Ê Boi! Ê Boi!: um estudo sobre o bumba meu boi águia, Maceió, Alagoas.
Discente: Aroldo Fernandes; Orientadora: Fernanda Rechenberg.
Aroldo Fernandes..pdf
Documento PDF (1.1MB)
Documento PDF (1.1MB)
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS – ICS
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS LICENCIATURA
AROLDO FERNANDES
Ê BOI! Ê BOI: UM ESTUDO SOBRE O BUMBA MEU BOI ÁGUIA, MACEIÓ,
ALAGOAS.
Maceió-AL
2016
AROLDO FERNANDES
Ê BOI! Ê BOI: UM ESTUDO SOBRE O BUMBA MEU BOI ÁGUIA, MACEIÓ,
ALAGOAS.
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado
como requisito parcial para a obtenção do título de
Graduado em Ciências Sociais – Licenciatura, pelo
Instituto de Ciências Sociais da Universidade
Federal Alagoas – UFAL.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Fernanda Rechenberg.
Maceió-AL
2016
AROLDO FERNANDES
Ê BOI! Ê BOI: UM ESTUDO SOBRE O BOI ÁGUIA, MACEIÓ, ALAGOAS.
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para a obtenção
do título de Graduado em Ciências Sociais – Licenciatura, pelo Instituto de Ciências
Sociais da Universidade Federal Alagoas – UFAL.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Fernanda Rechenberg.
Aprovado em ____ de ___________________ de 2016.
BANCA EXAMINADORA
_______________________________________________
Prof.ª Dra. Fernanda Rechenberg – ICS/UFAL
(Orientadora)
_______________________________________________
Prof. Dr. Bruno César Cavalcanti – ICS/UFAL
______________________________________________
Prof.ª Dra. Silvia Martins-ICS/UFAL
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus, a minha família, a Fernanda Rechenberg, minha orientadora,
que sempre me ouvia com paciência durante a produção desse sonho.
Ao professor Bruno César e Sílvia Martins por aceitar o convite para participar
da banca de defesa deste trabalho.
Aos poucos amigos que cativei durante a graduação: Edva Matos, Emerson de
Araújo, Suana Csehes, Cristiane Caetano, Vanise Costa, Solange Clarindo e, não
poderia esquecer, Cristiane Cyrino e Jucemar Pacheco da biblioteca do Museu Théo
Brandão, por terem sido muito prestativas e atenciosas comigo sempre que precisei.
Também não poderia esquecer aqueles que contribuíram na minha pesquisa de
campo, como: Fernando, Emerson, Henrique e Zé do Boi, e todos que compõem a
família do Grupo Águia na realização desse sonho.
RESUMO
O objetivo desse trabalho é analisar a cultura do boi de carnaval, conhecido entre os
brincantes como “bumba meu boi”, e as mudanças existentes nesse universo desde
o surgimento até os dias atuais. Para isso, foi escolhido o Boi Águia como objeto de
pesquisa. Além do embasamento teórico, o trabalho contou, entre outras fontes, com
informações adquiridas através dos diretores do grupo durante as reuniões, a
construção do boi, os ensaios e até o concurso, num período que correspondeu de
janeiro a abril do ano de 2014, acompanhando também as mudanças que esse
personagem secular provoca na vida dos envolvidos.
Palavras-Chave: Bumba meu boi. Boi Águia.
ABSTRACT
The objective of this paper is to analyze the “Boi de Carnaval” culture, known as
"Bumba meu boi" and existing in this universe changes since the emergence to the
present day. For this, the “Boi Águia” was chosen as a research object. In addition to
the theoretical foundation, the work was, among other sources, with information
acquired through the group's directors during the meetings, the construction of the ox
and to the procedure, a period corresponding January-April 2014, also following the
changes this secular character causes in the lives of those involved.
Keywords: Bumba meu boi. Boi Águia.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1: Fachada do Núcleo Cultural Zona Azul ...................................................... 23
Figura 2: Sala do grupo Águia. .................................................................................. 25
Figura 3: Ensaio do grupo Águia. .............................................................................. 28
Figura 4: Mestre Henrique da bateria ........................................................................ 28
Figura 5: Rian Handerson ........................................................................................ 29
Figura 6: Buzunga e Glaydson. ................................................................................. 34
Figura 7 : O pesquisador participando das atividades............................................... 37
Figura 8: Boi Águia. ................................................................................................... 38
Figura 9: Imagem interna do núcleo. ......................................................................... 39
Figura 10: Paulo André, fundador do núcleo. ............................................................ 43
Figura 11: Reunião da Liga de bois........................................................................... 52
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 8
2 O OLHAR DOS FOLCLORISTAS ......................................................................... 10
2.1 O Bumba meu boi em Maceió ............................................................................. 15
2.2 O Registro do Bumba meu boi em Alagoas ........................................................ 17
3 O BOI ÁGUIA E SEU CONTEXTO ESPACIAL E SOCIAL ................................... 22
3.1 O Criação do boi Águia ....................................................................................... 27
3.2 A sede do boi Águia ............................................................................................ 31
3.3 O Núcleo Cultural Zona Sul ................................................................................. 38
3.4 O Bairro ............................................................................................................... 43
4 O BOI EM CENA: ORGANIZAÇAO DA LIGA E O CONCURSO DE BOI ............ 48
4.1 O Concurso ......................................................................................................... 53
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 59
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 62
8
1 INTRODUÇÃO
A zona sul da capital de Maceió é um celeiro de manifestações culturais. Neste
sentido, a cultura do Bumba meu boi na figura do Boi Águia foi escolhida em
decorrência das mudanças externas que vem ocorrendo nas últimas décadas quando
comparada com os elementos que compõem a história oral. Percebe-se toda
diferença em relação à estrutura em torno do concurso como, por exemplo, perda de
personagens, mudanças no figurino e padronização na figura do boi.
Essas variantes são responsáveis pelas alterações que dividiram o caminho
dessa cultura, a partir de uma amostra de bois organizada pelo radialista Luiz de
Barros na década de 1990 próximo a sua residência e posteriormente na Praça
Multieventos, na praia de Pajuçara. Considerado pelos participantes que organizam
esse evento como o primeiro concurso. Nos dias atuais, esse folguedo ganhou forma
com a mudança contando com apoio financeiro, introdução de coreografias, carros
alegóricos, temas, figurinos caros e indumentárias produzidas cada vez mais com
brilho em torno do Boi. O concurso segue o exemplo das escolas de samba carioca,
pois eles escolhem um grupo de jurados que ficam no encargo de avaliarem vários
critérios como evolução do vaqueiro, bateria, beleza do boi entre outros.
A única coisa ainda intacta durante a produção que faz menção às palavras do
Frei Carapuceiro 1840 (apud CASCUDO, 1956) é o fato do festejo ainda ser praticado
e construído por pessoas simples dos bairros populares. Estes grupos se ajudam
mutuamente dividindo as atividades até a realização do tão almejado concurso. No
intuito de promover um belo espetáculo com o objetivo de conquistar o
reconhecimento do público, percebe-se, implicitamente, um trabalho voltado para
políticas públicas dentro do ambiente que vivem, a partir do momento em que eles
estão engajados na construção do Boi. Há um trabalho de cidadania quando, nesse
processo, os componentes se ajudam coletivamente, promovendo respeito, união,
responsabilidade, Além de escolherem, mesmo por algum momento, estarem longe
dos grupos de risco, enquanto estão envolvidos nesse projeto, merecendo um novo
olhar para tais comunidades.
Dessa forma, o presente trabalho busca mostrar o trabalho dos colaboradores
dessa cultura no bairro do Vergel. O primeiro capítulo refere-se às origens e à
9
representação do Boi no Nordeste, sua importância para o desenvolvimento na região
durante o ciclo do gado; não esquecendo os elementos, fruto da miscigenação, que
não ausentaram o estado de suas influências a partir dos primeiros registros do
folguedo e equívocos em relação ao Bumba meu boi.
O segundo capítulo trata de minha ida a campo em busca de respostas sobre
meu objeto o Boi Águia. O lugar onde a sede está localizada, como sobrevivem, qual
a sua trajetória na cultura local, como eles reagem ao novo estilo de apresentação, as
indumentárias, cenário, os idealizadores, a construção desse universo rumo a uma
visibilidade no concurso. O bairro foi abordado, também, como espaço contribuinte
para entender a situação real dos moradores do Vergel.
O terceiro capítulo aborda num primeiro momento a liga dos bois que mostra
essa realidade comunitária dos bairros populares. Suas informações, de extrema
importância, contribuíram para o enriquecimento desse trabalho.
Num segundo momento apresento o concurso com suas transformações e
dilemas entre os participantes, em especial o boi Águia. Sendo um dos momentos
primordiais para o encerramento da proposta deste trabalho.
10
2 O OLHAR DOS FOLCLORISTAS
Maceió possui um vasto acervo de manifestações culturais. Essas
expressões regionais tornaram-se mais evidenciadas no final da década de 1940
por um grupo de intelectuais que se propôs a fazer uma pesquisa referente aos
folguedos populares, conhecida como Comissão Nacional de Folclore (CNF).
Entre os convocados para a realização desse ofício no Estado estavam:
Abelardo Duarte, José Maria de Melo, Manuel Diégues Júnior, Luiz Lavenère,
Félix Lima Júnior, José Aloísio Vilela e Théo Brandão; este último sobressaiu aos
demais como uma das referências no estudo da cultura popular nas mais
diferentes áreas como na música, dança literatura oral e medicina popular.
Théo Brandão (1907-1981), médico, etnógrafo, folclorista, antropólogo,
professor e escritor, foi um dos fundadores e organizadores da Campanha de
Defesa do Folclore Brasileiro (1958). Sua contribuição fez Alagoas ser
reconhecida como um dos primeiros estados a estabelecer uma comissão
estadual, a Comissão Alagoana de Folclore, em 1948, e também por ter sediado,
em 1952, a IV Semana Nacional do Folclore. A década de 1950 foi um período
de grande produção nesse campo, para a preservação e divulgação entre os
povos para entender as diferenças culturais existentes no país. Esse grupo era
conhecido como “Movimento Folclórico Brasileiro”, cujos membros reunidos
eram: Cecília Meireles, Câmara Cascudo, Manuel Diégues Júnior, Renato
Almeida, entre outros.
A Comissão Nacional do Folclore (CNF) tinha como propósito, exaltar a
valorização da cultura popular e conservar a herança cultural que existia no país.
Sendo assim, o foco dessas pesquisas eram os folguedos, como afirma Cecília
Londres:
Os folguedos expressavam a cultura popular como um todo integrado,
inseparável da vida cotidiana. Eram o folclore em ação, aberto e
contraditório, ligado ao passado e continuamente adaptado ao
presente; privilegiado para captar a originalidade do processo de
formação da cultura brasileira e seu movimento (LONDRES, 2001, p
04).
Dessa forma, Theotônio Vilela Brandão (1973), usando dos seus
conhecimentos, realizou um levantamento dos folguedos distribuídos pelos
11
municípios alagoanos – uma relação dividida e organizada para promover o
conhecimento da cultura local (BRANDÃO, 1973). Em meio a tantos grupos
nesse campo fértil, merece destaque o do Bumba meu boi. Na busca de fonte
histórica, nos primeiros levantamentos de sua origem, foi possível identificar que
este auto1, segundo Câmara Cascudo (1962) defende, é composto por
personagens de origem pastoril, como no ciclo dos vaqueiros, unido aos
elementos mitológicos e religiosos que são fruto dos elementos colonizadores
do Nordeste e remetem à construção da nossa etnia. De acordo com o Dicionário
do Folclore Brasileiro de Luís Câmara Cascudo, o Bumba meu boi é:
Um auto de excepcional plasticidade e o de mais intensa penetração
afetuosa e social. Foi o primeiro a conquistar a simpatia dos indígenas
que o representam, preferencialmente, como os timbiras do Maranhão
e é difundido pelo sul através da memória fiel dos nordestinos
emigrados. O negro está nos Congos, o português no Fandango ou
Marujada. O mestiço, crioulo, mameluco, dançando, cantando vivendo,
está no Bumbameuboi, o primeiro auto nacional na legitimidade
temática o lírico e no poder assimilador, constante e poderoso
(CASCUDO, 1962, p.143).
Câmara Cascudo defende que não há, em terras portuguesas, nada
parecido com o auto brasileiro, nem em outros países. Ele afirma que há por lá
“tourinhas” e touradas de novilhas ou de fingimento:
Na primeira toureavam animais mansos sem maiores exigências de
coragem ágil. As de fingimento, muito populares, constavam de um
arcabouço de canastras de vime cobertas de pano, com a cabeçorra
do boi ameaçante fingindo-se atacar, os dois rapazes eram
perseguidos com rumor de alegria e algazarras coletivas. Pertence ao
Minho, uma das maiores fontes de emigração histórica para o Brasil.
Provinha a “tourinha” possivelmente de um perdido entremez
vilarengo, resistindo nas zonas da pastorícia. Não havia cantiga nem
coreografia regular. Não encontrei a “tourinha” no Brasil, mas o motivo
emigrou a idéia de fazer o boi dançar e cornar de brincadeira os falsos
toleiros e uma assistência folgazã. Como os foreiros, embora
tivéssemos touradas no Brasil, não medrassem pelo sertão,
substituíram-nos os vaqueiros negros ou caboclos, numa herança
natural para o espírito ambiente. Quem cuida ou toma conta do “boi”
não é toureiro é vaqueiro (CASCUDO, 1956, p. 50).
De acordo com essa citação, no Brasil esta representação foi
transformada num personagem que, nas últimas décadas, vem apresentando
1 Forma teatral de enredo popular, com bailados e cantos, tratando de assuntos religiosos ou
profanos, representado no ciclo das festas do natal (dezembro-janeiro). Lapinhas, pastoris,
Fandangos ou Marujadas, Chegança ou Chegança de mouros, bumba-meu-boi, boi, boi
Calemba, boi de Reis, ou Congos, etc. (Cascudo, 1962, p.76).
12
grande popularidade de adeptos e brincantes. Abelardo Duarte (1973),
pesquisador da cultura local; defende que tal manifesto popular tenha suas
raízes em Portugal:
Foram e não há de negar, uma herança avoenga das Janeiras
portuguesas, cortejos com que se celebrava ou festejava a entrada do
ano novo, propiciatório de novas venturas, alegrias e fartas messes. E
de outros costumes também adotados na catequese jesuítica (2010,
p.233).
Em sua obra O Folclore Negro das Alagoas (2010), enfatiza a contribuição
do teatro vicentino no século XVI, que através de suas peças profanas fazia
críticas sociais com o intuito de promover os primeiros entretenimentos na
colônia, além de fazer desse estudo um dos mais destacados sobre a cultura
negra no estado.
Sua pesquisa destaca que os engenhos tiveram muita importância na
construção da identidade nordestina – especificamente na capital. Não se pode
estudar o folclore local separado desse contexto, pois existiria uma lacuna
histórica. Então, esse traçado histórico que os une oferece um rico e produtivo
material sobre o folclore alagoano. Riquezas culturais características da
sociedade canavieira que compõem o nosso estado, no caso das danças
populares, como os folguedos e reisados típicos da região rural do açúcar – são
heranças próprias dos nativos que se expandiram para o meio urbano,
promovidas pelos negros nas noites de festas existentes na época, como a
“botada” (que se referia ao início da plantação) e a “peja” (o fim).
Durante a “botada”, existiam senhores de engenho que festejavam esse
momento com a libertação de um escravo, como mostra o Diário de Alagoas nº
254, de 10 de novembro de 1882, onde foi divulgado um documento vindo do
Município de Capela, com a informação sobre o dia da botada, em que o capitão
José Francisco de Almeida, senhor do engenho Monte Verde e sua esposa
“concederam liberdade sem condição alguma a um dos seus escravos de nome
Luiz, pardo, solteiro, de 30 anos de idade” (DUARTE, 2010, p.296).
O fim dos trabalhos de moagem da cana, era sempre comemorado com
muita cantoria. As canções foram guardadas e relembradas através do folclore
presente nos versos cantados ao final das atividades nos engenhos, segundo
13
Duarte (2010, p. 296) “acabou-se a cana acabou-se o mé (sic) até para o ano
se Deus quize (sic)”.
Essas informações explicam a relação que a cultura popular tem com os
engenhos que receberam os primeiros escravos de origem bantu durante o
povoamento de Alagoas, no engenho de Cristóvão Lins no vale do Mundaú. O
negro se fez presente nas lavouras utilizando o carro-de-boi e em outras
atividades. Só ele apresentou resistências físicas para executar determinadas
funções. Então, vale dizer que a fusão cultural proporcionou ao negro uma
adaptação cultural e, com isto, trouxe a ideia de que não há um folguedo
genuinamente negro uma vez que:
Recebemos, na fase mesmo de início, colonial, não apenas
portugueses, mais também espanhóis, italianos, franceses,
holandeses, ingleses, africanos. É claro que esses elementos,
especialmente os de origem ibérica, já bastante caldeados, teriam de
influir sobre a nossa formação antropológica num sentido integral não
apenas físico (DUARTE, 2010, p.235).
A partir daí, podem ser destacados alguns precursores dos estudos sobre
o contato no Brasil, como Arthur Ramos, discípulo de Nina Rodrigues, que
levantou os primeiros estudos sobre aculturação. Sendo assim, ele recorre à
autonomia de seu mestre que, por sua vez, identificava na religiosidade católica
um politeísmo disfarçado. Nessas considerações, ele não se limitou à
abordagem da fusão religiosa, mas em outras vertentes culturais, como:
linguagem, dança, música, festas populares e manifestações que, aos poucos,
foram construídos e também traçando uma identidade cultural brasileira própria
no Nordeste, que foi modificando sua forma e adotando novos ritmos
transmitidos por um povo que, em meio a tantas contribuições, também construiu
a dança dos folguedos populares.
A sociedade brasileira passou por muitas mudanças no século XX que
contribuíram para tornar a figura do negro uma das preocupações nacionais.
Euclides da Cunha e Sílvio Romero (apud ORTIZ, 2010) observavam a
mestiçagem como uma realidade nacional. A partir do movimento abolicionista
– e, sequencialmente, o fim da escravidão – ocorreu um grande avanço social e
cultural. O negro participou não só na construção étnica do país, mesmo
resumida à condição servil, mas deixou sua contribuição em nossa região, na
14
recuperação dos seus valores culturais e, além de driblar as imposições sofridas,
conseguiu fazer sobreviverem seus costumes até hoje. É o que Abelardo Duarte
vai chamar de “reintegração dos padrões ou estilos de vida originais” (DUARTE,
2010, p.31).
Arthur Ramos, ao estudar a aculturação negra no Brasil, diz que:
Quando o indivíduo é separado de seu grupo de cultura e posto em
contato com outros grupos, ele tende a esquecer as culturas primitivas
e assimilar as novas em cujas presença se acha. De outro lado ele traz
também o seu contingente aos novos grupos com que se pôs em
contato. É o fenômeno geral de dar e tomar, síntese de processo
aculturativo (apud DUARTE, 2010, p.32).
Aqui, o Quilombo dos Palmares é um exemplo, pois foi o símbolo de
sobrevivência e resistência mais famoso do país. “As sobrevivências são vozes
que falam pelas gerações novas de uma existência anterior, de modos ou estilo
de vida, de hábitos, crenças, tabus, etc.; do passado” (DUARTE, 2010, p.33).
O pesquisador Abelardo Duarte (2010) acompanhou algumas dessas
manifestações culturais, mesmo alteradas em sua composição, tais como: festas
natalinas, ano novo, reis, canções, coco e folguedos dos Bois que, de acordo
com a região e a presença da diversidade folclórica, variam dentro do Estado ou
fora dele. Quem fala com propriedade, quando conceitua “folclore e Região”, é o
professor Manuel Diégues Júnior:
Se é certo que nem tudo que é regional é folclórico, não padece dúvida,
porém, que o folclórico deve ser regional. Isto é deve ter uma base de
região; ou ambiente territorial em que se manifesta o fato, onde ele é
colhido e encontrado os aspectos peculiares que ele recebe. O que por
outro lado não tira o caráter universal do folclore, quer dizer, a
universalidade de manifestações folclóricas, a existência em quase
todos os povos de ideias, crenças, fatos que se incluem no folclore
(DIEGUES apud DUARTE, 2010, p.34-35).
Nessa ótica, é possível compreender a diferença nas apresentações
folclóricas em todo país. Como exemplos, temos: o Bumba meu boi do nordeste,
que se diferencia em relação ao do sul e ao do Belém do Pará; o coco de roda
de Maceió, que não é igual ao do Ceará; e assim sucessivamente para as outras
manifestações que percorrem o nordeste.
15
2.1 O Bumba meu boi em Maceió
Em Maceió, a figura mestiça serviu de base para a mão-de-obra, nesse
cenário, era transmitida oralmente a cultura popular, que direcionou seu próprio
caminho e resistiu ao tempo, por suas origens virem de pessoas do povo, o que
demonstrou que a manifestação popular na figura do Boi, particularmente, não
precisava e nem se preocupava com espaço ou tempo; ela era mostrada nas
ruas, nas praças do interior ou da cidade. O Bumba meu boi, mesmo alterado
em relação às datas de apresentação que antes eram nos festejos juninos ou
nas festas natalinas, tem as influências do Reisado, já que o boi era incluído no
período do Natal – época de estiagem. Como afirmou Diégues Júnior no livro
Folguedos Natalinos, “A sua história é a história da cana-de-açúcar, os folguedos
natalinos, as danças, os autos saíram dos engenhos ou se iniciaram nos
engenhos [...]” (DIEGUES apud BRANDÃO, 2003, p. 18).
No estudo do Bumba meu boi, não se sabe uma resposta contundente
quando se busca saber as origens desse auto, conhecido também como
folguedo – eram assim chamados “sejam Bumbas, Reisados, Pastoris,
Cheganças, Guerreiros, Quilombos, Cavalhadas, Taieiras, Caboclinhos ou
Baianas” (DUARTE, 2010, p.233).
Arthur Ramos, num trabalho intitulado Folclore Negro do Brasil (1954),
apresenta a ideia de não limitar a imagem do Boi aos festejos natalinos. Em seu
argumento, Arthur Ramos justifica a ideia que o Boi ultrapassa esse período,
quando diz que “de outro lado, o Boi é uma figura obrigatória dos velhos autos
populares de origem europeia e a sua origem é recuada, perdendo-se na noite
densa da história e da lenda” (RAMOS, 1954, p. 95).
Este autor, natural de Pilar, defende a resistência egípcia do Boi Apis
como explicação mais convincente. Um fato relevante entre ele e Câmara
Cascudo é que o objeto de estudo em questão é uma versão do Monólogo do
Vaqueiro:
Gil Vicente fez representar em Portugal, a 8 de junho de 1502, nos
paços do Castelo de D. Maria, para festejar o nascimento do príncipe
D. Jõao. Gil Vicente aproveitou-se do motivo mítico do touro, símbolo
zodiacal, que festeja o começo do ano solar, e o poder fecundante do
sol. Estas festas solares do ciclo das janeiras chamam-se na península
16
festas do Aguinaldo, isto é, Boi-nascido, Agui-naldo (Agnus natus). O
Monólogo do Vaqueiro foi uma estilização das danças do Aguinaldo, e
Gil Vicente quis assim comparar o príncipe recém-nascido ao menino
Deus transformando a câmara da rainha em presepe (RAMOS, 1954,
p.95-96).
Outro autor citado por Arthur Ramos é Artur Azevedo, que argumenta a
origem do Boi:
Lembra a mascarada parisiense do Boeuf-Gras restabelecido na
França por Bonaparte acrescentando que até o século XVIII o boi fazia
sua passeata anual pelas ruas de paris, indo o cortejo dançar e cantar
às portas das casas, como fazem hoje os nossos ranchos. (AZEVEDO
apud RAMOS, 1954, p.96).
A existência de tantas teorias em relação ao Boi leva a crer que o encontro
cultural proporcionou ao mestiço uma adaptação dessas influências, uma vez
que levanta argumentos de que não há um folguedo genuinamente negro:
Transportados para o Brasil, os negros encontraram aqui, de um lado
os brinquedos de origem peninsular do ciclo do ciclo das Janeiraspastoris e outros autos de Natal e Reis- de outro lado, festas populares
de origem ameríndia, confrarias religiosas e outras instituições, onde
eles se acomodaram com sobrevivente das suas organizações
totêmicas. Resultou de tudo isso um amálgama curioso, que
caracteriza as festas populares brasileiras do ciclo de Natal. (RAMOS,
1954 p.69).
Estas festas eram vistas como manifestações uma cultura pagã que
resistiu ao tempo e, hoje, é abordada em todo o nordeste brasileiro, inclusive em
Maceió, mesmo variando suas versões através de misturas em torno do Boi,
encantava, e arrastava centenas de curiosos, e teve suas primeiras
apresentações do Natal ao dia de Reis num grito de abertura “Ê boi! Ê boi! ”. O
Mateus conduzia a apresentação e, de acordo com cada região, esses
personagens se envolveram com outros tipos de festejos do mesmo período, o
que resultou num aumento de personagens que tinham como figura central o
Boi, descrito por Arthur Ramos como:
O Boi, arcabouço de madeira, coberto de chita vermelha representando
o corpo do boi e a respectiva cabeça com os chifres; essa armação é
carregada por um indivíduo que lhe fica por baixo, oculto, o Mateus,
vestido de vaqueiro e armado de uma vara com ferrão para vaquejar o
boi; o Rei e o Secretário de Sala trazendo capas e calções, capacetes
dourados e espadas; e mais o Doutor, a Catarina, o Padre, o Vaqueiro
e outras figuras secundárias. (RAMOS, 1954, p.97).
17
Théo Brandão (1973) concorda com Câmara Cascudo (1956) ao defender
a peculiaridade dessa cultura em terras brasileiras. Sendo assim, ele apresentou
um quadro de classificação em cinco gêneros de manifestações populares, no
qual está incluso o Bumba meu boi, cujo nome se diversifica nas outras regiões,
como:
Boi-bumbá na Amazonas, Bumbameuboi, Reisado cearense, Boi, Boi
de Reis, Reis, Boi Surubi no Ceará, Boi Kalemba ou Calumba, Reis de
Boi, Bumbameuboi no Rio Grande do Norte, Bumbameuboi, Boi, Boi
duro, Burrinha, Mulinha de ouro na Bahia, Boi de Reis no Espírito
Santo, Bumbameuboi e Reis de Boi no Estado do Rio e Distrito Federal,
boi de Mamão no Pará e Santa Catarina, Bumbameuboi, Boi-bumbá e
Boizinho no rio Grande do Sul (BRANDÃO, 1962, p.6).
No entanto, o próprio folclorista não afirma que a criação do Bumba meu
boi seja uma exclusividade brasileira – em todos os seus elementos – já que
muitos dos seus personagens são encontrados em vários países pelo mundo:
O próprio Boi, dançando, desfilando, morrendo, etc.; em
natureza ou em armação, sozinho ou acompanhado de outros
bichos e comparsas não é peculiar ao Brasil mais existe em
Portugal nas Tourinhas e Touros de Canastra, na Espanha com
a Vaca Tora, Vaca Romera, La Vaca, La Barrosa, Jarampla,
Vaquilla, Lá Morena etc.; em Nicarágua com o Touro Guaque;
no México com a Danza de losToreadores, danzadelTorito de
Petate (que se acompanhada de cavalinhos fuscos,Diabo, Morte
e Índio); no Equador com a Vaca Loca; no Novo México com o
Touro dos Matachines e, sobretudo, no Paraguai, com o Toro
Candiu, que se acompanhada de Mateus, bichos e entremeios,
como nos nossos Bumbas e Reisados (BRANDÃO, 1962, p. 1011).
2.2 O Registro do Bumba meu boi em Alagoas
No Brasil, esta representação foi transformada em personagens que, a
partir dos anos 70, vêm apresentando grande número de adeptos e brincantes.
Os Bois das procissões e touradas fingidas de Portugal, como afirma Cascudo
(1962), tornaram-se personagens principais de um folguedo dramático. Assim,
durante a brincadeira, ao avançar sobre o povo e o vaqueiro que luta para
dominar o bicho, o Boi seria aquilo que o autor chama de “touradas fingidas”.
Esta interpretação seria brasileira, aceita por Cascudo (1956), que não
encontrou semelhanças vindas das Américas durante seus levantamentos.
18
Contudo, não se pode negar que, durante a colonização em outros países, não
haja sobrevivência de suas vastas manifestações que nos tenha influenciado,
dizendo, assim, que somos não apenas fruto das três raças, como também
culturais.
O Bumba meu boi, durante sua apresentação, era o personagem
principal, mesmo que tenha sido alterado tanto na sua estrutura estética, quanto
na sua história, já que seu enredo se desenvolvia em torno de um rico fazendeiro
que tem preferência por um determinado Boi. Este, porém, é roubado por
Francisco, com o intuito de satisfazer o desejo de sua esposa Catrina de comer
a língua do animal. Ao sentir a falta do animal de sua estima, o fazendeiro
convoca um mutirão em sua busca. Ao encontrá-lo morto, ele manda chamar o
curandeiro e o padre para ressuscitar o Boi. Mesmo quando ele descobre o real
motivo que levou o Boi a este destino, ele perdoa Chico e Catrina, comemorando
a ressureição do animal.
Existe um registro que reconhece essa cultura até os dias de hoje, escrita
pelo Padre Miguel do Sacramento no Jornal Carapuceiro em Recife, 11 de
Janeiro de 1840 (apud CASCUDO, 1956). Nem mesmo Henry Koster, que fez
os registros sobre as manifestações populares em Pernambuco entre os anos
de 1810-1820, mencionou a festividade sobre o Bumba meu boi. Então, Padre
Carapuceiro, como era conhecido naquela época, descreveu, há 174 anos,
sobre o Bumba meu boi:
De quantos recreios, folganças e desenfados populares há neste nosso
Pernambuco, eu não conheço um tão tolo, tão estúpido e destituído de
graça, como, aliás, bem conhecido bumbameuboi”. Em tal brinco não
se encontra um enredo, nem verossimilhança, nem ligação: é um
agregado de disparates.
Um negro metido de uma baeta é o boi; um capadócio enfiado pelo
fundo panacu velho chama-se o “cavalo marinho”, outro alapardado,
sob lençóis, denomina-se burrinha; um menino com duas saias, uma
da cintura para baixo, outra da cintura para cima, terminando para a
cabeça com uma urupema, é o que se chama a” caipora”; há, além
disto, outro capadócio que se chama o pai Mateus. O sujeito do
“cavalo-marinho” é o senhor do “boi”, da “burrinha” da “caipora” e do
“Mateus”. Todo o divertimento cifra-se em dono de toda esta súcia
fazer dançar ao som de violas, pandeiros e de uma infernal berraria o
tal bêbado Mateus, a “burrinha” a “caipora” e o “boi”, que com o efeito
do animal muito ligeirinho, trêfego e bailarino.
Além disso, o “boi” morre sempre, sem quê nem para quê, e recussita
por virtude de um clister, que pespega o Mateus, cousa mui agradável
e divertida para os” judiciosos” espectadores. Até aqui não passa o
divertimento de um brinco popular e grandemente desengonçado, mas
de certos anos para cá não há “Bumbameuboi” que preste, se nêle não
19
aparece um sujeito vestido de clérigo, e algumas vezes de roquete e
estola, para servir do bôbo da função.
Quem faz ordinariamente o papel de sacerdote bufo é o
brejeirotedespeijado e escolhido para desempenhar a tarefa, até o
mais nojento ridículo; e para complemento do escarnio, esse padre
houve de confissão ao Mateus, o qual negro cativo faz cair de pernas
ao ar o seu confessor, e acaba como é natural, dando muita chicotada
no sacerdote (CASCUDO, 1956, p. 51-52).
Durante certo tempo, Alagoas não era citada como um dos estados
representantes do festejo pelo fato de o personagem principal, que é o Boi, ser
personagem também do Reisado:
Suíte de danças cantadas por um grupo de dançarinos-cantadores,
entre os quais se intercalam representações ou “entre-meios”
terminados em geral pelo mais importante que é o Boi. Vê-se assim
que o nosso reisado de Alagoas não é apenas uma sequência de
pequenas dramatizações ou a única dramatização do Boi, a que um
conjunto de tocadores e cantadeiras, sentadas no mais das vezes,
serve de côro ou acompanhamento, tal acontece nos Bumbas, stricto
sensu (BRANDÃO, 1962, p. 13).
No entanto, isso não implica que na Terra dos Marechais não era
praticado o folguedo, que era reconhecido como um entremeio do Reisado. Até
porque Melo Morais Filho foi o pioneiro nos registros sobre o ilustre personagem
em sua obra Festa e Tradições Populares do Brasil (1946). Neste trabalho, o
autor registra um Bumba meu boi. Contudo, há controvérsias em relação ao local
do registro – se foi em Alagoas ou na Bahia. No capítulo A vésperas de Reis, o
autor cita a Bahia, mas que, posteriormente, Théo Brandão (1962) reconhece
como sendo um reisado natural de Alagoas. No fim do registro, observou-se que
Melo Morais não mencionou ser Bumba meu boi toda a apresentação, mais o
entremeio do Boi. Essa informação está contida num trabalho um tanto raro:
Costumes e Tradição do Brasil - Festas de Natal (1962). Nele, é possível
observar um Bumba, e o local:
Estamos nas Alagoas. A uns vinte e cinco minutos da cidade velha
demora a antiga aldeia de Taperaguá, que vem banhar as plantas na
lagoa plana e transparente. Nesta povoação as casas são baixas, de
telha vã ou de sapé. Os que aí moram são nas generalidades pobres
pescadores. É costumes das famílias da capital abandonar suas casas
e em companhia de outros ir passear a festa desde 25 até 06 de janeiro
à beira dessa água.
Toda a lagoa Manguaba que é linda e muito povoada, durante esse
tempo torna-se encantadora. Desde o Trapiche da Barra, Pontal,
Remédios, Boca da Caixa, Volta d Água, Santa Rita etc.; vêem-se
arcos, bandeiras e barracas pelo caminho, rapazes e mulheres,
20
crianças e velhos passeiam na lagoa em balsas, ajoujos
embandeirados, soltando foguetes e tocando músicas características
da província. A noite muita gente vai ver o Bumba-meu-boi em
diferentes casas, ruas e largos. Naquelas paragens o auto do Bumba
tem uma quantidade enfadonha de personagens de enxêrto, tornandose por isso mais curioso.
Ao todo existem: O Boi, o tio Mateus, Catarina, o Doutor, o Foiará
(indivíduo esquisito e vestido de folhas), o Morto-Vivo, Zabelinha, Mané
pequenino, o Perna-de-Pau, o Urucuri (filho do Mateus), o Capitão do
Mato, um Rei Mouro e um Rei Cristão (BRANDÃO, 1962, P. 15).
Não existem registros de que Melo Morais Filho realmente esteve em
Alagoas, devido sua naturalidade baiana. De acordo com Théo Brandão (1962),
estas informações foram dadas por algum nativo ou, possivelmente, por seu
genitor residente e natural do estado que, porventura, teria deixado para seu filho
essas informações.
Outro alagoano que também deixou sua contribuição sobre essa cultura
foi Jorge de Lima, entre 1915 e 1930. Nessa pesquisa, foi identificada uma
semelhança espacial e na descrição do folguedo entre o autor e Melo Morais
Filho. No livro Folclore Negro do Brasil (1935), Arthur Ramos descreve uma
manifestação cultural natural da terra, cuja descrição foi feita como Bumba meu
boi:
Em Alagoas, festejam o Bumba-meu-boi no período das festas de
natal, até o dia de Reis. Os personagens são: o boi, arcabouço de
madeira, coberto de chita vermelha, representando o corpo do Boi, e a
respectiva cabeça com os chifres, essa armação é carregada por um
indivíduo que lhe fica por baixo, oculto, o Mateus, vestido de vaqueiro
e armado de uma vara de ferrão para vaquejar o Boi, o Rei e o
Secretário de Sala, trazendo capaz e galões, capacetes dourados e
espadas; e mais o Doutor, a Catirina, o Padre, o Vaqueiro e outras
figuras secundárias (RAMOS apud BRANDÃO, 1962, p. 18-19).
No entanto, de acordo com as pesquisas do próprio Théo Brandão (1962),
as informações contidas na obra tratam-se de um Reisado, e no decorrer da
descrição dos personagens, elas coincidem às de Melo Morais (1962).
Abelardo Duarte, num estudo que tem como título Um Folguedo do Povo
(1957), descreve um Bumba meu boi no engenho Hortelã. No entanto, pelos
personagens e vestuários, percebe-se que também é um Reisado. Com isto,
entende-se que havia uma diversidade desse folguedo e a coincidência de
equívocos entre Melo Morais Filho, Arthur Ramos e Abelardo Duarte.
Até Alfredo Brandão, outro pesquisador ativo, teve um bom material de
pesquisa entre 1914 e 1919. Em seus estudos, ele não menciona o Bumba meu
21
boi, mas sim “o Reisado, a Chegança, a Cavalhada, o Maracatu, o Toré, o Côco,
ou o Samba, o Quilombo, o Fandango, o Fubá, o Pastoril, as Taiêras, as
Cirandas, o Candieiro, o Passeio à Roça e Rapapé” (apud BRANDÃO, 1962,
p.21).
Em 1956, Sales Cunha publicou uma obra intitulada Aspectos do Folclore
de Alagoas e Outros Assuntos (1956). Neste trabalho, estão contidas
informações adquiridas entre os anos de 1919 e 1922. Nele, o responsável pela
obra também não se refere ao Bumba meu boi, mas ao Reisado. Por isso,
durante a década de 30, não existia nenhum registro que em Maceió havia a
cultura do Bumba meu boi, o que causou ao estado ser excluído da lista onde o
auto é apresentado. No Dicionário Folclórico Brasileiro (1962), bem como no
trabalho de Rossini Tavares de Lima, também não havia registros. Propagado
pela Comissão Nacional do Folclore (doc. 363), a informação é de que Alagoas
é citado como praticante dos seguintes folguedos: Reisado, Pastoril, Chegança,
Taiêras, Presépio.
Théo Brandão (1962) defendeu a ideia do Boi presente em Alagoas,
mesmo que não existisse nenhum registro do Estado como praticante dessa
herança cultural, e discorda com a ideia do mesmo ser excluído da lista de
praticantes desta manifestação, mesmo com as informações duvidosas de
espaço geográfico de Melo Morais Filho (apud BRANDÃO, 1962). Então, em
1951, foi solicitado ao IBGE um levantamento sobre folguedos e autos populares
de Alagoas. Naquele momento, quem dirigia o instituto era Franklin Casado,
membro da Comissão Alagoana de Folclore, que conseguiu encontrar nos
municípios de Porto de Pedra e Porto da Rua a existência do Bumba meu boi.
Em Porto da Rua, os participantes eram pessoas simples: os homens,
quando não trabalhavam na pesca, tiravam coco; as meninas eram domésticas
e artesãs. As apresentações eram feitas nas casas ou nas praças públicas.
Durante a pesquisa, o prefeito em exercício era Anfrísio Cunha. O auto, nessa
localidade, era conhecido por “três pedaços”, e os componentes não tinham um
local (sede) para fazer seus ensaios, o que não era necessário, segundo o líder
do grupo – Mestre Cirilo – pois não havia substituição dos membros principais,
nem do texto.
Eles não se apresentavam apenas no período natalino, mas em qualquer
época do ano. Os locais de apresentação eram: Porto de Pedras, Tatuamunha,
22
São Miguel dos Milagres, Toque, Lage, Barra do Camaragibe e no Passo de
Camaragibe. Quanto ao nome, Mestre Cirilo (1951) explicou ao folclorista que o
auto, naquele município, possui este nome relacionando-o a um personagem,
que era o morto-vivo. “Não vê que ele tem três pedaços: um vivo e dois mortos”.
O pesquisador observou a simplicidade daquele auto: o figurino era
adquirido através dos vizinhos e, assim, o grupo estava apto para apresentar-se:
O auto constava da “abrição de porta”, comum aos demais reisados do
Estado, e de um desfile de bichos e personagens que dançam ou
evoluem, enquanto côro de acompanhantes cantam a cantiga. Os
“bichos” são apresentados pelos “Mateus” ou pela “Catirina”, que nos
intervalos entre a saída de um bicho e achegada de outro, cantam por
sua vez cocos, emboadas, recitam décimas ou dialogam
chistosamente entre si ou com a assistência (BRANDÃO, 1962, p.23).
Mesmo assim, Théo Brandão identificou no auto uma semelhança com os
Reisados alagoanos:
O chapéu de palha do “Mateus” de aba quebrada na frente, tem como
nos Reisados, a copa afunilada e são enfeitado com espelhinhos e
flores artificiais na aba quebrada, fitas pendentes do vértice da copa. A
roupa é a comum, de uso, de empréstimo ou doação. A roupa é a
comum, de uso, de empréstimo ou doação. Trazem pés descalços ou
usam alpercatas de couro, carregam às costas um surrão cheio de
latas, trazem ao pulso uma “macaca” (réstia de cebola) e nas mãos
pandeiros e uma enorme” espingarda de bambú.
A Catirina (homem vestido de mulher) traja vestido comum (saia e
casaco curto), de côr, e usa a cabeça um torço de cor, enrolado como
turbante. Nas mãos carrega uma boneca enfeitada, negra que
denomina de Marinete. Pintam - os dois Mateus e Catarina - o rosto de
fuligem ou tisna de panela, mesmo os que têm a tez mais ou menos
escura. Não “há palhaços, de rosto pintado de alvaiade como nos
outros reisados de Alagoas (BRANDÃO, 1962, p.24).
3 O BOI ÁGUIA E SEU CONTEXTO ESPACIAL E SOCIAL
Minha entrada não foi difícil, pois o local onde o grupo Bumba meu boi
Águia, como é conhecido e chamado pelo grupo, é o Núcleo Cultural da Zona
Sul de Maceió, na Rua Cabo Reis s/n Ponta Grossa.
23
Figura 1: Fachada do Núcleo Cultural Zona Azul
A pesquisa etnográfica realizou-se de 14/01/2014 a 12/04/2014, período
no qual frequentei a sede do grupo e tive contato com seus integrantes
aproximadamente duas vezes por semana – nas terças e quintas-feiras, que
eram os dias de ensaios de bateria e produção de decoração no Boi. Mesmo
esse contato visual não exigindo de mim nenhuma experiência, não significa que
o exercício seja fácil. Assim sendo, não poderia deixar de falar de Roberto da
Matta, em seu trabalho O Ofício do Etnólogo ou como ter ‘anthropological blues’
(1978) ao discorrer sobre as três etapas fundamentais do etnólogo, em que uma
delas que me chamou atenção, apenas por uma questão de contexto. Ele diz
que “É vivenciando esta fase que me dou conta (e não sem susto) que estou
entre dois fogos: a minha cultura e uma outra, o meu mundo e um outro” (MATTA,
1978 p. 02).
Enquanto pesquisador precisava entender, ouvir e enxergar tudo em
relação a meus entrevistados: o que eles fazem realmente até o dia do
concurso? Como eles realizam as atividades? Como eles promovem o evento?
E as despesas? Quem os ajuda? E os membros? Qual a participação dos
mesmos? Quantos são? Enfim, essas dúvidas se passavam em meus
pensamentos ao passo que este trabalho seja construído, é que fui ao campo de
pesquisa mais seguro para me familiarizar com aquilo que, até então, me
pareceu estranho no primeiro contato, já que, a partir daquele momento, eu já
24
não estava em minha zona de conforto. Ao mesmo tempo, estava ansioso em
relação ao que o meu objeto de pesquisa – o Boi Águia – poderia me
proporcionar.
Das idas aos primeiros ensaios, na tentativa de socializar com meu novo
grupo, até o momento em que familiarizassem comigo, e não me olharem como
um estrangeiro, havia momentos em que me dava vontade de rir, pois eu tinha
conhecimento do estranhamento que eles nutriam por mim, e que era de minha
responsabilidade quebrar essa barreira. Durante a realização do trabalho,
percebi que eu estava em busca de uma verdade ignorada por muitos. Essa
certeza vinha dos momentos que encontrava alguém conhecido que me
questionava, com um olhar reprovador, sobre o que eu estaria fazendo ali. Isso
me fez observar como aquele grupo era vítima de estereótipos dos padrões
sociais.
Chegando no local, cumprimentei a todos, me identifiquei como aluno da
Universidade do curso de Ciências Sociais e expliquei minhas intenções de
colher dados sobre o trabalho do Boi naquele local, como: sua história, produção,
ensaios e bastidores até o dia do concurso, no qual se concretiza todo o trabalho
coletivo.
Fui recebido por um dos coordenadores do Boi, conhecido por Fernando
e batizado entre eles como “Feu”. Ele me recebeu com simpatia, me deixando à
vontade para frequentar os bastidores da sede do Boi Águia. Em seguida, fui
apresentado ao vaqueiro Emerson, chamado entre eles de “Buzunga”, que
comanda o Boi nas apresentações e no dia do concurso. Ele é tricampeão
alagoano como vaqueiro, e diz com orgulho e otimismo que chegará ao tetra.
Conheci o mestre da bateria Henrique: figura simpática, voz baixa e um pouco
tímido. Enquanto as maiorias dos membros foram para a quadra, pois o espaço
da sala é pequeno e não suporta tanta gente, ficamos lá dentro num papo
descontraído. Falamos sobre onde morávamos, a família e o trabalho, até que o
assunto tão esperado por mim foi iniciado.
Neste dia, não houve ensaio já que a sede estava muito tumultuada,
desorganizada – materiais espalhados, armários fora do lugar, mesas ocupadas
com caixas com sobras de materiais (lantejoulas, espelhos, tecidos de várias
cores, cola e tesoura). O ambiente estava intransitável, sem falar da presença
25
de dois Bois – um, do ano passado; outro, o esqueleto do Boi para 2014. Como
era o retorno das atividades, o ensaio foi adiado.
Figura 2: Sala do grupo Águia.
As atividades, de acordo com meu informante, deveriam ter se iniciado
em setembro, mas, por motivos de divergências no grupo, o início e deu em
janeiro. Nos primeiros levantamentos do momento prático desse ofício, me veio
à memória o trabalho da Teresa Pires do Rio Caldeira (1980), no qual ela
direciona seu trabalho tratando da relação entre o pesquisador e o informante, e
diz que é uma “relação que um requer um depoimento e outro se vê na
contingência de responder; em que um pede que tudo seja dito nos mínimos
detalhes” (CALDEIRA, 1980, p.334).
Para não perder tempo, procurei reunir o maior volume possível de
informações: perguntei sobre a história do Bumba meu boi (ou boi de carnaval)
em Maceió, e percebi que eles tratam ambos como um só. Feu, que desde
criança cresceu escutando a versão da história em que seu tio, um dos
fundadores do Águia, dizia que tudo começou nos anos 1970 com um senhor
conhecido, na região da Ponta da Terra, por “Baleado” (apelido dado porque ele
sofreu um atentado). Feu e os demais diretores (Henrique e Emerson, chamado
de Buzunga) defendem a teoria de que “Baleado” foi o pioneiro na brincadeira
do Boi aqui em Maceió, e que ele fazia burrinhas e La ursa, que era uma tradição
de sair durante o carnaval.
26
Baleado se fantasiava improvisadamente e saia pelas ruas para pedir
dinheiro (incentivando o bloco de rua) para assim comprar bebidas para brincar
durante os dias festivos. Ele teve a ideia de pegar um Boi de um Reisado que
tinha no bairro da Ponta da Terra (hoje Pajuçara), para sair no meio das
burrinhas e La ursas com chapéu de palha e apito, como se fosse um vaqueiro,
de porta em porta, pedindo dinheiro. Caso as pessoas dessem algum valor, o
Boi dançava. Na época, os instrumentos usados eram: zabumba, tarol, violão e
daí por diante.
Os anos foram passando, outras pessoas foram adotando essa prática de
maneira livre e inusitada e sem encenações premeditadas que foram ganhando
o gosto popular. Evidentemente, tal personagem não era o mesmo pesquisado
pelos os pioneiros na pesquisa do Bumba meu boi como Arthur Ramos (1954),
Abelardo Duarte (2010), Théo Brandão (1962), entre outros, que relataram em
seus trabalhos um auto dramático completamente diferente, com história,
entrada e saída de personagens, morte e ressureição do animal.
Essa tradição foi quebrada com a contemporaneidade defendida por
aqueles que fazem a festa hoje. O que chegou até a mim foi que a criatividade
do “Baleado”, que animava o bairro, resistiu ao tempo; que a brincadeira ganhou
gosto popular e foi adotada em outros lugares; que espalhou-se e resistiu ao
tempo, tornando-se tradição com o nome que permanece de Bumba meu boi.
Ao contrário dos antigos bailes carnavalescos promovidos nos clubes
tradicionais da cidade para uma parcela da população, as comunidades
periféricas, longe de despesas, usavam apenas a criatividade para cair na folia.
Hoje, bem como as escolas de samba do grupo especial foram inovadas, o
“Bumba meu boi” como é conhecido por eles tomou novas formas, com o
incentivo do radialista Luiz de Barros, nas últimas décadas, ao criar o primeiro
concurso.
Ao escutar a fala do meu interlocutor no discurso sobre essa nova
derivação do folguedo, vieram à mente as lembranças de um passado remoto,
onde todas as crianças, durante os anos 80 e 90, inclusive eu, cresceram
correndo de alegria ou de tristeza, por medo, ao redor do Boi. O barulho
fascinava todos os moradores do bairro, de todas as idades, que saiam à porta
para apreciar o evento, ou os que o acompanhavam, sem destino nem
pretensões, pelas ruas da capital. Sem me preocupar com hora da chegada e na
27
intenção de participar da reverência ao Boi, como se fosse uma hipnose, no seu
mais improvisado traje de chita, que carregava grande originalidade no seu
bailado, muitas vezes, quando me dava conta, já estava muito distante de casa;
a tarde já havia caído e voltava sabendo que, não somente eu, mas os demais
receberíamos os devidos castigos por termos saído de nossas casas sem avisar
– mesmo assim, estávamos satisfeitos por termos ido ao encontro do Boi.
3.1 O Criação do boi Águia
O Águia, de acordo com meu interlocutor, surgiu a partir de seu tio junto
a dois amigos, que são primos do Henrique (mestre da bateria) que se juntaram
na Pajuçara (naquela época, o bairro era conhecido por Ponta da Terra) com o
Senhor “Baleado”, e fundaram o Boi que foi batizado como Águia de Ouro, e
ficou muito famoso, desde então. Quando foi para o bairro do Vergel, agora
rebatizado apenas como “Águia”, os antigos donos repassaram o Boi para os
atuais continuadores do legado. Até o momento em pude acompanhar, o grupo
de rapazes assumiu sua função com empenho. Nos dias de minha visita, sempre
observava a rotina deles: a sede se encontrava aberta, limpa e organizada.
Henrique, mestre de bateria, já estava presente se organizando para o ensaio,
colocando os instrumentos na entrada da sala. Eu, para me sentir familiarizado
com os demais, sempre os ajudava na retirada dos materiais. Aos poucos, os
instrumentistas se organizavam para o ensaio.
28
Figura 3: Ensaio do grupo Águia.
Figura 4: Mestre Henrique da bateria
Durante o ensaio, o líder Henrique mantinha uma linguagem gestual em
que mostrava um, dois e três dedos, de maneira crescente. Percebi que, à
proporção em que ele mudava os gestos, a harmonia também mudava. Nem
sempre os participantes da bateria prestavam atenção e, quando ocorreu de
alguns deles errarem, havia gritos, xingamentos e discussões. Uma das coisas
que me chama a atenção é a variação de idade entre os participantes da bateria
e a presença de um garoto, o “mascote” do grupo. Percebo, também, que ele se
29
dedica disciplinadamente ao projeto, sempre atento à orientação do mestre da
bateria. Seu nome é Rian Handerson, ele tem 11 anos de idade e é estudante.
Rian pertence ao grupo desde os oito anos, por apoio de seu pai que, um dia, foi
brincante de Boi. Durante um intervalo, fui ao seu encontro na tentativa de
conseguir algumas palavras dele e percebo sua timidez. Mesmo assim, insisti e
perguntei: Você gosta de tocar? Ele balançou, a cabeça afirmando.
Figura 5: Rian Handerson
Suas respostas, em meio a um sorriso e o olhar para o chão, foram o
suficiente para que eu entendesse a importância que aquele grupo tem na vida
dele, e também o quanto o grupo poderia fazer mais por Rian e por muitos outros.
Por um momento, pensei no quanto aquele garoto poderia estar afastado de
inúmeras coisas ilícitas enquanto estava ali duas vezes por semana. Sua timidez
me fez lembrar que ali era meu limite e não deveria insistir.
Além do mais, na relação com o entrevistado parece importante que o
pesquisador saiba “até onde pode ir” com cada um desses informantes,
mas para isso não existem regras Pré-determinadas. Em parte a
própria experiência no trabalho de campo me ensinou a perceber esses
limites (SALEM, 1978, P.60).
Aos poucos, com o passar das semanas em minha interação com o grupo,
os olhares interrogativos foram desconstruídos. Isso era bom para mim, porque
me dava a sensação de ter sido aceito por eles. Em uma dessas idas, encontro
30
Buzunga. Foi ele que apresentou o projeto de 2014 ao demais envolvidos, bem
como o tema escolhido, a decoração e a música. Todas essas questões estavam
sob sua responsabilidade. Ele comentou, certa vez, que estava preocupado em
relação a sua falta de tempo diante de tantas responsabilidades, visto que o
concurso seria em abril.
O tema do Boi Águia, no ano de 2014, foi “Águia faz um gol pela paz no
futebol alagoano”. O propósito, com esse tema, foi pedir a paz entre os
torcedores (dentro e fora dos estádios), se referindo àqueles que torciam pelos
times de futebol alagoanos CSA e CRB, que causavam tumulto toda as vezes
em que seus times se enfrentavam – fato evidenciado nos telejornais. Ainda
falando sobre o projeto, o Boi Águia tem como cor predominante o branco, que
significa a paz, seguida das cores dos times de futebol alagoano (azul e
vermelho). A bateria foi dividida em duas partes: uma vermelha e branca, outra
azul e branco, em que foram simbolizadas as cores da bandeira alagoana e os
dois times rivais, CSA e CRB. O mestre da bateria se caracterizou de juiz de
futebol estilizado, comandando a bateria.
Após essas informações, Buzunga me disse que acompanha o Águia
desde 2006, e relembrou quando o concurso ainda era na praia de Sete
Coqueiros – fato que marcou muito sua infância que, por ter sido morador do
bairro da Pajuçara, sempre acompanhou o mundo dos bois (desde a construção
do boi até o dia do concurso). Naquela época, ele torcia pelo boi Paraná (hoje
desativado). Em entrevista, ele lembra que entre os anos 2000 e 2005, os Bois
que participavam do concurso usavam apenas o tecido com babados muitas
vezes feitos de chita estampada, e também usavam um buquê de flores em
plástico conhecido como capuchinhos – tudo muito simples.
Era dessa forma que os Bois se apresentavam nos primeiros concursos,
segundo suas informações. A partir de 2006, o Boi Águia começou a
apresentação estilizada. Desde então, a cada ano ele se apresenta com um tema
diferente. A seguir, podem ser conferidos alguns desses temas:
1- Em 2006, homenagearam Nélson da Rabeca – um artista da terra,
natural de Marechal Deodoro, que segundo Buzunga, inventou a
rabeca, um instrumento musical. Como caracterização, a equipe levou
uma rabeca na parte superior do boi;
31
2- Em 2007, o tema escolhido foi “A guerra contra fome”. Foi abordada a
questão da fome no nordeste brasileiro. Foi um ano muito difícil para
todos os grupos de Bois, devido às brigas que ocorriam nos concursos,
por conta da aceitação de notas e classificação. Todos os bois foram
punidos e, por essa questão, não houve festival. Mesmo sem apoio do
governo, eles se reuniram e promoveram o concurso por conta própria,
sem perder a qualidade do evento, com muito brilho e estilo, mesmo
sem ter premiação;
3- Em 2008, o tema escolhido foi “Apaixonados pelo carnaval”;
4- Em 2009, todos os membros dos grupos de Boi foram ao Ministério
Público lutar pela volta do concurso. Eles conseguiram uma audiência
com o prefeito e, com muita luta, o propósito foi alcançado: a volta do
concurso. Nesse ano, o Águia escolheu com o tema “O livro”, sendo a
Bíblia a homenageada, como o primeiro livro da humanidade e, em
seguida dos escritores alagoanos Graciliano Ramos, Jorge de Lima;
5- Em 2010, o tema escolhido foi “A turma do chaves”;
6- Em 2011, “Um sonho de uma criança”;
7- Em 2012, o Águia foi campeão, e teve com o tema “A cultura feita pelas
mãos”, homenageando o Pontal da Barra e seus marisqueiros,
pescadores e artesãos, bem como a arte do capuchinho;
8- Em 2013, o tema foi “As estrelas que brilham em Alagoas”. Linda
Mascarenhas, Mestre Zinho, Jorge de Lima, Ranilson França e Maciel
Lima foram os homenageados;
9- Em 2014, o tema escolhido foi “O águia faz um gol pela paz”.
3.2 A sede do boi Águia
Desde 2000, Buzunga se identificou com essa cultura, já que estava
inserido nesse universo artístico de brilho, cores e decoração. Ao falar do projeto
de 2014, senti uma euforia através de seus olhos, e declarou que estava mais
atarefado já que, nos os últimos anos, houve problemas com o antigo decorador,
o Feu. Ocorre que, quando se aproximou o concurso, ele perdeu o equilíbrio
emocional, brigou
com os
demais membros, abandonando o
grupo
32
comprometendo a apresentação. A decisão emergencial, então, foi de passarem
a noite toda trabalhando, faltando apenas um dia para o concurso. Ele, então,
ficou empenhado na conclusão dos trabalhos. “Não pode ser assim, velho! ”
(Informação verbal)2, desabafa o vaqueiro.
As palavras daquele rapaz me fizeram recordar uma observação que
Fernando me fez nos primeiros encontros, em que dizia “Olha só velho... tu não
liga se tu ouvir alguém discutindo fulano ou cicrano, pois somos igual a uma
família com brigas e discussões mais que no final tá todo mundo bem”
(informação verbal).3
Não restavam dúvidas, para mim, naquele momento, após a fala de
Buzunga que mesmo numa relação muitas vezes conflituosa, eles trabalhavam
coletivamente. Ao observar o trabalho daquele grupo, outro fator provocou meu
interesse, que foi quanto às despesas existentes até o concurso. Aproveitando
o momento da entrevista, perguntei a Buzunga se eles tinham apoio financeiro,
e como eles se organizavam para confeccionar a decoração do Boi e as roupas
dos componentes, já que se trata de um grande grupo – que é composto por 20
ritmistas, que tocam surdo, tarol e repique; 1 mestre de bateria e vaqueiro, 1
condutor (boi), 5 lá ursos, 1 morto vivo, que é outro personagem boi, 3
“burrinhas”, que são levadas também para arena, e mais 20 pessoas que fazem
a dança durante a apresentação, além do cenário. Ele, por fazer parte da
diretoria do Águia, era quem melhor poderia melhor responder a esses
questionamentos.
Na sua fala, ele cita o núcleo onde o grupo está sediado como exemplo
de trabalho coletivo, artístico e cultural já que sempre que tem material da
quadrilha – um cenário, por exemplo, ou pedraria – que sobra, eles doam ao Boi,
e o material que sobra do Boi, eles doam à quadrilha (que se chama Forró Baião),
como também à escola de samba Girassol, localizada no Conjunto Joaquim leão,
que ajuda no que pode, como a doação da roupa da bateria. Eles ainda fazem
as compras do que está faltando no cartão de alguém, e depois se juntam para
pagar, sacrificando parte da cesta básica de alguns (ou talvez de todos). Alguns
2Informação colhida em 26/01/14, por meio de entrevista verbal. Os equipamentos utilizados para
registro foram: gravador e câmera fotográfica.
3Informação
colhida em 28/01/14, por meio de entrevista verbal na sede do boi Águia. Os
equipamentos utilizados para registro foram: gravador e câmara fotográfica.
33
membros do Boi tanto fazem parte da quadrilha junina quanto da escola de
samba.
Quando acaba o concurso do Boi, Feu (Fernando), por exemplo, vai
dançar na quadrilha citada acima. Ao observar a movimentação no núcleo
cultural, percebi que as atividades da mesma já tinham começado. Os concursos
de quadrilhas seguem até o mês de agosto e meu informante me diz que os
participantes da quadrilha também trabalham muito nos ensaios. Além disso,
eles têm muitas despesas com a vestimenta, que chega a custar no total até R$
2.000,00, no grupo das mulheres, e R$ 1.000,00 no dos homens, no mínimo.
Para diminuir os custos, eles ainda reaproveitarem material do ano anterior
(como tecido, brilhos, pedrarias, etc.). Após os concursos juninos, Fernando me
diz que descansa durante o restante do mês. Em setembro, eles recomeçam o
projeto do Boi para o próximo ano, e começam a definir coisas como: tema,
composição de música, figurino, decoração, etc.
Essa amizade entre eles não se resume ao período do concurso do Boi,
depois de tudo, eles se reúnem, sempre que possível, nos finais de semana para
beber, jogar sinuca juntos, assistir a jogos de futebol – principalmente o clássico
local, pois a grande maioria é regatiana (torcida do time de futebol local CRB). O
que pode ser observado é que há uma relação familiar entre os componentes do
Boi Águia, principalmente entre Henrique e Fernando que, há mais de 15 anos e
antes da transferência do Boi Águia da Pajuçara para a zona sul, já se
conheciam, o que aconteceu através de uma banda afro chamada Axé Zumbi (já
desativada) – época em que o ritmo do axé estava no auge.
Eles tocavam na banda, já que tinham experiência na bateria. Foi quando
Fernando conheceu João e André, que sempre gostou de Boi. Eles pegavam os
instrumentos emprestados da banda e ensaiavam para o Boi. Henrique tinha
certa resistência de início, mas como sempre foi apaixonado por bateria, logo se
rendeu ao mundo encantado do Boi.
A união entre os grupos foi confirmada para mim, enquanto observador,
quando os ensaios foram suspensos 15 dias antes do carnaval, até o período
após o concurso das escolas de samba. Motivo da suspensão foi para dar
suporte na bateria da escola de samba Girassol, assim como aos diretores.
Henrique me chamou à parte e informou o que Fernando (Feu) já havia feito
sobre a troca de favores que existe entre a escola de samba e o Boi Águia. Ele
34
me confidenciou que o grupo não dispõe de condições para comprar 100 metros
de tecido para vestir a bateria. Sendo assim, a escola de samba doou o tecido
dividido em: 40 metros de tecido branco, 30 metros de tecido azul, e 30 metros
de tecido vermelho. Por isso, segundo ele, não poderia perder a oportunidade
em ajudá-los na bateria. Após o retorno das atividades, eu, em busca do
cumprimento do meu ofício, conheci um personagem que, até então, não o tinha
visto: Buzunga apresentou-me a Gleydson, que é decorador de boi e também
quem desenhou todo o projeto do Águia: a roupa da bateria e a decoração do
próprio Boi. Ele sobrevive de costura, decoração de festas, e também é
coreográfo, quando as escolas o contratam para organizar abertura de jogos,
além das quadrilhas juninas, em que ele trabalha com figurinos, cenário, cabelo
e maquiagem.
Ele iria colocar o tecido sobre o Boi para começar as atividades, mas
ocorreu algo inusitado: a máquina de costura quebrou, por ser muito antiga, e o
grupo não dispunha de dinheiro extra para o conserto. Gleydson, então, fez à
mão as medidas do Boi: ele marcou com alfinetes o tecido sobre a armação o
Boi, naquele ambiente quente onde o suor era o resultado de seu esforço.
Buzunga era um dos mais envolvidos e eu, como observador, registrei o
momento através de fotografias.
Figura 6: Buzunga e Glaydson.
35
Gleydson é uma figura chamativa: fala alto, discute porque discorda de
tudo, além de impaciente. Possui uma estatura baixa e cabelo todo arrepiado,
além de um estilo fashion. Ao olhar para mim, ele diz: Olhe, moço, não ligue não
eu sou assim mesmo (informação verbal).4 Apenas sorri e me ofereci a ajudá-lo,
na intenção de me aproximar e tentar algumas informações. Do lado de fora do
local, a bateria já estava a todo vapor e, em meio a uma conversa e outra, fui me
aproximando: disse meu nome e meus anseios naquele núcleo. Dessa forma,
consegui driblar sua aspereza (claro que havia todo um interesse de minha parte
para aquela gentileza). Senti que ele simpatizou comigo, então dei seguimento
ao meu propósito.
Seu envolvimento com o universo do Boi de carnaval começou desde
muito cedo: aos 12 anos, ele começou a fazer boizinho de lata de óleo e garrafa
pet, usando a criatividade com os materiais que ele mesmo adquiriu, como gliter,
lantejoulas e tecidos coloridos. Depois, surgiram os convites decorar os Bois de
rua, que hoje já não existem mais. A partir daí Gleydson foi aprimorando seu
talento. Em 2009 ele foi convidado para decorar o Boi para concurso, e desde
então ele não parou mais, pois seu trabalho é disputado na região sul da cidade
pelos líderes dos grupos de boi.
De acordo com sua experiência, um boi, hoje, para sair bem decorado
para participar do concurso tem que custear cerca de dez mil reais. Eu me
espantei com esse comentário, e pensei que esse talvez seja o motivo pelos
quais os Bois de rua estejam diminuindo cada vez mais. Meu ouvinte concordou
e deu o exemplo do boi Águia que, segundo ele, tenta arrecadar fundos
realizando apresentações durante o ano todo. Com parte do dinheiro adquirido,
é feita a compra de materiais, que têm alto valor. Parte desse material é
comprado em Recife já que, em Maceió, além de ser mais caro, como descreve
o experiente artista na arte dos Bois, não há muitas novidades. Na sua
experiência, sempre falta alguma coisa: nenhum Boi vai para a arena como ele
realmente queria, diz ele. Agradeci, então, pelas informações.
Era por volta de meia-noite quando Gleydson terminou de alinhavar o
tecido – suando, pois a sala era quente – e eu acompanhando, registrando com
4
Informação colhida em 03/02/14, por meio de entrevista verbal na sede do boi Águia. Os
equipamentos utilizados para registro foram: gravador e câmera fotográfica.
36
a câmara esses primeiros passos do Boi Águia. É um nascimento, penso eu. A
cada ano, um novo tema; uma nova decoração. É de Henrique, então, a
responsabilidade de providenciar uma costureira para costurar o tecido. Por
coincidência, sua sogra assim o fez, bem como a roupa da bateria.
Na próxima visita, ao chegar à sede, Buzunga, Henrique e Gleydson
estavam decidindo quanto à viagem a Recife para a compra do restante dos
materiais. A viagem estava sendo marcada para a madrugada do dia seguinte
(às 4:00hs da manhã). Quanto aos valores e despesas, tais como alimentação e
passagem, não sei o que foi acertado: nesse momento eles foram mais
criteriosos; afastaram-se para falar desses assuntos e eu não fui invasivo,
apenas ouvi claramente que o rapaz do transporte iria buscá-lo em casa. No
outro dia, durante o percurso do portão do núcleo até chegar à sede, observei
que a sala estava semiaberta e havia um tecido prateado na porta (uma espécie
de cortina). A intenção, ali, era de zelar quanto à exposição do boi, ficando
apenas pouquíssimas pessoas autorizadas a entrar (sendo eu uma delas).
Ao entrar, percebi que os trabalhos já haviam começado. Dessa vez, senti
um ritmo acelerado: o entusiasmo estava estampado no rosto de Buzunga, afinal
de contas o material já havia chegado de Recife, o que já não impedia de parar
a produção. Meu companheiro me recebeu com festividade e, para minha
surpresa, perguntou-me se eu poderia ajudá-lo na decoração do Boi. Para mim,
essa foi mais uma prova de aceitação no grupo. Mesmo surpreso com o convite,
e sendo também totalmente leigo em decoração, ele olhou pra mim e disse “Você
aprenderá!” (informação verbal).5
5 Informação colhida em 05/02/14, por meio de entrevista verbal na sede do boi Águia. Foram
utilizados para registro os equipamentos: gravador e câmera fotográfica.
37
Figura 7 : O pesquisador participando das atividades.
Enquanto tudo parecia normal, pensava eu que estava ali diante de um
novo desafio: o de contribuir na transformação do Boi Águia num luxuoso
concorrente para o festival, previsto nos dias 11 e 12 de abril. Senti-me
lisonjeado por estar ali, entre eles, conquistado um espaço em tão pouco tempo.
Sendo assim, começamos a trabalhar naquele ambiente quente e sem
ventilação, onde suor tomava conta de nós. Colamos uma espécie de bandeiras,
com cola de sapato, ao redor do Boi. Esta atividade foi árdua. Depois,
costuramos à mão, no sentido ida e volta, para reforçar a colagem, assegurando,
assim, que nada acontecesse ao tecido no dia da apresentação e pudesse
prejudicar a pontuação. É um trabalho totalmente manual que requer paciência
e delicadeza, além de agilidade, por conta do uso da cola quente durante todo o
processo. Buzunga ficou envolvido com a decoração da frente do Boi. Enquanto
eu colava umas pedrarias pequenas no contorno das “bandeiras”, a bateria não
parava de ensaiar.
38
Figura 8: Boi Águia.
Durante alguns dias, ficamos na confecção de algumas flores de papelão
revestidas de papeis coloridos, representando os mais variados tipos de flores.
Depois disso, passamos um tempo esperando a vinda do grafiteiro, que iria
desenhar dois jogadores no tecido que cobriu o Boi. Em uma das vezes, ao
entrar no centro cultural, vi um aviso sobre a aula de educação para jovens e
adultos (EJA). A presença de mais um trabalho me faz entender a necessidade
de restauração que aquele prédio necessita, por acomodar tantos outros
trabalhos que possam beneficiar a própria comunidade, que vive hoje à margem
do crime, da droga e da violência.
3.3 O Núcleo Cultural Zona Sul
Antes de qualquer coisa, não poderia ter esquecido, entre tantas
responsabilidades, a descrição do cenário (como já falei anteriormente), e
levantar as informações sobre a instituição de pesquisa que também fez parte
dessa tarefa. Todos os dias há um fluxo de grupos culturais diversificados que
se reúnem num espaço conhecido como Núcleo Cultural da Zona Sul de Maceió,
fundado em 25/03/2007, localizado na Rua Cabo Reis S/N no bairro da Ponta
Grossa, onde os moradores estabelecem, em seu interior, práticas culturais
39
específicas, como: quadrilha junina, capoeira, grupo de dança, teatro, karatê,
tae-kwon-do e, desde 2009, tem sido também a sede do Boi Águia.
Figura 9: Imagem interna do núcleo.
O local possui 15 salas que são utilizadas para as atividades continuadas
dos grupos existentes, bem como para guardar os materiais dos mesmos.
Percebi a existência de algumas salas um pouco afastadas. Perguntei ao
pessoal qual a função das mesmas, e os rapazes que estavam na sala do boi
me responderam que se tratava de dois banheiros totalmente danificados e
interditados, com portas quebradas e paredes precisando de uma restauração.
Aliás, pude perceber que todo o prédio é mal pintado com uma cor vermelha. É
notório o descaso e, inclusive, nesse mesmo dia de colhimento de dados, não
conseguíamos acender a lâmpada devido às péssimas instalações do local, que
eram feitas de improvisos. Aguardamos até a chegada de outros componentes
mais adaptados a esses “macetes” (como disseram), que mexeram em alguns
fios e acenderam a lâmpada. Nos fundos do centro cultural há um abrigo de
idosos e, devido aos ensaios, já houve muitos problemas com denúncias,
segundo relatos do vaqueiro Buzunga.
Em relação à pintura, Ricardo, membro do Boi, citou em desabafo que a
situação não está pior porque ele fez mutirão com os participantes do Boi, que
pintaram as 15 salas. O caos estrutural do prédio se torna tão ínfimo diante da
40
alegria e satisfação daquelas pessoas que se desdobram em várias tarefas, que
levam ao mesmo fim, simplesmente pelo prazer de amar o que fazem, sejam
eles membros de qualquer grupo ali existente.
Durante minha visita, apenas a sala do grupo de dança estava aberta com
sua atividade – além da sala do Boi, que é aberta diariamente durante toda a
semana, nos três turnos e não fugia a regra do ambiente: era pouco iluminada,
paredes com queda de rebocos, péssimas instalações dos fios de energia,
totalmente expostos e sem interruptores. Diante daquela precariedade, eles
buscam, nas dificuldades, o incentivo necessário para manter o sonho vivo.
O bom é que as salas não são frente uma da outra, com uma quadra
aberta e coberta de frente a elas, onde acontece o ensaio do grupo de Boi às
terças e quintas-feiras. Durante os outros dias, ela está ocupada com os demais
grupos. Ao lado da quadra, observei que há capim. Ricardo (baterista do boi) me
disse que, de vez em quando, eles fazem uma cotinha de dinheiro para comprar
gasolina e queima as plantas quando estão grandes. Pouco depois, começa o
ensaio. O meu informante tem que sair para esquentar os instrumentos, junto
aos outros 19 membros. Os instrumentos que são utilizados são: surdo, tarol e
repique. Uma das coisas que atentei é que alguns rapazes, os mais adultos,
como o mestre de bateria Henrique, tomam umas doses de cachaça 51 antes de
iniciar o ensaio.
Ao buscar informações históricas sobre o local, muitos dos componentes
do Boi disseram que a pessoa com maior propriedade no assunto era um mestre
de capoeira chamado Paulo André, também conhecido na capoeira como
“Morcegão”, que era graduando em Educação Física. Encontrei Morcegão em
umas das minhas visitas. Apresentei-me, explicando meu intuito acadêmico e,
por opção dele, marcamos uma reunião em sua residência, localizada no bairro
de Ponta Grossa. Ao chegar, fui bem recebido por ele e procurei fazer de sua
entrevista algo bem informal, com o zelo de não manipulá-lo para evitar
interferências. Aos poucos, ele foi se soltando e falando um de sua vida. Disse
que desde os 12 anos ele foi apaixonado pela capoeira e hoje, com 40 anos e
com muito esforço, tornou-se mestre e representante do grupo ABADÁ
(Associação brasileira com apoio do movimento da África) que existe em 91
países e em vários estados do país. Quem faz parte da Abadá tem que ter um
projeto social, então esta associação busca, na periferia, meninos para
41
desenvolver o talento na luta para que, no futuro, eles se tornem também
mestres dessa arte marcial, como tantos outros espalhados por aí.
A partir daí a conversa começou a ter um rumo, já que o motivo pelo qual
ele chegou até aquele local foi a falta de espaço para a prática da capoeira. Ao
falar do Centro Cultural da Zona Sul, ele diz que se tratava de uma escola hoje
desativada que, inclusive, ele frequentou, segundo sua mãe (uma senhora de 77
anos, D. Helena, que contribuiu com essa informação). O prédio, hoje com este
nome, naquela época conhecido por muitos daquela região como Escola de Mar
e Pesca, na qual em meados dos anos 80 e 90 funcionava como escola para
escoteiros mirins, sob a coordenação de um homem conhecido por Sr. Biu (já
falecido), que era funcionário do estado e porteiro da escola. Depois de
desativada, este homem continuou com a escolinha de escoteiros. A zona sul,
que abrange os bairros do Trapiche, Prado, Ponta grossa, Vergel e Levada, não
dispunha, naquela época, de espaço físico, mesmo existindo para acolher o
projeto Abadá. As diretoras das escolas dificultavam a presença dos grupos no
local, e os porteiros também não ajudavam já que, muitas vezes queriam
namorar, e a presença dos grupos atrapalhava.
Quando conseguiam ter acesso ao local, com muito sacrifício, era por
pouco tempo, voltando a ficar na rua logo depois. Até que um dia, à procura de
um local para exercer as atividades, Morcegão conheceu Sr. Biu. Ele apresentou
a seriedade do projeto ABADÁ e lá conseguiu implementar, finalmente, um
grupo, desde o ano 2000. Quando, finalmente, eles estavam se estabilizando em
um local, com um endereço fixo, Sr. Biu veio a falecer. Então houve uma
preocupação em perder o prédio, devido à expansão do projeto pois, além da
capoeira, surgiram novos grupos, como: dança, hip hop, teatro, o boi Águia e a
quadrilha Amor Junino. Além do mais, eles trabalhavam (e ainda o fazem), dentro
da capoeira e nos demais grupos, com os meninos que vivem à margem dos
riscos, dando acesso às famílias e proporcionando mudanças na vida desses
jovens.
Com o tempo, veio o reconhecimento da seriedade do projeto: uma
empresa local (Supermercado Unicompras) prestes a inaugurar, que fica ao lado
da instituição, foi até ao Centro Cultural com o propósito de conhecer os jovens
lá cadastrados, para que pudessem ser os primeiros funcionários de empresa,
promovendo a dignidade e a integração desses jovens na vida social que, por
42
vários motivos, não tinham nem o café em casa. Assim, eles se reuniram e
criaram um CNPJ, um estatuto, uma ata e, então, nasceu o Núcleo Cultural da
Zona Sul. Inicialmente, o projeto tinha como foco vender seus objetos para retirar
suas despesas de sobrevivência como, por exemplo, os que praticavam a
capoeira, vendiam instrumentos, como: berimbau, pandeiro, atabaque. O boi,
como já é tradição, montava e vendia as pequenas amostras de boizinho e,
assim, cada um se virava para sobreviver.
Fortalecidos, eles entraram no Ministério Público com uma ação,
mostrando o projeto que, logo após, veio a aprovação de permanência no prédio.
Esse documento dá poder aos diretores do Centro Cultural de reformar o prédio.
A fachada, por exemplo, precisa de uma reforma geral – assim como todo o
prédio. Em sua declaração, Morcegão cita a ausência de políticas públicas
governamentais que abraçassem a causa para fazer um verdadeiro núcleo
cultural, com salas devidamente climatizadas e equipadas com retroprojetor,
bem iluminadas e com coberta, que falta na quadra, e uma possível construção
de outra, já que ele dispõe de terreno. André sente a falta de apoio porque tudo
precisa ser pago: energia, água, e a reforma do pátio, que fica logo após a
quadra, fazendo plantas crescerem no local, precisando cortá-las ou fazer uma
vaquinha entre os grupos, para comprarem gasolina e queimá-las. O prédio
precisa de uma reforma total, como é percebido.
Diante da regularização do documento, qualquer despesa é de
responsabilidade deles. Cada grupo paga o valor de R$ 30,00 para ajudar nas
despesas de energia e água e, todo ano, eles declaram imposto de renda,
mesmo que não haja fundos. Hoje eles almejam que alguma secretaria olhe por
eles e venha a contribuir com uma ajuda de custo aos instrutores ali existentes,
para ensinar o que já fazem, pois, esta associação não tem fundos. Com muito
sacrifício, eles conseguiram regularizar todas as pendências relacionadas à
documentação do núcleo, pagando, assim, os serviços que foram prestados –
como advogado e contador. Ele afirma que, para recolher fundos, eles
promovem bailes, bingos e concursos de dança. Os grupos vivem de suas
apresentações individuais.
Ao final da entrevista, agradeci a André por sua contribuição. Em sua fala
e seu olhar, notei um sentimento de tristeza. Creio que, durante nossa conversa,
o desabafo de sua parte tenha lhe proporcionado certo alívio. Eu tive a sensação
43
de que ele estava querendo ser ouvido, e aquele momento foi propício para tal.
Espero que, num futuro próximo, as autoridades que administram o estado de
Alagoas possam ajudá-los, e enxergar o que existe naquele local, que não é
apenas um prédio em ruínas, mas pessoas batalhadoras que tentam fazer a
diferença, usando como meio as atividades que desenvolvem, livrando muitos
jovens da marginalidade.
Figura 10: Paulo André, fundador do núcleo.
3.4 O Bairro
Ao passo que o concurso ia se aproximando, as atividades se tornavam
mais intensas – o que nos fazia ficar em atividade além do horário. Várias vezes,
acabei perdi meu horário e, quando me dava conta, já passava de meia-noite.
Não tinha certeza se minha maior preocupação era sobre como chegaria em
casa, ou como sairia do núcleo, devido à má iluminação da rua. Na mesma noite,
o líder da quadrilha avisou nas salas que todos que fazem parte do núcleo
tivessem cuidado ao sair, principalmente aos que iriam pegar ônibus (como era
meu caso). A advertência foi dada porque em frente ao núcleo havia uma
residência que sempre tinha uma das janelas aberta, e era onde residia a
namorada de um assaltante.
44
Segundo informações, ela discretamente observava e ligava para o
suspeito, avisando sobre possíveis vítimas no ponto de ônibus. Eu não hesitei
em perguntar ao líder sobre a veracidade da acusação – afinal, se tratava de um
assunto sério. Ele me respondeu que um membro da quadrilha foi assaltado por
esse suspeito, o namorado da cúmplice. Ao reagir, o membro entrou em uma
luta corporal com o assaltante que, por sorte, deixou cair o celular no ato da fuga.
Quando vítima olhou o celular, percebeu que havia uma chamada com foto da
suspeita.
Em reunião, uma comissão foi formada e, no dia seguinte, seus membros
foram à casa da suposta envolvida. Ao ser questionada sobre o fato, ala negou
friamente que tinha algum tipo de relação com o assaltante, e disse que era
apenas amiga dele, alegando não saber de sua procedência. No mesmo
instante, uma das pessoas que estava presente a desmentiu, dizendo que todos
que passam na porta do núcleo a via se relacionando com o tal sujeito. Assim, o
líder da comissão a advertiu dizendo que caso continuasse havendo assaltos na
porta do núcleo, eles iriam prestar queixa à polícia.
Na próxima semana, quando cheguei ao núcleo para retomar minha
pesquisa, percebi que havia um cartaz, no qual pude ler a frase “ESTAMOS EM
LUTO”. Todas as atividades foram interrompidas, pois um membro do grupo de
dança “Estar Dance” foi assassinado com uma facada no lado esquerdo do peito
por ter reagido a um assalto (não foi o mesmo rapaz, nem o mesmo assaltante
citado anteriormente). O crime ocorreu próximo a uma praça localizada a um
quarteirão do núcleo. Em decorrência do fato, foi colocado um tecido preto no
muro do núcleo.
Senti a necessidade de falar um pouco da realidade dos bairros da Ponta
Grossa e Vergel, na região sul da capital alagoana. O que me aumentou essa
vontade foi ver no programa televisivo “Fantástico”, que vai ao ar aos domingos
e possui grande audiência nas residências brasileiras, uma matéria exibida em
23/03/14, que tratava sobre o estado de Alagoas como sendo a capital mais
violenta do país. É lamentável que uma cidade onde a natureza reservou as
nossas praias, a tonalidade de cor que a faz uma das cidades do Nordeste mais
procurada pelo turismo, ser alvo nacional de um assunto tão vergonhoso.
Não irei me deter ao estado, mas sim ao bairro de Ponta Grossa, onde
resido, no qual está localizado o núcleo onde faço minha pesquisa de campo. O
45
aumento de crimes tem reproduzido na população sentimentos de medo e
insegurança. Ninguém mais anda tranquilo no bairro. Basta estar andando atrás
de alguém que, quem vai à frente, logo se assusta ou encosta na parede, num
sinal de rendimento. “A fala do crime promove uma reorganização simbólica de
um universo que foi perturbado tanto pelo crescimento do crime quanto por uma
série de processos que vem afetando profundamente a sociedade brasileira nas
últimas décadas. ” (CALDEIRA, 2000, p. 09-10).
Já aconteceu comigo de, ao chegar no ponto de ônibus, haver apenas
uma mulher, que logo se retirou e se distanciou, mesmo sem eu ter um perfil que
me comprometa. Foi uma sensação de desconforto. Todos os dias recebemos
notícias dos vizinhos que um corpo foi encontrado às margens da lagoa, ou que
houve uma tentativa de homicídio – sem mencionar os tiros que são escutados
na madrugada. O “boca a boca” faz com que esses assuntos sejam evidenciados
e recriados nas mais diferentes e incansáveis versões, em todos os lugares do
bairro, ao ponto de não sabermos qual a verdadeira história. Essas pessoas não
notam que esse ciclo vicioso, de ficar promovendo tais assuntos, provoca em
nós próprios moradores o sentimento de insegurança e falta de paz, alimentando
mais ainda seu medo.
A fala do crime - ou seja, todos os tipos de conversas, comentários,
narrativas, piadas, debates e brincadeiras que tem o crime e o medo
como tema- é contagiante. Quando se conta um caso, muito
provavelmente vários outros se seguem; e é raro um comentário ficar
sem resposta. A fala do crime é também fragmentada e repetitiva. Ela
surge no meio das mais variadas interações, pontuando-as, repetindo
a mesma historia ou variação da mesma historia, comumente usando
apenas alguns recursos narrativos. Apesar das repetições, as pessoas
nunca se cansam. Ao contrário, parecem compelidas a continuar
falando sobre o crime, como se as infindáveis analises de casos
pudessem ajudá-las a encontrar um meio de lidar com suas
experiências desconcertantes ou com a natureza arbitraria e inusitada
da violência. A repetição da historia, no entanto, só serve para reforçar
as sensações de perigo, insegurança e perturbação das pessoas.
Assim a fala do crime alimenta um circulo em que o medo é trabalhando
e reproduzido, e no qual a violência é a um só tempo combatida e
ampliada (CALDEIRA, 2000, p. 27).
As lojas comerciais do bairro foram engradadas. Agora, as comprar são
feitas através das grades. As pessoas estão sendo levadas a se isolar cada mais,
em que por volta de 21h30min, todos já estão fechando suas portas, para
distanciar-se daqueles que representam perigo. Esses comportamentos
provocam
separação,
proibições
e
preconceitos.
É
perceptível
uma
46
transformação na rotina diária das pessoas, resultado dessa força externa que
assola o bairro como um vírus. “A fala do crime não é feita de visões equilibradas,
mas de repetições de estereótipos [...] A fala do Crime elabora preconceitos”
(CALDEIRAS, 2000, p. 38).
Esses acontecimentos, de acordo com alguns depoimentos adquiridos
naquele núcleo, são frutos, entre outros fatores, do crescimento de favelas
existente ao redor do bairro, o que cria um estigma dos moradores que ali moram
na beira da lagoa. Ao passar por ali, observa-se muitas crianças fora da escola,
brincando nos lixos a céu aberto, correndo pelas pistas, a mercê da ociosidade.
Bem como dezenas de mulheres, que são as marisqueiras do sururu. Esse é o
cenário de toda a beira de lagoa. Os conjuntos Virgem dos Pobres I, II e III, bem
como um conjunto construído chamado de CDD (Cidade de Deus), citados com
grande índice de violência, de acordo com os meios de comunicações locais,
enfatizam isso diariamente. E, como consequência disso, declara a socióloga
Ruth Vasconcelos:
A alta frequência com que as notícias de violência são veiculadas
nos/pelos jornais alagoanos produz efeitos de naturalização da
violência e representações sociais que interferem na constituição da
própria realidade social e política do estado. (VASCONCELOS, 2005,
pp.80-81).
Mesmo com a construção de uma base comunitária a poucos metros do
núcleo, isso não inibiu a ação da violência nos arredores da comunidade. Isso
porque os policiais não ficam unicamente nas proximidades, mas também
atendem ocorrências em outras áreas, e o resultado desse deslocamento é o
desfalque de policiais naquele lugar, como afirma o chefe do Núcleo de Polícia
Comunitária, major Alexandre Costa: “Infelizmente, os policiais saem muito raio
de abrangência da base porque a demanda é imensa e faltam homens e viaturas
na Polícia Militar. Na base, eles estão apenas fazendo patrulhamento e
ocorrências e, ao invés de só atender o bairro do Vergel, vão para o Trapiche, a
Ponta Grossa e o Prado [...]”.6
6Informação
acessada no dia 21 de janeiro de 2015. Disponível no link:<gazetaweb.
globo.com/mobile/noticia. php?c=360595&e=3>.
47
As palavras do Major me remetem ao antropólogo Gilberto Velho, ao tratar
da violência:
A gritante desigualdade social, a cupidez e indiferença dos setores
dominantes alimentaram sem dúvida, o crescente ressentimento social
que hoje manifesta-se, de modo agudo, na violência da criminalidade
que atinge, sobretudo, a população pobre mais jovem, produzindo um
círculo vicioso de vítimas e carrascos (VELHO, 2004, p.7).
Não medi esforços ao encontrar a coordenadora do grupo de dança
chamada Janaína, e logo perguntei se ela poderia dar alguns minutos de sua
atenção. Primeiramente, expressei minhas condolências pela perda do membro
do grupo. Em seguida, perguntei se poderia ligar o gravador, dizendo-a que
também tinha que registrar aquele fato tristonho de sua equipe. Expliquei do que
se tratava minha presença semanalmente naquele local. Sem problema algum,
ela respondeu ao meu questionamento sobre seus sentimentos diante do
acontecido. Com muita tristeza no olhar, ela desabafa sua indignação, falando
“Horrível! Sem explicações a dor ainda não passou, ele não era apenas um
amigo do grupo de dança ele era como se fosse um irmão de verdade. Porque
fomos criados praticamente juntos desde a infância nossas famílias se
conhecem de muito tempo” (informação verbal).7
Suas palavras, naquele momento, foi a representação da voz de inúmeras
pessoas naquela comunidade diante da perda de um ente querido. Até mesmo
na sala do boi, as pessoas comentavam que a vítima (Anderson Oliveira) era
muito tranquila e educada; que ele era um menino cheio de vida: com 19 anos,
bebia como todo jovem na idade dele curtia a vida da mesma forma, inclusive no
dia do acontecimento, em que o mesmo tinha ido à praia com amigos, situação
em que estava muito feliz, tirando fotos e enviando para as redes sociais.
A partir desse dia, a rotina dos ensaios foi comprometida, que sempre
terminavam mais cedo. Percebi que todos os que frequentavam o espaço
estavam tensos. Quando o pessoal ia embora, havia uma preocupação maior, e
a dica agora era andar em grupos, segundo minha informante. Achei relevante
falar um pouco sobre o bairro, visto que esses fatores externos, como o cuidado
7Informação colhida em
21/03-uso de gravador e câmara fotográfica, por meio de entrevista
verbal. Foram utilizados para registro os equipamentos: gravador e câmera fotográfica.
48
com os horários para não deixar o espaço tarde, já que eu também pegava
ônibus para ir e vir da pesquisa, tiveram influência na produção deste trabalho.
4 O BOI EM SENA: ORGANIZAÇAO DA LIGA E O CONCURSO DE BOI
Numa das vezes em que eu estava me organizando para ir ao ensaio da
bateria, recebo uma ligação de Buzunga me convidando para acompanhá-lo
numa reunião da Liga dos Bois de Maceió. Fiquei entusiasmado e,
imediatamente, o perguntei onde poderia encontrá-lo. O local escolhido foi a
Fundação Municipal de Ação Cultural, localizada na Avenida da Paz n° 900. Lá,
provisoriamente, reúnem-se todos os diretores de Bois de Maceió. Na verdade,
ele não tem sede própria e nas documentações o endereço que consta é o da
residência de um senhor muito conhecido, que é chamado de “Zé do boi” (José
Carlos), um dos fundadores da liga.
A liga nasceu após o concurso de 2003, em que ele, junto ao Fernando
(Feu), sentiu a necessidade de organizar. Luiz de Barros, radialista, era quem
organizava o concurso de forma muito simples, que acontecia próximo a sua
residência, depois na praia Sete Coqueiros. Os prêmios eram os troféus
referentes às posições de 1°, 2° e 3° lugar apenas. Era dessa maneira que era
feito o concurso naquela época. Assim, após a modesta amostra de Bois, eles
procuraram o presidente municipal da fundação de ação cultural que, naquele
momento, era Arnaldo Camelo que, com seu apoio, cedeu tal espaço para que
os grupos existentes pudessem se juntaram e fazer a primeira assembleia, com
a ata de fundação da liga criada em 11 de setembro de 2003.
A partir desse momento, a responsabilidade sobre tudo passou a ser dos
membros. Com a criação do CNPJ, nasceu uma instituição sem fins lucrativos,
e a liga começou a lutar na conquista de ajudas de custo para os grupos que são
cadastrados e, assim, proporcionar as premiações cabíveis – mesmo diante das
limitações enfrentadas no início. Daquela época até os dias de hoje, já
aconteceram 23 festivais de concurso de boi, desde 1991. Estas informações
foram dadas por uma das figuras mais representativas no assunto, que é Zé do
49
boi (José Carlos). Ele não abre mão de ser chamado assim. Ao sermos
apresentados, antes da reunião, quando fui chamá-lo pelo nome de batismo, ele
retrucou “Oxe! Aí você quer arrumar um problema, o que é isso? Não (ele disse,
balançando a cabeça) ”8.
Eu sorri e, a partir daí nossa conversa fluiu naturalmente. Quando
perguntei sobre a história do surgimento do Boi de carnaval em Maceió, ele
contou a mesma história que Feu: sobre o Sr. Conhecido por Baleado, no bairro
de Ponta da Terra, que hoje é Pajuçara (p.26). Disse, também, que isso se deu
através das brincadeiras de rua, relembrando sua infância no Reginaldo, onde
fugia de casa em busca do boi Lá Ursa. Esses são personagens que, ao passar
dos anos, foram perdendo a visibilidade para o próprio boi. “Antes ninguém dava
valor porque era uma brincadeira de menino de periferia”,9 desabafa.
Em sua declaração, ele diz que estes meninos, vistos muitas vezes por
“maloqueiros” (expressão que ele mesmo usa), foram crianças iguais a ele que,
mesmo vivendo numa área de risco em contato com drogas e crimes, não
seguiram esse caminho. Confessa, ainda, sem citar nomes, que alguns rapazes
presentes na liga hoje o agradecem por não estarem na criminalidade, devido
sua influência – fato com o qual ele se emociona. Ele cita que, ao se encantar
com aquele universo, prometia a si mesmo que um dia iria fazer um Boi.
E assim o fez. Ele explica que, junto a dois colegas, se desenvolveu o
festejo que disseminou pelos bairros pobres da capital, principalmente na parte
baixa da cidade, onde existe uma maior quantidade. Hoje, essa é uma das mais
esperadas atrações – seja no carnaval ou depois. Quanto à violência existente
em alguns anos no concurso no momento do resultado, essa foi dissipada. A liga
teve grande participação em acabar com essas rivalidades, pois quando os
grupos foram punidos em um ano, houve a possibilidade de não acontecer o
concurso. Com isso, eles aprenderam e, hoje, o resultado só é dado dias após,
sem problema algum. Hoje, em seu conhecimento, há uma disputa sadia entre
8Entrevista concedida em meados de março de 2014, na residência do entrevistado, localizada
na Ladeira Onze do Barrozo, 102, bairro do Reginaldo. Foram utilizados como equipamentos de
registro: gravador e câmera fotográfica.
9Entrevista concedida em meados de março de 2014, na residência do entrevistado, localizada
na Ladeira Onze do Barrozo, 102, bairro do Reginaldo. Foram utilizados como equipamentos de
registro: gravador e câmera fotográfica.
50
os grupos. Como exemplo, ele cita que “Cão de Raça e Vingador eles ‘brigam’
mais um não vivem um sem o outro, faz parte né? Afinal todos querem ganhar”.10
No concurso de 2014, participaram da disputa 18 Bois, divididos em dois
grupos: 1- o de acesso, que se apresentou num dia de sexta-feira, composto
pelos Bois Guerreiro alagoano, Pura raça, Axé, Águia de Ouro, Vingador, Bumbá
Alagoano, Diamante, Amizade e Minotauro; 2- o de grupo especial, que se
apresentou no sábado, composto pelos Bois Águia, Tigre, Trovão, Imperador,
Anaconda, Safari, Cão de Raça, Dragão, Cobra Negra. Além desses, existem
outros grupos que estão cadastrados, como o Boi Estrelão e o Fênix, que estão
desativados, mas os seus representantes continuam indo às reuniões da liga e
participando das decisões, podendo assim, a qualquer momento, voltar à ativa.
Ao todo são 26 grupos espalhados nos bairros da capital: 03 na Jatiúca,
Pura Raça, Axé e Cobra Negra. 09 na Pajuçara Vingador, Bumbá Alagoano,
Anaconda, Águia de ouro, Tigre, Dragão, Jaguar, Serpente e Raça Canina. 06
no Vergel: Águia, Trovão, Fênix, Minotauro, Diamante e Amizade. 06 no
Jacintinho: Guerreiro Alagoano, Safári, Cão de Raça, Gavião, Falcão e Estrelão.
E 01 Santo Eduardo, apenas o Imperador. Quando comparada tal informação,
com a pesquisa dos antropólogos Bruno César Cavalcanti e Rachel Rocha de
Almeida Barros, que publicaram em 2007 um mapeamento das expressões
culturais “afro” na capital alagoana. Onde neste estudo, dentre uma variedade
de práticas culturais, está o Bumba meu boi, hoje transformado em Boi de
carnaval como uma das manifestações da presença negra em Maceió. Naquele
momento, eles utilizaram as fichas cadastrais da liga para saberem quantos
grupos existiam, e assim acompanharam 66 grupos, dos quais 28% eram do
Jacintinho, 20% da Jatiúca, 20% da Pajuçara e 17% Ponta da Terra. A pesquisa
ainda mostrou que 70% dos grupos localizados foram criados entre 1996 e 2006.
Percebe-se a diminuição dos Bois ao passar do tempo, ele justifica a
despesa dos grupos rumo ao concurso, que a cada ano se intensifica. Ao falar
em despesas, não pude perder a oportunidade de perguntar sobre os custos na
promoção do evento. A Prefeitura Municipal de Maceió, durante a gestão em que
a pesquisa foi feita, demonstrou um apoio nunca visto antes na cultura local,
10Entrevista concedida em meados de março de 2014, na residência do entrevistado, localizada
na Ladeira Onze do Barrozo, 102, bairro do Reginaldo. Foram utilizados como equipamentos de
registro: gravador e câmera fotográfica.
51
informou Zé do boi – ao começar pelo carnaval, que veio com o resgate dos
antigos blocos de rua onde todos eles receberam uma ajuda de custo.
Não foi diferente com o concurso do Boi. Segundo ele, o projeto foi aceito
no valor de R$ 121.000,00. Desse valor, R$ 21.000,00 foi gasto na produção. O
restante foi dividido entre os 20 grupos que participaram do evento. Contudo,
havia uma dívida do ano anterior da liga, o que levou aos grupos ligados a ela
decidirem que cada um deles doaram um valor de comum acordo. Junto com os
tributos, restaram R$ 3.800,00 para as equipes cadastradas na liga. Pouco a
pouco, os demais foram chegando e concentrando-se na entrada do prédio, até
a chegada do presidente da liga – Joel Ferreira – para direcionar a reunião. Ela
se passou no auditório, onde estavam presentes 25 rapazes (é um mundo
masculino, que na entrada a conversa que permeava era sobre brigas, derrotas
nos concursos anteriores, desafetos e discussões que ocorreram na última
reunião). Eles estavam preocupados sobre ficar sem a ajuda de custo do ano de
2014. Outros relembravam antigas brigas com tiros entre as torcidas dos
respectivos Bois, que prejudicaram a imagem do concurso e da cultura do Boi.
Na pauta da reunião, teve a entrega do regulamento para o concurso de
2014 e a lista de presença foi passada e assinada pelos presentes. Foram
cobradas fichas de cadastro, juntamente à sinopse, ou seja: o tema, como o Boi
estará vindo, quais as cores e homenagem, a letra da música e inscrição do Boi.
O regulamento foi feito em dois dias, em assembleia com alguns membros
presentes e, como foi dito pelo presidente da liga, a quem não se fez presente
no dia da elaboração do documento, foi negado o direito de questionamentos.
Foi uma reunião tumultuada, com brincadeiras inapropriadas para aquele
momento, em que assuntos desnecessários eram abordados. Segundo as
conversas que eu, discretamente, escutava, os presentes estavam interessados
eram sobre o apoio financeiro da prefeitura. E para aqueles que aguardavam
ansiosos esse momento, a questão foi adiada para o próximo encontro,
causando discussões entre eles. Quando a reunião chegou ao fim, sem acordo
algum, insatisfações surgiram. Foi quando Buzunga me disse que eu não me
assustasse, pois, as reuniões sempre foram dessa forma.
52
Figura 11: Reunião da Liga de bois.
No final, saindo do auditório, perguntei ao Zé do boi o porquê de não haver
presença feminina no Boi, bem como o porquê dos nomes dos grupos sempre
forem dessa forma. E ele me respondeu:
“Pois é (risos) talvez seja porque as meninas achem que o boi é coisa
de menino, mais isso não tem nada a ver, o boi está aberto para todo
mundo inclusive já houve um grupo feminino no bairro do jacintinho
chamado “raça canina” mais não vingou. Porém elas ficam envolvidas
na confecção de adereços, nas coreografias, no vocal elas estão
presentes sim, sendo de outra maneira. Em relação aos nomes é
engraçado... Os rapazes sempre faziam homenagens, eles tinham
essa necessidade de batizar o boi com algum nome; o boi Baleado, por
exemplo, chamava-se assim devido seu antigo dono que sofreu um
atentado, o Gato Guerreiro devido a um desenho animado, o Scorpion
devido ao grupo americano que fazia sucesso na época e assim por
diante”.
Ao termino da conversa, o agradeci pelas informações e fui embora. No
percurso, fiquei pensando que, desde a chegada dos primeiros membros
coligados, o assunto mais importante para eles se tratava de valores financeiros.
Percebi a insatisfação justificada pelos líderes em relação à omissão do
presidente Joel, em esconder tal informação, faltando 08 dias para o concurso.
Na verdade, eu observei, durante as visitas, que este era o assunto mais
importante. E para validar minhas impressões, quando foi exposto o assunto
mais esperado, muitos membros não esperaram nem o sorteio na sequência das
53
apresentações do dia 11 e 12/04/2014 dos grupos de Bois, que foram
distribuídos da seguinte maneira, com seus respectivos temas:
1º dia: 1 - Boi Faraó, Nelson Mandela; 2 - Boi Águia de Ouro, Airton Sena;
3 - Boi Axé, O Sofrimento sertanejo; 4 - Boi Amizade, Salvação para todos; 5 Boi Vingador, Corte real; 6 - Boi Bumbá Alagoano, O Mundo do faz de contas; 7
- Boi Minotauro, Jogo da vida; 8 - Boi Olodum, Mitologia grega.
2º dia: 1 - Boi Águia, Um gol pela paz; 2 - Boi Safari, Abençoadas são as
mãos que fazem o sonho acontecer; 3 - Boi Tigre, Inglaterra; 4 - Boi Cão de
Raça, Mulher, mulher, mulher; 5 – Trovão, O mundo encantado da Disney sonho
impossível; 6 - Boi Anaconda, O velho guerreiro Chacrinha; 7 - Boi Dragão, Entre
flores e espinhos calvário da seca e a volta das chuvas o boi Dragão supera
épocas.
4.1 O Concurso
O 22º Concurso de Bumba meu boi foi realizado nos dias 11 e 12 de Abril
de 2014, na praça multi-eventos, no bairro de Pajuçara. Este evento foi uma
realização da Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC). Para tal, o
município forneceu uma arena bem estruturada, com som, telão e áreas Vips
com 40 lugares, para as figuras ilustres, como o prefeito, que se fez presente na
abertura e falou que “O BumbaMeuBoi tem uma força muito grande, em vários
bairros de Maceió e a prefeitura segue apoiando esse tipo de inciativa que é
muito importante, pois é nossa cultura, nossa raiz. É muito importante que o
maceioense e o visitante venham conhecer essa expressão cultural. Quem vem
para a arena montada na Multieventos, fica impressionado com a quantidade de
gente que lota as arquibancadas”.11
No palco principal, havia lugar reservado para o júri. Vale ressaltar que,
durante as reuniões na liga, as identidades dos jurados foram mantidas em sigilo
absoluto, para evitar algum tipo de contato. Cada grupo teve o tempo de 30
minutos de apresentação, e a classificação foi feita a partir dos seguintes
11Depoimento
do Prefeito da cidade de Maceió durante o evento. Disponível
em:<www.maceio.al.gov.br/.../festival-de-bumba-meu-boi>. Acesso em: 23/01/2015.
54
quesitos: a) evolução do vaqueiro; b) evolução do boi; c) bateria; d) conjunto; e)
beleza do boi; f) fantasia; e g) entoada.
Havia arquibancadas nas laterais e, fora da arena, quatro enormes
tendas, com intuito de proteger os grupos de possíveis chuvas. Existiam
câmaras, policiamento, corpo de bombeiro e a presença da empresa
responsável pela limpeza urbana. Esse evento gerou dezenas de empregos
indiretos, com a presença de barracas ao redor do evento vendendo várias
opções de comidas e bebidas, além de várias cabines de W.C instaladas no
local. O fluxo de gente era intenso no primeiro dia dos grupos de acesso. Nesse
ano, o concurso homenageou Everaldo Lins, o mestre Vevéu, falecido em março.
Ele é um dos ícones na cultura do Boi. Declarado patrimônio vivo de Alagoas,
fez várias canções, montava e decorava o Boi Paraná, e também acompanhou
todas as fases de transição dos Bois, que foi do chitão ao luxo.
O primeiro dia de apresentação não deixou a desejar: as torcidas estavam
eufóricas e as crianças vidradas no Boi. O público variava de idade, mas a
presença juvenil prevalecia à dos adultos, além de turistas. Homens, mulheres e
crianças vão se aglomerando em meio às torcidas organizadas com suas
camisas personalizadas e faixas dos respectivos Bois, o que me fez lembrar dos
times de futebol. Houve muita correria o primeiro dia do concurso, cujas as
atrações eram do grupo de acesso (B), que lutaram entre si. Apenas um
conseguiu subir para o grupo principal (A). No segundo dia, um desses Bois foi
rebaixado. Todos estavam tensos, principalmente o grupo que fará a abertura do
concurso. Na concentração, vários grupos iam chegando com seus cenários
exorbitantes, o que me fez lembrar as escolas de samba com seus painéis,
figurinos caprichados, em vários tons de cores, baterias personalizadas, com
coreografias e encenações. Quanto mais o grupo aumenta, maiores as
despesas, tornando cada dia mais difícil manter os custos para apresentação de
um elemento que, outrora só precisava de improviso e disposição.
O grupo de minha pesquisa, dentro desse novo contexto, se esforça para
não fugir desse padrão com sua indumentária grafitada e adornos, brilhos,
tecidos, fitas, acabamentos diferenciados e coloridos, adaptados ao tema.
Mesmo assim, após esses meses de trabalho, quando fui à sede no dia da
apresentação para observar como estavam as expectativas dos últimos
55
detalhes, encontrei um clima tenso, uma correria: o cenário não estava pronto e
o Boi ainda precisava de alguns ajustes.
Eles estavam visivelmente cansados, pois beberam noite anterior e foram
para sede pensando que se eles tivessem trabalhado durante a madrugada,
daria tempo de terminarem o que não fizeram em meses, o que era fruto de
trabalho acumulado e descompromisso, aos meus olhos. Logo pensei no
comprometimento físico que aquele esforço poderia causar na apresentação,
mas mantive distante, apenas acompanhando os últimos momentos, a tanto
tempo esperado – afinal, eram eles que iriam fazer a abertura no segundo dia de
concurso.
Às 18:00hs chegou o caminhão baú para levar o Boi e os instrumentos da
bateria, bem como o ônibus cedido por um dos componentes para conduzir os
demais membros, incluindo: dançarinas, membros da bateria, familiares,
diretores e eu, que os acompanhei. Para minha surpresa, o vaqueiro Buzunga
estava colando alguns detalhes na roupa do ano passado, pois não havia sido
feita uma nova para o ano de 2014. Eu fiquei surpreso, visto que ele teve tempo
suficiente para providenciar tudo.
Dessa forma, o grupo se apresentou: o vocalista fez seu papel mas,
durante a apresentação, a roupa do vaqueiro rasgou e o cenário começou a
desmontar. Como eu estive na noite anterior e vi as apresentações dos grupos,
percebi o quanto este grupo deixou a desejar. A consequência disso foi a queda
dele para o grupo de acesso. Na minha inexperiência, eu já esperava esse
resultado, que foi recebido com muito choro e lamentações entre eles. O
resultado final dos grupos ganhadores só foi dado quatro dias depois do dia das
apresentações, para evitar conflitos entre as torcidas. Por precaução, a soma
das notas foi acompanhada pelos líderes, junto à liga, no Auditório da Academia
de Polícia Militar, que fica no bairro do Trapiche. O grupo vencedor do grupo A
de 2014 foi Boi Dragão, e do grupo B, Boi Vingador. A entrega das premiações
foi feita pelo Prefeito em exercício, Rui Palmeira.
A mudança do tradicional para o estilizado dividiu o caminho dessa cultura
nos últimos anos. Contudo, eu não vi, em nenhum momento, durante os dois
dias do evento, aquele casal de negros que relembram a antiga história da morte
e ressureição do Boi. Isso me fez entender que essa preparação anual para a
competição no concurso ocasionou a perda do Boi de rua e seus personagens.
56
Durante o festival, na faixa de apresentação do evento, estava escrito “22°
Festival de Bumba meu boi”. Nem a própria liga, talvez, tenha se dado conta de
que o concurso oferecido contradiz aos antigos moldes culturais da cultura
popular do Bumba meu boi pesquisado pelo folclorista Théo Brandão (1962). E,
quando se pensa na questão espacial, surge outra problemática: porque eles
não se apresentam em junho, no Natal ou Carnaval, mas sim no mês de abril e,
como já aconteceu, em maio.
Isso leva a um debate sobre essa nova forma contemporânea de recriação
cultural, estética e nominal, após as idas ao museu Théo Brandão e, por fim, a
este concurso, cheguei à lamentável conclusão que, de acordo com as
pesquisas da museóloga Carmém Lúcia Dantas, “hoje em Alagoas não existe a
cultura do Bumba meu boi, o último sobrevivente faleceu conhecido por Mestre
Eurico, que liderava o auto em Maragogi” (DANTAS, 2013, p. 137-143).
Se eles não são Bumba meu boi, quanto à descaracterização, nem Boi de
carnaval, devido à data, o que eles realmente são? Keyler Simões, produtor
cultural, afirma, em entrevista, que “Os grupos alagoanos passam por um
momento de crise de identidade” (Revista Graciliano ano VII/nº20/ 2014, P.99).
Há quem justifique o motivo pelo qual hoje os grupos não apresentarem
no carnaval, que seria o fato de muitos membros da bateria estarem trabalhando
em bandas carnavalescas nesse período, ganhando um dinheiro extra. Então,
em assembleia, a data também foi alterada, entendida entre eles como fator
relevante ao presenciar a arena lotada, não importando o momento anual.
Contudo, Luiz de Barros, fundador do concurso dos Bois aqui em Maceió
discorda:
A meu ver, a alegria do bumbameuboi se realiza na época do carnaval,
na semana carnavalesca. Saindo daí já perde essa característica.
Podem até ir muitos torcedores e espectadores, mas eu acharia melhor
se fosse no carnaval (REVISTA GRACILIANO ANO VII, 2014, p. 100).
Aproveitando esse momento, questionei Feu, um dos fundadores da liga dos
Bois e do Boi Águia, sobre sua opinião em relação às mudanças (tanto em
relação ao concurso, quanto à aparência). Ele diz que
“A cultura tem que ser dinâmica, inovadora, pois é isso que move
multidões e não a tradicional do guerreiro, pastoril, reisado, caboclinho,
chegança. Não vou dizer a você que essa forma esta está morta, mais
eu vejo uma parada, ela estacionou. Se você, por exemplo, botar um
57
grupo de guerreiro na praça se tiver cem pessoas é muito. E do outro
lado tiver um telão com o filme a lagoa azul que nunca passou na
televisão (risos) garanto a você que irá mais gente assistir ao filme ao
invés do guerreiro ou do pastoril. Então você pega o concurso do
Bumba meu boi numa arena que cabe 7.000 mil pessoas, onde no
primeiro dia você reúne 9.000 mil, me faz acreditar que a cultura tem
que realmente renovar. Você tem que acompanhar o tempo, por
exemplo, a televisão o computador são a janela do mundo, se você não
acompanhar a tecnologia ficará ultrapassado; repare um grupo de
pastoril, se for a outro lugar e ver outro grupo será do mesmo jeito. No
festival do boi é diferente, há criatividade, os caras são criativos a cada
ano, assim também são as quadrilhas juninas, o coco de roda, esses
grupos procuram fazer coisas diferentes isso sim é cultura
contemporânea que atrai os jovens e o público para acompanhar o
novo”.12
Dentro dessa perspectiva, essa nova geração procura definir um novo
conceito de cultura em relação ao personagem do Boi, que se diferencia
completamente do tradicional. Hoje, essa nova forma de cultura popular,
segundo Lady Selma Ferreira Albernaz (2010),
São chamados parafolclóricos ou “alternativos” grupos de dança que
se baseia nos passos, nas coreografias, nas indumentárias, nos
personagens e nas lendas do bumba boi maranhense de todos os
sotaques. O conjunto cênico elaborado por estes grupos mantém e,
simultaneamente, modifica os elementos encontrados no bumba boi
tradicional (ALBERNAZ, 2010, p.82).
Ao observar o concurso, em especial o grupo Águia durante a pesquisa
de campo, certifico que ele também aderiu a essa nova estética. Com isto, todos
os Bois tendem vir cada vez mais luxuosos, contando com grande investimento
financeiro:
Os diferentes riscos dos “alternativos” para a comunidade dos grupos
tradicionais são sintetizados como mudanças, exemplificadas: na
indumentária padronizada, ou no excesso de brilho que imitaria o
carnaval carioca e o boi de Parintins; na fusão musical desordenada;”
no oportunismo” de alguns grupos não comprometidos com os valores
da cultura popular, mas com as possibilidades de ganhos financeiros.
Frente a elas, o bumbameuboi fica em permanente ameaça de perder
autenticidade e tradição (ALBERNAZ, 2010, p.84-85).
Essa mudança pode ser a razão pela qual Glaydson, Feu e Zé do boi
venham a concordar que as despesas em manter um Boi seriam a causa dos
12 Informação obtida, por meio de entrevista verbal, cedida em 18/02/14 na sede do boi Águia
durante o ensaio do grupo.
58
grupos estarem diminuindo cada vez mais. O fato é que, segundo os experientes,
para um Boi fazer uma boa apresentação, esteticamente falando, é necessário
gastar algo em torno de R$ 6.000,00 e R$ 15.000,00. Todas essas questões
geram discussões e chegam a preocupar alguns pesquisadores, como o
Professor e Antropólogo Bruno César Cavalcante do Instituto de Ciências
Sociais – UFAL, em entrevista à revista Graciliano, em 2014. Ao ser questionado
sobre a nova padronização, ele se preocupa com a perda da originalidade e as
consequências que essa acarreta ao próprio boi:
Vejo o risco de se tornarem cativos de uma estrutura financeira externa
as agremiações de bairro, o que acaba tendo consequências negativas
para o futuro dessa manifestação... O nosso boi (falo do boi mesmo,
de carcaça) é o maior e mais belo boi do Brasil, Barroco incrivelmente
colorido, mais está se perdendo na dispersão de tantos elementos que
lhe retiram essa centralidade, cenários excessivos, enredos de louvor
personalista a figuras da sociedade, bailarinas que mais parecem
saídas de um programa dominical de auditório de televisão e outras
inovações (CAVALCANTI, 2014, p. 15).
Carmem Lúcia Dantas(2014) define esses novos tempos como “reflexo do
dinamismo natural das manifestações populares” e enfatiza que essa mobilidade
contribui para sua permanência, quando diz “Eu sou da corrente que aceita as
modificações desde que elas sejam aceitas pelo povo. Esse concurso tem levado
muita gente, tem torcida e uma disputa muito acirrada” (DANTAS, 2014 p. 100).
As transformações que acompanhei durante as atrações do concurso
geram discussões que, a gosto popular, são justificadas pelo encanto que os
Bois provocam nas pessoas, bastando olhá-las para perceber, mesmo chocando
com os moldes da tradição. Penso que estes novos grupos não ficam
preocupados com esse resgate, e que eles se preocupam em agradar a massa
através dessa valorização estética que disseminou em todo lugar, baseado em
altos custos e inspirados nos Bois maranhenses. O que mostra que os Bumba
meu boi ou Bois de carnaval não querem ser vistos como ultrapassados, como
declarou Mestre Vevéu na revista Graciliano (2014) “A gente não pode ficar pra
trás né? Se tá todo mundo fazendo assim, quem vai querer ver um boi de chitão”
(BARBOSA, 2014, p.99). Isso é fato: durante os dois dias de concurso, pude
concluir isso. Mas o preço que eles pagam talvez fosse caro, quando se pensa
na fala do Fernando, ao declarar que “a cultura deve ser dinâmica” (ver p. 47).
No entanto, eles contribuem involuntariamente para a eliminação definitiva do
59
original Bumba meu boi, com todas essas adições de temas, danças,
encenações nos festivais. Ainda entre eles mesmos há uma seleção natural de
sobrevivência. Os novos grupos, quando não conseguem ajuda, como o Boi
Águia, desativam as atividades por não terem condições de custear as
apresentações.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho foi fruto de uma pesquisa de campo: uma experiência
nova e cheia de dúvidas, bem como uma lembrança forte que tive ao iniciar meu
trabalho de conclusão de curso (TCC) que foi, à primeira visita, o meu objeto de
pesquisa. O estranhamento que senti ao ultrapassar aquele portão diante de
personagens totalmente fora dos padrões convencionais, ao conviver com
aquele grupo e participando de algumas atividades foi, para mim, um grande
desafio. Felizmente, foi conquistado ao ver cada componente cheio de
informações e experiências a serem compartilhadas, me faziam lembrar das
palavras da antropóloga Teresa Caldeira (1981), que dizia que “são dados, ou
seja, a matéria bruta a ser trabalhada” (CALDEIRA, 1981, p. 351).
Com um olhar diferenciado, esse trabalho me faz enxergar os dilemas que
envolvem a cultura do Bumba meu boi na figura do Boi Águia e, acompanhar
todos os esforços de seus componentes, me fez ter por eles admiração por sua
paixão na forma como cada um que eu entrevistei demonstrou ao falar e
trabalhar pelo grupo. Conhecer o que existia por traz daqueles muros, numa sala
apertada, durante os ensaios, a vibrante bateria que atraia dezenas de curiosos
naquele local (mesmo sem recursos) me fez enxergar além do senso comum e
refletir sobre a posição de órgãos como a mídia, que tem um papel social de
informar, mas omitem os bastidores do mundo dos Bois de Maceió, reproduzindo
todos os anos apenas o dia do concurso.
O Boi que hoje temos possui um grande rendimento humano, se
devidamente trabalhado com o apoio do governo. A zona sul, durante o período
que antecede o concurso, torna-se um celeiro produtivo de Bois. Eu pude
60
observar o quanto a comunidade pode fazer por esses jovens, que cresceram
fascinados por esse personagem secular, mas por outras atividades também
desenvolvidas dentro e fora do núcleo. A partir dessas experiências, eles migram
para outros grupos. Os membros do Boi são os mesmos que tocam na escola
de samba Girassol e na quadrilha Forró Baião, e é um mundo democrático, já
que não existe limite de idade. Eles interagem em família, como no caso do
menino Rian, que é acompanhado pelos pais, bem como as esposas dos
membros que, além de decorar, costuram, dançam ou torcem.
Estar ali na sede do Boi Águia me fez sentir que aquele ambiente vai muito
além de uma diversão: eles promovem valores, como trabalho coletivo,
liderança, disciplina, fortalecem amizades e repassam para futuras gerações o
que ontem lhe passaram. Eles contribuem na formação de cidadania,
despercebidamente resgatam jovens que se sentem excluídos socialmente e,
por um momento, lá dentro da arena, são vistos e respeitados como cidadãos,
afastando-se do mundo das drogas, do tráfico e de crimes, como me falou o
próprio Zé do boi (ver página 45). Talvez o poder público ainda não tenha se
dado conta disso e, por enquanto, o Bumba meu boi seja observado apenas
como elemento de competição no festival que ocorre anualmente.
Os participantes são pessoas simples que abriram mão, duas vezes por
semana, de estarem longe de grupos de riscos. Isso só foi possível de ser
percebido quando me dispus a ir ao encontro do meu objeto de pesquisa,
procurando colher registros, fotografias, entrevistas e áudios, que foram
construindo pouco a pouco esse trabalho inacabado, e que merece ser
continuado por outros admiradores do assunto em questão.
A cultura do Boi tem um poder unificador: sendo seus participantes
moradores da favela ou não, de qualquer raça, religião, sexo, orientação sexual;
todos se respeitavam e trabalhavam em prol do Boi. Durante o período de
carnaval, ao andar pelas ruas do bairro e ver crianças na sua inocência com
latas, baldes, panelas e um pedaço de ripa que se transforma em baquetas, pude
reviver as palavras dos que hoje estão à frente do Boi Águia, quando falavam
que, desde muito cedo, eram fascinados pela brincadeira do Boi. Isso me leva a
crer que estes, que vi brincando pelas ruas, serão os bateristas do Boi amanhã.
Por fim, espero ter contribuído, nem que seja em uma gota, para as
Ciências Sociais. Encontrar em Théo Brandão (1962) as respostas que me
61
incomodavam foi de grande satisfação, bem como compartilhar de seus
materiais deixados ao uso coletivo. Também foi em Abelardo Duarte (2010), com
seus estudos sobre a influência dos engenhos, que levantou dados sobre a
cultura negra, muito me ajudaram a entender os caminhos em que se
encontraram e que transformaram Maceió nessa múltipla opção de crenças e
costumes que sobreviveram até hoje. O que um dia foi visto como “um agregado
de disparara-te” (apud CASCUDO, 1956), nas palavras do Padre Carapuceiro
(apud CASCUDO, 1956), ganhou força através do seu bailado e tornou-se
expressão popular. Essa abordagem estética merece um novo olhar diante da
mudança do Bumba meu boi maceioense e convida os produtores de Boi, assim
como este trabalho, a estabelecer uma releitura da criação, entretenimento e
descaracterização do Boi.
62
REFERÊNCIAS
ALBERNAZ, Lady Selma Ferreira. Estética e Disputas em Torno do Bumbameu-boi (São Luís, do Maranhão), Recife, v. 21, p.77-97, 2010.
BRANDÃO, Théo. Introdução. In: BRANDÃO, Théo. Folguedos natalinos. 2.
ed. Maceió: Departamento de Assuntos Culturais/ Conselho Federal de Cultura,
1973. Cap. 1. p. 11-29.
BRANDÃO, Théo. Um auto popular brasileiro nas Alagoas. Separata do:
Boletim Nº 10 do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1962, Recife.
Recife: Imprensa Oficial, 1963. 48p.
BEZZERRA, Jamylle e COSTA, Pollyanne. Sem estrutura, polícia comunitária
não
reduz
violência
em
Maceió.Disponível
em:
<http://www.gazetaweb.globo.com/mobile/noticia.
php?c=360595&e=3>.
Acesso em: 21 jan. 2015.
BARBOSA, Rafhael. Dança da vida.Graciliano: carne de carnaval, Maceió, n.
20, p.96-103, 2014.
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros. 2000. Tese (Doutorado) Curso de Antropologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000.p 09-38.
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Uma Incursão Pelo Lado "Não- Respeitável"
da Pesquisa de Campo. Apresentação no IV Encontro anual da Associação
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, Grupo de trabalho
"Cultura Popular e Ideologia Política", Rio de Janeiro, 29 a 31 de Outubro de
1980.p.332-354.
CASCUDO, Luís da Câmara. Bumba-meu-boi. In: CASCUDO, Luís da
Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro: INL/MEC,
1962. p. 143.
CASCUDO, Luís da Câmara. VIII - Bumba meu boi. In: CASCUDO, Luís da
Câmara. Tradições populares da pecuária nordestina: Documentário da vida
rural. Rio de
Janeiro: Ministério da Agricultura, 1956. Cap. 8. p.50-52.
CAVALCANTI, Bruno César. Boi tarja preta? Graciliano: brincadeira popular,
Maceió, n. 10, p.62-65, 2011.
CAVALCANTI, Bruno César. Entrevista: Muitos Carnavais. Graciliano: carne de
carnaval, Maceió, n. 20, p.62-65, 2014.
63
CAVALCANTI, Bruno César, Rachel Rocha de Almeida (Orgs.). Kulé-Kulé:
Afroatitudes. Maceió: EDUFAL, 2007.p.67.
DANTAS, Cármen Lúcia. Bumba-meu-boi: No rastro da lenda. Alagoas
Popular: Folguedos e danças de nossa gente, Maceió, v. 00, n. 7, p.137-143,
12 nov. 2013. Semanal.
DUARTE, Abelardo. Folclore Negro das Alagoas-Áreas da cana-de-açúcar
pesquisa e interpretação. Maceió: Edufal, 2010.
LONDRES, Cecília. Cultura e saber do povo: uma perspectiva antropológica.
Revista Tempo Brasileiro. Patrimônio Imaterial, Rio de Janeiro, n. 147, p.6978, 2001.
MATTA, Roberto Da. O Ofício do Etnólogo ou como ter "antropological blues".
In: SIMPÓSIO SOBRE TRABALHO-DE-CAMPO, 1., 1974, Brasília. O Ofício do
Etnólogo ou como ter "antropological blues". Rio de Janeiro: Zahar,
1978.p.23-35.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. In: ORTIZ, Renato.
Cultura brasileira e identidade nacional. 5. Ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
P. 37-44.
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O bumba-meu-boi, manifestação do teatro
popular do Brasil. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n.
2,1967 p.87-97.
RAMOS, Arthur. A Aculturação Negra no Brasil. In: RAMOS, Arthur. A
Aculturação Negra no Brasil. Rio de Janeiro: Brasiliana, 1942. p. 6-45. (5ª
edição).
RAMOS, Arthur. Folclore negro do Brasil: demopsicologia e psicanálise. 2. ed.
Rio de Janeiro: Liv. Ed. da Casa do Estudante do Brasil, [1954]. Cap. IVp.95-97,
Cap.III p.69.
ROCHA, José Maria Tenório. Boi de Carnaval. In: ROCHA, José Maria
Tenório. Folguedos Carnavalescos de Alagoas. Maceió: Senec/mec, 1978. p.
123-126.
SALEM, Tania. Entrevistando Famílias: Notas sobre o Trabalho de campo.
In:Edson de Oliveira Nunes: A aventura Sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1978
p.60.
VASCONCELOS, Ruth. O poder e a cultura de violência em Alagoas. Maceió:
EDUFAL, 2005.p.80-81.
VELHO, Gilberto.
contemporâneas.
Violência
e
conflitos nas
Disponível
grandes
cidades
em:
64
<www.ces.uc.pt/lab2004/inscricao/pdfs/painel6/GilbertoVelho.pdf>.Acesso em:
04 de março de 2015.p.07.
