NADER, L. Para cima, Antropólogos: perspectivas ganhas em estudar os de cima. Antropolítica, n. 49, p. 328–356, 2020
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T rajetórias
e perspectivas
Para cima, Antropólogos: perspectivas
ganhas em estudar os de cima
Up the Anthropologist: perspectives gained from
studying up
Laura Nader
Estados Unidos. Universidade de Berkeley. Professora do Departamento de Antropologia da
Universidade de Berkeley e integra a Academia Americana de Artes e Ciências. Ph.D em Antropologia
pelo Radcliffe College. E-mail: lanad@berkeley.edu.
Tradução de Mirian Alves e Wellington Santos
Mirian Alves
Brasil. Universidade Federal Fluminense. Doutora em Antropologia, professora do Departamento
de Antropologia da Universidade Federal Fluminense e do Programa de Pós-Graduação em Justiça
e Segurança. Pesquisadora do Núcleo de Estudos do Oriente Médio e do Instituto de Estudos
Comparados em Administração de Conflitos. ID ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7153-9335.
E-mail: mirian.uff@gmail.com. Colaboração: Tradução, redação e revisão.
Wellington Santos
Brasil. Universidade Federal Fluminense. Graduando do curso de Antropologia da Universidade
Federal Fluminense, em fase de conclusão. Pesquisador do Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas
e do Laboratório de Etnografia Metropolitana. ID ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2747-7274.
E-mail: wellington_marcello@id.uff.br. Colaboração: Tradução, redação e revisão.
Resumo
Neste ensaio, descreverei algumas das oportunidades que os antropólogos têm de
“estudar os de cima” (studying up) em sua própria sociedade, na expectativa de
fomentar mais discussões sobre o porquê estudamos o que estudamos (NADER,
1964). Os antropólogos têm uma grande contribuição para a nossa compreensão
dos processos pelos quais o poder e a responsabilidade são exercidos nos Estados
Unidos. Além disso, há uma certa urgência para esse tipo de antropologia
preocupada com o poder (Cf. WOLF, 1969), pois a qualidade de vida e as nossas
próprias vidas em si mesmas dependem do modo como os cidadãos compreendem
aqueles que moldam e realmente controlam as estruturas institucionais. O estudo
Recebido em 13 de janeiro de 2020.
Aceito em 16 de janeiro de 2020.
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do homem é confrontado com uma situação sem precedentes: nunca antes tão
poucos, por suas ações e inações, tiveram o poder de vida e morte sobre tantos
membros da espécie humana. Apresento três razões para “estudar os de cima”:
seu efeito estimulante e articulador para muitos estudantes, adequação científica
e relevância democrática do trabalho científico. Finalmente, considerarei alguns
obstáculos e objeções frequentes e tentarei respondê-los.
Palavras-chave: “de cima”, elite, antropologia reinventada, poder.
Abstract:
In this essay I describe some opportunities that anthropologists have for
“studying up” in their own society, hoping to generate further discussion on the
purpose of our studies (NADER, 1964). Anthropologists can contribute greatly
to our understanding of the processes whereby power and responsibility are
exercised in the United States. Moreover, there is a certain urgency for this kind
of anthropology that is concerned with power (Cf. WOLF, 1969), for the quality
of life and our lives themselves may depend on the extent to which citizens
understand those who shape attitudes and effectively control institutional
structures. The study of humans is confronted with an unprecedented situation:
never before have so few, regardless of by action or inaction, had the power of
life and death over so many members of the species. I present three reasons
for “studying up”: its energizing and integrating effect for many students; its
scientific adequacy; and the democratic relevance of such scientific work. Lastly,
I consider common obstacles and objections to this argument and propose some
counter-arguments.
Keywords: “studying up”, elite, reinventing anthropology, power.
INDIGNAÇÃO COMO MOTIVAÇÃO
Muitos de nossos estudantes mais brilhantes olham para as revistas de antropologia dos últimos tempos e concluem que a antropologia parece estar em fase
de extinção, contentando-se em ganhar a vida em grande parte ou redescobrindo o que já havia sido descoberto ou vendendo suas mercadorias para outras
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disciplinas e profissões. A audiência é restrita demais e as minúcias preciosas
demais. Ganhar a vida vendendo suas mercadorias não é uma maneira inadequada de subsistir; é, no entanto, neste caso, sintomático que um talento, a perspectiva de um Espelho para o Homem (Mirror for Man), esteja sendo subutilizado.
Hoje temos estudantes de antropologia que estão indignados com muitos
problemas que afetam o futuro do Homo sapiens, mas eles estão estudando problemas sobre os quais não têm “sentimentos”. Alguns acham que essa é a única postura apropriada para uma ciência. No entanto, os estudantes não estão estudando
os assuntos que os animam. Eu acho que estamos perdendo alguma coisa aqui.
O impulso normativo muitas vezes nos leva a fazer perguntas importantes sobre
um fenômeno que não seriam feitas de outra maneira, ou a definir um problema em um novo contexto. Um rápido crescimento nos estudos de direitos civis é
diretamente atribuível a atividades pelas quais as vítimas do sistema tornam visível
a própria vitimização. Por um processo de contágio, essa visibilidade espalhou
a indignação moral para as faculdades de direito e para a profissão jurídica, o
que, por sua vez, levou à pesquisa de questões civis e sobre a área correlata da
lei da pobreza. Na antropologia, temos o exemplo de Crisântemo e a Espada,
de Ruth Benedict (1946), um esforço para entender os oponentes na guerra.
O impulso normativo aqui, gerado pelo patriotismo e pela lealdade, considerado apropriado na Segunda Guerra Mundial, foi responsável por um livro perspicaz e pelo desenvolvimento de novas técnicas para estudar a cultura a distância.
Ao relembrar um dos primeiros fundadores da antropologia americana,
L. H. Morgan (o primeiro antropólogo a se tornar presidente da American
Association for the Advancement of Society), descobrimos que ele abriu
novos caminhos na ciência por ter se interessado por um problema social
(RESEK, 1960). Ao longo de sua carreira, Morgan ficou indignado com o
tratamento dado aos índios americanos, que estavam sendo expulsos de suas
terras. Foi sua indignação inicial, que precedeu sua curiosidade sobre sistemas de parentesco e estrutura social, que o levou a estudar os índios americanos. No caso de Morgan, a indignação teve um efeito estimulante.
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Como Jules Henry (1963, p. 46, tradução nossa) coloca:
Pensar profundamente em nossa cultura é se enfurecer e enfurecer os
outros: e, caso, você não consiga tolerar essa fúria, estará desperdiçando o tempo que gasta pensando profundamente. Uma das recompensas
do pensamento profundo é o brilho quente da fúria ao descobrir um
erro, mas, se a fúria for um tabu, o pensamento definhará até a morte.
Eu vejo entre os jovens alunos em Berkeley um fenômeno estimulante
no estudo das principais instituições e organizações que afetam a vida cotidiana, como a California Insurance Comission, O Better Business Bureau (BBB),
agências de poluição atmosférica e similares. Os seguintes excertos extensos
ilustram o que motivou esses alunos a levar a cabo seus estudos.
Escolhi estudar o setor de seguro principalmente porque é uma daquelas “coisas” (não há um termo) que são feitas de vastas redes de pessoas que influenciam muitos aspectos da vida de todas as pessoas na
Califórnia. A maioria é afetada diretamente, por possuir uma apólice
de seguro. Todos são afetados de outras maneiras, tais como a vasta
influência política do “setor de seguros” e sua enorme influência econômica em nossas vidas pessoais.
Por exemplo, alguém vai ao mercado no seu próprio carro, que está
segurado. O Mercado em que chega está segurado por perda, roubo,
danos e risco. A comida foi entregue por caminhões que tinham seguro para a carga transportada, que também estava protegida contra
vários problemas. O preço dessas coberturas também afeta o preço da
sua comida. Incidentalmente, as fábricas onde o caminhão e seu automóvel foram fabricados contam com várias apólices de seguro (assim
como todos os funcionários). Uma delas, chamada de “seguros contra poluição”, protege a empresa por passivos incorridos caso seja processada por danos causados pela poluição. O preço disso afeta os outros preços, como mencionado, mas o fato de ter uma apólice de seguro permite que o fabricante ou a rede de pessoas que controla a fábrica polua o ar sem incorrer em risco econômico. Indo mais além, a
montadora provavelmente pertence, em grande parte, a seguradoras.
Para se ter uma ideia da enorme riqueza do setor de seguros, considere que os segurados da Califórnia pagaram mais de US$ 6 bilhões em
prêmios de seguros em 1970, o que dá mais de US$300 por pessoa no
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Estado da Califórnia. Isso mais do que a renda per capita da maioria
da população mundial. De fato, o montante anual dos prêmios recebidos pelo setor de seguros nos EUA só não é maior do que o produto interno bruto de cinco nações em todo o mundo (SERBER, 1971,
p. 2-3, tradução nossa).
Outra aluna teve o seguinte a dizer sobre seu estudo do Oakland BBB:
Em nossa complexa sociedade, obtemos muitos bens e serviços pré-embalados. Como no famoso caso da criança da cidade que acredita que o leite cresce em caixas de papelão, a maioria dos consumidores pouco sabe sobre a composição dos produtos comprados, como eles funcionam, como avaliar seu potencial antes de comprá-los,
e como consertá-los caso quebrem. Essa ignorância não se limita
aos bens, mas se estende a serviços, investimentos, instituições de
caridade, para não falar das profissões jurídicas e médicas. Contamos com a Pacific Gas and Electricity para instalar equipamentos de gás, para verificar sua segurança, e até mesmo para reacender a chama piloto que se apagou acidentalmente, caso não consigamos localizá-la. Levamos nossas roupas especiais para uma tinturaria. Quando a transmissão do automóvel não funciona, o carro deve ser rebocado até um especialista em transmissão. As mercadorias são encomendadas por telefone ou pelo correio. Um vendedor de porta em porta pode vender sessões em um estúdio fotográfico, cosméticos, assinaturas de revistas e investimentos, bem
como angariar contribuições para instituições de caridade. Quando quer comprar um tapete, o consumidor depende de um vendedor que explique as qualidades das fibras, calcule a metragem
necessária para cobrir uma determinada área e garanta que acessórios como forração, presilhas e mão-de-obra estão incluídos no
custo de instalação cotado. Dependemos de especialistas para prestar serviços e, muitas vezes, até mesmo para nos fornecer os critérios pelos quais devemos julgar seu trabalho. Muitas de nossas transações ocorrem com pouca frequência, o que significa que o consumidor pode ser totalmente inexperiente na avaliação do que ele paga quando compra um grande aparelho doméstico, uma apólice de
seguro ou uma viagem de férias.
Da mesma forma, ele pode se ver incapaz de obter compensação
por suas reclamações quando acha que foi enganado ou trapaceado.
A maioria dos contatos com empresas limita-se à voz incorpórea do
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telefonista, à secretária ou ao representante de relações públicas no serviço de atendimento ao cliente ou ao vendedor que, por acaso, está ali
na frente quando o cliente entra na loja. O consumidor telefona para a empresa para ver o que vai fazer por ele, ou escreve para a coluna
de reclamações de um jornal ou telefona para um programa de rádio.
Os serviços desses facilitadores também são “pré-embalados”: o reclamante envia sua história e aguarda para que a máquina processe uma
resposta, situação que se estende até mesmo às organizações responsáveis pela segurança pública e de defesa dos seus direitos, às quais o
consumidor furioso pode acabar prestando sua queixa.
Comecei este projeto sem saber nada sobre o que é o BBB, o que ele
faz ou não e por quê. Como um cidadão típico, comecei sabendo
apenas que há uma organização apoiada por empresas chamada Better Business Bureau que costuma ser contatada por telefone quando uma pessoa tem uma pergunta sobre a confiabilidade (ou existência!). Poucas pessoas vão além desses fatos e perguntam quem é
a voz do outro lado da linha, onde ela obtém suas informações, ou
o que realmente acontece com o formulário de reclamação que chega, é devolvido e cujos resultados são encaminhados ao consumidor
pelo correio. E ainda assim milhares de pessoas usam o BBB todos
os anos (EATON, 1971, p. 2-3, tradução nossa).
Talvez essas sejam tentativas de espiar por trás do anonimato de uma sociedade burocrática, para revelar os mecanismos usados por empresas distantes e
indústrias de grande escala para direcionar aspectos cotidianos das nossas vidas.
Qualquer que seja a motivação, os estudos levantam questões importantes, como
deveres, responsabilidade, autorregulação ou, em outro nível, questões relativas a
estrutura social, análise de redes, pesquisa bibliotecária e observação participante.
ADEQUAÇÃO CIENTÍFICA
Se olharmos para a literatura baseada no trabalho de campo nos Estados
Unidos, encontramos uma literatura relativamente abundante sobre os pobres,
os grupos étnicos, os desfavorecidos; há relativamente pouca pesquisa de
campo sobre a classe média e muito pouco trabalho sobre as classes superiores.
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Os antropólogos podem, de fato, se perguntar se a totalidade do trabalho de
campo não depende de uma certa relação de poder em favor do antropólogo e se,
de fato, tais relações dominantes-subordinadas podem estar afetando os tipos de
teorias que estamos tecendo. E se, ao reinventar a antropologia, os antropólogos
estudassem os colonizadores em vez dos colonizados, a cultura do poder e em vez
da cultura do impotente, a cultura da influência e não aquela cultura da pobreza?
Estudar os “de cima”, assim como “de baixo”, nos levaria a fazer muitas
perguntas de “senso comum” ao contrário. Em vez de perguntar porque algumas
pessoas são pobres, perguntamos: por que outras pessoas são tão abastadas. Como
um cientista social poderia explicar os padrões de acumulação dos americanos
ricos e da classe média? Como podemos explicar a fantástica resistência à mudança
entre aqueles cujas opções “parecem ser muitas”? Como isso aconteceu, podemos
nos perguntar, por que os antropólogos estão mais interessados em saber por
que os camponeses não mudam do que por que a indústria automobilística não
inova, ou por que o Pentágono ou as universidades não podem ser mais criativos
organizacionalmente? O conservadorismo de tais grandes instituições e organizações burocráticas provavelmente tem implicações mais amplas para a espécie
humana e para as teorias da mudança do que o conservadorismo do campesinato.
Se, ao reinventarmos a antropologia, estivéssemos estudando principalmente os estratos mais poderosos da sociedade urbana, nossa visão do gueto
poderia ser, em grande parte, em termos de relações maiores do que o gueto.
Estudaríamos os bancos e o setor de seguros que delimitam áreas da cidade
para as quais não venderão seguros nem concederão crédito. Estudaríamos a
classe de proprietários de imóveis que “recompensa” ou “influencia” agentes da
segurança pública ou da fiscalização municipal para que os códigos de obras
e edificações não sejam cumpridos. As favelas são tecnicamente ilegais; se os
códigos de obras e edificações e outras leis municipais fossem cumpridos,
nossas favelas não seriam favelas (se a fiscalização fosse bem-sucedida), ou
elas poderiam ser chamadas por outro nome que indicaria que elas são resultado de crimes do colarinho branco. Pode-se dizer que, se esses crimes forem
bem-sucedidos, produzirão criminalidade de rua. Com essa perspectiva do
crime do colarinho branco, nossa análise da delinquência de gangues pode ser
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correspondentemente afetada e, ao desenvolvermos teorias sobre o comportamento de gangues de favela, poderíamos perguntar: é suficiente entender
as gangues apenas como produtos dos sistemas de valores dessa subcultura?
Podemos estudar os sistemas de marketing ou o sistema de transporte que,
como em Watts, faz de algumas áreas do gueto ilhas virtuais. Podemos estudar
o grau em que as práticas jurídicas, ou os tipos de serviços jurídicos, moldam
as percepções da lei presentes nos guetos.
As consequências de não se estudar os de cima tanto quanto os de baixo
são sérias em termos de desenvolvimento de teorias e descrições adequadas.
Se o ponto de articulação de alguém se encontra ao redor daqueles que têm
responsabilidade em virtude do poder que lhes é delegado, então as questões
mudam. A partir de tal perspectiva, percebem-se diferentes facetas da cultura: o gueto pode ser visto como desprovido de lei, sem lei. Os tribunais não
são voltados para as reclamações dos pobres (que se situariam na faixa entre
20 a 80 dólares); além disso, não são voltados para a resolução rápida e barata
de conflitos – características cruciais para os pobres. A partir dessa perspectiva, pode-se dizer que as comunidades do gueto são excluídas do sistema legal,
exceto como réus, e, na verdade, muitas vezes são excluídas de outros serviços
municipais, desde a coleta de lixo até a proteção policial. A partir desta orientação, portanto, a questão que pode ser levantada novamente – em nossos
estudos sobre delinquência, é suficiente entender as gangues como produtos
dos sistemas de valores apenas dessa subcultura?
Vamos fazer outra pergunta: quais foram as consequências da pesquisa em ciências sociais sobre a criminalidade? Em virtude do nosso foco nos
crimes da classe baixa, ajudamos na definição pública de “problema da lei e
da ordem” em termos de crimes de rua ou da classe baixa. Vamos supor que o
contribuinte público em uma democracia, depois de ouvir um discurso presidencial pedindo mais verba de impostos para a vigilância e a proteção contra
a criminalidade de rua, decida analisar a questão por si mesmo. Não importa a que biblioteca ele for, o máximo que ele conseguirá obter é alguma informação sobre crimes cometidos pela classe baixa. Ele não teria como avaliar,
dados os materiais descritivos atuais, se, em uma situação de verba limitada,
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seria melhor investir os recursos para combater a criminalidade de rua ou os
crimes do colarinho branco que em ambos os casos põem em risco a vida de
todos os contribuintes, todos os dias, de várias maneiras.
Como Clyde Mitchell observou, foi com tal problema em mente que os
antropólogos introduziram pela primeira vez o conceito de “campo social”.
O estudo antropológico clássico escolhe uma unidade – uma “tribo” ou
“sociedade” ou “comunidade” – e apresenta o comportamento de seus
membros em termos de uma série de instituições, estruturas, normas e
valores interligados. Não são apenas os antropólogos que trabalham em
áreas urbanas que acharam este tipo de premissa difícil de manter, mas
também aqueles que têm conduzido estudos “tribais” na África moderna (e presumivelmente também em outros lugares). Eles descobriram
que o efeito de grupos e instituições que não estão fisicamente presentes
na área tribal influencia o comportamento das pessoas que nela se encontram. A unidade de relacionamentos em interação, em outras palavras, é maior do que a tribo (MITCHELL, 1966, p. 56, tradução nossa).
Lowie pode ter estudado os Crow, Llewellyn e Hoebel os Cheyenne, como
se fossem “ilhas” não relacionadas à sociedade mais ampla e até mesmo não
relacionadas com as políticas e ações do Escritório de Assuntos Indígenas, mas
há uma literatura inteira desde a década de 1950 desafiando a visão de mundo
limitada da comunidade etnográfica e o reconhecimento de uma necessidade metodológica foi, como observou Mitchell, o que talvez tenha estimulado
o desenvolvimento da teoria de redes e o desenvolvimento dos estudos sobre
o estado-nação (ADAMS, 1970).
Se a antropologia fosse reinventada para estudar os de cima, cedo ou tarde
precisaríamos estudar os de baixo também. Não estamos lidando com uma
proposta que exclui outras opções; precisamos simplesmente perceber quando
é útil ou crucial, em termos do problema, ampliar o domínio do estudo para
cima, para baixo ou para os lados. Se nos interessarmos pelos determinantes
dos padrões familiares (e não pelos pobres ou ricos como tais), então o estudo
transversal desse problema nas classes sociais, ou pelo menos um estudo com
um corte vertical, seria uma maneira de testar hipóteses como se certos aspectos
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da situação da classe baixa ou da classe alta são ou não, de alguma forma,
o resultado de um tipo específico de padrão familiar (serialmente monogâmica, matrifocal, absenteísmo paternal), ou se a pobreza, por exemplo, é ou
não gerada por certos tipos de padrões de emprego ou fatores externos. Ao
menos colocar os problemas em um quadro comparativo ajudaria a melhorar
nossas chances de entender as forças que geram excessiva pobreza ou excessiva afluência e as origens dessas forças, se elas provêm ou não da sociedade
em geral ou se são “determinadas pela transmissão cultural dentro do grupo”.
Dependendo da visão da nossa visão dos processos que geram o comportamento, buscaríamos soluções para os problemas sociais, seja por meio de uma
política voltada para a reforma da sociedade como um todo, seja por meio de
uma política que vise modificar o comportamento da subcultura, ou ambos
(GLADWIN 1969; VALENTINE, 1969).
Com base em tal trabalho em nossa própria sociedade1, poderíamos
reescrever os livros sobre a American Society, cujos índices não mencionam os
setores de propaganda, seguros, bancos, imóveis ou a indústria automobilística, que a maioria das pessoas na rua sabe que desempenharam um importante
papel na formação da sociedade americana moderna. Os relatórios etnográficos descreveriam as empresas de comunicações, as agências que as regulam,
as instituições que sustentam o setor industrial, tais como os órgãos legislativos, as universidades e organizações profissionais, e tais descrições seriam
do ponto de vista dos usuários, bem como dos administradores. É apropriado
que uma antropologia reinventada estude instituições poderosas e organizações burocráticas nos Estados Unidos, pois tais instituições e seus sistemas de
rede afetam nossas vidas e também afetam a vida das pessoas que os antropólogos tradicionalmente estudaram em todo o mundo.
É particularmente apropriado que antropólogos liderem esse trabalho
em virtude de uma série de características da nossa disciplina. O estudo do
homem teve de ser eclético em seus métodos, amplo em sua visão do que é
preciso para entender o homem – seu passado, seu presente, sua cultura, sua
1
Ver o livro Social Changes in Modern India, de Misori Narasinhachar Srinivas, capítulo 5: “Alguns pensamentos
sobre o estudo de sua própria sociedade”, para uma discussão dos problemas envolvidos em tal esforço.
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biologia. Nós nos especializamos em compreender culturas inteiras em um
contexto intercultural. Deveríamos, por exemplo, nos sentir à vontade ao
estudarmos o escritório de advocacia como uma sociedade secreta, ao encontrarmos e analisarmos as redes de poder – que no papel podem não existir –
ao descrevermos os comportamentos habituais não escritos que são totalmente
indispensáveis para a compreensão de, por exemplo, o que faz o Congresso
funcionar. O antropólogo deveria, acima de tudo, em virtude de sua compreensão do princípio da reciprocidade, ser capaz de analisar porque as decisões
do pessoal da Federal Communications Commission podem não ser “racionais”, ou as dimensões culturais envolvidas no fracasso dos programas nacionais
ostensivamente voltados para a reintegração da sociedade. É o antropólogo
que, em virtude de seus valores populistas, pode ser capaz de definir o papel
do cidadão-erudito – uma ciência do homem para o homem.
RELEVÂNCIA DEMOCRÁTICA
“Estudar os de cima” parece ser um caminho para integrar preocupações sociais primordiais com os objetivos e metas da ciência do homem.
O serviço que realizamos no passado poderia ser ampliado para incluir outro
serviço, tanto social quanto científico, ou seja, escrever etnografias para os
“nativos”. Uma monografia que deve ser levada em conta pelos administradores em benefício das pessoas envolvidas é o recente livro de Elisabeth Colson,
The Impact of the Kariba Resettlement upon the Gwembe Tonga (1971).
Desenvolvimento tecnológico pesado prejudica. Este é um fato amplamente ignorado pelos planejadores econômicos, técnicos e líderes políticos. Ao planejar drásticas mudanças no ambiente que desarraigam populações ou impossibilitam ajustes antigos, eles contam os custos de engenharia, mas não os custos sociais. Afinal, eles não pensam em si mesmos pagando esses últimos. Este livro é um estudo sobre o impacto da mudança
forçada sobre algumas de suas vítimas (COLSON, 1971, tradução nossa).
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Outro exemplo é o livro de Spradley, You Owe Yourself a Drunk (1970),
uma descrição etnográfica da interação e das consequências da interação que os
bêbados têm com os sistemas jurídico e de segurança pública. Essa monografia já
está servindo para educar os administradores desse sistema sobre as consequências de decisões e procedimentos legais específicos. Esse não é um papel novo a ser
desempenhado pelos cientistas sociais e infelizmente nossas descobertas muitas
vezes serviram para ajudar a manipular em vez de ajudar aqueles que estudamos. Outro papel, no entanto, está relacionado ao conceito de cidadania em um
país que deve ser governado dentro de uma estrutura democrática e o controle
que os cidadãos devem ter para aproveitar a manipulação administrativa. Nós
não podemos, como cientistas responsáveis, educar os “administradores” sem
educar os que estão “sendo administrados”. Uma estrutura democrática implica
que os cidadãos devem ter acesso aos tomadores de decisão, instituições governamentais e assim por diante. Isso implica que os cidadãos precisam saber algo
sobre as principais instituições, governamentais ou não, que afetam suas vidas.
A maioria dos membros de sociedades complexas e, certamente a maioria dos
americanos não sabem suficientemente a respeito, nem sabem como enfrentar
as pessoas, instituições e organizações que mais afetam suas vidas. Acredito que
os antropólogos seriam surpreendentemente bons aplicando suas ferramentas
descritivas e analíticas a um grande problema: como podem os cidadãos atuar
em uma democracia quando eles lamentavelmente ignoram como a sociedade
funciona e como não funciona, como um cidadão pode se “ativar” como tal: ou
o que aconteceria se os cidadãos começassem a exercer outros direitos além do
voto como forma de fazer o “sistema” funcionar para eles? Mas primeiro, como
sabemos, temos de descrever a burocracia e sua cultura.
Love e Eaton (1970) iniciaram o estudo da Bay Area Air Pollution Control
Agency com perguntas sobre as funções da agência: como a agência percebe
a si mesma? Quem a usa? Como os usuários percebem a agência? O acesso
público foi uma questão fundamental.
Nossa abordagem foi, inicialmente, cautelosa devido a nossas dúvidas. Fingimos inocência e, de fato, descobrimos que éramos realmen-
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te inocentes. Começamos então a perceber que estávamos “por fora”.
Nós éramos o público que não entendia a linguagem profissional sendo falada. As vias que abordávamos eram aquelas que o público geralmente abordava. Gradualmente, uma imagem da agência e sua posição no sistema jurídico surgiram.
Sua estrutura, as personalidades dos tomadores de decisão, as limitações que a realidade impõe a qualquer sistema ideal, e, por fim, as
maneiras como a agência era usada se tornaram mais claros. (LOVE;
EATON, 1970, p. 2-3, tradução nossa).
Quando vai à agência, o cidadão é transformado em dados estatísticos que
o separam do procedimento ou uso real da agência. Parte-se do seguinte
pressuposto: como a agência deve atuar para proteger o interesse público,
o público vai procurar acessá-la. A realidade da situação é bastante diferente. A agência atua da maneira mais autônoma quanto possível no combater à poluição atmosférica e, ao fazer isso, estabelece um contato próximo com os dirigentes das indústrias que falam a mesma linguagem técnica e jurídica. É a indústria que tem o maior acesso à agência, especialmente em nível legislativo. É a indústria que faz o maior uso da agência para
proteger seus interesses (LOVE; EATON, 1970, p. 32-33, tradução nossa).
Esse mesmo estudo observa que, no departamento jurídico da agência,
autos de infração são tratados como multas de estacionamento proibido –
depois de muitas serem emitidas, o infrator é processado. Mas em que consiste
o processo diante do padrão de interação social descritos acima? Não se tratava de criminosos comuns.
No departamento jurídico, o advogado da agência enfatizava que os
princípios do direito penal não eram uma solução, daí as sanções civis. O funcionário “responsável” não merece ser preso com “prostitutas e assaltantes” por causa do tipo de “crime” cometido. Uma interessante observação em relação a esse procedimento é que o Regulamento 1, que não se aplica à maioria das grandes indústrias, mas a cidadãos e empreiteiros, é tratado como uma contravenção onde o infrator pode ser preso com “prostitutas e assaltantes” (LOVE; EATON,
1970, p. 33, tradução nossa).
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Além de ser um relatório útil sobre a cultura burocrática, esse relatório
de 37 páginas é o tipo de informação etnográfica que os cidadãos precisam ter
antes d tentar ganhar acesso a uma agência pública, ou tentar usá-la. Relatórios
desse tipo os apresentariam à estrutura e à cultura do subgrupo de maneira
a permitir avaliar se há ou não alguma parcialidade no processo, e a favor de
quem, em termos de acesso real e de uso de uma agência pública.
O estudo do California Department of Insurance, e especialmente o processamento de reclamações pelo Policy Services Bureau dessa agência, é outra tentativa de descrever o funcionamento de uma organização cujos atos de omissão
ou comissão afetam a vida de muitos (SERBER, 1971). Serber (1971, p. 62,
tradução nossa) conclui que o Departamento de Reclamações não atende às
necessidades das pessoas do Estado da Califórnia porque “a grande maioria
das pessoas não tem consciência de sua existência”. Ele acrescenta, por meio
de uma citação, uma visão adicional que tem sido observada por estudos de
outros estudantes de agências governamentais (e não é muito diferente para
agências privadas que pretendem servir ao público) e que sugere que tais instituições públicas não são estruturadas para acesso público:
É muito pior lidar com alguém do público, pois você sabe que as respostas que você pode dar e os resultados que você pode obter para essas
pessoas são muito limitados. Eles esperam mais e muitas vezes ficam
impacientes. Com a indústria, é diferente: eles são geralmente amigáveis e polidos, pelo menos na nossa frente; nós sempre sabemos onde
estamos pisando e até onde podemos ir. É menos estressante porque
eu me sinto menos responsável pelo resultado das conversas (Funcionário da Agência III apud SERBER, 1971, tradução nossa).
O relatório prossegue observando que “há uma diferença qualitativa na
natureza da interação entre os reclamantes e o funcionário da agência e os
representantes da indústria e o funcionário da agência”.
Não é muito agradável chegar aqui às oito horas da manhã depois de
uma batalha para atravessar a Bay Bridge por quarenta e cinco minutos e antes de terminar uma xícara de café, uma megera gorda e histérica que mal consegue falar de tão burra e exaltada vai entrar e eles
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vão me chamar. Quando a vejo, meu estômago se contrai e minha boca fica seca; algumas vezes a queimação na minha garganta começa antes mesmo de eu poder ir até a mesa, e eu tenho que ir tomar um gole
de água (Oficial de Seguros IV apud SERBER, 1971, tradução nossa).
Esse mesmo relatório faz um conjunto de previsões sobre o que poderia
acontecer com esse Departamento de Reclamações se o acesso ao público
fosse facilitado; a estrutura e a função do departamento se alinhariam mais
com um dos principais objetivos do Departamento de Seguros: “aplicar as
leis relativas a seguros a fim de alcançar o mais alto grau de proteção possível
para o público em geral e todos os segurados e beneficiários em particular”
(SERBER, 1971, p. 64).
O objetivo acima mencionado levanta uma questão mais geral: quem
deve decidir o que é bom para o público? O artigo de Eaton sobre o BBB, de
Oakland, ilustra o dilema de um conflito de valores.
Uma limitação importante no valor do BBB para o consumidor reside
no próprio fato de ele ser uma organização projetada para promover os
interesses de negócios legítimos. O movimento supõe que o que é bom
para os negócios é bom para a economia e para o consumidor, que o poder da consciência e o poder da opinião pública triunfarão sobre o lucro
desenfreado, que um público informado será capaz de moldar o mercado
sensível aos seus próprios desejos. Essas suposições podem ser verdade
em alguns níveis, mas o quadro não é tão simples. Existem áreas da sociedade nas quais o poder está concentrado e áreas onde ele está disperso ou totalmente ausente. A reclamação do consumidor tem mais peso
com o varejista localmente competitivo do que com a corporação distante que fez o produto vendido pelo varejista. O Bureau regula a publicidade no varejo, mas o consumidor também está exposto à publicidade nacional, especialmente na televisão. O varejista não é um agente livre: ele é limitado pelo distribuidor e pelo fornecedor.
O Bureau está preocupado com a verdade na publicidade, mas está
igualmente preocupado com a relevância da publicidade? Há muitas
coisas verdadeiras que podem ser ditas sobre um produto, mas que
têm muito pouco a ver com seus atributos significativos: durabilidade, segurança, eficiência. Diz-se ao consumidor, por um lado, que é
sua responsabilidade ser informado e exercer o seu poder de escolha
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para alinhar o mercado com as suas necessidades e desejos. Por outro lado, ele é atacado pela publicidade nacional, que enfatiza os atributos não utilitários dos produtos, e ele é confrontado com uma gama de produtos de diferentes fabricantes que essencialmente não diferem em áreas que o consumidor possa achar significativas. Ao consumidor, é dito que ele deve entender a garantia que vem com seu carro
novo, mas não é dito o que ele pode fazer caso não goste dos termos e
condições e descubra que todas as garantias de todas as empresas são
iguais. Como indivíduo, ele basicamente não tem o poder de barganhar no maior sistema de mercado mais amplo que caracteriza a complexa sociedade moderna (EATON, 1971, p. 68-70, tradução nossa).
Entender as diferenças nas percepções dos produtores, de um lado, e dos
consumidores, de outro, permite que um cidadão avalie por si mesmo qualquer
declaração do governo sobre a necessidade de o governo não se intrometer nas
organizações autorreguladoras, como o BBB, que são criadas por grupos empresariais. O estudo de Eaton (1971) sobre o BBB toca apenas uma pequena parte
das tentativas de autorregulação dos negócios. Desde 1966, desenvolveu-se
toda uma série de “mecanismos de tratamento de reclamações”, desde “linhas
diretas” até ouvidorias empresariais. Um estudo comparativo de tais mecanismos seria uma contribuição muito necessária para a literatura sobre a natureza
das tentativas extrajudiciais de expressar reclamações e obter reparação. Seria
fascinante saber até que ponto a “lei informal” é dominada por relações públicas
e as técnicas publicitárias da Madison Avenue na administração de conflitos.
O uso da publicidade na resolução de queixas pode estar relacionado a uma
percepção das classes mais altas que diz: “Deixe esfriar ao invés de resolver”.
Há alguns anos, o criminologista Edwin H. Sutherland (1949) escreveu um
livro intitulado White-Collar Crime. Uma descoberta documentada nesse trabalho que se tornou um ponto de referência foi o simples fato de o pessoal do colarinho branco cometer crimes, algo que deveria ter ajudado a combater a crença,
pelo menos entre os cientistas sociais, de que os pobres detinham o monopólio
da criminalidade. Se, como cientistas, estamos interessados em compreender
os determinantes do crime, então a “descoberta” de que tanto os ricos quanto
os pobres cometem “crimes” (algo que é de conhecimento do cidadão comum,
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bem como, certamente, dos pobres) é muito importante. O fato de os crimes
serem estigmatizados e processados diferentemente de acordo com a classe social
deveria nos levar a desconsiderar teorias muito simplistas que explicam o comportamento criminoso. Pouquíssimos trabalhos sociológicos desse tipo seguiram o
estudo de Sutherland e, de fato, houve um longo período de seca entre a investigação desses problemas na virada do século e Sutherland.
Em vez disso, sociólogos como Lewis Coser (1968) preferem nos dizer
porque alguns pobres cometem e porque alguns pobres não cometem crimes
em termos da teoria do comportamento criminal. Se olharmos para a questão
em relação a uma fatia vertical, é um fato bem conhecido que o direito penal foi
orientado para crimes individuais, preferencialmente crimes de rua, ao passo
que o comportamento criminoso coletivo por parte de uma agência ou de uma
empresa costuma ser tratado em órgãos administrativos ou de maneiras que estigmatizem muito pouco os envolvidos (POUND, 1906; SUTHERLAND, 1949).
No entanto, nossa base de dados analisada é pequena. Henry Ruth, diretor do
Institute of Law Enforcement and Criminal Justice, observou já em 1970, que:
o Institute of Law Enforcement and Criminal Justice demonstrou uma intensa preocupação para que o chamado “crime do colarinho branco” recebesse pouca atenção dos agentes da lei e dos pesquisadores. Todo o campo do crime do colarinho branco representa uma prioridade nacional de
ação e pesquisa – para que se defina o problema, se examinem suas muitas faces, se meça seu impacto, se procurem formas de ajuda para vítimas
e para que se determine como tal crime pode ser prevenido, dissuadido,
e efetivamente processado (EDELHERTZ, 1970, p. iii, tradução nossa).
No que diz respeito ao benefício para os cidadãos, é surpreendente que
em um país tão legalista quanto os Estados Unidos, não seja possível obter em
lugar algum do sistema educacional o conhecimento prático da lei como parte
da educação geral. De fato, depois de anos estudando o sistema jurídico zapoteca de Oaxaca, no México, eu concluiria que a única diferença mais importante
entre o sistema jurídico zapoteca do sul do México e o sistema jurídico americano (do ponto de vista de uma classe média consumidora) é que os zapotecas têm acesso ao sistema jurídico e sabem como usá-lo. Nos Estados Unidos,
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a maioria dos cidadãos não tem acesso ao sistema jurídico, seja porque são
ignorantes sobre o funcionamento do sistema, seja porque não podem pagar o
profissional (advogado) com um conhecimento adequado do funcionamento
do sistema. Na Califórnia, por exemplo – e imagino que isso seja muito mais
amplo – há poucos livros para os cidadãos descrevendo o sistema jurídico, do
que se trata e como funciona.
Essa situação é representativa do maior problema da educação cidadã.
A maior parte do que aprendemos sobre direito é absorvida indiretamente de
programas de TV sobre o faroeste e séries de TV do tipo Perry Mason2. Os
trabalhos etnográficos sobre o direito preencheriam uma necessidade científica e descritiva, bem como informariam o nativo sobre um sistema que às vezes
pesa muito na direção que sua vida toma. Por exemplo, um estudante iniciou um
estudo sobre o Immigration and Naturalization Service (INS) em um esforço
para descobrir como a imigração e o INS moldaram e influenciaram as comunidades de imigrantes do terceiro mundo. A hipótese básica era de que o INS é o
produto histórico das atitudes americanas negativas em relação aos imigrantes
que não são do norte da Europa – medo de estrangeiros, antipatia por culturas
estranhas, isolacionismo e afins – e embora tenha havido uma grande liberalização das leis, a administração da imigração e, de fato, o recrutamento para a
agência, continuam a ser afetadas por essas atitudes históricas. Outros estudos
antropológicos podem envolver o uso de documentos pessoais – as memórias
de juízes, advogados e executivos estão notadamente ausentes das estantes
de livros. Os escritórios de advocacia de Washington, cujas funções de lobby
ganharam o rótulo de quarto poder do governo, seriam um lugar fascinante
para testar algumas das hipóteses de Elizabeth Bott (1957) sobre redes. Que
formas e funções as redes desses escritórios têm em uma organização na qual,
no meio da carreira, a maioria dos membros dessas firmas assume cargos por
toda Washington, mas ainda mantém relações com o escritório de advocacia
2
Perry Mason foi uma série de televisão exibida nos Estados Unidos pela CBS entre os anos 1950 e 1960.
O programa era sobre um advogado que defendia acusados de assassinato e sempre solucionava todos
os casos (N. do T.).
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mesmo depois de não estar mais na folha de pagamento? Que tipo de reciprocidade está envolvida aqui?
OBSTÁCULOS E OBJEÇÕES
Mas há aqueles que não gostariam de cogitar qualquer reorientação da
antropologia, e é importante apreciar as razões pelas quais os antropólogos atuais
diriam “impossível”, “improvável”, “irrelevante”, “fora da meta”, até mesmo “impertinente”. Os obstáculos que são apresentados são muitos, mas para nossos propósitos aqui, podem ser discutidos em termos de acesso, atitudes, ética e metodologia.
Em geral, os departamentos de antropologia acreditavam que os
alunos deveriam fazer seu trabalho de campo de dissertação em uma cultura
não-ocidental. Em alguns momentos, essa era uma política útil a ser implementada caso, na formação dos antropólogos, fosse valorizada a importância do
choque cultural e do distanciamento que o acompanha. Para muitos estudantes hoje em dia, a experiência de trabalhar em um escritório de advocacia de
Washington, em uma vila operária ou em um complexo industrial internacional seria mais bizarra do que qualquer coisa que um antropólogo em formação
pudesse encontrar em um vilarejo mexicano ou na Nova Guiné. Nós, antropólogos, estudamos as culturas do mundo apenas para descobrir, no final, que a
nossa é uma das culturas mais bizarras de todas, que em virtude de sua influência mundial para o “bem” ou para o “mal”, precisa ser urgentemente estudada.
O obstáculo mais comum é fraseado em termos de acesso. Os poderosos
estão fora de alcance em vários planos diferentes: eles não querem ser estudados; é perigoso estuda-los; eles são pessoas ocupadas; eles não estão todos em
um só lugar, e assim por diante. Como alguns dos nossos alunos descobriram
em seus estudos do uso corporativo dos tribunais:
A crença de que as corporações trabalham secretamente e sub-repticiamente a favor de seus próprios interesses foi até certo ponto comprovada. O desejo de sigilo, o medo paranoico de qualquer publicidade que não seja controlada por elas mesmas, a recusa em discutir
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questões sobre o seu funcionamento e o respeito excessivo de seus
advogados pela natureza confidencial da relação advogado-cliente
(mesmo quando os interesses do público estão em jogo), servem para
eliminar qualquer fluxo livre de informações eventualmente disponíveis para a opinião pública, e nos fazem pensar nas antigas sociedades
secretas. A furtividade das corporações é simbolizada por aqueles astutos mestres enxadristas que elas empregam para cuidar de suas causas, os advogados empresariais (ZEFF; BUSH, 1970, tradução nossa).
Essas dificuldades realmente se aplicam às pessoas que os antropólogos
estudaram em muitos lugares diferentes. O fato de os problemas de acesso serem
diferentes, ou pelo menos mais complexos, ao estudar os de cima nos Estados
Unidos é uma proposição que não foi adequadamente testada. Os antropólogos
tiveram problemas de acesso em todos os lugares onde passaram; solucionar
tais problemas de acesso é parte do que constitui “criar entrosamento”. Em vista
do nosso êxito entre povos do mundo que foram incrivelmente hostis, é bastante surpreendente que os antropólogos sejam tão tímidos em seu próprio local
de origem (ver RIESMAN, 1954, p. 44-66). Ademais, pode-se argumentar que
o acesso a organizações burocráticas (como agências governamentais) frequentadas por ricos e poderosos deveria estar aberto a cientistas sociais por leis de
salvaguarda do acesso público a informações que afetam o interesse público.
Além disso, existem antropólogos ricos que presumivelmente teriam acesso aos
“de cima”. Cleveland Amory (1947) e E. Digby Baltzell (1964) deram contribuições substanciais para a compreensão do poder da classe alta, embora nenhum
deles seja antropólogo. Não, deve haver razões mais plausíveis para que os menos
poderosos sejam mais atraentes em termos de estudos nos Estados Unidos.
Já foi dito que, para os antropólogos, é importante estudar o que gostam e
gostar do que estudam e, em geral, preferimos os mais desfavorecidos. Braroe e
Hicks (1967), discutindo a mística da antropologia, fazem referência novamente à alienação tradicional de sua própria cultura que caracteriza os antropólogos, e exploram como essa alienação está relacionada à sua falta de intenso
compromisso com a reforma social. Isso poderia ser formulado de forma mais
positiva: os antropólogos favoreceram o estudo de culturas não-ocidentais
como uma forma de cumprir sua missão de estudar os diversos caminhos da
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humanidade; não tiveram um intenso compromisso com reforma social por
causa de sua postura relativista e pela crença de que tal postura era necessária
para uma verdadeira “perspectiva científica objetiva e distanciada”, ou porque
pensavam que outros, como os sociólogos, estavam envolvidos com a reforma
social. Embora as descobertas científicas possam ser vistas idealmente como
“livres de valores”, certamente a escolha dos temas da investigação científica
certamente não o é. Os antropólogos do futuro terão uma responsabilidade
maior pelo tema que escolherem estudar, bem como pela maneira de estudar.
Os problemas éticos levantados ao estudar os “de cima” quase sempre
parecem ser confundidos, especialmente quando se discute a ética de trabalhar na própria sociedade. Um estudante fez o seguinte comentário:
Dizer que os participantes do circuito kula não realizam na prática o que
eles dizem que fazem, tem consequências muito diferentes do que dizer
que uma agência do governo não está cumprindo suas normas. Isso não
quer dizer que a agência do governo não deve ser estudada, ou que o fato
de não estar de acordo com suas normas não deva ser apontado. A questão
é: o antropólogo pode fazer um estudo estrutural e depois, em seu papel
de cidadão, apontar que a agência está prejudicando o público americano?
O mesmo estudante perguntou:
Como podemos ter acesso aos mesmos tipos de informação de quando
“estudamos os de baixo” sem sermos desonestos (ou seja, um falso secretário ou outro papel)? Se conseguíssemos informações sem deixar que
os informantes soubessem que éramos cientistas sociais, como poderíamos publicá-las? Parece que a única forma “aberta” de fazer um estudo acabaria sendo bastante superficial - questionários e entrevistas formais em contraponto ao que aprendemos da observação participante.
Os problemas levantados por esse estudante são problemas éticos que os
antropólogos têm tiveram de enfrentar, a despeito da cultura que estivessem
estudando. Ao discutir tais questões éticas envolvidas no estudo dos de cima
em nossa própria sociedade, tenho a impressão de que a confusão surge do fato
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de reconhecemos ou não o uso implícito de dois pesos e duas medidas – existe
uma ética para estudar os de cima e outra para estudar os de baixo? Ou será que,
sugere este estudante, as consequências de descrever eventuais inadequações
sistêmicas podem ser maiores para agências governamentais do que para sistemas econômicos camponeses ou para resolução de conflitos (ou simplesmente
conflitos) em uma pequena vila de pescadores, e que, portanto, nossos sujeitos de estudo deveriam ser tratados de acordo?
Há uma importante distinção a ser reconhecida entre “público” e “privado”, embora o anonimato do informante possa ser importante para ambos os
setores. Em sua maioria, pode-se dizer que os antropólogos que trabalham nos
Estados Unidos trabalharam na esfera “privada”: estudamos famílias, pequenos grupos, aqueles aspectos das comunidades que são mais privados do que
públicos. Não deveríamos necessariamente aplicar a mesma ética desenvolvida para estudar o privado, nem mesmo a ética desenvolvida para estudar em
culturas estrangeiras (onde somos hóspedes), para o estudo de instituições,
organizações, burocracias que têm um amplo impacto público. Ao reinventar
a antropologia, qualquer discussão sobre ética deve considerar as dimensões
público-privadas, bem como o componente doméstico-externo. Ademais, na
atual antropologia, o trabalho considerado na modalidade objetiva da ciência
social, quando realizado no exterior, poderia ser chamado de “jornalístico”
pelos sujeitos. Falar explicitamente de algo pode ser entendido como uma
“lavação de roupa suja” pelos sujeitos do estudo (o trabalho de Oscar Lewis
sobre o México foi assim visto) ou por colegas profissionais que se sentem mais
à vontade se os dados forem apresentados no jargão das ciências sociais que
protegeria o trabalho do consumo comum.
O conceito de observação participante desempenha um papel determinante naquilo que os antropólogos escolhem estudar. O poder da observação
participante como tal só foi descoberto no século XX. Malinowski e RadcliffeBrown, entre os primeiros a fazer o trabalho de campo segundo as técnicas da
observação participante, estabeleceram um novo padrão para as descrições
etnográficas. Quando um antropólogo vai estudar a cultura de um povo, ele
vive com tal povo; a descrição resultante é rica em informações contextuais
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e é o resultado dos vários pontos de vista para os quais o pesquisador se abre
por “estar vivendo com os nativos”. Hortense Powdermaker (1966, p. 287)
descreveu os componentes da observação participante da seguinte forma:
“As condições para uma comunicação mútua bem-sucedida incluem 1) proximidade física do trabalhador de campo com as pessoas que ele estuda; 2) conhecimento do idioma; e 3) envolvimento psicológico”.
Em seguida, ela afirma:
A capacidade de ser psicologicamente flexível é importante em situações hierárquicas onde é necessário deslocar-se facilmente entre diferentes níveis na estrutura de poder. Alguns trabalhadores de campo se
identificam tão completamente com os desfavorecidos, que são incapazes de fazer contatos efetivos com aqueles no nível superior da hierarquia
social (ou política) (POWDERMAKER, 1966, p. 291, tradução nossa).
Ao mesmo tempo em que descreveu o valor da observação participante,
Hortense Powdermaker também mencionou as limitações de uma aceitação
tão completa da observação participante como uma característica distintiva de todo trabalho de campo social antropológico. Quando o antropólogo
participante observa, ele ou ela reside e geralmente convive com os “nativos”.
Tal método pesou muito nas decisões sobre onde os antropólogos conduzem
seus estudos: nós preferimos situações residenciais, seja a residência em uma
aldeia primitiva ou em um hospital moderno.
Até que ponto nossas escolhas de campo podem ser determinadas pela
possibilidade de atuarmos ou não como observadores participantes é algo
que ficou claro para mim quando dois de meus alunos foram a Washington
para estudar um escritório de advocacia que não queria ser estudado (embora
membros individuais estivessem dispostos a cooperar de uma forma limitada). Como eles poderiam observar participativamente, se a empresa não os
deixava entrar pela porta, e se eles não podiam observar participamente, como
poderiam fazer antropologia? Essas questões, certamente, foram levantadas
antes na antropologia e, quando os antropólogos as consideraram suficientemente importantes, superaram os problemas levantados. Servem de exemplo
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os estudos de cultura à distância que surgiram na Segunda Guerra Mundial,
ou o trabalho de Elizabeth Bott (1957) em seu estudo sobre parentesco em
Londres, baseado principalmente em entrevistas presenciais.
O argumento aqui é que há uma mística sobre a observação participante que
tem seu valor, todavia, persiste o fato de que a imagem que o antropólogo de si
mesmo é estilhaçada (FISCHER, 1969) caso ele não possa fazer observação participante, e a maioria dos estudantes geralmente não recebe treinamento nos tipos de
técnicas necessárias para se trabalhar com problemas em ambientes não residenciais, como bancos, seguradoras, agências governamentais, indústrias eletrônicas
e afins. Quantos antropólogos sabem como descobrir quem são os donos de uma
cidade? Se Sol Tax estiver correto ao apontar que os antropólogos não estão trabalhando nos problemas mais relevantes do mundo hoje – como população, poluição e guerra – porque não podem atuar como observadores participantes de tais
problemas em uma comunidade, então, ao reinventar a antropologia, podemos ter
de rever o valor atribuído à observação participante, que nos leva a esquecer da
existência de outros métodos (GUSSOW; TRACY, 1971) que são mais úteis para
alguns dos problemas e situações que gostaríamos de investigar. O uso de documentos pessoais, memórias, pode substituir a participação antropológica em algumas
áreas da cultura cuja compreensão requer longos anos de participação. Um aluno
faz os seguintes comentários sobre a metodologia de campo:
Obviamente, o principal método de pesquisa do antropólogo, a observação participante, não é totalmente aplicável quando se está estudando uma
agência governamental ou instituição de elite e sua interação com várias
pessoas. Uma situação específica pode ser tratada, mas os dados seriam
obtidos via de regra através da observação e não da participação. Podemos
definir participação de duas maneiras. Segundo uma definição, dizer que
o pesquisador é um participante significa que ele é capaz de interagir como um nativo na situação estudada e, portanto, é capaz de usar a si mesmo como um informante. A outra definição considera o participante de
acordo com um status alcançado por alguém de fora, uma vez que ele é
tratado como alguém de dentro. Idealmente, quanto mais íntima a aceitação, menos o participante/observador influenciará a situação que ele está observando e mais próximo ele estará do status de participante. Considerando essas duas definições, o termo “observador/participante” não
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poderia ser aplicável aos tipos de situações que o etnógrafo gostaria de estudar em instituições de grande porte, a menos que ele realmente se tornasse
membro do grupo que está estudando. O termo “observador/participante”
não se aplicaria verdadeiramente às técnicas desses pesquisadores, mesmo
nas situações em que eu estava tentando satisfazer a condição ideal. Ao se
estudar a própria sociedade, especialmente se tratando de uma complexa e altamente especializada e heterogênea, a questão é determinar os
níveis de participação efetiva e o nível de impedimento à participação.
Se o antropólogo vai contribuir para a compreensão das instituições
que, de uma maneira complexa, afetam a vida de muitas pessoas, ele deve adotar uma abordagem metodologicamente eclética (SERBER, 1971,
p. 5-6, tradução nossa).
Entrevistas de diversos tipos (formal/informal, presencial/telefone) foram
usadas pelos meus estudantes. Documentos foram usados (NORTH AMERICAN
CONGRESS ON LATIN AMERICA, 1976) – documentos de relações públicas,
para entender a autoimagem preferida da organização, e documentos internos sobre
a estrutura e estatísticas do trabalho planejado e realizado pela organização – todos
úteis na descoberta de tendências e o que é considerado problemático pelos atores.
É também importante o que Marian Eaton rotulou de “autoanálise” – uma consciência por parte do estudante de como ele, enquanto cientista social, é percebido,
evitado, aculturado e descrito nos encontros velados e não tão velados com informantes e membros de organizações e afins cujo trabalho é lidar com pessoas de
fora. Podemos ter que dar maior prioridade aos valores antropológicos tradicionais, como usar nosso conhecimento sobre os outros como um espelho para nós
mesmos e permitir que as questões nos levem à metodologia (e não o contrário).
Talvez tenhamos de reordenar nosso conceito sobre de antropologia
urgentemente. Certamente, deveriam ser as necessidades da humanidade para
o estudo do homem a liderar o caminho.
NOTAS
Sou muito grata a Elizabeth Colson, Marian Eaton, Dell Hymes e Julio
Ruffini por terem lido e criticado versões anteriores deste artigo. Marian Eaton
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merece reconhecimento especial por ter ajudado na pesquisa e edição destas
páginas. Os estudantes de graduação que foram pioneiros em “estudar os de
cima” merecem reconhecimento por sua visão, suas atitudes perseverantes, seu
prazer em fazer etnografia das situações da vida cotidiana em casa e por tentar
fazê-lo de uma maneira melhor do que a de costume. O físico Arthur Rosenfeld
merece agradecimentos especiais pelo financiamento de dois estudantes de
antropologia em um esforço inicial para estudar os de cima em Washington,
DC, um esforço que levou à formulação de ideias para este artigo.
NOTA DOS TRADUTORES
Agradecemos imensamente à Laura Nader por aceitar nosso pedido de
tradução para a língua portuguesa e pela sua disponibilidade em responder
nossas dúvidas e questões. Somos gratos aos editores, em especial Lucía Eilbaum
e Fabio Reis Mota, por aceitarem a proposta de tradução, e aos colegas antropólogos, que foram consultados pelos editores, por suas considerações em relação
à tradução do título do artigo. Agradecemos a Marcello Lino por sua revisão
atenciosa e comentários sobre o título. Wellington Santos ainda agradece ao
seu orientador, Prof. Felipe Berocan Veiga, e ao Prof. Marco Antonio da Silva
Mello, pela acolhida em seus grupos de pesquisa.
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