Elisvânia Lopes Garcia Nascimento
O PESO DO FICAR: MOBILIDADES, TRABALHO E RESISTÊNCIAS FEMININAS NOS QUILOMBOS NO TERRITÓRIO DO TAMANDUÁ
Resumo
Mesmo diante da garantia ao direito constitucional ao território, os quilombos seguem enfrentando uma permanente insegurança em suas terras tradicionalmente ocupadas, marcada por um cenário político e institucional cada vez mais adverso à titulação definitiva. Em Alagoas, essa realidade é evidente: das cerca de oitenta e uma comunidades reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares, apenas uma possui o título definitivo de propriedade de seu território, revelando a lentidão institucional histórica do Estado brasileiro diante de um direito constitucional. A ausência de políticas públicas voltadas a permanência no território e à geração de emprego e renda intensifica a saída dos quilombolas em busca de trabalho, muitas vezes sob condições precárias e atravessadas pelo trabalho escravo contemporâneo. Nesse contexto, este trabalho constitui o ponto de partida da pesquisa de mestrado, propondo uma leitura antropológica sobre a mobilidade laboral quilombola no território quilombola do Tamanduá, entre o Baixio e o Alto, no sertão alagoano, entre os municípios de Santana do Ipanema e Poço das Trincheiras, analisando as narrativas e experiências das mulheres que permanecem no território. São elas que, diante das ausências provocadas pelas viagens a trabalho, sustentam a vida comunitária, preservam os vínculos territoriais e resistem às múltiplas expressões da desigualdade histórica. A pesquisa foi realizada através de uma abordagem etnográfica ao longo do período de outubro de 2023 a novembro 2024, tendo como eixo metodológico as oficinas temáticas desenvolvidas nos quilombos do Baixio do Tamanduá e Alto do Tamanduá no contexto do Projeto Òmnira Liberdade coordenado pela Rede Mulheres de Comunidades Tradicionais. Nesses encontros, o uso do audiovisual, especialmente a exibição do filme Pureza, funcionou como disparador das discussões, permitindo que as participantes articulassem suas experiências sobre migração, trabalho escravo contemporâneo e cotidiano comunitário, as reuniões de articulação e mobilização das redes de apoio multidisciplinar de combate ao trabalho escravo. Essa observação participante possibilitou uma escuta sensível e qualificada das narrativas e das dinâmicas sociais que estruturam a vida dos quilombos.
