Padrão de resposta da prova de Teoria
PADRÃO DE RESPOSTA PROVA TEORIA.pdf
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS - ICS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM
SOCIOLOGIA - PPGS
MESTRADO EM SOCIOLOGIA SELEÇÃO 2020
EDITAL 01/2019
PADRÃO DE RESPOSTAS DA PROVA DE TEORIA SOCIOLÓGICA
Questão 01.
O candidato deve destacar a tensão existente entre as escolas francesa e alemã no que diz
respeito as especificidades do objeto e método das ciências sociais. Indicar a influência do
positivismo e das ciências naturais na construção do método sociológico desenvolvido por
Durkheim, destacando as características do fato social (exterioridade, coercitividade e
generalidade) bem como as normas relativas a observação dos fatos (Tratar os fatos sociais
como coisa, afastar as prenoções, tomar como objeto de investigação um grupo de fenômenos
previamente definidos por certas características exteriores que lhes sejam comuns e analisar
os fatos sociais sempre atento a não intrusão das manifestações individuais do pesquisador,
pois estas podem prejudicar a objetividade do conhecimento). Apresentar as principais
críticas desenvolvidas pela escola alemã ao positivismo francês, indicando a especificidade
do objeto sociológico desenvolvido por Weber (Ação Social) e mostrar como a razão histórica
se contrapõe a razão científica. (Weber inspirado por Dilthey entendia a Sociologia como uma
ciência do espírito, desse modo, compreender o fenômeno social pressupõe recuperação de
sentido).
Mostrar como Durkheim e Weber pensam o problema da incorporação dos valores
na pesquisa social. Enquanto o pensador francês entende que os valores são aspectos da
subjetividade do pesquisador que devem ser descartados para não prejudicar a objetividade da
pesquisa, o pensador alemão sugere que estes sejam incorporados a pesquisa, uma vez que
eles funcionam como um “guia para a escolha do objeto” para o cientista, porém, eles devem
ser controlados através de procedimentos rigorosos de análise.
Indicar a diferença entre “reconhecer e julgar” na perspectiva weberiana, destacando as
duas prerrogativas que orientam o trabalho do cientista: dever científico de ver a verdade dos
fatos e o dever prático de defender os próprios valores, que devem se expostos e jamais serem
disfarçados de ciência social.
Por fim, destacar as quatro operações que Max Weber propõe para a obtenção do
conhecimento na pesquisa social, são elas:
1- Estabelecer leis e fatores hipotéticos que servirão de meios para seu estudo
2 - Analisar e expor ordenadamente o agrupamento individual dos fatores historicamente
dados bem como sua combinação concreta.
3- Remontar ao passado para observar como se desenvolveram as características individuais
dos grupamentos que possuem importância para o presente, buscando fornecer uma
explicação histórica a partir de constelações individuais anteriores e
4 - Avaliar as constelações possíveis no futuro.
Questão 02.
a) e b) É importante chamar a atenção que as três dimensões são interconectadas nos
instrumentos teóricos dos dois autores, de modo que não se pode estabelecer relações
de causalidade entre ação, constrangimento e mudança. Os planos se vinculam
dialeticamente. No caso de Norbert Elias, a dimensão da ação se expressa na
preocupação em entender como cada indivíduo adquire auto-regulação, ou seja, como
cada pessoa molda uma personalidade singular. Ele reconhece que o indivíduo
consiste em um membro de uma espécie que adquire um amplo repertório de
disposições, acumuladas como gestos e símbolos, que se exteriorizam em
circunstâncias específicas como ação e pensamento. A possibilidade de aprender e
acumular símbolos na memória é uma predisposição biológica que apenas se
concretiza socialmente. Assim, cada indivíduo é uma fonte relativamente
independente de geração de práticas, de forma que a singularidade de uma pessoa é
algo relevante para se entender o curso de uma rede. Entretanto, isso não significa
dizer que o indivíduo pode ser tomado como origem de formas de vida social ou que
controle a rede absolutamente. De acordo com o autor, a maturação de uma
personalidade, ou a aquisição de um padrão de auto-regulação individual, é o resultado
de um processo de relações que constrange e molda uma pessoa. Portanto, ser
indivíduo é tornar-se indivíduo em uma cadeia de vínculos entre pessoas, o que nos
leva à dimensão do constrangimento. Ela se expressa de diferentes maneiras no
pensamento de Elias. Uma delas é a ideia de civilização que se expressa como modos
de coação social que se torna autocoação individual. A coação social é dependente das
diferentes maneiras como as ligações entre indivíduos exercem forças sobre as pessoas
sem que elas possam controlar. Não se trata de padrões de auto-regulação individual,
mas de padrões de constrangimentos interpessoais. Como as pessoas estão ligadas
entre si em diferentes níveis, em extensas cadeias humanas, perde-se a percepção
facial e individual do exercício do constrangimento das pessoas umas sobre outras. O
constrangimento é percebido como uma força despersonalizada, ainda que seja
constituída de pessoas. A isso costumamos nomear de dimensão estrutural ou de
estrutura social. Assim, as dimensões do constrangimento entre pessoas e dos auto
constrangimentos impingidos por cada indivíduo a si mesmo, inclusive através de um
repertório de escolhas e ações, dependente de como as pessoas se vinculam umas às
outras e não da ação ou da estrutura social como dimensões apartadas. É a ideia de
rede de interdependências e de habitus social que prepara o terreno para o instrumento
teórico que capta a mudança em Norbert Elias, expressa na ideia de processo. Como
os equilíbrios das dependências mútuas entre as pessoas são relativamente instáveis e
estáveis, o movimento dos acúmulos ou do esvaziamento de dependências
interpessoais delimitam direções em que a rede muda, expressa em transmissões ou
interrupções intergeracionais e intrageracionais. É o que Elias, no texto indicado,
assinala como equilíbrio oscilante entre coações e autocoações.
Quando tratamos de Pierre Bourdieu, há algumas semelhanças e diferenças,
especialmente de ênfase, que acabam por ressaltar alguns contrastes. Bourdieu
reconhecidamente tomou como uma de suas referências a noção de habitus de Norbert
Elias. Ele a desenvolveu em sentidos singulares aos rumos tomados por suas
investigações. A dimensão da ação se expressa em sua preocupação em compreender
como se transmite, acumula e expressa um repertório de disposições. Tal como Elias,
Bourdieu se concentra no foco de como as ações de pessoas e as forças de conservação
social inscritas nelas podem ser compreendidas através das maneiras como elas se
armazenam nos corpos humanos em relação. Daí a ênfase na ideia de habitus como
sistema de disposições estruturadas predisposto a funcionar como estruturas
estruturantes. As predisposições e as maneiras como são reproduzidas e desdobradas
concentram a preocupação que abarca a dimensão da ação. Nesse sentido, a moldagem
dos repertórios de ação depende das predisposições que, como potencialidades não
conscientes, são transmitidas por forças que estão tendentes a reproduzir referências
do passado, encarnado socialmente nos corpos dos indivíduos sobre as novas gerações.
Bourdieu dedica uma parte importante de sua atenção para entender como
determinados padrões sociais se conservam ativamente através de valores que animam
o investimento afetivo das pessoas. Tais investimentos são organizados em jogos ao
mesmo tempo sociais e simbólicos em que conflitos se formam em torno de um
conjunto de propriedade sociais institualmente incorporados como valiosos para as
pessoas. São os campos sociais tendentes e se dividir entre os que se predispõem e agir
segundo as regras instituídas e, logo, manter as regras estabelecidas e aquelas que
combatem os padrões estabilizados, mesmo que também tenham incorporados as
referências de regulação de valor social vigente. A condição para a percepção do
campo como um instrumento teórico útil é a correlação com alguma situação na qual
ortodoxos e heterodoxos, ou tendentes à conservação ou tendentes à subversão das
regras mantenham um nível significativo de compartilhamento e de conservação de
algumas regras. Bourdieu mostra-se muito sensível à percepção de que é muito difícil
observar transformações absolutamente radicais nas sociedades humanas, mesmo
quando as pessoas se anunciam como operando radicalidades absolutas e participem
de genuínas mudanças sociais. Entretanto, Bourdieu mostra-se preocupado com a
dimensão da mudança. Ela está particularmente expressa na sua ideia de dialética entre
a incorporação de tendências para agir e a mudança de posições de um indivíduo nos
jogos de interesse incrustados no espaço social. A dialética entre espaço social e
habitus ganha uma síntese na noção de trajetória. Ele a define como “uma série de
posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou um mesmo grupo), em
um espaço ele próprio em devir e submetido a transformações incessantes”. Como os
interesses em torno dos quais se moldam os jogos sociais mudam incessantemente,
sem que tais mudanças sejam radicais de uma geração para outra, transmite-se
potencialidades para se lidar com os reinvestimentos de libido e interesse que
redefinem os espaços sociais, geralmente à revelia do controle de qualquer indivíduo
em particular. Trata-se da dialética entre habitus e estrutura social.
c) Os trechos e as dimensões correspondentes encontram-se a seguir:
“O caso de dona Nenê é mais um caso de moradora antiga que revela
como a favela e a vizinhança são uma zona de conforto relativo. Dona
Nenê, como outras tantas, sobretudo mulheres, com quem conversei
em campo, percebe que as coisas não são mais como na sua juventude,
época na qual conhecia as pessoas: “A gente não conhece mais
ninguém aqui”. Perguntei de onde vinha aquela impressão, já que seus
netos e filhos residem, muitos deles, no mesmo terreno em que se
encontra a casa. De um lado tem uma amiga de longa data. De outro,
um casal que reside na favela há pelo menos quinze anos. Na casa
contígua mora o seu filho que atua no tráfico. Ao lado deste, o outro
filho. O dono do bar em frente à sua casa, ela viu nascer. A casa da
esquina é da mãe do dono do bar, senhora conhecida de longa data de
dona Nenê. Fiquei pensando o que ela queria dizer com “A gente não
conhece ninguém aqui”. A favela cresceu! Toda uma geração que
chegou há quinze anos, ou mesmo que nasceu ali, e que não é do seu
convívio, não faz parte da relação mais próxima dessa senhora.
Entendo esse “não conhecer ninguém” como referência ao fato de
experimentar um deslocamento, um desencaixe, para usar um termo
de Giddens (1999); ela está ligada ao local, mas o tempo a faz
experimentar uma sensação de desconhecimento em relação a quem
habita a favela. Uma sensação de que não pertence mais àquele espaço
do qual antes tinha tanto controle, ela e as pessoas que com ela
construíram, tijolo a tijolo, as casas, bancos quadras etc. na favela.
Uma sensação que, em última instância, pode revelar uma equação
que diz: menos identificação local igual a menos segurança. Na
sequência, ela conta que as coisas mudaram. Como os mais jovens
agora têm menos respeito pelos mais velhos, como os moradores
antigos se indignam quando vem pessoas dependentes de drogas
(moradores ou não) passando em frente às suas portas tentando vender
qualquer coisa (ela disse que vendem de disco e cd à liquidificador)
para comprar drogas. Antes (ela se refere à década de 1970), as
pessoas fumavam maconha escondidas. Tinham vergonha. Agora
ostentam seu vício pelas ruas da favela.” (CUNHA Christina Vital.
Oração de traficante: uma etnografia. Rio de janeiro: Garamond, 2015,
p. 175)
[A1] Comentário: mudança
[A2] Comentário: mudança
[A3] Comentário: constrangimento
[A4] Comentário: constrangimento
[A5] Comentário: ação
[A6] Comentário: ação
[A7] Comentário:
[A8] Comentário: constrangimento
[A9] Comentário: mudança e ação
Questão 03.
Nesta questão, o candidato deverá, de maneira dissertativa, respeitando-se os critérios
de clareza, objetividade e uso adequado da linguagem formal escrita, apresentar as distinções
entre os métodos ditos nomotéticos e idiográficos da pesquisa social. Poderá fazer isso, seja
apresentando um e outro conceito, seja mesmo distinguindo as nuances de cada tipo de
pesquisa. Outra forma de apresentar esta distinção pode ser através da pontuação entre as
características gerais do que conhecemos, de maneira generalista na área por – métodos
quantitativos e métodos qualitativos.
Espera-se ainda do candidato que atente para o fato de que a questão, na verdade,
embute 2 outros debates além do que se relaciona à distinção entre os métodos nomotéticos e
idiográficos, a saber: quais seriam ainda as desvantagens e vantagens da aplicação e do uso de
cada um destes métodos distintos na pesquisa social e, finalmente, a deliberação sob as
possibilidade de justaposição e integração entre os referidos métodos. Seja para um ou para
outro debate, almeja-se que o candidato demonstre familiaridade ao descrever e relatar
aspectos positivos e limitadores de cada um destes métodos em particular, tanto quanto aos
limites e possibilidades de integração de ambos.
Há, sugestivamente, várias possibilidades ou caminhos que o candidato pode usar para
responder a estes dois outros itens. No geral, o candidato poderá tomar como ponto de partida
o caso de Manari para exemplificar a questão dos limites e vantagens de cada método, mas
necessariamente, espera-se que vá mais além, discorrendo sobre os parâmetros de coleta de
dados, verificação e teste em cada método. Da mesma forma, em se tratado da questão da
integração metodológica, espera-se que o candidato discorra, enuncie e comente sobre as
virtudes e as potencialidades de pesquisas sociológicas orientadas pela combinação de
métodos mistos e pela justaposição de formas distintas de teste e validação.
Finalmente, é aguardado o candidato referencie a bibliografia sugerida no edital ou
ainda outras referências que sejam adequadas ao tratamento do tema. Por conseguinte, se
julga inadequado nessa questão que o candidato verse sobre seu projeto de pesquisa, sobre
suas impressões exclusivamente pessoais acerca de um ou outro método, ignore a bibliografia
sobre o tema ou ainda trate o caso concreto descrito na questão como único elemento para
discussão sobre os problemas levantados. É plausível que o candidato saiba, portanto,
compreender o caso descrito como uma ilustração das perguntas suscitadas pela questão e não
o compreenda como um estudo particular que pressuponha aqui uma resposta aplicada e
direcionada ao caso.
