONG.
Então, para estreitar essa distância entre ACACB e a família dos participantes, a
referida entidade realiza bimestralmente visitas domiciliares com educadores, psicóloga e
assistente social da associação.
O Serviço Social na ACACB é de fundamental importância para intermediar a garantia
de direitos previstos pela Lei 8.069 /1990, Estatuto da Criança e do Adolescente. Sua
intervenção faz-se necessária por se tratar de crianças e adolescentes que residem e até mesmo
vivenciam situações de vulnerabilidade social, tendo como forte contribuição para a
desestruturação e até para uma possível ruptura de vínculos familiares a presença de usuários
de drogas em arredores da comunidade. Isso demonstra que é importante que sejam
trabalhados alguns temas juntos com as crianças e adolescentes, visando a oportunidade que
eles têm em estar associados à ACACB, onde esta busca deve contribuir para que aqueles não
entrem na realidade vivenciada pela comunidade. Técnicas aplicadas pelo profissional do
Serviço Social é um instrumento indispensável para melhor compreender a realidade posta
38
pelas crianças. A partir do que é posto busca-se trabalhar através das temáticas passadas
durante os encontros de formação semanais.
O objetivo do Serviço Social é contribuir para que estes adolescentes possuam uma
possível perspectiva crítica da realidade, se reconheçam enquanto sujeitos portadores de
direitos e deveres e que têm a oportunidade de efetivá-los na ACACB, através do esporte,
lazer, educação, alimentação, cultura, diferentes de alguns que até mesmo moram em suas
ruas. Enfim, que a ACACB, junto com os profissionais possam contribuir para um futuro
melhor na vida dos que aqui se associam.
Bimestralmente são realizadas reuniões com os familiares. Estes trabalhos tem sido de
orientação, atendimento PA (psicoterápico Apoio), de diálogo sobre o comportamento dos
participantes na vivência familiar. Além disso, buscam orientar os pais sobre seus direitos e
deveres sociais.
A Associação da Criança e do Adolescente da Chã de Bebedouro sabe da necessidade
de estar sempre presente na vida da comunidade e trabalha com satisfação na execução de seu
projeto e isso se faz possível devido à atuação e dedicação de toda a equipe, a atuação dos
pais, da comunidade.
A pesquisa mostrou a impressão dos usuários acerca do atendimento e do trabalho
realizado pela ONG. Durante alguns momentos de descontração, no horário do lanche,
durante os ensaios da banda, do teatro, dos treinos de futebol, em pequenos diálogos, a
maioria indicou que a organização desenvolve um bom trabalho, que gosta de estar naquele
ambiente, que se diverte. Diante disso, a fala de um participante do futebol, de 11 anos, foi a
seguinte: “Eu gosto de participar da associação, aqui a gente aprende coisas boas, se diverte.
Eu gosto de participar do futebol da ACACB”. Já outro participante do teatro, de 12 anos
disse: “Eu gosto de vir pra associação, pelo menos não fico na rua aprendendo o que não
presta”.
Foi possível notar que, as ações da ONG exercem um papel fundamental na vida dos
participantes, principalmente, quando eles indicam que podem estudar, aprender coisas novas,
comer e ter uma qualidade de vida melhor. A importância e a necessidade do trabalho desta
organização são reconhecidas pelos usuários, visto que a mesma tem seu funcionamento
ativo.
Nessa perspectiva, durante algumas entrevistas os participantes afirmaram que a sua
entrada na ONG trouxe muitas mudanças. Em síntese, a Associação da Criança e do
Adolescente da Chã de Bebedouro vem buscando melhorar a cada dia sua atuação na
39
comunidade, proporcionando a construção de laços sólidos de confiança e respeito, se
constituindo, assim, num ponto de referência para seus usuários.
A maioria dos participantes são estudantes das duas escolas estaduais do bairro,
inclusive estas escolas estão sempre de portas abertas para receber a ACACB que já realizou
algumas oficinas e apresentações de teatro e da banda, divulgando seu trabalho e, assim
trazendo mais crianças para participar. Depois da auditoria realizada na entidade, a fundação
financiadora do projeto solicitou pareceres de escolas, instituições, conselhos para ajudar a
reverter a situação, com isso, contamos com o parecer da direção de uma das escolas do
bairro, da representante da Rede de Educação Cidadã – RECID AL, de um conselheiro tutelar
conhecedor do trabalho da ONG, do CRAS Bebedouro e de profissionais de psicologia e
serviço social que passaram e conhece o trabalho da entidade. Todos unidos em busca de uma
educação de qualidade, em busca da mudança de vida, pois a educação que vem da família é
essencial, é a base de tudo e a escola, juntamente com o trabalho realizado pela ACACB, visa
dar continuidade a essa educação que, quando bem sucedida, transforma, contribuindo para
minimizar os problemas e conflitos do dia a dia.
3.3 Dispositivo para a prática do projeto – Responsáveis pela execução
Tab. 2 - Coordenação da ACACB – atuam voluntariamente (sem ajuda de custo de acordo
com o Estatuto da organização)
Quant.
Coordenação
Escolaridade
Função
2
Coordenadores geral
- Ensino médio completo
Responsáveis
- Ensino superior completo
gerenciamento da ACACB.
- Ensino Superior completo
Responsáveis
juntamente
- Ensino Superior completo
coordenação
geral
- Ensino Superior completo
financeira da ACACB.
3
Conselheiros fiscais
pela
deliberação
pela
com
e
a
gestão
Fonte: Projeto Ajudando a Educar/ Resgatando valores. Projeto elaborado pela equipe responsável da ONG.
Tab. 3 - Equipe permanente – são voluntários com ajuda de custo e estão diariamente na
ACACB, durante todo o ano.
Quant.
Profissionais
Escolaridade Solicitada
Função
2
Coordenadores
Nível superior completo
Atuar diretamente com a coordenação
administrativos
geral da ACACB, com o papel de
administrar, acompanhar e executar
todas as atividades.
1
Auxiliar multi
Nível Fundamental Completo
Colaborar com os serviços de limpeza
40
funcional
1
da ACACB
Psicólogo
Nível superior completo
Atuar diretamente com o público alvo
do projeto, tratando de todas as
questões relacionadas aos aspectos
psicológicos.
1
Pedagogo
Nível Superior completo
Atuar no processo de formação e
organização
das
adolescentes
crianças
e
assessorando
e
orientando a formação dos monitores.
1
Assistente social
Nível Superior completo
-Acompanhamento aos familiares.
-Ajudar a inserir os adolescentes e
jovens no primeiro emprego.
1
Monitor de banda afro Nível médio Completo
Responsável pelo
desenvolvimento
musical
das atividades afro musical com as
crianças e adolescentes.
1
Monitor esportivo
Nível médio Completo
Responsável
pelas
atividades
de
treinos do time de futebol.
1
Monitora de teatro
Nível Superior ou curso técnico
Responsável
pela
execução
das
atividades teatrais.
Fonte: Projeto Ajudando a Educar/ Resgatando valores. Projeto elaborado pela equipe responsável da ONG.
Tab.4 - Equipe Temporária – são voluntários com ajuda de custo apenas para desenvolver o
curso durante o período previsto no planejamento semestral16.
Quant.
Profissional
1
Monitor
de
Escolaridade Solicitada
cursos Nível Fundamental – Artesão
artesanais
1
Medicina popular
Função
Desenvolver curso artesanal com o
público jovem e adulto.
Nível Médio Completo
Desenvolver o curso para o público
jovem e adulto.
16
As atividades temporárias e auxiliares planejadas para 2014 não foram executadas devido a falta de recursos
humanos e materiais, porem, mantive estas informações visando apontar que eram objetivos almejados pela
ONG e que não foram possíveis para este ano.
41
1
Curso
Nível superior ou curso técnico
profissionalizante
1
Desenvolver curso com o público
jovem e adulto.
Curso de língua
Nível superior ou técnico na língua Desenvolver o curso para o público
estrangeira
infantil e jovem.
Fonte: Projeto Ajudando a Educar/ Resgatando valores. Projeto elaborado pela equipe responsável da ONG.
Tab. 5 - Equipe Auxiliar – voluntários no desenvolvimento de serviços e ações
complementares.17
Quant.
Profissional
1
Professor de danças A partir do Ensino fundamental
.Responsável em desenvolver diversos
populares.
tipos de dança popular.
1
Escolaridade
Educador físico
Nível superior
Função
Responsável em desenvolver aulas de
ginástica laboral e aeróbica para as
mulheres da comunidade.
1
Monitor de Capoeira
Nível Médio Completo
.Responsável em desenvolver aulas de
capoeira e levar informação sobre a
cultura popular, a origem dança, as
tradições celebradas em músicas e
canções, os instrumentos que animam
a atividade.
1
Monitor
marcial
de
arte Nível Médio Completo
Responsável
em
levar
aos
participantes o desenvolvimento e
habilidade em artes marciais além de
incentivar a autoconfiança e respeito
ao próximo.
Fonte: Projeto Ajudando a Educar/ Resgatando valores. Projeto elaborado pela equipe responsável da ONG.
Muitas pessoas já passaram pela Associação enquanto voluntários, a exemplo do
jovem Albertieide Amorim que foi integrante da banda afro e depois atuou enquanto educador
17
Durante a realização de determinados projetos a ONG contou com a parceria de voluntários que já participaram
de alguma atividade durante sua adolescência a exemplo do professor de dança, o estudante de Educação física
Joseph de Morais, jovem morador da comunidade que foi integrante do teatro e da banda que durante dois anos
consecutivos prestou serviços na ONG dando aulas de dança afro às crianças entre 11 e 14 anos. A equipe de
voluntários da ONG são pessoas que na sua maioria participam ou já participaram de pastorais, de movimentos e
grupos da Paróquia de Santo Antônio de Pádua – Bebedouro e de outras ONGs de Maceió, a exemplo de Sirlene
Lopes, pedagoga e uma das fundadoras da Associação que é engajada em pastoral da terra e grupos religiosos
como Legião de Maria e Fraternidade do Discípulo Amado.
42
do futebol infantil durante dois anos. A Srª Martiliana Gusmão foi integrante da banda
feminina e depois de alguns anos prestou serviços na ONG enquanto professora de reforço
escolar. O Sr. Aparecido Lima, foi integrante da banda Arranha-céu durante uma parte da sua
adolescência passando a ser educador após um certo tempo, depois de Aparecido, o Sr.
Thiago de Morais, que também foi integrante da banda, passou a atuar enquanto educador da
mesma pelo período de dois anos. O Sr. Luiz Alberto, foi um dos primeiros integrantes da
banda afro Arranha-céu, e com o passar dos anos, se tornou educador do futebol deixando a
função para atuar na coordenação administrativa, permanecendo durante quinze anos. A Srª
Lidja Pereira foi participante de grupo de jovens da Capela de São Sebastião, passando a ser
educadora no Centro Comunitário. Foi uma das pessoas que fundou a Associação e atuou
durante alguns anos enquanto coordenadora administrativa da ONG, participou do Conselho
Fiscal por dois mandatos consecutivos e hoje é professora da rede pública de ensino e
coordenadora executiva do Projeto Estudante. Outro exemplo é o do Sr. Marcio Ferreira que
já foi participante da banda quando a mesma ensaiava na grota Arranha-céu, e atualmente
alem de ser educador da Banda Afro Liberdade, também é coordenador geral da ONG,
juntamente com Roseane Oliveira. Por fim, o Jovem Michael Liberato, foi participante do
time de futebol e hoje atua no time enquanto educador desde 2010.
3.4
Organização das atividades da ONG
Atividades permanentes – CULTURAIS
Banda Afro Musical - tal atividade se propõe a fazer um resgate da cultura afrobrasileira conscientizando as pessoas acerca da sua origem, visto que no bairro predominam
indivíduos afrodescendentes. A banda ajuda a divulgar e expandir essas referências culturais
entre a população.
Teatro/Baú de leitura - como fonte de aprendizagem, o teatro tem contribuído para o
despertar da sensibilização das crianças e adolescentes, além de trabalhar a expressão
corporal, superando a timidez, levando-os a valorizar-se e acreditar no seu potencial, neste
sentido tem proporcionado entre eles ações mais solidárias estimulando a arte, a leitura e a
interpretação. Assim, o teatro desenvolve o lúdico permitindo o despertar de fantasias e
sonhos que se tornam realidade através dos gestos.
Grupo de Dança Popular - este grupo tem um trabalho bem diverso, visto que os
seus participantes podem aprender várias danças diferentes como coco de roda, dança afro,
43
axé music e outras populares do Brasil. Portanto esta atividade diversifica a expressão da
autoestima. Os participantes que já fizeram parte desta atividade, além de aprender sobre as
origens das danças populares, também desenvolveram aptidões por essas artes ajudando a
preservá-las.
Grupo de capoeira18 - Foi no século XVI que a Capoeira manifestou-se pela primeira
vez em terras brasileiras, criada por negros escravizados, numa mistura de forma de luta e de
dança. Naturalmente, eles não tinham liberdade alguma de praticar suas tradições, por isso, a
Capoeira era então apresentada de modo disfarçado, como se fosse uma dança com canto e
mais nada. Aos poucos, porém, ela acabou por vingar em todo o Nordeste do país, ganhando
diversidade mais de um estilo de luta - um dos mais populares (e antigos) é chamado de
Capoeira Angola, caracterizado por golpes baixos, rentes ao chão, e animado pela música de
ritmo mais lento.
A criança que pratica Capoeira aprende não apenas a jogar como também a cantar.
Como também aprimora o controle emocional, estimulando a observação e a defesa, quando
necessária, ao contrário de incentivar a agressividade e a violência.
Grupo de arte marcial19 - Praticar esportes é importante para o desenvolvimento
físico e mental da criança, além de contribuir com a educação e socialização dela. O esporte é
ótimo para canalizar a energia da meninada. Por isso, as artes marciais devem entrar na vida
da criança e do adolescente, como uma brincadeira. Além dos benefícios físicos, as artes
marciais desenvolvem importantes habilidades nas crianças. A principal delas é a disciplina,
pois o professor não só explica a técnica de luta, como também ajuda a mudar o caráter do
aluno. O professor ensina para a criança que ela não deve brigar na rua, não pode discutir com
os mais velhos, deve respeitar os pais, precisa estudar. Nos primeiros meses de prática, os pais
já notam a diferença tanto física quanto comportamental dos filhos.
Atividades permanentes – ESPORTIVAS
Time de futebol - O esporte, principalmente o futebol, é uma grande atração entre as
crianças e adolescentes, pois a grande maioria tem o sonho de se tornar um atleta profissional,
para tanto temos tentado corresponder aos anseios e desejos deste público que vê no futebol
uma alternativa de transformação social e melhoria de vida. Além de ser um dos esportes
18
Esse tipo de atividade que ainda não foi ofertada pela ONG. A realização da mesma contribuirá como uma
inovação para o trabalho desenvolvido.
19
Idem.
44
importante para as crianças e adolescentes ocuparem o tempo e a mente, para assim vencer as
tentações de entrar no mundo da marginalidade.
Cursos temporários
Curso Artesanal – a cada ano a entidade busca desenvolver um curso de técnicas
artesanais tais como biscuit, reciclagem com garrafa pet, flores de meias, dentre outros. A
proposta deste trabalho visa principalmente utilizar materiais recicláveis, como vidros,
borrachas e outros que são inutilizados pelas pessoas e são jogados como lixo agredindo o
meio-ambiente. Com isto a entidade pretende, a partir dos participantes deste trabalho, criar
uma conscientização nas pessoas acerca da preservação do meio ambiente.
Cursos profissionalizantes – Esses tipos de cursos visam oferecer novas perspectivas
de vida e condições de transpor a vulnerabilidade social e econômica. Com este tipo de
atividade a ONG visa oferecer condições para que participantes possam adquirir
conhecimento para está ingressando no mercado de trabalho.
Curso de língua: Incentivar os jovens para o estudo de línguas estrangeiras,
observando a necessidade do mercado de trabalho como também garantir um maior sucesso
escolar por parte das crianças e adolescentes que apresentam dificuldades. O estudo de uma
outra língua também possibilita a quebra de barreiras educacionais e culturais, abrindo a
possibilidade dos jovens de fazerem intercâmbio.
Atividades permanentes – EDUCACIONAIS
Encontros de formação: os encontros de formação são os espaços em que
prioritariamente os participantes de cada atividade sócio educativa podem, de forma lúdica,
conversarem sobre si e suas vidas de forma a trocarem ideias sobre a escola, a família, a
comunidade em que vivem. Debaterem temas como violência, drogas, doenças sexualmente
transmissíveis, namoro, o meio-ambiente, dentre outros relacionados a aspectos políticos e
econômicos.
Nos encontros de formação impulsionamos as crianças e adolescentes a pensarem
sobre determinado assunto ou situação, despertando os aspectos críticos, lúdicos e
imaginários de cada um, fazendo com que a reflexão individual seja exposta e se concretize
através de ações coletivas para a melhoria das condições de vida de todos.
45
Desde as crianças até o público adulto, a ação formativa é o eixo que será usado para
vencer os problemas sociais e econômicos do público alvo e concretizar as ações que levarão
a mudanças de consciência e de comportamento que possibilitarão uma melhoria de vida
destas pessoas.
Atividades temporárias – EDUCACIONAIS
Oficinas de Doenças Sexualmente Transmissíveis, AIDS e uso de Drogas: esta
temática é discutida em uma oficina de formação, cujo público alvo são os adolescentes e
jovens, lideres dos grupos, no sentido de fornecer formação para que estes possam, dentro dos
diferentes grupos de trabalho da ACACB, multiplicarem os conhecimentos recebidos na
oficina com outros jovens. Com esta oficina pretendemos formar multiplicadores de
informações sobre prevenção as Doenças Sexualmente Transmissíveis, AIDS e uso de drogas,
na faixa de idade de 10 à 16 anos.
Certamente esta proposta de formação contribui para uma tomada de consciência dos
nossos adolescentes sobre esta temática, diminuindo assim o número de jovens com doenças
sexuais e o número de adolescentes grávidas.
Palestras Educativas: desenvolver palestras voltadas para a saúde, educação e
cuidado com os filhos, priorizando o público adulto pais e mães, no intuito de ajudar essas
pessoas a adquirirem informações para a melhoria da qualidade de vida.
Atividades complementares
Caminhada Vamos Viver sem Drogas: Saindo da sede da ONG percorrendo as ruas
do bairro ao som afro da banda, com faixas, cartazes e distribuindo panfletos para a
população. Apresentando este grave problema das drogas que atinge a juventude e também
mostrando que existem formas de manter os nossos jovens longe das drogas, através da arte,
da cultura e do lazer. Em ambos os momentos ocorreram apresentações teatrais, de dança e a
participação de outras entidades e grupos que se fizeram presentes para transmitir suas
mensagens à população do bairro. Aos longos dos anos conseguimos tornar essa ação anual na
ACACB, pois este também é um momento em que o público que a Associação atende pode se
expor na rua e mostrar a toda a população o que estão aprendendo e fazendo na Associação.
Além disso, percebemos, em ambos os momentos, que dessa forma atingimos diretamente a
juventude que não conhece ou que não participa da Associação e que são usuários de drogas.
46
Semana da Consciência Negra: desde 2002 todos os anos em comemoração ao Dia
da Consciência Negra – 20 de novembro – a ONG realiza na Praça Rui Palmeira, mais
conhecida como praça do mirante, apresentações com a banda, o grupo de teatro e também
com a presença de outras entidades e grupos. É um momento de promoção da cidadania e de
conscientização. A cada ano temos um público cada vez maior, que vive a perspectiva deste
momento. Para as nossas crianças e adolescentes é um momento de muita alegria, pois eles
tomam conta da praça para mostrar à população, através da arte, o que é cidadania, o que é
consciência. É um momento em que são colocadas barracas, serviço de som, carros de apoio
para o transporte de materiais: instrumentos, materiais de apresentação e assim é possível
tornar este evento um espaço de contato de toda a população do bairro com as ações de
formação da ACACB.
Arraial Junino na comunidade: Comemorar com a comunidade este tradicional
festejo nordestino, que traduz através da música, da dança e das comidas típicas à base de
milho, a cultura popular. Proporcionando um momento em que toda comunidade, em ritmo de
alegria e descontração, pode estar refletindo junto com a ACACB alguma situação pertinente
à sua realidade. Em 2012, o arraial teve como tema o meio ambiente.
Oficinas nas escolas: Esta atividade visa fortalecer o vínculo com as escolas,
contribuindo para o enriquecimento cultural e para o crescimento dos alunos tornando-os
pessoas confiantes e seguras a respeito da diversidade cultural do país. Essas oficinas servem
para divulgar a cultura afro brasileira, expondo aspectos históricos e sociais que predominam
na população atual do bairro, formada na maioria por negros.
Segundo Roseane Oliveira, as atividades foram sugeridas de acordo com o perfil da
comunidade assistida. Algumas delas já são oferecidas a algum tempo como as atividades
permanentes e outras como artes marciais e curso de línguas, são atividades que visam inovar
o trabalho. Contudo, para a execução de todas, as atividades, o projeto precisa ser aprovado
devido às despesas previstas com recursos humanos e materiais.
3.5
Dificuldades encontradas ao longo do trabalho
Durante toda a minha experiência e permanência na ONG, pude notar que as
dificuldades durante a execução do Projeto são muitas. São grandes os desafios enfrentados
pela associação, já que o trabalho foca claramente a linha de prevenção, intervenção e
informação. Abaixo, serão apontadas algumas das dificuldades enfrentadas de acordo com
informações contidas nos relatórios da ONG.
47
No bairro da Chã de Bebedouro, não tem posto de saúde;
As escolas do bairro estão super lotadas, pois a população do bairro aumenta,
porém o número de escolas não aumenta;
A Falta de investimentos, por parte do poder público, para auxiliar iniciativas
de instituições como a ACACB;
Não há creche no bairro, aspecto que causa preocupação aos pais que precisam
sair para trabalhar e não têm onde deixar seus filhos pequenos, recorrendo, assim, a escolinhas
particulares ou a ajuda de familiares;
A falta de segurança é muito grande, não tem posto policial;
A Praça pública é alvo para os usuários de drogas e fica em frente às duas
escolas públicas do bairro;
Muitas famílias vivem em casas improvisadas em encostas, a exemplo de
Maria20 participante do teatro que mora nas quebradas, onde não há saneamento básico. Áreas
de grande perigo, durante o período de chuvas, pois já ocorreram desabamentos;
Os jovens da comunidade estão sujeitos a todo tipo de violência, pois faltam
serviços como esporte, lazer e profissionalização;
Em conversa com o educador do time de futebol, Michael Liberato, durante minhas
idas aos treinos no campo situado próximo à Praça Rui Palmeira, no bairro, o mesmo se
mostrou bastante preocupado com a situação em relação ao local de treino por saber que no
num futuro não muito distante, no espaço que hoje serve para práticas esportivas, como o
futebol, será construído um condomínio residencial, e, com isso, o time terá que procurar
outro local para treinar. E essa também é uma preocupação da comunidade, pois o campo é a
única alternativa de lazer que existe no bairro e sem ela qual atrativo as crianças e
adolescentes terão?
Muitos jovens da comunidade são vítimas das drogas, alguns como traficantes
e outros como usuários, aspecto que causa a morte precoce da juventude do bairro. A exemplo
de Marcos, jovem de 20 anos que foi assassinado em Julho deste ano, vítima de arma de fogo
no próprio bairro devido ao envolvimento com o tráfico na região. O mesmo, na sua infância,
foi participante da Banda Afro Palmares. Outro exemplo foi o de Ana, vítima também de arma
de fogo nas proximidades de sua residência por motivos de acertos de contas devido às
20
A partir deste momento, os nomes citados serão fictícios, pois os mesmos foram informados de que suas
identidades não seriam reveladas.
48
drogas. A mesma, durante um período de sua infância, foi participante da banda afro feminina
da associação.
Ainda nesse aspecto, durante todo o trabalho da associação foram atendidas crianças e
adolescentes de todo o bairro que participaram de algum tipo de atividade ofertada, recebendo
toda a formação possível buscando auxiliá-los para uma boa educação. Porém, nem todas
seguiram os ensinamentos que receberam. Essas crianças se tornaram jovens e infelizmente
algumas entraram para o mundo do tráfico do uso de drogas, alguns deles perdendo até a vida.
Diante disso, vem a grande interrogação: De quem é a culpa? Há responsáveis para essas
questões? Será que a associação, enquanto entidade que foca seus trabalhos a crianças e
adolescentes em situação de vulnerabilidade social, teve alguma culpa? Será que a mesma
falhou em algum momento? Essas e outras perguntas e questionamentos levam a uma
considerável reflexão.
Eu, enquanto membro desta ONG e enquanto pesquisadora, tenho minha visão com
relação a essa questão. As drogas estão cada vez mais presentes na sociedade e,
consequentemente, no bairro de Chã de Bebedouro. Esta situação entristece a todos os
colaboradores da ONG; todavia, sabe-se que apenas a associação não tem forças para
combater esse mal que afeta o país inteiro, é preciso a intervenção de todos, da família, do
poder público, da escola, enfim, daqueles que de fato são responsáveis pela educação e pelo
futuro das novas gerações.
Convivendo com essa comunidade, percebo que a mesma precisa ser mais assistida
pelo poder público com serviços públicos básicos como saúde, segurança, moradia
e
educação visto que a falta desses serviços ou a precariedade dos mesmos agrava a condição de
precariedade em que vivem as pessoas. Algumas famílias assistida pela ONG, sobrevivem, na
maioria dos casos, de trabalhos temporários, do Bolsa Família e/ou da aposentadoria de algum
membro da família.
Isto dificulta o trabalho da Associação, pois muitas famílias necessitam de serviços,
que só o poder público pode oferecer, cabendo assim à ACACB, orientar, informar, para que
essas famílias busquem o auxílio governamental de que necessitam, enquanto cidadãos
portadores de direitos e deveres.
Diante de tudo isso, a luta é desigual, pois, de um lado está a ACACB oferecendo
formação e prevenção contra o tráfico, o uso de drogas, a violência, a marginalização. E do
outro faltam serviços que possam atender a população e, assim, favorecer o bem comum e
coletivo. Portanto, muitas vezes só resta à comunidade recorrer à ACACB, com a sua proposta
49
de trabalho mostrando que educação, cultura e esporte são os mecanismos que podem favorecer
a todos com melhores condições de vida.
3.6
Resultados alcançados com a execução do projeto
Para este tópico, serão considerados os dados a partir de 2008. Ao longo dos seus anos
de existência, a ACACB sempre desenvolveu atividades voltadas para a educação, cultura,
esporte e lazer. Dentro desse foco, mantém um trabalho cultural com bandas e teatro, um
trabalho esportivo com time de futebol, um trabalho educativo com atividades como cursos
profissionalizantes, encontros de formação. Tudo sempre foi organizado e desenvolvido
visando uma ação cidadã, ou seja, um agir que concretize valores éticos e morais, que
ultrapasse os muros da ACACB e se expanda na comunidade.
Entre 2008 e 2013, algumas atividades foram implantadas visando uma maior
expansão do trabalho:
Em 2008, através do Projeto, foi possibilitada a implantação do laboratório de
informática com curso gratuito viabilizando um maior contato dos participantes com o mundo
virtual possibilitando aos mesmos a oportunidade de se profissionalizar, principalmente os
jovens que buscam uma colocação no mercado de trabalho. Para isto, foi aberto o laboratório
totalmente equipado com computadores ligados à internet e disponibilizado um professor para
atender aos cursistas e à comunidade em geral.
Com isso, foi garantido o acesso da comunidade a essa ferramenta tecnológica que é a
internet e, com isso, avançamos no conceito de profissionalização. Participei, enquanto
coordenação administrativa, da implantação deste laboratório, da formação das turmas de
cada módulo. Hoje, observando este ambiente, percebo que o mesmo poderia está servindo
mais à comunidade. Porém, atualmente, o laboratório está parado para cursos, sendo utilizado
apenas como biblioteca. De início, as turmas eram lotadas e a participação dos alunos era
positiva, mas, depois, não estava sendo mais possível preencher todas as turmas devido à falta
de interesse da comunidade e dos participantes da ONG.
Visando a melhoria na qualidade do trabalho na associação, ainda em 2008, deu-se
início às formações para educadores, onde os profissionais da Associação tiveram a
oportunidade de se capacitarem. Capacitando todos os monitores das atividades permanentes,
temporárias, equipe administrativa e técnica, oferecendo a todos os colaboradores da ACACB
formações que foram pautadas a partir de valores como colaboração, criatividade,
responsabilidade, ética, afetividade, lutas de classes, planejamento, dentre outros. Dessa
50
forma, desenvolveu atividades formativas para a compreensão, discussão, transformação e
ação referentes ao trabalho da ACACB, tendo por base uma perspectiva de cidadania. Com
esse foco, as formações instituíram uma forma inovadora de atuação de cada um.
Em 2010, foi realizado o curso de garçom e garçonete obtendo um resultado
satisfatório. O curso ofereceu aos alunos o conhecimento e o domínio de técnicas do serviço
de garçom, através de um treinamento intenso e adequado, com a utilização de técnicas
padronizadas e modernas, que atendiam às exigências do mercado.
Todos os alunos que concluíram o curso fizeram estágios em restaurantes da cidade.
Alguns conseguiram trabalho na área, “a exemplo do jovem Ezequiel, morador do bairro que
após concluir o ensino médio em uma escola pública se inscreveu na primeira turma do curso
de garçom e garçonete. Durante o curso, presenciei algumas das aulas teóricas e práticas do
curso e pude observar a empolgação de Ezequiel buscando se capacitar para o mercado de
trabalho. Ele, como os outros 14 alunos, fizeram estágio em restaurantes da cidade e Ezequiel
trabalhou durante um ano em um restaurante na parte alta de Maceió”. Esse curso foi
considerado inovador, pois além de beneficiar diretamente os alunos com o aprendizado,
indiretamente beneficiou seus familiares “a exemplo de Gil, morador do bairro, que desde
2011 trabalha de garçom e sustenta sua esposa e dois filhos”.
Em 2012, visando atender às demandas do mercado de trabalho que tem se expandido
com empresas de telemarketing e serviços, a ONG realizou dois novos cursos
profissionalizantes, o de Telemarketing e o de auxiliar administrativo.
Em ambos os cursos obtive resultado satisfatório. Além de capacitar os alunos para o
mercado de trabalho, foi através do curso de telemarketing que as jovens Roberta e Kívia
atuaram no Projeto Telemarketing da ACACB, como operadoras.
A parceria entre a Associação da Criança e do Adolescente da Chã de Bebedouro e a
Fondation Meninos e Meninas de Luxemburgo, ocasionou impactos na vida da comunidade
beneficiada, tais como:
Diminuição do número de crianças fora da escola. 100% das crianças e
adolescentes participantes da ACACB frequentam a escola.
A Diminuição de crianças e adolescentes no trabalho infanto-juvenil. As crianças
e adolescentes que participam da ACACB não são mais levadas para ao trabalho dos pais,
onde passavam o dia como ambulantes, catadores de sururu, e deixavam de frequentar a
escola. As crianças e adolescentes encontram na ACACB um espaço de acesso à cultura, ao
esporte e ao lazer, retomando sua vida escolar.
51
A inserção de seus participantes no mercado de trabalho. Cerca de 70% das
pessoas que participaram dos cursos ingressaram no mercado de trabalho ou encontraram o
meio de gerar renda a partir do que aprenderam “a exemplo de Márcia, Neide e Evellin que
foram alunas do curso de biscuit em 2008 e até hoje confeccionam peças artesanais por
encomenda, outras, a exemplo de Marcele, trabalha enquanto cabeleireira na em sua
residência”.
Durante o período de 2008 a 2013 foram ofertados 09 cursos profissionalizantes,
atingindo diretamente 102 pessoas e indiretamente cerca de 350 pessoas. Foram realizadas
mais de 530 reuniões semanais de formações, monitoradas pela pedagoga, 12 encontros de
formação para educadores e equipe técnica, 06 caminhadas “Vamos viver sem Drogas”, 06
eventos em praça pública comemorando o dia da consciência negra, 04 caminhadas a favor do
meio ambiente, 03 atos públicos contra a negligência do governo, apresentamos nas principais
ruas da comunidade, através da música, da dança, do teatro, que é possível libertar os jovens
do vício das drogas. Efetivamente, atingimos com este tipo de manifestação, cerca de 80% da
população do bairro.
Formação de uma consciência social, cultural e política. Uma das principais ações
da ACACB é a formação social, possibilitando o protagonismo infanto-juvenil, pois se trata
de um trabalho que tem superado barreiras, proporcionando a liberdade de expressão aos
beneficiários no processo de transformação que melhora a sua conduta, seu comportamento
perante a família, escola, amigos e na comunidade.
A luta contra a violência, as drogas e a criminalidade. Alagoas é considerado um
dos estados mais violentos do Brasil, de acordo com pesquisas nacionais. Toda essa violência
vitima principalmente os jovens, e por isso, a ACACB, sempre mantém uma proposta de
combate à violência, às drogas, à exploração, à criminalidade. Sua proposta se baseia na
prevenção, que envolve a família, a escola e comunidade em geral. Caminhadas,
manifestações, atos públicos trazendo para as ruas do bairro e para as escolas, a discussão de
temas como drogas, expondo os malefícios que as drogas causam na vida da comunidade, dos
jovens e da família; além disso, são realizadas visitas e reuniões que visam identificar as
famílias de risco e desenvolver um trabalho de combate à violência e de proteção da criança e
do adolescente, fazendo os devidos encaminhamentos ou, se necessário, acionando os órgãos
de defesa dos direitos da criança e do adolescente.
Toda a sociedade percebe que falta foco nas políticas públicas sociais como educação,
segurança e saúde, que são as políticas de real interesse da população para aniquilar a miséria
que acompanha a comunidade e destrói o sonho e o crescimento das famílias e dos jovens.
52
Durante toda minha pesquisa observei que há muito desejo desta Associação em fazer
sempre o melhor para a comunidade assistida, isso foi visível, porém, para que os resultados
surtam os efeitos esperados ela precisa de parceiros que abracem a causa.
No período de 2008 à 2013 as bandas afros musicais e a dança afro atenderam
cerca de 142 crianças e adolescentes (ver anexo), realizou 32 apresentações, atingindo no
total, um público de mais de 6.000 pessoas. O grupo de teatro fez cerca de 90 apresentações
contemplando temas como: meio ambiente, gravidez na adolescência, negritude, contos de
fadas, tráfico de drogas, família e comédias atingindo aproximadamente 4.800 pessoas. No
decorrer deste período, os times de futebol trabalharam cerca de 178 crianças e adolescentes
(ver anexo) realizando 11 torneios e participando de 5 campeonatos de futebol, conquistando
27 troféus.
Aqui, gostaria de destacar o nome de alguns jovens que foram integrantes das
atividades sócio-educativas da ACACB, outros que ainda participam e que hoje estão
cursando a universidade e cursos técnicos.
Sendo eles: Mariana Barros - Estudante de Pedagogia
Mariana Karine - Estudante de Sistema de Informação
Monique Oliveira – Estudante de Recursos Humanos
Aysha Odhara – Curso Técnico
Heberton Amaro – Estudante de Engenharia Civil
Tayane de Lima – Curso Técnico
Firmou parcerias importantes, que passaram a contribuir efetivamente com o
trabalho da ACACB como: o Programa Mesa Brasil (Serviço Social da Indústria) que desde
2010 já ofereceu cerca de 14.227 quilos de gêneros alimentícios que são distribuidos com a
comunidade e também usados para complementar o lanche que é oferecido pela ACACB aos
participantes das suas atividades e a parceria com a Recid-AL (Rede de Educação Cidadã)
que vem fazendo um grande diferencial dentro das atividades desenvolvidas pela ACACB no
aspecto formativo assessorando, participando e oferecendo atividades formativas.
Outra coisa que não informei neste trabalho até agora: durante todo o periodo de
financiamento desta fundação, membros da mesma (presidente, diretora e tesoureira) visitam
a ONG, a cada dois anos, para conferir o andamento das atividades, sugerindo propostas para
a melhoria dos trabalhos da ONG, conferindo prestações de contas mês a mês (que são
enviadas mensalmente juntamente com os extratos bancários), enfim, fazendo um tipo de
fiscalização.
53
3.7 Depoimentos dos entrevistados
As entrevistas foram realizadas com roteiro semi-estruturado facilitando de forma
imediata a obtenção de informações a respeito da opinião dos entrevistados sobre a referida
entidade. As entrevista teveram duração de aproximadamente 30 minutos e aconteceram no
espaço da associação.
A primeira a ser entrevistada foi a coordeandora Geral da ONG, Srª Roseane Oliveira,
que repassou algumas informações importantes que deram o pontapé inicial na chegada a
campo.
“O que acho importante é ver crianças e adolescentes que já
passaram pela ACACB serem pessoas formadas vivendo uma vida
melhor, pensando por transformações; apesar de todas as
dificuldades encontradas, não desistimos em buscar um caminho
digno e isso para a ACACB é uma luta constante e gratificante,
poder mostrar outros horizontes. Dificuldades existem e são muitas,
mas, desistir jamais. Tudo em prol da transformação” (Roseane,
voluntaria da ONG, 38 anos (F)).
Roseane, durante uma parte da sua adolescência, foi participante das atividades do
Centro Comunitário e a quatro anos atua enquanto coordenadora administrativa. e Em Março
de 2013foi eleita para a coordenação geral exercendo as duas funções.
A segunda entrevista foi realizada na sala de teatro com uma voluntária educadora do
grupo de teatro e baú de leitura. Esta educadora, além de prestar um serviço voluntário nesta
entidade, também é técnica em enfermagem e servidora pública. Sentamos no palco de
madeira que fica na sala e fomos dialogando um pouco sobre os trabalhos, dando ênfase à
atividade que ela realiza com as crianças e adolescentes envolvidos.
A mesma relatou o seguinte:
“Entrei aqui através do convite de uma amiga, em 1990. Há 24 anos.
Sou uma das fundadoras da ONG. Antes era Centro Comunitário
Nossa Senhora da Conceição, e hoje, Associação da Criança e do
Adolescente da Chã de Bebedouro. Frequento as reuniões da
coordenação geral enquanto Conselheira Fiscal, além de junto com
toda equipe buscar soluções e tomar algumas iniciativas em relação
à ONG; participo dos eventos desenvolvidos pela instituição;
assumo o grupo de teatro e o Baú de leitura.
54
Antes de se tornar uma ONG legalizada, assumia uma sala de aula,
acompanhava alguns cursos oferecidos, uma turma de futebol, banda
afro musical e ainda ficava responsável de desenvolver um grupo de
teatro na comunidade. Em 2000, no ano de fundação da ACACB, fiz
parte da primeira coordenação Geral durante dois mandatos
consecutivos, do Conselho Fiscal mais um mandato. Mesmo
encerrando a coordenação, toda equipe sempre foi de se dedicar e
fazer muito mais pela ONG, ou seja, durante todos esses anos venho
contribuindo em todos os momentos de desenvolvimento da ONG,
desde a elaboração de projetos a ações internas e externas como:
caminhada vamos viver sem drogas, arraial na comunidade, oficinas
de DST’s, atividades dentro da escola, caminhada ecológica, semana
da consciência negra, gincanas, palestras, além de assumir
diretamente uma turma de teatro conhecido como Teatro A Cara do
Brasil e um grupo de Baú de Leitura que tem como objetivo
incentivar a leitura e despertar a criatividade através das peças de
contos de fadas.
Devido meu espírito comunitário, e minha satisfação em fazer algo
pelas crianças e adolescentes que vivem na vulnerabilidade,
participei muitos anos de grupos de igreja, coordenei grupos de
jovens e adolescentes, formei grupo de crisma, catequese, e entre
outros.
Muita coisa mudou na minha vida durante todos esses anos. Aprendi
a ter uma visão diferente das coisas, a lutar pelo bem estar do outro,
a não aceitar as injustiças sociais que vêm afetando a população
carente em maior proporção” (Maria, Voluntária da ONG, 46 anos).
Outro entrevistado for um participante do grupo de teatro que durante a entrevista em
um espaço da ONG relatou sobre as mudanças que ocorreu na sua vida após sua entrada na
atividade.
Ele relatou da seguinte maneira:
“A ACACB é algo muito importante na minha vida, pois foi aqui
que aprendi meus valores de cidadão. Já participo da ONG há cinco
anos e esse tempo de convívio serviu para que eu não me envolvesse
no mundo das drogas ou em coisa pior... Aqui me sinto seguro, pois
já vi amigos meus que participaram das atividades da associação que
hoje estão muito bem, outros não tiveram a mesma oportunidade de
serem alertados sobre as drogas e sobre outros problemas.
55
Minha vida mudou bastante, começando pelo meu modo de agir, de
pensar sobre a questão da negritude, da importância do negro na
sociedade. A ACACB também me ensinou muito sobre como tratar
e respeitar os outros. O meu primeiro contato foi através da banda
afro, eu vim pra uma das formações e gostei muito das dinâmicas,
do tema abordado e fui participando dos encontros que me fazia me
enturmar com os outros adolescentes e a partir disso fui conhecendo
as outras atividades onde comecei a participar do grupo de teatro e
depois do baú de leitura. Hoje em dia faço de tudo um pouco pra
ajudar e sempre que posso estou por aqui” (participante do teatro, 16
anos(M)).
Entrevista com uma participante do teatro de dezenove anos. A mesma relatou:
“Cheguei na ONG aos 15 anos de idade, não era uma garota tímida,
porém muito fechada, achava desnecessário me aproximar das
pessoas. No decorrer do tempo na ONG, participando das atividades,
fui mudando um pouco dessa personalidade. Pois algo notável na
ONG, é a socialização, lá somos todos iguais, e cada um é respeitado
independentemente de suas diferenças.
Atualmente com 19 anos, e com diversas responsabilidades,
participar da ONG, me gera um escape, a ONG tornou-se um lugar
onde ao chegar me sinto bem, e posso ser eu mesma. Hoje posso
retribuir toda a ajuda e carinho que recebi, ajudando como posso nas
atividades realizadas por ela” (Participante do teatro, 19 anos (F)).
Entrevista com uma participante do teatro de 10 anos que relatou:
“Para mim a associação é uma instituição de crianças e adolescentes
que ajuda a muitas famílias com material escolar, cestas básicas,
enfim, a associação também ajuda a muitas mães na educação de
seus filhos, porque às vezes os pais têm muitas dificuldades em
educar os filhos e a ACACB é como se fosse mais uma força. Eu
queria agradecer a ACACB por tudo o que ela já fez por mim, graças
a Deus eu não fico muito em casa trancada, agora eu me divirto
mais, me sinto mais à vontade.” (obs.: ao final a entrevistada disse::
são poucas as palavras, mas são verdadeiras).
56
Relato do participante do futebol durante entrevista:
“Eu participo do futebol desde os 12 anos e já aprendi muitas coisas
aqui. Gosto dos encontros de formação, dos passeios e dos eventos
que a associação faz.Alem disso recebo doações de material escolar,
de higiene pessoal e alimentos. Também ajudo quando tem mutirão
de limpeza e algum evento. Meu sonho é ser jogador de futebol,
ajudar minha familía e cada vez que eu vou treinar no time cresce
esse meu sonho. Mas sei que preciso estudar e lutar pelos meus
objetivo” (Participante do futebol, 16 anos).
Relato de um participante da banda afro:
“Eu sei que o Centro Comunitário foi fundado há mais de vinte anos
e desde lá vem ajudando os adolescentes a não se drogarem, que em
vez de estarem nas ruas cometendo crimes estão lutando para que
isso não aconteça. A associação nos ajuda a refletir através de
palestras, encontros, passeios e reuniões. Ajuda os adolescentes no
que puder dar, até mesmo os conselhos que são sempre bons. Todas
as semanas já virou rotina eu vir para a ACACB. Cada vez chegando
mais pessoas com interesse em participar e que tem talento no que
fazem. Eu participo da banda, toco um instrumento chamado
repique. Quando eu cheguei aqui não sabia tocar nada, agora já
consigo tocar alguma coisa. É muito bom participar das atividades
da ACACB, depois que entrei aqui fiz novas amizades”
(Participante da banda, 12 anos).
Relato da mãe de uma participante da Associação:
“Minha filha participa da associação há uns quatro anos e desse
tempo pra cá ela tem melhorado bastante seu comportamento. Antes
ela era uma menina muito tímida, gostava mais de ficar em casa,
estudando, escutando música no quarto. Depois que ela entrou no
teatro, minha filha mudou completamente e vendo ela assim me
deixa muito orgulhosa. Já tive a oportunidade de presenciar uma
apresentação e cheguei a me emocionar em ver o que ela é capaz de
fazer. Não venho muito na associação, apenas quando tem alguma
reunião dos pais, quando posso, ou algum evento; mas sei que o
trabalho é sério e tem bons resultados. Por mim ela continua sempre
57
participando das atividades e apoiarei no que for preciso” (Mãe de
uma participante, 40 anos).
58
Capitulo IV
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho desenvolvido abordou a formação das Organizações Não Governamentais.
Para realizar essa pesquisa, foi utilizado como apoio teórico o conceito de ONG, desenvolvido
pela socióloga Maria da Glória Gohn que, as define: “são organizações baseadas no trabalho
comunitário” (Gohn 2003, p. 12). Ainda nesse trabalho, fiz uma breve análise em torno dos
tipos de ONGs, do chamado terceiro setor, sendo necessário realizar um traçado histórico,
mesmo que sucinto.
A partir das entrevistas realizadas com alguns participantes e voluntários, foi obtido
alguns dados e informações em relação a opiniões sobre o trabalho realizado pela ONG.
Mediante isso, foi de grande importância na pesquisa a observação das atividades, uma
vez que observando essas atividades foi possível entender também a razão desses
participantes atribuírem à ONG determinadas significâncias.
O trabalho das ONGs tem se expandido pelo mundo e essas organizações passaram a
ter visibilidade tornando-se reconhecidas. Passaram, ao longo de seu desenvolvimento, a
tratar de assuntos e atender públicos diversos, mas, as crianças e os adolescentes são, diante
dessa tendência, os alvos mais comuns das ações desenvolvidas pelas ONGs.
Sabemos que existem “ONGs” que na verdade visam lucros, e servem como
instrumentos na lavagem de dinheiro. Mas, por outro lado, é fato, que existem ONGs que
atuam realmente em prol dos menos favorecidos desse país (SANTOS, 2008 p. 89).
Para realizar as atividades junto ao seu público, crianças e adolescentes, idosos,
negros, mulheres, entre outros, as organizações aperfeiçoaram a sua forma de arrecadação de
recursos financeiros, materiais e humanos. São diversas estratégias que possibilitam o
desenvolvimento de ações que procuram garantir a satisfação mínima das necessidades
básicas da população mais carente de atendimento. Através de telemarketing, das campanhas,
das pessoas que se associam às organizações, dos chamados parceiros (empresas, pessoas e
grupos que doam qualquer tipo de recurso para que as instituições sociais atendam uma
determinada causa). As ONGs vão realizando suas atividades e demonstrando claramente a
59
retração estatal no atendimento da questão social, uma vez que os gastos são diminuídos
quando o Estado passa a incentivar que a sociedade busque soluções para seus problemas.
Atualmente no Brasil, as ONGs têm um papel fundamental na elaboração e execução
das políticas públicas, elas cumprem um papel social importante, por isso, deve haver mais
incentivo a essas organizações (SANTOS, 2008 p. 91). A ONG pesquisada faz um
atendimento às crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Suas atividades
são realizadas no sentido de contribuir para o desenvolvimento físico, mental e social dos
participantes e, também, de seus familiares, já que a família é parte fundamental no processo
de aprendizagem. Entretanto, as melhorias dentro da ONG esbarram nas enormes dificuldades
financeiras, que limitam muito suas ações, mas não servem de impedimento à continuidade
das ações.
Ao utilizar o conceito de ONG construído por Gohn, atribui determinadas
significâncias a um objeto, sendo, primeiramente este, um objeto já conhecido, tendo um
caráter familiar. Concernente a essa questão, sendo Velho e Kuschnir (2003 p.9) “ao
pesquisar nossa própria sociedade, temos que lidar com especial atenção com os dilemas e as
questões associadas à divulgação dos resultados da investigação acadêmica. Como etapa final
do processo de pesquisa, a publicação dos resultados dá ao universo investigado a
oportunidade de interagir, questionar, rever e mesmo oferecer visões alternativas sobre seu
próprio mundo”. Ainda segundo os autores, “esse diálogo impõe reflexão permanente por
parte dos cientistas sociais desde o início de seu trabalho, pesando e avaliando suas atitudes
tanto em termos científicos quanto éticos”.
Diante disso, o universo estudado por mim, a experiência do trabalho de campo, pude
lidar com pessoas próximas que fazem parte do meu círculo de amizade e coleguismo. Porém,
quando decidi pesquisar este objeto, já tinha uma noção das peculiaridades da tarefa, pois, o
movimento de estranhar o familiar foi uma tarefa nada fácil, mas, me permitiu, através da
observação participante, interpretar, questionar e compreender os aspectos da ONG e os
acontecimentos corriqueiros.
Nesse sentido, realizado assim a pesquisa na referida ONG, através das entrevistas e
observação participante podemos constatar que grande parte dos envolvidos veem a
organização como uma segunda família.
Efetivamente, nos últimos 14 anos, a ACACB, é a única instituição que tem ofertado
um espaço para a vivência de práticas culturais, esportivas e de lazer para crianças e
adolescentes do bairro da Chã de Bebedouro. O trabalho já rompeu os muros de sua sede,
60
estando dentro das casas e das escolas do bairro, se expondo através da dança, da música, das
artes cênicas, encantando a pais, professores e moradores.
Através desse trabalho, verificamos a importância das ONGs nas políticas públicas, no
sentido da contribuição na educação e na formação de muitas crianças e adolescentes. Sendo
assim, os serviços oferecidos pela Associação da Criança e do Adolescente da Chã de
Bebedouro, contribuem para melhorar a vida de seu público.
61
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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brasileira na era da globalização. 3ª edição. São Paulo: Cortez, 2003.
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62
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63
VELHO, Gilberto e KUSCHNIR, Karina (Orgs.). Pesquisas urbanas: desafios do trabalho
antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2003.
64
ANEXOS
65
ANEXO 1 - ROTEIRO DE ENTREVISTAS
PARA O REPRESENTANTE DA ONG
1.
Nome da instituição: ________________________________________
2.
Ano de fundação: __________________________________________
3.
Quem são os fundadores e qual o motivo da formação da ONG?
4.
Quais os objetivos da instituição?
5.
A sede onde funciona a ONG é própria?
6.
Quantos participantes da ONG atende?
7.
Quais as atividades desenvolvidas para atender os participantes?
8.
Quem mantém a instituição? Quais as parcerias?
9.
Quais as dificuldades enfrentadas pela organização?
10.
A equipe de trabalho tem vínculo empregatício ou são voluntários?
66
PARA OS RECURSOS HUMANOS DA INSTITUIÇÃO – EDUCADORA DO
GRUPO DE TEATRO.
Nome: _________________________________________________________
Profissão: __________________________________________
1.
Na ONG você é funcionário contratado ou voluntário?
2.
Como você entrou na ONG?
3.
O que você faz na ONG?
4.
Há quanto tempo você presta serviços nesta ONG? E quais atividades você já
desenvolveu ao longo deste tempo?
5.
Tem vínculo empregatício em alguma instituição?
(
6.
) Não
( ) Sim. Em qual e que cargo ocupa?
Por que você decidiu ser voluntário e quantas horas por dia você se dedica ao
serviço voluntário?
7.
O que você acha do trabalho que a instituição realiza?
8.
Que melhorias você faria dentro da ONG? Por quê?
9.
Quais os resultados alcançados através da atividade que você executa enquanto
monitora da ONG?
10.
Depois que você entrou nessa ONG o que melhorou na sua vida? Por quê?
67
PARA OS PARTICIPANTES E FAMILIARES
Sexo: _____________
Idade: __________________
Atividade (s) que participa na ACACB: ____________________________________
1. Qual a importância do trabalho desta Associação para sua vida (Aqui a pessoa ficou a
vontade para falar o que ela esta instituição representa)
2. O que mudou na sua vida após entrar nesta Associação. (Aqui a pessoa ficou à
vontade para fazer tipo um relato de vida, recordar um pouco sua chegada nesta ONG
e sua trajetória).
3. Como era o comportamento de seu filho antes e após a chegada dele na ONG?
(pergunta para a mãe de um participante)
68
ANEXO 2 – GRÁFICOS COM O NÚMERO DE PARTICIPANTES ATINGIDOS POR
ATIVIDADE ENTRE 2008 – 2013.
Gráf. 1
Fonte: pesquisa no acervo documental da ONG.
Gráf. 2
Fonte: pesquisa no acervo documental da ONG.
69
Gráf. 3
Fonte: pesquisa no acervo documental da ONG.
Gráf. 4
Fonte: pesquisa no acervo documental da ONG.
70
Gráf. 5
Fonte: pesquisa no acervo documental da ONG.
Gráf. 6
Fonte: pesquisa no acervo documental da ONG.
71
Gráf. 7
Fonte: pesquisa no acervo documental da ONG.
Gráf. 8
Fonte: pesquisa no acervo documental da ONG.
72
Gráf. 9
Fonte: pesquisa no acervo documental da ONG.
Referente aos dados dos gráficos explicitados acima podemos observar o número de
participantes que frequentaram alguma das atividades da Associação entre 2008 e 2013, seja
elas educativas, profissionalizantes e/ou artesanal. O número de participantes sempre foi
limitado em decorrência do espaço físico da ONG, esse número, com o passar dos anos de
atuação do projeto na comunidade de Chã de Bebedouro, sofreu um queda em decorrência da
redução de algumas atividades, ficando limitado o atendimento a um número maior de
beneficiários. Essa redução se deu no intuito de reduzir custos com recursos humanos e
materiais devido às dificuldades financeiras. Porém, o trabalho tem continuado, buscando
sempre a qualidade para melhor servir à comunidade.
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ANEXO 3 – FOTOS DAS ATIVIDADES DA ONG
Foto 1 – Caminhada Vamos Viver Sem Drogas (2012).
Fonte: acervo fotográfico da ONG.
Foto 2 – Confraternização das Crianças (2013).
Fonte: acervo fotográfico da ONG.
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Foto3 – Formação dos líderes das atividades (2013).
Fonte: acervo fotográfico da ONG.
Foto 4 – Teatro/Baú de Leitura (Os Saltimbancos - O Musical).
Foto 5 – Time de futebol (2014)
Fonte: acervo fotográfico da ONG.
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Foto 5 – Time de futebol (2014).
Fonte: acervo fotográfico da ONG.
Foto 6- ensaio da dança popular (2013), ensaio do teatro (2013), ginática para mulheres
(2013), Arraiá junino na comunidade (2012) e Baú de Leitura (2014).
Fonte: acervo fotográfico da ONG.
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Foto 8 – Grota Quebradas
Fonte: acervo fotográfico da ONG.
Foto 9 – Atividade diversa (2013).
Fonte: acervo fotográfico da ONG.
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Foto 10 – Ensaio da Banda Afro Liberdade (2013)
Fonte: acervo fotográfico da ONG.
Foto 11 – Lazer em comemoração ao Dia das Crianças (2014).
Fonte: acervo fotográfico da ONG.
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