O filé como prática cultural: as perspectivas entre o saber-fazer e a comercialização no Pontal da Barra – Maceió-AL

Discente: Vanise Ferreira Costa Orientador: Bruno César Cavalcanti.

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

VANISE FERREIRA COSTA

O FILÉ COMO PRÁTICA CULTURAL
As perspectivas entre o saber-fazer e a comercialização
no Pontal da Barra - Maceió/AL

MACEIÓ-AL
2016

VANISE FERREIRA COSTA

O FILÉ COMO PRÁTICA CULTURAL
As perspectivas entre o saber-fazer e a comercialização
no Pontal da Barra - Maceió/AL

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao
Instituto de Ciências Sociais da Universidade
Federal de Alagoas como exigência parcial e
obrigatório para obtenção do grau de Licenciatura
em Ciências Sociais.
Orientador: Ms. Bruno César Cavalcanti.

MACEIÓ-AL
2016

VANISE FERREIRA COSTA

O FILÉ COMO PRÁTICA CULTURAL
As perspectivas entre o saber-fazer e a comercialização no Pontal
da Barra – Maceió/AL

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao
Instituto de Ciências Sociais da Universidade
Federal de Alagoas como exigência parcial e
obrigatório para obtenção do grau de Licenciatura
em Ciências Sociais.

Aprovado em _____/_____________/__________

COMISSÃO EXAMINADORA

__________________________________________
Profº. Bruno César Cavalcanti
Orientador

___________________________________________
Profª. Jordânia de Araújo Souza
Examinadora

____________________________________________
Profª. Janecléia Pereira Rogério
Examinadora

AGRADECIMENTO

Agradeço a Deus, em qualquer de suas representações.
A meu orientador Bruno César Cavalcanti por aceitar me orientar, por sua
disposição, compromisso, ensinamentos e também pela paciência nas incansáveis
revisões demonstrando toda sua competência.
As minhas amigas Fátima, Cristiane e meu amigo Maike pela força nos momentos
finais e problemáticos deste trabalho, que tanto me ajudaram nas dificuldades e
lacunas presentes neste estudo.
A Solange, Janaína e Aroldo que mesmo distantes, sempre estiveram presentes
com suas amizades.
A minha mãe, Erundina e aos meus familiares que tanto acreditaram em mim.
Fazendo-me acreditar que à distância não é nada, quando se tem amor e carinho.
Aos meus irmãos, José, Vanessa, Davi, Any, em especial Júnior e Val pela
paciência, apoio e incontáveis horas em ligações telefônicas (risos).
Aos professores de antropologia Nádia, Fernanda, Silvia e Rachel pela fonte de
inspiração, dando-me gosto pela antropologia.
A todos os professores do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de
Alagoas, em especial: Evelina, Júlio Cesar, Evaldo, Anabuki, Arim e também aqueles
que não fazem mais parte do corpo docente: Amurabi, Breitner e Pedro, muito
obrigado por todos os ensinamentos.
A todas as artesãs e artesãos do Pontal da Barra, pelos dias, disponibilidades
prestadas e discussões ricas que resultaram nesta pesquisa.

“Viver em ti é sempre flutuar,
Nas águas turvas da lagoa morna,
Ante os murmúrios lânguidos do mar,
Sob esse coqueiral que a tudo adorna.
Entre o mar e a lagoa tu flutuas,
Ao léu das ondas e das águas mansas,
“Língua de terra”, clara à luz das luas,
E quente ao sol do céu que não alcanças.
Foram os ventos vindos do nordeste,
Que te fizeram longa até a “barra”,
Onde o “Pontal”, furando a água, investe.
Índios que viram teu primeiro viço,
Deram-te o nome que à forma te amarra:
- Maçai-o-g- “o que tapou o alagadiço”.”
(Ivan Fernandes Lima - Maceió a cidade restinga,1989)

“o choque [...], que brota da natureza
particular da empreitada etnográfica, é tido
como um choque entre ver as coisas como
se deseja que elas sejam e vê-las como
realmente são”.
(Clifford Geertz – A interpretação das culturas, 1997)

RESUMO

Esta monografia resulta de um estudo etnográfico realizado junto ao bairro do Pontal
da Barra, em Maceió. A partir do saber passado de geração a geração, as artesãs
executam suas peças de filé manualmente e vendem, geralmente no próprio bairro
ou em mercados artesanais distribuídos pela cidade. É um artesanato feito pelas
mãos delicadas das mulheres, utilizando linhas, bastidor e agulha. O Pontal
encontra-se no extremo sul da cidade de Maceió, tornou-se um ponto a ser visitado
por turistas de várias regiões e nacionalidades. O “progresso”, digamos assim,
trouxe o tombamento da área verde que circunda o bairro, o reconhecimento do filé
como prática cultural e o desenvolvimento do turismo; trouxe com isso as
contradições e transformações sociais para esta comunidade lagunar. O estudo
busca compreender como os moradores, à sua maneira, lidam com tais mudanças
no trabalho quotidiano, frente à comercialização desta produção num contexto de
mercado globalizado. Deste modo, busca-se apresentar a circulação da produção do
filé nesta comunidade, uma vez que pode considerá-la um produto direto da
interação e ação humana da mesma.
Palavras-chave: Maceió; Pontal da Barra; Artesãs do Filé; Turismo.

ABSTRACT

This monography is a result of an ethnographic study performed in Pontal da Barra
neighborhood, in Maceió city, state of Alagoas, Brazil. Based on the knowledge
passed down from generation to generation, craftswomen sew their filé pieces and
usuallysell them in their own neighborhood or in handicraft markets spreadthroughout
town. Filé is an artisanal woven fabric made by women’s delicate hands using yarns,
embroidery hoop, and needle. The Pontal area is located on the south of Maceió and
has become a touristic attraction for people from different regions of Brazil and the
world. “Progress” in Maceió citycaused the recognition of the green area that
surrounds Pontal and the filé as cultural heritage. The “progress” increased also
tourism as well as social contradictions and transformations in that lagoonal
community. This study aims to comprehend how the people from Pontal community
face the chances introduced in their daily work routine by the commercialization of
their products on a global market. Thereby, this study aims to show the circulation
and production of filé in the Pontal community since its manufacturing is considered a
direct result of human actions and interactions.
Keywords: Maceió; Pontal da Barra; Filé Craftswomen; Tourism.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Foto 1: Lagoa Mundaú, Pontal da Barra. .................................................................. 17
Foto 2: Outdoors da rua que dá acesso ao Pontal. ................................................... 17
Foto 3: Turista observando no Pontal. ...................................................................... 18
Foto 4: Loja Tradicional do Pontal. ............................................................................ 18
Foto 5: Bolsas penduradas em loja no Pontal. .......................................................... 18
Foto 6: Avenida Alípio Barbosa, Pontal. .................................................................... 18
Foto 7: Agulha e espaçador de malha....................................................................... 22
Foto 8: Agulha e espaçador de malha. ...................................................................... 22
Foto 9: Novelo customizado.. .................................................................................... 24
Foto 10: Sebastião vendedor de rede/malha............................................................. 24
Foto 11: Peça de filé secando ao sol. ....................................................................... 24
Foto 12: Artesã confeccionando filé. ......................................................................... 24
Foto 13: Loja simples. ............................................................................................... 37
Foto14: Loja mais sofisticada. ................................................................................... 37
Foto 15: Filé de Orós-CE. ......................................................................................... 47
Foto 16: Filé do Pontal/al .......................................................................................... 47
Foto 17: Crianças no Pontal. ..................................................................................... 49

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Dados das entrevistas realizadas no Pontal da Barra..............................30
Tabela 2 - Dados do CELMM de maior incidência para produção……………....……44

LISTA COM ABREVIAÇÕES E SIGLAS

CELMM - Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba.
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
PAB - Programa do Artesanato Brasileiro.
SEPLANDE - Secretaria de Estado do Planejamento e Desenvolvimento Econômico.
Atualmente, Secretaria de Estado do Planejamento Gestão e Patrimônio (SEPLAG).
SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.

SUMÁRIO

1.INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 11
2.PONTAL DA BARRA E SUAS PECULIARIDADES ............................................... 15
2.1. Localização e características gerais do Pontal. .............................................. 16
2.2. O que torna o Pontal incomum ....................................................................... 19
3.CONHECENDO O FILÉ ......................................................................................... 22
3.1. Rendas de filé ou bordado de filé? ................................................................. 25
3.2. Cultura do Filé: suas práticas e representações ............................................. 26
3.3. A importância do filé como atividade de rendimentos ..................................... 33
4.A TRASMISSÃO DA TRADIÇÃO DO FILÉ ............................................................ 35
4.1. O artesão ........................................................................................................ 35
4.2. O revendedor .................................................................................................. 35
4.3. O lojista ........................................................................................................... 36
4.4. Entrevistas com os artesãos do filé ................................................................ 38
4.4.1. Juliana .................................................................................................... 40
4.4.2. Dona Graça ............................................................................................ 42
4.4.3. Francisca ................................................................................................ 42
4.4.4. Efigênia .................................................................................................. 43
4.4.5. Sebastião ............................................................................................... 44
4.4.6. Aécio ...................................................................................................... 45
4.5. Crianças e suas ligações com o espaço chamado Pontal .............................. 47
CONCLUSÃO............................................................................................................ 50

11

1. INTRODUÇÃO

Em Alagoas, segundo Dantas (1986), entre os artesanatos mais expressivos
encontra-se o filé. É uma arte e uma técnica manual mantida por várias gerações de
artesãos.
É considerado um bem cultural regional, mantido em comunidades de
pescadores, ambiente característico da região alagoana, e isso ocorreu devido ao
fato dos moradores possuírem habilidades para o ofício ligado à rede de pescaria
(Dantas, 1986).
O filé, por ser uma atividade ligada à rede de pesca, é frequentemente
encontrado na região do Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba, descrito
como CELMM, local de grande predominância da pesca. Normande (2000, p. 23),
descreve que:

do ponto de vista político administrativo, o CELMM abrange sete municípios:
Maceió (capital do estado), localizada à margem nordeste da lagoa Mundaú;
Rio Largo e Satuba, situadas na foz do rio Mundaú e Santa Luzia do Norte e
Coqueiro Seco, ao longo da margem sudoeste da lagoa Mundaú; lagoa
Manguaba é circundada por terras dos municípios de Marechal Deodoro, à
jusante, e Pilar, à montante. Exercem influência no CELMM ainda diversas
atividades sócio-econômicas desenvolvidas ao longo das bacias
hidrográficas, no entorno das lagoas e canais e na plataforma continental.

O fato dos moradores possuírem habilidades para o ofício ligado à rede de
pesca fez com que o filé fosse realizado a partir de uma rede semelhante à rede de
pesca, diferenciando-se apenas do fio utilizado, ou seja, a rede dos pescadores é
confeccionada com fio de nylon enquanto a do filé com linha (fio) de algodão.
O filé não se sabe exatamente sua origem no Estado. Tem-se o
conhecimento de que é um ofício milenar, seus precursores foram os persas e os
egípcios, como descreve Julião (2009) e diversos outros pesquisadores. Porém,
como chegou ao Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba? Como questiona
e responde Silva1. Segundo a autora, para “vários historiadores e comentaristas que
se reportam aos colonizadores portugueses e aos conventos de freiras, pois se

1

SILVA, Marta. Ibid.

12

aponta a presença da Igreja nessa cadeia produtiva como consumidora de vestuário
suntuoso e rico”.
O objetivo principal desse estudo é descrever sobre essa atividade produtiva
e os sujeitos envolvidos na produção e na comercialização no bairro Pontal da Barra
em Maceió. Por se tratar de uma localidade que se diferenciava das demais
produtoras do filé dentro do CELMM, devido a um potencial turístico que alavanca as
venda do artesanato de um modo geral, ficou delimitado o trabalho no bairro, devido
a sua grande importância na produção e comercialização.
O estudo ocorreu com pesquisa a campo no período de janeiro de 2012 a
dezembro de 2013, foram realizadas entrevistas com os artesãos, comerciantes,
vendedores e compradores do filé. Através das idas frequentes a essa região foi
possível identificar como as famílias se organizam no âmbito socioeconômico e
cultural, distribuindo-se em diferentes atividades associadas à cadeia produtiva do
filé.
Obtive meu primeiro conhecimento sobre o filé e o CELMM, durante uma
disciplina eletiva Pesquisa Etnográfica no último semestre de 2011. Esta pesquisa
sobre a tarefa: “Indicação Geográfica-IG Filé das lagoas Mundaú-Manguaba”,
realizada pelo Laboratório da Cidade e do Contemporâneo, do Instituto de Ciências
Sociais, da Universidade Federal de Alagoas em parceria com o SEBRAE-AL. O
objetivo do estudo era o da patrimonialização do bordado Filé2 de Alagoas.
Mas este presente estudo não está ligado com essa pesquisa, “da disciplina
eletiva”, uma vez que a partir de janeiro de 2012 fui a campo para outras entrevistas
e observações, pois, me utilizo com outros envies de questionamentos que foram
relatados durante esse período específico. Sendo assim, o estudo de campo ocorreu
até 2013, e até esse período atual, março de 2016, foi para estruturação e
elaboração escrita, sem idas a campo, uma vez que já tinha os dados.
Com isso, o debate teórico é focado na relação do ofício do saber-fazer filé
em meio à dinamicidade da vida globalizante capitalista, onde é frisado o sentido de

2

SILVA, Marta Melo, em seu artigo bordado ou renda Filé? in Caderno Saber - Gazeta de Alagoas,
descreve que o “’Filé’ está catalogado internacionalmente como Bordado e ele, de fato, o é”.
Disponível: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=249332>. Acesso em 10 de
mar. de 2016.

13

pertencimento como indivíduos detentores de um saber que estariam além da esfera
de mercado.
Dentro dessa perspectiva, envolvendo um trabalho manual e de mercado
atual com características cada vez mais global, cabem vários questionamentos que
aparecerão no decorrer da pesquisa, como por exemplo: a razão pela qual o Pontal
é lugar de destaque na comercialização e não nos outros municípios do CELMM. O
que a visibilidade do mercado do filé proporcionou ao bairro Pontal e na vida dos
pontalenses. Questionamentos como esses são destacados no decorrer este
trabalho de pesquisa.
No primeiro capítulo, “Pontal da Barra e suas peculiaridades” procuro trazer
para o leitor o contexto no qual se deu todo o estudo, descrevendo o bairro: as
características demográficas; os contrastes socioeconômicos e a relação com seus
agentes, por sua vez abrangendo também questões de territorialidade e tradição.
No segundo capítulo, “Conhecendo o filé” abordo as questões de
tradicionalidade e cultura, bem como se define o sentido de pertencimento na
comunidade-alvo. São definições relevantes, para que se possam entender os dois
capítulos posteriores em relação aos “interlocutores” aqui apresentados.
No terceiro capítulo, “A Transmissão da tradição do filé” descrevo o contexto
em que vivem os artesãos do Pontal, por meio de entrevistas, conversas informais e
observações do seu quotidiano, bem como descrevo a circulação do filé como
mercadoria. Ou seja, as transações de mercado, a compra, a venda, o lucro e quem
são as pessoas por trás dessas dimensões comerciais, correlacionando-as com o
saber-fazer que, por sua vez, acrescenta transformações e novos caminhos ao filé.
O comércio motiva a criatividade, a invenção de novos pontos e de novas
peças, trazendo uma reflexão sobre diferentes realidades que puderam ser vistas no
decorrer da pesquisa, como por exemplo, os artesãos nativos do Pontal e os “de
fora” que abastecem o Pontal, mas todos têm o filé como fonte de renda para o
sustento da família.
Descrevo também as narrativas de uma nova geração de aprendizes. Mostro
um grupo de crianças, que vendem suas próprias peças nas calçadas e no
perambular do bairro. Muitas têm em torno de oito a treze anos de idade. Desta

14

forma, tento trazer seus dilemas e flexibilidades em meio às suas dificuldades e
vulnerabilidade dentro da comunidade, na qual vivem e trabalham.

15

2. PONTAL DA BARRA E SUAS PECULIARIDADES

Durante a pesquisa de campo, percorri o Complexo Estuarino Lagunar
Mundaú-Manguaba, conhecido na linguagem dos especialistas como CELMM.
Passando pelo bairro do Pontal da Barra, em Maceió, e pelos municípios de
Marechal Deodoro, Pilar, Coqueiro Seco e Santa Luzia do Norte. Porém, o estudo se
direcionou particularmente para o Pontal da Barra, devido ao fato da localidade ser a
de maior expressão na comercialização do filé, sendo esse o meu objeto de
pesquisa.
Contudo, não se tem como tratar do Pontal sem mencionar o CELMM como
um todo, pois este estudo traz algumas características que se torna necessário uma
correlação entre ambos, e assim, desempenhar melhor entendimento, uma vez que,
a confecção do filé se passa por uma cadeia de produção vinculada a toda essa
área propriamente dita.
Caracteristicamente o CELMM, de acordo com a Enciclopédia dos municípios
alagoanos (2012), possui em sua topografia comum de planície que margeia as
lagoas, seguida de uma elevação acentuada, denominada de tabuleiro. A pesca e as
atividades artesanais são predominantes nas planícies e os tabuleiros são mais
voltados para o plantio de cana-de-açúcar.
O CELMM tem na pesca uma de suas bases econômicas, apesar da
escassez de peixes que vêm aumentando gradualmente, o que na concepção dos
ribeirinhos, acontece devido ao fato do agravamento das questões ambientais,
poluição dos afluentes e assoreamento das lagoas. Atualmente, o CELMM tem na
pesca, no artesanato, no turismo e na cana-de-açúcar sua base econômica.
Esta região também abriga uma valiosa riqueza da fauna e da flora, que vem
sendo sistematicamente degradada pela ação do homem, levado pela necessidade
expansionista do capitalismo. Segundo Vieira (1997), extinguiram-se de forma
irreparável muito recursos naturais, essa necessidade de crescimento, progresso e
expansão, bem como em nome da especulação imobiliária, continuam deteriorando
o bem natural contido nessa região, como por exemplo, os danos aos recursos

16

naturais no Pontal. Vieira (1997, p. 27), descreve também os problemas com a
Indústria Braskem (antiga Salgema) nesta área de restinga, denunciando-os,
efeitos poluentes da Salgema é uma constante, desde sua implantação e
até os dias atuais. Trata-se principalmente da poluição do ar, da água e do
solo, pela eliminação de resíduos que fazem parte do processo produtivo, e
do risco de acidentes na operação da fábrica, que provoquem vazamentos
que podem atingir dimensões e níveis de periculosidade variáveis.

Toda a região do CELMM passa por um intenso processo de degradação
ambiental, e o Pontal por se encontrar ao lado de uma indústria tornar-se ainda mais
vulnerável, devido aos seus valores turísticos, bem como sua dependência
econômica com os recursos naturais locais: os peixes e crustáceos da lagoa, os
passeios de barco para as nove ilhas. E assim a comunidade pontalense é alvo de
crescentes agressões ambientais.
A denominação pontalense é dada por alguns autores que retratam os
moradores do Pontal da Barra, um deles é a pesquisadora Vieira (1997).

2.1. Localização e características gerais do Pontal.
O Pontal da Barra está localizado entre a lagoa e o mar, com ruas sinuosas,
casas simples e estreitas, preservando aspectos de uma comunidade ribeirinha,
advinda de uma origem de vila de pescadores.
Em seu processo de formação como bairro, as ruas sinuosas e estreitas
acompanham o traçado da margem da lagoa e os logradouros transversais traçando
caminhos entre as dunas, que segundo Vieira (1997), nada se comparam ao padrão
do urbano de ruas retas, o que tornam Pontal “sui generis”.
A principal rua do bairro é a Alípio Barbosa onde se encontra várias
residências que são voltadas também para o comércio, isto é, casas/lojinhas de
artesanato. São casas de arquiteturas que se assemelham, com frentes estreitas e
quintais voltados para a lagoa.
São casas com funções de loja, no primeiro cômodo, e o restante da casa
como domicílio que abriga toda família. Esse tipo de estabelecimento pode se
considerar como as mais tradicionais do bairro.

17

O último espaço na prolongação da rua Alípio Barbosa é o antigo caminho da
praia, logo após a Associação de Pescadores, por ser uma área reformada na
década de 1980. A rua compõe-se de lojas maiores do lado direito e por pequenas
do lado esquerdo, fazendo fronteira com o estacionamento dos ônibus de turismo.

Foto 1: Lagoa Mundaú, Pontal da Barra.

Foto 2: Outdoors da rua que dá acesso ao Pontal.

Fonte (1 e 2): Vanise Ferreira Costa.

Ultrapassando essa primeira aglomeração de pequenas lojas, na rua principal
é possível observar uma galeria com vários boxes pequenos, bem como várias lojas
de maior porte mais a frente (ver fotos abaixo), porém com pouca oferta de filé, seus
produtos, em sua maioria, são: rendendê, redes, tapetes, esculturas de madeiras e
utensílios

de

decoração.

Outra

particularidade

das lojas maiores

é

sua

funcionalidade exclusiva, em contraste com as pequenas lojas que são residências
com ponto comercial.
É possível observar que o bairro possui características acentuadas como:
isolamento, limites definidos, de outros bairros devido ao muro da indústria Braskem;
a economia com base na produção do artesanato e da pesca; tombamento das
poucas áreas de dunas.
Pontal está ligado ao bairro do Trapiche da Barra através de uma zona de
transição e de limites definido, como descrito por Vieira (1997), tornou-se “isolado”
por sítios e pela indústria Salgema, atual Braskem. Em 1985 houve uma tentativa de
fechamento dessa estrada que liga os dois bairros, mas a população do bairro

18

insatisfeita com essa atitude mobilizou-se com manifestações e protestos fazendo
com que a indústria voltasse atrás.

Foto 3: Turista observando no Pontal.

Foto 4: Loja tradicional do Pontal.

Fonte (3 e 4): Vanise Ferreira Costa.

Foto 5: Bolsas penduradas em loja no Pontal.

Foto 6: Avenida Alípio Barbosa, Pontal.

Fonte (5 e 6): Vanise Ferreira Costa.

Segundo os moradores do Pontal, em tempos remotos, existiam dunas em
toda orla marítima, mas o desmatamento e a construção da Braskem acabaram com
esse visual, apenas com o tombamento da área verde, também chamada de
“cinturão verde” proporcionou a preservação da fauna e da flora nessa região.

19

Na descrição da Enciclopédia dos Municípios de Alagoas (2012), a
construção da rodovia AL 101-Sul interliga-se através da ponte de Maceió ao
município vizinho Marechal Deodoro, proporcionando melhor acesso aos outros
municípios do litoral sul do Estado. Porém trouxe também impactos ambientais
nessa parte da restinga.

2.2. O que torna o Pontal incomum
Inserido no complexo de formação dos bairros de Maceió, Pontal possui
aspectos divergentes dos outros bairros, se assemelha com uma comunidade do
interior, pacata e de sossego, com casas simples, sem prédios e que nada faz
lembrar a dinâmica de um bairro a poucos quilômetros do centro urbano da capital. A
dinâmica socioeconômica do bairro, as formas das residências e a lagoa também
moldaram para esse aspecto peculiar. Como demonstra a análise de Vieira (2003,
p.54)
De ocupação antiga, um dos primeiros bairros de Maceió, a restinga era
tradicionalmente ocupada por sítios de coqueirais, dunas, e por uma vila de
pescadores e rendeiras. De vocação turística, o bairro passou por uma
transformação recente na atividade econômica, transformando-se no bairro
das rendeiras, e de restaurantes de comidas típicas, ficando a pesca como
atividade de subsistência e lazer.

Pontal como descrito por Vieira (2003) vem de uma tradicional vila de
pescadores que tinha na pesca artesanal como principal atividade econômica e
devido às transformações com a poluição da lagoa, levando a escassez de peixes o
artesanato tomou lugar no cenário pontalense.
Pontal segundo o senso do IBGE de 20103 tem população de 2.478
habitantes, dentre as quais 1.295 são mulheres e 1.183 são homens. Contrastes em
relação aos outros bairros, com mercado de artesanato e ambiente singular, o fazem
ter momentos de visibilidade e de muitos transeuntes em meio a pouca urbanidade.

3

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível no site: <www.sidra.ibge.gov.br>.*Tabela
de número 1309 – População residente, por sexo, situação e localização da área. Acesso em 14 de
maio 2014.

20

Assim, tornou-se também o principal itinerário do turismo da região do CELMM, seu
aumento tem contribuído para o crescimento da produção do filé.
O bairro como é reconhecido como comunidade tradicional de artesãos pelos
jornais, pesquisadores, intelectuais e a mídia em geral. Desta forma, remete o que
nos diz Dantas (1986, p. 31):
O artesanato em Alagoas, como em todo nordeste é um traço marcante na
cultura regional […]. Encontram nele uma fonte subsidiária da renda familiar.
São comunidades agrárias, em sua maioria, embora existam também
artesãos urbanos.

Com isso, não se pode deixar de notar, a natureza da fonte de renda das
famílias nas cidades, não estão mais relacionadas a um histórico do passado de
trabalhos braçais e agrários. Estamos numa época de grandes avanços
tecnológicos, como remete Antunes (2003), e podemos perceber a queda de
diversas profissões, por exemplo, como de pescadores, bem como a relativização de
outras, desenvolvendo uma nova lógica e assim adquirindo novos significados.
Todavia, trabalhos artesanais prosperaram à medida que obteve um aumento
do fluxo do turismo, por sua vez expandindo o campo da oferta e da procura, ou
seja, tornando-se importante na fonte de renda dos artesãos. Logo, tem o filé
confeccionado pelos próprios moradores do bairro, nos quais transformam suas
casas em pequenas lojas, onde são comercializadas diversas peças, assim
garantindo a renda para o sustento de toda a família.
Os artesãos das demais áreas do CELMM levam sua produção de filé para
abastecer o mercado do Pontal e da orla turística de Maceió (especialmente na praia
da Pajuçara).
Pontal tornou-se centro do turismo e do mercado para o artesanato do filé.
Favorecido pelas agências de turismo e pelo fomento de programas de políticas
culturais do Estado, bem como as iniciativas empresariais que explicam o
crescimento da popularidade dessa comunidade.
Desse modo, o filé é um ofício relevante para uma comunidade, que passa a
tê-lo como atividade principal. Ele pode ser visto como “autêntico”, no qual quero
ater aqui, que é no seu modo “único” de fazer, uma vez que a cultura converte-se
numa forma única de se expressar as identidades culturais de seu povo. Assim, se

21

diferencia dos demais em outras localidades – cidades, estados e países. Com isso,
uma região poderá ter o gosto pelo filé, ora pelas cores, ora pelo o ponto mais
detalhado, a espessura da malha, algo que o torne específico daquela região.
Para o antropólogo Fredrik Barth (1998) essa questão de diferenciação
cultural pode ser explicitada perante o conceito de fronteira que é representado
como jogo de interesse, no qual entra em disputa códigos e diferenças culturais
significantes para a comunidade. Compreender como essas fronteiras étnicas são
mantidas segundo um conjunto imitado de traços culturais que entram em disputa no
momento de interação social entre os grupos é de suma relevância, para que se
possa sustentar a diversidade cultural, visto que as fronteiras persistem mesmo com
o fluxo de pessoas que as travessa.
A produção do filé atua como uma expressão de significados nas narrativas e
representações da ação dos moradores no bairro, e os levam também a uma
categoria de “identidade cultural”, como enfatiza Cuche (2002) e também Barth
(1998), um conjunto vinculado em um sistema social que permite atores localizaremse socialmente e culturalmente, se incluindo ou excluindo. No caso do Pontal, por
exemplo, seriam aqueles que frequentam, mas não residem no bairro, embora
pratique a mesma atividade, a comercialização do filé, numa modalidade social de
identidade, ora que os une, por serem artesãos, ora os separam, por não habitar na
comunidade pontalense.
Nota-se que ser nativo do Pontal e saber o ofício do filé é bem mais atrativo
aos olhos de quem vai ali comprar o produto. Há certa identidade que os artesãos,
de alguma maneira, se orgulham e tentam preservar, com seus discursos que diz
assim: “Aqui as mulheres já nascem sabendo fazer filé. Aqui toda mulher sabe fazer
filé”. São frases como estas, que se percebem o quanto estas pontalenses querem
se firmar como artesãs que são.

22

3. CONHECENDO O FILÉ

O filé é executado manualmente sobre uma rede/malha de linha de algodão
com desenhos geométricos e/ou florais, trabalhados para formar uma diversidade de
pontos. Cada peça tem mais de um tipo de ponto, que requer criatividade e memória
do saber-fazer de quem o tece. Desde modo, podemos classificar a confecção em
três etapas:
A primeira etapa do trabalho consiste na preparação dessa rede/malha, com
linha resistente, utilizando agulha de jenipapo4 ou com agulhas confeccionadas a
partir de plástico de PVC, existem também outros tipos de materiais de agulhas
como a de resina (ver foto abaixo).

Foto 7: Agulha e espaçador de malha.

Foto 8: Agulha e espaçador de malha.

Fonte (7 e 8): Vanise Ferreira Costa.

A agulha é a mesma utilizada para a confecção da rede de pescaria, embora
algumas sejam menores e mais finas. A dimensão da malha é definida pelo molde,
constituído de palheta de bambu bem polida. Depois de pronta, a rede é esticada no
tear.
A rede/malha de filé também é semelhante a da rede de pesca, mas usa-se
apenas um “nó”, com objetivo de não a soltar com tanta facilidade como a de nylon
utilizada na rede de pescaria.

4

Jenipapo - árvore da família das lecitidáceas e hoje escassa na nossa região alagoana.

23

Segundo seu Sebastião que faz e vende rede: “No Pontal para vender a rede,
ela deve ser bem feita, ter a malha pequena e sem defeito, pois senão não consigo
vender minha mercadoria lá, volto para casa com tudo”.
Com a rede pronta, ela é esticada e presa com outra linha prendendo a rede
no tear/grade. Espécie de bastidor composto por quatro traves de madeira que se
prende nas extremidades, formando uma armação quadrada ou retangular,
dependendo do tamanho da peça a ser tecida.
Na segunda etapa, o artesão com uma agulha grossa de metal (agulha de
costura) passa a encher a rede com linha em fio duplo, com um conjunto de pontos
denominados de motivos. O preenchimento é feito com cuidado para não sujar a
peça, e assim, depois de dá início ao preenchimento da rede com pontos formando
motivos de filé, como por exemplo, cerzido, olho de pombo entre outros.
Os pontos são traçados sobre a rede, contando os orifícios da malha, para
delimitar o contorno, dando traçado ao desenho que deseja executar. Vai
preenchendo a rede prendendo a linha em pontos estratégicos, pois não existe
risco/molde como alguns tipos de bordados feitos em tecidos (ponto rococó, ponto
cheio e ponto de cruz) que se encontra em revistas especializadas. Assim, os pontos
vão compondo a trama com muito colorido, são criados e recriados pelas mãos das
artesãs, o que faz do filé uma identidade cultural, uma vez que é influenciada por
sua cultura e pela comunidade a qual pertence.
E na terceira etapa, com a peça pronta antes de retirar do tear, os artesãos
fazem reajuste no acabamento concluindo com o matame, cortando pontas das
emendas da linha e escondendo-as. Logo após, será o ato de “engomar”, passa
camadas de goma (feita com amido de milho e água) e coloca-se ao sol para secar,
depois de secar retira-se do tear e o recorta acompanhando assim os matames. A
peça é retirada da grade e passada a ferro pelo avesso, assim está pronta para
comercialização. Durante o processo de criação do filé são necessários:
•

A escolha do tear adequado;

•

A escolha da linha;

•

A escolha e combinação das cores;

•

A confecção da rede/malha (trama quadriculada);

•

O enchimento da rede, denominado de cheio;

24

•

O matame;

•

A colocação da peça na goma.

Atualmente, a diversidade de cores das linhas e novelo mesclado trouxe para
o filé mais colorido, bem como mais diversidade de produtos para o mercado do
Pontal. Pois, nas histórias das artesãs mais antigas, com as quais tive contato, Sônia
e Dilma, as linhas eram tingidas com folha de frutos da terra, como o urucu, ficando
na cor amarela; a cor bege era conseguida com palha de cebola ou bucha de coco;
a salsa (alga marinha) da praia dava o roxo, enquanto o marrom forte era extraído
do murici. Também, tingiam a linha com chá preto, borra de café, barbatimão e
outros recursos que a sabedoria popular indicava. As mesmas relatam que, com o
surgimento da tinta guarani (marca), esse processo de pigmentação ficou mais fácil.

Foto 9: Novelo customizado.

Foto 10: Sebastião vendedor de rede/malha.

Fonte (09 e 10): Vanise Ferreira Costa.
Foto 11: Peça de filé secando ao sol.

Fonte (11 e 12): Vanise Ferreira Costa

Foto 12: Artesã confeccionando filé.

25

O filé do Pontal tem grande parte da produção dividida com mais de uma
artesã, ou seja, uma faz a rede e repassa para fazer o cheio e outra se encarrega de
colocar a goma. São poucas artesãs que fazem desde a rede até o processo de
engomar.
Deste modo, com o filé dividido em etapas, se forma uma cadeia de
circulação sobre o filé, onde se produz interligação com outros municípios do
CELMM, visto que, essa divisão colabora para existência de vendedores da
rede/malha e também para peças prontas que serão negociadas no mercado do
Pontal.
A produção de filé no Pontal é diversificada, encontram-se peças, tais como:
toalhas de mesa, colchas, jogo americano, roupas: saída de praia, blusas, vestidos,
coletes, saias, camisas masculinas, dentre outros acessórios.

3.1. Rendas de filé ou bordado de filé?
De modo geral se utilizam dois termos para denominar o filé: bordado e
renda. Alguns estudiosos do assunto afirmam que o termo apropriado seria bordado
de filé, como descrevem os estudiosos Cavalcanti e Silva (2014, p. 17), ao distinguir
o significado de bordado e de renda,
O “filé” está catalogado internacionalmente como Bordado e ele, de fato, o
é. Considera-se “bordado” todos os trabalhos exercidos por meio de uma
agulha sobre qualquer tipo de suporte preexistente… Quanto ao bordado
filé, ele é executado sobre uma superfície de fios tramados e não sobre um
tecido já constituído, sendo essa sua característica peculiar. Considera-se
“renda” a trama de fios confeccionada com a ajuda de pequenas peças de
madeira, entre materiais, que gera como produto final uma superfície plana
com cheios e vazios. Esse “pano” que se forma é a “renda” […].

Mas, não pretendo distinguir aqui rigorosamente como se levou a tais
argumentações técnicas da classificação como “bordado de filé”, de modo que, essa
não é a real intenção deste estudo, e sim definir o campo/objeto aos moldes de uma
etnografia mais descritiva dos dados aqui propostos.
Busco uma perspectiva etnográfica que traça a curva de um discurso social e
que não seria plausível uma resposta às questões aqui apresentadas nas
dimensões de tais categorias como as de “renda ou bordada”, uma vez que,

26

proponho uma análise vinculada às ferramentas relevantes para engendrar o
universo humano nos quais estão elementos como: econômico, ambiental, histórico,
cultural e político, que estão entremeados nos relatos encontrados a campo
propriamente dito pelos interlocutores. Deste modo, não se tem controle sobre isso,
pois somos uma “invenção”, isto é, uma cultura, não é porque é inventada que não
seja real, somente a partir do momento que é apropriada a cultura tornar-se real,
como diria Kuper (2002).
Quando questiona se a forma correta é bordado de filé ou renda de filé, isso
implica que não interessa se existe ou não o correto, e sim, nos voltarmos para a
crescente busca em compreender e justificar que são reais, pois são vivenciadas
nas falas desses artesãos.

3.2. Cultura do Filé: suas práticas e representações
Tomando por base a noção de cultura de Geertz (1997) onde a cultura é uma
teia de significados produzida pelos integrantes de uma sociedade, de modo que a
análise da cultura não poderia ser de uma ciência experimental a procura de leis,
mas de uma ciência interpretativa a procura de significados.
A cultura dos artesãos está cheia de “significações e símbolos”, apenas
quando adentramos em seu universo, entendemos a dimensão e a importância do
saber-fazer para esses indivíduos.
A relação comunidade e artesão em toda sua dinamicidade detêm em si seu
próprio significado. São espaços e comportamentos desejáveis que permeiam num
contexto incluindo o universo do trabalho, ou seja, de se fazer o filé, que torna um
conjunto de diversas referências que marcam a existência humana no mesmo local
casa/trabalho, público/privado.
O filé é para o artesão mais que um trabalho, é uma atividade que possibilita
visibilidade. Um saber-fazer de sentir-se útil, uma atividade com sentido de ser
“visto”, ora pelo turista, que passa a sua porta, ora para toda a comunidade. Sua
prática é ofício e também territorialidade, ou seja, associada à cultura local, nos seus
gostos, modos e costumes, até mesmo espaços contínuos que se desenrola em sua

27

vida quotidiana, o que faz dele se afirmar como habitante e ao mesmo tempo como
artesão. Como compreendido nas palavras de Dantas (1986, p. 31):
(…) a atividade artesanal dilui-se no próprio cotidiano do homem, retratando
a sua realidade. Realidade que é integração da vida ao meio-ambiente (...).
Lutando para sobreviver, o homem é levado a produzir e criar, utilizando o
material que lhe está mais próximo. Daí os fatores ecológicos definirem a
modalidade do artesanato pela abundância de matéria-prima, enquanto
técnica empregada é uma decorrência da formação histórica da
comunidade.

Dado o reconhecimento como bairro dos artesãos, reproduz um discurso nos
seus habitantes como pessoas providas de habilidades da prática do saber-fazer filé.
Evidentemente, não são todos os habitantes que sabem esse ofício, mas produzem
identidades que ultrapassam os seus vários “eus” do sou artesão, e se tornam “nós”
somos artesãos. Aspectos estes de identidade coletiva que os distinguem dos
“outros” e ao mesmo tempo o tornam um “protótipo” de habitante do local, isto é,
onde a cotidianidade é a sua precondição.
Para Barth (1998) a questão de fronteira do grupo serve para essa dicotomia
nós/eles, como uma forma de fixar símbolos identitários, que mostram a origem em
comum. No qual os atores identificam-se e são identificados pelos outros, de modo a
construir relação categorial pelos “de fora”, os não membros, e a identificação com
um grupo em particular.
E a capacidade do artesão de criar e recriar, bem como adaptar-se as
situações no próprio contexto, apresentam também como tradicionalidade e fazem
refletir que o artesanato não é estático, mas sim mutável. Pois, o artesanato é um
fragmento da cultura popular fazendo parte de repertório associado á identidade
nacional, Arantes (2004).
O ofício do filé cumpre importante papel, especialmente para uma parcela
expressiva da população pontalense, devido à carência de oportunidades no
mercado de trabalho alagoano, pois se encontra, segundo a pesquisa do censo
2010 divulgada pelo IBGE5, com os piores índices sociais do país, apesar de
estarmos em 2012, estes índices não têm melhorado como mostram as estatísticas.

5 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística- IBGE, recenseamento 2010.

28

O Estado passa por dificuldade em avançar nas aplicações de políticas
públicas em favor de uma melhoria nos indicadores socioeconômicos. Todavia, é
nesse campo infértil que o filé vem fortalecendo seu poder de produção e
comercialização, isto é, uma forma de fonte rentável para as pessoas.
Estima-se que há em Alagoas doze mil artesãos6, que encontram no
artesanato uma forma relevante de trabalho. Todo esse cenário alagoano no Pontal
percebe as diferentes realidades, onde busca no artesanato uma forma de se
integrar ao mercado de trabalho, principalmente as mulheres que carregam um peso
histórico na sua inserção no mercado. Com isso, o ofício do filé para as mulheres
tem grande significado e as tornam economicamente ativas.
Predominantemente o filé é um ofício exercido pelas mulheres, transmitido ao
longo das gerações, porém podemos encontrar alguns homens neste ofício, uma vez
que, se tem ocorrência de desemprego, os homens ociosos buscam ajudar suas
famílias nas etapas da confecção do filé, bem como outros adotam a prática como
profissão. Contudo, número pouco expressivo de homens nesse campo de trabalho
no Pontal. Dantas (1986, p. 34) relata que:
Maceió, cidade de considerável fluxo turístico, a renda é produto muito
procurado e por isso mesmo os homens também participam da sua
comercialização, quer vendendo produto confeccionado por sua mulher e
filhas, quer como atravessador, montando pequenas lojas para consumo de
turistas. Esse comércio dá-se no Pontal da Barra, comunidade lacustre e
maior centro artesanal de Alagoas.

Para Dantas o filé é um saber-fazer tipicamente feminino, cabendo o homem
o papel da comercialização, mas nos dias atuais os papéis das artesãs vão além da
confecção, cabe a elas a administração do seu próprio negócio. Nota-se no Pontal
que a maioria das lojas é administrada pelas próprias artesãs, estas se encontram
na confecção e na comercialização como um todo.
O impacto que a produção de filé pode gerar na vida dos artesãos dessa
comunidade é um aspecto considerável no auxílio da renda familiar. À medida que,
questão de gênero também pode ser analisada na sua dinâmica de espaço, isto é, o
papel que é ocupado por cada um, homem e mulher, onde a mulher é vista também
como provedora do sustento muitas vezes de toda a família.
6 Dados de 2011 da SEPLANDE, atual SEPLANG e SEBRAE em relação ao PAB (Programa de
Artesanato Brasileiro).

29

É sabido que a desigualdade salarial das mulheres no Brasil em relação aos
homens, mesmo nos dias atuais é visível, apesar da crescente participação da
mesma no mercado de trabalho, ainda ocorre essa disparidade.
Todavia, quando se trata do artesanato filé esse aspecto seria quase nulo, ou
seja, a venda do filé se daria sob as mesmas condições mercadológicas em ambos
os sexos. Com isso, pode-se fazer uma analogia segundo as conclusões da autora
Dantas (1986) ao enfatizar que, o artesanato seria um universo predominantemente
feminino. De certo modo, são vistos como afazeres femininos e que os homens
seriam exceções neste ofício do saber-fazer filé, ou seja, não havendo uma
competição no mercado de trabalho por maior remuneração entre ambos.
Dessa forma, durante todo o trabalho a campo constatei uma quantidade
relativamente pequena de homens nesse ramo de atividade (ver Quadro-1 na p. 30).

30

Quadro 1 - Dados das entrevistas realizadas no Pontal da barra.
Artesão

Juliana

Francisca

Efigênia

Sebastião

Guilherme

Dilma

Leda

Graça

Sônia

Aécio

Idade (anos)

30

25

47

55

41

72

72

57

76

-

Estado Civil

Solteira

Casada

Casada

Casado

Solteiro

Viúva

Viúva

Casada

Viúva

Casado

Profissão

Do lar e
rendeira

Do lar e
bordadeira

Professora e
filezeira

Pescador e
artesão

Artesão

Artesã

Filezeira e
lojista

Aux. De
enfermagem e
artesã/lojista

Artesã

Artesão

Pontal da

Pontal da

Marechal

Trapiche da

Pontal da

Pontal da

Pontal da

Pontal da

Barra

Barra

Deodoro

Barra

Pontal da
Barra

Barra

Barra

Barra

Barra

Quantos Filhos?

Não tem

3

1

Não tem

Não tem

4

1

1

2

6

Grau
Escolaridade

Ensino
médio

Ensino
Fundamental

Ensino
médio

Ensino
fundamental

Ensino
médio

Ensino
fundamental

Ensino
fundamental

Ensino
médio/técnico

Ensino
fundamental

Ensino médio

Faz o Cheio

Faz o Cheio

Faz o cheio

Apenas a
rede

Faz o cheio

Faz o cheio

Faz o cheio
e a rede

Faz o cheio

Faz o cheio

Faz o cheio e a
rede

Em casa

Em casa

Em casa

Em casa

Casa e loja

Casa e loja

Em casa

Loja e casa

Em casa

Em casa

Mãe

Vizinhas

A tia

Esposa

Com a vó

Com avó e
mãe

Mãe

Vizinha

Mãe

Parente

De filé

Renda de Filé

Bordado de
filé

Renda de filé

Artesanato
de filé

Renda de filé

Bordado de
filé

Renda de filé

Renda de filé

Renda de filé

Vendedor

Vendedor e o
marido

Faz a rede

Faz a rede

Vendedor

Vendedor

Vendedor

Faz e compra a
rede

Vendedor

Faz a rede

Onde reside

de

Atividades
Exercidas
Local de trabalho
Aprendeu
bordar
quem?

a
com

Termo utilizado
bordado ou
renda?
Como adquire a
rede?

Fonte: Vanise Ferreira Costa (2012).

Orós/CE

31

Apesar de tanto o filé produzido na comunidade pontalense como em
qualquer outro lugar que vive do artesanato não pode ser visto como uma simples
mercadoria. Assim, contextualizando o que remete Arantes (2004), essa arte é toda
uma visão de mundo arrematada com as linhas, o tear, bem como estão seus gostos
pelas cores, tipos de pontos a serem trabalhados, os melhores dias, horas, e as
companhias ou até mesmo a solidão da noite com a peça a ser produzida. Assim, de
alguma forma contém além de toda uma estética (perceptiva), há apropriação efetiva
do trabalho no artesão. Fato esse que também pode ser vista nas considerações de
Arantes (2004, p. 13) quando remete que:
Contudo, de um ponto de vista interno à cultura e à experiência social,
produto e processo são indissociáveis. As coisas feitas testemunham o
modo de fazer e o saber fazer. Elas abrigam também os sentimentos,
lembranças e sentidos que se formam nas relações sociais envolvidas na
produção e, assim, o trabalho realimenta a vida e as relações humanas […]
Mas, em contrapartida, encontra-se em cada obra ou na lembrança que se
tem dela o testemunho do que alguém é capaz de fazer. O produto feito
encerra a autoria individual e o fazer coletivo, a capacidade de repetir um
gesto e de modificá-lo, mantendo viva – mas nunca idêntica – a tradição, já
que, nas frases ditas, a linguagem se perpetua e constantemente se renova.

Arantes (2004) argumenta que, apesar de ser um indivíduo e sua própria arte,
seu modo de fazer e saber, no caso a arte do “filé”, por exemplo, carrega uma
construção social que o impregna com uma identidade social7, uma vez que, é a
soma de ações individuais construídas por atores em situações sociais que as
interpretam como referência de sua própria cultura.
Os artesãos, basicamente, têm seu ofício considerado como uma prerrogativa
de indivíduo competente e seguidor de seus antepassados, isto é, a cultura do filé se
perpetua como uma arte passada de geração a geração. Portanto, são nas
diferenças culturais que os tornam iguais, como podem ser observados nas
concepções de cultura de Geertz (1997), onde tais diferenças nos aproximam de
outras culturas.
Desta

forma,

as

diferenças

culturais

nos

dias

atuais

podem

ser

compreendidas numa escala mais ampla, ou seja, noutro plano, quando eleva na
perspectiva do impacto da globalização enquanto fenômeno atuante na vida dessa
7 Identidade social - entende-se no sentido de reconhecimento consciente, por parte dos indivíduos,
da identificação dos valores, práticas e saberes com os quais estabelecem contato e incorporam em
suas rotinas cotidianas.

32

comunidade, no caso o Pontal, onde o fenômeno de visibilidade é condicionado
através de meios impessoais – como internet, jornais e o contato com outras
pessoas, países e culturas, ocasionam o processo globalizante (WARNIER, 2000),
no qual trouxe visibilidade ao bairro, consequentemente, maior fluxo de pessoas
ocorrendo aumento no mercado do filé.
Saber lidar com toda visibilidade de atração é um desafio para os
pontalenses, ao serem artesãos e ao mesmo tempo morar no bairro que virou
“atrativo”, já que o Pontal é reconhecido como centro do artesanato, onde não se
podem prever os novos desafios estabelecidos com o aumento da produção dessa
mercadoria. Assim como os problemas sociais que irão enfrentar futuramente os
artesãos, devido à ação globalizante desenfreada que ocorre em todo o mundo, bem
como não se pode esperar uma cultura estática, cristalizada, sem contato com
diversas outras, como diria Kuper (2002), uma vez que toda cultura é dinâmica,
longe de estar numa dimensão de cultura total.
Porém, o que podemos questionar no momento atual é, até que ponto os
artesãos podem se render ao comércio global? Para Canclini (1983), enquanto as
ações de massa não obtiverem intervenções adequadas e uma eficácia da mídia, o
que irá prevalecer são comportamentos grupais erráticos, vinculados pelo imaginário
do consumo e menos pelos desejos comunitários.
Todavia, conciliar a ideia de mercado e lucro com artesanato não é tarefa
nada fácil, peças feitas manualmente e delicadas que exigem tempo para produzir
não seriam simples assim, por exemplo, como buscar ponto de equilíbrio. Desta
maneira, o mercado teria que obedecer e respeitar o engenho humano ao vender
uma arte que requer tempo para ser feita, uma vez que a confecção do filé exige
tempo para ser feita.
O trabalho demasiado, sem respeitar limites, passa muitas fezes a ocasionar
doenças por esforços repetitivos8, em ritmos exagerados pelo trabalhador
(ANTUNES, 2003). No entanto, o filé requer tempo para produzir, como por exemplo,
segundo dona Graça “uma toalha de mesa com ponto-cruz se faz em dois ou três
8

Doenças por esforço repetitivo - LER e DORT Lesão por Esforço Repetitivo ou LER (em inglês
Repetitive StrainInjury) são lesões nos sistemas músculo-esquelético e nervoso causado por tarefas
repetitivas, esforços vigorosos. DORT - Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho causa uma
síndrome de dor com queixa de grande incapacidade funcional.

33

dias, dependendo do modelo do motivo, já uma toalha feita de filé fica pronta de seis
ou sete dias”.
Cavalcanti e Silva (2014) relatam que os pontos pequenos, bem elaborados e
de cores harmoniosa são o que tornam e o que podemos também conceituar como
de boa qualidade. Segundo os artesãos para manter essa qualidade é necessário
respeitar o tempo, fazer sem muita pressa, observar os pontos, respeitar o tamanho
e a largura que se devem fazer cada peça, ou seja, mesmo o mercado tendo sua
demanda o fator determinante para qualidade da peça é o tempo gasto.

3.3. A importância do filé como atividade de rendimentos
A relevância econômica da atividade do filé na região do Pontal pode ser
observada pelo seguinte aspecto: geração de emprego, uma vez que, ha uma
quantidade expressiva de mulheres no bairro que trabalham na confecção, pois a
mulher que está há muito tempo fora do mercado de trabalho encontra dificuldade
em retornar e é no artesanato que encontra uma forma de se reinserir.
Em Alagoas as atividades econômicas básicas dos municípios encontram-se
na agricultura, no extrativismo, na pecuária e por último na indústria e no turismo9.
Mas o turismo atualmente tornou-se uma atividade que cresce cada vez mais na
região, fatores como a ausência de políticas públicas para a agricultura familiar, a
concentração fundiária e oferta de vagas no setor comercial e industrial alagoano,
bem como o aumento do setor turístico, tem levado ao crescimento da atividade
artesanal na comunidade do Pontal.
O filé e outros artesanatos no CELMM passam a representar uma importante
fonte de renda para um grande número de pessoas, desde as famílias de
agricultores até as de artesãos da zona urbana, como por exemplo, no Pontal ele é a
principal fonte de rendimentos. São esses fatos que revelaram traços fundamentais
daquela paisagem e a importância do artesanato tradicional, dentro das dimensões
socioculturais e econômicas.

9

Enciclopédia dos Municípios de Alagoa. 2012. Disponível em < http://www.youblisher.com/p/517092Enciclopedia-dos-Municipios-de-Alagoas-2012/>. Acesso 12 jun. 2014.

34

No Pontal observa-se um engendramento de uma lógica própria ligada ao
turismo e o artesanato, um ritmo de vida diferentemente das pessoas de outros
bairros. No bairro, os artesãos, o espaço se divide entre a vida familiar, lazer e do
trabalho, isto é, integrando-se no quotidiano dessas pessoas.

35

4. A TRASMISSÃO DA TRADIÇÃO DO FILÉ

Neste capítulo, proponho um olhar etnográfico adensado e mais voltado para
as entrevistas feitas com vinte artesãos do filé10, onde descrevo entrevistas de seis
interlocutores e por último também cito as observações do quotidiano de três
crianças.
Busco categorias definidas entre os promotores de filé para funções:
comerciantes/artesãos, vendedores e clientes, assim estabelecem basicamente,
quem faz, onde vende e compra; ou seja, uma forma de identificar uma cadeia de
circulação da comercialização do filé.
Explicar a definição de tais categorias é uma forma também de compreender
alguns termos e dinâmicas dos artesãos, uma vez que, têm suas características
próprias de localidade. Logo, essas definições de dados são fiéis às narrativas
reveladas nas pesquisas junto com os artesãos. Todavia, alguns interlocutores aqui
apresentados não residem no bairro, por exemplo, os vendedores que fazem a
venda de porta a porta no Pontal. Com isso, dentro das perspectivas do contexto
social da comunidade, podem-se definir as características do que seria um artesão,
um vendedor e um lojista.

4.1. O artesão
Configura-se um “artesão” aquele que faz somente a rede/malha ou quem faz
o preenchimento/cheio. E ainda aquele que faz os dois processos: a rede e o
preenchimento. A artesã também pode ser chamada de rendeira, bordadeira e
filezeira.

4.2. O vendedor
Existem três tipos de vendedores: primeiro o que vende apenas a rede/malha
para os artesãos que fazem o “cheio”; segundo, o que vende as peças prontas de

10

Ver quadro-1 com 50% das pessoas entrevistadas. Dados colhidos entre 2012 a 2013.

36

filé e comercializam apenas com os lojistas; o terceiro é o que vende rede e peça,
este negocia com artesãos e lojistas. Mas dificilmente se encontra vendedores que
não saibam fazer a rede ou todo o filé. Todos comercializam de porta em porta por
todo o Pontal e alguns têm compradores fixos e outros não.

4.3. A lojista
Nota-se que as mulheres dominam esse ramo de negócio no Pontal, além de
confeccionar o filé tomam conta de sua própria loja. Pois, o filé é a forma de
emancipação econômica para essas artesãs.
As lojistas que não sabem o ofício do filé são denominadas como “de fora”,
isto é, não nasceram ou não residem no Pontal, em sua maioria, têm apenas sua
loja.
Percebe-se que no bairro a maioria dos lojistas são artesãos de filé, isto é,
sabem fazer o filé, mas compra de vendedores a rede/malha para confeccionar o
cheio, além de peças prontas de filé, pois a produção familiar não supre o estoque
de toda loja.
Há dois tipos de lojas no Pontal, as que se pode caracterizar como mais
tradicionais e que são lojas e residência ao mesmo tempo; e aquelas mais
sofisticadas configurando-se no papel somente de loja, geralmente de pessoas “de
fora”.

37

Foto 13: Loja simples

Foto 14: Loja mais sofisticada

Fonte (13 e 14): Vanise Ferreira Costa.

No quadro, descrito na página 30, revela 50% dos dados colhidos na
pesquisa no Pontal da Barra. Pesquisei vinte pessoas, e entre elas estão: três
homens e dezessete mulheres. Citei os três homens entrevistados no estudo, pois
percebi que a forma de trabalho deles havia muito a dizer no quesito
comercialização e circulação do filé.
Sebastião é um vendedor de pequeno porte e faz rede; Guilherme faz o filé e
vende na loja; já Aécio é vendedor de grande porte, sabe fazer a rede e o filé. Os
três interlocutores servirão para fazer uma correlação, bem como uma distinção do
saber-fazer desse ofício e de sua comercialização.
Saliento a divisão de quem faz rede e quem faz o filé no estudo para melhor
esclarecer as funções dessa atividade e a divisão de trabalho estabelecida em cada
etapa da produção, bem como definir as áreas que apresentam maior número de
artesãos que fazem somente a rede.
Desta forma, o CELMM pode ser compreendido por áreas mais propícias na
confecção da rede e outras na venda de peças prontas de filé. O Pontal pode ser
visto como mercado final e os outros municípios do CELMM como produtor para
abastecê-lo com a rede ou até mesmo o filé pronto. Sabendo que a rede é feita
somente para o preenchimento dos motivos/pontos de filé. Mas tais observações são
no sentido de maior expressividade da circulação da produção do filé, não quer dizer
que no CELMM não se estabeleça uma comercialização das peças prontas de filé,
isto é venda no próprio município.

38

Voltando ao quadro acima, é importante destacar que todos os interlocutores
afirmaram saber fazer a rede e o filé, mas algumas fazem somente a rede, e outras
apenas o cheio.
Cito lugares como o bairro Trapiche da Barra ou a cidade de Coqueiro Seco
como locais com artesãos do filé, devido ao fato de que, nas pesquisas encontrei
pessoas que somente fazem a rede/malha e vão vender no Pontal. E que apesar de
ser um número pouco expressivo de pessoas nestas localidades citadas, mas que
mostram as dificuldades de mercado do filé sobre o qual venho demonstrar no
decorrer dessa pesquisa. Considerando relevante para compor exemplos de
circulação da cadeia produtiva do filé.

4.4. Entrevistas com os artesãos do filé
São dados que foram sendo construídos durante um processo de
conhecimento

da

comunidade

pesquisada.

Na

pesquisa

observei

os

comportamentos, os modos, os problemas e de que maneira agem quotidianamente.
Para tanto, é necessário se aproximar, conversar e conhecer estas pessoas, como
diria Roberto Cardoso de Oliveira (1996). Nesse movimento, é que foi possível criar
uma relação com os interlocutores da pesquisa, bem como apresentados no
decorrer de todo o estudo.
Dentro de alguns instrumentos destacam-se dois: as entrevistas e as
observações participantes. A observação por permitir, o conhecimento da
comunidade

numa

totalidade,

dos

seus

sujeitos,

seus

pensamentos

e

comportamentos. Nessa etapa também é que vão sendo criadas as bases para uma
confiança dos pesquisados com o pesquisador, isto é, para comigo; afinal, uma vez
que eu fui aceita e a comunidade compreende qual o meu propósito lá, a pesquisa
pôde fluir com maior facilidade. É por isso que se deve primeiro observar antes de
entrevistar, para se ter uma noção do meio onde se encontra e das pessoas com
quem irá estabelecer um diálogo e assim produzir conhecimento, como diria o
antropólogo Oliveira (1996).
As entrevistas tiveram duração de janeiro de 2012 a dezembro de 2013. Nas
primeiras vezes que fui a campo, para entrevistas e observações participativas. Pois

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já conhecia o bairro como dito a priori, devido a um trabalho de campo na disciplina
eletivo Pesquisa etnográfica do segundo semestre de 2011, na qual fizemos um
artigo, mas quero esclarecer que para realização deste estudo elaborei novas
questões semiestruturais para novas entrevistas, assim não tendo relação com a
disciplina.
Tendo em vista o objetivo de realizar entrevistas com agentes diretos na
produção do filé e assim entender como se daria a cadeia desta comercialização do
filé. Faço um recorte de apenas seis entrevistas, onde descrevo suas narrativas, pois
tais dados puderam perceber suas redes de relações de vizinhança ou até mesmo
de parentesco, pautadas pela presença constante de códigos simbólicos que dão
sustentação ao trabalho cotidiano, conferindo assim, sentido ao trabalho e à vida
social, cujos afazeres do ofício do filé marcam toda dinamicidade da vida desta
comunidade.
Desta maneira, descrevo a seguir, como foram elaboradas as questões que
compuseram a entrevista semiestruturada:
10-Onde mora e porque está no Pontal? Nome, idade e sexo?
Objetivo: saber o que motivou a ir vender as peças de filé ou rede/malha no Pontal.
Se o mercado no bairro é promissor.
2- Como você conheceu o filé?
Objetivo: Saber de que modo lhe foi apresentado o filé: meio familiar, parentes,
vizinhança, amigos.
3- Você gosta de fazer filé?
Objetivo: Saber se aquilo que faz é de algum modo satisfatório para ela, buscar
entender porque o faz.
4- O que o filé representa para você?
Objetivo: Saber qual o significado que atribui à prática do filé durante o seu dia-a-dia
e ao longo de sua vida.
5- Você faz todas as etapas do filé? Desde a rede, cheio e a aplicação da goma?
Objetivo: saber se existe uma divisão de tarefas, bem como uma cadeia produtiva.
6- Como é feita a compra da rede/malha?

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Objetivo: saber se compra aos revendedores ou algum parente, vizinho, amigos.
7- Como é trabalhar com o filé no dia-a-dia?
Objetivo: Saber como é o ritmo vivenciado por elas durante o seu dia de produção.
Quais as peças que vendem mais, qual o dia mais movimentado e quem são os
seus consumidores.
8- Quais as peças que você mais gosta de fazer?
Objetivo: Saber a preferência por determinadas peças e principalmente a questão de
tamanhos.
9- Os rendimentos com o filé são para que?
Objetivo: saber se é para seu próprio sustento e/ou de toda família. E se tem mais
alguma profissão.
10- Qual o período que você mais trabalha?
Objetivo: saber se é apenas na alta temporada do turismo.
Assim, as entrevistas semiestruturadas foram aplicadas apenas no bairro
Pontal, porém com pessoas que residem no bairro ou que vão vender sua
mercadoria de filé nesta comunidade.

4.4.1. Juliana
Tem 30 anos de idade, nasceu no Pontal, mora com os pais e uma irmã na
avenida principal Alípio Barbosa. Sabe o ofício do filé desde os 12 anos, quando
aprendeu com sua mãe que já não faz com

déia ncia. A irmã trabalha com o filé e

o pai faz a rede.
Para complementar a renda familiar utiliza um cômodo, sala de estar, de sua
casa para aluguel, e assim, servindo de ponto comercial, tendo como inquilino a
lojista dona Graça.
A entrevista se deu em meio à prosa, sentada na calçada com as duas
vizinhas e também artesãs. Estava fazendo o que para Juliana é sua especialidade,
jogo americano, pois as peças pequenas são mais facilmente comercializadas, bem
como produzidas no Pontal.

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Ao ser questionada sobre os pontos que não sabia fazer, afirmou não se
interessa em aprender o ponto rabo-de-pavão, por ser utilizado geralmente em
peças grandes, como colchas e toalhas, tampouco não aprendeu a fazer
rede/malha.
Notei que suas peças têm malha pequena e pontos bem arrematados. São
vendidas diretamente a turistas e as lojistas do próprio bairro. Segundo ela, o que
recebe com a venda das peças é pouco: “O que recebo é bem pouco, não dá para
ajudar em casa, apenas compro minhas coisas”.
Para as três artesãs e vizinhas, sentarem na porta todos os dias para fazer o
filé enquanto os turistas passam é uma maneira de produzir e vender. Ficam atentas
aos vendedores que passam com redes, pois elas preferem comprar a rede pronta.
Durante a entrevista, Juliana ficou interessada em comprar uma rede do
vendedor Sebastião que ia passando com algumas peças penduradas no bagageiro
de sua bicicleta. Percebe-se que no Pontal as artesãs, geralmente, compram a
rede/malha pronta para fazer o preenchimento.
Juliana informou que compra a linha para fazer o cheio do filé no mercado de
sua tia, ali mesmo no bairro. São novelos feitos com diversas cores e vendidos no
peso. Notei que é o único ponto comercial que faz esse tipo de venda de linhas,
diferenciadas das demais. É vendido em meio aos produtos alimentícios e o dono da
“venda” (como ainda tem escrito na fachada do mercadinho) teve a

déia de

customizar os novelos de linha para a produção do filé. “Gil” o dono do mercadinho é
esposo da tia de Juliana e passa o dia entre o atendimento aos clientes e o trabalho
em misturar as cores de linhas em tubos de um só novelo, e assim, produzindo
vários outros novelos coloridos.
Para fazer os novelos customizados, Gil teve a

déia de juntar várias cores

de linhas, mas não de forma desordenada, segundo ele: “há uma combinação de
cores tornando um atrativo e diferencial, já que mais ninguém do bairro vende
novelos coloridos”.

Assim, além de ser uma nova forma dos artesãos não

comprarem vários novelos de cores diversas, e assim tendo um custo menor com a
matéria-prima. Alguns artesãos disseram-me que antes quando não compravam as
linhas no mercadinho do Gil suas peças eram menos coloridas.

42

4.4.2. Dona Graça
Tem 57 anos de idade, aprendeu o filé com a mãe aos 7 anos. O primeiro
ponto que aprendeu foi o cerzido. Nasceu em Marechal Deodoro, mora no Pontal há
muito tempo, numa rua adjacente a principal. Ela é lojista e auxiliar de enfermagem,
só vai para loja no período da tarde quando não está de plantão.
Sua loja é o cômodo alugado da casa de Juliana que se torna uma
loja/residência semelhante as demais do bairro.
Na loja as peças artesanais são distribuídas por mesas e cadeiras, bem como
penduradas por arames nos caibros de sustentação nas paredes, onde geralmente
são as peças maiores, como toalhas, colchas, caminhos de mesa. E as peças
pequenas em cestos de palha em cima de banquinhos distribuídos por toda loja,
quando não, numa mesa ou balcão.
Perguntei a dona Graça se havia diferença entre o filé de sua mocidade e o
atual, ela respondeu que sim: “Antigamente o filé era de risco, isto é, utilizavam-se
os motivos de ponto-cruz, crochê e de pinturas das revistas”.

4.4.3. Francisca
Casada com Carlos, 25 anos de idade e com 3 filhos. Nasceu em Pão de
Açúcar, mora no Pontal há dois anos, na rua Alípio Barbosa, onde aprendeu com as
vizinhas a fazer o filé assim que chegou ao bairro. Compra as linhas no próprio
bairro na “venda” do Gil e vende o filé oferecendo aos lojistas e às vezes quando
aparecem encomendas na porta de sua casa.
O primeiro ponto que aprendeu foi o cerzido, o que demonstra ser o ponto
básico para se aprender o filé. Não aprendeu a fazer a rede, pois compra dos
vendedores que passam. Trabalha mais no horário da tarde e nos fins de semana,
por ter que cuidar da casa e das crianças.
Carlos que também sabe fazer o filé. Ele é formado no curso tecnológico de
química e trabalhou na Braskem, hoje trabalha no DETRAN e nos fins de semana
conserta a rede de pescaria e faz filé.

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Ele disse: “antigamente, há uns dois anos atrás, eu pescava, mas agora parei,
porque não se têm peixes na lagoa, prefiro ficar em casa fazendo a rede e o filé”.
Perguntado sobre o que ele achava da Braskem, uma indústria de grande
porte nas proximidades da comunidade, ele ressaltou que – “hoje ela é uma mãe,
antigamente é que se tinham muitos conflitos com os moradores, pois ela queria
também fechar a estrada que liga Pontal com o Trapiche”. Estas ressalvas também
podem ser vistas em Vieira (1997, p. 70) quando remete que:
A relação da população de Maceió e dos moradores do Pontal da Barra aos
efeitos da indústria e à ameaça de expulsão, levou ao surgimento de uma
ação coletiva que mobilizou segmentos da população de Maceió, e ocupou
as páginas dos jornais locais, em meadas da década de 80 (…) A
convivência dos moradores com a indústria tem sua história, uma história de
lutas, de pressões, de vitórias parciais”.

Além da Estrada que liga Pontal a outros bairros, os moradores protestaram
em relação a outros problemas ocasionados pela indústria, pois as mobilizações
eram freqüentes devido à insegurança dos moradores da comunidade com os
efeitos dos resíduos poluentes desta indústria petroquímica.

4.4.4. Efigênia
Casada, 47 anos de idade, tem 1 filho, mora em Marechal Deodoro, aprendeu
aos 13 anos a fazer filé com sua tia. Efigênia é artesã e professora do ensino
fundamental, o esposo é pedreiro e o filho frentista.
Encontrei dona Efigênia em maio de 2012 num dia a campo, estava vendendo
suas peças de filé para as lojinhas no Pontal.
Segundo ela, sua venda é pouca, mas ajuda nas despesas da casa: “Vendo
no Pontal há mais de 30 anos, antes eram todos os finais de semana e agora
apenas uma vez por mês, por causa da minha profissão como professora”.
Nota-se como a cidade de Marechal Deodoro tem potencial para
comercialização do filé. No entanto tornou-se dependente de outros locais para
escoar sua produção, por encontrar barreiras como ausência de políticas públicas e
incentivos aos pequenos artesãos.

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4.4.5. Sebastião
Tem 55 anos, nascido em Coqueiro Seco, é casado, mora no Trapiche da
Barra é vendedor, artesão e pescador, aprendeu a fazer filé com sua esposa, artesã
natural da cidade de Marechal Deodoro. Ambos fazem apenas a rede e ele
comercializa a produção uma vez por semana no Pontal, há mais de 19 anos.
Ele disse que: “quando a coisa se aperta, eu saio para vender. Tem vezes
que saio para vender e não vendo nada. É no verão que é melhor temporada. O
dinheiro com a rede é para complementar o sustento da casa”.
O discurso de seu Sebastião pode ser explicado no quadro abaixo de como
acontece o escoamento da comercialização do filé nas regiões do CELMM, onde
apesar de estar num bairro da capital pouco expressivo na quantidade de artesãos,
o Trapiche da Barra, mas que são nativos de municípios com grande predominância
do filé e principalmente na confecção da rede/malha.

Quadro 2 - Dados do CELMM de maior incidência para produção.
Cidades do CELMM
Produção
Coqueiro Seco
Rede
Santa Luzia do Norte
Rede
Marechal Deodoro
Rede e o Filé
Maceió - Pontal da Barra
Filé
Fonte: Vanise Ferreira Costa (2012).

Característica
vendedores
vendedores
Artesãos e vendedores
Artesãos e lojistas

O quadro apresenta a circulação de consumo no CELMM, onde ressalta um
escoamento da produção dos municípios para o principal mercado o Pontal.
Mostra também de forma esquematizada a divisão de trabalho dos artesãos
de filé, de modo a demonstrar a maior expressividade da produção. Contudo, não
significa dizer que em Coqueiro Seco, por exemplo, só existem vendedores de
malha, lá também se encontra o filé, bem como nas outras áreas citadas, porém em
menor quantidade. E também que o artesão não venda em sua própria cidade, o
quadro é apenas para explicitar a maior predominância da comercialização.
Portanto, perante as pesquisas realizadas observei que Coqueiro Seco, Santa
Luzia do Norte se caracterizam pela especialização da confecção da rede/malha,
isto é, a primeira etapa do filé, que será vendida principalmente no Pontal. E no caso
da cidade de Marechal Deodoro apesar de ser voltada para o setor do turismo e do

45

artesanato tem alguns artesãos que vão vender a rede e as peças prontas de filé no
Pontal.
Assim, ausência de incentivos no setor turístico e apoio aos artesãos nestas
áreas do CELMM, em particular Coqueiro Seco, como é descrito na Enciclopédia
dos municípios de Alagoas (2012, p. 45) “[…] a economia local não consegue
aproveitar esse aspecto para dinamizar sua agricultura, que é de baixa
produtividade, nem o seu potencial turístico [...]”. Visto que, o setor turístico
alavancaria a produção do artesanato, principalmente do filé.
Situações como estas também se encontra Santa Luzia do Norte, onde sem
investimento no turismo não se consegue ter acréscimo na produção do filé, ficando
muitas vezes com a confecção da primeira etapa do filé, isto é a rede/malha para
abastecer o mercado do Pontal.
Portanto, áreas do CELMM com baixíssimo escoamento do filé, e assim,
limitam na produção de rede/malha, uma vez que é um produto que encontra
mercado no Pontal, onde os artesãos para ganhar tempo na confecção preferem
fazer o cheio, segundo as falas dos próprios interlocutores, como diz Juliana: “Eu
compro a rede aos revendedores para fazer o cheio e assim ganhar tempo na
confecção demais peças”.
Com isso, os municípios como Coqueiro Seco, Santa Luzia do Norte,
Marechal Deodoro na produção, em sua maioria, tornaram abastecedores do
mercado com maior fluxo artesanal, no caso o Pontal.

4.4.6. Aécio
Tem 42 anos de idade, casado, tem 6 filhos, é vendedor e artesão, nasceu e
mora em Orós município do Ceará, aprendeu esse ofício desde os 7 anos de idade.
Após a morte do pai herdou os negócios da família, confecciona e faz a venda em
um caminhão baú, do filé produzido por toda sua família, no qual percorre quase
todos os estados nordestinos. Todos da família fazem o filé e não compram a
rede/malha como vimos no Pontal, sua produção vai desde a primeira etapa da rede
até seu preenchimento.

46

A entrevista com Aécio foi realizada no dia 02 de junho de 2012 no Pontal.
Muito popular entre os lojistas do bairro, pois somente ele comercializa filé produzido
em outro Estado. Leva também a sua produção de filé para várias cidades do Brasil,
tais como: Salvador, Recife e Rio Grande do Norte. Ele disse que: “Deixei de ir a
lugares mais longe, como São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina, porque não
tenho muita mercadoria”.
Aécio sabe confeccionar o filé, mas prefere somente vender viajando por
vários estados brasileiros, acompanhado, da esposa ou de um dos filhos. A maioria
da carga é composta de cortinas, colchas, toalhas de mesa, caminho de mesa, capa
de almofada e saída de praia. Os atendimentos aos lojistas acontecem diretamente
no caminhão estacionado na rua principal do Pontal, próximo a Praça da Associação
dos

Pescadores,

bem

como

algumas

peças

encomendadas

é

entregue

pessoalmente nas lojas por seu acompanhante de viagem.
Ao se familiarizar com a confecção do filé, aprende-se a reconhecer e
diferenciar entre as peças de filé do Pontal e de Orós. A produção no município do
Ceará são peças maiores, sem muita diversificação nos pontos, cores repetidas e
não utiliza goma para o acabamento nas peças, segundo Aécio: “as peças são
maiores porque as peças pequenas os artesãos aqui do Pontal já fazem, então eles
preferem comprar peças que não são muito feitas por eles”. Essa pouca diversidade
é devido ao fato que precisam de maior agilidade na confecção, uma vez que
precisam atender a vendas em vários mercados.
Suas peças utilizam sempre os pontos: cerzido, aranhão e corrente, quando
feitos em tamanhos grandes, o cerzido preenche toda a peça, são usados
geralmente em colchas e peças de porte maior, não são engomadas, característica
das peças vindas do Ceará.

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Foto 15: Filé de Orós-CE

Foto 16: Filé do Pontal/AL

Fonte (15 e 16): Vanise Ferreira Costa

Para Aécio, sua família se organiza distribuindo-se em diferentes atividades
associadas ao filé. É comum na sua cidade encontrar famílias inteiras reunidas
confeccionando o filé para vender em outras cidades, segundo ele, há uma
reorganização das relações familiares que constituem a unidade produtiva e
comercial na produção de filé no município de Orós. Onde confecção de filé, as
vendas, o transporte de mercadorias e o estabelecimento de lojas em outros estados
do Brasil, são formas que contribuíram para a expansão de mercado.

4.5. Crianças e suas ligações com o espaço chamado Pontal
Percebe-se no cenário do quotidiano, o modo de transmissão do saber-fazer
filé das crianças junto às artesãs mais experientes e ao mesmo tempo suas
primeiras experiências com linhas e bastidores, bem como o modo de negociar com
turistas e nativos são relevantes no quesito de pertencimento de local.
Na calçada com bancas11 improvisadas com caixas velhas de madeira e
outras de papelão, as três crianças, entre 9, 10 e 13 anos, sentadas em seus

11

Banca - um caixote ou de papelão ou de caixa de madeira para servir de estante para vender as
peças artesanais.

48

banquinhos vendiam peças de filé, no qual faziam ali com mãos habilidosas suas
próprias peças em pequenos teares.
Elas não foram muito receptivas ao meu primeiro contato, sempre
desconfiadas, por perceber que eu não era turista e não estava ali pra comprar seus
produtos. Logo, perguntaram se eu era do “Conselho12”. Esclareci que era estudante
e estava fazendo pesquisa sobre filé no Pontal.
Assim, aos poucos ganhei a confiança das crianças, a ponto de falarem sobre
suas vidas. Jake com 11 anos de idade e seu irmão José de 9 anos, contaram-me
que tinham mais cinco irmãos e todos moravam com os pais, apesar de sua mãe ser
alcoólatra, seu pai desempenhava toda responsabilidade nos cuidados e sustento
dos filhos, todos confeccionavam o filé e vendiam no próprio bairro.
Jake aprendeu a fazer o filé ao ver as meninas mais velhas fazendo. Disse
Jake: “via elas fazendo e acabei aprendendo também, não era fácil mas aos poucos
aprendi também”. Suas peças eram pequenas, tais como: cintos, marca-texto e
bolsinhas. Também, percebi que todas as peças de filé eram de sua autoria, pois os
pontos e o arremate estavam inacabados, algo que só um adulto com experiência
teria habilidade de fazer.
Já Maria era a mais velha entre as crianças, com 13 anos e também a mais
tímida. Disse que conseguiu um tear velho na rua quando estava passeando e a
partir daí teve ideia de colocar uma “banca” num ponto próximo ao estacionamento
dos ônibus de turismo no Pontal.
Maria disse: “Depois que coloquei a “banca” vinha vários turistas tirar fotos e
perguntavam se fui eu quem fiz, aí depois meus irmãos resolveram fazer também”.
Para os autores Milito e Silva (1995), essa ocupação do espaço público é modulada
pelas relações sociais daquele local específico, pois tais relações excedem ao do
convívio amistoso, onde a paz é garantida por acordos mais ou menos tácitos, ou
seja, está no lugar público próximo de casa, no ambiente em que você conhece e é
reconhecido o trará “proteção”. Pois, ainda são pequenas crianças para se atrever a
outros territórios desconhecidos.

12

O Conselho - chamado pelas crianças referem-se ao Conselho Tutelar de Maceió.

49

Essas crianças me fazem refletir e avaliar o processo de socialização e de
aprendizado prático que mesmo enfrentando os imponderáveis conflitos do agir
como adulto na infância, para superar os percalços causados da vida perante a
vulnerabilidade familiar, submetendo ao trabalho para seu próprio sustento, algo
dicotômico e de múltiplas facetas de complexidade.
Por outro lado, se pode correlacionar os estudos de Milito e Silva (1995, p. 30)
sobre esta situação de crianças nas ruas, e que nos fazem refletir diretamente sobre
as crianças e os elementos complexos aqui mergulhados:
Os meninos na rua são a regra ao mesmo tempo trágica e monótona. Não
são vítimas de si mesmos nem de um fado perverso. Trazem em si as
marcas de um fracasso coletivo, um fracasso social, um fracasso político.
Não falam de nós mesmos porque nós nos salvamos em nossos
apartamentos refrigerados. São múltiplos, coletivamente organizados, não
trazem como coletividade marcas psicológicas especiais. São comuns,
humanos, mas diferentes. Não delimitam nossa condição. Ameaçam nossa
condição, ao exibirem de forma inquestionável uma outra face da sociedade
e a questionarem, pela sua presença coletiva, qual a verdadeira, qual a
excepcional?

Percebe-se ausência em políticas públicas voltadas para a educação dessa
faixa etária, na qual promove estas situações de crianças nas ruas, ao mesmo
tempo são discriminadas até por quem deveria protegê-las desta situação de
vulnerabilidade. Há poucos projetos e creches no bairro para absorver tantas
crianças.

Foto 17: Crianças no Pontal.

Fonte de: Maria de Fátima Santos.

50

CONCLUSÃO

No Pontal, no decorrer da pesquisa constatei que, o filé é a atividade
principal de trabalho para a maioria das famílias. O turismo é o fator que tem
motivado o desenvolvimento do mercado para esse tipo de ofício, levando o filé para
diversos lugares no mundo.
O filé dentro da comunidade pontalense é um saber-fazer artesanal que
procura preservar os traços característicos de uma cultura de região ribeirinha, e que
ao mesmo tempo não o impossibilita de criar e recriar. Um criar galgado por uma
mistura de cores, de trançados, de adereços fazendo do filé um símbolo de
criatividade nas mãos.
Apesar de que, o filé se encontra nas regiões do CELMM, apenas no Pontal
se sobressai no quesito como atividade principal, já que em outros municípios o filé
tornou-se uma atividade secundária visto que o extrativismo e a cana de açúcar é o
principal comércio, como apontado por Normande (2000). Todavia, falta a meu ver,
na área do CELMM mais incentivo de políticas públicas, para desenvolvimento no
setor turístico e assim um aumento na venda de filé, trazendo mais oportunidade
para esses artesãos.
Pois para os artesãos, o saber-fazer filé se torna uma tarefa bastante
agradável e até desafiadora, segundo os interlocutores, principalmente quando
encontram na fala dos compradores, o reconhecimento ao trabalho que
desenvolvem, buscam sempre novas maneiras de criação, numa tentativa constante
de superarem a si mesmos. A pretensão não é vender sempre produtos iguais, por
isso estão sempre criando (grifo meu).
Compreender a importância do filé para vida desses artesãos é pensar na
maneira pela qual começou a ser confeccionado e elaborado. Como uma ocupação
para as mulheres, enquanto os seus maridos saiam para pescar, elas ficavam em
casa tecendo para consumo próprio. E com o passar do tempo, começa a ser
reconhecido como um artesanato, devido à grande variedade de peças que criaram
e a renda extra que geraram para aquelas que a produzem.

51

Daí surgiu à relação de trabalho, ter o filé como produto, enquanto constituído
de uma utilidade de uso, definido também pela ação daquele que compra, indo de
encontro ao artesão, estabelecendo assim trocas de informações.
O contato com outras culturas, a mobilidade e a informação não fizeram com
que os artesãos perdessem símbolos identitários em comum, mas sim persistirem ao
tempo e as gerações que a atravessam.
Tornou-se uma atividade de rendimentos para agregar a renda familiar. Desta
forma, com o passar do tempo o filé ganhou espaço como atividade econômica
principal em alguns lares ou mesmo como secundária em outros. Papel este, que faz
modificar o meio e até mesmo faz repensar novas formas de organização familiar,
onde a mulher tem posição direta nas funções detentoras de um ofício: o saber-fazer
filé, elevando-se a categoria de profissão.
O Comércio do filé no Pontal, antes vila de pescador, passar a ter uma nova
fonte de renda familiar, exercendo a função de um emprego, quando o movimento
do turismo desperta a visão de mercado, uma vez que no ato da compra estabelece
esta relação na qual se paga por um produto que se deseja, seja para ele mesmo,
como um utensílio ou presente e assim criando uma rede de contatos, trazendo
futuramente mais pessoas que estejam interessadas em conhecer este produto. É
uma relação de interdependência, onde os turistas sustentam e dão vazão ao
comércio do filé e as artesãs ou artesãos vivem da venda, e da afirmação destas
condições de criadoras inventivas dentro da comunidade.
A valoração do filé para com o ambiente que o mesmo se sobrepôs, ou
melhor, as áreas do CELMM, onde se dividiu em municípios abastecedores da
produção, e do outro lado apenas o bairro do Pontal da Barra, na qual se tornou com
maior em incidência para o “mercado e da produção”.
Contudo, as artesãs do Pontal é que devem decidir quais as mudanças a
serem aceitas e quais se opõem aos seus interesses, na medida que as mesmas
desempenham um papel de protagonistas e iremos tendo uma cultura popular,
reconhecidas por elas e os não membros da comunidade como símbolos de
identidade. Onde o filé se encontra nas áreas do CELMM de forma significante,
constituindo um elemento de destaque na vida da população. E o Pontal, por
exemplo, estão às oportunidades com o turismo gerando, a venda do artesanato e a

52

interação com a natureza existente no bairro, revalidando as questões de identidade
social e de pertencimento daqueles artesãos, que isso possa se estender para
outras áreas de todo o CELMM.

53

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